sexta-feira, 9 de outubro de 2026

WILLIE SOON – BUSCA DE DEUS: MATEMÁTICA, INTELIGÊNCIA, DEUS. Selvino Antonio Malfatti

 



Passados mais de 2 mil anos, desde os gregos até hoje, o homem continua estupefato a comtemplar o universo: tudo está em ordem, cada astro cumpre sua função dentro de leis estabelecidas. Ninguém se adianta, nem se atrasa, nem age por conta própria, nem se rebela. É uma sintonia perfeita entre os astros como os gregos contemplavam do alto da acrópole e diante do mar Egeu. O matemático Pitágoras explicava aos cidadãos as relações do mundo do universo e lhes dizia as razões de sua existência interpretadas à luz da matemática.

- A matemática, lhes dizia, nos faz entender as regularidades, inclusive nos permite antecipar acontecimentos. Sabemos que agora é verão porque podemos calcular a menor distância da terra em relação ao sol. Aquilo que podemos calcular também podemos conhecer.  E vice-versa.

Saltemos para nosso tempo. O matemático e astrofísico, da Universidade de Harvard, Willie Soon, explica que a ordem cósmica sugere uma inteligência por trás daquilo que a matemática constata. Não é uma fórmula cujo resultado é Deus, mas uma pista. Não é uma equação insolúvel, apenas ainda não foi encontrada a incógnita.  Não conseguir demonstrar a existência de Deus, por determinado argumento, não demonstra sua inexistência; tampouco prova que a pergunta esteja mal formulada. É filosofia e nela a formulação e a equação são diferentes. Em filosofia continua aberta à investigação. E nem que se conseguisse a precisão matemática, mesmo assim a interpretação metafísica não seria logicamente demonstrada. Haveria que se considerar outras condições e suas probabilidades.

A filosofia reflete sobre os resultados matemáticos. A questão deve ser direcionada para o fundamento. Por que existem leis às quais o universo está submetido? Por que e qual a realidade racionalmente inteligível? Neste momento saímos da ciência e entramos na filosofia. Esta antecede e pós segue à ciência. Vem antes da ciência e continua depois dela.

Recapitulando, as conquistas filosóficas. Pitágoras, matemático, o universo não era um caos, mas uma ordem cósmica. Platão procurou o fundamento do conhecimento numa realidade inteligível. Aristóteles investigou os princípios do ser e do movimento. Santo Tomás partiu do mundo sensível para perguntar por seu fundamento último. Leibniz, pelo princípio da razão suficiente, perguntou por que existe algo em vez de nada. Cada um, segundo seu método, procurou alcançar uma razão que ultrapassasse a descrição dos fenômenos.

Entretanto, a crítica de Kant exige que reconheçamos os limites desse esforço. Não podemos tratar Deus como um objeto submetido à observação e à medida. A passagem da ordem do universo à existência divina precisa justificar seus pressupostos e enfrentar as objeções que encontra. A força sugestiva de uma ideia é o começo de uma investigação.

Soon não afirma categoricamente a existência de Deus como certa. Faz com maestria de outra forma. A matemática antecipa aspectos da realidade; essa correspondência sugere uma inteligibilidade profunda do universo; Soon vê nela um sinal de Deus. Para ele, é a equação de Dirac: ele relata que a formulação matemática apontou para uma possibilidade física posteriormente reconhecida na descoberta do pósitron. O mesmo aconteceu com em 1916, Einstein mostrou que suas equações da relatividade geral admitiam ondas gravitacionais: perturbações do espaço-tempo que se propagam à velocidade da luz. Quase um século depois, em 2015, o LIGO detectou diretamente essas ondas, produzidas pela fusão de dois buracos negros; a descoberta foi anunciada em 2016. Novamente a matemática é capaz de apresentar uma realidade que existe na realidade. Interpretar essa correspondência como sinal de Deus exige uma justificação filosófica adicional.

Numa entrevista no jornal argentino La Nacion, diz Soon: “Si hay tanto orden, tanta armonía en las matemáticas que rigen el universo, ¿no podría ser eso una señal de un Creador?”

 

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Maria, mãe de Jesus e da Igreja. José Mauricio de Carvalho

 


Desde que a extrema-direita (começou nos Estados Unidos) sequestrou parte das igrejas evangélicas, promoveu o pior que se pode fazer com a mensagem religiosa, aproximou-a do poder do Estado. Vamos adaptar as palavras de Immanuel Kant para tratar desse sequestro: “posso pensar sem dúvida, um político religioso, isto é, um homem que concebe os princípios da sabedoria do Estado de modo tal que possam coincidir com os princípios de uma religião, mas não consigo pensar um religioso político que forja os princípios de uma religião para ser compatível com os seus interesses de político.” Mas deixemos de lado essa perversão, que trouxe religiosos e uma fé para ocupar cargos de um Estado tentando modificar as leis de uma instituição que precisa ser laica para assegurar que todos possam viver sua fé em paz, sem pensar em impô-la aos demais cidadãos.

Quanto à polêmica envolvendo Nossa Senhora da Conceição (com o título de Aparecida) assumida pelos católicos como intercessora diante de Deus pelo povo brasileiro trata-se de outra confusão sem sentido. Ao acolhê-la como intercessora diante de Deus, a fé católica a reconhece como alguém que pode pedir a Deus por nós, o que não a promove em divindade e nem dispensa o encontro do crente direto com Deus (Eu-Deus), apenas abre mais uma estrada até o Altíssimo.

E porque assumir Maria como intercessora? Porque quando estava perto da morte, Jesus disse para sua mãe (Jo. 19,26-27): “mulher eis aí teu filho” (cuide dele como sua mãe) e a João: “eis aí sua mãe” (a acolha, proteja e peça sua ajuda quando a vida te parecer pesada demais). E assim, Jesus nomeou sua mãe, com sua força e sabedoria, para orientar João e aos outros discípulos, ou seja à Igreja nascente. Somente uma mulher da envergadura espiritual de Maria assistiria de pé e sem uma palavra de queixa o sofrimento e a tortura feita a seu filho. Pois então, quando a vida estiver pesada demais, e as dores parecerem te esmagar sendo maiores que podes suportar, lembre-se do exemplo de Maria. Por isso, a série The Chosen captou esse sentido evangélico e colocou na boca de Jesus que a mulher mais forte do mundo estaria com Ele em Jerusalém (ao pé da cruz, para cumprir a vontade do Pai). Assistiu sofrendo o que Jesus permitiu para cumprir a vontade de Deus Pai.

Ao colocar Nossa Senhora como padroeira do Brasil, a Igreja que aqui está apenas obedece a vontade de Jesus: “mulher eis aí os teus filhos”. Ajude-os a entender a vontade de Deus e a seguir até o Reino que Deus preparou para aqueles que quiserem estar ao seu lado (Mt. 25,34) ou (Lc. 25,34).

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A BUSCA DE DEUS – Encontrado na natureza. Selvino Antonio Malfatti

 



Contemplo a paisagem. A água desce entre as pedras, as nuvens atravessam o céu e as folhas se inclinam ao vento. Tudo se move. Tomás me pergunta: o que torna possível esse movimento? Cada coisa que muda recebe de outra a possibilidade de mudar. Se sigo essa pergunta até seu fundamento, chego à ideia de um Primeiro Movente que move sem ser movido. Foi a resposta de Tomás.

Volto os olhos para o rio. A chuva alimenta suas águas; o relevo orienta seu curso; a luz do sol participa do ciclo que as renova. Na natureza, encontro causas ligadas a outras causas. Pergunto então a Tomás: de onde procede, em última instância, o poder de causar? E a resposta: a Causa Primeira depende as demais anteriores.

Observo uma árvore. Ela nasceu, cresceu e um dia deixará de existir. O mesmo vale para os seres que povoam o vale. Tudo o que vejo poderia não estar aqui. Mas, se cada ser depende de outro para existir, onde se encontra o fundamento dessa existência? Tomás me cita o Ser Necessário, que não recebe de outro a razão de seu ser.

A luz do amanhecer revela diferenças. Uma flor é bela, um gesto pode ser bom, uma ação pode ser mais justa que outra. Reconheço graus de beleza, bondade e perfeição nas coisas. Como explicar? pertunto a Tomás. 

- O fundamento dos graus de perfeição indica a Perfeição Suprema. 

Por fim, observo a ordem da paisagem: a água segue seu curso, as plantas se voltam para a luz, as sementes germinam em condições próprias. Seres sem inteligência agem regularmente em direção a seus fins. De onde vem essa orientação? O processo ordenado me conduz à ideia de uma Inteligência que ordena a natureza, conclui Tomás.

Estou diante da paisagem.Tomás me pede que o examine com atenção o movimento, as causas, a existência passageira dos seres, seus graus de perfeição e a ordem natural: qual o fundamento último da realidade que se apresenta aos meus olhos? A resposta que ele dá é Deus.


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Bauman e a liquidez. José Mauricio de Carvalho



Quando se pensa a realidade de nosso tempo há dois conceitos fundamentais: sociedade de massa e liquidez. O primeiro vem do filósofo espanhol Ortega y Gasset, célebre pela publicação de Rebelião das Massas (1930) e o segundo vem do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor do clássico Modernidade líquida (2000). Embora com 70 anos de distância tratam das mudanças sociais e seu impacto na vida das pessoas. Falar de uma sociedade massa e de um homem sem capacidade crítica, infantil e imaturo, ou inculto, como o descreve Ortega ajuda a explicar porque é tão fácil que as redes sociais divulguem o ódio e a violência como coisas banais. Nelas se confunde desrespeito e fake news com liberdade de expressão, grosseira e ignorância com liberdade de ação, destruição dos programas sociais e desrespeito ambiental com metas razoáveis de governo, para não falar das críticas à ciência, à racionalidade e a inteligência em geral, deboche sobre a verdade, coisas impensáveis até algumas décadas. Por outro lado, liquidez exprime o fato de que vivemos um tempo de aceleradas mudanças onde tudo pode acontecer e nada está seguro. A vida muda mesmo, sempre se modificou, mas em nossos dias falamos de uma transformação intensa e profunda da vida, valores, saberes, gostos, amores, instituições, universo do trabalho, etc.

A mistura dos dois conceitos ajuda a entender os nossos dias e nos trazem para perto de uma realidade complexa que se tornou diária nas clínicas de psicoterapia. Psiquiatras, Psicólogos e Filósofos Clínicos recebem pacientes que não sabem como se conduzir nessa nova realidade social, nem viver com o que aprenderam. Ou porque seus valores não foram atualizados, suas crenças estão em discordância das atuais, seu entendimento do mundo já não é vigente, o universo do trabalho já não funciona mais como ele estava acostumado, as relações afetivas tornaram-se extremamente instáveis, superficiais e curtas, longe do amor eterno que sonhavam. Some-se a isso o enfraquecimento de instituições como clubes, família, igrejas, apoio de amigos, familiares e até os Estados Nacionais já não têm mais tanta força. O discurso da meritocracia entregou a cada um a responsabilidade pela condução da própria vida e a responsabilidade por eventuais desvios e fracassos cai no colo do sujeito. É do próprio indivíduo a responsabilidade exclusiva de não viver o que ele espera e não realizar seus planos existenciais. Tudo isso deixa milhões de pessoas mundo afora perdidos e sem saber como viver nesse espaço social. Essa desorientação é vivida dentro dos consultórios com muito sofrimento tanto pelos conflitos internos que as mudanças causaram quanto pela falta de capacidade de conversar com a base social.

Essa realidade foi amplamente analisada a partir da volumosa obra de Zygmunt Bauman. Seus 40 livros oferecem uma visão de todas essas mudanças e os diálogos que ele estabeleceu com notáveis filósofos e psicólogos e nos apresenta sua visão de nossos dias e a melhor forma de lidar com ele. Com uma obra tão extensa e sobre tão amplas e variadas questões, é compreensível que quando ele passou da descrição do que vivemos para sugestões do que devemos fazer e qual o melhor caminho a seguir nesses dias instáveis temos vários reparos a fazer. No livro Zygmunt Bauman e a liquidez, considerações sobre a vida em permanente mudança (Conselheiro Lafaiete, MPR edições, 2026, 862 p.) agora editado apresentamos o essencial das contribuições de Bauman. É um livro essencial para entender e viver este início de século XXI e completa a análise da realidade proposta em Introdução à razão vital de Ortega y Gasset (Londrina: Cefil, 2002) e Ortega e nosso tempo (São Paulo: Filoczar, 2016).

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

BUSCA DE DEUS: SANTO ANSELMO - CRÊR PARA ENTENDER. Selvino Antonio Malffatti

 


Agostinho era de 350 d. C. e Anselmo de 1033. Temos, então, mil anos de diferença, mas irmãos de pensamento. E o progresso foi imenso. Agostinho, baseado em Platão, tinha concluído que pelo conhecimento da Perfeição devia existir Deus. Agostinho vislumbrou Deus na Perfeição. Anselmo conheceu Deus na Perfeição. Agostinho e Anselmo eram como os irmãos. Ambos sentiam a presença de Deus. Anselmo, porém, o conheceu.

O primeiro ficou no conhecimento, o segundo no Ser. Esta descoberta foi tão importante que um filósofo atual, Plantinga,ainda vivo e com 94 anos, baseou a conclusão de sua filosofia sobre a existência de Deus em Anselmo. Diz Plantinga:

"Portanto, se a existência de Deus é mesmo apenas possível, conclui-se que Deus necessariamente existe, e existe em cada mundo possível."

É um argumento lógico-ontológico de Anselmo e ontológico de Plantinga.

Na filosofia de Agostinho, Anselmo desejava encontrar algo ainda mais radical. No Proslogion, escrito por volta de 1077–1078, procura um único argumento que fosse suficiente por si mesmo para conduzir racionalmente à existência de Deus. Surge então o raciocínio ontológico. Diferentemente das provas cosmológicas, que começam pelo movimento, pela causalidade ou pela contingência do mundo. Anselmo não começa olhando para o universo. Seu ponto de partida é o próprio conceito de Deus. Por isso seu argumento é caracterizado como a priori: pretende avançar daquilo que a inteligência necessariamente compreende quando pensa Deus para a afirmação de sua existência.

Anselmo define Deus como “aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado”. Não se trata simplesmente de imaginar um ser extraordinariamente poderoso ao lado de outros seres. Deus é concebido como o ser absolutamente máximo, acima do qual nenhuma realidade superior pode sequer ser pensada. O argumento começa, curiosamente, com o próprio indivíduo que nega Deus, chamado por Anselmo, seguindo o salmo bíblico, de “insensato”. Mesmo aquele que afirma que Deus não existe consegue compreender o significado da expressão “ser do qual nada maior pode ser pensado”. Logo, ao menos enquanto conceito, esse ser encontra-se no intelecto daquele que o pensa.

A partir daí se desenvolve o núcleo do raciocínio. Suponhamos que esse ser exista apenas no pensamento e não na realidade. Nesse caso seria possível pensar outro ser possuidor das mesmas perfeições, mas que, além de existir no pensamento, existisse também realmente. Esse segundo ser seria maior que o primeiro. Teríamos, então, uma contradição: aquilo que foi definido como o ser acima do qual nada maior pode ser pensado admitiria que algo maior fosse pensado. Portanto, conclui Anselmo, o ser do qual nada maior pode ser concebido não pode existir apenas no intelecto; deve existir também na realidade.

 "Sua originalidade encontra-se exatamente aí. Não procura Deus inicialmente fora do pensamento, no movimento do cosmos ou na cadeia das causas, mas examina o que a própria razão afirma quando concebe seriamente aquilo que chama Deus. Se Deus é verdadeiramente o ser absoluto, não pode ser pensado como um existente contingente entre outros existentes. Para Anselmo, pensar adequadamente Deus significa pensá-lo como necessário. Sua demonstração pode ser aceita ou recusada — e efetivamente foi discutida durante nove séculos —, mas colocou uma questão que a filosofia jamais conseguiu simplesmente eliminar: pode a própria ideia de um ser absolutamente perfeito conter razões suficientes para afirmar sua existência? É essa pergunta que conecta o monge medieval do século XI à lógica modal e à filosofia analítica contemporânea".


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

SANTO AGOSTINHO- ENCONTRO DE DEUS. Selvino Anonio Malfatti

 



 Natural da África, Numídia, nasceu em 354, e faleceu em Hipona, 340. Agostinho, antes de se converter, era pagão e professor de retórica no império romano. Ele mesmo se considerou um pecador, convivia como uma comcubina, de nome desconhecido, de apelido Una, da qual teve o filho Adeodato, conforme testemunha no seu livro Confissões. Sua mãe, Mônica, já convertida ao cristianismo antes, orava dia e noite pela sua conversão. Lecionou gramática e retórica em Tagaste, Cartago, Roma e na corte imperial em Milão. Tinha um enorme prestígio como orador no Império Romano.

Do lado de fora da Catedral de Milão ouvia  os sermões do bispo Santo Ambrósio e pouco a pouco ia introjetando nele a fé cristã até convertê-lo ao cristianismo.

Santo gostinho compôs um Regra de monges que serviu de inspiração para várias comunidades, na atual Itália, em 1244, na região da Toscana. Mais tarde um papa unificou a todas com o nome de agostinianos, ou Ordem Eremita de Santo Agostinho.

Só por curiosidade, o atual papa Leão XIV, é dessa ordem dos agostinianos a mesma também de Lutero, o fundador do protestantismo.

Considerado um dos pilares do cristianismo no período do império romano. A grande obra foi aproveitar a filosofia de Platão para demonstrar a fé cristã. Por isso, a filosofia grega perpassa a fé cristã. Pode-se dizer que Agostinho cristianizou a filosofia pagã grega.

Por ter vivido no período romano do cristianismo devia demonstrar a necessidade da presença do cristianismo no império romano. Como o império tinha suas próprias leis, agostinho injetou nelas a fé cristã.

Além da lei humana do império,  a lei dos homens, Agostinho introduz duas categorias de Leis: a Eterna - feita por Des e rege o universo e a Divina, revelada por Deus, conhecida por Revelação. A lei natural - presente na consciência de cada um -indiretamente é a lei divina. A lei humana, ou as leis positivas, deverão estar em conformidade com as outras leis, não podendo contradizê-las.

Em Agostinho, as leis humanas não são criações arbitrárias dos governantes, mas obedecem a todo um universo teológico. Não são também, meras convenções, pois estão dentro de um plano, o da Providência, por isso são morais. Agostinho, portanto, dá continuidade à linha platônica, formulando sobre princípios perfeitos numa sociedade perfeita.

Agostinho tem como fonte de inspiração Platão. Embora pagão, ele se serve dele como instrumento, recheando-o com o conteúdo cristão. O Bem supremo transmuda-se em Agostinho como o Deus pessoal da Bíblia. Fixa-se mais no interior, do que fora dele mundo das ideias. Como Sócrates, do “conhece a ti mesmo”, segue a norma: “Não saias para fora; volta para dentro de ti mesmo; no homem interior habita a verdade.”

Se tudo que é humano, examinando seu interior, percebe que tudo é mutável. Como pode então o homem descobrir o imutável as verdades eternas? Se dá conta que não podem estar nos sentidos, porque os sentidos enganam. Também não podem ser produzidas pela mente humana, porque a inteligência é limitada e mutável. O homem não cria a verdade; ele a descobre. Quando reconhece uma verdade, percebe que ela o supera e até o julga. Não somos nós que julgamos a verdade; é a verdade que julga nossos pensamentos. Disto conclui que deve existir uma verdade superior ao humano. São as verdades eternas, imutáveis só podendo ser descobertas pela Inteligência eterna e imutável. Esta Inteligência é Deus. 

A existência de Deus ele a encontra pelo método dedutivo. O raciocínio de Agostinho é da seguinte maneira: os sentidos são inferiores à razão; a razão é superior aos sentidos; mas a própria razão humana reconhece algo superior a ela: a verdade eterna; portanto, a cima desta razão existe a Verdade imutável; essa Verdade é Deus. Disso decorre que Deus não é uma hipótese da mente humana, mas a condição do conhecimento. Para chegar a tal conclusão raciocina assim: “a mente humana conhece verdades imutáveis, como princípios lógicos e matemáticos. A mente humana é mutável e finita; portanto, não pode ser a fonte última dessas verdades eternas. Deve existir uma realidade superior à mente, eterna e imutável, que fundamente a verdade. Essa Verdade suprema e eterna é Deus”[1].


·         [1] GILSON, Etienne. Introdução ao estudo de Santo Agostinho. Trad. de Cristiane Negreiros Abbud Ayoub. São Paulo: Paulus, 2006.

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

ARISTÓTELES - o Primeiro Motor Imóvel. Selvino Antonio Malfatti

 



O fundamento do pensamento platônico é que a realidade sensível não possui consistência que a torne possível de explicar. O que os sentidos percebem fogem da consistência, pois são corruptíveis de se degradam. Com isso o que se consegue captar dos seres é nada mais que uma realidade fugaz, sem subsistência. Que hoje é belo, amanhã não é mais, o que é justo transforma-se em injusto. O mundo mutável é impossível para o conhecimento verdadeiro. Por isso, necessariamente deve existir outro mundo, o verdadeiro, o mundo das ideias verdadeiras que abriga a verdade e o Bem.

Para Aristóteles, a realidade que nos cerca encontra-se em permanente movimento e transformação. As coisas nascem, desenvolvem-se, modificam-se e perecem. Essa mudança somente pode ser compreendida pela distinção entre potência e ato. Potência é aquilo que um ser pode vir a ser; ato é a realização efetiva dessa possibilidade. A semente é potencialmente árvore; quando se desenvolve, realiza progressivamente aquilo que já possuía como possibilidade.

Essa explicação está ligada à doutrina da matéria e forma. A matéria representa aquilo de que uma coisa é constituída, enquanto a forma determina aquilo que ela é. Cada ser tende a realizar sua forma própria e, desse modo, alcançar a perfeição correspondente à sua natureza. A mudança não ocorre ao acaso: existe nos seres uma orientação para determinada realização ou finalidade.

Entretanto, aquilo que está apenas em potência não pode, por si mesmo, passar ao ato. Para que uma potência se atualize, é necessário algo que já esteja em ato. Aquilo que está frio, por exemplo, torna-se quente pela ação de alguma coisa que já possui calor. Assim, todo movimento pressupõe algo que move, e aquilo que move também pode ter sido movido por outro.

Aristóteles percebe então que não se pode explicar o movimento do universo recorrendo indefinidamente a uma sucessão de movidos. Se tudo que move fosse igualmente movido por outro, permaneceria sem explicação a própria existência do movimento. Torna-se necessário admitir um princípio que mova sem ser movido, isto é, um Primeiro Motor Imóvel ou Deus. 

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