sexta-feira, 3 de julho de 2026

JAMES TOUR, A VIDA HUMANA E A VISÃO CRISTÃ. Selvino Antonio Malfatti.

 



James Mitchell Tour é um químico orgânico sintético nanotecnólogo de nacionalidade americana, descendente de judeus. Na atualidade é professor titular na Universidade de Nice, Houston, nas cadeiras de Química, Ciências dos Materiais, Nanoengenharia e Ciência da Computação.

Sua formação universitária consistiu no Bacharelado em Química, Doutorado Ph.D. em Química Sintética e Organometálica e Pós-doutorado na Universidade de Wisconsin-Madison (1986–1987) e na Universidade de Stanford (1987–1988). 

A formação oficial abrangeu somente a área das ciências exatas. Tour, concomitante à formação acadêmica dedicou-se, extraoficialmente à formação humanista abrangendo filosofia e religião, embora só particularmente tenha se interessado disso. Dedicava-se à leitura da Bíblia no período de faculdade e em casa não se falava em religião. E foi neste período que se converteu ao cristianismo. Paralelamente passou a desenvolver atividades educacionais e debates filosófico-científicos sobre química e origem da vida.

No estudo sobre química e biologia ao chegar a concepção de vida Tour conclui pelo criacionismo. Na pesquisa não prossegue até alcançar a vida humana. Fica a pergunta: como surgiu o homem? Criacionismo ou evolução? Para ambas as hipóteses surgem conjeturas. Pela evolução chegará o momento do salto, divisa, da linha divisória entre humano e não humano. Tour opta pela intervenção de uma inteligência superior que estabelece a linha divisória. Ou se opta pela evolução, a qual tem um fim ou não. Se tem será pelo criacionismo se não tem, não há ser humano. O criacionismo, por sua vez, alicerça-se na teologia que também é vista pela filosofia.

As grandes linhas da reflexão cristã cujo objeto são temas religiosos que abrangem Deus, bem, mal, pecado. James Tour não se preocupa diretamente com os temas, pois, como químico pesquisou o problema filosófico da origem da vida. Avançar outras questões como o pecado estão tangencialmente relacionados à vida humana. A teologia oficial do cristianismo ensina que o início da vida e dela para a vida humana tem como ponto de partida o imaginário Paraíso entendido como o local da emergência do homem. O homem no Paraíso é um ser humano completo. Já pela evolução um ser semi-humano, semirracional, emerso da de outros seres em contínua evolução. 

O homem do Paraiso devia mante-se dentro de um comportamento moral que não conhecia. A partir de então tinha um NÂO para guiar-se e apetites oferecidos pela natureza e desejados pelo seu corpo guiado pela alma. Como se porta um tal ser? Se se desviasse do NÂO cometeria pecado. Que pecado? Queda. O que era Queda neste contexto? O que o tentava ao NÂO e Quem o tentador e que consequências adviriam desta queda? Por que a ela estão associados bem, mal, pecado, Deus?

No criacionismo o ser humano concorda com sua companheira em dizer um NÃO ao não. Esta desobediência seria escolher um bem considerado pelo impostor como um bem, mas era um mal. Por que escolher o mal se podia escolher o bem não transgredindo o Não? Por que o mal se tornou um bem? O mal acontece porque o bem é visto como menor em que o mal. A transgressão era um pecado. O pecado atinge o pecador, mutila-o, corrompe esfrangalhando o corpo e a alma. Será, então, o pecado que dilacera o homem ou sua natureza mutilada que o conduz ao pecado? Pode o homem não pecar. Se pode, por que peca? A questão é porque sendo livre opta pelo pecado, para a corrupção. O mal e o pecado devem ser melhores que aquilo que se diz bem e virtude. Por isso não se pode não pecar. Poderia, por acaso, subsistir este mundo sem o pecado? A ânsia pelo pecado é sua própria recompensa enquanto sua concretização é o próprio castigo. A dialética não esmorece no castigo, mas na recompensa e por isso se volta a procurar o pecado. Recompensa e castigo complementam-se e retornam ao homem. Ele é feliz com o que não tem, mas quer ter. E infeliz com o que consegue, mas não queria tê-lo. O desejo de bem leva à corrupção de sua natureza, e a vontade de fugir do mal o degrau para a perfeição experiência concreta de fascínio, cegueira, remorso e busca de sentido.

O cristianismo se alicerça sobre três grandes pilares: o pecado, culpa, redenção e o perdão. Dentre eles o mais problemático é o pecado por que gera a culpa coletiva e hereditária da humanidade, a qual exige arrependimento individual e coletivo para obter o perdão. Só com isso se restabelece a ordem na sociedade. Mas o que é a culpa. É um sentimento individual ou coletivo de perda. O cristianismo apresenta como causa o pecado hipoteticamente dos primeiros seres humanos. Evidentemente não há uma autocritica mais profunda e sociologicamente nem é necessária. A filosofia se perguntaria: mas culpa de quê? E os emersos hipoteticamente da evolução? Chegar-se-ia refletir em seres da evolução, semirracionais, sem noção de moral? Que pecados poderiam cometer se só hipoteticamente seriam seres humanos? Desobedecer a Deus? Pobres semi-humanos! E mais, estes tem esta culpa que passa de geração em geração. Todo homem nasce com a marca do pecado original. O problema está nisso: se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não sou culpado porque então sou culpado? Este é o pecado original no pensamento apoiado na vulnerabilidade da natureza humana, da dor e do mal no homem e na sociedade. É um pecado de raiz, transmissível e geral aos seres humanos. O homem não se faz pecador, nasce com o carisma: “minha mãe me gerou em pecado”, diz o Salmo 51. Além disso, o pecado original é fonte de todos os demais pecados.

Tanto o judaísmo como o cristianismo originalmente não se preocuparam na crítica ao princípio do pecado e de suas consequências sociais. Aceitou como dogma sem crítica o pecado.

O que foi o pecado original que privou o homem do bem por nascimento. O pecado na concepção cristã foi motivado por outro que o levou ao pecado: a serpente, no caso. Como foi a experiência? Na doçura da prova foi junto o abrolho do prazer. O veneno perpassa o corpo até atingir a alma. Por isso, após a felicidade do pecado sobrevém a prostração do arrependimento. Aquela sensação de morte que começa nos pés e atinge o coração faz a alma exclamar pelo “De Profundis”. A miséria invade cada membro da alma fazendo o coração gemer e confessar que se é todo pecado, já foi gerado no pecado. Que desejo de ter as mãos limpas e o coração puro! Que desejo de poder, nem que fosse por um instante, voltar atrás no tempo e saltar aquele momento anterior.  Ano entanto, na consciência, palpita forte: “De Profundis, clamavi ad te, Domine!” (Salmo 129 ou 130). O veneno da serpente ofusca os olhos, embaça a mente, invade de torpor todo o corpo. Ele inocula a razão através da felicidade do coração. Ele se vê no último banco da igreja se ajoelhar, enfiar a cabeça entre as mãos, encher os olhos de lágrimas e tentar buscar a Deus. Nada encontra senão um dedo apontando o caminho da porta, o paraíso. A impureza, a vaidade, o orgulho, a ganância são terra jogada sobre o caixão do cadáver. Pasto para os vermes festejarem, estrume para porcos chafurdarem, putrefação para os corvos se deliciarem. O pecado causa o mal, primeiro na consciência. Ela fica com o olhar embaçado não mais vislumbrando o mal por trás do pecado. É um mal que atinge a alma através do corpo e vice-versa: o corpo através da alma. Isto se pode denominar de degradação do corpo que ficou corrompido e por sua vez corrompe a alma. A consciência embaçada pelo pecado não vê mais com nitidez o bem, pois foi corrompida e apossada pela mentira, ódio, ganância, soberba, impureza, avareza.

A tudo isso o cristianismo acena com a graça. A graça, porém, só faz sentido por causa do pecado. O catolicismo vai além. Exalta ao proclamar “feliz culpa que nos trouxe tão grande Salvador”.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

DEUS MORTO? NÃO, OCULTO. Selvino Antonio Malfatti.

 

 


Um a um os conventos, lugar de meditação e contemplação, estão fechando. Cada um ao fechar as portas deixa um buraco negro, um vazio pronto para engolir o que o cerca. O mudo se digitaliza freneticamente e seus textos devorados deixando o vazio. Se precisa de uma informação digitaliza um IA. Se quer um medicamento digitaliza um “deliver”. Se quer um hotel ou qualquer agência,  digitalize uma plataforma. Tudo digitalizado o que se quer. O ser humano não existe mais. É um número, um código, um CPF. Desesperado tenta encontrar onde se agarrar dentro do pântano da digitalização que o suga. Mas nada. Tenta Deus, não o acha mais. É o que constata filósofo Byung- Chul Han.

Este pensador é um sul-coreano radicado e professor na Alemanha. Destaca-se pela crítica sistemática à sociedade contemporânea, digital caracterizada pela autoexploração, no seu livro: Sociedade do Cansaço. Nele desenvolve a ideia que o homem abandonou o imperativo de Kant dos “deves fazer” para os “podes fazer”, John Dewey que incentiva os indivíduos adquirirem sempre mais.

Na Alemanha estudou metalurgia, mas rapidamente passa para área da filosofia doutorando-se na área pela Universidade de Freiburg com tese sobre Heidegger. Han quer ser o contraponto das multidões que gritam, querem ser ouvidas, pressionam decisões, impõem ordens. Não raciocinam nem escutam levadas irracionalmente pela euforia, medo, raiva ou entusiasmo. Contrapõe-se também ao indivíduo inserido no contexto de um mundo virtual que dita ruidosamente ordens, estabelece metas, comemora conquistas públicas.

Em vez disso, Han busca o ouvinte, o interiorizado em si. Um humilde, paciente, silencioso atento às manifestações metafísicas ou ocultas. Fo o que aconteceu com os pensadores gregos que à sombra e no silêncio dos plátanos descobriram realidades geniais que até hoje nos admiram em religião, filosofia, química, física, astronomia, matemática pintura, escultura. Quase tudo saiu da meditação grega. Por isso, Han pensa encontrar aquele Deus considerado morto. Sabe que vive, mas precisa de ambiente para individuá-lo[i]. Sentir a experiência do sagrado na sombra dos plátanos.

O encontro de Han com a filósofa Simone Weil deu-lhe o suporte teórico para elaborar seu pensamento. O pensamento de Han baseia-se no cultural e Weil no espiritual. Han é a sociedade do desempenho, da positividade, enquanto Weil é da atenção, acolhimento.  Pensa que, conforme Weil, encontrar Deus é possível ao trilhar o caminho vislumbrado por ela conforme os passos ou disposições a serem seguidos:

De acordo com Weil para encontrar Deus a primeira atitude é ficar atento. Ele pode se manifestar a qualquer momento ou ambiente. O “eu” deve despir-se de suas vestes festivas e vestir-se da nudez que receber o manifestante. Ser um nada para receber aquele que é tudo. Ele chega até nós não pela via digitalizada mas contemplativa. Ficar atento a hora da chegada com azeite suficiente para iluminar a mente. O sagrado não chega ao som das fanfarras, mas ao som do violino.

A segunda atitude consiste em não apenas despir-se, mas assumir uma atitude radical de ser um ser novo, isto é, recriar-se, ser um novo ser. Como certos seres abandonam a velha carcaça e se revestem de uma nova natureza. Aquele velho homem deve ser abandonado e assumir uma renovada natureza possibilita adquirir um novo conhecimento para encontrar a Deus. Este novo homem não pensa ou age conforme a sociedade imersa no virtual, mas com um coração aberto ao divino.

Para encontrar Deus é preciso oferecer-lhe espaço não, porém, qualquer espaço, mas todo. Por isso é preciso esvaziar-se para estar plenamente vazio e poder ser por ele preenchido. Atualmente o ser humano está sempre preenchido com informação, entretenimento, consumo. Deve desvencilhar-se de tudo isso para Deus poder entrar.

A beleza digital é espetáculo, superficial, descartável. Deus é a beleza que se admira, contempla, profunda, perene. Esta, como Deus, nos desapropria e com Ele passamos a senti-lo no silêncio.

O homem social atual, conforme Han apenas sente dor, mas não sofre, não sente a dor profunda da alma. Para ter a experiência de Deus, não basta sentir a dor, é preciso provar profundamente o sofrimento.

O mudo de hoje é ruidoso, hiperativo. O silêncio deixou de existir. E é precisamente nele que Deus está. Por isso, silenciem e Deus se manifesta.

A lógica para o rendimento é a atividade ininterrupta. Para acolher o outro é preciso, ao contrário, parar e esperar. Da mesma forma praticar a inatividade favorece e proporciona a condição de encontrar Deus. Ele não se encontra na cadeia do ativismo, mas no espaço inativo.

O encontro entre Han e Weil acontece no cruzamento da crítica radical à sociedade atual. Weil buscam uma ontologia espiritual de atenção e esvaziamento e Han uma crítica cultural da sociedade digital e de desempenho. Em Weil há uma proposta de esvaziar-se, descer para encontrar o divino. Han, por sua vez entende que a modernidade é o empecilho para se realizar tal intento.

A crise do mundo, mais precisamente do homem, não é tanto econômica ou política, mas espiritual, perceptiva. Deus não está morto, mas ofuscado pelo mundo contemporâneo.



[i] A sociedade de desempenho é uma sociedade de autoexploração. O sujeito de desempenho explora a si mesmo, até consumir-se completamente (burnout). (HAN, Byung- Chul. Falando de Deus , Vozes, 2025)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

O que é o consumismo, a alma do mercado? José Mauricio de Carvalho

 



                            Yuval Noah Harari 


Nos nossos dias as massas foram condicionadas ao que o historiador denominou ética do consumismo, no qual ética é um termo singular e diverso do utilizado na tradição filosófica, na qual surgiram diversos modelos éticos desde a antiga Grécia. Os modelos éticos desde o aristotélico, que consideramos o primeiro com boa justificação filosófica, sempre apontaram para como alcançar uma vida boa, justa e humana e, algumas vezes, feliz. Isso através de esforço pessoal e de uma fundamentação racional dos comportamentos adotados.

O sociólogo Zygmunt Bauman escreveu em Vida para o consumo que o consumo é um conceito essencial para entender a sociedade contemporânea, ainda que possa não expressar perfeitamente tudo que nela ocorre. O conceito é válido porque esclarece parte significativa do que está ocorrendo. Em outras palavras (2008 b, p. 40): “consumismo, sociedade de consumidores e da cultura consumista (...) são ferramentas adequadas à tarefa de compreender um aspecto fundamental da sociedade que hoje habitamos.” E o assunto também foi tema de outra obra de Bauman, 44 cartas do mundo líquido moderno, onde o sociólogo ofereceu uma descrição preciosa dessa nova forma de vida. O consumismo, que caracteriza nosso tempo, não se explica pela simples capacidade de consumir, que é condição para estar vivo, mas por transformar o ato numa forma de viver (BAUMAN, 2011, p. 83): “não basta consumir para continuar vivo se você quer viver e agir de acordo com as regras do consumismo. Ele é mais, muito mais que o mero consumo. Serve a muitos propósitos.” É uma atitude que se apresenta como forma de vida e de resolver os problemas inclusive os de saúde pela compra cada vez maior de medicamentos. E estar sempre em compras tornou-se uma forma de enfrentar todas as incertezas que temos. Quanto ao pertencimento ao grupo social, ele se define pela capacidade de consumo de marcas e produtos (BAUMAN, 2008 b, p. 108): “o processo de autoidentificação é perseguido, e seus resultados são apresentados com a ajuda de marcas de pertença visíveis, em geral encontráveis nas lojas.”

O que Harari denominou ética do consumismo é esse comportamento descrito em 44 cartas do mundo líquido moderno. Trata-se de uma forma de viver amplamente estudada por Bauman e consiste na síntese do historiador (HARARI, 2020, p. 357): “garantir que as pessoas sempre comprem o que quer que a indústria produz.” E não apenas a indústria, mas qualquer produto do mercado, da agricultura aos variados serviços. Como se vê ética consumista é um uso heterodoxo do conceito, descreve uma forma de viver de nossos dias.

Não custa recordar que a ética, disciplina filosófica, ocupa-se de outras coisas. Nos (CARVALHO, 2004, p. 9): “Tempos modernos teve como tema central a separação entre a moral e a religião, o que a distinguiu do que se fez na Idade Média e que não chegou a se modificar no renascimento. Conforme sabemos (...) a investigação moral no período contemporâneo se afastará da preocupação moderna que fora de assegurar uma fundamentação racional para a ética, ao mesmo tempo que firmava as bases de uma moral social laica e consensual. A discussão sobre a moral social consensual dependia do reconhecimento da diversidade de religiões presentes no cenário social e mesmo de uma disposição natural do homem para ser religioso. O pensamento contemporâneo se volta para a experiência moral do homem e a investigação se desenvolve em terreno próprio, diverso do que fora a preocupação dos moralistas de outras gerações.”


sexta-feira, 12 de junho de 2026

SOLUÇÕES SOCIAIS ATUAIS- PROBLEMAS FUTUROS. Selvino Antonio Malfatti



“Em outras palavras, geralmente existem efeitos de feedback que impactam o agente de uma ação que visa à melhoria. Por exemplo, uma inovação tecnológica como o carro revolucionou as condições de vida e acelerou o transporte, mas, ao mesmo tempo, polui severamente a atmosfera e causa congestionamentos que anulam o tempo economizado." (Morin, Edgar. Passos Pequenos, Le Monde.)

Morin convida-nos ao feedback através da teoria. Antes de se aplicar uma solução ao problema deve-se refletir se isto não acarretará outros problemas no futuro e tentar evitá-los. É o caso de alguns problemas atuais. Refletindo sobre os principais problemas sociais que afligem o mundo atual, depa-se assustado, estupefato com um fato: os problemas atuais foram soluções no passado. Comecei a pensar nas favelas, um problemão social atual e no passado uma solução. Nem todos podiam morar no centro, evidente. Deslocaram-se então para periferia. Na época uma solução, atualmente um problema. O êxodo rural. Escasseando a terra para plantar ou morar alguns se deslocaram para as cidades. A solução antiga virou um problema atual. Casais solteiros e elas grávidas foram forçados a casar. Novamente aquilo que acharam como solução virou um problema social, pois logo adiante separação, criando outro problema e forçando soluções. Durante a pandemia da COVID incrementou-se a EAD, atualmente um surto de profissionais mal preparados.

Nas últimas décadas, as transformações no mundo do trabalho, o avanço da globalização, as mudanças tecnológicas e as políticas implantadas pelas IAs têm gerado novas configurações da pobreza tanto nas cidades quanto no campo. A sociologia contemporânea tem se dedicado a compreender como essas formas de pobreza extrapolam os limites da renda, incorporando dimensões como moradia, o acesso a direitos, exclusão simbólica e ambiental. Quais os possíveis problemas que advirão das soluções atuais?

A pobreza urbana atual está profundamente marcada pela informalidade, pela insegurança habitacional e pela exclusão social. Diferentemente das formas tradicionais de pobreza, caracterizadas pela marginalização completa do sistema produtivo, as novas expressões urbanas da pobreza se inserem em circuitos econômicos informais, como a "uberização" do trabalho. Essas populações compõem a "ralé estrutural", mantida em situação de subalternidade por estruturas históricas de desigualdade. O desafio: como inserir estas populações no sistema produtivo formal? Criação de novos empregos? Por quem? Pelos empreendedores? Com verbas subsidiadas? Pelo governo? Com verbas de impostos? Pelo cenário que se vislumbra as possibilidades são todas problemáticas? Deixar que as “aboboras se acomodem com o tempo”? Buscar soluções pelas políticas públicas? O problema está  na invisibilidade dessas áreas pelos políticos para destinar recursos. A gentrificação? Esta solução valorizaria as áreas e pessoas de recursos se apossam o que expulsa os pobres de regiões centrais em nome da valorização imobiliária.

Não são diferentes no espaço rural, as novas formas de pobreza ligadas à perda de autonomia das comunidades agrícolas e ao avanço do agronegócio. A concentração fundiária, a mecanização da produção e a financeirização da terra provocam o esvaziamento das economias locais e o deslocamento de populações tradicionais A pobreza não se manifesta apenas na renda, mas também na carência de infraestrutura básica, como saneamento, transporte e saúde.

O que fazer para manter as populações rurais no campo? Principalmente os mais jovens? A juventude rural encontra poucos incentivos para permanecer no campo, o que leva ao êxodo rural precoce e à reprodução de ciclos de pobreza intergeracional. Enquanto isso, os que ficam, sobretudo mulheres e idosos, enfrentam dificuldades de acesso a políticas públicas e a mercados de produção. A solução seria dar-lhes condições para que permaneçam no campo. E como? Proporcionar-lhe especialização no trato com o meio rural com cursos de aperfeiçoamento. Quem irá conseguir? Só alguns, pois inevitavelmente se fará uma seleção ou triagem. E os demais? Eles continuarão a alimentar a cadeia da exclusão.

E não é só isso a injustiça ambiental é uma marca da pobreza rural contemporânea. Comunidades quilombolas, indígenas e camponesas sofrem com a degradação ambiental, o uso intensivo de agrotóxicos e os conflitos por terra. Trata-se de uma disputa entre diferentes racionalidades de uso do território: a racionalidade da mercadoria e a da vida. Qual a solução e de que forma os novos problemas aparecerão?


sexta-feira, 5 de junho de 2026

EDGAR MORIN- O PENSADOR COMPLEXO. Selvino Antonio Malfatti.

 

 


EDGAR MORIN- O PENSADOR COMPLEXO.  Selvino Antonio Malfatti.

Edgar Morin, o pensador bissecular, destacou-se como pensador complexo, significando com isto que nele que tudo é não só e o não só é de tudo. Se disser, por exemplo, que é sociólogo, mas não totalmente, pois há filosofia, que não é só, mas também antropologia, que não é somente, mas história e assim por diante. Os conhecimentos da área não são exclusivos e os complementos de outras áreas não são completos, mas todos e não somente são complementares. Morin nunca é completo, mas se completa quase sempre através da dialética: ordem e desordem, indivíduo e sociedade, ciência e humanidades, problemas contemporâneos e abordagens interdisciplinares.

A própria educação foi interdisciplinar. Abrangeu ciência, filosofia, história, biologia, sociologia e cultura integram uma compreensão mais ampla da realidade. O pensamento de Morin é sempre incompleto, carecendo de complementação. A própria complementação precisa de complementação.

Nasceu com o nome Edgar Nahoum, de origem hebraica, conhecido por Edgar Morin, com data de 8 de junho de 1921, em Paris e faleceu também em Paris em 29 de maio de 2026.

A formação intelectual foi ampla. Inicia com História, Geografia e Direito na universidade de Paris. No percorrer da vida amplia a educação interdisciplinar pela atuação como filósofo, sociólogo, antropólogo, epistemólogo e pesquisador da cultura. Em 1950 ingressa no Centre National de la Recherche Scientifique na qual mais tarde se torna diretor. O resultado intelectual foi uma obra de sessenta livros e outras produções.

Entre os intelectuais que soçobraram a Segunda Guerra Mundial foi um dos últimos. A mais clara característica de seu pensamento foi a complexidade, atribuída à educação, bioética, sociologia, ecologia, política e aos estudos da cultura.

Morin pensa que a ciência reduz erroneamente os conhecimentos a uma pequena parcela da realidade perdendo de vista a visão geral. O risco consiste em ignorar as consequências humanas, sociais, ecológicas e filosóficas do alcance de suas descobertas.

A filosofia deve evitar dois extremos: o dogmatismo e o relativismo, pois os opostos podem coexistir, o cosmo abriga a ordem e desordem, não supor que o todo é melhor que as partes inclusive mais que a soma das partes, as partes não só dependem como influenciam no todo. O mesmo que acontece com o ser humano que um complexo de biológico, psicológico, social, cultural, histórico e reflexivo.

A história não deve ser vista apenas como avanço e retrocesso, civilização e barbárie, racionalidade e irracionalidade.

A maior tipicidade da coexistência dos opostos é na biologia que abriga a organização e desordem.

Na sociologia não se pode tomar o indivíduo como padrão da sociedade, nem lançar mão do modelo de sociedade para explicar as demais dimensões.

A cultura pode ser considerada sociologicamente como foco central, pois dela decorrem e são resultado da linguagem, afetividade, racionalidade e simbologia.

Em síntese o ser humano, a sociedade, a natureza e a história formam uma rede de relações inseparáveis. Compreender qualquer realidade exige considerar simultaneamente suas múltiplas dimensões.


sexta-feira, 29 de maio de 2026

O fascismo e sua crença. José Mauricio de Carvalho

 



O historiador Yuval Noah Harari entrou em assuntos polêmicos em 21 lições para o século 21. Por exemplo, refletindo sobre as razões de os homens manterem crenças como as religiosas, ele atribuiu o fato ao cérebro humano fazer arranjos estranhos, que mais se parecem a dissonância cognitiva. Por exemplo, comentando a conduta dos conservadores americanos filiados ao partido Republicano, armamentista e contrário a políticas sociais, ele observou a mais completa incoerência com os ensinamentos de Jesus de Nazaré. Ele mostrou que, ao contrário do que esses conservadores cristãos, a mensagem de Jesus foi noutra direção (id., p. 337): “Jesus não foi mais incisivo quanto a ajudar os pobres do que quanto a armar você até os dentes.” Os ensinamentos de Jesus foram exatamente o contrário do que praticam aqueles grupos. A mesma incoerência, ele avaliou, aparece no muçulmano que quer vingar o companheiro fé morto em conflito quando ensina que, morrendo nessa luta, ele vai direto para o Paraíso. Não faz sentido, ele ridiculariza a conduta de terroristas que querem vingar um irmão de fé que foi levado ao Paraíso justo por esse motivo. Por que alguém vingaria alguém querido porque ele foi conduzido ao Paraíso? O cérebro humano permite as incoerências construindo mais de uma identidade, melhor seria dizer, vivendo papéis diferentes na vida ou em momentos dela. A pregação de fé nada tem a ver com a prática terrorista que alimentam. Temos aqui uma crítica muito dura à forma como vivem as pessoas de fé.

Se a crítica à religião parece limitada por sua visão simplificadora como comentaremos a seguir, a sua crítica ao fascismo parece bem exata. Para não deixar o termo vago e com definição superficial, ele explicou o que denomina fascismo. Trata-se da absolutização de uma narrativa ruim. O fascismo corrompeu o nacionalismo porque não considera o amor e respeito à sua nação como um valor entre outros. Um governo fascista diz que (id., p. 358): “minha nação é suprema e devo a ela obrigações exclusivas.” E isso leva seus seguidores a fazer absurdos (ibidem): “se minha nação exigir que eu mate milhões de pessoas – devo matar milhões de pessoas.” E ainda tão mal quanto isso (ibidem): “se minha nação exigir que eu traia a verdade e a beleza – devo trair a verdade e a beleza.” O que importa é servir à nação, o resto não tem relevância. Uma tal crença prospera em momentos de crise social porque, como ele observou (id., p. 359): “simplifica muito os dilemas difíceis e também porque faz as pessoas pensarem que pertencem à coisa mais importante e mais bela do mundo – a sua nação.”

Como observamos quando se aplica esse raciocínio às religiões comete-se equívocos. O grande problema por trás de crenças, ele avaliou, é sua absolutização. E há uma crença que lhe parece ruim por excelência, a crença em algo absoluto, pois ela vai produzir algum problema. Ele afirmou que a crença absoluta tem muitos objetos possíveis, mas todas causam as mesmas dificuldades (id., p. 371): “a essência eterna às vezes é chamada de Deus, às vezes de nação, às vezes de alma, às vezes de eu autêntico e às vezes de amor verdadeiro.” Para contraditar esse pensamento ele recordou Buda e defendeu que as pessoas não precisam de um sentido e que tudo passa e nada permanece.

Quando mencionamos acima que essa estimativa da religião é superficial foi porque Harari comparou práticas antigas a formas atuais de lidar com o sagrado. E mais, ele desconsiderou o papel da religião na vida cultural de uma sociedade, e igualmente desconheceu o florescimento pessoal que ela propicia a seus seguidores, nem considerou como ela contribui para o desenvolvimento humano. Pior ainda é quando ele atribui à religião a maldade das pessoas (HARARI, 2018, p. 173): “outras tradições religiosas enchem o mundo de muita feiura e fazem as pessoas serem más e cruéis.” O que torna alguém ruim é o fanatismo na ignorância, não a prática de uma religião com o propósito de se aproximar de Deus e cujas práticas não se afastam da excelência moral.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

MAGNIFICA HUMANITAS. Selvino Antonio Malfatti.

 


Inteligência humana e inteligência artificial, como se distinguem uma da outra? A humana é criativa e a artificial é generativa. Como criativa a inteligência humana é capaz de gerar, isto é, dar à luz a um novo ser a partir de algo, mas essencialmente outro. A inteligência artificial deduz a partir de algo anterior. Não é novo, mas diferente.

Na biologia, por exemplo, o criado na inteligência humana é um ser novo. No sistema computacional o resultado é a geração de dados decorrentes de programas postos pela inteligência humana e equacionados pela inteligência artificial. A inteligência humana é capaz de resolver problemas como auxílio da inteligência artificial. O mesmo se dá na biologia: o natural é o substrato gerado pelo auxílio do meio artificial, como sistemas e máquinas.

Com efeito, na biologia temos uma novidade de fato. Acontece a autogeração, metabolismo, crescimento de dentro, reprodução vital. Filosoficamente há um novo orgânico e teleológico. Já a inteligência artificial o conhecimento corresponde a processamento de dados e resultados a partir de modelos pré-construídos. Por isso, na biologia o organismo natural desenvolve-se no meio e na inteligência artificial compreende resultados pelos comandos pré-inseridos.

Os conteúdos diferenciais sinteticamente podem ser definidos como:

INTELIGÊNCIA HUMANA               INTELIGENCIA ARTIFICIAL


  • compreende sentido;
  • interpreta;
  • possui consciência de si;
  • cria finalidades;
  • age moralmente;
  • pode transcender o próprio programa biológico. A IA:
  • calcula;
  • correlaciona;
  • prediz;
  • reorganiza dados;
  • mas não “sabe” que sabe.


A inteligência humana tem consciência, moralidade e abertura ao transcendente. A Inteligência artificial permanece uma inteligência derivada e instrumental.

O novo papa, Leão XIV, inova na doutrina ao publicar a primeira encíclica “Magnifica Humanitas”, 25 de maio de 2026, na qual discorre sobre a Inteligência Artificial. A interpretação é atribuída a diversos pensadores da Igreja. Cada um deles emitirá um parecer, dentro de sua especialidade e abrangendo os diversos campos: teologia, ética social católica, diplomacia vaticana e pesquisa tecnológica. A seguir, uma síntese provável e coerente do pensamento de cada um deles sobre IA, a partir de suas obras, posições públicas e áreas de atuação.

1.      Christopher Olah

Estuda a “interpretabilidade” das redes neurais, isto é, pela tentativa de compreender como os sistemas de IA “pensam” internamente.

2.      Léocadie Lushombo

Trabalha com ética teológica, justiça social, colonialidade, pobreza e pensamento social católico. Sua leitura da IA tende a ser profundamente humanista e social.

3.      Cardeal Víctor Manuel Fernandez

Possui a responsabilidade pela ortodoxia doutrinal da Igreja, provavelmente abordará a IA sobretudo em perspectiva antropológica e espiritual.

4.      Cardeal Michael Czerny

Atuação ligada: migrantes, pobreza, justiça social, ecologia integral e exclusão econômica.

5.      Anna Rowlands

Conhecida por articular teologia política, democracia, participação social e ética comunitária.

6.      Cardeal Pietro Parolin

Diplomata principal do Vaticano, provavelmente fará uma síntese geopolítica e ética.

O que defenderão em comum?

Com certeza um núcleo comum os juntará. Este terá como componentes: a inteligência artificial - subordinada à dignidade da pessoa humana - consciência moral, liberdade e a responsabilidade ética do ser humano. Conforme sua formação e função, cada um acentuará aspectos distintos. Todos defenderão a ideia do controle da Inteligência Artificial pelos condutores que se submeterão à ética da dignidade, liberdade e autonomia da pessoa humana. Em síntese a Inteligência Humana manterá o controle da Inteligência Artificial.

 

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