sexta-feira, 29 de maio de 2026

O fascismo e sua crença. José Mauricio de Carvalho

 



O historiador Yuval Noah Harari entrou em assuntos polêmicos em 21 lições para o século 21. Por exemplo, refletindo sobre as razões de os homens manterem crenças como as religiosas, ele atribuiu o fato ao cérebro humano fazer arranjos estranhos, que mais se parecem a dissonância cognitiva. Por exemplo, comentando a conduta dos conservadores americanos filiados ao partido Republicano, armamentista e contrário a políticas sociais, ele observou a mais completa incoerência com os ensinamentos de Jesus de Nazaré. Ele mostrou que, ao contrário do que esses conservadores cristãos, a mensagem de Jesus foi noutra direção (id., p. 337): “Jesus não foi mais incisivo quanto a ajudar os pobres do que quanto a armar você até os dentes.” Os ensinamentos de Jesus foram exatamente o contrário do que praticam aqueles grupos. A mesma incoerência, ele avaliou, aparece no muçulmano que quer vingar o companheiro fé morto em conflito quando ensina que, morrendo nessa luta, ele vai direto para o Paraíso. Não faz sentido, ele ridiculariza a conduta de terroristas que querem vingar um irmão de fé que foi levado ao Paraíso justo por esse motivo. Por que alguém vingaria alguém querido porque ele foi conduzido ao Paraíso? O cérebro humano permite as incoerências construindo mais de uma identidade, melhor seria dizer, vivendo papéis diferentes na vida ou em momentos dela. A pregação de fé nada tem a ver com a prática terrorista que alimentam. Temos aqui uma crítica muito dura à forma como vivem as pessoas de fé.

Se a crítica à religião parece limitada por sua visão simplificadora como comentaremos a seguir, a sua crítica ao fascismo parece bem exata. Para não deixar o termo vago e com definição superficial, ele explicou o que denomina fascismo. Trata-se da absolutização de uma narrativa ruim. O fascismo corrompeu o nacionalismo porque não considera o amor e respeito à sua nação como um valor entre outros. Um governo fascista diz que (id., p. 358): “minha nação é suprema e devo a ela obrigações exclusivas.” E isso leva seus seguidores a fazer absurdos (ibidem): “se minha nação exigir que eu mate milhões de pessoas – devo matar milhões de pessoas.” E ainda tão mal quanto isso (ibidem): “se minha nação exigir que eu traia a verdade e a beleza – devo trair a verdade e a beleza.” O que importa é servir à nação, o resto não tem relevância. Uma tal crença prospera em momentos de crise social porque, como ele observou (id., p. 359): “simplifica muito os dilemas difíceis e também porque faz as pessoas pensarem que pertencem à coisa mais importante e mais bela do mundo – a sua nação.”

Como observamos quando se aplica esse raciocínio às religiões comete-se equívocos. O grande problema por trás de crenças, ele avaliou, é sua absolutização. E há uma crença que lhe parece ruim por excelência, a crença em algo absoluto, pois ela vai produzir algum problema. Ele afirmou que a crença absoluta tem muitos objetos possíveis, mas todas causam as mesmas dificuldades (id., p. 371): “a essência eterna às vezes é chamada de Deus, às vezes de nação, às vezes de alma, às vezes de eu autêntico e às vezes de amor verdadeiro.” Para contraditar esse pensamento ele recordou Buda e defendeu que as pessoas não precisam de um sentido e que tudo passa e nada permanece.

Quando mencionamos acima que essa estimativa da religião é superficial foi porque Harari comparou práticas antigas a formas atuais de lidar com o sagrado. E mais, ele desconsiderou o papel da religião na vida cultural de uma sociedade, e igualmente desconheceu o florescimento pessoal que ela propicia a seus seguidores, nem considerou como ela contribui para o desenvolvimento humano. Pior ainda é quando ele atribui à religião a maldade das pessoas (HARARI, 2018, p. 173): “outras tradições religiosas enchem o mundo de muita feiura e fazem as pessoas serem más e cruéis.” O que torna alguém ruim é o fanatismo na ignorância, não a prática de uma religião com o propósito de se aproximar de Deus e cujas práticas não se afastam da excelência moral.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

MAGNIFICA HUMANITAS. Selvino Antonio Malfatti.

 


Inteligência humana e inteligência artificial, como se distinguem uma da outra? A humana é criativa e a artificial é generativa. Como criativa a inteligência humana é capaz de gerar, isto é, dar à luz a um novo ser a partir de algo, mas essencialmente outro. A inteligência artificial deduz a partir de algo anterior. Não é novo, mas diferente.

Na biologia, por exemplo, o criado na inteligência humana é um ser novo. No sistema computacional o resultado é a geração de dados decorrentes de programas postos pela inteligência humana e equacionados pela inteligência artificial. A inteligência humana é capaz de resolver problemas como auxílio da inteligência artificial. O mesmo se dá na biologia: o natural é o substrato gerado pelo auxílio do meio artificial, como sistemas e máquinas.

Com efeito, na biologia temos uma novidade de fato. Acontece a autogeração, metabolismo, crescimento de dentro, reprodução vital. Filosoficamente há um novo orgânico e teleológico. Já a inteligência artificial o conhecimento corresponde a processamento de dados e resultados a partir de modelos pré-construídos. Por isso, na biologia o organismo natural desenvolve-se no meio e na inteligência artificial compreende resultados pelos comandos pré-inseridos.

Os conteúdos diferenciais sinteticamente podem ser definidos como:

INTELIGÊNCIA HUMANA               INTELIGENCIA ARTIFICIAL


  • compreende sentido;
  • interpreta;
  • possui consciência de si;
  • cria finalidades;
  • age moralmente;
  • pode transcender o próprio programa biológico. A IA:
  • calcula;
  • correlaciona;
  • prediz;
  • reorganiza dados;
  • mas não “sabe” que sabe.


A inteligência humana tem consciência, moralidade e abertura ao transcendente. A Inteligência artificial permanece uma inteligência derivada e instrumental.

O novo papa, Leão XIV, inova na doutrina ao publicar a primeira encíclica “Magnifica Humanitas”, 25 de maio de 2026, na qual discorre sobre a Inteligência Artificial. A interpretação é atribuída a diversos pensadores da Igreja. Cada um deles emitirá um parecer, dentro de sua especialidade e abrangendo os diversos campos: teologia, ética social católica, diplomacia vaticana e pesquisa tecnológica. A seguir, uma síntese provável e coerente do pensamento de cada um deles sobre IA, a partir de suas obras, posições públicas e áreas de atuação.

1.      Christopher Olah

Estuda a “interpretabilidade” das redes neurais, isto é, pela tentativa de compreender como os sistemas de IA “pensam” internamente.

2.      Léocadie Lushombo

Trabalha com ética teológica, justiça social, colonialidade, pobreza e pensamento social católico. Sua leitura da IA tende a ser profundamente humanista e social.

3.      Cardeal Víctor Manuel Fernandez

Possui a responsabilidade pela ortodoxia doutrinal da Igreja, provavelmente abordará a IA sobretudo em perspectiva antropológica e espiritual.

4.      Cardeal Michael Czerny

Atuação ligada: migrantes, pobreza, justiça social, ecologia integral e exclusão econômica.

5.      Anna Rowlands

Conhecida por articular teologia política, democracia, participação social e ética comunitária.

6.      Cardeal Pietro Parolin

Diplomata principal do Vaticano, provavelmente fará uma síntese geopolítica e ética.

O que defenderão em comum?

Com certeza um núcleo comum os juntará. Este terá como componentes: a inteligência artificial - subordinada à dignidade da pessoa humana - consciência moral, liberdade e a responsabilidade ética do ser humano. Conforme sua formação e função, cada um acentuará aspectos distintos. Todos defenderão a ideia do controle da Inteligência Artificial pelos condutores que se submeterão à ética da dignidade, liberdade e autonomia da pessoa humana. Em síntese a Inteligência Humana manterá o controle da Inteligência Artificial.

 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

A EXISTÊNCIA DÁ SENTIDO À VIDA. Selvino Antonio Malfatti.

 



A pergunta mais radical para quem quer ultrapassar o meio do caminho da vida é o sentido da existência. O foco são os seres animados, inanimados? Os humanos? Todos tem sentido ou só alguns? O sentido é só para vida ou também para pós - vida? O estigma que perpassa a consciência dos humanos, é a angústia. A angústia do viver, de saber que vive e de não saber por que vive. Não conhecer o sentido da existência desencadeia a angústia de existir.

A angústia que invadiu o pensamento existencial originou-se da consternação durante o século XIX pela banalidade atribuída à vida humana. O que vale a vida de milhões, mortos nas revoluções, nos conflitos decorrentes como as guerras napoleônicos? E mais precisamente o início do século XX? O filosofar existencial a emergiu entre a Primeira e Segunda Guerra mundial. Ao contrário do desenvolvimento intelectual que priorizava o homem abstrato, o existencialismo centrou-se na experiência individual, angústia e subjetividade. Os precursores do século XIX são considerados fundadores: Søren Kierkegaard (1813–1855) Friedrich Nietzsche (1844–1900) e como pontífice filósofo existencialista, Martin Heidegger (1889-1976).

Como revisão da ideia de existência, o filósofo italiano Umberto Regina repisa os passos dos citados pensadores. Destacou-se como filósofo atual, na disciplina de moral na Universidade de Verona. Inspirado na filosofia existencialista realiza pesquisas sobre niilismo e existencialismo sob o olhar da filosofia cristã abordando o divino e a fé. Analisando os pensadores Heidegger, Nietzsche e Kierkegaard encontra neles os fundamentos da dignidade humana, do valor e da liberdade.

Conforme ele, a existência é uma experiência dramática livre, diante da angústia e busca de sentido. Para tanto reflete o desespero de uma existência, vista por cada um dos pensadores.

Regina vê que em Søren Kierkegaard, no contexto político da Revolução Francesa e seus desdobramentos, a existência subjetiva e interior. Pouco adianta ao homem abstrações metafísicas e abstratas, por que ele é só diante de Deus e da existência. O que fazer com a existência? Na condição de livre diante de nada de certo, concreto, atreve-se a um salto no escuro, escolha entre opções, arriscar-se diante do perigo.  A liberdade o deixa angustiado porque deve escolher o que ser. Diante de uma acolhida de existência eterna possível ele se torna ele mesmo, autêntico.

A afirmação criadora da vida para Regina é a existência aurida de Friedrich Nietzsche. Constata que é preciso rejeitar valores absolutos transmitidos pela religião e moral. Contra eles se insurge com coragem e cria seus próprios valores já que Deus está morto. Pela existência institui o ideal além do homem como superação permanente.

De posse da existência de Martin Heidegger abre-se para o ser. O Dasein, o ser-aí humano se pergunta pelo próprio existir. Este é temporal, finito, superficial e consciente da morte. Isto leva o homem a assumir o próprio destino. Com certeza o reitor  Heidegger “olvida” a angústia causada pelo amigo Hitler aos perseguidos judeus, como a angústia da menina Anne Franck escondida num porão[i].

Frente a estes pensadores Regina encontra na existência de Kierkegaard uma decisão de sujeito perante Deus, em Nietzsche a opção de criação de valores próprios, em Heidegger o indicativo consciente de ser finito.

Umberto Regina encontra nos três pensadores, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, a problemática da existência como característica fundamental do ser humano e postura maiêutica. Em todos eles, Regina identifica uma preocupação comum: compreender o homem não como conceito abstrato, mas como ser concreto, inquieto e lançado no drama da existência. Em síntese, nesse núcleo conceitual, Regina procura mostrar que o homem não é um ente abstrato nem um simples objeto da razão, mas um ser lançado numa relação viva, dramática e aberta ao transcendente. Por isso ele aproxima Kierkegaard, Nietzsche e Heidegger: todos, segundo Regina, deslocam a filosofia da abstração conceitual para a experiência concreta da existência humana[ii].



[i] Anne Franck,  acolhida por sua família num esconderijo para não ser encontrada e enviada para os campos de concentração. Descreve com detalhes como horários, refeições, ruídos, silêncio etc no Diário de Anne Frank— chamado por ela de “Anexo Secreto” — como um espaço permanentemente marcado pelo medo, pela disciplina do silêncio e pela tensão psicológica, Angústia. O esconderijo ficava nos fundos da empresa do pai, Otto Frank, em Amsterdã, oculto atrás de uma estante móvel. Anne escreve sobre a vida cotidiana com riqueza de detalhes, mostrando como cada ruído podia significar perigo de morte. Ela relata que durante o dia todos precisavam permanecer quase imóveis e em silêncio absoluto, porque funcionários trabalhavam no prédio abaixo. Não podiam andar de sapatos, puxar descarga, mover cadeiras ou falar alto. Até a água precisava ser usada com extremo cuidado. O silêncio era quase uma regra de sobrevivência. Anne descreve horários rigorosos. Pela manhã cedo levantavam-se discretamente. Durante o expediente da empresa, entre aproximadamente oito da manhã e seis da tarde, o silêncio tornava-se obrigatório. Ela escreve que qualquer barulho no piso poderia denunciar a presença deles aos trabalhadores do depósito. À noite, quando os funcionários iam embora, o ambiente relaxava um pouco: podiam conversar mais livremente, cozinhar, ouvir rádio clandestinamente e caminhar um pouco pelo esconderijo.

As refeições eram simples e frequentemente escassas. Dependiam de pessoas de confiança que traziam comida escondida. Anne comenta muitas vezes a monotonia alimentar: batatas, legumes conservados, pouca carne e pão racionado. Em certos períodos havia fome real. Ela descreve o desconforto físico, mas também pequenos momentos de alegria quando conseguiam algum alimento diferente.

Os ruídos ocupam lugar central em suas memórias. Sons do relógio da igreja, passos na rua, aviões de guerra, sirenes, tiros e bombardeios aumentavam a angústia. À noite, especialmente, o medo de ladrões ou de uma invasão nazista tornava-se intenso. Anne relata episódios em que todos ficavam paralisados de terror ao ouvir barulhos vindos do prédio.

O confinamento também produzia tensão emocional entre os moradores do anexo. Anne descreve discussões constantes, irritação, nervosismo e dificuldades de convivência provocadas pelo medo contínuo e pela falta de privacidade. Apesar disso, ela também registra esperança, sonhos e reflexões profundas sobre a natureza humana.

Um dos trechos mais conhecidos mostra precisamente essa mistura de silêncio e medo:

“Durante o dia temos de andar na ponta dos pés e falar baixinho, porque no armazém podem nos ouvir.”

Em outro momento, Anne descreve a sensação sufocante do confinamento:

“Estamos presos aqui como leprosos.”

O valor do diário está justamente nessa descrição concreta da vida escondida: não apenas os grandes horrores da perseguição nazista, mas o cotidiano minucioso do medo — o silêncio forçado, os ruídos ameaçadores, a fome, os horários rígidos e a esperança persistente de sobreviver.

 

[ii] ·  Kierkegaard. L’arte dell’esistere
Nesta obra Regina interpreta Søren Kierkegaard como pensador da existência concreta, da escolha e da interioridade dramática. A ideia de que o homem não pode ser reduzido a conceito abstrato aparece de forma constante.

·  Esistenza e ironia
Aqui Regina desenvolve o tema da existência como tensão, abertura e inquietação. O tom maiêutico e a crítica aos sistemas fechados são bastante evidentes.

·  Introduzione a Kierkegaard
Obra introdutória, mas filosoficamente densa, em que Regina mostra a passagem da filosofia especulativa para a experiência existencial concreta.

·  Il pensiero dell’esistenza
Talvez a obra mais próxima da formulação mencionada. Nela Regina aproxima explicitamente Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e Kierkegaard na crítica à abstração racionalista e na centralidade da existência humana concreta.

·  L’essere del pensiero
É nesta linha de reflexão que aparece a expressão sobre o ser como inter-esse, isto é, o ser entendido como relação e abertura ao outro/transcendente.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Um olhar para os caminhos da história. José Mauricio de Carvalho

 


O século XIX deixou diferentes leituras do processo histórico e o impacto delas vigorou algum tempo. O positivismo, por exemplo, avaliou que o curso dos acontecimentos seguia uma rota imutável cujo destino é a afirmação da razão positiva, isso é, mesmo com alguns desvios essa finalidade seria alcançada. O rumo dos acontecimentos teria uma rota já pré-estabelecida e uma direção prévia. A humanidade teria passado por estágios definidos começando pelo teológico, seguido pelo metafísico e, finalmente, atingindo o positivo. As ciências representavam o ponto de chegada da evolução intelectual e cultural da humanidade e o conhecimento alargado do mundo daria origem a pessoas melhores. Foram muitas as versões do positivismo, todas convencidas de que a história humana seguia leis naturais rigorosas na direção da razão positiva e de uma humanidade mais feliz e pacífica. Essa forma de pensar afetou todo o relato dos fatos históricos desde então até muito recentemente e fortaleceu a crença ou esperança de que o futuro seria melhor que o passado.

Antes do positivismo, mas igualmente influenciando grande gama de pensadores nos séculos XIX e XX, o pensamento hegeliano e depois o marxista também apostaram na evolução inexorável da história humana em direção a um futuro bem articulado e melhor para toda a humanidade. O marxismo incorporou o otimismo e confiança no futuro concebidos no positivismo, embora tenha destacado a necessidade do esforço humano para a mudança da realidade concreta. As Grandes Guerras, a Revolução Soviética, o nazifascismo tornaram-se o ponto de inflexão dessas visões evolucionistas e altamente positivas e fizeram surgir uma crítica dura a mentalidade otimista.

Em Sapiens, Harari nos ofereceu uma leitura mais atual do curso histórico, ele menciona não mais um alinhamento com direção a algo, mas um conjunto de cruzamentos que apontam para lugares diferentes, conforme se tome uma ou outra estrada (HARARI, 2020, p. 246): “Cada ponto da história é um cruzamento, uma única estrada percorrida leva do passado ao presente, mas uma série de caminhos se bifurca em direção ao futuro. Alguns desses caminhos são mais largos, mais planos, mais bem sinalizados, e, por isso, há uma chance maior de que sejam seguidos.” Mais chance, mas não há determinismo, caminhos obrigatórios. Em épocas de transição é pior, o estado de confusão e com as trilhas a escolher, e a dificuldade é maior quanto mais a pessoa está consciente do que está acontecendo. Coisas que se tornaram obvias com o tempo e parecem rotas naturais, na época em que os fatos se passaram eram nebulosas na ocasião (id., p. 248): “se alguém sugerisse que (o cristianismo) viria a ser a religião oficial de Roma, seria expulso da sala às gargalhadas, como alguém que sugerisse que, por volta de 2050, Hare Krishna será a religião oficial dos Estados Unidos.” O determinismo parece razoável porque é simples acreditar que os caminhos estão prontos, mas eles não estão. Qualquer solavanco significa mudança de rumo. E há casos, como na economia que quando se faz uma previsão o resultado é modificado pela própria previsão. Porém, precisamos olhar para a descrição do historiador e acrescentar pontos fundamentais. Os dias que vivemos, por insegurança do que virá, tem a tendência a concentrar tudo no presente, o que se quer é gozar aqui e agora, o que significa não adiar os prazeres, gozar logo tudo o que se quer, tudo de uma vez, tudo ao mesmo tempo. Porém, a vida não pode ser conduzida assim, sem propósito não há sentido o futuro, sem passado não há memória nem referências. E assim, vivendo entre o que já foi e não é mais e o que ainda não é, mas será, o homem escolhe o que vai dar significado a seus dias. E vivendo no tempo com história própria e em uma sociedade que também o é, o homem vê cruzar diante de si diferentes alternativas que o levarão para um lado ou para outro, conforme a opção que escolher. Isso vale também para a sociedade onde ele vive, a cada momento escolhas e acontecimentos a levarão para uma direção diferente, de modo que a  totalidade da vida pessoal ou da História é incognoscível de antemão.


sexta-feira, 8 de maio de 2026

A MIRA DO PODER FERIDO: FEMINICÍDIO. Selvino Antonio Malfatti

 


Num ambiente cultural configurado sociologicamente pela supremacia do homem sobre a mulher pelo qual nem tudo o que permitido ao homem é também à mulher, repentinamente, a mulher imbuída de outro pensar tenta agir de forma autônoma permitindo-se fazer tudo o que o homem faz configura-se um conflito explícito e aberto de confronto. Se ao homem tacitamente é permitido manter relacionamentos sexuais com outras mulheres além da esposa ou namorada, uma mulher resolve agir da mesma forma, isto é, ter ralações sexuais além do marido ou namorado, necessariamente haverá reações conflituosas entre ambos. Neste caso ocorre uma quebra de comportamento atribuído. E persistindo, o homem pode invocar seu poder e agredir ou mesmo matar sua companheira. Não se trata de defender nem condenar o homem ou a mulher, apenas explicar para entender.
O feminicídio, nesse contexto, não pode ser reduzido a atos isolados ou a reações individuais descontroladas. Trata-se de um fenômeno inserido em uma estrutura social mais ampla, na qual persistem desigualdades de gênero profundamente enraizadas. Mesmo em sociedades que avançaram juridicamente na promoção da igualdade, permanecem práticas simbólicas e culturais que naturalizam a superioridade masculina e a subordinação feminina. Assim, a violência extrema contra a mulher revela não apenas conflitos interpessoais, mas a permanência de uma lógica estrutural de dominação que se manifesta quando os papéis tradicionais são questionados.
Com efeito, Dürkheim explica que a vida social se mantém através de normas coletivas, ao homem maior permissividade sexual e à mulher controle e expectativa de fidelidade. São os papéis de gênero institucionalizados. Se caso a mulher agir fora dos padrões há uma quebra de expectativa social socialmente estruturada.
Já Pierre Bourdieu baseia-se sobre o conceito de dominação masculina, construída ao longo da história. Este agir criou um habitus, isto é, disposições internalizadas. O homem se sente mais livre e a mulher internaliza limites. No momento em que a mulher rompe com os padrões, o homem sente a perda de posição, gerando o conflito que pode levar à violência que pretende reafirmar a hierarquia tradicional.
Por sua vez Michel Foucault baseia-se sobre a princípio de que a sexualidade é regulada socialmente pelo qual o corpo feminino é historicamente mais controlado que o masculino. Disso resulta que ao homem é aceito socialmente mais liberdade enquanto
que a mulher aceita-se a vigilância e sanções. Se a mulher rompe o dispositivo do controle social desencadeia-se o conflito com uma reação reparadora.
Já Simone de Beauvoir denunciava que a mulher foi construída culturalmente como “outro” com liberdade vigiada e controlada. Na mesma linha Judith Butler denuncia que o gênero é um resultado social repetido. Quando alguém ousa romper desestabiliza o sistema e gera o conflito, por que não é apenas uma ação individual isolada, mas a subversão da estrutura simbólica toda.
Por fim a linha marxista pela qual as mudanças geram conflitos. Quando grupos subordinados, no caso as mulheres, pretendem ampliar alargar sua esfera de autonomia dão origem a tensões com grupos que detém privilégios, no caso os homens. A perda de controle gera a violência na tentativa de voltar ao que era e restaurar a autoridade, controle e o poder masculino ameaçado.
Em síntese, não se quer justificar, apenas explicar e tornar inteligível o fenômeno do feminicídio
É importante, contudo, evitar uma leitura simplista que estabeleça uma relação direta entre a emancipação feminina e o aumento da violência. A ampliação da autonomia das mulheres não cria o feminicídio, mas pode tornar mais visíveis tensões já presentes em estruturas sociais historicamente desiguais. Nesse sentido, o conflito não nasce da liberdade em si, mas da permanência de padrões culturais que não acompanharam, no mesmo ritmo, as transformações sociais. A violência, portanto, não deve ser compreendida como consequência da mudança, mas como expressão de uma ordem que resiste a ela.
O feminicídio, nesse contexto, não pode ser reduzido a atos isolados ou a reações individuais descontroladas. Trata-se de um fenômeno inserido em uma estrutura social mais ampla, na qual persistem desigualdades de gênero profundamente enraizadas. Mesmo em sociedades que avançaram juridicamente na promoção da igualdade, permanecem práticas simbólicas e culturais que naturalizam a superioridade masculina e a subordinação feminina. Assim, a violência extrema contra a mulher revela não apenas conflitos interpessoais, mas a permanência de uma lógica estrutural de dominação que se manifesta quando os papéis tradicionais são questionados.
À luz da tradição da Escola de Frankfurt, é possível aprofundar essa análise ao compreender a violência não apenas como ato individual, mas como produto de formas
de dominação social mais amplas. Autores como Theodor Adorno e Max Horkheimer evidenciam que a sociedade moderna, embora marcada por avanços racionais, mantém estruturas de poder que reproduzem desigualdades e formas sutis de opressão. A chamada racionalidade instrumental — orientada pelo controle, pela eficiência e pela dominação — pode contribuir para a objetificação do outro, reduzindo-o à condição de meio. Nesse cenário, a mulher, historicamente colocada em posição de subordinação, torna-se alvo privilegiado dessa lógica. Quando essa ordem é contestada, a reação violenta pode emergir como tentativa de restabelecimento de um controle ameaçado, revelando a persistência de traços autoritários nas relações sociais.
Neste contexto não se pode deixar de levar em conta o Movimento Estudantil de 68 que estabeleceu algumas linhas de comportamento social que exacerbaram as relações entre os gêneros. Podem ser destacados: contestação das estruturas de autoridade, moral dita burguesa, e os papéis socias vigentes. Este movimento extrapolou o campo político e alcançou o cultural como um todo na medida que defendia a liberdade individual (cada um sabe o que é melhor para si), igualdade de gênero (fim da hierarquia entre homem e mulher) e emancipação às normas consideradas opressivas. O lema “proibido proibir” resume a filosofia deste movimento e que tornou mais sensíveis as relações entre gêneros. O movimentou aguçou a questão da igualdade, autonomia e reconhecimento social da
mulher.
À luz das abordagens sociológicas e da teoria crítica, o feminicídio revela-se não como um fenômeno isolado ou meramente individual, mas como expressão de estruturas históricas de dominação de gênero ainda presentes na sociedade contemporânea. A ruptura dos papéis tradicionais, impulsionada pelos avanços na autonomia feminina, não constitui a causa da violência, mas evidencia tensões latentes em uma ordem social que resiste à transformação. Nesse sentido, a violência extrema contra a mulher deve ser compreendida como tentativa de reafirmação de hierarquias simbólicas e materiais ameaçadas, articulando dimensões culturais, normativas e de poder. A contribuição da Escola de Frankfurt permite aprofundar essa análise ao evidenciar como formas de racionalidade e dominação se reproduzem nas relações sociais, tornando o feminicídio uma manifestação crítica das contradições da modernidade e um desafio ético central para a construção de uma sociedade verdadeiramente igualitária.
 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

DILEMA DA IGREJA:SALVAÇÃO ETERNA OU REDENÇÃO SOCIAL? Selvino Antonio Malfatti.



O filósofo italiano, Vittorio Messori, levantou a questão da prioridade da Igreja: o social ou o teológico? Com efeito, atualmente há amplos setores do clero eclesiástico que dá ênfase na missão social da Igreja. Isso ocorreu após o Concílio Vaticano II. O Concílio não negou, nem colocou em segundo plano a dimensão teológica, mas propôs que a Igreja se fizesse presente no mundo. Para tanto era preciso que atendesse a justiça social, dignidade humana, a paz e se preocupasse com a pobreza. O convite foi recebido com entusiasmo frenético entre setores do clero. Afinal era muito mais receptivo falar da promessa terrena do que a celestial. A partir de então surgiram até teorizações sendo a mais conhecida a Teologia da Libertação, surgida nas décadas de Sessenta e Setenta. A vivência cristã passou a ser pautada pelo olhar da pobreza e opressão. A proximidade com as teses marxistas levou grande parte dos seguidores ao marxismo, inclusive ao comunismo. A fé foi deixada para um segundo plano e o social assume a prioridade, pregando e atuando mirando na perspectiva de um reino dos céus na terra em detrimento da escatologia divina, o céu.

Vittorio Messori em “Hipóteses sobre Jesus” (Ipotesi su Gesù ), considera um grave erro da parte do clero enfatizar prioritariamente problemas sociais e políticos desconsiderando questões teológicas dos dogmas e a vida eterna. Isso porque as grandes questões teológicas como o mal, a morte, a salvação foram deixadis de lado da pregação.[i]

Para Messori o fim principal de mensagem cristã não reside na mudança das estruturas sócio-econômicas, mas no destino do ser humano. O núcleo da escatologia é a reflexão sobre a morte, o juízo final e a vida eterna. É nisso que se diferencia a fé cristã de outras formas de pensamento humanista ou ditos humanistas principalmente o marxista. Se a Igreja se abstiver destes temas perderá sua identidade se tornará mais uma instituição apenas social.

Parte do clero foi engolido pelo processo de secularização que oculta a morte e vida do além. Este clero doura a pílula e faz crer que ao se solucionar os problemas terrenos automaticamente se solucionam os espirituais como se a alma acompanhasse a salvação do corpo. Concorda-se que estes temas não são populares e confortáveis, mas são da essência da vida cristã, mormente o mistério da redenção. Sem eles as pessoas ficam privadas da opção radical da fé cristã. O dizer seu “sim”.

O problema discutido por Messori não é a questão social, mas o desiquilíbrio entre as questões sociais e as teológicas. As socias passaram a ser prioritárias, enquanto as teológicas praticamente esquecidas ou vistas somente na perspectiva social. Para a Igreja as questões socias estão inseridas nas teológicas, isto é, na caridade. O verdadeiro equilíbrio consiste no anúncio das verdades da fé – dogmas e vida eterna – e depois o compromisso com a justiça e solidariedade. O problema está na “mundanização” da Igreja. As pautas sociais se sobrepõem às transcendentes. A solução está na recentralização da escatologia complementada pela justiça social.



[i] “A cultura contemporânea tende a remover a morte, a escondê-la, a silenciá-la. Mas o cristianismo nasce precisamente como resposta à morte. Se se elimina essa questão, tudo o mais perde sentido: também a moral, também o compromisso social. Sem a perspectiva do além, o cristianismo se reduz a uma ética entre outras.” Vittorio Messori,  Scommessa sulla morte (A aposta na morte). 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

A presença do Papa no mundo líquido. José Mauricio de Carvalho

 



O sociólogo Zygmunt Bauman nos descreveu uma imagem chocante do momento atual e ajudou a entender porque há tanta gente com dificuldade de conversar com nossa sociedade. Ele associou a insegurança existencial de nossos dias às profundas alterações econômicas devido às dificuldades impostas por um capitalismo financeiro e globalizado que deseja a liberdade de lucrar sem limites. A única liberdade de que falam seus defensores é essa. O resultado é a instabilidade econômica e a insegurança existencial pois não se vive seguro quando não se sabe (BAUMAN, 44 cartas do mundo líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 142): “se amanhã ainda terei emprego.” E se o Estado garantirá a escola e o hospital. Esse processo tem, ainda outras fontes de instabilidade como: a transformação dos valores, das redes de apoio social, da vida educacional, da força das instituições, das mudanças nos relacionamentos amorosos, resultando em dias em que nada está assegurado e tudo pode mudar. Em resumo vivemos num (id., p. 143): “mundo líquido sempre em mudança, confuso, desordenado e cheio de brumas, imprevisível, em que abundam armadilhas e ciladas.”

Mesmo as relações pessoais, amores, família, amizade tudo ficou diferente e passou a ser tratado como fumaça, conduzidas que são pela lógica da mercadoria. Se uma não funciona troca-se sem problema ou sofrimento. Quero viver meus desejos, é só isso o que importa. Uma relação líquida, ou pura, como o sociólogo apresenta (BAUMAN, 2008 b, p. 33): “nega de forma enfática (...) a responsabilidade pelo outro, que é fundamental em termos éticos.” Portanto, uma relação amorosa pensada em termos de desejos pessoais deixa de fora o outro ou outros, no caso da família.

Havia tantas certezas, práticas e costumes sólidos até algumas décadas e tudo se liquefez e se tornou débil atualmente, quando as intensas mudanças corroeram certezas de séculos. E isso é sentido como uma crise que percebíamos, mas era pouco consciente. Não há como viver num mundo que não existe mais, mas há referências a serem preservadas para se viver nesse.    

Uma das novidades desses dias líquidos é o reaparecimento da extrema direita (fascista, nazista ou neofacista como quiserem) capaz de defender os interesses desse mundo líquido. Quero colocar entre essas coisas as críticas do Presidente Donald Trump ao papa Leão XIV, como já criticara o Papa Francisco e a qualquer um que se oponha a suas decisões ou ao propósito da liberdade de enriquecer sem limites. Trump acusou o Papa de ser fraco em política internacional e evocou a noção de guerra justa, enquanto o Pontífice chama atenção para outra forma de resolver os conflitos, expressando o desejo de uma humanidade pacífica. É claro que a guerra movida por Trump e Israel não são justas no sentido que a Igreja defende, embora seja preciso acabar com o apoio do Irã aos grupos terroristas que atacam Israel e não parece que essa guerra produzirá tal efeito.

Não se discute o direito de Israel se defender e nem das nações democráticas temerem uma república islâmica com artefatos nucleares, ambas as coisas causas de instabilidade. O Papa não aprova tais coisas, exorta que não apenas um dos lados deixe de guerrear, mas que a boa vontade de ambos exista para acabarem com a guerra e usem o caminho da razão e da paz. A convivência num mundo em paz é um sonho que vale a pena e o Papa o apresenta. Pede que os homens encontrem o caminho da paz, com a democracia, a razão e preocupações morais. Numa perspectiva religiosa, o Papa Leão XIV retomou o que o filósofo Emanuel Kant escreveu no ensaio A paz perpétua de 1795. Mesmo tendo inclinações egoístas (ou a pecar) os homens são chamados a organizar a vida de forma mais racional e moral.

Nesse mundo líquido o Papa, Francisco ou Leão, representam uma liderança moral não mais encontrada em outras instituições. Assim, as críticas inusitadas ao Papa são próprias de um tempo maluco. Traz coisas que nem loucos como Hitler e Mussolini ousaram fazer. Então que Leão tenha sucesso em sua visita pastoral aos países da África. E sobretudo possa ser a consciência visível da paz, do amor fraterno e da responsabilidade pelo outro nesse mundo líquido. Porque Francisco ou Leão são uma das poucas referências seguras nesse mundo líquido.  

 

Postagens mais vistas