sexta-feira, 6 de março de 2026

ANTONINO ZICHICHI- PENSADOR DA RAZÃO E FÉ. Selvino Antonio Malfatti.

  



Compatibilidade entre fé e ciência é possível? Pode um cientista crer em Deus? Alguém que se dedica à ciência pode ter fé num ente superior? Estas questões fizeram parte da vida de Antonino Zichichi.

A vida científica de Zichichi teve como maior contribuição para a ciência a descoberta da antimatéria.

Viveu entre 1929 a 2026. Nasceu em Trapani, Sicília, Itália. Graduou-se pela Universidade de Palermo em Física. Como pesquisador iniciou em FERMILAB (Chicago) e no CERN (Genebra).

Contribuições para a ciência: Antimatéria, Física de Partículas, Invenção de Multigap Resistive Plate Chambers (MRPCs)- medição do tempo de voo.

Quanto à fé Zichichi causou polêmica por defender a compatibilidade entre ciência e fé. O tema não é novo, ao contrário acompanha o debate ao longo dos 2 mil anos da era cristã. O ponto alto ocorreu no século XVII com Galileu Galilei que só não foi executado pela Inquisição por retratar-se sutilmente abrandando os termos em carta enviada à Inquisição como, por exemplo, em vez de “falsos”, empregou “não conforme a verdade”.

O debate sobre ciência e fé polarizou-se entre os que defendem que ciência e fé são opostas e, por isso, inconciliáveis. No entanto, há uma tradição fortemente alicerçada de que pode haver não só compatibilidade entre ambas, como uma possível colaboração vantajosa entre a investigação científica e a reflexão religiosa. Entre os últimos destaca-se Antonino Zichichi que tinha na ciência uma via lógica para defender o criacionismo. As leis da natureza não são aleatórias, mas obedecem à lógica e, portanto, são racionais. O universo desde as partículas não é caótico, e sim estruturado matematicamente apontando para uma ordem. Isso leva a uma reflexão filosófica. Onde a ciência pára, a filosofia continua.

Na mesma trilha podemos citar o geneticista Francis Collins, cristão professo, estudioso do genoma humano. Pensa que a investigação científica e a reflexão religiosa, respondem a questões distintas, mas ao mesmo tempo complementares. Ciência busca explicar o mundo natural, a fé procura entender o sentido, o valor e a finalidade deste mesmo mundo natural. Uma tem metodologia científica e outra abordagem.

No domínio da física destaca-se o cosmólogo George Lemaître, sacerdote, que propõe a teoria do átomo inicial, precursor do Big Band. Não se atrelou à cosmologia, mas na distinção entre o domínio científico e teológico. Para ele a autonomia seria a condição para o diálogo.

Outro físico é John Polkinghorne, estudioso das partículas, torna-se teólogo anglicano. Sustenta que tanto a ciência como a teologia buscam a verdade, mas com métodos diferentes. A racionalidade do cosmos e a capacidade humana para compreendê-la são dados que requerem interpretação filosófica mais ampla.

O que se constata em comum nesses pensadores não é a quem cabe a primazia, mas a clareza das metodologias. A ciência busca a verdade através da investigação e a fé través da reflexão. Todos rejeitam tanto o fundamentalismo filosófico-teológico e o cientificismo da mensuração. A fé se vale da ciência e esta da reflexão filosófica.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O medo e o esvaziamento de propostas para uma sociedade justa. José Mauricio de Carvalho

 



Em Indícios da pós-modernidade (2023) Bauman avaliou um fato que mudou a vida da humanidade no final do século passado: o fim da União Soviética. Aquele acontecimento antecipou, na prática, o fim do século XX, ou da forma como ele se desenrolou, acelerando algumas mudanças que começavam a acontecer. Com o acontecido se perdeu a comparação entre a forma de vida ocidental, liberal e democrática, e o modo de vida das nações orientais, comunista e autoritária.

Houveram grupos que se perderam de início nesse novo mundo, a burocracia da guerra que pautava o desenvolvimento armamentista no medo que um bloco tinha do outro. Essa burocracia usava o medo da guerra e dominação estrangeira para controlar (BAUMAN, 2023, p. 262): “e extrair seu sustento da maior indústria de armas que existiu em qualquer tempo de paz da história.” Não era preciso que houvesse guerra para continuar a produzir armas, mas era preciso que houvesse medo.

Houve também um descaminho no universo intelectual, de um lado inúmeros departamentos e institutos de pesquisa que se dedicavam a conhecer e avaliar a vida dos habitantes do leste, ficaram sem objeto. E um impacto ainda mais profundo, o fim do comunismo colocou em dúvida as propostas de uma sociedade mais justa, mesmo no universo das sociedades livres. Setores à direita do espectro político passaram a considerar o regime da liberdade mercado livre como uma forma perfeita de vida. Bauman observou de forma exata (id., p. 264): “que mesmo que tecnicamente mais viável, ela pode ainda não ser totalmente impecável, nem a mais justa das ordens concebíveis; que pode estar urgentemente precisando de uma revisão e melhorias.” O problema é que o fim do comunismo real minou as propostas de uma sociedade menos injusta.

O primeiro problema que surgiu dessa interpretação é que os estados totalitários não eram apenas o comunista. Há setores à direita claramente favoráveis a alternativas totalitárias e o mal maior é o totalitarismo, quer de esquerda, quer de direita. Daí o obvio (id., 265): “sugerir que a utopia comunista foi o único vírus responsável pelas aflições totalitárias seria propagar uma ilusão perigosa, que é tanto tecnicamente incapacitante quanto politicamente desarmante – para as futuras oportunidades da democracia, um erro caro, talvez até letal.”

A questão de fundo é que muito do que se procurava no comunismo era parte do sonho de segurança da modernidade, que também estava presente, mesmo que de outra forma, no modo de vida ocidental. E a fluidez do mundo pós-moderno diluiu o sonho moderno, tanto o que se consolidou no comunismo, como o que havia na própria sociedade ocidental. Isso significa um problema complicado por que o ocidente sempre soube assumir suas crises e dificuldades como desafios para superar e seguir adiante na consolidação dos valores da pessoa humana. É claro que esse historicismo axiológico não se encontra em Bauman, mas parece uma alternativa coerente para superar os problemas que ele apontou.

O problema do ocidente hoje é que, ao contrário de outros momentos da história (id., p. 271): “ele não tem inimigos eficazes nem internos, nem bárbaros batendo em seus portões, apenas aduladores e imitadores.” Daí quem se beneficia desse estado de coisas trabalha para considerá-lo perfeito e eterno. E o estado do bem-estar social, que tinha seus méritos ficou a parte. O trabalho intelectual, a preservação e aprofundamento de aspectos da cultura vindos da modernidade foi deixado de lado e acabou sugerindo uma crise nas universidades.

Pois bem, ficam os intelectuais desafiados a encontrar repostas para o futuro da humanidade que estejam fora do comunismo, mas que não se restrinjam a sugestão de privatização da responsabilidade pelo futuro do cidadão. Não há respostas fáceis e prontas. Alerta Bauman precisamente (id., p. 274): “a crítica da liberdade apenas de mercado pode levar à destruição da liberdade como tal.” Isso porque já está claro (id., p. 275): “que a liberdade confinada à escolha do consumidor é claramente inadequada para a execução das tarefas de vida que confrontam uma individualidade privatizada (por exemplo, para a construção da identidade).” Um tal ambiente é um desafio, ele exige uma análise precisa do que está acontecendo para buscar alternativas a uma vida boa e decente, embora a crítica para tanto não seja simples. 

As críticas de Bauman à sociedade de consumo, os perigos que ele enunciou, mostram a extensão do desafio de reconstruir o universo intelectual com alternativas que não repitam as que vieram da modernidade sólida. Por outro lado, que não se pode acreditar que a sociedade de consumo e de massa atual, hedonista e consumista, tenha as repostas mais exatas para os dilemas humanos. Para nós, uma alternativa possível está no desenvolvimento do historicismo axiológico tal como o concebeu Miguel Reale, mas completado pelo que a filosofia atual identificou ser necessário para repensar a subjetividade moderna. E como parte desse processo intelectual parece necessário a reconstrução de um pensamento político de centro democrático, mais à direita e mais à esquerda, não importa. Um centro democrático é uma alternativa mais razoável que a polarização entre direita e esquerda atualmente alimentada pela radicalização da direita. Isso porque a esquerda ficou com pouca munição com o fim do comunismo e foi forçada a se aproximar do centro. Algo assim precisa vir da direita.

 

 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A DEMOCRACIA NO BRETE. Selvino Antonio Malfafatti

 


A primeira-ministra da Dinamarca foi a primeira líder política que publicamente admitiu: “A ORDEM MUNDIAL QUE CONHECEMOS ACABOU”, disse Mette Frederiksen a líderes mundiais em Paris e a estudantes de Ciência Política. No ar ficou a pergunta: virá o quê?

Até a internet o mundo político andava bem: a democracia como fim, através de eleições livres, direitos individuais respeitados, estado de direito sólido.

Esta democracia surgiu após a invenção da imprensa. Através de formadores de opinião eram divulgadas as plataformas dos partidos e os eleitores, com supremos juízes, escolhiam seus governantes. As sociedades ou países que não se enquadravam neste esquema não pertenciam ao escol das nações democráticas.

A reviravolta adveio com a internet. Conforme Jürgen Habermas, a divisão dos poderes e as regras jurídicas conseguiram vingar graças à invenção da imprensa. A difusão através de jornais, panfletos e livros fizeram emergir a opinião pública: espaço intermediário entre o Estado e o cidadão. Pela imprensa os “influencers” de elite podiam informar os cidadãos, proporcionar debates e discutir propostas e programas. 

Com a chegada da internet, popularizada ao extremo, deu voz igualitária ao esclarecido e ao ignorante. Todos podem emitir sua opinião. Conforme Umberto Eco as redes sociaisderamvoz aos ignorantes que foram equiparados a Prêmios Nobels. Já Karl Popper e o filósofo italiano Dario Zntiseri trazem à reflexão a mídia televisiva que se desta pela vulgariade de seus programas. Como consequência a elite formadora de opinião perdeu a força. Em seu lugar ficou ninguém ou todos, pois cada um se sente capacitado não só de ter sua própria opinião, mas de ser o influenciador dos demais. A massa de esclarecidos e não esclarecidos tem sua opinião e forma influenciadores e influenciados. Os partidos são motivo de chacota e os candidatos debochados e escarnecidos. A democracia deixou de ser destino, mas exceção e alvo de atasque. Regimes autoritários a desafiam e apresentam-se como modelos alternativos. Mas o pior: está corroendo por dentro esvaziando-se, perdendo legitimidade. Em locais onde o voto não é obrigatório a abstenção alcança índices de quase 50% de participação. Á era da televisão o antigo modelo ainda conseguiu sobreviver. À tecnologia digital, porém, o sepultou. Foi a vez das redes socais que tomaram conta e mandaram tudo para a lixeira. Estas atingiram a esfera pública e fragmentou-a em microcosmos, fechados e dominados por lógicas emocionais em vez de críticas. O pior: elas se consideram as críticas. Os que ousam encará-las passam a ser rotulados de fascistas, retrógrados e conservadores. A argumentação foi substituída por mensagens curtas, simples e agressivas. Não se objetiva convencer, mas submeter e dominar. Quem não aderir é descartado. Na política é o fim do entendimento e negociação, mas a guerra.

Por fim entra Inteligência Artificial que é a pá de cal ao respeito. Imagens e textos podem ser gerados ao infinito tanto a favor como contra às pessoas ou instituições. Já não se consegue mais discernir o que é informação e manipulação. Neste ambiente como pode vingar a democracia? Como um cidadão consegue exercer sua liberdade quando foi amputada a confiança cognitiva? E se juntarmos a ação dos algoritmos que te oferece o medicamento que agrada e não o benéfico?

Isso nos lembra Leibniz: “virá um tempo em que, em vez de discutir, diremos: calculemos”.  As controvérsias seriam reduzidas a cálculos. A própria inteligência artificial e seu algoritmo se encarregam otimizando as decisões. A Câmara municipal de Gramado (RS) foi a primeira do Brasil a adotar a IA como recurso para decisões para rotina de trabalhos.

Diante disso a democracia liberal, como foi arquitetada com a invenção da imprensa e aperfeiçoada nos séculos subsequentes, poderá sobreviver à comunicação digital de massa? O debate, a discussão, o confronto respeitoso de ideias sobreviverá ao mudo das redes sociais

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Considerações sobre a natureza de Jesus. José Mauricio de Carvalho



Num dos trechos mais lindos do Evangelho de João (cap. 21, 26-28), Jesus apareceu aos discípulos e diante de Tomé, que duvidara de sua ressureição, disse-lhe (Jo. 21,27): Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia. Ao que se segue a belíssima resposta de Tomé, síntese da fé cristã (Jo. 21, 27): Meu Senhor e Meu Deus.

 Naquele momento Jesus se apresentava aos apóstolos em sua dupla natureza, a divina e a humana. Era Senhor da Vida e da Morte e possuía um corpo humano glorioso. Os apóstolos compreenderam então todo o mistério que envolvia o mestre querido, mesmo sabendo que Ele era o Filho de Javé. Havia tanta coisa que não entendiam até então. A reaparição de Jesus em meio ao medo, às inseguranças e a falta de rumo mudou tudo. 

Essa verdade experimentada no fundo da alma pelos discípulos de Jesus, contudo, não mereceu de imediato tratamento teológico. Não parece que sentiram necessidade disso, eram testemunhas vivas das duas naturezas de Jesus. Porém, o passar dos anos, diversos grupos cristãos formados em diferentes nacionalidades começaram a se interessar pelo assunto. Alguns entendiam que as duas naturezas existiam separadas, havia um Jesus humano e outro divino. E havia também aqueles que duvidavam da natureza humana de Jesus, outros ainda de sua divindade. O assunto ganhou importância nas comunidades cristãs. E quais as razões da controvérsia? O Evangelho de João dizia que Jesus existia antes de sua vida terrena. O evangelho começa assim (Jo. 1,1-2): No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Portanto, havia duas naturezas, mas elas não possuíam coincidência histórica. 

Na Carta aos Efésios, Paulo falou que Deus nos predestinou ao amor de Jesus, o que confirmava sua existência anterior à vida terrena. Na Carta aos Filipenses, (5,6-7), Paulo escreveu: que Jesus embora sendo Deus, não considerou o ser igual a Deus; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. Assim as duas naturezas não se mostravam juntas e também dava margem a se entender que se tratava de uma única natureza que teve forma humana ou que apenas aparentou ter.

Por volta do segundo século cresceram, entre os cristãos, especulações sobre a vida terrena de Jesus. O Evangelho apócrifo de Tomé narrava fatos extraordinários da infância de Jesus, mas que não conviviam bem com os quatro evangelhos canônicos. O evangelho apresentava um menino milagreiro e encrenqueiro, o que complicava muito a questão teológica e a compreensão da natureza humana de Jesus. Isso para não falar da consciência gradual de sua condição divina, que demandava um cérebro amadurecido.

Aqueles que acreditavam, como o teólogo gnóstico Cerinto, que Jesus era apenas humano, um profeta poderoso, mas não propriamente Deus, estavam mais próximos da ortodoxia judaica.  

Apenas no Concílio da Calcedônia, no século 451, século V, a Igreja oficialmente conseguiu sistematizar essa verdade fundamental do cristianismo. Jesus possuía as duas naturezas e isso se tornou uma questão fundamental da fé católica. Esse reconhecimento nos colocou diante do mais terno mistério do cristianismo, a encarnação do Verbo de Deus. Essa é a festa do natal. Nasceu-nos um Deus menino.

De todas as grandes festas da Igreja, igualmente importantes para o conhecimento do plano salvífico de Deus, o Natal é aquela que mais de perto toca o nosso coração. E o faz pela ternura e significado do que é comemorado. No natal Deus não se apresentou poderoso, altíssimo, cheio de força, glória e esplendor. Ele se apresentou como uma criança comum, cuja vida e vinda era já o milagre. Em cada criança que nasce, Deus continua oferecendo ao mundo a oportunidade do seu Reino, como fez com aquela criança de Belém (Gálatas, 4, 4-5): quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da Lei, a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adoção de filhos.

Na Idade Média a espiritualidade cristã colocou em perspectiva a humanidade e a simplicidade de Jesus, Deus menino. São Francisco de Assis, um dos mais queridos santos da Igreja, conseguiu sistematizar essa devoção medieval montando um presépio. Nele Jesus era apresentado como uma pobre e humilde criança. Através dos frades franciscanos essa devoção ao menino Jesus passou pela França e chegou à Península Ibérica. Sendo cultivada em todos os mosteiros rapidamente se espalhou pela população e se tornou uma das referências da espiritualidade cristã em Portugal e Espanha.

Santa Tereza de Ávila uma outra querida dos católicos, uma santa da Igreja que viveu no século XVI deu o toque final na devoção. Ela teve uma profunda formação cristã e se tornou religiosa Carmelita no Convento de la Encarnación, em Ávila. Conta a tradição que Santa Tereza vestiu, pela primeira vez, o menino Jesus com as roupas reais e a imagem assim vestida. Ela fez o contraponto a Francisco de Assis. O Deus menino era também o rei do universo (Mt. 24,30): “Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; (...) e verão o Filho do Homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória.” E assim, como Homem e Deus, a devoção ao Menino Rei do Universo passou a ser cultuada nos mosteiros carmelitas de Espanha e Portugal.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

M0RADAS E PENSAMENTO EM EINSTEIN. Selvino Antonio Malfatti.

 



Poucos cientistas vivenciaram a íntima relação entre o morar e pensar como Albert Einstein, conforme pensam Daniele Manca e Gianmario Verona no artigo "Em casa de Einstein". Quem se detém na saga de cada morada de Albert Einstein flagra-se a dinâmica que envolveram a residência e o pensamento do cientista. Cada mudança corresponde a uma nova configuração intelectual do autor. E não foram poucos: quatorze endereços diferentes.

Einstein nasceu em Ulm, às margens do Danúbio, no sul da Alemanha. Viveu depois em Munique, Milão, Pavia, Zurique, Berna, Praga, Berlim, em um chalé inglês e, por fim, em Princeton. Casas grandes e pequenas, apartamentos modestos e residências confortáveis, espaços centrais e periferias. Einstein nunca pertenceu a um lugar, mas ao mundo.

A casa é o aconchego íntimo. Abriga a família, o idioma e a cultura pátria. Com Einstein mundo líquido se antecipa: identidades digitais, múltiplas moradas, deslocamentos contínuos, pertencimentos parciais e fronteiras móveis. Cinco cidadanias, a natural renunciou e um tempo apátrida.

As mudanças de residências acompanhavam pari passu as novas oportunidades acadêmicas junto com as nuances políticas. A nova morada era uma resposta às tensões políticas  emergentes.

1.   Ulm e Munique: origens e formação inicial (1879–1894)

Ulm é seu local de nascimento de onde cedo se mudou para Munique. Os conflitos mais marcantes foram as tensões com o sistema educacional autoritário alemão. Enfrentou dificuldades econômicas severas de tal sorte que decidiu mudar-se para Itália.

2.   Milão e Pavia: fuga e transição decisiva (1894–1895)

Residiu em Milão e Pavia. Neste endereço cortou os laços umbilicais com a Alemanha renunciando inclusive a cidadania e tornando-se apátrida. Foi um período de reflexão,  amadurecimento, longe das pressões políticas alemãs.

 

3.   Zurique (primeira fase): formação acadêmica (1896–1900)

Apesar de todos os esforços e entregas de currículos não lograva ingressar no ensino universitário. Em Zurique, por exemplo, por não conseguir o oque almejava chegou ao ponto de se conformar com o ensino médio. Sua alma mater aconteceu no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETHZ). Formou-se em matemática e física. Aí encontrou outro ambiente intelectual: aberto e cosmopolita. Identificou-se com os ideais liberais e obteve a cidadania suíça.

4.   Berna: trabalho e revolução científica (1902–1909)

Ao se transferir para Berna, consegue publicar  alguns artigos que o alavancaram definitivamente para a física. Foi em 1905, considerado o “Annus mirabilis”.

5.   Zurique (segunda fase): retorno difícil à academia (1909–1911).

A volta a Berlim teve como objetivo assumir um cargo universitário, mas o reconhecimento intelectual não veio. Ao contrário, as resistências às suas ideias persistiram. Foi um momento de insegurança profissional e perseverança intelectual.

6.   Praga: reconhecimento condicionado (1911–1912).

Uma oferta de carreira universitária chegava casada

à aceitação da cidadania austro-húngara. Em que pese sua brevidade nesta capital, abriu-lhe definitivamente as portas da universidade. No entanto, o ambiente político e intelectual pairava sobre sua trajetória.

7.   Berlim: auge científico e ruptura política (1914–1933)

Em Berlim, então capital mundial da ciência, alcançou reconhecimento pleno, mas também viveu o início da perseguição ideológica. A ascensão do nazismo e a propaganda contra a chamada “ciência judaica” o empurraram para o exílio.

8.   Chalé inglês: refúgio temporário (1933)

E foi para o exílio na Inglaterra. Einstein viveu em um chalé em fuga direta do regime nazista. Essa moradia representou um abrigo provisório, um espaço de transição entre a Europa que se fechava e e os Estados unidos que se abriam.

9.   Princeton: exílio e estabilidade final (1933–1955)

Einstein estabeleceu-se em Princeton, nos Estados Unidos, onde viveu inicialmente na Library Street, no campus universitário, entre 1933 e 1936. Posteriormente, adquiriu sua casa definitiva na Mercer Street, onde permaneceu até sua morte, em 1955, aos 76 anos, o maior gênio da física de século XX.

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O medo e a moralidade. José Mauricio de Carvalho

 



Há uma constatação preocupante mencionada por Bauman e Donskis no livro Cegueira Moral. Vivemos numa era de medo e sua cultura se espalhou pelo mundo, alimentando a incerteza existencial e tudo o que isso significa de ruim. E a grande tese dos dois autores é que esse medo está na base da insensibilidade moral que se espalha pelo planeta. E ainda está na base da depressão que se tornou (id., p. 122): “a doença psicológica mais comum.” E isso apesar de que vivemos um tempo relativamente calmo e de prosperidade. Não se trata de um assunto novo (id., p. 116): “o medo da modernidade é notícia requentada. Cada novo fenômeno pode causar um surto de pânico moral e uma reação exagerada.”

Há um ponto de partida e podemos resumi-lo assim. A sociedade luta para se proteger de diferentes perigos. A civilização foi a construção de um mundo mais seguro, mas (id., p. 123): “até agora nossa capacidade não está nem perto de eliminar a mãe de todos os medos, aquele medo mestre exalado pela consciência de nossa mortalidade e da incapacidade de escapar da morte.” Para os autores, a morte é a raiz última de todos os medos.

O sentir medo é de fato triste, essa emoção desestabiliza a malha psicológica. Talvez fosse necessário acrescentar a partir dos estudos de Frankl um esclarecimento, sentir medo sem propósito. O fenômeno encontra-se, segundo os autores de Cegueira moral, associado a emoções ruins, inclusive o ódio (BAUMAN e DONSKIS, 2021 c, p. 117): “o medo fala a língua da incerteza, da insegurança e da proteção que nossa época fornece em grandes quantidades e abundância.” Assim existe uma correlação entre medo e insensibilidade moral, o que faz algum sentido. Embora devamos ter claro que o ambiente não obriga ninguém a fazer o mal e muita gente não o fez mesmo em condições adversas e com o risco da própria vida.

Bauman identificou três razões para o medo: a ignorância, a impotência e a humilhação. Essas três razões explicam o porquê do medo, inclusive aquele que a modernidade líquida abomina que é perder o bem-estar material. Nossa sociedade associa, todo o tempo, felicidade ao consumo de coisas e à posse de coisas, embora isso não seja exatamente assim. Enfim, a vida em sociedade cobra seu preço, segurança e liberdade dos desejos é uma conta difícil de fechar.

 O assunto foi amplamente examinado em O retorno do pêndulo, obra que debateu a relação entre liberdade e segurança e a ênfase nos desejos e prazer da sociedade líquida foi associada à pulsão de morte identificada por Freud. O assunto volta em diversas obras, notadamente em Modernidade Líquida (2001) e em A sociedade individualizada, vidas contadas e histórias vividas (2008) e Vida a crédito (2010 b). E o que era a síntese do mencionado (id., p. 121): “a civilização é uma questão de permuta, você ganha alguma coisa, porém cede outra.”

Para nós o medo nuclear a vida, o da morte e do sofrimento em geral, encontra-se na raiz do esforço pelo sentido, por tornar a vida valiosa aos nossos olhos de modo a fazê-la ecoar na eternidade, mesmo sendo ela limitada encontra um enfrentamento possível e importante na meditação e na construção do pensamento filosófico que a sociedade atual desconsidera como pouco produtiva e importante. E assim, em nome da produtividade e de benefícios materiais imediatos, a sociedade líquida vem deixando de lado o melhor enfrentamento desse medo e da própria loucura. E a questão se estende para além do problema da morte, como bem lembra Karl Jaspers (1987, p. 21): “as situações-limites – morte, acaso, culpa e insegurança – mostram o fracasso. Que farei eu perante este fracasso absoluto a cuja intuição me não posso furtar se honestamente o apreendo?” A questão nos parece diversa do mencionado por Bauman e Donskis, o modo como se apreende o medo e a insegurança é que explica o caminho existencial escolhido. Muitos medos são enfrentados em nome de boas causas e quando há um sentido mesmo a morte ou a dor não parece algo devastador. Porém ela o será sempre se o propósito da vida for apenas a acumulação de bens materiais ou a vida orgânica, porque nosso pensamento pede muito mais e isso foi o que descobriu o psiquiatra Viktor Frankl quando forjou a noção de inconsciente espiritual. Esse conceito foi utilizado (CARVALHO, 2021, p. 41): “para explicar a repressão da ideia de Deus e dos assuntos espirituais ocorridos na modernidade.” Esse fenômeno se agravou nos últimos anos, no que passamos a conhecer como modernidade líquida e o psiquiatra observou o fenômeno no consultório e alimentou uma vida vazia de sentido que ele traduziu no conceito de frustração existencial, raiz de uma forma de depressão muito comum em nossos dias que ele denominou depressão noogênica.” Uma depressão nascida da percepção de que a vida não tem um significado válido.

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

ENCONTROS DE FAMÍLIA. Selvino Antonio Malfatti

 



 ENCONTROS DE FAMÍLIA. Selvino Antonio Malfatti

Nos dias atuais multiplicaram-se os encontros em formaturas, esportes, educação, ciência, profissão e dezenas de outros. Há um que chama atenção, de família. O motivo é óbvio. Os laços de sangue são os mais fortes. Por que agora? A resposta também salta aos olhos: tecnologia  da comunicação. Anos atrás, em torno de cinquenta anos, a comunicação teria que ser por carta ou a viva voz. Atualmente é instantânea. Isto tornou possível não só se comunicar como encontrar o parente. No passado quando alguém emigrava do local de sua família ninguém mais o achava. Hoje, ao contrário, os meios possibilitam encontrar alguém em qualquer parte do mundo.

Os encontros de família geralmente são na residência de um familiar, avós, pais, mãe, irmão ou primo. Nos encontros, o tradicional pai, mãe e irmãos se multiplicou atendendo ao mandamento bíblico. Agora são primos e primas, maridos e esposas, filhos destes e até netos. A minúscula família virou uma multidão.  Nem mais todos se conhecem. A pergunta mais frequente: tu és quem?

O lugar da festa é geralmente no interior, numa capela, casa ou na cidade num clube. No dia combinado todos se dirigem ao local. O momento é como um encontro de pássaros. Rebenta a festa. Todos gritam, cumprimentam, se abraçam, se beijam. Alguém aponta para um pica-pau que se gruda ao tronco da árvore, lembrando o melar dos matos. Outro para o “campanil” da igreja, recordando as travessuras de enrolar um pano no badalo. E outros para a ladeira onde se brincava de carrinhos de lomba. Tudo festa, abraços, beijos, risadas e choros.

Mas por que motivos os parentes sanguíneos  querem se encontrar? O que os move a procurar pais, irmãos, primos, tios ou avós? Num tempo em que a dispersividade  é o normal  o que nos move buscar os que compartilham o mesmo sangue? A resposta pode ser encontrada na aspiração existencial. E é nesta direção que iremos buscar as respostas.

O ser humano desde que despertou a consciência se pergunta quem ele é. E para saber a resposta pergunta-se de onde vem. A primeira confrontação se dá coma a família descobrindo certas identidades: traços físicos, modos de falar, histórias, valores. A partir daí procura reconstituir a própria história. Percebe que na fluidez da sociedade a família é a espinha dorsal que congrega os elementos dispersos. Com isso reconstitui a própria identidade.

O esforço na busca de saber de onde veio busca conectar o passado, presente e futuro, interligando-os. Ao deparar-se com o presente e passado, conhecendo avós e pais, conecta o tempo que cultura digital tende apagar, pois enfatiza só o presente. Com isso emerge a descoberta da continuidade no tempo através do laço sanguíneo.

Antes da vida racional experimenta-se a vivência afetiva. É através dos pais, irmãos e primos que se entra na vida adulta. O afetivo antecede o racional. O que eles me ensinaram? Quais os conflitos que se enfrentados? As ausências, rupturas e presenças que marcaram a vida. Buscar os familiares proporcionará reforçar boas experiências e superar as ruins.

Em alguns casos, de forma sutil e subliminar, transparece um desejo de reconciliação por problemas ao longo da jornada: separações, ausências de pai ou mãe, pobreza, preferências de filhos. Os encontros podem ser uma oportunidade de reparação e conciliação.

Menos influentes, mas ocorrem, curiosidades genéticas como doenças, comportamentos, aptidões cujos familiares, através de encontros, buscam respostas sobre si mesmos.

Pergunta-se: encontros de famílias são apenas capricho, momento de lazer, a saudade ou tem alguma justificativa mais profunda existencial e ontológica?

Em Aristóteles constatamos que o homem é um animal político cuja primeira experiência política é a família. Nela o homem é acolhido numa comunidade e aos poucos vai se preparando para a plenitude política que é o Estado. Cada encontro de família revive-se a vida gregária inicial podendo ser confrontada com as relações instrumentais e públicas.

Em Paul Ricoer encontramos ao que ele chama de identidade narrativa constituída de dois momentos: o idem - o núcleo permanente e o ipse – o adquirido ao longo do tempo. A família é o fio condutos que conecta os dois povos. Nos encontros volta-se ao tempo e experimenta novamente o ipse que é seu eu, presente na família.

Por sua vez, Zygmunt Bauman ao trazer o conceito de liquidez quer significar os vínculos frágeis e os de solidez. Como se vive mais os vínculos descartáveis as pessoas suspiram por vínculos sólidos. E estes podem ser reencontrados na família.

O mais humano dos grupos, a família, através da conexão dos laços e os vínculos se alimentam e se concretizam nos encontros.

 

Postagens mais vistas