sexta-feira, 26 de junho de 2026

DEUS MORTO? NÃO, OCULTO. Selvino Antonio Malfatti.

 

 


Um a um os conventos, lugar de meditação e contemplação, estão fechando. Cada um ao fechar as portas deixa um buraco negro, um vazio pronto para engolir o que o cerca. O mudo se digitaliza freneticamente e seus textos devorados deixando o vazio. Se precisa de uma informação digitaliza um IA. Se quer um medicamento digitaliza um “deliver”. Se quer um hotel ou qualquer agência,  digitalize uma plataforma. Tudo digitalizado o que se quer. O ser humano não existe mais. É um número, um código, um CPF. Desesperado tenta encontrar onde se agarrar dentro do pântano da digitalização que o suga. Mas nada. Tenta Deus, não o acha mais. É o que constata filósofo Byung- Chul Han.

Este pensador é um sul-coreano radicado e professor na Alemanha. Destaca-se pela crítica sistemática à sociedade contemporânea, digital caracterizada pela autoexploração, no seu livro: Sociedade do Cansaço. Nele desenvolve a ideia que o homem abandonou o imperativo de Kant dos “deves fazer” para os “podes fazer”, John Dewey que incentiva os indivíduos adquirirem sempre mais.

Na Alemanha estudou metalurgia, mas rapidamente passa para área da filosofia doutorando-se na área pela Universidade de Freiburg com tese sobre Heidegger. Han quer ser o contraponto das multidões que gritam, querem ser ouvidas, pressionam decisões, impõem ordens. Não raciocinam nem escutam levadas irracionalmente pela euforia, medo, raiva ou entusiasmo. Contrapõe-se também ao indivíduo inserido no contexto de um mundo virtual que dita ruidosamente ordens, estabelece metas, comemora conquistas públicas.

Em vez disso, Han busca o ouvinte, o interiorizado em si. Um humilde, paciente, silencioso atento às manifestações metafísicas ou ocultas. Fo o que aconteceu com os pensadores gregos que à sombra e no silêncio dos plátanos descobriram realidades geniais que até hoje nos admiram em religião, filosofia, química, física, astronomia, matemática pintura, escultura. Quase tudo saiu da meditação grega. Por isso, Han pensa encontrar aquele Deus considerado morto. Sabe que vive, mas precisa de ambiente para individuá-lo[i]. Sentir a experiência do sagrado na sombra dos plátanos.

O encontro de Han com a filósofa Simone Weil deu-lhe o suporte teórico para elaborar seu pensamento. O pensamento de Han baseia-se no cultural e Weil no espiritual. Han é a sociedade do desempenho, da positividade, enquanto Weil é da atenção, acolhimento.  Pensa que, conforme Weil, encontrar Deus é possível ao trilhar o caminho vislumbrado por ela conforme os passos ou disposições a serem seguidos:

De acordo com Weil para encontrar Deus a primeira atitude é ficar atento. Ele pode se manifestar a qualquer momento ou ambiente. O “eu” deve despir-se de suas vestes festivas e vestir-se da nudez que receber o manifestante. Ser um nada para receber aquele que é tudo. Ele chega até nós não pela via digitalizada mas contemplativa. Ficar atento a hora da chegada com azeite suficiente para iluminar a mente. O sagrado não chega ao som das fanfarras, mas ao som do violino.

A segunda atitude consiste em não apenas despir-se, mas assumir uma atitude radical de ser um ser novo, isto é, recriar-se, ser um novo ser. Como certos seres abandonam a velha carcaça e se revestem de uma nova natureza. Aquele velho homem deve ser abandonado e assumir uma renovada natureza possibilita adquirir um novo conhecimento para encontrar a Deus. Este novo homem não pensa ou age conforme a sociedade imersa no virtual, mas com um coração aberto ao divino.

Para encontrar Deus é preciso oferecer-lhe espaço não, porém, qualquer espaço, mas todo. Por isso é preciso esvaziar-se para estar plenamente vazio e poder ser por ele preenchido. Atualmente o ser humano está sempre preenchido com informação, entretenimento, consumo. Deve desvencilhar-se de tudo isso para Deus poder entrar.

A beleza digital é espetáculo, superficial, descartável. Deus é a beleza que se admira, contempla, profunda, perene. Esta, como Deus, nos desapropria e com Ele passamos a senti-lo no silêncio.

O homem social atual, conforme Han apenas sente dor, mas não sofre, não sente a dor profunda da alma. Para ter a experiência de Deus, não basta sentir a dor, é preciso provar profundamente o sofrimento.

O mudo de hoje é ruidoso, hiperativo. O silêncio deixou de existir. E é precisamente nele que Deus está. Por isso, silenciem e Deus se manifesta.

A lógica para o rendimento é a atividade ininterrupta. Para acolher o outro é preciso, ao contrário, parar e esperar. Da mesma forma praticar a inatividade favorece e proporciona a condição de encontrar Deus. Ele não se encontra na cadeia do ativismo, mas no espaço inativo.

O encontro entre Han e Weil acontece no cruzamento da crítica radical à sociedade atual. Weil buscam uma ontologia espiritual de atenção e esvaziamento e Han uma crítica cultural da sociedade digital e de desempenho. Em Weil há uma proposta de esvaziar-se, descer para encontrar o divino. Han, por sua vez entende que a modernidade é o empecilho para se realizar tal intento.

A crise do mundo, mais precisamente do homem, não é tanto econômica ou política, mas espiritual, perceptiva. Deus não está morto, mas ofuscado pelo mundo contemporâneo.



[i] A sociedade de desempenho é uma sociedade de autoexploração. O sujeito de desempenho explora a si mesmo, até consumir-se completamente (burnout). (HAN, Byung- Chul. Falando de Deus , Vozes, 2025)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

O que é o consumismo, a alma do mercado? José Mauricio de Carvalho

 



                            Yuval Noah Harari 


Nos nossos dias as massas foram condicionadas ao que o historiador denominou ética do consumismo, no qual ética é um termo singular e diverso do utilizado na tradição filosófica, na qual surgiram diversos modelos éticos desde a antiga Grécia. Os modelos éticos desde o aristotélico, que consideramos o primeiro com boa justificação filosófica, sempre apontaram para como alcançar uma vida boa, justa e humana e, algumas vezes, feliz. Isso através de esforço pessoal e de uma fundamentação racional dos comportamentos adotados.

O sociólogo Zygmunt Bauman escreveu em Vida para o consumo que o consumo é um conceito essencial para entender a sociedade contemporânea, ainda que possa não expressar perfeitamente tudo que nela ocorre. O conceito é válido porque esclarece parte significativa do que está ocorrendo. Em outras palavras (2008 b, p. 40): “consumismo, sociedade de consumidores e da cultura consumista (...) são ferramentas adequadas à tarefa de compreender um aspecto fundamental da sociedade que hoje habitamos.” E o assunto também foi tema de outra obra de Bauman, 44 cartas do mundo líquido moderno, onde o sociólogo ofereceu uma descrição preciosa dessa nova forma de vida. O consumismo, que caracteriza nosso tempo, não se explica pela simples capacidade de consumir, que é condição para estar vivo, mas por transformar o ato numa forma de viver (BAUMAN, 2011, p. 83): “não basta consumir para continuar vivo se você quer viver e agir de acordo com as regras do consumismo. Ele é mais, muito mais que o mero consumo. Serve a muitos propósitos.” É uma atitude que se apresenta como forma de vida e de resolver os problemas inclusive os de saúde pela compra cada vez maior de medicamentos. E estar sempre em compras tornou-se uma forma de enfrentar todas as incertezas que temos. Quanto ao pertencimento ao grupo social, ele se define pela capacidade de consumo de marcas e produtos (BAUMAN, 2008 b, p. 108): “o processo de autoidentificação é perseguido, e seus resultados são apresentados com a ajuda de marcas de pertença visíveis, em geral encontráveis nas lojas.”

O que Harari denominou ética do consumismo é esse comportamento descrito em 44 cartas do mundo líquido moderno. Trata-se de uma forma de viver amplamente estudada por Bauman e consiste na síntese do historiador (HARARI, 2020, p. 357): “garantir que as pessoas sempre comprem o que quer que a indústria produz.” E não apenas a indústria, mas qualquer produto do mercado, da agricultura aos variados serviços. Como se vê ética consumista é um uso heterodoxo do conceito, descreve uma forma de viver de nossos dias.

Não custa recordar que a ética, disciplina filosófica, ocupa-se de outras coisas. Nos (CARVALHO, 2004, p. 9): “Tempos modernos teve como tema central a separação entre a moral e a religião, o que a distinguiu do que se fez na Idade Média e que não chegou a se modificar no renascimento. Conforme sabemos (...) a investigação moral no período contemporâneo se afastará da preocupação moderna que fora de assegurar uma fundamentação racional para a ética, ao mesmo tempo que firmava as bases de uma moral social laica e consensual. A discussão sobre a moral social consensual dependia do reconhecimento da diversidade de religiões presentes no cenário social e mesmo de uma disposição natural do homem para ser religioso. O pensamento contemporâneo se volta para a experiência moral do homem e a investigação se desenvolve em terreno próprio, diverso do que fora a preocupação dos moralistas de outras gerações.”


sexta-feira, 12 de junho de 2026

SOLUÇÕES SOCIAIS ATUAIS- PROBLEMAS FUTUROS. Selvino Antonio Malfatti



“Em outras palavras, geralmente existem efeitos de feedback que impactam o agente de uma ação que visa à melhoria. Por exemplo, uma inovação tecnológica como o carro revolucionou as condições de vida e acelerou o transporte, mas, ao mesmo tempo, polui severamente a atmosfera e causa congestionamentos que anulam o tempo economizado." (Morin, Edgar. Passos Pequenos, Le Monde.)

Morin convida-nos ao feedback através da teoria. Antes de se aplicar uma solução ao problema deve-se refletir se isto não acarretará outros problemas no futuro e tentar evitá-los. É o caso de alguns problemas atuais. Refletindo sobre os principais problemas sociais que afligem o mundo atual, depa-se assustado, estupefato com um fato: os problemas atuais foram soluções no passado. Comecei a pensar nas favelas, um problemão social atual e no passado uma solução. Nem todos podiam morar no centro, evidente. Deslocaram-se então para periferia. Na época uma solução, atualmente um problema. O êxodo rural. Escasseando a terra para plantar ou morar alguns se deslocaram para as cidades. A solução antiga virou um problema atual. Casais solteiros e elas grávidas foram forçados a casar. Novamente aquilo que acharam como solução virou um problema social, pois logo adiante separação, criando outro problema e forçando soluções. Durante a pandemia da COVID incrementou-se a EAD, atualmente um surto de profissionais mal preparados.

Nas últimas décadas, as transformações no mundo do trabalho, o avanço da globalização, as mudanças tecnológicas e as políticas implantadas pelas IAs têm gerado novas configurações da pobreza tanto nas cidades quanto no campo. A sociologia contemporânea tem se dedicado a compreender como essas formas de pobreza extrapolam os limites da renda, incorporando dimensões como moradia, o acesso a direitos, exclusão simbólica e ambiental. Quais os possíveis problemas que advirão das soluções atuais?

A pobreza urbana atual está profundamente marcada pela informalidade, pela insegurança habitacional e pela exclusão social. Diferentemente das formas tradicionais de pobreza, caracterizadas pela marginalização completa do sistema produtivo, as novas expressões urbanas da pobreza se inserem em circuitos econômicos informais, como a "uberização" do trabalho. Essas populações compõem a "ralé estrutural", mantida em situação de subalternidade por estruturas históricas de desigualdade. O desafio: como inserir estas populações no sistema produtivo formal? Criação de novos empregos? Por quem? Pelos empreendedores? Com verbas subsidiadas? Pelo governo? Com verbas de impostos? Pelo cenário que se vislumbra as possibilidades são todas problemáticas? Deixar que as “aboboras se acomodem com o tempo”? Buscar soluções pelas políticas públicas? O problema está  na invisibilidade dessas áreas pelos políticos para destinar recursos. A gentrificação? Esta solução valorizaria as áreas e pessoas de recursos se apossam o que expulsa os pobres de regiões centrais em nome da valorização imobiliária.

Não são diferentes no espaço rural, as novas formas de pobreza ligadas à perda de autonomia das comunidades agrícolas e ao avanço do agronegócio. A concentração fundiária, a mecanização da produção e a financeirização da terra provocam o esvaziamento das economias locais e o deslocamento de populações tradicionais A pobreza não se manifesta apenas na renda, mas também na carência de infraestrutura básica, como saneamento, transporte e saúde.

O que fazer para manter as populações rurais no campo? Principalmente os mais jovens? A juventude rural encontra poucos incentivos para permanecer no campo, o que leva ao êxodo rural precoce e à reprodução de ciclos de pobreza intergeracional. Enquanto isso, os que ficam, sobretudo mulheres e idosos, enfrentam dificuldades de acesso a políticas públicas e a mercados de produção. A solução seria dar-lhes condições para que permaneçam no campo. E como? Proporcionar-lhe especialização no trato com o meio rural com cursos de aperfeiçoamento. Quem irá conseguir? Só alguns, pois inevitavelmente se fará uma seleção ou triagem. E os demais? Eles continuarão a alimentar a cadeia da exclusão.

E não é só isso a injustiça ambiental é uma marca da pobreza rural contemporânea. Comunidades quilombolas, indígenas e camponesas sofrem com a degradação ambiental, o uso intensivo de agrotóxicos e os conflitos por terra. Trata-se de uma disputa entre diferentes racionalidades de uso do território: a racionalidade da mercadoria e a da vida. Qual a solução e de que forma os novos problemas aparecerão?


sexta-feira, 5 de junho de 2026

EDGAR MORIN- O PENSADOR COMPLEXO. Selvino Antonio Malfatti.

 

 


EDGAR MORIN- O PENSADOR COMPLEXO.  Selvino Antonio Malfatti.

Edgar Morin, o pensador bissecular, destacou-se como pensador complexo, significando com isto que nele que tudo é não só e o não só é de tudo. Se disser, por exemplo, que é sociólogo, mas não totalmente, pois há filosofia, que não é só, mas também antropologia, que não é somente, mas história e assim por diante. Os conhecimentos da área não são exclusivos e os complementos de outras áreas não são completos, mas todos e não somente são complementares. Morin nunca é completo, mas se completa quase sempre através da dialética: ordem e desordem, indivíduo e sociedade, ciência e humanidades, problemas contemporâneos e abordagens interdisciplinares.

A própria educação foi interdisciplinar. Abrangeu ciência, filosofia, história, biologia, sociologia e cultura integram uma compreensão mais ampla da realidade. O pensamento de Morin é sempre incompleto, carecendo de complementação. A própria complementação precisa de complementação.

Nasceu com o nome Edgar Nahoum, de origem hebraica, conhecido por Edgar Morin, com data de 8 de junho de 1921, em Paris e faleceu também em Paris em 29 de maio de 2026.

A formação intelectual foi ampla. Inicia com História, Geografia e Direito na universidade de Paris. No percorrer da vida amplia a educação interdisciplinar pela atuação como filósofo, sociólogo, antropólogo, epistemólogo e pesquisador da cultura. Em 1950 ingressa no Centre National de la Recherche Scientifique na qual mais tarde se torna diretor. O resultado intelectual foi uma obra de sessenta livros e outras produções.

Entre os intelectuais que soçobraram a Segunda Guerra Mundial foi um dos últimos. A mais clara característica de seu pensamento foi a complexidade, atribuída à educação, bioética, sociologia, ecologia, política e aos estudos da cultura.

Morin pensa que a ciência reduz erroneamente os conhecimentos a uma pequena parcela da realidade perdendo de vista a visão geral. O risco consiste em ignorar as consequências humanas, sociais, ecológicas e filosóficas do alcance de suas descobertas.

A filosofia deve evitar dois extremos: o dogmatismo e o relativismo, pois os opostos podem coexistir, o cosmo abriga a ordem e desordem, não supor que o todo é melhor que as partes inclusive mais que a soma das partes, as partes não só dependem como influenciam no todo. O mesmo que acontece com o ser humano que um complexo de biológico, psicológico, social, cultural, histórico e reflexivo.

A história não deve ser vista apenas como avanço e retrocesso, civilização e barbárie, racionalidade e irracionalidade.

A maior tipicidade da coexistência dos opostos é na biologia que abriga a organização e desordem.

Na sociologia não se pode tomar o indivíduo como padrão da sociedade, nem lançar mão do modelo de sociedade para explicar as demais dimensões.

A cultura pode ser considerada sociologicamente como foco central, pois dela decorrem e são resultado da linguagem, afetividade, racionalidade e simbologia.

Em síntese o ser humano, a sociedade, a natureza e a história formam uma rede de relações inseparáveis. Compreender qualquer realidade exige considerar simultaneamente suas múltiplas dimensões.


sexta-feira, 29 de maio de 2026

O fascismo e sua crença. José Mauricio de Carvalho

 



O historiador Yuval Noah Harari entrou em assuntos polêmicos em 21 lições para o século 21. Por exemplo, refletindo sobre as razões de os homens manterem crenças como as religiosas, ele atribuiu o fato ao cérebro humano fazer arranjos estranhos, que mais se parecem a dissonância cognitiva. Por exemplo, comentando a conduta dos conservadores americanos filiados ao partido Republicano, armamentista e contrário a políticas sociais, ele observou a mais completa incoerência com os ensinamentos de Jesus de Nazaré. Ele mostrou que, ao contrário do que esses conservadores cristãos, a mensagem de Jesus foi noutra direção (id., p. 337): “Jesus não foi mais incisivo quanto a ajudar os pobres do que quanto a armar você até os dentes.” Os ensinamentos de Jesus foram exatamente o contrário do que praticam aqueles grupos. A mesma incoerência, ele avaliou, aparece no muçulmano que quer vingar o companheiro fé morto em conflito quando ensina que, morrendo nessa luta, ele vai direto para o Paraíso. Não faz sentido, ele ridiculariza a conduta de terroristas que querem vingar um irmão de fé que foi levado ao Paraíso justo por esse motivo. Por que alguém vingaria alguém querido porque ele foi conduzido ao Paraíso? O cérebro humano permite as incoerências construindo mais de uma identidade, melhor seria dizer, vivendo papéis diferentes na vida ou em momentos dela. A pregação de fé nada tem a ver com a prática terrorista que alimentam. Temos aqui uma crítica muito dura à forma como vivem as pessoas de fé.

Se a crítica à religião parece limitada por sua visão simplificadora como comentaremos a seguir, a sua crítica ao fascismo parece bem exata. Para não deixar o termo vago e com definição superficial, ele explicou o que denomina fascismo. Trata-se da absolutização de uma narrativa ruim. O fascismo corrompeu o nacionalismo porque não considera o amor e respeito à sua nação como um valor entre outros. Um governo fascista diz que (id., p. 358): “minha nação é suprema e devo a ela obrigações exclusivas.” E isso leva seus seguidores a fazer absurdos (ibidem): “se minha nação exigir que eu mate milhões de pessoas – devo matar milhões de pessoas.” E ainda tão mal quanto isso (ibidem): “se minha nação exigir que eu traia a verdade e a beleza – devo trair a verdade e a beleza.” O que importa é servir à nação, o resto não tem relevância. Uma tal crença prospera em momentos de crise social porque, como ele observou (id., p. 359): “simplifica muito os dilemas difíceis e também porque faz as pessoas pensarem que pertencem à coisa mais importante e mais bela do mundo – a sua nação.”

Como observamos quando se aplica esse raciocínio às religiões comete-se equívocos. O grande problema por trás de crenças, ele avaliou, é sua absolutização. E há uma crença que lhe parece ruim por excelência, a crença em algo absoluto, pois ela vai produzir algum problema. Ele afirmou que a crença absoluta tem muitos objetos possíveis, mas todas causam as mesmas dificuldades (id., p. 371): “a essência eterna às vezes é chamada de Deus, às vezes de nação, às vezes de alma, às vezes de eu autêntico e às vezes de amor verdadeiro.” Para contraditar esse pensamento ele recordou Buda e defendeu que as pessoas não precisam de um sentido e que tudo passa e nada permanece.

Quando mencionamos acima que essa estimativa da religião é superficial foi porque Harari comparou práticas antigas a formas atuais de lidar com o sagrado. E mais, ele desconsiderou o papel da religião na vida cultural de uma sociedade, e igualmente desconheceu o florescimento pessoal que ela propicia a seus seguidores, nem considerou como ela contribui para o desenvolvimento humano. Pior ainda é quando ele atribui à religião a maldade das pessoas (HARARI, 2018, p. 173): “outras tradições religiosas enchem o mundo de muita feiura e fazem as pessoas serem más e cruéis.” O que torna alguém ruim é o fanatismo na ignorância, não a prática de uma religião com o propósito de se aproximar de Deus e cujas práticas não se afastam da excelência moral.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

MAGNIFICA HUMANITAS. Selvino Antonio Malfatti.

 


Inteligência humana e inteligência artificial, como se distinguem uma da outra? A humana é criativa e a artificial é generativa. Como criativa a inteligência humana é capaz de gerar, isto é, dar à luz a um novo ser a partir de algo, mas essencialmente outro. A inteligência artificial deduz a partir de algo anterior. Não é novo, mas diferente.

Na biologia, por exemplo, o criado na inteligência humana é um ser novo. No sistema computacional o resultado é a geração de dados decorrentes de programas postos pela inteligência humana e equacionados pela inteligência artificial. A inteligência humana é capaz de resolver problemas como auxílio da inteligência artificial. O mesmo se dá na biologia: o natural é o substrato gerado pelo auxílio do meio artificial, como sistemas e máquinas.

Com efeito, na biologia temos uma novidade de fato. Acontece a autogeração, metabolismo, crescimento de dentro, reprodução vital. Filosoficamente há um novo orgânico e teleológico. Já a inteligência artificial o conhecimento corresponde a processamento de dados e resultados a partir de modelos pré-construídos. Por isso, na biologia o organismo natural desenvolve-se no meio e na inteligência artificial compreende resultados pelos comandos pré-inseridos.

Os conteúdos diferenciais sinteticamente podem ser definidos como:

INTELIGÊNCIA HUMANA               INTELIGENCIA ARTIFICIAL


  • compreende sentido;
  • interpreta;
  • possui consciência de si;
  • cria finalidades;
  • age moralmente;
  • pode transcender o próprio programa biológico. A IA:
  • calcula;
  • correlaciona;
  • prediz;
  • reorganiza dados;
  • mas não “sabe” que sabe.


A inteligência humana tem consciência, moralidade e abertura ao transcendente. A Inteligência artificial permanece uma inteligência derivada e instrumental.

O novo papa, Leão XIV, inova na doutrina ao publicar a primeira encíclica “Magnifica Humanitas”, 25 de maio de 2026, na qual discorre sobre a Inteligência Artificial. A interpretação é atribuída a diversos pensadores da Igreja. Cada um deles emitirá um parecer, dentro de sua especialidade e abrangendo os diversos campos: teologia, ética social católica, diplomacia vaticana e pesquisa tecnológica. A seguir, uma síntese provável e coerente do pensamento de cada um deles sobre IA, a partir de suas obras, posições públicas e áreas de atuação.

1.      Christopher Olah

Estuda a “interpretabilidade” das redes neurais, isto é, pela tentativa de compreender como os sistemas de IA “pensam” internamente.

2.      Léocadie Lushombo

Trabalha com ética teológica, justiça social, colonialidade, pobreza e pensamento social católico. Sua leitura da IA tende a ser profundamente humanista e social.

3.      Cardeal Víctor Manuel Fernandez

Possui a responsabilidade pela ortodoxia doutrinal da Igreja, provavelmente abordará a IA sobretudo em perspectiva antropológica e espiritual.

4.      Cardeal Michael Czerny

Atuação ligada: migrantes, pobreza, justiça social, ecologia integral e exclusão econômica.

5.      Anna Rowlands

Conhecida por articular teologia política, democracia, participação social e ética comunitária.

6.      Cardeal Pietro Parolin

Diplomata principal do Vaticano, provavelmente fará uma síntese geopolítica e ética.

O que defenderão em comum?

Com certeza um núcleo comum os juntará. Este terá como componentes: a inteligência artificial - subordinada à dignidade da pessoa humana - consciência moral, liberdade e a responsabilidade ética do ser humano. Conforme sua formação e função, cada um acentuará aspectos distintos. Todos defenderão a ideia do controle da Inteligência Artificial pelos condutores que se submeterão à ética da dignidade, liberdade e autonomia da pessoa humana. Em síntese a Inteligência Humana manterá o controle da Inteligência Artificial.

 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

A EXISTÊNCIA DÁ SENTIDO À VIDA. Selvino Antonio Malfatti.

 



A pergunta mais radical para quem quer ultrapassar o meio do caminho da vida é o sentido da existência. O foco são os seres animados, inanimados? Os humanos? Todos tem sentido ou só alguns? O sentido é só para vida ou também para pós - vida? O estigma que perpassa a consciência dos humanos, é a angústia. A angústia do viver, de saber que vive e de não saber por que vive. Não conhecer o sentido da existência desencadeia a angústia de existir.

A angústia que invadiu o pensamento existencial originou-se da consternação durante o século XIX pela banalidade atribuída à vida humana. O que vale a vida de milhões, mortos nas revoluções, nos conflitos decorrentes como as guerras napoleônicos? E mais precisamente o início do século XX? O filosofar existencial a emergiu entre a Primeira e Segunda Guerra mundial. Ao contrário do desenvolvimento intelectual que priorizava o homem abstrato, o existencialismo centrou-se na experiência individual, angústia e subjetividade. Os precursores do século XIX são considerados fundadores: Søren Kierkegaard (1813–1855) Friedrich Nietzsche (1844–1900) e como pontífice filósofo existencialista, Martin Heidegger (1889-1976).

Como revisão da ideia de existência, o filósofo italiano Umberto Regina repisa os passos dos citados pensadores. Destacou-se como filósofo atual, na disciplina de moral na Universidade de Verona. Inspirado na filosofia existencialista realiza pesquisas sobre niilismo e existencialismo sob o olhar da filosofia cristã abordando o divino e a fé. Analisando os pensadores Heidegger, Nietzsche e Kierkegaard encontra neles os fundamentos da dignidade humana, do valor e da liberdade.

Conforme ele, a existência é uma experiência dramática livre, diante da angústia e busca de sentido. Para tanto reflete o desespero de uma existência, vista por cada um dos pensadores.

Regina vê que em Søren Kierkegaard, no contexto político da Revolução Francesa e seus desdobramentos, a existência subjetiva e interior. Pouco adianta ao homem abstrações metafísicas e abstratas, por que ele é só diante de Deus e da existência. O que fazer com a existência? Na condição de livre diante de nada de certo, concreto, atreve-se a um salto no escuro, escolha entre opções, arriscar-se diante do perigo.  A liberdade o deixa angustiado porque deve escolher o que ser. Diante de uma acolhida de existência eterna possível ele se torna ele mesmo, autêntico.

A afirmação criadora da vida para Regina é a existência aurida de Friedrich Nietzsche. Constata que é preciso rejeitar valores absolutos transmitidos pela religião e moral. Contra eles se insurge com coragem e cria seus próprios valores já que Deus está morto. Pela existência institui o ideal além do homem como superação permanente.

De posse da existência de Martin Heidegger abre-se para o ser. O Dasein, o ser-aí humano se pergunta pelo próprio existir. Este é temporal, finito, superficial e consciente da morte. Isto leva o homem a assumir o próprio destino. Com certeza o reitor  Heidegger “olvida” a angústia causada pelo amigo Hitler aos perseguidos judeus, como a angústia da menina Anne Franck escondida num porão[i].

Frente a estes pensadores Regina encontra na existência de Kierkegaard uma decisão de sujeito perante Deus, em Nietzsche a opção de criação de valores próprios, em Heidegger o indicativo consciente de ser finito.

Umberto Regina encontra nos três pensadores, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, a problemática da existência como característica fundamental do ser humano e postura maiêutica. Em todos eles, Regina identifica uma preocupação comum: compreender o homem não como conceito abstrato, mas como ser concreto, inquieto e lançado no drama da existência. Em síntese, nesse núcleo conceitual, Regina procura mostrar que o homem não é um ente abstrato nem um simples objeto da razão, mas um ser lançado numa relação viva, dramática e aberta ao transcendente. Por isso ele aproxima Kierkegaard, Nietzsche e Heidegger: todos, segundo Regina, deslocam a filosofia da abstração conceitual para a experiência concreta da existência humana[ii].



[i] Anne Franck,  acolhida por sua família num esconderijo para não ser encontrada e enviada para os campos de concentração. Descreve com detalhes como horários, refeições, ruídos, silêncio etc no Diário de Anne Frank— chamado por ela de “Anexo Secreto” — como um espaço permanentemente marcado pelo medo, pela disciplina do silêncio e pela tensão psicológica, Angústia. O esconderijo ficava nos fundos da empresa do pai, Otto Frank, em Amsterdã, oculto atrás de uma estante móvel. Anne escreve sobre a vida cotidiana com riqueza de detalhes, mostrando como cada ruído podia significar perigo de morte. Ela relata que durante o dia todos precisavam permanecer quase imóveis e em silêncio absoluto, porque funcionários trabalhavam no prédio abaixo. Não podiam andar de sapatos, puxar descarga, mover cadeiras ou falar alto. Até a água precisava ser usada com extremo cuidado. O silêncio era quase uma regra de sobrevivência. Anne descreve horários rigorosos. Pela manhã cedo levantavam-se discretamente. Durante o expediente da empresa, entre aproximadamente oito da manhã e seis da tarde, o silêncio tornava-se obrigatório. Ela escreve que qualquer barulho no piso poderia denunciar a presença deles aos trabalhadores do depósito. À noite, quando os funcionários iam embora, o ambiente relaxava um pouco: podiam conversar mais livremente, cozinhar, ouvir rádio clandestinamente e caminhar um pouco pelo esconderijo.

As refeições eram simples e frequentemente escassas. Dependiam de pessoas de confiança que traziam comida escondida. Anne comenta muitas vezes a monotonia alimentar: batatas, legumes conservados, pouca carne e pão racionado. Em certos períodos havia fome real. Ela descreve o desconforto físico, mas também pequenos momentos de alegria quando conseguiam algum alimento diferente.

Os ruídos ocupam lugar central em suas memórias. Sons do relógio da igreja, passos na rua, aviões de guerra, sirenes, tiros e bombardeios aumentavam a angústia. À noite, especialmente, o medo de ladrões ou de uma invasão nazista tornava-se intenso. Anne relata episódios em que todos ficavam paralisados de terror ao ouvir barulhos vindos do prédio.

O confinamento também produzia tensão emocional entre os moradores do anexo. Anne descreve discussões constantes, irritação, nervosismo e dificuldades de convivência provocadas pelo medo contínuo e pela falta de privacidade. Apesar disso, ela também registra esperança, sonhos e reflexões profundas sobre a natureza humana.

Um dos trechos mais conhecidos mostra precisamente essa mistura de silêncio e medo:

“Durante o dia temos de andar na ponta dos pés e falar baixinho, porque no armazém podem nos ouvir.”

Em outro momento, Anne descreve a sensação sufocante do confinamento:

“Estamos presos aqui como leprosos.”

O valor do diário está justamente nessa descrição concreta da vida escondida: não apenas os grandes horrores da perseguição nazista, mas o cotidiano minucioso do medo — o silêncio forçado, os ruídos ameaçadores, a fome, os horários rígidos e a esperança persistente de sobreviver.

 

[ii] ·  Kierkegaard. L’arte dell’esistere
Nesta obra Regina interpreta Søren Kierkegaard como pensador da existência concreta, da escolha e da interioridade dramática. A ideia de que o homem não pode ser reduzido a conceito abstrato aparece de forma constante.

·  Esistenza e ironia
Aqui Regina desenvolve o tema da existência como tensão, abertura e inquietação. O tom maiêutico e a crítica aos sistemas fechados são bastante evidentes.

·  Introduzione a Kierkegaard
Obra introdutória, mas filosoficamente densa, em que Regina mostra a passagem da filosofia especulativa para a experiência existencial concreta.

·  Il pensiero dell’esistenza
Talvez a obra mais próxima da formulação mencionada. Nela Regina aproxima explicitamente Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e Kierkegaard na crítica à abstração racionalista e na centralidade da existência humana concreta.

·  L’essere del pensiero
É nesta linha de reflexão que aparece a expressão sobre o ser como inter-esse, isto é, o ser entendido como relação e abertura ao outro/transcendente.

Postagens mais vistas