sexta-feira, 8 de maio de 2026
A MIRA DO PODER FERIDO: FEMINICÍDIO. Selvino Antonio Malfatti
sexta-feira, 1 de maio de 2026
DILEMA DA IGREJA:SALVAÇÃO ETERNA OU REDENÇÃO SOCIAL? Selvino Antonio Malfatti.
O filósofo italiano, Vittorio Messori, levantou a questão da
prioridade da Igreja: o social ou o teológico? Com efeito, atualmente há amplos
setores do clero eclesiástico que dá ênfase na missão social da Igreja. Isso
ocorreu após o Concílio Vaticano II. O Concílio não negou, nem colocou em
segundo plano a dimensão teológica, mas propôs que a Igreja se fizesse presente
no mundo. Para tanto era preciso que atendesse a justiça social, dignidade
humana, a paz e se preocupasse com a pobreza. O convite foi recebido com entusiasmo
frenético entre setores do clero. Afinal era muito mais receptivo falar da
promessa terrena do que a celestial. A partir de então surgiram até teorizações
sendo a mais conhecida a Teologia da Libertação, surgida nas décadas de
Sessenta e Setenta. A vivência cristã passou a ser pautada pelo olhar da
pobreza e opressão. A proximidade com as teses marxistas levou grande parte dos
seguidores ao marxismo, inclusive ao comunismo. A fé foi deixada para um
segundo plano e o social assume a prioridade, pregando e atuando mirando na
perspectiva de um reino dos céus na terra em detrimento da escatologia divina,
o céu.
Vittorio Messori em “Hipóteses sobre Jesus” (Ipotesi
su Gesù ), considera um grave erro da parte do clero enfatizar prioritariamente problemas
sociais e políticos desconsiderando questões teológicas dos dogmas e a vida eterna. Isso porque as grandes
questões teológicas como o mal, a morte, a salvação foram deixadis de lado da pregação.[i]
Para Messori o fim principal de mensagem cristã não reside na mudança
das estruturas sócio-econômicas, mas no destino do ser humano. O núcleo da
escatologia é a reflexão sobre a morte, o juízo final e a vida eterna. É nisso
que se diferencia a fé cristã de outras formas de pensamento humanista ou ditos
humanistas principalmente o marxista. Se a Igreja se abstiver destes temas
perderá sua identidade se tornará mais uma instituição apenas social.
Parte do clero foi engolido pelo processo de secularização que oculta a morte e vida do além. Este clero doura a pílula e faz crer que ao se solucionar os problemas terrenos automaticamente se solucionam os espirituais como se a alma acompanhasse a salvação do corpo. Concorda-se que estes temas não são populares e confortáveis, mas são da essência da vida cristã, mormente o mistério da redenção. Sem eles as pessoas ficam privadas da opção radical da fé cristã. O dizer seu “sim”.
O problema discutido por Messori não é a questão social, mas o desiquilíbrio
entre as questões sociais e as teológicas. As socias passaram a ser
prioritárias, enquanto as teológicas praticamente esquecidas ou vistas somente
na perspectiva social. Para a Igreja as questões socias estão inseridas nas
teológicas, isto é, na caridade. O verdadeiro equilíbrio consiste no anúncio
das verdades da fé – dogmas e vida eterna – e depois o compromisso com a
justiça e solidariedade. O problema está na
“mundanização” da Igreja. As pautas sociais se sobrepõem às transcendentes. A
solução está na recentralização da escatologia complementada pela justiça
social.
[i] “A cultura contemporânea tende a remover a morte, a escondê-la, a silenciá-la. Mas o cristianismo nasce precisamente como resposta à morte. Se se elimina essa questão, tudo o mais perde sentido: também a moral, também o compromisso social. Sem a perspectiva do além, o cristianismo se reduz a uma ética entre outras.” Vittorio Messori, Scommessa sulla morte (A aposta na morte).
sexta-feira, 24 de abril de 2026
A presença do Papa no mundo líquido. José Mauricio de Carvalho
O sociólogo Zygmunt
Bauman nos descreveu uma imagem chocante do momento atual e ajudou a entender
porque há tanta gente com dificuldade de conversar com nossa sociedade. Ele
associou a insegurança existencial de nossos dias às profundas alterações econômicas
devido às dificuldades impostas por um capitalismo financeiro e globalizado que
deseja a liberdade de lucrar sem limites. A única liberdade de que falam
seus defensores é essa. O resultado é a instabilidade econômica e a insegurança
existencial pois não se vive seguro quando não se sabe (BAUMAN, 44 cartas do
mundo líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 142): “se amanhã ainda terei
emprego.” E se o Estado garantirá a escola e o hospital. Esse processo tem, ainda
outras fontes de instabilidade como: a transformação dos valores, das redes de
apoio social, da vida educacional, da força das instituições, das mudanças nos relacionamentos
amorosos, resultando em dias em que nada está assegurado e tudo pode mudar. Em
resumo vivemos num (id., p. 143): “mundo líquido sempre em mudança, confuso,
desordenado e cheio de brumas, imprevisível, em que abundam armadilhas e
ciladas.”
Mesmo as relações pessoais, amores, família, amizade
tudo ficou diferente e passou a ser tratado como fumaça, conduzidas que são
pela lógica da mercadoria. Se uma não funciona troca-se sem problema ou
sofrimento. Quero viver meus desejos, é só isso o que importa. Uma relação
líquida, ou pura, como o sociólogo apresenta (BAUMAN, 2008 b, p. 33): “nega de
forma enfática (...) a responsabilidade pelo outro, que é fundamental em termos
éticos.” Portanto, uma relação amorosa pensada em termos de desejos pessoais deixa
de fora o outro ou outros, no caso da família.
Havia tantas certezas,
práticas e costumes sólidos até algumas décadas e tudo se liquefez e se tornou
débil atualmente, quando as intensas mudanças corroeram certezas de séculos. E isso
é sentido como uma crise que percebíamos, mas era pouco consciente. Não há como
viver num mundo que não existe mais, mas há referências a serem preservadas
para se viver nesse.
Uma das novidades desses dias líquidos é o
reaparecimento da extrema direita (fascista, nazista ou neofacista como
quiserem) capaz de defender os interesses desse mundo líquido. Quero colocar
entre essas coisas as críticas do Presidente Donald Trump ao papa Leão XIV,
como já criticara o Papa Francisco e a qualquer um que se oponha a suas
decisões ou ao propósito da liberdade de enriquecer sem limites. Trump acusou o
Papa de ser fraco em política internacional e evocou a noção de guerra justa,
enquanto o Pontífice chama atenção para outra forma de resolver os conflitos,
expressando o desejo de uma humanidade pacífica. É claro que a guerra movida
por Trump e Israel não são justas no sentido que a Igreja defende, embora seja
preciso acabar com o apoio do Irã aos grupos terroristas que atacam Israel e
não parece que essa guerra produzirá tal efeito.
Não se discute o direito de Israel se defender e nem
das nações democráticas temerem uma república islâmica com artefatos nucleares,
ambas as coisas causas de instabilidade. O Papa não aprova tais coisas, exorta
que não apenas um dos lados deixe de guerrear, mas que a boa vontade de ambos
exista para acabarem com a guerra e usem o caminho da razão e da paz. A
convivência num mundo em paz é um sonho que vale a pena e o Papa o apresenta.
Pede que os homens encontrem o caminho da paz, com a democracia, a razão e
preocupações morais. Numa perspectiva religiosa, o Papa Leão XIV retomou o que
o filósofo Emanuel Kant escreveu no ensaio A paz perpétua de 1795. Mesmo
tendo inclinações egoístas (ou a pecar) os homens são chamados a organizar a
vida de forma mais racional e moral.
Nesse mundo líquido o Papa, Francisco ou Leão,
representam uma liderança moral não mais encontrada em outras instituições.
Assim, as críticas inusitadas ao Papa são próprias de um tempo maluco. Traz
coisas que nem loucos como Hitler e Mussolini ousaram fazer. Então que Leão tenha
sucesso em sua visita pastoral aos países da África. E sobretudo possa ser a
consciência visível da paz, do amor fraterno e da responsabilidade pelo outro
nesse mundo líquido. Porque Francisco ou Leão são uma das poucas referências seguras
nesse mundo líquido.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
Orbán e a Ideologia Ilibiral e o Brasil. Selvino Antonio Malfatti.
Dentre os principais líderes e
modelos podem ser mencionados:
1. Viktor Orbán, Ungria, seu teórico -prático da Europa.
2.
Vladimir Putin da Rússia. Destaca-se pela concentração dos poderes e
perseguição aos opositores.
3.
Recep Tayyip Erdoğan (Turquia). Famoso pela perseguição à imprensa.
4. Alguns partidos de direita como
o “Lei e Justiça” na Polônia. Sua característica é exacerbar o poder do
executivo em detrimento dos demais.
O Brasil tem uma Constituição
que consagra um genuíno regime político liberal. Estabelece as liberdades públicas
e privadas, divisão de poderes com seus limites, autonomia do judiciário,
liberdade de imprensa.
O problema se situa na prática,
quando a lógica da maioria ultrapassa os limites constitucionais. Governos
eleitos legítimos invocando a maioria avançam o limite subestimando o
judiciário e este invocando prerrogativas constitucionais confrontam-se com os
outros poderes. A imprensa, em nome da vontade do povo conferido ao governo, é
enfraquecida nos mecanismos de fiscalização. As redes sociais são submetidas à
fiscalização injustificada. Tudo isso atenta contra as garantias institucionais.
O pivô é o poder judiciário. Este se arvora juiz do equilíbrio político não se
dando conta da ingerência nos outros poderes. Este, o judiciário, defende-se
dizendo que impede a tirania dos poderes.
O filósofo francês Alexis de
Tocqueville foi o que chamou a atenção do perigo das maiorias. Mal conduzidas
levam à tirania e ao arbítrio. Por isso, a soberania popular deve ter um
consenso sobre um pacto superior. As maiorias são condições necessárias para
democracia, mas isto não basta. É preciso salvaguarda das liberdades
individuais, imprensa livre e garantias eleitorais.
Pelas afirmações acima pode o Brasil ser
considerado um país iliberal totalmente, em parte ou nenhuma? Quais os traços
iliberais que se pode constatar?
Examinemos por partes. Constata-se que o Supremo
Tribunal Federal expandiu suas fronteiras de atuação invadindo áreas de outros
poderes de tal sorte que vários classificam esta atitude como um ativismo
judicial. Por isso, pode ser uma barreira ao liberalismo como uma tensão ao
princípio democrático majoritário.
Em relação à liberdade de expressão há acusações de que o esforço do
governo em querer regular as redes sociais seja apenas uma desculpa para
controlar a livre expressão através de censura.
Acusação de
tirania de maioria se constatou em diversas tentativas e em diferentes
governos, não um especificamente, para deslegitimar instituições, via um discurso
contra a imprensa e órgãos de fiscalização.
Estas constatações nos sugerem que o Brasil não é um país genuinamente iliberal, mas parcialmente.
I. “O novo Estado que estamos construindo na Hungria não faz dessa ideologia (liberal) o elemento central da organização do Estado.”Um Estado iliberal não rejeita os princípios fundamentais do liberalismo, como a liberdade, mas não faz dessa ideologia o elemento central da organização do Estado.”(Viktor Orbán)
II. A eleição de 12 de abril 2026, impôs uma virada ideológica na Hungria, depois de 16 anos de iliberalismo. O candidato opositor de Orbán, Péter Magyar venceu as eleições presidenciais, com o seguinte resultado:
- Péter Magyar (Tisza): ~53% dos votos
- Viktor Orbán (Fidesz): ~37%–38% dos voto
Estabelecendo uma diferença cerca de 15 a 16 pontos percentuais.
Em que pese ideologia autoritária, Orbán teve a honradez de reconhecer publicamente a vitória de seu adversário.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
SOLUÇÕES SOCIAIS ATUAIS- PROBLEMAS FUTUROS. Selvino Antonio Malfatti
Refletindo sobre os principais problemas sociais que afligem o mundo atual, deparei-me assustado, estupefato com um fato: os problemas atuais foram soluções no passado. Comecei a pensar nas favelas, um problemão social atual e no passado uma solução. Nem todos podiam morar no centro, evidente. Deslocaram-se então para periferia. Na época uma solução, atualmente um problema. O êxodo rural. Escasseando a terra para plantar ou morar alguns se deslocaram para as cidades. A solução antiga virou um problema atual. Casais solteiros e elas grávidas foram forçados a casar. Novamente aquilo que acharam como solução virou um problema social, pois logo adiante separação, criando outro problema e forçando soluções. Durante a pandemia da COVID incrementou-se a EAD, atualmente um surto de profissionais mal preperados.
Por isso antes de se aplicar uma solução ao problema deve-se refletir se isto não acarretará outros problemas no futuro e tentar evitá-los. É o caso de alguns problemas atuais.
Nas últimas décadas, as transformações no mundo do trabalho, o avanço da globalização, as mudanças tecnológicas e as políticas implantadas pelas IAs têm gerado novas configurações da pobreza tanto nas cidades quanto no campo. A sociologia contemporânea tem se dedicado a compreender como essas formas de pobreza extrapolam os limites da renda, incorporando dimensões como moradia, o acesso a direitos, exclusão simbólica e ambiental. Quais os possíveis problemas que advirão das soluções atuais?
A pobreza urbana atual está profundamente marcada pela informalidade, pela insegurança habitacional e pela exclusão social. Diferentemente das formas tradicionais de pobreza, caracterizadas pela marginalização completa do sistema produtivo, as novas expressões urbanas da pobreza se inserem em circuitos econômicos informais, como a "uberização" do trabalho. Essas populações compõem a "ralé estrutural", mantida em situação de subalternidade por estruturas históricas de desigualdade. O desafio: como inserir estas populações no sistema produtivo formal? Criação de novos empregos? Por quem? Pelos empreendedores? Com verbas subsidiadas? Pelo governo? Com verbas de impostos? Pelo cenário que se vislumbra as possibilidades são todas problemáticas? Deixar que as “aboboras se acomodem com o tempo”? Buscar soluções pelas políticas públicas? O problema está na invisibilidade dessas áreas pelos políticos para destinar recursos. A gentrificação? Esta solução valorizaria as áreas e pessoas de recursos se apossam o que expulsa os pobres de regiões centrais em nome da valorização imobiliária.
Não são diferentes no espaço rural, as novas formas de pobreza ligadas à perda de autonomia das comunidades agrícolas e ao avanço do agronegócio. A concentração fundiária, a mecanização da produção e a financeirização da terra provocam o esvaziamento das economias locais e o deslocamento de populações tradicionais A pobreza não se manifesta apenas na renda, mas também na carência de infraestrutura básica, como saneamento, transporte e saúde.
O que fazer para manter as populações rurais no campo? Principalmente os mais jovens? A juventude rural encontra poucos incentivos para permanecer no campo, o que leva ao êxodo rural precoce e à reprodução de ciclos de pobreza intergeracional. Enquanto isso, os que ficam, sobretudo mulheres e idosos, enfrentam dificuldades de acesso a políticas públicas e a mercados de produção. A solução seria dar-lhes condições para que permaneçam no campo. E como? Proporcionar-lhe especialização no trato com o meio rural com cursos de aperfeiçoamento. Quem irá conseguir? Só alguns, pois inevitavelmente se fará uma seleção ou triagem. E os demais? Eles continuarão a alimentar a cadeia da exclusão.
E não é só isso a injustiça ambiental é uma marca da pobreza rural contemporânea. Comunidades quilombolas, indígenas e camponesas sofrem com a degradação ambiental, o uso intensivo de agrotóxicos e os conflitos por terra. Trata-se de uma disputa entre diferentes racionalidades de uso do território: a racionalidade da mercadoria e a da vida. Qual a solução e e de que forma os novos problemas aparecerão?
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Páscoa 2026. José Mauricio de Carvalho
A Páscoa é uma festa
fundamental para os judeus, eles recordavam a liberdade, denominada Pessach. O dia de lembrar que foram
libertos do Egito, país onde estiveram cativos por quase 400 anos. É
claro que se a massa de judeus assim celebrava e agradecia a YHWH ou YHVH (Eu sou), o Senhor do céu e
da terra pelo alívio da escravidão, aqueles mais espiritualizados iam além ao comemorar
a liberdade não só política, mas das prisões terrenas, dos limites que nos
fazem menor, das dores que nos prendem à matéria. Libertar-se dos limites e
transcender o que se é. Conta o evangelho de Mateus que, como bom judeu, Jesus
de Nazaré, foi a Jerusalém com seus discípulos para comemorar a Páscoa.
O evangelho
de Mateus relata (26, 17-19) que: “17 No
primeiro dia da Festa dos Pães sem Fermento, os discípulos chegaram perto de
Jesus e perguntaram: — Onde é que o senhor quer que a gente prepare o jantar da
Páscoa para o senhor? 18 Ele respondeu: —
Vão até a cidade, procurem certo homem e digam: “O Mestre manda dizer: A minha
hora chegou. Os meus discípulos e eu vamos comemorar a Páscoa na sua casa.” 19 Os discípulos fizeram
como Jesus lhes ordenara e prepararam o jantar da Páscoa.
Bem
antes daquele dia, quando eles nem sonhavam, no capítulo 16, o mestre já lhes anunciara
que seria preciso ir a Jerusalém, onde sofreria nas mãos dos anciãos,
dos principais sacerdotes e dos gentios. A ida a Jerusalém contemplava um plano
maior, a ampliação do significado da Páscoa, tornando-a não apenas comemoração
da libertação política do povo, ou a libertação de alguma circunstância ruim, mas
ser a porta de entrada de uma vida plena, uma vida diferente, uma vida
superior.
Somente
Alguém com a estrutura psicológica perfeita, um homem completo seria capaz de
transformar aquela festa, que para Ele era a despedida dessa vida, num sacramento
permanente, num ritual que O traria sempre para perto de seus amigos queridos,
mesmo quando ele já não estivesse fisicamente presente. De seu coração pleno
brotou, naquela noite em Jerusalém, a luz que tocou o pão sem fermento para torná-lo
igual a seu corpo e o vinho para ser o seu sangue. E somente um Deus tão
maravilhoso podia, na simplicidade de sua despedida da terra, deixar gestos de
humildade e amor, com a serenidade, solenidade e profundidade que o ritual
pedia. E o impacto foi feito foi tão forte que seus discípulos passaram a
repeti-lo nos anos seguintes e a Igreja o faz ainda hoje com igual emoção,
devoção, veneração e respeito.
Assim,
Ele se despediu e, mesmo sendo tão querido pelos apóstolos, tão essencial para
eles, Jesus os preparou para enfrentar o vazio de sua presença. Ele lhes deu
uma luz para a difícil tarefa de viver sem seus ensinamentos. Isso porque mesmo
sem deixar de estar com cada pessoa que o chama, quando foi elevado ao céu, Ele
não mais era visível com seu sorriso bondoso, seu olhar amigo e sua mão
milagrosa.
Depois
da ceia fantástica, do julgamento imparcial, da morte pavorosa, quando tudo
parecia perdido e a vida vazia, quando a noite eterna abateu-se na alma de cada
discípulo e nada fazia sentido, Ele apareceu de forma singela a uma de suas
amigas para lhe anunciar: Eu estou vivo. Avisem a meus amigos
que a morte não me conteve, como eu já havia mostrado que seria, quando tirei
Lázaro da tumba e trouxe à vida várias pessoas mortas. A vida que eu vivo é
maior que a morte e que estarei com todos os que se reunirem em meu nome até o
fim dos tempos. Porque eu estou com YHWH e
Ele em mim no amor do Espírito Santo.
Então, quase dois mil anos depois daquela ceia e da passagem
para a vida superior, que essa festa seja, para cada um de nós, a oportunidade
de experimentar, ainda que de forma pálida, a vida plena que Ele nos oferece.
sexta-feira, 3 de abril de 2026
CORRERAM AO SEPULCRO. Selvino Antonio Malfatti
Era cedo. Ainda escuro. O mundo parecia
suspenso entre a dor e a esperança.
Madalena caminhava apressada, inquieta. Cada
passo batia um aperto no coração. Queria apenas cuidar do corpo de Jesus mais
uma vez… um último gesto de amor, de gratidão, de despedida.
Mas ao chegar… algo quebrou dentro dela.
O túmulo estava aberto.
Um frio percorreu seu corpo.
“Não… não pode ser…”
Ela não entrou. Não teve coragem. Sua mente
disparou antes que o coração pudesse compreender.
— Levaram Ele… roubaram o meu Senhor…
O medo a dominou. Não pensou, não refletiu —
apenas correu. Corria como quem tenta fugir da própria dor. Ofegante,
desesperada, foi até Pedro e João.
Pedro ouviu as palavras de Madalena e sentiu o
peso delas cair sobre sua alma cansada.
“Roubaram…”
Algo dentro dele doeu profundamente.
Já não bastava a culpa que carregava? Já não bastava ter negado o Mestre?
Mesmo assim, levantou-se.
E correu.
Seus passos eram pesados, não apenas pela
idade, mas pelo coração carregado. Enquanto corria, sua mente lutava:
“E se for verdade? E se nem o corpo restou? O que mais ainda nos será tirado?”
Mas havia algo mais… uma centelha, quase
imperceptível:
“E se não for isso? E se houver algo que ainda não compreendemos?”
João correu ao lado de Pedro — ou melhor, à
frente dele.
Seus passos eram leves, movidos por algo mais forte que o medo: o amor.
Enquanto corria, pensamentos se misturavam
dentro dele:
“Madalena pode ter se enganado… talvez estivesse escuro… talvez não tenha visto
direito…”
Mas, no fundo… havia outra voz, silenciosa e
firme:
“Ele disse… Ele prometeu…”
O coração de João batia acelerado — não apenas
pelo esforço da corrida, mas por uma esperança que começava a nascer, ainda
frágil, mas viva.
“E se Ele estiver vivo? E se tudo isso fizer
sentido agora?”
João chegou primeiro. Parou diante do sepulcro
aberto.
O silêncio era profundo.
Olhou para dentro… e hesitou.
Pedro chegou logo depois, ofegante, marcado
pelo cansaço e pela vida. Sem pensar muito, entrou.
E então… o inesperado.
Os panos estavam ali. Dobrados. Em ordem.
Não havia pressa. Não havia violência. Nada de roubo.
Pedro ficou em silêncio.
Algo começou a mudar dentro dele.
A dor não desapareceu… mas começou a dar lugar a um mistério maior.
João então entrou.
E ao ver… sentiu.
Não era apenas compreender. Era saber.
Uma certeza que não vinha dos olhos, mas do coração:
“Ele vive.”
Madalena, ainda do lado de fora, chorava.
Seu mundo ainda estava em ruínas.
— Levaram o meu Senhor… e não sei onde o colocaram…
Sua dor era real. Sua perda ainda era
presente.
Ela ainda não via o que os outros começavam a perceber.
Pedro levantou-se lentamente.
Seu olhar já não era o mesmo. A dúvida se desfazia… algo novo nascia.
João permanecia em silêncio, tomado por uma
paz estranha, quase impossível naquele momento.
Os dois se olharam.
E sem dizer muito, entenderam.
A esperança agora não era mais suposição.
Era certeza.
Pedro respirou fundo, como quem decide
recomeçar.
— Vamos… precisamos contar aos outros.
João assentiu, com o coração ardendo.
Agora não corriam mais por medo.
Corriam para a vida.
E dentro deles ecoava, cada vez mais forte:
— Jesus ressuscitou. Aleluia
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