sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

KISS – O BEIJO DA MORTE. Selvino Antonio Malfatti







Ainda sem abrir os lhos para o mundo sente o ímpeto de viver. Sofreguidão na procura do alimento de quem deu a vida. A partir daí a natureza acumula forças, vigor, vida em abundância. O corpo cresce, torna-se belo e tudo é encantador. Os hormônios fazem o sangue ferver de cupidez. Que bela é a vida. Cheia de energia, alegre, sempre precisar de esperança.
Por que os idosos falam de dor? Ressentem-se de decepções? Choram perdas de quê? De vez em quanto se houve falar que alguém está doente. Mas que mal tem? Falam que outro está desenganado. O que é isso? Comentam que fulano morreu. Que importa? Tudo está tão distante, inatingível. Isso é coisa de velho. O jovem está imune. Ele possui a vida que extravasa e inunda o seu redor.
Ah! Foi o velho doente que mora em outra cidade? O avô, bem, descansou o coitado. Por que o pai? Podiam ter durado mais alguns anos. Meu irmão? O problema é que não se cuidou! De repente se dá conta que ela rondou por perto. Mas aí? Mas aí já é tarde. Precisa urgentemente voltar. Mas “la diritta via era smarita”. Além disso, não há mais volta. O tempo, que parecia inesgotável, agora rola impassível, inexorável para Andrômeda.
Mas o jovem? O jovem não morre. Até vinte anos...a vida é eterna. Por que foi quebrada a lógica? Quem permitiu isso? O jovem? A família? Governo? A culpa? Não adiantam culpados. A vida não volta. A morte, sim, se compraz, diante da vítima. Esta desfalece. Antes da abocanhada final vai perdendo pedaços até deixar somente a metade. O corpo formiga, as pernas tremem e a boca endurece.  Partido ao meio sobrou apenas a metade, o corpo. Mas o pior é a perda da metade da alma. Vai junto com a outra parte. A realidade se torna etérea, evanescente, volátil. Levitam os sentimentos sem onde pousarem. Saltita a memória entre o início e o fim. O pensamento não consegue pensar. Ele se deixa levar pela ruptura da partição. Metade se foi. O que fará a outra metade?
Ao estupor sucede a revolta? Por se tirou metade. Talvez fosse preferível não ter sobrado nada, tirado tudo. Metade ficou para perambular inconsolável. A presença de quem se foi distanciando aos poucos, envolta em contemplação, luto, enlevo e revolta. Raiva e ódio. Por quê? Simplesmente não tem explicação. Aos poucos a resignação. Só resignação, nunca aceitação e menos ainda compreensão. Continuar a viver? Por que não partir junto? Mas encontrar onde a outra metade? Agarra-se a uma consolação: cuidou, rezou e chorou. Pelo menos o corpo recebe uma morada digna. A alma, onde estará ela? Às vezes faz alguma visita, mas muito rápida para deixar algumas gotas de bálsamo para a outra metade que ficou.  E então, com saudade exclama: “alma minha gentil, que te partiste tão cedo desta vida descontente, repousa lá no Céu eternamente” até nos unirmos novamente.

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