sexta-feira, 10 de abril de 2026

SOLUÇÕES SOCIAIS ATUAIS- PROBLEMAS FUTUROS. Selvino Antonio Malfatti

 




Refletindo sobre os principais problemas sociais que afligem o mundo atual, deparei-me assustado, estupefato com um fato: os problemas atuais foram soluções no passado. Comecei a pensar nas favelas, um problemão social atual e no passado uma solução. Nem todos podiam morar no centro, evidente. Deslocaram-se então para periferia. Na época uma solução, atualmente um problema. O êxodo rural. Escasseando a terra para plantar ou morar alguns se deslocaram para as cidades. A solução antiga virou um problema atual. Casais solteiros e elas grávidas foram forçados a casar. Novamente aquilo que acharam como solução virou um problema social, pois logo adiante separação, criando outro problema e forçando soluções. Durante a pandemia da COVID incrementou-se a EAD, atualmente um surto de profissionais mal preperados.

Por isso antes de se aplicar uma solução ao problema deve-se refletir se isto não acarretará outros problemas no futuro e tentar evitá-los. É o caso de alguns problemas atuais.

Nas últimas décadas, as transformações no mundo do trabalho, o avanço da globalização, as mudanças tecnológicas e as políticas implantadas pelas IAs têm gerado novas configurações da pobreza tanto nas cidades quanto no campo. A sociologia contemporânea tem se dedicado a compreender como essas formas de pobreza extrapolam os limites da renda, incorporando dimensões como moradia, o acesso a direitos, exclusão simbólica e ambiental. Quais os possíveis problemas que advirão das soluções atuais?

A pobreza urbana atual está profundamente marcada pela informalidade, pela insegurança habitacional e pela exclusão social. Diferentemente das formas tradicionais de pobreza, caracterizadas pela marginalização completa do sistema produtivo, as novas expressões urbanas da pobreza se inserem em circuitos econômicos informais, como a "uberização" do trabalho. Essas populações compõem a "ralé estrutural", mantida em situação de subalternidade por estruturas históricas de desigualdade. O desafio: como inserir estas populações no sistema produtivo formal? Criação de novos empregos? Por quem? Pelos empreendedores? Com verbas subsidiadas? Pelo governo? Com verbas de impostos? Pelo cenário que se vislumbra as possibilidades são todas problemáticas? Deixar que as “aboboras se acomodem com o tempo”? Buscar soluções pelas políticas públicas? O problema está  na invisibilidade dessas áreas pelos políticos para destinar recursos. A gentrificação? Esta solução valorizaria as áreas e pessoas de recursos se apossam o que expulsa os pobres de regiões centrais em nome da valorização imobiliária.

Não são diferentes no espaço rural, as novas formas de pobreza ligadas à perda de autonomia das comunidades agrícolas e ao avanço do agronegócio. A concentração fundiária, a mecanização da produção e a financeirização da terra provocam o esvaziamento das economias locais e o deslocamento de populações tradicionais A pobreza não se manifesta apenas na renda, mas também na carência de infraestrutura básica, como saneamento, transporte e saúde.

O que fazer para manter as populações rurais no campo? Principalmente os mais jovens? A juventude rural encontra poucos incentivos para permanecer no campo, o que leva ao êxodo rural precoce e à reprodução de ciclos de pobreza intergeracional. Enquanto isso, os que ficam, sobretudo mulheres e idosos, enfrentam dificuldades de acesso a políticas públicas e a mercados de produção. A solução seria dar-lhes condições para que permaneçam no campo. E como? Proporcionar-lhe especialização no trato com o meio rural com cursos de aperfeiçoamento. Quem irá conseguir? Só alguns, pois inevitavelmente se fará uma seleção ou triagem. E os demais? Eles continuarão a alimentar a cadeia da exclusão.

E não é só isso a injustiça ambiental é uma marca da pobreza rural contemporânea. Comunidades quilombolas, indígenas e camponesas sofrem com a degradação ambiental, o uso intensivo de agrotóxicos e os conflitos por terra. Trata-se de uma disputa entre diferentes racionalidades de uso do território: a racionalidade da mercadoria e a da vida. Qual a solução e e de que forma os novos problemas aparecerão?


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Páscoa 2026. José Mauricio de Carvalho

 


A Páscoa é uma festa fundamental para os judeus, eles recordavam a liberdade, denominada Pessach. O dia de lembrar que foram libertos do Egito, país onde estiveram cativos por quase 400 anos. É claro que se a massa de judeus assim celebrava e agradecia a YHWH ou YHVH (Eu sou), o Senhor do céu e da terra pelo alívio da escravidão, aqueles mais espiritualizados iam além ao comemorar a liberdade não só política, mas das prisões terrenas, dos limites que nos fazem menor, das dores que nos prendem à matéria. Libertar-se dos limites e transcender o que se é. Conta o evangelho de Mateus que, como bom judeu, Jesus de Nazaré, foi a Jerusalém com seus discípulos para comemorar a Páscoa.

O evangelho de Mateus relata (26, 17-19) que: 17 No primeiro dia da Festa dos Pães sem Fermento, os discípulos chegaram perto de Jesus e perguntaram: — Onde é que o senhor quer que a gente prepare o jantar da Páscoa para o senhor? 18 Ele respondeu: — Vão até a cidade, procurem certo homem e digam: “O Mestre manda dizer: A minha hora chegou. Os meus discípulos e eu vamos comemorar a Páscoa na sua casa.” 19 Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam o jantar da Páscoa.

Bem antes daquele dia, quando eles nem sonhavam, no capítulo 16, o mestre já lhes anunciara que seria preciso ir a Jerusalém, onde sofreria nas mãos dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos gentios. A ida a Jerusalém contemplava um plano maior, a ampliação do significado da Páscoa, tornando-a não apenas comemoração da libertação política do povo, ou a libertação de alguma circunstância ruim, mas ser a porta de entrada de uma vida plena, uma vida diferente, uma vida superior.

Somente Alguém com a estrutura psicológica perfeita, um homem completo seria capaz de transformar aquela festa, que para Ele era a despedida dessa vida, num sacramento permanente, num ritual que O traria sempre para perto de seus amigos queridos, mesmo quando ele já não estivesse fisicamente presente. De seu coração pleno brotou, naquela noite em Jerusalém, a luz que tocou o pão sem fermento para torná-lo igual a seu corpo e o vinho para ser o seu sangue. E somente um Deus tão maravilhoso podia, na simplicidade de sua despedida da terra, deixar gestos de humildade e amor, com a serenidade, solenidade e profundidade que o ritual pedia. E o impacto foi feito foi tão forte que seus discípulos passaram a repeti-lo nos anos seguintes e a Igreja o faz ainda hoje com igual emoção, devoção, veneração e respeito.

Assim, Ele se despediu e, mesmo sendo tão querido pelos apóstolos, tão essencial para eles, Jesus os preparou para enfrentar o vazio de sua presença. Ele lhes deu uma luz para a difícil tarefa de viver sem seus ensinamentos. Isso porque mesmo sem deixar de estar com cada pessoa que o chama, quando foi elevado ao céu, Ele não mais era visível com seu sorriso bondoso, seu olhar amigo e sua mão milagrosa.

Depois da ceia fantástica, do julgamento imparcial, da morte pavorosa, quando tudo parecia perdido e a vida vazia, quando a noite eterna abateu-se na alma de cada discípulo e nada fazia sentido, Ele apareceu de forma singela a uma de suas amigas para lhe anunciar: Eu estou vivo. Avisem a meus amigos que a morte não me conteve, como eu já havia mostrado que seria, quando tirei Lázaro da tumba e trouxe à vida várias pessoas mortas. A vida que eu vivo é maior que a morte e que estarei com todos os que se reunirem em meu nome até o fim dos tempos. Porque eu estou com YHWH e Ele em mim no amor do Espírito Santo.

Então, quase dois mil anos depois daquela ceia e da passagem para a vida superior, que essa festa seja, para cada um de nós, a oportunidade de experimentar, ainda que de forma pálida, a vida plena que Ele nos oferece.

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