sexta-feira, 13 de março de 2026

Bauman e o paradigma: da pós-modernidade a modernidade líquida. José Mauricio de Carvalho

 


No prefácio que Bauman escreveu para Legisladores e Intérpretes (2010 d) há uma explicação importante sobre a evolução do seu conceito fundamental. Para se referir a nossos dias ele usou, durante algum tempo, a expressão pós-modernidade e aos poucos ajustou o termo para modernidade líquida. Não rejeitou o primeiro conceito inicial, mas reconheceu sua insuficiência. Ambos são sinônimos de dias atuais e traduzem a ideia de que estamos num tempo diverso do que vivemos até algumas décadas. Porém, assinalar apenas essa diferenciação oferece pouca informação sobre o que está surgindo no mundo. O que a aurora desses novos dias já deixa ver?

O problema do conceito pós-modernidade é que ele contempla um aspecto puramente negativo, ele marca a diferença dos novos dias, mas não diz nada além disso. O conceito (BAUMAN, 2010 d, p. 11): “nos dizia profusamente que a realidade atual já não era, mas oferecia pouca informação sobre o que estava em seu lugar.” O que ele esperava traduzir era o seguinte (ibidem): “a era da modernidade terminou e estamos, por assim dizer, já no lado oposto, ou pelo menos perto de entrar nele.” E havia uma outra questão não contemplada. Se já se estava numa outra época, ainda nela restavam elementos da modernidade, não era um tempo completamente oposto ao deixado para trás. Pensar numa oposição absoluta (ibidem): “parecia inaceitável e errado, porque, até onde se sabia, éramos modernos por completo; na verdade, mais modernos que nunca; ou seja, voltamos a lâmina afiada da faca modernizadora contra a própria modernidade.” Mesmo sendo uma outra era, havia também um pouco de modernidade, compulsivamente modernos eram os novos dias.

A modernidade sólida, o tempo deixado para trás, além de estabilizar as instituições propunha-se a estruturar fundamentos, padrões e rotinas para que a duração e a segurança fossem alcançadas reduzindo as instabilidades existenciais, que naturalmente permanecem além do planejamento humano. Bauman passou a definir como liquida a nova modernidade, que era diversa da antiga porque nela o que estava em curso era o contrário do que prevaleceu antes. O modelo utilizado para representar as estruturas que se consolidaram na modernidade sólida como forma de controle e disciplina é o projeto panóptico. Bauman mencionou os trabalhos de Michel Foucault que identificou o papel social dessas instituições. Esse modelo apresenta unidades sólidas, com prédios enormes, espaços vigiados, chefias verticais, uma estrutura cara, pois ela (id., p. 17): “requer presença, e engajamento, pelo menos uma confrontação e um cabo-de-guerra permanentes.”

Então se solidificar era o objetivo anterior (id., p. 13): “a perpétua conversão em líquido ou estado permanente de liquidez, é o paradigma para alcançar e compreender os tempos mais recentes – esses tempos em que novas vidas estão sendo escritas.” O processo de desarranjo migrou da vida econômica para a social-política e daí para a pessoal. A desintegração dos laços sociais e pessoais pode parecer um efeito colateral e imprevisto das mudanças econômicas, mas não são. Quanto mais leves, fluídas, escorregadias, evasivas e fugidias são as relações pessoais, melhor o ambiente para a globalização. Ela se beneficia da ausência de barreiras e fronteiras fortes, inclusive nas relações pessoais.

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