sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Moralidade e ética, José Mauricio de Carvalho

 




No capítulo 12 de 21 Lições para o século 21 (São Paulo: Companhia das Letras, 2018) o historiador Yuval Harari avaliou o peso da moral na vida das pessoas e a relação da moral com as religiões. Como um capítulo dessa discussão indaga-se pelo peso da moral judaica ou dos mandamentos de Moisés sobre outros códigos religiosos, uma vez que ele tem importância pelo menos em parte do ocidente. Tudo isso a partir da constatação de que mundo afora há religiões que têm uma quantidade de fiéis maiores que o judaísmo. Em seguida, ele se questionou como toda essa gente construiu sua moralidade sem considerar esses mandamentos que os judeus têm por basilares? De algum modo ele diminuiu o peso que a moral judaica teria em muitas comunidades e religiões mundo afora. Podemos contrapor que, pelo menos no caso do cristianismo com mais de dois bilhões de pessoas, o judaísmo estaria na sua base e, de forma um pouco diversa, está igualmente na raiz do islamismo.

Harari reduziu a importância da moral judaica, pois considerou que o cristianismo tem um código moral mais abrangente porque foi essa religião, notadamente a partir da síntese de Paulo de Tarso, que considerou os compromissos morais não apenas como um legado de Moisés para seu povo, mas para todos os povos. Ele esclareceu o que avaliava (p. 238): “o apóstolo Paulo estipulou em sua famosa epístola aos Gálatas que não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, nem há homem ou mulher, pois todos vós sois um em Jesus Cristo.” Porém, esse entendimento de que a lei mosaica é circunscrita aos judeus é uma leitura limitada da sua moral.

Para fundamentar sua posição, Harari afirmou que, ao contrário de boa parte dos estudiosos do judaísmo, os compromissos dos judeus são maiores entre si e que o código não trata os nãos judeus com a mesma dignidade. Em outras palavras (id., p. 237): “é permitido a um judeu profanar o Shabat para salvar um judeu da morte, mas é proibido fazer o mesmo para salvar um gentio.” Portanto, a moral judaica seria insuficiente ou inadequada porque se limita a estabelecer um código para o grupo, não possuindo abrangência universal

O historiador foi ainda mais fundo em sua crítica quando retrocedeu o horizonte das sociedades humanas e associou o comportamento moral ao processo evolutivo presente até nos animais sociais (id., p. 235): “os cientistas hoje afirmam que a moralidade, na verdade, tem profundas raízes evolutivas que precedem o surgimento do gênero humano em milhões de anos.” Ele disse que mesmo animais sociais como lobos, golfinhos e macacos possuem códigos éticos, mas o que seria correto afirmar é que os animais podem demonstrar uma conduta moral, ainda que pouco desenvolvida. Ele mencionou alguns exemplos como o do chimpanzé Oscar que ficou órfão e não tinha uma mãe disposta a acolhê-lo na sua tribo, sobrecarregadas que estavam aquelas fêmeas com as próprias crias. Em meio a suas dificuldades o pequeno animal foi adotado pelo macho alfa do grupo. Aquele animal acabou sensibilizado pela fome e fragilidade do pequeno chimpanzé órfão e passou a protegê-lo e a cuidar dele.

Há na exposição de Harari pontos a ajustar. Por exemplo, quanto à redução da universalidade de moral judaica o que nos parece mais exato é exatamente o contrário. Ao examinar o prefácio de El prójimo: cuatro ensayos sobre la correlación práctica de ser humano a ser humano según la doctrina del judaísmo, escrito pelo judeu neokantiano Herman Cohen, Martin Buber fez observações preciosas sobre a extensão da moral judaica como comentamos no capítulo A intersubjetividade em Martin Buber e na Filosofia Clínica no livro Diálogos, Martin Buber e a Filosofia Clínica (p. 41): “Ele resume a moral judaica a partir de algumas de frases como: “Ama o teu companheiro como alguém que é como tu”. E mais adiante completa: “Ama o hóspede como alguém que é como tu”. A partir de frases como essas, das quais Cohen comentou os compromissos da moral judaica e mesmo de um humanismo judaico, Buber considerou serem essas as bases de uma ética universal. Buber afirmou que devemos admitir, a partir das palavras de Cohen, que a moralidade e o humanismo judaico como sendo estabelecidos sobre a seguinte base: “Ama o teu próximo, pois ele é como tu, porque vocês conhecem a alma do ser humano que se encontra em situação de extrema necessidade, sede amorosos com ele, pois vocês mesmos também são seres humanos e padeceis a mesma e extrema necessidade humana. Assim há de ler-se a mensagem do Antigo Testamento.” Buber desconstrói inteiramente a limitação da moral judaica, mesmo que alguns judeus limitem sua ação ao próprio grupo.”

Quanto à observação de que grupos humanos e mesmo os animais sociais podem adotar comportamentos de cuidado mútuo de membros do grupo, isso é plausível. Frequentemente isso ocorre de forma natural ou espontânea, mas pode ser também aprendido. De toda forma, é preciso diferenciar esse comportamento pouco elaborado de ajuda da sistemática reflexão sobre os procedimentos que regulam a vida coletiva. No caso humano, sem uma justificativa, o comportamento imoral ou amoral pode ser perfeitamente defendido. A ética é mais que a adoção ou reconhecimento de uma conduta moral, é um modelo teórico construído sobre princípios racionais que estruturam comportamentos justificados como sendo os melhores numa dada situação. Essa distinção é relativamente simples e banal, mas tem sido deixada de lado quando não se considera a relevância da reflexão sistemática e a fundamentação dos costumes. Apenas ela assegura que certos comportamentos ganham consistência no respeito aos valores mais importantes da existência. Essa distinção pode ser melhor apresentada como está abaixo no livro Ética (CARVALHO, 2010, p. 11/12): “A Ética é uma disciplina filosófica, sua criação é atribuída ao grego Aristóteles que a organizou como estudo dos costumes. Neste sentido, seu material não é uma criação dos filósofos, embora o sejam as considerações racionais ou a forma de pensar os costumes. Muitos séculos mais tarde da origem histórica da Ética, o filósofo alemão Immanuel Kant torna o que disse Aristóteles mais claro ao propor na Doutrina da Virtude (1797) que “a Ética não dá a lei para as ações, mas apenas as máximas das ações”.   Os costumes que um grupo adota e a disciplina que nasce dos princípios reconhecidos como bons permitem a boa convivência entre os seus membros. Os costumes ou mores formam um conjunto de regras desejáveis de comportamento para o grupo.  Este é o primeiro sentido de moral, a primeira forma como ela foi conhecida. Moral é, portanto, um conjunto de normas sobre as quais se debruça o filósofo. Portanto, as lições de Aristóteles apontavam para uma disciplina que surge como necessidade de justificação racional dos costumes. Esta distinção foi usada durante muitos séculos. No mundo moderno a distinção não pareceu tão importante, Kant mesmo não a utilizou, pois a origem etimológica de Ética e Moral não é diferente. De todo modo, parece interessante observar que costumes e valores nascem espontaneamente na vida das pessoas e grupos e estes materiais se tornam objeto de estudo para os filósofos. Logo, a Ética, como disciplina filosófica, faz a análise racional dos costumes para apontar seu fundamento, validar suas razões, esclarecer seus objetivos, etc.”

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

III- UM MUNDO PERFEITO EM PLATÃO. Selvino Antonio Malfatti




A ideia de perfeição supõe um estado de ausências de imperfeições no qual tudo é harmônico em seu grau máximo. A filosofia se abstém da matéria alcançando o belo e o verdadeiro absoluto, na forma pura. O conhecimento humano é limitado e por isso se vale do finito para captar o infinito. Vale-se de metáforas e analogias para expressar o que tem na mente. O perfeito dispensa o tempo e o espaço alinhando-se na transcendência,

Quem tentou chegar à Perfeição foi Platão. Os filósofos anteriores a Platão olharam o cosmos e se intrigaram devido à sua perfeição, por casa de sua inteligibilidade. Neste ponto entra Platão que levantou a hipótese de que algo inteligível devia ser perfeito. Até mesmo o fato de indeterminação intrigava por que seria contraditório imperfeito e inteligível. Por isso deveria haver um mundo perfeito cuja sombra seria o nosso mundo. Esta é a conhecida teoria do Mundo das Ideias, obra de Platão.

O autor elaborou a síntese de dois filósofos anteriores cujos ideias eram paradoxais: o ser e o devir: Parmênides de Heráclito ao interpretarem o universo.  As mudanças coexistindo com a estabilidade. Há estações e estas são sazonais. Há diferenças de grandezas, mas há proporções harmônicas, movimentos ao mesmo tempo inteligíveis. O universo era caos, mas logos. Como isso pode ser inteligível? Certamente por que o que é também deve ser não ser, ou um reflexo do que é ou sombra do ser. Há um mundo perfeito, o ser, as Ideias e há este mundo sensível que não passa de uma sombra.

No sentido bíblico ou cristão-judaico de um Deus pessoal, criador e providente, não se encontra em Platão. O sentido platônico de Deus é do Bem, inteligível. Santo Agostinho, iluminado pelo cristianismo, retomará essa busca, identificando em Deus a Verdade suprema que ilumina a inteligência humana.

Ou, mais sinteticamente: “De Platão a Agostinho, a busca do Bem e da Verdade transforma-se na busca de Deus.”Este broto teísta racional percorre o pensamento ocidental fora dos moldes bíblicos. O fundamento do pensamento platônico é que a realidade sensível não possui consistência que a torne possível de explicar. O que os sentidos percebem fogem da consistência, pois são corruptíveis de se degradam. Com isso o que se consegue captar dos seres é nada mais que uma realidade fugaz, sem subsistência. Que hoje é belo, amanhã não é mais, o que é justo transforma-se em injusto. O mundo mutável é impossível para o conhecimento verdadeiro. Por isso, necessariamente deve existir outro mundo, o verdadeiro, o mundo das ideias verdadeiras que abriga a verdade e o Bem. Embora Platão não empregue o termo Deus a conclusão a que chegou, embora com outro nome, coincide com a ideia de Deus. Um Deus inteligivel racionalmente, modelo de perfeição, cujas sombras se estendem no munso sensível.

No nosso mundo aparece o bem como sombra do Bem Supremo que ilumina este mundo como o sol mostrando os objetos físicos que são sombras de bem. O bem, por isso, não existe em outro, mas em si. É, portanto, um Ser, mas que neste mundo só existe em aparência que nos leva a conhecer a verdade.

Se o ser humano conhece o bem verdadeiro é por que é apto através de algo da mesma substância que é a alma cuja sombra antes habitava o Mundo das Ideias, agora unida ao corpo instrumento da alma.

Platão nasceu em Atenas em 428 ou 427 a. C e morreu em 348 ou 347 a. C. Foi discípulo de Sócrates por oito anos.

Em filosofia pretendeu solucionar a questão da universalidade dos conceitos pela existência real, embora imaterial. Concebeu um mundo de Essências, às quais projetavam suas sombras sobre este mundo. A razão humana, que conhecera aquele mundo, reconhece as sombras daquelas essências, Ideias, e por isso pode conhecer as normas morais e a essência das coisas.

Sua concepção de norma moral está intimamente ligada à Lei Perfeita do Mundo das Ideias. E o tema central que anima a meditação moral é a ideia de Justiça, transferida, por ele, para o plano do Mundo das Ideias. A Justiça do Mundo das ideias identifica-se com o Bem Absoluto. E a Felicidade, por sua vez, se identifica com o Bem.[1]

Na visão de Platão há uma permuta entre as essências e as sombras. Primeiramente, o homem deve dirigir-se ao mundo das ideias, apreender de lá o ideal e depois transportá-lo para este mundo.



[1] PLATÃO. Diálogos.V.II, Fédon, Sofista Político. Trad. De Jorge Paleikat e Cruz Costa. Porto Alegre, Globo, l955, p. 270-296.

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Zygmunt Bauman e a liquidez. José Mauricio de Carvalho

 



Neste final de semana tenho o prazer e a honra de anunciar um novo livro do colaborador: JOSÉ MAURICIO DE CARVALHO, que a analisa um eminente autor, o sociólogo polonês Zygmund Bauman. Para tanto entrego a palavra à edidora MPR Edições.

MPR Edições publica nova obra do filósofo José Mauricio de Carvalho sobre o pensamento de Zygmunt Bauman.

Com o título “Zygmunt Bauman e a liquidez”, o 41º livro do renomado intelectual mineiro propõe uma reflexão lúcida sobre os dilemas existenciais e as profundas transformações da sociedade contemporânea.

Em um tempo marcado pela volatilidade das relações, pelo excesso de telas e por rápidas incertezas sociais, a MPR Edições anuncia o lançamento de “Zygmunt Bauman e a liquidez; considerações sobre a vida em permanentes mudanças”. A obra celebra o 41º livro da vitoriosa trajetória de José Mauricio de Carvalho, uma das mais respeitadas e produtivas vozes da filosofia, psicologia e pedagogia no Brasil e em Portugal.

O livro promove um instigante encontro intelectual entre dois grandes pensadores: de um lado, Zygmunt Bauman (1925-2017), sociólogo polonês de projeção global que conceituou a “modernidade líquida”; do outro, o filósofo brasileiro José Mauricio de Carvalho, reconhecido por sua capacidade de dialogar com os dramas e dilemas do homem comum. O resultado é uma reflexão indispensável para compreender a vida contemporânea e suas circunstâncias.

A clareza como princípio ético e compromisso com o nosso tempo

O projeto editorial traz uma dimensão acadêmica e humana muito singular. O fundador da MPR Edições, o também filósofo Marcelo Pereira Rodrigues, foi aluno de José Mauricio na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e, há mais de duas décadas, edita mensalmente os artigos do professor na Revista Conhece-te.

“‘A clareza é a gentileza do filósofo’. Com esta sentença, citando a máxima do espanhol Ortega y Gasset — a quem dedicou anos de seus estudos —, José Mauricio corrigia minhas provas e o meu trabalho final de conclusão de curso na UFSJ”, relembra o editor Marcelo Pereira Rodrigues. “Lembro-me das brilhantes aulas do professor e de uma de suas falas que me marcou profundamente: a de que o verdadeiro filósofo discute os assuntos de sua época. Na prática, ao longo de mais de 20 anos, tenho percebido essa postura viva nos seus artigos.”

Em “Zygmunt Bauman e a liquidez”, essa mesma gentileza da clareza se faz presente. Com explanação acessível, lucidez argumentativa e rigor embasado em vasta bibliografia, José Mauricio de Carvalho aborda as angústias de um mundo em sobressalto.

Um livro de cabeceira contra os males da época

A obra ultrapassa os muros estritamente universitários. Com vocação para se tornar livro de cabeceira de leitores de diferentes perfis, o texto surge como um farol em meio à turbulência contemporânea: uma reflexão que previne contra condutas baseadas no consumismo desenfreado, no escapismo proporcionado pelo excesso de telas e nas crescentes atitudes de intolerância.

Mais do que teorias abstratas, o livro traz direções e setas iluminadas deste notável pensador mineiro, ajudando o leitor a encontrar firmeza em uma época caracterizada pela fluidez e pela efemeridade.

“A MPR Edições oferecerá em breve mais uma obra de indiscutível qualidade e peso intelectual, contribuindo decisivamente para o debate de ideias no cenário nacional e internacional”, completa Marcelo Pereira Rodrigues. As encomendas do livro já podem ser feitas.

SOBRE O AUTOR

José Mauricio de Carvalho atua com Filosofia, Psicologia e Pedagogia. Possui Doutorado em Filosofia e Pós-doutorado em Filosofia e Psicologia. Aposentou-se como Professor Titular no Departamento de Filosofia da UFSJ e leciona no Centro Universitário Afya São João del-Rei. Atende em consultório de psicologia e integra prestigiadas instituições científicas, como o Instituto de Filosofia Luso-brasileira e a Academia Internacional de Cultura Portuguesa.

Autor de 40 livros publicados e centenas de artigos científicos, traz em sua bibliografia obras de referência como: O Homem e a Filosofia, Ética, Ortega y Gasset e o nosso tempo, Viktor Frankl e o inconsciente espiritual, Viktor Frankl e a Psiquiatria, Karl Jaspers: Filosofia e Psicologia, Filosofia Clínica: uma abordagem fenomenológica e O enigma do inconsciente e a força da subjetividade.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

II- ONDE ENCONTRAR DEUS? Selvino Antonio Malfatti

 


Os primeiros pensadores, mormente os gregos, contemplaram o cosmos e tiraram conclusões sobre si mesmos e o que os rodeia. Sobre universo, concluíram que  não pode estar vazio. Há algo misterioso no universo. O que contém não é inacessível, mas esconde uma inegável sua presença. Sobre si, que cada um continha o todo.

Perguntaram sobre o enigma do universo, pois se deram conta que havia uma um espaço preenchido, mas não explicado. Não chegaram propriamente à pergunta teológica. Os próprios deuses não eram a resposta do mistério do universo, mas parte dele. O universo, por sua vez, respondia plenamente à lógica da inteligibilidade. Isto lhes causava estupor que eles o denominaram de thaumázein. Por que o universo é desse jeito? Por que tem algo e não nada? E por que é belo, harmonioso e agrada ver? É um cosmos, racional e regrado.

Quem o regula? Quem o torna sinfônico?

Apareceram vários opinantes que carregavam a certeza. O filósofo de Mileto, Tales, chegou ao princípio da água, Anaxímenes do ar, Heráclito do fogo. Este último concluiu também que existia o princípio do logos, da razão e Anaximandro do apeiron princípio fonte das derivações. Finalmente Parmênides chegou ao Ser princípio eterno e imutável. Estes pensadores não partiram de Deus para explicar o universo. Talvez se preocupassem com o universo para explicar Deus.

No aprofundamento da solução surgem outras com caracteres mais insinuantes como de universo visto pela matemática. Por ela Pitágoras estendeu o conhecimento para o universo e o compreendeu como uma estrutura racional que aponta para mais além.

Contra o pensamento dos sofistas se insurge Sócrates, (399-269 a.C.), precisamente na questão das generalizações. Para ele os conceitos tinham valor universal e, portanto, era possível o conhecimento, bem como, em moral, propor-se leis gerais de conduta. Ao relativismo científico-moral, opõe-lhe a certeza. Isto foi possível graças ao avanço introduzido na questão dos conceitos: são gerais, abstratos e necessários, enquanto as coisas, são particulares, sensíveis e contingentes. O homem, através de sua razão, capta o dado natural e o formula em conceitos. Há uma correspondência adequada entre aquilo que o homem elaborou com sua capacidade mental e aquilo que a natureza apresenta fenomenologicamente. O dado particular e o conceito geral estão em sintonia. Não é uma ruptura, mas uma continuidade. Esta postura gnosiológica levada à política e às leis, implicará em respostas diversas às dadas pelos sofistas e epicureus.

Sócrates não se referiu a uma lei natural propriamente dita ou a um direito natural. No entanto, ao proceder a crítica aos sofistas contrapõe-lhe a racionalidade das leis e da moral, apontando para a questão da racionalidade e generalidade em oposição aos instintos, aos sentimentos e à relatividade. Para ele, a virtude é inteligência, razão e ciência. Discorda, portanto, também dos epicureus, para os quais a virtude é um meio para o prazer. Em Sócrates, virtude é conhecimento e vício é ignorância. O fim do homem é o bem e não o útil. Ao declarar que era preciso alçar-se aos sentidos, propunha o ordenamento da ordem natural através da razão. Era preciso procurar os princípios na natureza e não a seguir cegamente. Por isso era preciso buscar a universalidade.

A Justiça não consiste apenas em normas e leis, mas numa Justiça Superior, oriunda da divindade, do daimon, ou da racionalidade. Nesse sentido há um “cum sensu” entre a ordem cósmica até mesmo teológica - e a atividade racional do homem.[1]

A mudança de método surge com Sócrates: o homem. Este é apenas o microcosmos. Se o compreendermos ao mesmo tempo deciframos o enigma do universo. O “conhecer-se” é o axioma do universo. Se deciframos o homem, pensa Sócrates, tem-se a plenitude do conhecimento, pois é na consciência que se encontra a ética moral, chave da compreensão superior do universo através do indivíduo. O “conhecer-se“ abre o caminho do conhecimento.

Pode-se dizer que Sócrates intermediou a cosmologia e antropologia. No primeiro plano estão os pré-socráticos que queriam explicar o cosmos, o universo. Já no segundo, o próprio Sócrates que desloca a reflexão para si mesmo. Os dois se complementam, pois no afã da busca de Deus os dois são válidos. Deus pode ser pesquisado no universo como os cientistas atuais e no próprio homem como os filósofos de agora.

 

 



[1] PLATÃO. Diálogos.V.II, Fédon, Sofista Político. Trad. De Jorge Paleikat e Cruz Costa. Porto Alegre, Globo, l955, p. 270-296.

 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

As ameaça ao sonho da igualdade social e politica. José Mauricio de Carvalho

 


Na antiguidade, quando ocorreu o desenvolvimento da agricultura, ela mudou o modo de viver dos primeiros grupos humanos, crianças com menos leite materno e mais mingau desenvolveram um sistema imunológico pior, e, em épocas de seca, a fome crescia e na abundância das colheitas fartas havia risco de sague. Muitas coisas novas com que se preocupar trouxe a revolução agrícola.

Quando a reunião de agricultores deu origens a cidades poderosas e até reinos fortes foi necessário criar elementos que assegurassem a reunião dessa gente. Isso se fez a partir de crenças comuns e mitos compartilhados por todos ou por grande parte dos membros do grupo. O aparecimento de grandes civilizações propiciou o desenvolvimento de uma legislação que fortalecia essa ordem imaginária, ou mesmo de instituições com um ethos próprio nos diz o historiador Yuval Harari em 21 lições para o século 21 (2018, p. 120): “é impossível organizar um exército unicamente por meio de coerção. Pelo menos alguns dos comandantes e soldados precisam acreditar realmente em alguma coisa: pode ser Deus, honra, pátria, coragem ou dinheiro.” Não é possível manter um grupo unido sem uma crença comum.

O Código de Hamurabi, elaborado em 1754 a.C., foi o primeiro da História e pretendeu consolidar uma organização social. Ele privilegiava o homem superior, ou um sistema hierárquico de classe. Nessas sociedades a desigualdade parecia natural e alguns tinham uma vida melhor que outros. Os criadores da pátria americana alimentaram crença diversa: o da igualdade dos homens em função de sua filiação divina. Essa crença encontra-se atualmente bastante ameaçada com o desenvolvimento da inteligência artificial e com a globalização da economia. 

Se pensamos nas consequências atuais da revolução agrícola, a saber o desenvolvimento da noção de propriedade e a efetiva posse de objetos, nós chegamos ao desenvolvimento de algo assim. Com a propriedade afirmou Harari (id., p. 103): “surgiram rígidas sociedades hierarquizadas, nas quais pequenas elites monopolizavam a maior parte da riqueza e poder, geração após geração.” E foi dessa forma que a posse da terra, de animais, plantas e ferramentas passaram a alimentar uma sociedade crescentemente desigual, sob a aparência de ser essa a natural vontade de Deus.  E dentro dessa mesma lógica a sociedade do século XXI pode estar caminhando para a organização mais desigual da História. Seria isso uma evolução natural? Pelo menos podemos contrapor que a consciência humana considerou que, de uma perspectiva axiológica, que é desejável uma sociedade humana não tão desigual. E o que faz esse fato tão estranho em nossos dias? O que se passou nos últimos séculos quando a modernidade alimentou o sonho de se criar uma sociedade menos desigual? Porque fomos criados na crença de que era possível uma sociedade mais justa?

No capítulo 4 de 21 lições para o século 21, Harari tentou responder e começou lembrando que (id., p. 103): “a igualdade tornou-se um ideal em quase todas as sociedades humanas.” Poderíamos dizer mais realisticamente, esse ideal é não de igualdade, mas de uma sociedade não tão profundamente desigual. O historiador recordou e resumiu o pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman sobre o processo de globalização, observando que esse fenômeno e o fim da sociedade industrial desidrataram o estado do bem-estar social. |Isso porque o Estado e os empresários antes precisavam de (ibidem): “milhões de trabalhadores saudáveis para operar as linhas de produção e de milhões de soldados leais para lutar nas trincheiras.” Precisavam, mas não precisam mais, pois com a globalização o capital voa livre de um local para o outro e não necessita de muitos trabalhadores, além dos drones substituírem centenas de homens nas guerras atuais. As máquinas inteligentes, as novas matérias-primas e a pulverização da produção garantem produzir sem grandes custos. O resultado do menor investimento social é que (id., p. 104): “o 1% mais rico é dono da metade da riqueza do mundo. Ainda mais alarmante, a cem pessoas mais ricas possuem juntas mais do que as 4 bilhões mais pobres.”

E há ainda algo mais perverso nesse mundo que se avizinha de biotecnologia avançada. Os muito ricos poderão pagar tratamentos e procedimentos que garantam maiores habilidades físicas e condições mentais superiores aos demais. Isso que hoje não é real, ainda que amplamente veiculado, poderá mesmo vir a ser a realidade. Um outro aspecto desse processo é que pode ser que em alguns lugares do mundo, a elite nacional econômica continue a cuidar da população local, mas na maioria dos países, inclusive nos Estados Unidos, a avaliação do historiador é que a elite aproveite (id., p. 105): “a primeira oportunidade para desmantelar o que restava do Estado do bem-estar social.” Nos países considerados em desenvolvimento isso será ainda mais dramático porque o nível de pobreza é maior.

Em resumo, a democracia e uma sociedade menos injusta encontra-se sendo esvaziada, tal como o estudo das humanidades e o desprestígio da intelectualidade.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

I- A BUSCA DE DEUS. Selvino Antonio Malfatti

 

 


Através de uma reflexão sobre si mesmo o ser humano se depara com uma tensão essencial: é possível um ser limitado, finito, situado num cosmos não delimitável abranger de modo inteligível uma realidade paradoxalmente oposta a si, de modo absoluto, infinito e transcendente? O finito pode entender o infinito? Pode um fragmento do universo pensar o universo todo e além disso se perguntar pelo seu fundamento?

Uma pergunta: a justificativa é busca de Deus? Faz parte do ser humano a busca de algo além de si que seja superior?  Examinemos o complexo de quem se preocupa. Verifica-se que é um humano, uma pessoa. É UM humano, dentre 8 bilhões só atuais, sem falar de todos os humanos até agora existidos em todos os tempos e lugares desde a emergência. Este humano habita um satélite, orbitando uma estrela de tamanho médio, coabitando entre galáxias, cada uma com incontáveis estrelas em distâncias calculadas em anos-luz. Tentemos localizar este humano neste habitat. O que é? Nada mais que um pó. Este existente pode ter noção de Deus, pensa? Pode pensar? O que pode pensar de Deus?  O que pode pensar? No máximo é que Deus é maior que o universo. Infinitamente maior.

A grandeza física não é nada comparada à potência espiritual. Nenhuma estrela e nem mesmo toda galáxia sabe algo.

E nem faz nada por si, a não ser exclusivamente o que for determinado pelas leis inerentes a ela. Nem mesmo sabe que existe, se conhece. É algo determinado, sem poder se autodeterminar.

Dentro do planeta existem seres hierarquizados no seu próprio ser. Um vegetal distancia-se hierarquicamente de um animal. Serve-o na própria alimentação para sua subsistência. Por usa vez o vegetal distancia-se dos seres inanimados. Serve-lhe de subsistência.

O ser humano quando examinado em si é um zero a esquerda. O que resta dele após sua morte? Um monte de podridão que pouco a pouco se decompõe até se tornar pó, nada.

Ainda assim, a eles, aos vegetais, animais e inanimados e ao próprio universo alça-se, e a ambos o servem de subsistência. Não bastam estas hierarquias. Comparadas ao que são ao homem são nulas. O homem as conhece, sabe o que são, de onde vieram e qual será seu fim. E mais que isso o próprio homem conhece-se, sabe de onde veio, mas não sabe qual o seu destino.

Diante do caos do fim procura nas estrelas, nos seres terrenos e em si mesmo qual seu fim. Ao examinar a si mesmo encontra uma resposta irrefutável. Algo diferente dos astros, dos seres vivos e do próprio homem: Deus.  Como um ser pó consegue conceber a existência de Deus? Este Ser no entanto, existe. Conhecem-no primeiramente os que se valem do senso comum. Estes abrangem a todos. Mas há os que não se valem do senso comum, mas da ciência e da reflexão. Estes últimos, vale a pena examiná-los. Quais as descobertas e o que concluíram?

A primeira conclusão é que o ser humano é um paradoxo: parece mentira, mas não é. Parece verdade, mas só parte. O ponto de partida a tal conjetura é de que este ser não e igual a ninguém, só a si mesmo: racional. Ao longo da História ocidental a plêiade é infindável. Da mesma forma se pode concluir do oriente. Os que tomaram como ponto de partida a racionalidade humana são conhecidos como filósofos. E os que utilizaram a racionalidade e se dedicaram experimentação são os cientistas.

Examinaremos no próximo artigo.

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Narrativas e alternativas. José Mauricio de Carvalho

 


No capítulo inicial de 21 lições para o século XXI, o historiador Yuval Harari examinou visões de mundo que dizem como o mundo nos parece ser, isto é, como ele é pensado e aparece para cada um de nós. Ele mostrou que estamos lidando, meio desconsolados, com os descaminhos da narrativa liberal, aquela que sobreviveu na consciência atual. Isso porque até recentemente o mundo conviveu com três narrativas diferentes e conflitantes (HARARI, 2018, p. 21): “que pretendiam explicar todo o passado e predizer o futuro do mundo inteiro: “a narrativa fascista, a narrativa comunista e a narrativa liberal.”

Com a dissolução das duas primeiras, a narrativa liberal tornou-se prevalente e hegemônica atualmente, o que ela contém explica parte da crise que vivemos. Isso porque ela vendeu a ilusão de que (id., p. 22): “se simplesmente continuarmos a liberalizar e globalizar nossos sistemas políticos e econômicos, o resultado será a paz e a prosperidade para todos.” Então, segundo essa visão de mundo, mesmo os lugares mais atrasados da política e economia também alcançarão índices elevados de desenvolvimento em algum momento. E se assim se pensou durante alguns anos desde o fim da União Soviética, um acontecimento mudou tudo. O sociólogo Zygmunt Bauman também se referiu a ele nesse sentido como o início de uma desorientação. Desde (id., p. 23): “a crise financeira de 2008, pessoas em todo o mundo estão cada vez mais desiludidas com a narrativa liberal.” O descrédito dela resultou também da desidratação do estado do bem-estar social, um dos efeitos da globalização atual.

Em nosso tempo surgiram dois grupos. De um lado, encontramos pessoas que sabem que as coisas não ficarão tão boas quanto anunciam os papas do liberalismo, mas essa realidade lhes beneficia e eles não querem abrir mão dela. De outro lado, estão os que tomam a ideia de um progresso universal como o discurso de uma elite que se enriquece às expensas das massas e estão desiludidos e sem direção. A existência de uma só narrativa dá a entender que se sabe o que real e verdadeiramente está ocorrendo. E quando as coisas não se ajeitam como o esperado é porque estamos indo para o caos. De fato, a elite liberal não está sabendo como explicar o rumo das coisas em nossos dias, mas segue repetindo o mantra do mercado e encontrou no migrante o responsável pelos problemas. Quanto aos políticos liberais ficaram distantes das causas defendidas até a pouco (id., p. 24): “o sistema político liberal tomou a forma durante a era industrial para gerir um mundo de máquinas a vapor, refinarias de petróleo e aparelhos de televisão. Agora, tem encontrado dificuldade em lidar com as revoluções em curso na tecnologia da informação e na biotecnologia.”

O historiador Yuval Harari resumiu em três narrativas a visão de mundo que povoou a consciência humana até a pouco: a liberal, a comunista e a nazista, apresentando-as como três visões que esgotam a compreensão de mundo até recentemente. Narrativas são formas de relatar acontecimentos ou fatos, numa sequência lógica e coerente, embora não necessariamente exata. E, em certo sentido, essas leituras de mundo são realmente narrativas, pois são descrições de fatos reais ou não, crenças e valores diversos. E nessas três narrativas fatos não necessariamente verdadeiros e crenças mal justificadas se misturam bem. A solução que ele propôs para a insuficiência ou inconveniência delas é de deixa-las de lado como descrições globais e acolher relatos locais, o que não parece ser a melhor solução para as dificuldades e descaminhos atuais. Primeiro porque os problemas ecológicos, econômicos, de segurança, de deslocamento populacional e ligados ao mundo do trabalho não serão resolvidos com soluções locais, segundo porque a construção de uma visão de mundo que possa ajudar o homem a reencontrar caminhos não pode ficar restrita a essas três narrativas. Todas elas, assim parece, de alguma forma trouxeram elementos nucleares dos valores que formam nossa tradição cultural, elas os acolheram de determinado modo e trabalharam a partir disso. O que é preciso fazer é recuperar nessas narrativas os valores fundamentais de nossa cultura e em especial o da pessoa humana, sua dignidade e liberdade. Nesse sentido, a tradição humanística do ocidente, os conhecimentos filosóficos e jurídicos que vieram do mundo antigo e certos valores gestados no cristianismo são fundamentais como formadores de uma visão de mundo que nos parece mais exata. Uma nova forma de construir o que pensamos do mundo poderá servir de caminho para uma humanidade hoje desiludida, desconcertada, incerta, insegura, temerosa, perplexa com a insuficiência da narrativa liberal. No entanto, o caminho não está nas outras narrativas mencionadas pelo historiador, mas em superar a descrição de mundo como uma dessas narrativas, porque narrativas aproximam fatos verdadeiros e não verdadeiros, crenças mais ou menos razoáveis na sequência narrativa. Apresentar a compreensão de mundo como uma dessas narrativas, colocando-as como únicas possíveis, fecha a porta para leituras mais amplas e coloca em igualdade de condições qualquer tipo de discurso que se construa sobre o mundo e a vida. Então o caminho não pode ser esse, assumir a narrativa liberal como integralmente válida, nem excluir outras formas de ver o problema.

 

 

 

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