sexta-feira, 23 de outubro de 2026

MOTIVAÇÕES QUE LEVAM AO FEMINICÍDIO. Selvino Antonio Malfatti





O feminicídio pode ser precedido por um processo crescente de dominação e violência. Para compreender esse percurso, os comportamentos do agressor e as circunstâncias que dificultam a proteção da vítima podem ser organizados em três períodos: formação, desenvolvimento e concretização. Esses períodos podem se sobrepor e não constituem uma sequência obrigatória em todos os casos.

1. Formação: ciúme, posse e controle

O primeiro período caracteriza-se pela formação de uma relação de dominação. O ciúme, o sentimento de posse e a tentativa de controle manifestam-se na limitação da liberdade, dos relacionamentos e das decisões da mulher. O agressor procura determinar com quem ela pode conviver, quais lugares pode frequentar e como deve agir. Humilhações, intimidações e ameaças começam a transformar a convivência numa relação de submissão. Nesse contexto, a autonomia da mulher passa a ser percebida pelo agressor como uma ameaça ao seu poder.

2. Desenvolvimento: agravamento da violência e dificuldades de rompimento

No segundo período, o controle se intensifica por meio de agressões, ameaças, vigilância, mensagens insistentes e invasões dos espaços frequentados pela mulher. A tentativa de separação pode agravar esse cenário. Inconformado com o término, o agressor recorre à perseguição e à violência para tentar manter ou recuperar o domínio sobre a companheira ou ex-companheira.

Nesse período, também se evidenciam as condições econômicas e emocionais que dificultam o rompimento definitivo. A falta de recursos financeiros, a existência de filhos, o medo de novas agressões, a esperança de mudança e a permanência do vínculo afetivo podem contribuir para a continuidade ou retomada da relação. Essas circunstâncias limitam as possibilidades de afastamento da vítima, sem significar aceitação da violência.

O consumo de álcool ou drogas pelo agressor pode agravar as discussões, as ameaças e as agressões. Não deve, contudo, ser apresentado como causa isolada do feminicídio nem como justificativa para a conduta violenta.

3. Concretização: violência letal e falhas na proteção

O terceiro período corresponde à passagem das ameaças e agressões à violência letal. O feminicídio representa, nesse percurso, o desfecho extremo da tentativa de dominação: o agressor atenta contra a vida da mulher cuja liberdade procura impedir. Há, inclusive,  relatos de atentados conra familiares das vítima: o vicaricídio

A omissão ou insuficiência da proteção institucional pode contribuir para que esse desfecho não seja evitado. A falta de medidas eficazes às denúncias, às perseguições e às ameaças, assim como falhas na aplicação ou fiscalização de medidas protetivas, deixa a mulher exposta ao agressor. Embora essas falhas possam ocorrer desde os períodos anteriores, sua gravidade se evidencia quando o perigo conhecido culmina no assassinato.

Assim, convém distinguir as motivações de posse e domínio, os comportamentos que desenvolvem a violência e as circunstâncias que dificultam o afastamento e a proteção da vítima. A responsabilidade pelo crime permanece com o agressor.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Tempos fluídos e reaparecimento da extrema direita. José Mauricio de Carvalho

 



Uma das dificuldades que a História contemporânea reserva é compreender como a Alemanha de tantos gênios, intelectuais de todas as áreas do saber e artistas, aquela flor do Reno (Rio tão celebrado em poemas, canções e lendas), a Alemanha da venerável universidade de pesquisa foi engolida pelo nazismo. Não é fácil compreender como se embota a razão crítica, embora possamos acompanhar os passos históricos que levaram ao desastre: a eleição de Hitler, o controle do parlamento, a mudança da constituição, o amordaçamento do judiciário, o controle dos meios de comunicação, a transformação da mentira em verdade. Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler valeu-se da destruição da verdade e agia para dar coerência à frase que foi a ele atribuída: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.” Goebbels é o teórico da Fake News, o gênio do mal que inspira a mentira nos meios de comunicação. Ele falou isso muito antes de existir os atuais recursos tecnológicos.

O crescimento das falsas notícias e a multiplicação dos herdeiros de Goebbels em nossos dias se explica pela lógica dos algoritmos e pelo ambiente líquido mencionado por Zygmunt Bauman. O sociólogo descreveu metaforicamente o que está acontecendo na sociedade humana (CARVALHO, Bauman e a liquidez, BH., MPR edições, 2026, p. 207): “A sociedade líquida estimula a rápida mudança dos padrões de vestuário como forma de mudar publicamente de identidade o que é favorecido num tempo em que para sobreviver é preciso, diz Bauman: “o descarte rápido, e cada vez mais abundante, na lata de lixo, dos bens comprados e adquiridos, isso numa economia cuja coluna vertebral é a remoção do lixo. Em outras palavras, a moda e sua contínua mudança acaba favorecida pelo ambiente geral da cultura que acolhe como modo de existir a mudança contínua da vida e dos objetos consumidos.”

Quem nos ajuda a entender e descreveu, desde dentro, o modo como a verdade é destruída e uma sociedade entra em colapso, tornando possível a ascensão do nazismo, foi o médico e filósofo Karl Jaspers. Ele testemuhou tudo e foi perseguido na Alemana nazista, ele, o maior filósofo e gênio da psiquiatria, foi expulso pelos nazistas da Universidade para ser reintegrado, com todas as honras, depois da destruição do nazismo. Quando acabou a Segunda Grande Guerra ele foi considerado o maior intelectual da Alemanha livre. Se pudermos resumir o processo que ele descreveu em Razão e Contra-razão no nosso tempo (Lisboa, Minotauro, s.d.) o processo é mais ou menos assim. A verdade encontrou naquele meio (nazista) não uma resistência comum, mas uma hostilidade assassina. O espírito das fake news acolheu sua inspiração no saber confuso, na desinformação, na mistificação, na repetição da mentira, no desrespeito às leis democráticas e na violência contra quem pensa diversamente. Tudo isso prejudica o uso da razão.

A massa pouco crítica não enxerga nos mágicos e mistificadores o perigo e os seguem. Adoram quem se apresenta como mito, e lhes oferecem um modelo para se identificarem. O uso crítico e educado da razão é como o ar puro que respiramos, mas que as massas evitam, mesmo tendo necessidade dele. A filosofia e a ciência querem o homem livre, fora da sedução do totalitarismo nazista, ou de qualquer outro totalitarismo. A razão iluminista confiante e inocente precisa ser atualizada, ela não consegue enfrentar as forças da desinformação. A fé na razão e seu exercício crítico não permite uma fé irracional. Então, lutar pela razão é lutar pela ciência e pela filosofia, pela democracia e pela liberdade.

Por oferecer explicações rasas e  eliminar o pensamento crítico criando a forma de pensar de manada (ou de gado), os líderes nazistas rejeitam a ciência, a filosofia e as humanidades, em geral. Negar a razão é colocar a sociedade em risco. A substituição de uma religião aberta e coerente com a tradição cristã por um falso cristianismo faz surgir seitas ou agrupamentos inimigos da liberdade e intolerantes.

Finalmente, cabe ouvir a advertência do filósofo. Num tempo tão difícil, mesmo havendo razão para o desânimo é preciso lutar pela verdade, pela democracia, pelo estado de direito, pelos verdadeiros valores cristãos. Apesar de quase sufocada a liberdade superou o obscurantismo e renasceu na Alemanha pós-nazista. Pois bem, vamos esperar que a democracia atual não precise ser morta para depois ter que renascer com tremendas dores de parto.

 


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

WILLIE SOON – BUSCA DE DEUS: MATEMÁTICA, INTELIGÊNCIA, DEUS. Selvino Antonio Malfatti

 



Passados mais de 2 mil anos, desde os gregos até hoje, o homem continua estupefato a comtemplar o universo: tudo está em ordem, cada astro cumpre sua função dentro de leis estabelecidas. Ninguém se adianta, nem se atrasa, nem age por conta própria, nem se rebela. É uma sintonia perfeita entre os astros como os gregos contemplavam do alto da acrópole e diante do mar Egeu. O matemático Pitágoras explicava aos cidadãos as relações do mundo do universo e lhes dizia as razões de sua existência interpretadas à luz da matemática.

- A matemática, lhes dizia, nos faz entender as regularidades, inclusive nos permite antecipar acontecimentos. Sabemos que agora é verão porque podemos calcular a menor distância da terra em relação ao sol. Aquilo que podemos calcular também podemos conhecer.  E vice-versa.

Saltemos para nosso tempo. O matemático e astrofísico, da Universidade de Harvard, Willie Soon, explica que a ordem cósmica sugere uma inteligência por trás daquilo que a matemática constata. Não é uma fórmula cujo resultado é Deus, mas uma pista. Não é uma equação insolúvel, apenas ainda não foi encontrada a incógnita.  Não conseguir demonstrar a existência de Deus, por determinado argumento, não demonstra sua inexistência; tampouco prova que a pergunta esteja mal formulada. É filosofia e nela a formulação e a equação são diferentes. Em filosofia continua aberta à investigação. E nem que se conseguisse a precisão matemática, mesmo assim a interpretação metafísica não seria logicamente demonstrada. Haveria que se considerar outras condições e suas probabilidades.

A filosofia reflete sobre os resultados matemáticos. A questão deve ser direcionada para o fundamento. Por que existem leis às quais o universo está submetido? Por que e qual a realidade racionalmente inteligível? Neste momento saímos da ciência e entramos na filosofia. Esta antecede e pós segue à ciência. Vem antes da ciência e continua depois dela.

Recapitulando, as conquistas filosóficas. Pitágoras, matemático, o universo não era um caos, mas uma ordem cósmica. Platão procurou o fundamento do conhecimento numa realidade inteligível. Aristóteles investigou os princípios do ser e do movimento. Santo Tomás partiu do mundo sensível para perguntar por seu fundamento último. Leibniz, pelo princípio da razão suficiente, perguntou por que existe algo em vez de nada. Cada um, segundo seu método, procurou alcançar uma razão que ultrapassasse a descrição dos fenômenos.

Entretanto, a crítica de Kant exige que reconheçamos os limites desse esforço. Não podemos tratar Deus como um objeto submetido à observação e à medida. A passagem da ordem do universo à existência divina precisa justificar seus pressupostos e enfrentar as objeções que encontra. A força sugestiva de uma ideia é o começo de uma investigação.

Soon não afirma categoricamente a existência de Deus como certa. Faz com maestria de outra forma. A matemática antecipa aspectos da realidade; essa correspondência sugere uma inteligibilidade profunda do universo; Soon vê nela um sinal de Deus. Para ele, é a equação de Dirac: ele relata que a formulação matemática apontou para uma possibilidade física posteriormente reconhecida na descoberta do pósitron. O mesmo aconteceu com em 1916, Einstein mostrou que suas equações da relatividade geral admitiam ondas gravitacionais: perturbações do espaço-tempo que se propagam à velocidade da luz. Quase um século depois, em 2015, o LIGO detectou diretamente essas ondas, produzidas pela fusão de dois buracos negros; a descoberta foi anunciada em 2016. Novamente a matemática é capaz de apresentar uma realidade que existe na realidade. Interpretar essa correspondência como sinal de Deus exige uma justificação filosófica adicional.

Numa entrevista no jornal argentino La Nacion, diz Soon: “Si hay tanto orden, tanta armonía en las matemáticas que rigen el universo, ¿no podría ser eso una señal de un Creador?”

 

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Maria, mãe de Jesus e da Igreja. José Mauricio de Carvalho

 


Desde que a extrema-direita (começou nos Estados Unidos) sequestrou parte das igrejas evangélicas, promoveu o pior que se pode fazer com a mensagem religiosa, aproximou-a do poder do Estado. Vamos adaptar as palavras de Immanuel Kant para tratar desse sequestro: “posso pensar sem dúvida, um político religioso, isto é, um homem que concebe os princípios da sabedoria do Estado de modo tal que possam coincidir com os princípios de uma religião, mas não consigo pensar um religioso político que forja os princípios de uma religião para ser compatível com os seus interesses de político.” Mas deixemos de lado essa perversão, que trouxe religiosos e uma fé para ocupar cargos de um Estado tentando modificar as leis de uma instituição que precisa ser laica para assegurar que todos possam viver sua fé em paz, sem pensar em impô-la aos demais cidadãos.

Quanto à polêmica envolvendo Nossa Senhora da Conceição (com o título de Aparecida) assumida pelos católicos como intercessora diante de Deus pelo povo brasileiro trata-se de outra confusão sem sentido. Ao acolhê-la como intercessora diante de Deus, a fé católica a reconhece como alguém que pode pedir a Deus por nós, o que não a promove em divindade e nem dispensa o encontro do crente direto com Deus (Eu-Deus), apenas abre mais uma estrada até o Altíssimo.

E porque assumir Maria como intercessora? Porque quando estava perto da morte, Jesus disse para sua mãe (Jo. 19,26-27): “mulher eis aí teu filho” (cuide dele como sua mãe) e a João: “eis aí sua mãe” (a acolha, proteja e peça sua ajuda quando a vida te parecer pesada demais). E assim, Jesus nomeou sua mãe, com sua força e sabedoria, para orientar João e aos outros discípulos, ou seja à Igreja nascente. Somente uma mulher da envergadura espiritual de Maria assistiria de pé e sem uma palavra de queixa o sofrimento e a tortura feita a seu filho. Pois então, quando a vida estiver pesada demais, e as dores parecerem te esmagar sendo maiores que podes suportar, lembre-se do exemplo de Maria. Por isso, a série The Chosen captou esse sentido evangélico e colocou na boca de Jesus que a mulher mais forte do mundo estaria com Ele em Jerusalém (ao pé da cruz, para cumprir a vontade do Pai). Assistiu sofrendo o que Jesus permitiu para cumprir a vontade de Deus Pai.

Ao colocar Nossa Senhora como padroeira do Brasil, a Igreja que aqui está apenas obedece a vontade de Jesus: “mulher eis aí os teus filhos”. Ajude-os a entender a vontade de Deus e a seguir até o Reino que Deus preparou para aqueles que quiserem estar ao seu lado (Mt. 25,34) ou (Lc. 25,34).

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A BUSCA DE DEUS – Encontrado na natureza. Selvino Antonio Malfatti

 



Contemplo a paisagem. A água desce entre as pedras, as nuvens atravessam o céu e as folhas se inclinam ao vento. Tudo se move. Tomás me pergunta: o que torna possível esse movimento? Cada coisa que muda recebe de outra a possibilidade de mudar. Se sigo essa pergunta até seu fundamento, chego à ideia de um Primeiro Movente que move sem ser movido. Foi a resposta de Tomás.

Volto os olhos para o rio. A chuva alimenta suas águas; o relevo orienta seu curso; a luz do sol participa do ciclo que as renova. Na natureza, encontro causas ligadas a outras causas. Pergunto então a Tomás: de onde procede, em última instância, o poder de causar? E a resposta: a Causa Primeira depende as demais anteriores.

Observo uma árvore. Ela nasceu, cresceu e um dia deixará de existir. O mesmo vale para os seres que povoam o vale. Tudo o que vejo poderia não estar aqui. Mas, se cada ser depende de outro para existir, onde se encontra o fundamento dessa existência? Tomás me cita o Ser Necessário, que não recebe de outro a razão de seu ser.

A luz do amanhecer revela diferenças. Uma flor é bela, um gesto pode ser bom, uma ação pode ser mais justa que outra. Reconheço graus de beleza, bondade e perfeição nas coisas. Como explicar? pertunto a Tomás. 

- O fundamento dos graus de perfeição indica a Perfeição Suprema. 

Por fim, observo a ordem da paisagem: a água segue seu curso, as plantas se voltam para a luz, as sementes germinam em condições próprias. Seres sem inteligência agem regularmente em direção a seus fins. De onde vem essa orientação? O processo ordenado me conduz à ideia de uma Inteligência que ordena a natureza, conclui Tomás.

Estou diante da paisagem.Tomás me pede que o examine com atenção o movimento, as causas, a existência passageira dos seres, seus graus de perfeição e a ordem natural: qual o fundamento último da realidade que se apresenta aos meus olhos? A resposta que ele dá é Deus.


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Bauman e a liquidez. José Mauricio de Carvalho



Quando se pensa a realidade de nosso tempo há dois conceitos fundamentais: sociedade de massa e liquidez. O primeiro vem do filósofo espanhol Ortega y Gasset, célebre pela publicação de Rebelião das Massas (1930) e o segundo vem do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor do clássico Modernidade líquida (2000). Embora com 70 anos de distância tratam das mudanças sociais e seu impacto na vida das pessoas. Falar de uma sociedade massa e de um homem sem capacidade crítica, infantil e imaturo, ou inculto, como o descreve Ortega ajuda a explicar porque é tão fácil que as redes sociais divulguem o ódio e a violência como coisas banais. Nelas se confunde desrespeito e fake news com liberdade de expressão, grosseira e ignorância com liberdade de ação, destruição dos programas sociais e desrespeito ambiental com metas razoáveis de governo, para não falar das críticas à ciência, à racionalidade e a inteligência em geral, deboche sobre a verdade, coisas impensáveis até algumas décadas. Por outro lado, liquidez exprime o fato de que vivemos um tempo de aceleradas mudanças onde tudo pode acontecer e nada está seguro. A vida muda mesmo, sempre se modificou, mas em nossos dias falamos de uma transformação intensa e profunda da vida, valores, saberes, gostos, amores, instituições, universo do trabalho, etc.

A mistura dos dois conceitos ajuda a entender os nossos dias e nos trazem para perto de uma realidade complexa que se tornou diária nas clínicas de psicoterapia. Psiquiatras, Psicólogos e Filósofos Clínicos recebem pacientes que não sabem como se conduzir nessa nova realidade social, nem viver com o que aprenderam. Ou porque seus valores não foram atualizados, suas crenças estão em discordância das atuais, seu entendimento do mundo já não é vigente, o universo do trabalho já não funciona mais como ele estava acostumado, as relações afetivas tornaram-se extremamente instáveis, superficiais e curtas, longe do amor eterno que sonhavam. Some-se a isso o enfraquecimento de instituições como clubes, família, igrejas, apoio de amigos, familiares e até os Estados Nacionais já não têm mais tanta força. O discurso da meritocracia entregou a cada um a responsabilidade pela condução da própria vida e a responsabilidade por eventuais desvios e fracassos cai no colo do sujeito. É do próprio indivíduo a responsabilidade exclusiva de não viver o que ele espera e não realizar seus planos existenciais. Tudo isso deixa milhões de pessoas mundo afora perdidos e sem saber como viver nesse espaço social. Essa desorientação é vivida dentro dos consultórios com muito sofrimento tanto pelos conflitos internos que as mudanças causaram quanto pela falta de capacidade de conversar com a base social.

Essa realidade foi amplamente analisada a partir da volumosa obra de Zygmunt Bauman. Seus 40 livros oferecem uma visão de todas essas mudanças e os diálogos que ele estabeleceu com notáveis filósofos e psicólogos e nos apresenta sua visão de nossos dias e a melhor forma de lidar com ele. Com uma obra tão extensa e sobre tão amplas e variadas questões, é compreensível que quando ele passou da descrição do que vivemos para sugestões do que devemos fazer e qual o melhor caminho a seguir nesses dias instáveis temos vários reparos a fazer. No livro Zygmunt Bauman e a liquidez, considerações sobre a vida em permanente mudança (Conselheiro Lafaiete, MPR edições, 2026, 862 p.) agora editado apresentamos o essencial das contribuições de Bauman. É um livro essencial para entender e viver este início de século XXI e completa a análise da realidade proposta em Introdução à razão vital de Ortega y Gasset (Londrina: Cefil, 2002) e Ortega e nosso tempo (São Paulo: Filoczar, 2016).

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

BUSCA DE DEUS: SANTO ANSELMO - CRÊR PARA ENTENDER. Selvino Antonio Malffatti

 


Agostinho era de 350 d. C. e Anselmo de 1033. Temos, então, mil anos de diferença, mas irmãos de pensamento. E o progresso foi imenso. Agostinho, baseado em Platão, tinha concluído que pelo conhecimento da Perfeição devia existir Deus. Agostinho vislumbrou Deus na Perfeição. Anselmo conheceu Deus na Perfeição. Agostinho e Anselmo eram como os irmãos. Ambos sentiam a presença de Deus. Anselmo, porém, o conheceu.

O primeiro ficou no conhecimento, o segundo no Ser. Esta descoberta foi tão importante que um filósofo atual, Plantinga,ainda vivo e com 94 anos, baseou a conclusão de sua filosofia sobre a existência de Deus em Anselmo. Diz Plantinga:

"Portanto, se a existência de Deus é mesmo apenas possível, conclui-se que Deus necessariamente existe, e existe em cada mundo possível."

É um argumento lógico-ontológico de Anselmo e ontológico de Plantinga.

Na filosofia de Agostinho, Anselmo desejava encontrar algo ainda mais radical. No Proslogion, escrito por volta de 1077–1078, procura um único argumento que fosse suficiente por si mesmo para conduzir racionalmente à existência de Deus. Surge então o raciocínio ontológico. Diferentemente das provas cosmológicas, que começam pelo movimento, pela causalidade ou pela contingência do mundo. Anselmo não começa olhando para o universo. Seu ponto de partida é o próprio conceito de Deus. Por isso seu argumento é caracterizado como a priori: pretende avançar daquilo que a inteligência necessariamente compreende quando pensa Deus para a afirmação de sua existência.

Anselmo define Deus como “aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado”. Não se trata simplesmente de imaginar um ser extraordinariamente poderoso ao lado de outros seres. Deus é concebido como o ser absolutamente máximo, acima do qual nenhuma realidade superior pode sequer ser pensada. O argumento começa, curiosamente, com o próprio indivíduo que nega Deus, chamado por Anselmo, seguindo o salmo bíblico, de “insensato”. Mesmo aquele que afirma que Deus não existe consegue compreender o significado da expressão “ser do qual nada maior pode ser pensado”. Logo, ao menos enquanto conceito, esse ser encontra-se no intelecto daquele que o pensa.

A partir daí se desenvolve o núcleo do raciocínio. Suponhamos que esse ser exista apenas no pensamento e não na realidade. Nesse caso seria possível pensar outro ser possuidor das mesmas perfeições, mas que, além de existir no pensamento, existisse também realmente. Esse segundo ser seria maior que o primeiro. Teríamos, então, uma contradição: aquilo que foi definido como o ser acima do qual nada maior pode ser pensado admitiria que algo maior fosse pensado. Portanto, conclui Anselmo, o ser do qual nada maior pode ser concebido não pode existir apenas no intelecto; deve existir também na realidade.

 "Sua originalidade encontra-se exatamente aí. Não procura Deus inicialmente fora do pensamento, no movimento do cosmos ou na cadeia das causas, mas examina o que a própria razão afirma quando concebe seriamente aquilo que chama Deus. Se Deus é verdadeiramente o ser absoluto, não pode ser pensado como um existente contingente entre outros existentes. Para Anselmo, pensar adequadamente Deus significa pensá-lo como necessário. Sua demonstração pode ser aceita ou recusada — e efetivamente foi discutida durante nove séculos —, mas colocou uma questão que a filosofia jamais conseguiu simplesmente eliminar: pode a própria ideia de um ser absolutamente perfeito conter razões suficientes para afirmar sua existência? É essa pergunta que conecta o monge medieval do século XI à lógica modal e à filosofia analítica contemporânea".


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