Uma das dificuldades que a História contemporânea
reserva é compreender como a Alemanha de tantos gênios, intelectuais de todas
as áreas do saber e artistas, aquela flor do Reno (Rio tão celebrado em poemas,
canções e lendas), a Alemanha da venerável universidade de pesquisa foi
engolida pelo nazismo. Não é fácil compreender como se embota a razão crítica,
embora possamos acompanhar os passos históricos que levaram ao desastre: a
eleição de Hitler, o controle do parlamento, a mudança da constituição, o
amordaçamento do judiciário, o controle dos meios de comunicação, a
transformação da mentira em verdade. Joseph Goebbels, ministro da propaganda de
Hitler valeu-se da destruição da verdade e agia para dar coerência à frase que
foi a ele atribuída: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.”
Goebbels é o teórico da Fake News, o gênio do mal que inspira a mentira
nos meios de comunicação. Ele falou isso muito antes de existir os atuais
recursos tecnológicos.
O
crescimento das falsas notícias e a multiplicação dos herdeiros de Goebbels em
nossos dias se explica pela lógica dos algoritmos e pelo ambiente líquido
mencionado por Zygmunt Bauman. O sociólogo descreveu metaforicamente o que está
acontecendo na sociedade humana (CARVALHO, Bauman e a liquidez, BH., MPR
edições, 2026, p. 207): “A
sociedade líquida estimula a rápida mudança dos
padrões de vestuário como forma de mudar publicamente de identidade o que é
favorecido num tempo em que para sobreviver é preciso, diz Bauman: “o descarte rápido, e
cada vez mais abundante, na lata de lixo, dos bens comprados e adquiridos, isso
numa economia cuja coluna vertebral é a remoção
do lixo. Em outras palavras, a moda e sua contínua mudança
acaba favorecida pelo ambiente geral da cultura que acolhe como modo de existir
a mudança contínua da vida e dos objetos consumidos.”
Quem nos ajuda a
entender e descreveu, desde dentro, o modo como a verdade é destruída e uma
sociedade entra em colapso, tornando possível a ascensão do nazismo, foi o
médico e filósofo Karl Jaspers. Ele testemuhou tudo e foi perseguido na Alemana
nazista, ele, o maior filósofo e gênio da psiquiatria, foi expulso pelos
nazistas da Universidade para ser reintegrado, com todas as honras, depois da
destruição do nazismo. Quando acabou a Segunda Grande Guerra ele foi considerado
o maior intelectual da Alemanha livre. Se pudermos resumir o processo que ele
descreveu em Razão e Contra-razão no nosso tempo (Lisboa, Minotauro,
s.d.) o processo é mais ou menos assim. A verdade encontrou naquele meio
(nazista) não uma resistência comum, mas uma hostilidade assassina. O espírito
das fake news acolheu sua inspiração no saber confuso, na desinformação,
na mistificação, na repetição da mentira, no desrespeito às leis democráticas e
na violência contra quem pensa diversamente. Tudo isso prejudica o uso da
razão.
A massa pouco crítica
não enxerga nos mágicos e mistificadores o perigo e os seguem. Adoram quem se
apresenta como mito, e lhes oferecem um modelo para se identificarem. O uso
crítico e educado da razão é como o ar puro que respiramos, mas que as massas
evitam, mesmo tendo necessidade dele. A filosofia e a ciência querem o homem
livre, fora da sedução do totalitarismo nazista, ou de qualquer outro
totalitarismo. A razão iluminista confiante e inocente precisa ser atualizada,
ela não consegue enfrentar as forças da desinformação. A fé na razão e seu
exercício crítico não permite uma fé irracional. Então, lutar pela razão é
lutar pela ciência e pela filosofia, pela democracia e pela liberdade.
Por oferecer
explicações rasas e eliminar o
pensamento crítico criando a forma de pensar de manada (ou de gado), os líderes
nazistas rejeitam a ciência, a filosofia e as humanidades, em geral. Negar a
razão é colocar a sociedade em risco. A substituição de uma religião aberta e
coerente com a tradição cristã por um falso cristianismo faz surgir seitas ou
agrupamentos inimigos da liberdade e intolerantes.
Finalmente, cabe ouvir
a advertência do filósofo. Num tempo tão difícil, mesmo havendo razão para o
desânimo é preciso lutar pela verdade, pela democracia, pelo estado de direito,
pelos verdadeiros valores cristãos. Apesar de quase sufocada a liberdade
superou o obscurantismo e renasceu na Alemanha pós-nazista. Pois bem, vamos
esperar que a democracia atual não precise ser morta para depois ter que
renascer com tremendas dores de parto.

