A primeira-ministra da Dinamarca foi a primeira líder política que publicamente admitiu: “A ORDEM MUNDIAL QUE CONHECEMOS ACABOU”, disse Mette Frederiksen a líderes mundiais em Paris e a estudantes de Ciência Política. No ar ficou a pergunta: virá o quê?
Até a internet o mundo político andava bem: a
democracia como fim, através de eleições livres, direitos individuais
respeitados, estado de direito sólido.
Esta democracia surgiu após a invenção da imprensa.
Através de formadores de opinião eram divulgadas as plataformas dos partidos e
os eleitores, com supremos juízes, escolhiam seus governantes. As sociedades ou
países que não se enquadravam neste esquema não pertenciam ao escol das nações
democráticas.
A reviravolta adveio com a internet. Conforme Jürgen Habermas, a divisão dos poderes e as regras jurídicas conseguiram vingar graças à invenção da imprensa. A difusão através de jornais, panfletos e livros fizeram emergir a opinião pública: espaço intermediário entre o Estado e o cidadão. Pela imprensa os “influencers” de elite podiam informar os cidadãos, proporcionar debates e discutir propostas e programas.
Com a chegada da
internet, popularizada ao extremo, deu voz igualitária ao esclarecido e ao
ignorante. Todos podem emitir sua opinião. Conforme Umberto Eco as redes sociaisderamvoz aos ignorantes que foram equiparados a Prêmios Nobels. Já Karl Popper e o filósofo italiano Dario Zntiseri trazem à reflexão a mídia televisiva que se desta pela vulgariade de seus programas. Como consequência a elite formadora
de opinião perdeu a força. Em seu lugar ficou ninguém ou todos, pois cada um se
sente capacitado não só de ter sua própria opinião, mas de ser o influenciador
dos demais. A massa de esclarecidos e não esclarecidos tem sua opinião e forma
influenciadores e influenciados. Os partidos são motivo de chacota e os
candidatos debochados e escarnecidos. A democracia deixou de ser destino, mas
exceção e alvo de atasque. Regimes autoritários a desafiam e apresentam-se como
modelos alternativos. Mas o pior: está corroendo por dentro esvaziando-se,
perdendo legitimidade. Em locais onde o voto não é obrigatório a abstenção
alcança índices de quase 50% de participação. Á era da televisão o antigo
modelo ainda conseguiu sobreviver. À tecnologia digital, porém, o sepultou. Foi
a vez das redes socais que tomaram conta e mandaram tudo para a lixeira. Estas
atingiram a esfera pública e fragmentou-a em microcosmos, fechados e dominados
por lógicas emocionais em vez de críticas. O pior: elas se consideram as
críticas. Os que ousam encará-las passam a ser rotulados de fascistas,
retrógrados e conservadores. A argumentação foi substituída por mensagens
curtas, simples e agressivas. Não se objetiva convencer, mas submeter e
dominar. Quem não aderir é descartado. Na política é o fim do entendimento e
negociação, mas a guerra.
Por fim entra Inteligência Artificial que é a pá de cal
ao respeito. Imagens e textos podem ser gerados ao infinito tanto a favor como
contra às pessoas ou instituições. Já não se consegue mais discernir o que é
informação e manipulação. Neste ambiente como pode vingar a democracia? Como um
cidadão consegue exercer sua liberdade quando foi amputada a confiança
cognitiva? E se juntarmos a ação dos algoritmos que te oferece o medicamento
que agrada e não o benéfico?
Isso nos lembra Leibniz: “virá um tempo em que, em vez de
discutir, diremos: calculemos”. As
controvérsias seriam reduzidas a cálculos. A própria inteligência artificial e
seu algoritmo se encarregam otimizando as decisões. A Câmara municipal de
Gramado (RS) foi a primeira do Brasil a adotar a IA como recurso para decisões
para rotina de trabalhos.
Diante disso a democracia liberal, como foi arquitetada
com a invenção da imprensa e aperfeiçoada nos séculos subsequentes, poderá
sobreviver à comunicação digital de massa? O debate, a discussão, o confronto
respeitoso de ideias sobreviverá ao mudo das redes sociais?