segunda-feira, 6 de abril de 2026

Páscoa 2026. José Mauricio de Carvalho

 


A Páscoa é uma festa fundamental para os judeus, eles recordavam a liberdade, denominada Pessach. O dia de lembrar que foram libertos do Egito, país onde estiveram cativos por quase 400 anos. É claro que se a massa de judeus assim celebrava e agradecia a YHWH ou YHVH (Eu sou), o Senhor do céu e da terra pelo alívio da escravidão, aqueles mais espiritualizados iam além ao comemorar a liberdade não só política, mas das prisões terrenas, dos limites que nos fazem menor, das dores que nos prendem à matéria. Libertar-se dos limites e transcender o que se é. Conta o evangelho de Mateus que, como bom judeu, Jesus de Nazaré, foi a Jerusalém com seus discípulos para comemorar a Páscoa.

O evangelho de Mateus relata (26, 17-19) que: 17 No primeiro dia da Festa dos Pães sem Fermento, os discípulos chegaram perto de Jesus e perguntaram: — Onde é que o senhor quer que a gente prepare o jantar da Páscoa para o senhor? 18 Ele respondeu: — Vão até a cidade, procurem certo homem e digam: “O Mestre manda dizer: A minha hora chegou. Os meus discípulos e eu vamos comemorar a Páscoa na sua casa.” 19 Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam o jantar da Páscoa.

Bem antes daquele dia, quando eles nem sonhavam, no capítulo 16, o mestre já lhes anunciara que seria preciso ir a Jerusalém, onde sofreria nas mãos dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos gentios. A ida a Jerusalém contemplava um plano maior, a ampliação do significado da Páscoa, tornando-a não apenas comemoração da libertação política do povo, ou a libertação de alguma circunstância ruim, mas ser a porta de entrada de uma vida plena, uma vida diferente, uma vida superior.

Somente Alguém com a estrutura psicológica perfeita, um homem completo seria capaz de transformar aquela festa, que para Ele era a despedida dessa vida, num sacramento permanente, num ritual que O traria sempre para perto de seus amigos queridos, mesmo quando ele já não estivesse fisicamente presente. De seu coração pleno brotou, naquela noite em Jerusalém, a luz que tocou o pão sem fermento para torná-lo igual a seu corpo e o vinho para ser o seu sangue. E somente um Deus tão maravilhoso podia, na simplicidade de sua despedida da terra, deixar gestos de humildade e amor, com a serenidade, solenidade e profundidade que o ritual pedia. E o impacto foi feito foi tão forte que seus discípulos passaram a repeti-lo nos anos seguintes e a Igreja o faz ainda hoje com igual emoção, devoção, veneração e respeito.

Assim, Ele se despediu e, mesmo sendo tão querido pelos apóstolos, tão essencial para eles, Jesus os preparou para enfrentar o vazio de sua presença. Ele lhes deu uma luz para a difícil tarefa de viver sem seus ensinamentos. Isso porque mesmo sem deixar de estar com cada pessoa que o chama, quando foi elevado ao céu, Ele não mais era visível com seu sorriso bondoso, seu olhar amigo e sua mão milagrosa.

Depois da ceia fantástica, do julgamento imparcial, da morte pavorosa, quando tudo parecia perdido e a vida vazia, quando a noite eterna abateu-se na alma de cada discípulo e nada fazia sentido, Ele apareceu de forma singela a uma de suas amigas para lhe anunciar: Eu estou vivo. Avisem a meus amigos que a morte não me conteve, como eu já havia mostrado que seria, quando tirei Lázaro da tumba e trouxe à vida várias pessoas mortas. A vida que eu vivo é maior que a morte e que estarei com todos os que se reunirem em meu nome até o fim dos tempos. Porque eu estou com YHWH e Ele em mim no amor do Espírito Santo.

Então, quase dois mil anos depois daquela ceia e da passagem para a vida superior, que essa festa seja, para cada um de nós, a oportunidade de experimentar, ainda que de forma pálida, a vida plena que Ele nos oferece.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

CORRERAM AO SEPULCRO. Selvino Antonio Malfatti

 



Era cedo. Ainda escuro. O mundo parecia suspenso entre a dor e a esperança.

Madalena caminhava apressada, inquieta. Cada passo batia um aperto no coração. Queria apenas cuidar do corpo de Jesus mais uma vez… um último gesto de amor, de gratidão, de despedida.
Mas ao chegar… algo quebrou dentro dela.

O túmulo estava aberto.

Um frio percorreu seu corpo.
“Não… não pode ser…”

Ela não entrou. Não teve coragem. Sua mente disparou antes que o coração pudesse compreender.
— Levaram Ele… roubaram o meu Senhor…

O medo a dominou. Não pensou, não refletiu — apenas correu. Corria como quem tenta fugir da própria dor. Ofegante, desesperada, foi até Pedro e João.


Pedro ouviu as palavras de Madalena e sentiu o peso delas cair sobre sua alma cansada.
“Roubaram…”

Algo dentro dele doeu profundamente.
Já não bastava a culpa que carregava? Já não bastava ter negado o Mestre?

Mesmo assim, levantou-se.
E correu.

Seus passos eram pesados, não apenas pela idade, mas pelo coração carregado. Enquanto corria, sua mente lutava:
“E se for verdade? E se nem o corpo restou? O que mais ainda nos será tirado?”

Mas havia algo mais… uma centelha, quase imperceptível:
“E se não for isso? E se houver algo que ainda não compreendemos?”


João correu ao lado de Pedro — ou melhor, à frente dele.
Seus passos eram leves, movidos por algo mais forte que o medo: o amor.

Enquanto corria, pensamentos se misturavam dentro dele:
“Madalena pode ter se enganado… talvez estivesse escuro… talvez não tenha visto direito…”

Mas, no fundo… havia outra voz, silenciosa e firme:
“Ele disse… Ele prometeu…”

O coração de João batia acelerado — não apenas pelo esforço da corrida, mas por uma esperança que começava a nascer, ainda frágil, mas viva.

“E se Ele estiver vivo? E se tudo isso fizer sentido agora?”


João chegou primeiro. Parou diante do sepulcro aberto.
O silêncio era profundo.

Olhou para dentro… e hesitou.

Pedro chegou logo depois, ofegante, marcado pelo cansaço e pela vida. Sem pensar muito, entrou.

E então… o inesperado.

Os panos estavam ali. Dobrados. Em ordem.
Não havia pressa. Não havia violência. Nada de roubo.

Pedro ficou em silêncio.

Algo começou a mudar dentro dele.
A dor não desapareceu… mas começou a dar lugar a um mistério maior.

João então entrou.

E ao ver… sentiu.

Não era apenas compreender. Era saber.
Uma certeza que não vinha dos olhos, mas do coração:

“Ele vive.”


Madalena, ainda do lado de fora, chorava.
Seu mundo ainda estava em ruínas.
— Levaram o meu Senhor… e não sei onde o colocaram…

Sua dor era real. Sua perda ainda era presente.
Ela ainda não via o que os outros começavam a perceber.


Pedro levantou-se lentamente.
Seu olhar já não era o mesmo. A dúvida se desfazia… algo novo nascia.

João permanecia em silêncio, tomado por uma paz estranha, quase impossível naquele momento.

Os dois se olharam.
E sem dizer muito, entenderam.

A esperança agora não era mais suposição.

Era certeza.


Pedro respirou fundo, como quem decide recomeçar.

— Vamos… precisamos contar aos outros.

João assentiu, com o coração ardendo.

Agora não corriam mais por medo.
Corriam para a vida.

E dentro deles ecoava, cada vez mais forte:

Jesus ressuscitou. Aleluia

sexta-feira, 27 de março de 2026

Feminicídio em três atos. José Mauricio de Carvalho



Uma pesquisa no Brasil sobre o feminicídio mostra números terríveis e crescentes. Uma chaga social que merece o repúdio da sociedade. De 2024 para o ano seguinte os números subiram de 1492 para 1568 feminicídio e as tentativas cresceram de 5150 para 6904. Como avaliar esse fenômeno? Pretendo considerá-lo em três atos.

O primeiro ato é a mudança dos valores resultante da crise de cultura que estamos passando. O pano de fundo é um mundo globalizado em que tudo muda e nada está garantido, descrito pelo sociólogo Zygmunt Bauman como tempo líquido. No livro Vida líquida esse assunto foi examinado e também em Globalização; as consequências humanas e em outras tantas obras de Bauman foi repetido. Vida líquida nos transporta para um mundo onde tudo muda todo o tempo e onde nada parece seguro. Os valores são apenas uma parte da cultura sob pressão, mesmo quando defendemos que os valores possuem uma raiz permanente, ele demanda atualização e novas justificativas. A falta de debate ou reconhecimento do problema apenas o agrava. As mudanças na cultura afetam a experiência ou vivência de valores que até pouco eram estruturantes, mas que recentemente tiveram o reconhecimento enfraquecido. A dignidade da pessoa e a racionalidade estão entre esses valores que precisam ser revitalizados e ensinados. Esse é o principal legado da Aufkärung e ele continua necessário, isto é, permanece, como disse o filósofo Emanuel Kant (1984): “um grande bem que o gênero humano deve extrair da vida” (p. 38). Sem essa compreensão de que a vida humana é o maior valor que temos o homicídio ganha força e a misoginia e feminicídio são parte disso.

Parte desse processo são também as mudanças que afetam os relacionamentos. Eles perderam força e solidez contra tudo o que até pouco se vivia. Bauman descreveu amplamente o fenômeno em Amor Líquido, depois de o considerar em Modernidade Líquida e no último capítulo de Vida a Crédito. No primeiro as características fundamentais dos novos dias já aparecem e somos apresentados a um fenômeno que significa falta de garantia, insegurança e incerteza. Assim, relações começam e terminam com uma rapidez enorme deixando sem chão e sem rumo pessoas que não entendem o que está ocorrendo. É preciso educar essas pessoas que lidar com essa nova realidade.

O segundo ato é o desprestígio das ciências humanas na modernidade líquida inclusive a Filosofia e seu legado para o ocidente: a valorização da razão para encontrar um fundamento e referências para a vida. A Filosofia ensina a valorizar a razão e a própria ciência moderna, justificada por submeter à experiência verificável suas leis. A Filosofia e a Ciência Moderna ensinaram a não tomar por absolutos a experiência pessoal não objetivada, uma vez que nossa capacidade de traduzir o real é incompleta. É o esforço racional que justifica valores como a dignidade da pessoa. A dignidade não deixou de ser valor, mas com o desprestígio das humanidades teve desidratado seu fundamento racional. Assim teve reconhecimento dificultado num mundo líquido e globalizado, que é um lugar de contínuas mudanças, um espaço amplo onde não há ponto de parada para respirar. Não só os valores deixaram de ser considerados, quase tudo no universo da cultura o foi. Essas mudanças deixaram de lado as considerações sobre a realidade definitiva do amor.

O terceiro ato é uma sociedade com características patriarcais que não fez uma autoavaliação dos seus erros e das mudanças necessárias. Uma obra que aborda de forma profunda a história social, racial e cultural do Brasil durante quase todo o período colonial mostra como era a vida numa sociedade patriarcal e escravocrata. O livro de Gilberto Freyre intitulado Casa-Grande & Senzala, faz referência à divisão da sociedade colonial brasileira entre a “casa-grande”, a casa principal dos senhores de engenho e seus descendentes, e a “senzala”, como habitações dos escravos africanos. Essa divisão espacial descrevia hierarquias sociais rígidas e raciais que caracterizaram o Brasil colonial, permitindo entender como se organizou a sociedade patriarcal durante muitos séculos. A mudança dessa realidade não é simples e às vezes permanece inconsciente em muitos, mesmo depois da realidade social haver mudado internamente muitos permanecem sendo coronéis de engenho, racistas e machistas, que é a versão rural do macho alfa.


sexta-feira, 20 de março de 2026

VICTOR VICTUS EST. Selvino Antonio Malfatti

 



Na vasta produção intelectual de um dos mais destacados pensadores do século XX,  Jürgen Habermas, destacaremos alguns aspectos. Apenas como notícia ou informação sem pretensão alguma de uma análise mais aprofundada.

Algumas vezes os vencedores na política das arnas foram vencidos pelapoítica da cultura. Aconteceu com os romanos e gregos na antiguidade bem como com os aliados e alemães na 2ª Guerra Mundial. Nesta, os aliados derrotaram um totalitarismo, mas assimilaram boa parte do seu pensamento filosófico e sociológico deste país. Na verdade, a Alemanha foi um verdadeiro celeiro pensadores na segunda metade do século XX. A maioria se esforçou em entender porque sociedades desenvolvidas e racionalmente avançadas reincidiram na barbárie e na irracionalidade da guerra. E a culpa recaiu no período anterior, no Iluminismo, Um dos mais destacados foi Jürgen Habermas, que em parte aceitou, mas com as devidas ponderações.

Jürgen Habermas (1929-2026, 96 anos), num primeiro momento de sua trajetória intelectual filia-se a Escola de Frankfurt, crítica do iluminismo. As teses centrais desta escola foram: 1. Alienação, através da padronização da arte, a indústria cultural. 2. Dominação, pela racionalidade instrumental, resultado pela eficiência. 3. Reificação, a transformação dos sujeitos em mercadorias, coisas. 4. Crítica, análise de regimes políticos, fascismo e autoritarismo.

Com efeito, o professor emérito da PUC/RS, Carlos Alberto Molinaro, entende que a referida escola com seus líderes Theodor Adorno e Max Horkheimer constataram que o iluminismo causou a hecatombe da civilização atual. Concluiram que a racionalidade levou a considerar a natureza e a sociedade objetos que se deveriam submeter o que levou à escravidão. O intuito de querer libertar através da força teve um efeito contrário, o totalitarismo fascista e nazista, causa de toda opressão.

Habermas herdeiro, mas crítico da Escola de Frankfurt, aplicou-lhe a crítica, não a marxista, mas a transcendental, e percebe o ingrediente da racionalidade no iluminismo opondo-se ao pensamento de seus antecessores de viés de dominação e barbárie considerando isto não o normal, mas uma patologia. Na sua reflexão filosófica desenvolveu a teoria da ação comunicativa propondo que a racionalidade emerge da livre discussão até chegar ao consenso. Em seus debates trouxe à luz ética e direito, mas particularmente o conceito de esfera pública, fundamental para a democracia representativa.

Conforme ele em “Mudança Estrutural da Esfera Pública” a esfera pública forma-se quando os cidadãos através de jornais, associações, parlamento discutem racional e livremente questões de interesses de todos.  Esta passa a influenciar nas decisões políticas dos órgãos de governo. A participação livre dos cidadãos garante a democracia.[i]

Por isso, é pela intervenção dos cidadãos livres e não pela força que advirá a liberdade. Mas quê liberdade? A kantiana em parte quando institui o imperativo categórico da ação individual poder tornar-se regra universal. Habermas vê o outro, diferente do mesmo que é o indivíduo. E por isso é dialogando com ele que se institui a liberdade através do consenso da ideia concordada se não por todos, ao menos pela maioria, a opinião pública.[ii

Da vasta produção intelectual a crítica seliciona as seguintes obras:

Mudança Estrutural da Esfera Pública" (1962), "Conhecimento e Interesse" (1968), "Técnica e Ciência como 'Ideologia'" (1968), "Teoria da Ação Comunicativa" (1981) — sua magnum opus —, "O Discurso Filosófico da Modernidade" (1985), "Direito e Democracia: Entre Facticidade e Validade" (1992) e "A Inclusão do Outro" (1996).(Estadão)


[i]  "Só à luz da esfera pública é que aquilo que é consegue aparecer; tudo se torna visível a todos. Na conversação dos cidadãos entre si é que as coisas se verbalizam e se configuram.” (J. Habermas).

[ii] “A validade de uma norma depende de poder encontrar o assentimento de todos os participantes de um discurso prático, enquanto participantes de um discurso racional.”
(Jürgen Habermas, Facticidade e Validade (Faktizität und Geltung)


sexta-feira, 13 de março de 2026

Bauman e o paradigma: da pós-modernidade a modernidade líquida. José Mauricio de Carvalho

 


No prefácio que Bauman escreveu para Legisladores e Intérpretes (2010 d) há uma explicação importante sobre a evolução do seu conceito fundamental. Para se referir a nossos dias ele usou, durante algum tempo, a expressão pós-modernidade e aos poucos ajustou o termo para modernidade líquida. Não rejeitou o primeiro conceito inicial, mas reconheceu sua insuficiência. Ambos são sinônimos de dias atuais e traduzem a ideia de que estamos num tempo diverso do que vivemos até algumas décadas. Porém, assinalar apenas essa diferenciação oferece pouca informação sobre o que está surgindo no mundo. O que a aurora desses novos dias já deixa ver?

O problema do conceito pós-modernidade é que ele contempla um aspecto puramente negativo, ele marca a diferença dos novos dias, mas não diz nada além disso. O conceito (BAUMAN, 2010 d, p. 11): “nos dizia profusamente que a realidade atual já não era, mas oferecia pouca informação sobre o que estava em seu lugar.” O que ele esperava traduzir era o seguinte (ibidem): “a era da modernidade terminou e estamos, por assim dizer, já no lado oposto, ou pelo menos perto de entrar nele.” E havia uma outra questão não contemplada. Se já se estava numa outra época, ainda nela restavam elementos da modernidade, não era um tempo completamente oposto ao deixado para trás. Pensar numa oposição absoluta (ibidem): “parecia inaceitável e errado, porque, até onde se sabia, éramos modernos por completo; na verdade, mais modernos que nunca; ou seja, voltamos a lâmina afiada da faca modernizadora contra a própria modernidade.” Mesmo sendo uma outra era, havia também um pouco de modernidade, compulsivamente modernos eram os novos dias.

A modernidade sólida, o tempo deixado para trás, além de estabilizar as instituições propunha-se a estruturar fundamentos, padrões e rotinas para que a duração e a segurança fossem alcançadas reduzindo as instabilidades existenciais, que naturalmente permanecem além do planejamento humano. Bauman passou a definir como liquida a nova modernidade, que era diversa da antiga porque nela o que estava em curso era o contrário do que prevaleceu antes. O modelo utilizado para representar as estruturas que se consolidaram na modernidade sólida como forma de controle e disciplina é o projeto panóptico. Bauman mencionou os trabalhos de Michel Foucault que identificou o papel social dessas instituições. Esse modelo apresenta unidades sólidas, com prédios enormes, espaços vigiados, chefias verticais, uma estrutura cara, pois ela (id., p. 17): “requer presença, e engajamento, pelo menos uma confrontação e um cabo-de-guerra permanentes.”

Então se solidificar era o objetivo anterior (id., p. 13): “a perpétua conversão em líquido ou estado permanente de liquidez, é o paradigma para alcançar e compreender os tempos mais recentes – esses tempos em que novas vidas estão sendo escritas.” O processo de desarranjo migrou da vida econômica para a social-política e daí para a pessoal. A desintegração dos laços sociais e pessoais pode parecer um efeito colateral e imprevisto das mudanças econômicas, mas não são. Quanto mais leves, fluídas, escorregadias, evasivas e fugidias são as relações pessoais, melhor o ambiente para a globalização. Ela se beneficia da ausência de barreiras e fronteiras fortes, inclusive nas relações pessoais.

sexta-feira, 6 de março de 2026

ANTONINO ZICHICHI- PENSADOR DA RAZÃO E FÉ. Selvino Antonio Malfatti.

  



Compatibilidade entre fé e ciência é possível? Pode um cientista crer em Deus? Alguém que se dedica à ciência pode ter fé num ente superior? Estas questões fizeram parte da vida de Antonino Zichichi.

A vida científica de Zichichi teve como maior contribuição para a ciência a descoberta da antimatéria.

Viveu entre 1929 a 2026. Nasceu em Trapani, Sicília, Itália. Graduou-se pela Universidade de Palermo em Física. Como pesquisador iniciou em FERMILAB (Chicago) e no CERN (Genebra).

Contribuições para a ciência: Antimatéria, Física de Partículas, Invenção de Multigap Resistive Plate Chambers (MRPCs)- medição do tempo de voo.

Quanto à fé Zichichi causou polêmica por defender a compatibilidade entre ciência e fé. O tema não é novo, ao contrário acompanha o debate ao longo dos 2 mil anos da era cristã. O ponto alto ocorreu no século XVII com Galileu Galilei que só não foi executado pela Inquisição por retratar-se sutilmente abrandando os termos em carta enviada à Inquisição como, por exemplo, em vez de “falsos”, empregou “não conforme a verdade”.

O debate sobre ciência e fé polarizou-se entre os que defendem que ciência e fé são opostas e, por isso, inconciliáveis. No entanto, há uma tradição fortemente alicerçada de que pode haver não só compatibilidade entre ambas, como uma possível colaboração vantajosa entre a investigação científica e a reflexão religiosa. Entre os últimos destaca-se Antonino Zichichi que tinha na ciência uma via lógica para defender o criacionismo. As leis da natureza não são aleatórias, mas obedecem à lógica e, portanto, são racionais. O universo desde as partículas não é caótico, e sim estruturado matematicamente apontando para uma ordem. Isso leva a uma reflexão filosófica. Onde a ciência pára, a filosofia continua.

Na mesma trilha podemos citar o geneticista Francis Collins, cristão professo, estudioso do genoma humano. Pensa que a investigação científica e a reflexão religiosa, respondem a questões distintas, mas ao mesmo tempo complementares. Ciência busca explicar o mundo natural, a fé procura entender o sentido, o valor e a finalidade deste mesmo mundo natural. Uma tem metodologia científica e outra abordagem.

No domínio da física destaca-se o cosmólogo George Lemaître, sacerdote, que propõe a teoria do átomo inicial, precursor do Big Band. Não se atrelou à cosmologia, mas na distinção entre o domínio científico e teológico. Para ele a autonomia seria a condição para o diálogo.

Outro físico é John Polkinghorne, estudioso das partículas, torna-se teólogo anglicano. Sustenta que tanto a ciência como a teologia buscam a verdade, mas com métodos diferentes. A racionalidade do cosmos e a capacidade humana para compreendê-la são dados que requerem interpretação filosófica mais ampla.

O que se constata em comum nesses pensadores não é a quem cabe a primazia, mas a clareza das metodologias. A ciência busca a verdade através da investigação e a fé través da reflexão. Todos rejeitam tanto o fundamentalismo filosófico-teológico e o cientificismo da mensuração. A fé se vale da ciência e esta da reflexão filosófica.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O medo e o esvaziamento de propostas para uma sociedade justa. José Mauricio de Carvalho

 



Em Indícios da pós-modernidade (2023) Bauman avaliou um fato que mudou a vida da humanidade no final do século passado: o fim da União Soviética. Aquele acontecimento antecipou, na prática, o fim do século XX, ou da forma como ele se desenrolou, acelerando algumas mudanças que começavam a acontecer. Com o acontecido se perdeu a comparação entre a forma de vida ocidental, liberal e democrática, e o modo de vida das nações orientais, comunista e autoritária.

Houveram grupos que se perderam de início nesse novo mundo, a burocracia da guerra que pautava o desenvolvimento armamentista no medo que um bloco tinha do outro. Essa burocracia usava o medo da guerra e dominação estrangeira para controlar (BAUMAN, 2023, p. 262): “e extrair seu sustento da maior indústria de armas que existiu em qualquer tempo de paz da história.” Não era preciso que houvesse guerra para continuar a produzir armas, mas era preciso que houvesse medo.

Houve também um descaminho no universo intelectual, de um lado inúmeros departamentos e institutos de pesquisa que se dedicavam a conhecer e avaliar a vida dos habitantes do leste, ficaram sem objeto. E um impacto ainda mais profundo, o fim do comunismo colocou em dúvida as propostas de uma sociedade mais justa, mesmo no universo das sociedades livres. Setores à direita do espectro político passaram a considerar o regime da liberdade mercado livre como uma forma perfeita de vida. Bauman observou de forma exata (id., p. 264): “que mesmo que tecnicamente mais viável, ela pode ainda não ser totalmente impecável, nem a mais justa das ordens concebíveis; que pode estar urgentemente precisando de uma revisão e melhorias.” O problema é que o fim do comunismo real minou as propostas de uma sociedade menos injusta.

O primeiro problema que surgiu dessa interpretação é que os estados totalitários não eram apenas o comunista. Há setores à direita claramente favoráveis a alternativas totalitárias e o mal maior é o totalitarismo, quer de esquerda, quer de direita. Daí o obvio (id., 265): “sugerir que a utopia comunista foi o único vírus responsável pelas aflições totalitárias seria propagar uma ilusão perigosa, que é tanto tecnicamente incapacitante quanto politicamente desarmante – para as futuras oportunidades da democracia, um erro caro, talvez até letal.”

A questão de fundo é que muito do que se procurava no comunismo era parte do sonho de segurança da modernidade, que também estava presente, mesmo que de outra forma, no modo de vida ocidental. E a fluidez do mundo pós-moderno diluiu o sonho moderno, tanto o que se consolidou no comunismo, como o que havia na própria sociedade ocidental. Isso significa um problema complicado por que o ocidente sempre soube assumir suas crises e dificuldades como desafios para superar e seguir adiante na consolidação dos valores da pessoa humana. É claro que esse historicismo axiológico não se encontra em Bauman, mas parece uma alternativa coerente para superar os problemas que ele apontou.

O problema do ocidente hoje é que, ao contrário de outros momentos da história (id., p. 271): “ele não tem inimigos eficazes nem internos, nem bárbaros batendo em seus portões, apenas aduladores e imitadores.” Daí quem se beneficia desse estado de coisas trabalha para considerá-lo perfeito e eterno. E o estado do bem-estar social, que tinha seus méritos ficou a parte. O trabalho intelectual, a preservação e aprofundamento de aspectos da cultura vindos da modernidade foi deixado de lado e acabou sugerindo uma crise nas universidades.

Pois bem, ficam os intelectuais desafiados a encontrar repostas para o futuro da humanidade que estejam fora do comunismo, mas que não se restrinjam a sugestão de privatização da responsabilidade pelo futuro do cidadão. Não há respostas fáceis e prontas. Alerta Bauman precisamente (id., p. 274): “a crítica da liberdade apenas de mercado pode levar à destruição da liberdade como tal.” Isso porque já está claro (id., p. 275): “que a liberdade confinada à escolha do consumidor é claramente inadequada para a execução das tarefas de vida que confrontam uma individualidade privatizada (por exemplo, para a construção da identidade).” Um tal ambiente é um desafio, ele exige uma análise precisa do que está acontecendo para buscar alternativas a uma vida boa e decente, embora a crítica para tanto não seja simples. 

As críticas de Bauman à sociedade de consumo, os perigos que ele enunciou, mostram a extensão do desafio de reconstruir o universo intelectual com alternativas que não repitam as que vieram da modernidade sólida. Por outro lado, que não se pode acreditar que a sociedade de consumo e de massa atual, hedonista e consumista, tenha as repostas mais exatas para os dilemas humanos. Para nós, uma alternativa possível está no desenvolvimento do historicismo axiológico tal como o concebeu Miguel Reale, mas completado pelo que a filosofia atual identificou ser necessário para repensar a subjetividade moderna. E como parte desse processo intelectual parece necessário a reconstrução de um pensamento político de centro democrático, mais à direita e mais à esquerda, não importa. Um centro democrático é uma alternativa mais razoável que a polarização entre direita e esquerda atualmente alimentada pela radicalização da direita. Isso porque a esquerda ficou com pouca munição com o fim do comunismo e foi forçada a se aproximar do centro. Algo assim precisa vir da direita.

 

 

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