sexta-feira, 31 de julho de 2026

II- ONDE ENCONTRAR DEUS? Selvino Antonio Malfatti

 


Os primeiros pensadores, mormente os gregos, contemplaram o cosmos e tiraram conclusões sobre si mesmos e o que os rodeia. Sobre universo, concluíram que  não pode estar vazio. Há algo misterioso no universo. O que contém não é inacessível, mas esconde uma inegável sua presença. Sobre si, que cada um continha o todo.

Perguntaram sobre o enigma do universo, pois se deram conta que havia uma um espaço preenchido, mas não explicado. Não chegaram propriamente à pergunta teológica. Os próprios deuses não eram a resposta do mistério do universo, mas parte dele. O universo, por sua vez, respondia plenamente à lógica da inteligibilidade. Isto lhes causava estupor que eles o denominaram de thaumázein. Por que o universo é desse jeito? Por que tem algo e não nada? E por que é belo, harmonioso e agrada ver? É um cosmos, racional e regrado.

Quem o regula? Quem o torna sinfônico?

Apareceram vários opinantes que carregavam a certeza. O filósofo de Mileto, Tales, chegou ao princípio da água, Anaxímenes do ar, Heráclito do fogo. Este último concluiu também que existia o princípio do logos, da razão e Anaximandro do apeiron princípio fonte das derivações. Finalmente Parmênides chegou ao Ser princípio eterno e imutável. Estes pensadores não partiram de Deus para explicar o universo. Talvez se preocupassem com o universo para explicar Deus.

No aprofundamento da solução surgem outras com caracteres mais insinuantes como de universo visto pela matemática. Por ela Pitágoras estendeu o conhecimento para o universo e o compreendeu como uma estrutura racional que aponta para mais além.

Contra o pensamento dos sofistas se insurge Sócrates, (399-269 a.C.), precisamente na questão das generalizações. Para ele os conceitos tinham valor universal e, portanto, era possível o conhecimento, bem como, em moral, propor-se leis gerais de conduta. Ao relativismo científico-moral, opõe-lhe a certeza. Isto foi possível graças ao avanço introduzido na questão dos conceitos: são gerais, abstratos e necessários, enquanto as coisas, são particulares, sensíveis e contingentes. O homem, através de sua razão, capta o dado natural e o formula em conceitos. Há uma correspondência adequada entre aquilo que o homem elaborou com sua capacidade mental e aquilo que a natureza apresenta fenomenologicamente. O dado particular e o conceito geral estão em sintonia. Não é uma ruptura, mas uma continuidade. Esta postura gnosiológica levada à política e às leis, implicará em respostas diversas às dadas pelos sofistas e epicureus.

Sócrates não se referiu a uma lei natural propriamente dita ou a um direito natural. No entanto, ao proceder a crítica aos sofistas contrapõe-lhe a racionalidade das leis e da moral, apontando para a questão da racionalidade e generalidade em oposição aos instintos, aos sentimentos e à relatividade. Para ele, a virtude é inteligência, razão e ciência. Discorda, portanto, também dos epicureus, para os quais a virtude é um meio para o prazer. Em Sócrates, virtude é conhecimento e vício é ignorância. O fim do homem é o bem e não o útil. Ao declarar que era preciso alçar-se aos sentidos, propunha o ordenamento da ordem natural através da razão. Era preciso procurar os princípios na natureza e não a seguir cegamente. Por isso era preciso buscar a universalidade.

A Justiça não consiste apenas em normas e leis, mas numa Justiça Superior, oriunda da divindade, do daimon, ou da racionalidade. Nesse sentido há um “cum sensu” entre a ordem cósmica até mesmo teológica - e a atividade racional do homem.[1]

A mudança de método surge com Sócrates: o homem. Este é apenas o microcosmos. Se o compreendermos ao mesmo tempo deciframos o enigma do universo. O “conhecer-se” é o axioma do universo. Se deciframos o homem, pensa Sócrates, tem-se a plenitude do conhecimento, pois é na consciência que se encontra a ética moral, chave da compreensão superior do universo através do indivíduo. O “conhecer-se“ abre o caminho do conhecimento.

Pode-se dizer que Sócrates intermediou a cosmologia e antropologia. No primeiro plano estão os pré-socráticos que queriam explicar o cosmos, o universo. Já no segundo, o próprio Sócrates que desloca a reflexão para si mesmo. Os dois se complementam, pois no afã da busca de Deus os dois são válidos. Deus pode ser pesquisado no universo como os cientistas atuais e no próprio homem como os filósofos de agora.

 

 



[1] PLATÃO. Diálogos.V.II, Fédon, Sofista Político. Trad. De Jorge Paleikat e Cruz Costa. Porto Alegre, Globo, l955, p. 270-296.

 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

As ameaça ao sonho da igualdade social e politica. José Mauricio de Carvalho

 


Na antiguidade, quando ocorreu o desenvolvimento da agricultura, ela mudou o modo de viver dos primeiros grupos humanos, crianças com menos leite materno e mais mingau desenvolveram um sistema imunológico pior, e, em épocas de seca, a fome crescia e na abundância das colheitas fartas havia risco de sague. Muitas coisas novas com que se preocupar trouxe a revolução agrícola.

Quando a reunião de agricultores deu origens a cidades poderosas e até reinos fortes foi necessário criar elementos que assegurassem a reunião dessa gente. Isso se fez a partir de crenças comuns e mitos compartilhados por todos ou por grande parte dos membros do grupo. O aparecimento de grandes civilizações propiciou o desenvolvimento de uma legislação que fortalecia essa ordem imaginária, ou mesmo de instituições com um ethos próprio nos diz o historiador Yuval Harari em 21 lições para o século 21 (2018, p. 120): “é impossível organizar um exército unicamente por meio de coerção. Pelo menos alguns dos comandantes e soldados precisam acreditar realmente em alguma coisa: pode ser Deus, honra, pátria, coragem ou dinheiro.” Não é possível manter um grupo unido sem uma crença comum.

O Código de Hamurabi, elaborado em 1754 a.C., foi o primeiro da História e pretendeu consolidar uma organização social. Ele privilegiava o homem superior, ou um sistema hierárquico de classe. Nessas sociedades a desigualdade parecia natural e alguns tinham uma vida melhor que outros. Os criadores da pátria americana alimentaram crença diversa: o da igualdade dos homens em função de sua filiação divina. Essa crença encontra-se atualmente bastante ameaçada com o desenvolvimento da inteligência artificial e com a globalização da economia. 

Se pensamos nas consequências atuais da revolução agrícola, a saber o desenvolvimento da noção de propriedade e a efetiva posse de objetos, nós chegamos ao desenvolvimento de algo assim. Com a propriedade afirmou Harari (id., p. 103): “surgiram rígidas sociedades hierarquizadas, nas quais pequenas elites monopolizavam a maior parte da riqueza e poder, geração após geração.” E foi dessa forma que a posse da terra, de animais, plantas e ferramentas passaram a alimentar uma sociedade crescentemente desigual, sob a aparência de ser essa a natural vontade de Deus.  E dentro dessa mesma lógica a sociedade do século XXI pode estar caminhando para a organização mais desigual da História. Seria isso uma evolução natural? Pelo menos podemos contrapor que a consciência humana considerou que, de uma perspectiva axiológica, que é desejável uma sociedade humana não tão desigual. E o que faz esse fato tão estranho em nossos dias? O que se passou nos últimos séculos quando a modernidade alimentou o sonho de se criar uma sociedade menos desigual? Porque fomos criados na crença de que era possível uma sociedade mais justa?

No capítulo 4 de 21 lições para o século 21, Harari tentou responder e começou lembrando que (id., p. 103): “a igualdade tornou-se um ideal em quase todas as sociedades humanas.” Poderíamos dizer mais realisticamente, esse ideal é não de igualdade, mas de uma sociedade não tão profundamente desigual. O historiador recordou e resumiu o pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman sobre o processo de globalização, observando que esse fenômeno e o fim da sociedade industrial desidrataram o estado do bem-estar social. |Isso porque o Estado e os empresários antes precisavam de (ibidem): “milhões de trabalhadores saudáveis para operar as linhas de produção e de milhões de soldados leais para lutar nas trincheiras.” Precisavam, mas não precisam mais, pois com a globalização o capital voa livre de um local para o outro e não necessita de muitos trabalhadores, além dos drones substituírem centenas de homens nas guerras atuais. As máquinas inteligentes, as novas matérias-primas e a pulverização da produção garantem produzir sem grandes custos. O resultado do menor investimento social é que (id., p. 104): “o 1% mais rico é dono da metade da riqueza do mundo. Ainda mais alarmante, a cem pessoas mais ricas possuem juntas mais do que as 4 bilhões mais pobres.”

E há ainda algo mais perverso nesse mundo que se avizinha de biotecnologia avançada. Os muito ricos poderão pagar tratamentos e procedimentos que garantam maiores habilidades físicas e condições mentais superiores aos demais. Isso que hoje não é real, ainda que amplamente veiculado, poderá mesmo vir a ser a realidade. Um outro aspecto desse processo é que pode ser que em alguns lugares do mundo, a elite nacional econômica continue a cuidar da população local, mas na maioria dos países, inclusive nos Estados Unidos, a avaliação do historiador é que a elite aproveite (id., p. 105): “a primeira oportunidade para desmantelar o que restava do Estado do bem-estar social.” Nos países considerados em desenvolvimento isso será ainda mais dramático porque o nível de pobreza é maior.

Em resumo, a democracia e uma sociedade menos injusta encontra-se sendo esvaziada, tal como o estudo das humanidades e o desprestígio da intelectualidade.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

I- A BUSCA DE DEUS. Selvino Antonio Malfatti

 

 


Através de uma reflexão sobre si mesmo o ser humano se depara com uma tensão essencial: é possível um ser limitado, finito, situado num cosmos não delimitável abranger de modo inteligível uma realidade paradoxalmente oposta a si, de modo absoluto, infinito e transcendente? O finito pode entender o infinito? Pode um fragmento do universo pensar o universo todo e além disso se perguntar pelo seu fundamento?

Uma pergunta: a justificativa é busca de Deus? Faz parte do ser humano a busca de algo além de si que seja superior?  Examinemos o complexo de quem se preocupa. Verifica-se que é um humano, uma pessoa. É UM humano, dentre 8 bilhões só atuais, sem falar de todos os humanos até agora existidos em todos os tempos e lugares desde a emergência. Este humano habita um satélite, orbitando uma estrela de tamanho médio, coabitando entre galáxias, cada uma com incontáveis estrelas em distâncias calculadas em anos-luz. Tentemos localizar este humano neste habitat. O que é? Nada mais que um pó. Este existente pode ter noção de Deus, pensa? Pode pensar? O que pode pensar de Deus?  O que pode pensar? No máximo é que Deus é maior que o universo. Infinitamente maior.

A grandeza física não é nada comparada à potência espiritual. Nenhuma estrela e nem mesmo toda galáxia sabe algo.

E nem faz nada por si, a não ser exclusivamente o que for determinado pelas leis inerentes a ela. Nem mesmo sabe que existe, se conhece. É algo determinado, sem poder se autodeterminar.

Dentro do planeta existem seres hierarquizados no seu próprio ser. Um vegetal distancia-se hierarquicamente de um animal. Serve-o na própria alimentação para sua subsistência. Por usa vez o vegetal distancia-se dos seres inanimados. Serve-lhe de subsistência.

O ser humano quando examinado em si é um zero a esquerda. O que resta dele após sua morte? Um monte de podridão que pouco a pouco se decompõe até se tornar pó, nada.

Ainda assim, a eles, aos vegetais, animais e inanimados e ao próprio universo alça-se, e a ambos o servem de subsistência. Não bastam estas hierarquias. Comparadas ao que são ao homem são nulas. O homem as conhece, sabe o que são, de onde vieram e qual será seu fim. E mais que isso o próprio homem conhece-se, sabe de onde veio, mas não sabe qual o seu destino.

Diante do caos do fim procura nas estrelas, nos seres terrenos e em si mesmo qual seu fim. Ao examinar a si mesmo encontra uma resposta irrefutável. Algo diferente dos astros, dos seres vivos e do próprio homem: Deus.  Como um ser pó consegue conceber a existência de Deus? Este Ser no entanto, existe. Conhecem-no primeiramente os que se valem do senso comum. Estes abrangem a todos. Mas há os que não se valem do senso comum, mas da ciência e da reflexão. Estes últimos, vale a pena examiná-los. Quais as descobertas e o que concluíram?

A primeira conclusão é que o ser humano é um paradoxo: parece mentira, mas não é. Parece verdade, mas só parte. O ponto de partida a tal conjetura é de que este ser não e igual a ninguém, só a si mesmo: racional. Ao longo da História ocidental a plêiade é infindável. Da mesma forma se pode concluir do oriente. Os que tomaram como ponto de partida a racionalidade humana são conhecidos como filósofos. E os que utilizaram a racionalidade e se dedicaram experimentação são os cientistas.

Examinaremos no próximo artigo.

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Narrativas e alternativas. José Mauricio de Carvalho

 


No capítulo inicial de 21 lições para o século XXI, o historiador Yuval Harari examinou visões de mundo que dizem como o mundo nos parece ser, isto é, como ele é pensado e aparece para cada um de nós. Ele mostrou que estamos lidando, meio desconsolados, com os descaminhos da narrativa liberal, aquela que sobreviveu na consciência atual. Isso porque até recentemente o mundo conviveu com três narrativas diferentes e conflitantes (HARARI, 2018, p. 21): “que pretendiam explicar todo o passado e predizer o futuro do mundo inteiro: “a narrativa fascista, a narrativa comunista e a narrativa liberal.”

Com a dissolução das duas primeiras, a narrativa liberal tornou-se prevalente e hegemônica atualmente, o que ela contém explica parte da crise que vivemos. Isso porque ela vendeu a ilusão de que (id., p. 22): “se simplesmente continuarmos a liberalizar e globalizar nossos sistemas políticos e econômicos, o resultado será a paz e a prosperidade para todos.” Então, segundo essa visão de mundo, mesmo os lugares mais atrasados da política e economia também alcançarão índices elevados de desenvolvimento em algum momento. E se assim se pensou durante alguns anos desde o fim da União Soviética, um acontecimento mudou tudo. O sociólogo Zygmunt Bauman também se referiu a ele nesse sentido como o início de uma desorientação. Desde (id., p. 23): “a crise financeira de 2008, pessoas em todo o mundo estão cada vez mais desiludidas com a narrativa liberal.” O descrédito dela resultou também da desidratação do estado do bem-estar social, um dos efeitos da globalização atual.

Em nosso tempo surgiram dois grupos. De um lado, encontramos pessoas que sabem que as coisas não ficarão tão boas quanto anunciam os papas do liberalismo, mas essa realidade lhes beneficia e eles não querem abrir mão dela. De outro lado, estão os que tomam a ideia de um progresso universal como o discurso de uma elite que se enriquece às expensas das massas e estão desiludidos e sem direção. A existência de uma só narrativa dá a entender que se sabe o que real e verdadeiramente está ocorrendo. E quando as coisas não se ajeitam como o esperado é porque estamos indo para o caos. De fato, a elite liberal não está sabendo como explicar o rumo das coisas em nossos dias, mas segue repetindo o mantra do mercado e encontrou no migrante o responsável pelos problemas. Quanto aos políticos liberais ficaram distantes das causas defendidas até a pouco (id., p. 24): “o sistema político liberal tomou a forma durante a era industrial para gerir um mundo de máquinas a vapor, refinarias de petróleo e aparelhos de televisão. Agora, tem encontrado dificuldade em lidar com as revoluções em curso na tecnologia da informação e na biotecnologia.”

O historiador Yuval Harari resumiu em três narrativas a visão de mundo que povoou a consciência humana até a pouco: a liberal, a comunista e a nazista, apresentando-as como três visões que esgotam a compreensão de mundo até recentemente. Narrativas são formas de relatar acontecimentos ou fatos, numa sequência lógica e coerente, embora não necessariamente exata. E, em certo sentido, essas leituras de mundo são realmente narrativas, pois são descrições de fatos reais ou não, crenças e valores diversos. E nessas três narrativas fatos não necessariamente verdadeiros e crenças mal justificadas se misturam bem. A solução que ele propôs para a insuficiência ou inconveniência delas é de deixa-las de lado como descrições globais e acolher relatos locais, o que não parece ser a melhor solução para as dificuldades e descaminhos atuais. Primeiro porque os problemas ecológicos, econômicos, de segurança, de deslocamento populacional e ligados ao mundo do trabalho não serão resolvidos com soluções locais, segundo porque a construção de uma visão de mundo que possa ajudar o homem a reencontrar caminhos não pode ficar restrita a essas três narrativas. Todas elas, assim parece, de alguma forma trouxeram elementos nucleares dos valores que formam nossa tradição cultural, elas os acolheram de determinado modo e trabalharam a partir disso. O que é preciso fazer é recuperar nessas narrativas os valores fundamentais de nossa cultura e em especial o da pessoa humana, sua dignidade e liberdade. Nesse sentido, a tradição humanística do ocidente, os conhecimentos filosóficos e jurídicos que vieram do mundo antigo e certos valores gestados no cristianismo são fundamentais como formadores de uma visão de mundo que nos parece mais exata. Uma nova forma de construir o que pensamos do mundo poderá servir de caminho para uma humanidade hoje desiludida, desconcertada, incerta, insegura, temerosa, perplexa com a insuficiência da narrativa liberal. No entanto, o caminho não está nas outras narrativas mencionadas pelo historiador, mas em superar a descrição de mundo como uma dessas narrativas, porque narrativas aproximam fatos verdadeiros e não verdadeiros, crenças mais ou menos razoáveis na sequência narrativa. Apresentar a compreensão de mundo como uma dessas narrativas, colocando-as como únicas possíveis, fecha a porta para leituras mais amplas e coloca em igualdade de condições qualquer tipo de discurso que se construa sobre o mundo e a vida. Então o caminho não pode ser esse, assumir a narrativa liberal como integralmente válida, nem excluir outras formas de ver o problema.

 

 

 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

JAMES TOUR, A VIDA HUMANA E A VISÃO CRISTÃ. Selvino Antonio Malfatti.

 



James Mitchell Tour é um químico orgânico sintético nanotecnólogo de nacionalidade americana, descendente de judeus. Na atualidade é professor titular na Universidade de Nice, Houston, nas cadeiras de Química, Ciências dos Materiais, Nanoengenharia e Ciência da Computação.

Sua formação universitária consistiu no Bacharelado em Química, Doutorado Ph.D. em Química Sintética e Organometálica e Pós-doutorado na Universidade de Wisconsin-Madison (1986–1987) e na Universidade de Stanford (1987–1988). 

A formação oficial abrangeu somente a área das ciências exatas. Tour, concomitante à formação acadêmica dedicou-se, extraoficialmente à formação humanista abrangendo filosofia e religião, embora só particularmente tenha se interessado disso. Dedicava-se à leitura da Bíblia no período de faculdade e em casa não se falava em religião. E foi neste período que se converteu ao cristianismo. Paralelamente passou a desenvolver atividades educacionais e debates filosófico-científicos sobre química e origem da vida.

No estudo sobre química e biologia ao chegar a concepção de vida Tour conclui pelo criacionismo. Na pesquisa não prossegue até alcançar a vida humana. Fica a pergunta: como surgiu o homem? Criacionismo ou evolução? Para ambas as hipóteses surgem conjeturas. Pela evolução chegará o momento do salto, divisa, da linha divisória entre humano e não humano. Tour opta pela intervenção de uma inteligência superior que estabelece a linha divisória. Ou se opta pela evolução, a qual tem um fim ou não. Se tem será pelo criacionismo se não tem, não há ser humano. O criacionismo, por sua vez, alicerça-se na teologia que também é vista pela filosofia.

As grandes linhas da reflexão cristã cujo objeto são temas religiosos que abrangem Deus, bem, mal, pecado. James Tour não se preocupa diretamente com os temas, pois, como químico pesquisou o problema filosófico da origem da vida. Avançar outras questões como o pecado estão tangencialmente relacionados à vida humana. A teologia oficial do cristianismo ensina que o início da vida e dela para a vida humana tem como ponto de partida o imaginário Paraíso entendido como o local da emergência do homem. O homem no Paraíso é um ser humano completo. Já pela evolução um ser semi-humano, semirracional, emerso da de outros seres em contínua evolução. 

O homem do Paraiso devia mante-se dentro de um comportamento moral que não conhecia. A partir de então tinha um NÂO para guiar-se e apetites oferecidos pela natureza e desejados pelo seu corpo guiado pela alma. Como se porta um tal ser? Se se desviasse do NÂO cometeria pecado. Que pecado? Queda. O que era Queda neste contexto? O que o tentava ao NÂO e Quem o tentador e que consequências adviriam desta queda? Por que a ela estão associados bem, mal, pecado, Deus?

No criacionismo o ser humano concorda com sua companheira em dizer um NÃO ao não. Esta desobediência seria escolher um bem considerado pelo impostor como um bem, mas era um mal. Por que escolher o mal se podia escolher o bem não transgredindo o Não? Por que o mal se tornou um bem? O mal acontece porque o bem é visto como menor em que o mal. A transgressão era um pecado. O pecado atinge o pecador, mutila-o, corrompe esfrangalhando o corpo e a alma. Será, então, o pecado que dilacera o homem ou sua natureza mutilada que o conduz ao pecado? Pode o homem não pecar. Se pode, por que peca? A questão é porque sendo livre opta pelo pecado, para a corrupção. O mal e o pecado devem ser melhores que aquilo que se diz bem e virtude. Por isso não se pode não pecar. Poderia, por acaso, subsistir este mundo sem o pecado? A ânsia pelo pecado é sua própria recompensa enquanto sua concretização é o próprio castigo. A dialética não esmorece no castigo, mas na recompensa e por isso se volta a procurar o pecado. Recompensa e castigo complementam-se e retornam ao homem. Ele é feliz com o que não tem, mas quer ter. E infeliz com o que consegue, mas não queria tê-lo. O desejo de bem leva à corrupção de sua natureza, e a vontade de fugir do mal o degrau para a perfeição experiência concreta de fascínio, cegueira, remorso e busca de sentido.

O cristianismo se alicerça sobre três grandes pilares: o pecado, culpa, redenção e o perdão. Dentre eles o mais problemático é o pecado por que gera a culpa coletiva e hereditária da humanidade, a qual exige arrependimento individual e coletivo para obter o perdão. Só com isso se restabelece a ordem na sociedade. Mas o que é a culpa. É um sentimento individual ou coletivo de perda. O cristianismo apresenta como causa o pecado hipoteticamente dos primeiros seres humanos. Evidentemente não há uma autocritica mais profunda e sociologicamente nem é necessária. A filosofia se perguntaria: mas culpa de quê? E os emersos hipoteticamente da evolução? Chegar-se-ia refletir em seres da evolução, semirracionais, sem noção de moral? Que pecados poderiam cometer se só hipoteticamente seriam seres humanos? Desobedecer a Deus? Pobres semi-humanos! E mais, estes tem esta culpa que passa de geração em geração. Todo homem nasce com a marca do pecado original. O problema está nisso: se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não sou culpado porque então sou culpado? Este é o pecado original no pensamento apoiado na vulnerabilidade da natureza humana, da dor e do mal no homem e na sociedade. É um pecado de raiz, transmissível e geral aos seres humanos. O homem não se faz pecador, nasce com o carisma: “minha mãe me gerou em pecado”, diz o Salmo 51. Além disso, o pecado original é fonte de todos os demais pecados.

Tanto o judaísmo como o cristianismo originalmente não se preocuparam na crítica ao princípio do pecado e de suas consequências sociais. Aceitou como dogma sem crítica o pecado.

O que foi o pecado original que privou o homem do bem por nascimento. O pecado na concepção cristã foi motivado por outro que o levou ao pecado: a serpente, no caso. Como foi a experiência? Na doçura da prova foi junto o abrolho do prazer. O veneno perpassa o corpo até atingir a alma. Por isso, após a felicidade do pecado sobrevém a prostração do arrependimento. Aquela sensação de morte que começa nos pés e atinge o coração faz a alma exclamar pelo “De Profundis”. A miséria invade cada membro da alma fazendo o coração gemer e confessar que se é todo pecado, já foi gerado no pecado. Que desejo de ter as mãos limpas e o coração puro! Que desejo de poder, nem que fosse por um instante, voltar atrás no tempo e saltar aquele momento anterior.  Ano entanto, na consciência, palpita forte: “De Profundis, clamavi ad te, Domine!” (Salmo 129 ou 130). O veneno da serpente ofusca os olhos, embaça a mente, invade de torpor todo o corpo. Ele inocula a razão através da felicidade do coração. Ele se vê no último banco da igreja se ajoelhar, enfiar a cabeça entre as mãos, encher os olhos de lágrimas e tentar buscar a Deus. Nada encontra senão um dedo apontando o caminho da porta, o paraíso. A impureza, a vaidade, o orgulho, a ganância são terra jogada sobre o caixão do cadáver. Pasto para os vermes festejarem, estrume para porcos chafurdarem, putrefação para os corvos se deliciarem. O pecado causa o mal, primeiro na consciência. Ela fica com o olhar embaçado não mais vislumbrando o mal por trás do pecado. É um mal que atinge a alma através do corpo e vice-versa: o corpo através da alma. Isto se pode denominar de degradação do corpo que ficou corrompido e por sua vez corrompe a alma. A consciência embaçada pelo pecado não vê mais com nitidez o bem, pois foi corrompida e apossada pela mentira, ódio, ganância, soberba, impureza, avareza.

A tudo isso o cristianismo acena com a graça. A graça, porém, só faz sentido por causa do pecado. O catolicismo vai além. Exalta ao proclamar “feliz culpa que nos trouxe tão grande Salvador”.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

DEUS MORTO? NÃO, OCULTO. Selvino Antonio Malfatti.

 

 


Um a um os conventos, lugar de meditação e contemplação, estão fechando. Cada um ao fechar as portas deixa um buraco negro, um vazio pronto para engolir o que o cerca. O mudo se digitaliza freneticamente e seus textos devorados deixando o vazio. Se precisa de uma informação digitaliza um IA. Se quer um medicamento digitaliza um “deliver”. Se quer um hotel ou qualquer agência,  digitalize uma plataforma. Tudo digitalizado o que se quer. O ser humano não existe mais. É um número, um código, um CPF. Desesperado tenta encontrar onde se agarrar dentro do pântano da digitalização que o suga. Mas nada. Tenta Deus, não o acha mais. É o que constata filósofo Byung- Chul Han.

Este pensador é um sul-coreano radicado e professor na Alemanha. Destaca-se pela crítica sistemática à sociedade contemporânea, digital caracterizada pela autoexploração, no seu livro: Sociedade do Cansaço. Nele desenvolve a ideia que o homem abandonou o imperativo de Kant dos “deves fazer” para os “podes fazer”, John Dewey que incentiva os indivíduos adquirirem sempre mais.

Na Alemanha estudou metalurgia, mas rapidamente passa para área da filosofia doutorando-se na área pela Universidade de Freiburg com tese sobre Heidegger. Han quer ser o contraponto das multidões que gritam, querem ser ouvidas, pressionam decisões, impõem ordens. Não raciocinam nem escutam levadas irracionalmente pela euforia, medo, raiva ou entusiasmo. Contrapõe-se também ao indivíduo inserido no contexto de um mundo virtual que dita ruidosamente ordens, estabelece metas, comemora conquistas públicas.

Em vez disso, Han busca o ouvinte, o interiorizado em si. Um humilde, paciente, silencioso atento às manifestações metafísicas ou ocultas. Fo o que aconteceu com os pensadores gregos que à sombra e no silêncio dos plátanos descobriram realidades geniais que até hoje nos admiram em religião, filosofia, química, física, astronomia, matemática pintura, escultura. Quase tudo saiu da meditação grega. Por isso, Han pensa encontrar aquele Deus considerado morto. Sabe que vive, mas precisa de ambiente para individuá-lo[i]. Sentir a experiência do sagrado na sombra dos plátanos.

O encontro de Han com a filósofa Simone Weil deu-lhe o suporte teórico para elaborar seu pensamento. O pensamento de Han baseia-se no cultural e Weil no espiritual. Han é a sociedade do desempenho, da positividade, enquanto Weil é da atenção, acolhimento.  Pensa que, conforme Weil, encontrar Deus é possível ao trilhar o caminho vislumbrado por ela conforme os passos ou disposições a serem seguidos:

De acordo com Weil para encontrar Deus a primeira atitude é ficar atento. Ele pode se manifestar a qualquer momento ou ambiente. O “eu” deve despir-se de suas vestes festivas e vestir-se da nudez que receber o manifestante. Ser um nada para receber aquele que é tudo. Ele chega até nós não pela via digitalizada mas contemplativa. Ficar atento a hora da chegada com azeite suficiente para iluminar a mente. O sagrado não chega ao som das fanfarras, mas ao som do violino.

A segunda atitude consiste em não apenas despir-se, mas assumir uma atitude radical de ser um ser novo, isto é, recriar-se, ser um novo ser. Como certos seres abandonam a velha carcaça e se revestem de uma nova natureza. Aquele velho homem deve ser abandonado e assumir uma renovada natureza possibilita adquirir um novo conhecimento para encontrar a Deus. Este novo homem não pensa ou age conforme a sociedade imersa no virtual, mas com um coração aberto ao divino.

Para encontrar Deus é preciso oferecer-lhe espaço não, porém, qualquer espaço, mas todo. Por isso é preciso esvaziar-se para estar plenamente vazio e poder ser por ele preenchido. Atualmente o ser humano está sempre preenchido com informação, entretenimento, consumo. Deve desvencilhar-se de tudo isso para Deus poder entrar.

A beleza digital é espetáculo, superficial, descartável. Deus é a beleza que se admira, contempla, profunda, perene. Esta, como Deus, nos desapropria e com Ele passamos a senti-lo no silêncio.

O homem social atual, conforme Han apenas sente dor, mas não sofre, não sente a dor profunda da alma. Para ter a experiência de Deus, não basta sentir a dor, é preciso provar profundamente o sofrimento.

O mudo de hoje é ruidoso, hiperativo. O silêncio deixou de existir. E é precisamente nele que Deus está. Por isso, silenciem e Deus se manifesta.

A lógica para o rendimento é a atividade ininterrupta. Para acolher o outro é preciso, ao contrário, parar e esperar. Da mesma forma praticar a inatividade favorece e proporciona a condição de encontrar Deus. Ele não se encontra na cadeia do ativismo, mas no espaço inativo.

O encontro entre Han e Weil acontece no cruzamento da crítica radical à sociedade atual. Weil buscam uma ontologia espiritual de atenção e esvaziamento e Han uma crítica cultural da sociedade digital e de desempenho. Em Weil há uma proposta de esvaziar-se, descer para encontrar o divino. Han, por sua vez entende que a modernidade é o empecilho para se realizar tal intento.

A crise do mundo, mais precisamente do homem, não é tanto econômica ou política, mas espiritual, perceptiva. Deus não está morto, mas ofuscado pelo mundo contemporâneo.



[i] A sociedade de desempenho é uma sociedade de autoexploração. O sujeito de desempenho explora a si mesmo, até consumir-se completamente (burnout). (HAN, Byung- Chul. Falando de Deus , Vozes, 2025)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

O que é o consumismo, a alma do mercado? José Mauricio de Carvalho

 



                            Yuval Noah Harari 


Nos nossos dias as massas foram condicionadas ao que o historiador denominou ética do consumismo, no qual ética é um termo singular e diverso do utilizado na tradição filosófica, na qual surgiram diversos modelos éticos desde a antiga Grécia. Os modelos éticos desde o aristotélico, que consideramos o primeiro com boa justificação filosófica, sempre apontaram para como alcançar uma vida boa, justa e humana e, algumas vezes, feliz. Isso através de esforço pessoal e de uma fundamentação racional dos comportamentos adotados.

O sociólogo Zygmunt Bauman escreveu em Vida para o consumo que o consumo é um conceito essencial para entender a sociedade contemporânea, ainda que possa não expressar perfeitamente tudo que nela ocorre. O conceito é válido porque esclarece parte significativa do que está ocorrendo. Em outras palavras (2008 b, p. 40): “consumismo, sociedade de consumidores e da cultura consumista (...) são ferramentas adequadas à tarefa de compreender um aspecto fundamental da sociedade que hoje habitamos.” E o assunto também foi tema de outra obra de Bauman, 44 cartas do mundo líquido moderno, onde o sociólogo ofereceu uma descrição preciosa dessa nova forma de vida. O consumismo, que caracteriza nosso tempo, não se explica pela simples capacidade de consumir, que é condição para estar vivo, mas por transformar o ato numa forma de viver (BAUMAN, 2011, p. 83): “não basta consumir para continuar vivo se você quer viver e agir de acordo com as regras do consumismo. Ele é mais, muito mais que o mero consumo. Serve a muitos propósitos.” É uma atitude que se apresenta como forma de vida e de resolver os problemas inclusive os de saúde pela compra cada vez maior de medicamentos. E estar sempre em compras tornou-se uma forma de enfrentar todas as incertezas que temos. Quanto ao pertencimento ao grupo social, ele se define pela capacidade de consumo de marcas e produtos (BAUMAN, 2008 b, p. 108): “o processo de autoidentificação é perseguido, e seus resultados são apresentados com a ajuda de marcas de pertença visíveis, em geral encontráveis nas lojas.”

O que Harari denominou ética do consumismo é esse comportamento descrito em 44 cartas do mundo líquido moderno. Trata-se de uma forma de viver amplamente estudada por Bauman e consiste na síntese do historiador (HARARI, 2020, p. 357): “garantir que as pessoas sempre comprem o que quer que a indústria produz.” E não apenas a indústria, mas qualquer produto do mercado, da agricultura aos variados serviços. Como se vê ética consumista é um uso heterodoxo do conceito, descreve uma forma de viver de nossos dias.

Não custa recordar que a ética, disciplina filosófica, ocupa-se de outras coisas. Nos (CARVALHO, 2004, p. 9): “Tempos modernos teve como tema central a separação entre a moral e a religião, o que a distinguiu do que se fez na Idade Média e que não chegou a se modificar no renascimento. Conforme sabemos (...) a investigação moral no período contemporâneo se afastará da preocupação moderna que fora de assegurar uma fundamentação racional para a ética, ao mesmo tempo que firmava as bases de uma moral social laica e consensual. A discussão sobre a moral social consensual dependia do reconhecimento da diversidade de religiões presentes no cenário social e mesmo de uma disposição natural do homem para ser religioso. O pensamento contemporâneo se volta para a experiência moral do homem e a investigação se desenvolve em terreno próprio, diverso do que fora a preocupação dos moralistas de outras gerações.”


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