sexta-feira, 17 de abril de 2026

Orbán e a Ideologia Ilibiral e o Brasil. Selvino Antonio Malfatti.









Como se comporta um regime iliberal? O conceito de liberal está associado etimologicamente a “liber” ou “libertas”, do latim que significa ser livre e ter liberdade. Politicamente é o regime constitucional, isto é, há uma constituição que garante os direitos do Indivíduo e do estado, com governo oriundo da vontade popular através de eleições. Neste caso, liberal e democrático em política são iguais. 
No conceito de iliberal há a negação da liberdade, em parte ou total. Neste em que pese o governo ser eleito pelo povo, tem seus direitos restringidos . O estado de direito sofre a erosão de seu poder por sucessivos ataques e ingerência à autonomia do judiciário, à liberdade de imprensa e a órgãos de fiscalização, Exacerbação da vontade da maioria em detrimento das minorias. O poder governamental invocando maioria atropela as minorias. Apesar de existirem eleições livres e competitivas os princípios democráticos, como respeito aos direitos individuais e respeito às minorias, são ignorados.

Dentre os principais líderes e modelos podem ser mencionados:

1.   Viktor Orbán, Ungria, seu teórico -prático da Europa.

2.   Vladimir Putin da Rússia. Destaca-se pela concentração dos poderes e perseguição aos opositores.

3.   Recep Tayyip Erdoğan (Turquia). Famoso pela perseguição à imprensa.

4.   Alguns partidos de direita como o “Lei e Justiça” na Polônia. Sua característica é exacerbar o poder do executivo em detrimento dos demais.

O Brasil tem uma Constituição que consagra um genuíno regime político liberal. Estabelece as liberdades públicas e privadas, divisão de poderes com seus limites, autonomia do judiciário, liberdade de imprensa.

O problema se situa na prática, quando a lógica da maioria ultrapassa os limites constitucionais. Governos eleitos legítimos invocando a maioria avançam o limite subestimando o judiciário e este invocando prerrogativas constitucionais confrontam-se com os outros poderes. A imprensa, em nome da vontade do povo conferido ao governo, é enfraquecida nos mecanismos de fiscalização. As redes sociais são submetidas à fiscalização injustificada. Tudo isso atenta contra as garantias institucionais. O pivô é o poder judiciário. Este se arvora juiz do equilíbrio político não se dando conta da ingerência nos outros poderes. Este, o judiciário, defende-se dizendo que impede a tirania dos poderes.

O filósofo francês Alexis de Tocqueville foi o que chamou a atenção do perigo das maiorias. Mal conduzidas levam à tirania e ao arbítrio. Por isso, a soberania popular deve ter um consenso sobre um pacto superior. As maiorias são condições necessárias para democracia, mas isto não basta. É preciso salvaguarda das liberdades individuais, imprensa livre e garantias eleitorais.

 

Pelas afirmações acima pode o Brasil ser considerado um país iliberal totalmente, em parte ou nenhuma? Quais os traços iliberais que se pode constatar?

Examinemos por partes. Constata-se que o Supremo Tribunal Federal expandiu suas fronteiras de atuação invadindo áreas de outros poderes de tal sorte que vários classificam esta atitude como um ativismo judicial. Por isso, pode ser uma barreira ao liberalismo como uma tensão ao princípio democrático majoritário.

Em relação à liberdade de expressão há acusações de que o esforço do governo em querer regular as redes sociais seja apenas uma desculpa para controlar a livre expressão através de censura.

Acusação de tirania de maioria se constatou em diversas tentativas e em diferentes governos, não um especificamente, para deslegitimar instituições, via um discurso contra a imprensa e órgãos de fiscalização.

Estas constatações nos sugerem que o Brasil não é um país genuinamente iliberal, mas parcialmente.


I. “O novo Estado que estamos construindo na Hungria não faz dessa ideologia (liberal) o elemento central da organização do Estado.”Um Estado iliberal não rejeita os princípios fundamentais do liberalismo, como a liberdade, mas não faz dessa ideologia o elemento central da organização do Estado.”(Viktor Orbán)

II. A eleição de 12 de abril 2026, impôs uma virada ideológica na Hungria, depois de 16 anos de iliberalismo. O candidato opositor de Orbán, Péter Magyar venceu as eleições presidenciais, com o seguinte resultado:

  • Péter Magyar (Tisza): ~53% dos votos
  • Viktor Orbán (Fidesz): ~37%–38% dos voto

Estabelecendo uma diferença cerca de 15 a 16 pontos percentuais. 

Em que pese ideologia autoritária, Orbán teve a honradez de reconhecer publicamente a vitória de seu adversário.



sexta-feira, 10 de abril de 2026

SOLUÇÕES SOCIAIS ATUAIS- PROBLEMAS FUTUROS. Selvino Antonio Malfatti

 




Refletindo sobre os principais problemas sociais que afligem o mundo atual, deparei-me assustado, estupefato com um fato: os problemas atuais foram soluções no passado. Comecei a pensar nas favelas, um problemão social atual e no passado uma solução. Nem todos podiam morar no centro, evidente. Deslocaram-se então para periferia. Na época uma solução, atualmente um problema. O êxodo rural. Escasseando a terra para plantar ou morar alguns se deslocaram para as cidades. A solução antiga virou um problema atual. Casais solteiros e elas grávidas foram forçados a casar. Novamente aquilo que acharam como solução virou um problema social, pois logo adiante separação, criando outro problema e forçando soluções. Durante a pandemia da COVID incrementou-se a EAD, atualmente um surto de profissionais mal preperados.

Por isso antes de se aplicar uma solução ao problema deve-se refletir se isto não acarretará outros problemas no futuro e tentar evitá-los. É o caso de alguns problemas atuais.

Nas últimas décadas, as transformações no mundo do trabalho, o avanço da globalização, as mudanças tecnológicas e as políticas implantadas pelas IAs têm gerado novas configurações da pobreza tanto nas cidades quanto no campo. A sociologia contemporânea tem se dedicado a compreender como essas formas de pobreza extrapolam os limites da renda, incorporando dimensões como moradia, o acesso a direitos, exclusão simbólica e ambiental. Quais os possíveis problemas que advirão das soluções atuais?

A pobreza urbana atual está profundamente marcada pela informalidade, pela insegurança habitacional e pela exclusão social. Diferentemente das formas tradicionais de pobreza, caracterizadas pela marginalização completa do sistema produtivo, as novas expressões urbanas da pobreza se inserem em circuitos econômicos informais, como a "uberização" do trabalho. Essas populações compõem a "ralé estrutural", mantida em situação de subalternidade por estruturas históricas de desigualdade. O desafio: como inserir estas populações no sistema produtivo formal? Criação de novos empregos? Por quem? Pelos empreendedores? Com verbas subsidiadas? Pelo governo? Com verbas de impostos? Pelo cenário que se vislumbra as possibilidades são todas problemáticas? Deixar que as “aboboras se acomodem com o tempo”? Buscar soluções pelas políticas públicas? O problema está  na invisibilidade dessas áreas pelos políticos para destinar recursos. A gentrificação? Esta solução valorizaria as áreas e pessoas de recursos se apossam o que expulsa os pobres de regiões centrais em nome da valorização imobiliária.

Não são diferentes no espaço rural, as novas formas de pobreza ligadas à perda de autonomia das comunidades agrícolas e ao avanço do agronegócio. A concentração fundiária, a mecanização da produção e a financeirização da terra provocam o esvaziamento das economias locais e o deslocamento de populações tradicionais A pobreza não se manifesta apenas na renda, mas também na carência de infraestrutura básica, como saneamento, transporte e saúde.

O que fazer para manter as populações rurais no campo? Principalmente os mais jovens? A juventude rural encontra poucos incentivos para permanecer no campo, o que leva ao êxodo rural precoce e à reprodução de ciclos de pobreza intergeracional. Enquanto isso, os que ficam, sobretudo mulheres e idosos, enfrentam dificuldades de acesso a políticas públicas e a mercados de produção. A solução seria dar-lhes condições para que permaneçam no campo. E como? Proporcionar-lhe especialização no trato com o meio rural com cursos de aperfeiçoamento. Quem irá conseguir? Só alguns, pois inevitavelmente se fará uma seleção ou triagem. E os demais? Eles continuarão a alimentar a cadeia da exclusão.

E não é só isso a injustiça ambiental é uma marca da pobreza rural contemporânea. Comunidades quilombolas, indígenas e camponesas sofrem com a degradação ambiental, o uso intensivo de agrotóxicos e os conflitos por terra. Trata-se de uma disputa entre diferentes racionalidades de uso do território: a racionalidade da mercadoria e a da vida. Qual a solução e e de que forma os novos problemas aparecerão?


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Páscoa 2026. José Mauricio de Carvalho

 


A Páscoa é uma festa fundamental para os judeus, eles recordavam a liberdade, denominada Pessach. O dia de lembrar que foram libertos do Egito, país onde estiveram cativos por quase 400 anos. É claro que se a massa de judeus assim celebrava e agradecia a YHWH ou YHVH (Eu sou), o Senhor do céu e da terra pelo alívio da escravidão, aqueles mais espiritualizados iam além ao comemorar a liberdade não só política, mas das prisões terrenas, dos limites que nos fazem menor, das dores que nos prendem à matéria. Libertar-se dos limites e transcender o que se é. Conta o evangelho de Mateus que, como bom judeu, Jesus de Nazaré, foi a Jerusalém com seus discípulos para comemorar a Páscoa.

O evangelho de Mateus relata (26, 17-19) que: 17 No primeiro dia da Festa dos Pães sem Fermento, os discípulos chegaram perto de Jesus e perguntaram: — Onde é que o senhor quer que a gente prepare o jantar da Páscoa para o senhor? 18 Ele respondeu: — Vão até a cidade, procurem certo homem e digam: “O Mestre manda dizer: A minha hora chegou. Os meus discípulos e eu vamos comemorar a Páscoa na sua casa.” 19 Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam o jantar da Páscoa.

Bem antes daquele dia, quando eles nem sonhavam, no capítulo 16, o mestre já lhes anunciara que seria preciso ir a Jerusalém, onde sofreria nas mãos dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos gentios. A ida a Jerusalém contemplava um plano maior, a ampliação do significado da Páscoa, tornando-a não apenas comemoração da libertação política do povo, ou a libertação de alguma circunstância ruim, mas ser a porta de entrada de uma vida plena, uma vida diferente, uma vida superior.

Somente Alguém com a estrutura psicológica perfeita, um homem completo seria capaz de transformar aquela festa, que para Ele era a despedida dessa vida, num sacramento permanente, num ritual que O traria sempre para perto de seus amigos queridos, mesmo quando ele já não estivesse fisicamente presente. De seu coração pleno brotou, naquela noite em Jerusalém, a luz que tocou o pão sem fermento para torná-lo igual a seu corpo e o vinho para ser o seu sangue. E somente um Deus tão maravilhoso podia, na simplicidade de sua despedida da terra, deixar gestos de humildade e amor, com a serenidade, solenidade e profundidade que o ritual pedia. E o impacto foi feito foi tão forte que seus discípulos passaram a repeti-lo nos anos seguintes e a Igreja o faz ainda hoje com igual emoção, devoção, veneração e respeito.

Assim, Ele se despediu e, mesmo sendo tão querido pelos apóstolos, tão essencial para eles, Jesus os preparou para enfrentar o vazio de sua presença. Ele lhes deu uma luz para a difícil tarefa de viver sem seus ensinamentos. Isso porque mesmo sem deixar de estar com cada pessoa que o chama, quando foi elevado ao céu, Ele não mais era visível com seu sorriso bondoso, seu olhar amigo e sua mão milagrosa.

Depois da ceia fantástica, do julgamento imparcial, da morte pavorosa, quando tudo parecia perdido e a vida vazia, quando a noite eterna abateu-se na alma de cada discípulo e nada fazia sentido, Ele apareceu de forma singela a uma de suas amigas para lhe anunciar: Eu estou vivo. Avisem a meus amigos que a morte não me conteve, como eu já havia mostrado que seria, quando tirei Lázaro da tumba e trouxe à vida várias pessoas mortas. A vida que eu vivo é maior que a morte e que estarei com todos os que se reunirem em meu nome até o fim dos tempos. Porque eu estou com YHWH e Ele em mim no amor do Espírito Santo.

Então, quase dois mil anos depois daquela ceia e da passagem para a vida superior, que essa festa seja, para cada um de nós, a oportunidade de experimentar, ainda que de forma pálida, a vida plena que Ele nos oferece.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

CORRERAM AO SEPULCRO. Selvino Antonio Malfatti

 



Era cedo. Ainda escuro. O mundo parecia suspenso entre a dor e a esperança.

Madalena caminhava apressada, inquieta. Cada passo batia um aperto no coração. Queria apenas cuidar do corpo de Jesus mais uma vez… um último gesto de amor, de gratidão, de despedida.
Mas ao chegar… algo quebrou dentro dela.

O túmulo estava aberto.

Um frio percorreu seu corpo.
“Não… não pode ser…”

Ela não entrou. Não teve coragem. Sua mente disparou antes que o coração pudesse compreender.
— Levaram Ele… roubaram o meu Senhor…

O medo a dominou. Não pensou, não refletiu — apenas correu. Corria como quem tenta fugir da própria dor. Ofegante, desesperada, foi até Pedro e João.


Pedro ouviu as palavras de Madalena e sentiu o peso delas cair sobre sua alma cansada.
“Roubaram…”

Algo dentro dele doeu profundamente.
Já não bastava a culpa que carregava? Já não bastava ter negado o Mestre?

Mesmo assim, levantou-se.
E correu.

Seus passos eram pesados, não apenas pela idade, mas pelo coração carregado. Enquanto corria, sua mente lutava:
“E se for verdade? E se nem o corpo restou? O que mais ainda nos será tirado?”

Mas havia algo mais… uma centelha, quase imperceptível:
“E se não for isso? E se houver algo que ainda não compreendemos?”


João correu ao lado de Pedro — ou melhor, à frente dele.
Seus passos eram leves, movidos por algo mais forte que o medo: o amor.

Enquanto corria, pensamentos se misturavam dentro dele:
“Madalena pode ter se enganado… talvez estivesse escuro… talvez não tenha visto direito…”

Mas, no fundo… havia outra voz, silenciosa e firme:
“Ele disse… Ele prometeu…”

O coração de João batia acelerado — não apenas pelo esforço da corrida, mas por uma esperança que começava a nascer, ainda frágil, mas viva.

“E se Ele estiver vivo? E se tudo isso fizer sentido agora?”


João chegou primeiro. Parou diante do sepulcro aberto.
O silêncio era profundo.

Olhou para dentro… e hesitou.

Pedro chegou logo depois, ofegante, marcado pelo cansaço e pela vida. Sem pensar muito, entrou.

E então… o inesperado.

Os panos estavam ali. Dobrados. Em ordem.
Não havia pressa. Não havia violência. Nada de roubo.

Pedro ficou em silêncio.

Algo começou a mudar dentro dele.
A dor não desapareceu… mas começou a dar lugar a um mistério maior.

João então entrou.

E ao ver… sentiu.

Não era apenas compreender. Era saber.
Uma certeza que não vinha dos olhos, mas do coração:

“Ele vive.”


Madalena, ainda do lado de fora, chorava.
Seu mundo ainda estava em ruínas.
— Levaram o meu Senhor… e não sei onde o colocaram…

Sua dor era real. Sua perda ainda era presente.
Ela ainda não via o que os outros começavam a perceber.


Pedro levantou-se lentamente.
Seu olhar já não era o mesmo. A dúvida se desfazia… algo novo nascia.

João permanecia em silêncio, tomado por uma paz estranha, quase impossível naquele momento.

Os dois se olharam.
E sem dizer muito, entenderam.

A esperança agora não era mais suposição.

Era certeza.


Pedro respirou fundo, como quem decide recomeçar.

— Vamos… precisamos contar aos outros.

João assentiu, com o coração ardendo.

Agora não corriam mais por medo.
Corriam para a vida.

E dentro deles ecoava, cada vez mais forte:

Jesus ressuscitou. Aleluia

sexta-feira, 27 de março de 2026

Feminicídio em três atos. José Mauricio de Carvalho



Uma pesquisa no Brasil sobre o feminicídio mostra números terríveis e crescentes. Uma chaga social que merece o repúdio da sociedade. De 2024 para o ano seguinte os números subiram de 1492 para 1568 feminicídio e as tentativas cresceram de 5150 para 6904. Como avaliar esse fenômeno? Pretendo considerá-lo em três atos.

O primeiro ato é a mudança dos valores resultante da crise de cultura que estamos passando. O pano de fundo é um mundo globalizado em que tudo muda e nada está garantido, descrito pelo sociólogo Zygmunt Bauman como tempo líquido. No livro Vida líquida esse assunto foi examinado e também em Globalização; as consequências humanas e em outras tantas obras de Bauman foi repetido. Vida líquida nos transporta para um mundo onde tudo muda todo o tempo e onde nada parece seguro. Os valores são apenas uma parte da cultura sob pressão, mesmo quando defendemos que os valores possuem uma raiz permanente, ele demanda atualização e novas justificativas. A falta de debate ou reconhecimento do problema apenas o agrava. As mudanças na cultura afetam a experiência ou vivência de valores que até pouco eram estruturantes, mas que recentemente tiveram o reconhecimento enfraquecido. A dignidade da pessoa e a racionalidade estão entre esses valores que precisam ser revitalizados e ensinados. Esse é o principal legado da Aufkärung e ele continua necessário, isto é, permanece, como disse o filósofo Emanuel Kant (1984): “um grande bem que o gênero humano deve extrair da vida” (p. 38). Sem essa compreensão de que a vida humana é o maior valor que temos o homicídio ganha força e a misoginia e feminicídio são parte disso.

Parte desse processo são também as mudanças que afetam os relacionamentos. Eles perderam força e solidez contra tudo o que até pouco se vivia. Bauman descreveu amplamente o fenômeno em Amor Líquido, depois de o considerar em Modernidade Líquida e no último capítulo de Vida a Crédito. No primeiro as características fundamentais dos novos dias já aparecem e somos apresentados a um fenômeno que significa falta de garantia, insegurança e incerteza. Assim, relações começam e terminam com uma rapidez enorme deixando sem chão e sem rumo pessoas que não entendem o que está ocorrendo. É preciso educar essas pessoas que lidar com essa nova realidade.

O segundo ato é o desprestígio das ciências humanas na modernidade líquida inclusive a Filosofia e seu legado para o ocidente: a valorização da razão para encontrar um fundamento e referências para a vida. A Filosofia ensina a valorizar a razão e a própria ciência moderna, justificada por submeter à experiência verificável suas leis. A Filosofia e a Ciência Moderna ensinaram a não tomar por absolutos a experiência pessoal não objetivada, uma vez que nossa capacidade de traduzir o real é incompleta. É o esforço racional que justifica valores como a dignidade da pessoa. A dignidade não deixou de ser valor, mas com o desprestígio das humanidades teve desidratado seu fundamento racional. Assim teve reconhecimento dificultado num mundo líquido e globalizado, que é um lugar de contínuas mudanças, um espaço amplo onde não há ponto de parada para respirar. Não só os valores deixaram de ser considerados, quase tudo no universo da cultura o foi. Essas mudanças deixaram de lado as considerações sobre a realidade definitiva do amor.

O terceiro ato é uma sociedade com características patriarcais que não fez uma autoavaliação dos seus erros e das mudanças necessárias. Uma obra que aborda de forma profunda a história social, racial e cultural do Brasil durante quase todo o período colonial mostra como era a vida numa sociedade patriarcal e escravocrata. O livro de Gilberto Freyre intitulado Casa-Grande & Senzala, faz referência à divisão da sociedade colonial brasileira entre a “casa-grande”, a casa principal dos senhores de engenho e seus descendentes, e a “senzala”, como habitações dos escravos africanos. Essa divisão espacial descrevia hierarquias sociais rígidas e raciais que caracterizaram o Brasil colonial, permitindo entender como se organizou a sociedade patriarcal durante muitos séculos. A mudança dessa realidade não é simples e às vezes permanece inconsciente em muitos, mesmo depois da realidade social haver mudado internamente muitos permanecem sendo coronéis de engenho, racistas e machistas, que é a versão rural do macho alfa.


sexta-feira, 20 de março de 2026

VICTOR VICTUS EST. Selvino Antonio Malfatti

 



Na vasta produção intelectual de um dos mais destacados pensadores do século XX,  Jürgen Habermas, destacaremos alguns aspectos. Apenas como notícia ou informação sem pretensão alguma de uma análise mais aprofundada.

Algumas vezes os vencedores na política das arnas foram vencidos pelapoítica da cultura. Aconteceu com os romanos e gregos na antiguidade bem como com os aliados e alemães na 2ª Guerra Mundial. Nesta, os aliados derrotaram um totalitarismo, mas assimilaram boa parte do seu pensamento filosófico e sociológico deste país. Na verdade, a Alemanha foi um verdadeiro celeiro pensadores na segunda metade do século XX. A maioria se esforçou em entender porque sociedades desenvolvidas e racionalmente avançadas reincidiram na barbárie e na irracionalidade da guerra. E a culpa recaiu no período anterior, no Iluminismo, Um dos mais destacados foi Jürgen Habermas, que em parte aceitou, mas com as devidas ponderações.

Jürgen Habermas (1929-2026, 96 anos), num primeiro momento de sua trajetória intelectual filia-se a Escola de Frankfurt, crítica do iluminismo. As teses centrais desta escola foram: 1. Alienação, através da padronização da arte, a indústria cultural. 2. Dominação, pela racionalidade instrumental, resultado pela eficiência. 3. Reificação, a transformação dos sujeitos em mercadorias, coisas. 4. Crítica, análise de regimes políticos, fascismo e autoritarismo.

Com efeito, o professor emérito da PUC/RS, Carlos Alberto Molinaro, entende que a referida escola com seus líderes Theodor Adorno e Max Horkheimer constataram que o iluminismo causou a hecatombe da civilização atual. Concluiram que a racionalidade levou a considerar a natureza e a sociedade objetos que se deveriam submeter o que levou à escravidão. O intuito de querer libertar através da força teve um efeito contrário, o totalitarismo fascista e nazista, causa de toda opressão.

Habermas herdeiro, mas crítico da Escola de Frankfurt, aplicou-lhe a crítica, não a marxista, mas a transcendental, e percebe o ingrediente da racionalidade no iluminismo opondo-se ao pensamento de seus antecessores de viés de dominação e barbárie considerando isto não o normal, mas uma patologia. Na sua reflexão filosófica desenvolveu a teoria da ação comunicativa propondo que a racionalidade emerge da livre discussão até chegar ao consenso. Em seus debates trouxe à luz ética e direito, mas particularmente o conceito de esfera pública, fundamental para a democracia representativa.

Conforme ele em “Mudança Estrutural da Esfera Pública” a esfera pública forma-se quando os cidadãos através de jornais, associações, parlamento discutem racional e livremente questões de interesses de todos.  Esta passa a influenciar nas decisões políticas dos órgãos de governo. A participação livre dos cidadãos garante a democracia.[i]

Por isso, é pela intervenção dos cidadãos livres e não pela força que advirá a liberdade. Mas quê liberdade? A kantiana em parte quando institui o imperativo categórico da ação individual poder tornar-se regra universal. Habermas vê o outro, diferente do mesmo que é o indivíduo. E por isso é dialogando com ele que se institui a liberdade através do consenso da ideia concordada se não por todos, ao menos pela maioria, a opinião pública.[ii

Da vasta produção intelectual a crítica seliciona as seguintes obras:

Mudança Estrutural da Esfera Pública" (1962), "Conhecimento e Interesse" (1968), "Técnica e Ciência como 'Ideologia'" (1968), "Teoria da Ação Comunicativa" (1981) — sua magnum opus —, "O Discurso Filosófico da Modernidade" (1985), "Direito e Democracia: Entre Facticidade e Validade" (1992) e "A Inclusão do Outro" (1996).(Estadão)


[i]  "Só à luz da esfera pública é que aquilo que é consegue aparecer; tudo se torna visível a todos. Na conversação dos cidadãos entre si é que as coisas se verbalizam e se configuram.” (J. Habermas).

[ii] “A validade de uma norma depende de poder encontrar o assentimento de todos os participantes de um discurso prático, enquanto participantes de um discurso racional.”
(Jürgen Habermas, Facticidade e Validade (Faktizität und Geltung)


sexta-feira, 13 de março de 2026

Bauman e o paradigma: da pós-modernidade a modernidade líquida. José Mauricio de Carvalho

 


No prefácio que Bauman escreveu para Legisladores e Intérpretes (2010 d) há uma explicação importante sobre a evolução do seu conceito fundamental. Para se referir a nossos dias ele usou, durante algum tempo, a expressão pós-modernidade e aos poucos ajustou o termo para modernidade líquida. Não rejeitou o primeiro conceito inicial, mas reconheceu sua insuficiência. Ambos são sinônimos de dias atuais e traduzem a ideia de que estamos num tempo diverso do que vivemos até algumas décadas. Porém, assinalar apenas essa diferenciação oferece pouca informação sobre o que está surgindo no mundo. O que a aurora desses novos dias já deixa ver?

O problema do conceito pós-modernidade é que ele contempla um aspecto puramente negativo, ele marca a diferença dos novos dias, mas não diz nada além disso. O conceito (BAUMAN, 2010 d, p. 11): “nos dizia profusamente que a realidade atual já não era, mas oferecia pouca informação sobre o que estava em seu lugar.” O que ele esperava traduzir era o seguinte (ibidem): “a era da modernidade terminou e estamos, por assim dizer, já no lado oposto, ou pelo menos perto de entrar nele.” E havia uma outra questão não contemplada. Se já se estava numa outra época, ainda nela restavam elementos da modernidade, não era um tempo completamente oposto ao deixado para trás. Pensar numa oposição absoluta (ibidem): “parecia inaceitável e errado, porque, até onde se sabia, éramos modernos por completo; na verdade, mais modernos que nunca; ou seja, voltamos a lâmina afiada da faca modernizadora contra a própria modernidade.” Mesmo sendo uma outra era, havia também um pouco de modernidade, compulsivamente modernos eram os novos dias.

A modernidade sólida, o tempo deixado para trás, além de estabilizar as instituições propunha-se a estruturar fundamentos, padrões e rotinas para que a duração e a segurança fossem alcançadas reduzindo as instabilidades existenciais, que naturalmente permanecem além do planejamento humano. Bauman passou a definir como liquida a nova modernidade, que era diversa da antiga porque nela o que estava em curso era o contrário do que prevaleceu antes. O modelo utilizado para representar as estruturas que se consolidaram na modernidade sólida como forma de controle e disciplina é o projeto panóptico. Bauman mencionou os trabalhos de Michel Foucault que identificou o papel social dessas instituições. Esse modelo apresenta unidades sólidas, com prédios enormes, espaços vigiados, chefias verticais, uma estrutura cara, pois ela (id., p. 17): “requer presença, e engajamento, pelo menos uma confrontação e um cabo-de-guerra permanentes.”

Então se solidificar era o objetivo anterior (id., p. 13): “a perpétua conversão em líquido ou estado permanente de liquidez, é o paradigma para alcançar e compreender os tempos mais recentes – esses tempos em que novas vidas estão sendo escritas.” O processo de desarranjo migrou da vida econômica para a social-política e daí para a pessoal. A desintegração dos laços sociais e pessoais pode parecer um efeito colateral e imprevisto das mudanças econômicas, mas não são. Quanto mais leves, fluídas, escorregadias, evasivas e fugidias são as relações pessoais, melhor o ambiente para a globalização. Ela se beneficia da ausência de barreiras e fronteiras fortes, inclusive nas relações pessoais.

Postagens mais vistas