A Páscoa é uma festa
fundamental para os judeus, eles recordavam a liberdade, denominada Pessach. O dia de lembrar que foram
libertos do Egito, país onde estiveram cativos por quase 400 anos. É
claro que se a massa de judeus assim celebrava e agradecia a YHWH ou YHVH (Eu sou), o Senhor do céu e
da terra pelo alívio da escravidão, aqueles mais espiritualizados iam além ao comemorar
a liberdade não só política, mas das prisões terrenas, dos limites que nos
fazem menor, das dores que nos prendem à matéria. Libertar-se dos limites e
transcender o que se é. Conta o evangelho de Mateus que, como bom judeu, Jesus
de Nazaré, foi a Jerusalém com seus discípulos para comemorar a Páscoa.
O evangelho
de Mateus relata (26, 17-19) que: “17 No
primeiro dia da Festa dos Pães sem Fermento, os discípulos chegaram perto de
Jesus e perguntaram: — Onde é que o senhor quer que a gente prepare o jantar da
Páscoa para o senhor? 18 Ele respondeu: —
Vão até a cidade, procurem certo homem e digam: “O Mestre manda dizer: A minha
hora chegou. Os meus discípulos e eu vamos comemorar a Páscoa na sua casa.” 19 Os discípulos fizeram
como Jesus lhes ordenara e prepararam o jantar da Páscoa.
Bem
antes daquele dia, quando eles nem sonhavam, no capítulo 16, o mestre já lhes anunciara
que seria preciso ir a Jerusalém, onde sofreria nas mãos dos anciãos,
dos principais sacerdotes e dos gentios. A ida a Jerusalém contemplava um plano
maior, a ampliação do significado da Páscoa, tornando-a não apenas comemoração
da libertação política do povo, ou a libertação de alguma circunstância ruim, mas
ser a porta de entrada de uma vida plena, uma vida diferente, uma vida
superior.
Somente
Alguém com a estrutura psicológica perfeita, um homem completo seria capaz de
transformar aquela festa, que para Ele era a despedida dessa vida, num sacramento
permanente, num ritual que O traria sempre para perto de seus amigos queridos,
mesmo quando ele já não estivesse fisicamente presente. De seu coração pleno
brotou, naquela noite em Jerusalém, a luz que tocou o pão sem fermento para torná-lo
igual a seu corpo e o vinho para ser o seu sangue. E somente um Deus tão
maravilhoso podia, na simplicidade de sua despedida da terra, deixar gestos de
humildade e amor, com a serenidade, solenidade e profundidade que o ritual
pedia. E o impacto foi feito foi tão forte que seus discípulos passaram a
repeti-lo nos anos seguintes e a Igreja o faz ainda hoje com igual emoção,
devoção, veneração e respeito.
Assim,
Ele se despediu e, mesmo sendo tão querido pelos apóstolos, tão essencial para
eles, Jesus os preparou para enfrentar o vazio de sua presença. Ele lhes deu
uma luz para a difícil tarefa de viver sem seus ensinamentos. Isso porque mesmo
sem deixar de estar com cada pessoa que o chama, quando foi elevado ao céu, Ele
não mais era visível com seu sorriso bondoso, seu olhar amigo e sua mão
milagrosa.
Depois
da ceia fantástica, do julgamento imparcial, da morte pavorosa, quando tudo
parecia perdido e a vida vazia, quando a noite eterna abateu-se na alma de cada
discípulo e nada fazia sentido, Ele apareceu de forma singela a uma de suas
amigas para lhe anunciar: Eu estou vivo. Avisem a meus amigos
que a morte não me conteve, como eu já havia mostrado que seria, quando tirei
Lázaro da tumba e trouxe à vida várias pessoas mortas. A vida que eu vivo é
maior que a morte e que estarei com todos os que se reunirem em meu nome até o
fim dos tempos. Porque eu estou com YHWH e
Ele em mim no amor do Espírito Santo.
Então, quase dois mil anos depois daquela ceia e da passagem
para a vida superior, que essa festa seja, para cada um de nós, a oportunidade
de experimentar, ainda que de forma pálida, a vida plena que Ele nos oferece.