sexta-feira, 8 de maio de 2026

A MIRA DO PODER FERIDO: FEMINICÍDIO. Selvino Antonio Malfatti

 


Num ambiente cultural configurado sociologicamente pela supremacia do homem sobre a mulher pelo qual nem tudo o que permitido ao homem é também à mulher, repentinamente, a mulher imbuída de outro pensar tenta agir de forma autônoma permitindo-se fazer tudo o que o homem faz configura-se um conflito explícito e aberto de confronto. Se ao homem tacitamente é permitido manter relacionamentos sexuais com outras mulheres além da esposa ou namorada, uma mulher resolve agir da mesma forma, isto é, ter ralações sexuais além do marido ou namorado, necessariamente haverá reações conflituosas entre ambos. Neste caso ocorre uma quebra de comportamento atribuído. E persistindo, o homem pode invocar seu poder e agredir ou mesmo matar sua companheira. Não se trata de defender nem condenar o homem ou a mulher, apenas explicar para entender.
O feminicídio, nesse contexto, não pode ser reduzido a atos isolados ou a reações individuais descontroladas. Trata-se de um fenômeno inserido em uma estrutura social mais ampla, na qual persistem desigualdades de gênero profundamente enraizadas. Mesmo em sociedades que avançaram juridicamente na promoção da igualdade, permanecem práticas simbólicas e culturais que naturalizam a superioridade masculina e a subordinação feminina. Assim, a violência extrema contra a mulher revela não apenas conflitos interpessoais, mas a permanência de uma lógica estrutural de dominação que se manifesta quando os papéis tradicionais são questionados.
Com efeito, Dürkheim explica que a vida social se mantém através de normas coletivas, ao homem maior permissividade sexual e à mulher controle e expectativa de fidelidade. São os papéis de gênero institucionalizados. Se caso a mulher agir fora dos padrões há uma quebra de expectativa social socialmente estruturada.
Já Pierre Bourdieu baseia-se sobre o conceito de dominação masculina, construída ao longo da história. Este agir criou um habitus, isto é, disposições internalizadas. O homem se sente mais livre e a mulher internaliza limites. No momento em que a mulher rompe com os padrões, o homem sente a perda de posição, gerando o conflito que pode levar à violência que pretende reafirmar a hierarquia tradicional.
Por sua vez Michel Foucault baseia-se sobre a princípio de que a sexualidade é regulada socialmente pelo qual o corpo feminino é historicamente mais controlado que o masculino. Disso resulta que ao homem é aceito socialmente mais liberdade enquanto
que a mulher aceita-se a vigilância e sanções. Se a mulher rompe o dispositivo do controle social desencadeia-se o conflito com uma reação reparadora.
Já Simone de Beauvoir denunciava que a mulher foi construída culturalmente como “outro” com liberdade vigiada e controlada. Na mesma linha Judith Butler denuncia que o gênero é um resultado social repetido. Quando alguém ousa romper desestabiliza o sistema e gera o conflito, por que não é apenas uma ação individual isolada, mas a subversão da estrutura simbólica toda.
Por fim a linha marxista pela qual as mudanças geram conflitos. Quando grupos subordinados, no caso as mulheres, pretendem ampliar alargar sua esfera de autonomia dão origem a tensões com grupos que detém privilégios, no caso os homens. A perda de controle gera a violência na tentativa de voltar ao que era e restaurar a autoridade, controle e o poder masculino ameaçado.
Em síntese, não se quer justificar, apenas explicar e tornar inteligível o fenômeno do feminicídio
É importante, contudo, evitar uma leitura simplista que estabeleça uma relação direta entre a emancipação feminina e o aumento da violência. A ampliação da autonomia das mulheres não cria o feminicídio, mas pode tornar mais visíveis tensões já presentes em estruturas sociais historicamente desiguais. Nesse sentido, o conflito não nasce da liberdade em si, mas da permanência de padrões culturais que não acompanharam, no mesmo ritmo, as transformações sociais. A violência, portanto, não deve ser compreendida como consequência da mudança, mas como expressão de uma ordem que resiste a ela.
O feminicídio, nesse contexto, não pode ser reduzido a atos isolados ou a reações individuais descontroladas. Trata-se de um fenômeno inserido em uma estrutura social mais ampla, na qual persistem desigualdades de gênero profundamente enraizadas. Mesmo em sociedades que avançaram juridicamente na promoção da igualdade, permanecem práticas simbólicas e culturais que naturalizam a superioridade masculina e a subordinação feminina. Assim, a violência extrema contra a mulher revela não apenas conflitos interpessoais, mas a permanência de uma lógica estrutural de dominação que se manifesta quando os papéis tradicionais são questionados.
À luz da tradição da Escola de Frankfurt, é possível aprofundar essa análise ao compreender a violência não apenas como ato individual, mas como produto de formas
de dominação social mais amplas. Autores como Theodor Adorno e Max Horkheimer evidenciam que a sociedade moderna, embora marcada por avanços racionais, mantém estruturas de poder que reproduzem desigualdades e formas sutis de opressão. A chamada racionalidade instrumental — orientada pelo controle, pela eficiência e pela dominação — pode contribuir para a objetificação do outro, reduzindo-o à condição de meio. Nesse cenário, a mulher, historicamente colocada em posição de subordinação, torna-se alvo privilegiado dessa lógica. Quando essa ordem é contestada, a reação violenta pode emergir como tentativa de restabelecimento de um controle ameaçado, revelando a persistência de traços autoritários nas relações sociais.
Neste contexto não se pode deixar de levar em conta o Movimento Estudantil de 68 que estabeleceu algumas linhas de comportamento social que exacerbaram as relações entre os gêneros. Podem ser destacados: contestação das estruturas de autoridade, moral dita burguesa, e os papéis socias vigentes. Este movimento extrapolou o campo político e alcançou o cultural como um todo na medida que defendia a liberdade individual (cada um sabe o que é melhor para si), igualdade de gênero (fim da hierarquia entre homem e mulher) e emancipação às normas consideradas opressivas. O lema “proibido proibir” resume a filosofia deste movimento e que tornou mais sensíveis as relações entre gêneros. O movimentou aguçou a questão da igualdade, autonomia e reconhecimento social da
mulher.
À luz das abordagens sociológicas e da teoria crítica, o feminicídio revela-se não como um fenômeno isolado ou meramente individual, mas como expressão de estruturas históricas de dominação de gênero ainda presentes na sociedade contemporânea. A ruptura dos papéis tradicionais, impulsionada pelos avanços na autonomia feminina, não constitui a causa da violência, mas evidencia tensões latentes em uma ordem social que resiste à transformação. Nesse sentido, a violência extrema contra a mulher deve ser compreendida como tentativa de reafirmação de hierarquias simbólicas e materiais ameaçadas, articulando dimensões culturais, normativas e de poder. A contribuição da Escola de Frankfurt permite aprofundar essa análise ao evidenciar como formas de racionalidade e dominação se reproduzem nas relações sociais, tornando o feminicídio uma manifestação crítica das contradições da modernidade e um desafio ético central para a construção de uma sociedade verdadeiramente igualitária.
 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

DILEMA DA IGREJA:SALVAÇÃO ETERNA OU REDENÇÃO SOCIAL? Selvino Antonio Malfatti.



O filósofo italiano, Vittorio Messori, levantou a questão da prioridade da Igreja: o social ou o teológico? Com efeito, atualmente há amplos setores do clero eclesiástico que dá ênfase na missão social da Igreja. Isso ocorreu após o Concílio Vaticano II. O Concílio não negou, nem colocou em segundo plano a dimensão teológica, mas propôs que a Igreja se fizesse presente no mundo. Para tanto era preciso que atendesse a justiça social, dignidade humana, a paz e se preocupasse com a pobreza. O convite foi recebido com entusiasmo frenético entre setores do clero. Afinal era muito mais receptivo falar da promessa terrena do que a celestial. A partir de então surgiram até teorizações sendo a mais conhecida a Teologia da Libertação, surgida nas décadas de Sessenta e Setenta. A vivência cristã passou a ser pautada pelo olhar da pobreza e opressão. A proximidade com as teses marxistas levou grande parte dos seguidores ao marxismo, inclusive ao comunismo. A fé foi deixada para um segundo plano e o social assume a prioridade, pregando e atuando mirando na perspectiva de um reino dos céus na terra em detrimento da escatologia divina, o céu.

Vittorio Messori em “Hipóteses sobre Jesus” (Ipotesi su Gesù ), considera um grave erro da parte do clero enfatizar prioritariamente problemas sociais e políticos desconsiderando questões teológicas dos dogmas e a vida eterna. Isso porque as grandes questões teológicas como o mal, a morte, a salvação foram deixadis de lado da pregação.[i]

Para Messori o fim principal de mensagem cristã não reside na mudança das estruturas sócio-econômicas, mas no destino do ser humano. O núcleo da escatologia é a reflexão sobre a morte, o juízo final e a vida eterna. É nisso que se diferencia a fé cristã de outras formas de pensamento humanista ou ditos humanistas principalmente o marxista. Se a Igreja se abstiver destes temas perderá sua identidade se tornará mais uma instituição apenas social.

Parte do clero foi engolido pelo processo de secularização que oculta a morte e vida do além. Este clero doura a pílula e faz crer que ao se solucionar os problemas terrenos automaticamente se solucionam os espirituais como se a alma acompanhasse a salvação do corpo. Concorda-se que estes temas não são populares e confortáveis, mas são da essência da vida cristã, mormente o mistério da redenção. Sem eles as pessoas ficam privadas da opção radical da fé cristã. O dizer seu “sim”.

O problema discutido por Messori não é a questão social, mas o desiquilíbrio entre as questões sociais e as teológicas. As socias passaram a ser prioritárias, enquanto as teológicas praticamente esquecidas ou vistas somente na perspectiva social. Para a Igreja as questões socias estão inseridas nas teológicas, isto é, na caridade. O verdadeiro equilíbrio consiste no anúncio das verdades da fé – dogmas e vida eterna – e depois o compromisso com a justiça e solidariedade. O problema está na “mundanização” da Igreja. As pautas sociais se sobrepõem às transcendentes. A solução está na recentralização da escatologia complementada pela justiça social.



[i] “A cultura contemporânea tende a remover a morte, a escondê-la, a silenciá-la. Mas o cristianismo nasce precisamente como resposta à morte. Se se elimina essa questão, tudo o mais perde sentido: também a moral, também o compromisso social. Sem a perspectiva do além, o cristianismo se reduz a uma ética entre outras.” Vittorio Messori,  Scommessa sulla morte (A aposta na morte). 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

A presença do Papa no mundo líquido. José Mauricio de Carvalho

 



O sociólogo Zygmunt Bauman nos descreveu uma imagem chocante do momento atual e ajudou a entender porque há tanta gente com dificuldade de conversar com nossa sociedade. Ele associou a insegurança existencial de nossos dias às profundas alterações econômicas devido às dificuldades impostas por um capitalismo financeiro e globalizado que deseja a liberdade de lucrar sem limites. A única liberdade de que falam seus defensores é essa. O resultado é a instabilidade econômica e a insegurança existencial pois não se vive seguro quando não se sabe (BAUMAN, 44 cartas do mundo líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 142): “se amanhã ainda terei emprego.” E se o Estado garantirá a escola e o hospital. Esse processo tem, ainda outras fontes de instabilidade como: a transformação dos valores, das redes de apoio social, da vida educacional, da força das instituições, das mudanças nos relacionamentos amorosos, resultando em dias em que nada está assegurado e tudo pode mudar. Em resumo vivemos num (id., p. 143): “mundo líquido sempre em mudança, confuso, desordenado e cheio de brumas, imprevisível, em que abundam armadilhas e ciladas.”

Mesmo as relações pessoais, amores, família, amizade tudo ficou diferente e passou a ser tratado como fumaça, conduzidas que são pela lógica da mercadoria. Se uma não funciona troca-se sem problema ou sofrimento. Quero viver meus desejos, é só isso o que importa. Uma relação líquida, ou pura, como o sociólogo apresenta (BAUMAN, 2008 b, p. 33): “nega de forma enfática (...) a responsabilidade pelo outro, que é fundamental em termos éticos.” Portanto, uma relação amorosa pensada em termos de desejos pessoais deixa de fora o outro ou outros, no caso da família.

Havia tantas certezas, práticas e costumes sólidos até algumas décadas e tudo se liquefez e se tornou débil atualmente, quando as intensas mudanças corroeram certezas de séculos. E isso é sentido como uma crise que percebíamos, mas era pouco consciente. Não há como viver num mundo que não existe mais, mas há referências a serem preservadas para se viver nesse.    

Uma das novidades desses dias líquidos é o reaparecimento da extrema direita (fascista, nazista ou neofacista como quiserem) capaz de defender os interesses desse mundo líquido. Quero colocar entre essas coisas as críticas do Presidente Donald Trump ao papa Leão XIV, como já criticara o Papa Francisco e a qualquer um que se oponha a suas decisões ou ao propósito da liberdade de enriquecer sem limites. Trump acusou o Papa de ser fraco em política internacional e evocou a noção de guerra justa, enquanto o Pontífice chama atenção para outra forma de resolver os conflitos, expressando o desejo de uma humanidade pacífica. É claro que a guerra movida por Trump e Israel não são justas no sentido que a Igreja defende, embora seja preciso acabar com o apoio do Irã aos grupos terroristas que atacam Israel e não parece que essa guerra produzirá tal efeito.

Não se discute o direito de Israel se defender e nem das nações democráticas temerem uma república islâmica com artefatos nucleares, ambas as coisas causas de instabilidade. O Papa não aprova tais coisas, exorta que não apenas um dos lados deixe de guerrear, mas que a boa vontade de ambos exista para acabarem com a guerra e usem o caminho da razão e da paz. A convivência num mundo em paz é um sonho que vale a pena e o Papa o apresenta. Pede que os homens encontrem o caminho da paz, com a democracia, a razão e preocupações morais. Numa perspectiva religiosa, o Papa Leão XIV retomou o que o filósofo Emanuel Kant escreveu no ensaio A paz perpétua de 1795. Mesmo tendo inclinações egoístas (ou a pecar) os homens são chamados a organizar a vida de forma mais racional e moral.

Nesse mundo líquido o Papa, Francisco ou Leão, representam uma liderança moral não mais encontrada em outras instituições. Assim, as críticas inusitadas ao Papa são próprias de um tempo maluco. Traz coisas que nem loucos como Hitler e Mussolini ousaram fazer. Então que Leão tenha sucesso em sua visita pastoral aos países da África. E sobretudo possa ser a consciência visível da paz, do amor fraterno e da responsabilidade pelo outro nesse mundo líquido. Porque Francisco ou Leão são uma das poucas referências seguras nesse mundo líquido.  

 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Orbán e a Ideologia Ilibiral e o Brasil. Selvino Antonio Malfatti.









Como se comporta um regime iliberal? O conceito de liberal está associado etimologicamente a “liber” ou “libertas”, do latim que significa ser livre e ter liberdade. Politicamente é o regime constitucional, isto é, há uma constituição que garante os direitos do Indivíduo e do estado, com governo oriundo da vontade popular através de eleições. Neste caso, liberal e democrático em política são iguais. 
No conceito de iliberal há a negação da liberdade, em parte ou total. Neste em que pese o governo ser eleito pelo povo, tem seus direitos restringidos . O estado de direito sofre a erosão de seu poder por sucessivos ataques e ingerência à autonomia do judiciário, à liberdade de imprensa e a órgãos de fiscalização, Exacerbação da vontade da maioria em detrimento das minorias. O poder governamental invocando maioria atropela as minorias. Apesar de existirem eleições livres e competitivas os princípios democráticos, como respeito aos direitos individuais e respeito às minorias, são ignorados.

Dentre os principais líderes e modelos podem ser mencionados:

1.   Viktor Orbán, Ungria, seu teórico -prático da Europa.

2.   Vladimir Putin da Rússia. Destaca-se pela concentração dos poderes e perseguição aos opositores.

3.   Recep Tayyip Erdoğan (Turquia). Famoso pela perseguição à imprensa.

4.   Alguns partidos de direita como o “Lei e Justiça” na Polônia. Sua característica é exacerbar o poder do executivo em detrimento dos demais.

O Brasil tem uma Constituição que consagra um genuíno regime político liberal. Estabelece as liberdades públicas e privadas, divisão de poderes com seus limites, autonomia do judiciário, liberdade de imprensa.

O problema se situa na prática, quando a lógica da maioria ultrapassa os limites constitucionais. Governos eleitos legítimos invocando a maioria avançam o limite subestimando o judiciário e este invocando prerrogativas constitucionais confrontam-se com os outros poderes. A imprensa, em nome da vontade do povo conferido ao governo, é enfraquecida nos mecanismos de fiscalização. As redes sociais são submetidas à fiscalização injustificada. Tudo isso atenta contra as garantias institucionais. O pivô é o poder judiciário. Este se arvora juiz do equilíbrio político não se dando conta da ingerência nos outros poderes. Este, o judiciário, defende-se dizendo que impede a tirania dos poderes.

O filósofo francês Alexis de Tocqueville foi o que chamou a atenção do perigo das maiorias. Mal conduzidas levam à tirania e ao arbítrio. Por isso, a soberania popular deve ter um consenso sobre um pacto superior. As maiorias são condições necessárias para democracia, mas isto não basta. É preciso salvaguarda das liberdades individuais, imprensa livre e garantias eleitorais.

 

Pelas afirmações acima pode o Brasil ser considerado um país iliberal totalmente, em parte ou nenhuma? Quais os traços iliberais que se pode constatar?

Examinemos por partes. Constata-se que o Supremo Tribunal Federal expandiu suas fronteiras de atuação invadindo áreas de outros poderes de tal sorte que vários classificam esta atitude como um ativismo judicial. Por isso, pode ser uma barreira ao liberalismo como uma tensão ao princípio democrático majoritário.

Em relação à liberdade de expressão há acusações de que o esforço do governo em querer regular as redes sociais seja apenas uma desculpa para controlar a livre expressão através de censura.

Acusação de tirania de maioria se constatou em diversas tentativas e em diferentes governos, não um especificamente, para deslegitimar instituições, via um discurso contra a imprensa e órgãos de fiscalização.

Estas constatações nos sugerem que o Brasil não é um país genuinamente iliberal, mas parcialmente.


I. “O novo Estado que estamos construindo na Hungria não faz dessa ideologia (liberal) o elemento central da organização do Estado.”Um Estado iliberal não rejeita os princípios fundamentais do liberalismo, como a liberdade, mas não faz dessa ideologia o elemento central da organização do Estado.”(Viktor Orbán)

II. A eleição de 12 de abril 2026, impôs uma virada ideológica na Hungria, depois de 16 anos de iliberalismo. O candidato opositor de Orbán, Péter Magyar venceu as eleições presidenciais, com o seguinte resultado:

  • Péter Magyar (Tisza): ~53% dos votos
  • Viktor Orbán (Fidesz): ~37%–38% dos voto

Estabelecendo uma diferença cerca de 15 a 16 pontos percentuais. 

Em que pese ideologia autoritária, Orbán teve a honradez de reconhecer publicamente a vitória de seu adversário.



sexta-feira, 10 de abril de 2026

SOLUÇÕES SOCIAIS ATUAIS- PROBLEMAS FUTUROS. Selvino Antonio Malfatti

 




Refletindo sobre os principais problemas sociais que afligem o mundo atual, deparei-me assustado, estupefato com um fato: os problemas atuais foram soluções no passado. Comecei a pensar nas favelas, um problemão social atual e no passado uma solução. Nem todos podiam morar no centro, evidente. Deslocaram-se então para periferia. Na época uma solução, atualmente um problema. O êxodo rural. Escasseando a terra para plantar ou morar alguns se deslocaram para as cidades. A solução antiga virou um problema atual. Casais solteiros e elas grávidas foram forçados a casar. Novamente aquilo que acharam como solução virou um problema social, pois logo adiante separação, criando outro problema e forçando soluções. Durante a pandemia da COVID incrementou-se a EAD, atualmente um surto de profissionais mal preperados.

Por isso antes de se aplicar uma solução ao problema deve-se refletir se isto não acarretará outros problemas no futuro e tentar evitá-los. É o caso de alguns problemas atuais.

Nas últimas décadas, as transformações no mundo do trabalho, o avanço da globalização, as mudanças tecnológicas e as políticas implantadas pelas IAs têm gerado novas configurações da pobreza tanto nas cidades quanto no campo. A sociologia contemporânea tem se dedicado a compreender como essas formas de pobreza extrapolam os limites da renda, incorporando dimensões como moradia, o acesso a direitos, exclusão simbólica e ambiental. Quais os possíveis problemas que advirão das soluções atuais?

A pobreza urbana atual está profundamente marcada pela informalidade, pela insegurança habitacional e pela exclusão social. Diferentemente das formas tradicionais de pobreza, caracterizadas pela marginalização completa do sistema produtivo, as novas expressões urbanas da pobreza se inserem em circuitos econômicos informais, como a "uberização" do trabalho. Essas populações compõem a "ralé estrutural", mantida em situação de subalternidade por estruturas históricas de desigualdade. O desafio: como inserir estas populações no sistema produtivo formal? Criação de novos empregos? Por quem? Pelos empreendedores? Com verbas subsidiadas? Pelo governo? Com verbas de impostos? Pelo cenário que se vislumbra as possibilidades são todas problemáticas? Deixar que as “aboboras se acomodem com o tempo”? Buscar soluções pelas políticas públicas? O problema está  na invisibilidade dessas áreas pelos políticos para destinar recursos. A gentrificação? Esta solução valorizaria as áreas e pessoas de recursos se apossam o que expulsa os pobres de regiões centrais em nome da valorização imobiliária.

Não são diferentes no espaço rural, as novas formas de pobreza ligadas à perda de autonomia das comunidades agrícolas e ao avanço do agronegócio. A concentração fundiária, a mecanização da produção e a financeirização da terra provocam o esvaziamento das economias locais e o deslocamento de populações tradicionais A pobreza não se manifesta apenas na renda, mas também na carência de infraestrutura básica, como saneamento, transporte e saúde.

O que fazer para manter as populações rurais no campo? Principalmente os mais jovens? A juventude rural encontra poucos incentivos para permanecer no campo, o que leva ao êxodo rural precoce e à reprodução de ciclos de pobreza intergeracional. Enquanto isso, os que ficam, sobretudo mulheres e idosos, enfrentam dificuldades de acesso a políticas públicas e a mercados de produção. A solução seria dar-lhes condições para que permaneçam no campo. E como? Proporcionar-lhe especialização no trato com o meio rural com cursos de aperfeiçoamento. Quem irá conseguir? Só alguns, pois inevitavelmente se fará uma seleção ou triagem. E os demais? Eles continuarão a alimentar a cadeia da exclusão.

E não é só isso a injustiça ambiental é uma marca da pobreza rural contemporânea. Comunidades quilombolas, indígenas e camponesas sofrem com a degradação ambiental, o uso intensivo de agrotóxicos e os conflitos por terra. Trata-se de uma disputa entre diferentes racionalidades de uso do território: a racionalidade da mercadoria e a da vida. Qual a solução e e de que forma os novos problemas aparecerão?


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Páscoa 2026. José Mauricio de Carvalho

 


A Páscoa é uma festa fundamental para os judeus, eles recordavam a liberdade, denominada Pessach. O dia de lembrar que foram libertos do Egito, país onde estiveram cativos por quase 400 anos. É claro que se a massa de judeus assim celebrava e agradecia a YHWH ou YHVH (Eu sou), o Senhor do céu e da terra pelo alívio da escravidão, aqueles mais espiritualizados iam além ao comemorar a liberdade não só política, mas das prisões terrenas, dos limites que nos fazem menor, das dores que nos prendem à matéria. Libertar-se dos limites e transcender o que se é. Conta o evangelho de Mateus que, como bom judeu, Jesus de Nazaré, foi a Jerusalém com seus discípulos para comemorar a Páscoa.

O evangelho de Mateus relata (26, 17-19) que: 17 No primeiro dia da Festa dos Pães sem Fermento, os discípulos chegaram perto de Jesus e perguntaram: — Onde é que o senhor quer que a gente prepare o jantar da Páscoa para o senhor? 18 Ele respondeu: — Vão até a cidade, procurem certo homem e digam: “O Mestre manda dizer: A minha hora chegou. Os meus discípulos e eu vamos comemorar a Páscoa na sua casa.” 19 Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam o jantar da Páscoa.

Bem antes daquele dia, quando eles nem sonhavam, no capítulo 16, o mestre já lhes anunciara que seria preciso ir a Jerusalém, onde sofreria nas mãos dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos gentios. A ida a Jerusalém contemplava um plano maior, a ampliação do significado da Páscoa, tornando-a não apenas comemoração da libertação política do povo, ou a libertação de alguma circunstância ruim, mas ser a porta de entrada de uma vida plena, uma vida diferente, uma vida superior.

Somente Alguém com a estrutura psicológica perfeita, um homem completo seria capaz de transformar aquela festa, que para Ele era a despedida dessa vida, num sacramento permanente, num ritual que O traria sempre para perto de seus amigos queridos, mesmo quando ele já não estivesse fisicamente presente. De seu coração pleno brotou, naquela noite em Jerusalém, a luz que tocou o pão sem fermento para torná-lo igual a seu corpo e o vinho para ser o seu sangue. E somente um Deus tão maravilhoso podia, na simplicidade de sua despedida da terra, deixar gestos de humildade e amor, com a serenidade, solenidade e profundidade que o ritual pedia. E o impacto foi feito foi tão forte que seus discípulos passaram a repeti-lo nos anos seguintes e a Igreja o faz ainda hoje com igual emoção, devoção, veneração e respeito.

Assim, Ele se despediu e, mesmo sendo tão querido pelos apóstolos, tão essencial para eles, Jesus os preparou para enfrentar o vazio de sua presença. Ele lhes deu uma luz para a difícil tarefa de viver sem seus ensinamentos. Isso porque mesmo sem deixar de estar com cada pessoa que o chama, quando foi elevado ao céu, Ele não mais era visível com seu sorriso bondoso, seu olhar amigo e sua mão milagrosa.

Depois da ceia fantástica, do julgamento imparcial, da morte pavorosa, quando tudo parecia perdido e a vida vazia, quando a noite eterna abateu-se na alma de cada discípulo e nada fazia sentido, Ele apareceu de forma singela a uma de suas amigas para lhe anunciar: Eu estou vivo. Avisem a meus amigos que a morte não me conteve, como eu já havia mostrado que seria, quando tirei Lázaro da tumba e trouxe à vida várias pessoas mortas. A vida que eu vivo é maior que a morte e que estarei com todos os que se reunirem em meu nome até o fim dos tempos. Porque eu estou com YHWH e Ele em mim no amor do Espírito Santo.

Então, quase dois mil anos depois daquela ceia e da passagem para a vida superior, que essa festa seja, para cada um de nós, a oportunidade de experimentar, ainda que de forma pálida, a vida plena que Ele nos oferece.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

CORRERAM AO SEPULCRO. Selvino Antonio Malfatti

 



Era cedo. Ainda escuro. O mundo parecia suspenso entre a dor e a esperança.

Madalena caminhava apressada, inquieta. Cada passo batia um aperto no coração. Queria apenas cuidar do corpo de Jesus mais uma vez… um último gesto de amor, de gratidão, de despedida.
Mas ao chegar… algo quebrou dentro dela.

O túmulo estava aberto.

Um frio percorreu seu corpo.
“Não… não pode ser…”

Ela não entrou. Não teve coragem. Sua mente disparou antes que o coração pudesse compreender.
— Levaram Ele… roubaram o meu Senhor…

O medo a dominou. Não pensou, não refletiu — apenas correu. Corria como quem tenta fugir da própria dor. Ofegante, desesperada, foi até Pedro e João.


Pedro ouviu as palavras de Madalena e sentiu o peso delas cair sobre sua alma cansada.
“Roubaram…”

Algo dentro dele doeu profundamente.
Já não bastava a culpa que carregava? Já não bastava ter negado o Mestre?

Mesmo assim, levantou-se.
E correu.

Seus passos eram pesados, não apenas pela idade, mas pelo coração carregado. Enquanto corria, sua mente lutava:
“E se for verdade? E se nem o corpo restou? O que mais ainda nos será tirado?”

Mas havia algo mais… uma centelha, quase imperceptível:
“E se não for isso? E se houver algo que ainda não compreendemos?”


João correu ao lado de Pedro — ou melhor, à frente dele.
Seus passos eram leves, movidos por algo mais forte que o medo: o amor.

Enquanto corria, pensamentos se misturavam dentro dele:
“Madalena pode ter se enganado… talvez estivesse escuro… talvez não tenha visto direito…”

Mas, no fundo… havia outra voz, silenciosa e firme:
“Ele disse… Ele prometeu…”

O coração de João batia acelerado — não apenas pelo esforço da corrida, mas por uma esperança que começava a nascer, ainda frágil, mas viva.

“E se Ele estiver vivo? E se tudo isso fizer sentido agora?”


João chegou primeiro. Parou diante do sepulcro aberto.
O silêncio era profundo.

Olhou para dentro… e hesitou.

Pedro chegou logo depois, ofegante, marcado pelo cansaço e pela vida. Sem pensar muito, entrou.

E então… o inesperado.

Os panos estavam ali. Dobrados. Em ordem.
Não havia pressa. Não havia violência. Nada de roubo.

Pedro ficou em silêncio.

Algo começou a mudar dentro dele.
A dor não desapareceu… mas começou a dar lugar a um mistério maior.

João então entrou.

E ao ver… sentiu.

Não era apenas compreender. Era saber.
Uma certeza que não vinha dos olhos, mas do coração:

“Ele vive.”


Madalena, ainda do lado de fora, chorava.
Seu mundo ainda estava em ruínas.
— Levaram o meu Senhor… e não sei onde o colocaram…

Sua dor era real. Sua perda ainda era presente.
Ela ainda não via o que os outros começavam a perceber.


Pedro levantou-se lentamente.
Seu olhar já não era o mesmo. A dúvida se desfazia… algo novo nascia.

João permanecia em silêncio, tomado por uma paz estranha, quase impossível naquele momento.

Os dois se olharam.
E sem dizer muito, entenderam.

A esperança agora não era mais suposição.

Era certeza.


Pedro respirou fundo, como quem decide recomeçar.

— Vamos… precisamos contar aos outros.

João assentiu, com o coração ardendo.

Agora não corriam mais por medo.
Corriam para a vida.

E dentro deles ecoava, cada vez mais forte:

Jesus ressuscitou. Aleluia

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