O século XIX deixou diferentes leituras do processo histórico e o
impacto delas vigorou algum tempo. O positivismo, por exemplo, avaliou que o
curso dos acontecimentos seguia uma rota imutável cujo destino é a afirmação da
razão positiva, isso é, mesmo com alguns desvios essa finalidade seria
alcançada. O rumo dos acontecimentos teria uma rota já pré-estabelecida e uma
direção prévia. A humanidade teria passado por estágios definidos começando
pelo teológico, seguido pelo metafísico e, finalmente, atingindo o positivo. As
ciências representavam o ponto de chegada da evolução intelectual e cultural da
humanidade e o conhecimento alargado do mundo daria origem a pessoas melhores.
Foram muitas as versões do positivismo, todas convencidas de que a história
humana seguia leis naturais rigorosas na direção da razão positiva e de uma
humanidade mais feliz e pacífica. Essa forma de pensar afetou todo o relato dos
fatos históricos desde então até muito recentemente e fortaleceu a crença ou
esperança de que o futuro seria melhor que o passado.
Antes do positivismo, mas igualmente influenciando grande gama de pensadores
nos séculos XIX e XX, o pensamento hegeliano e depois o marxista também
apostaram na evolução inexorável da história humana em direção a um futuro bem
articulado e melhor para toda a humanidade. O marxismo incorporou o otimismo e
confiança no futuro concebidos no positivismo, embora tenha destacado a necessidade
do esforço humano para a mudança da realidade concreta. As Grandes Guerras, a
Revolução Soviética, o nazifascismo tornaram-se o ponto de inflexão dessas
visões evolucionistas e altamente positivas e fizeram surgir uma crítica dura a
mentalidade otimista.
Em Sapiens, Harari nos ofereceu uma leitura mais atual do curso
histórico, ele menciona não mais um alinhamento com direção a algo, mas um
conjunto de cruzamentos que apontam para lugares diferentes, conforme se tome
uma ou outra estrada (HARARI, 2020, p. 246): “Cada ponto da história é um
cruzamento, uma única estrada percorrida leva do passado ao presente, mas uma
série de caminhos se bifurca em direção ao futuro. Alguns desses caminhos são
mais largos, mais planos, mais bem sinalizados, e, por isso, há uma chance
maior de que sejam seguidos.” Mais chance, mas não há determinismo, caminhos
obrigatórios. Em épocas de transição é pior, o estado de confusão e com as
trilhas a escolher, e a dificuldade é maior quanto mais a pessoa está
consciente do que está acontecendo. Coisas que se tornaram obvias com o tempo e
parecem rotas naturais, na época em que os fatos se passaram eram nebulosas na
ocasião (id., p. 248): “se alguém sugerisse que (o cristianismo) viria a ser a
religião oficial de Roma, seria expulso da sala às gargalhadas, como alguém que
sugerisse que, por volta de 2050, Hare Krishna será a religião oficial dos
Estados Unidos.” O determinismo parece razoável porque é simples acreditar que
os caminhos estão prontos, mas eles não estão. Qualquer solavanco significa
mudança de rumo. E há casos, como na economia que quando se faz uma previsão o
resultado é modificado pela própria previsão. Porém, precisamos olhar para a
descrição do historiador e acrescentar pontos fundamentais. Os dias que
vivemos, por insegurança do que virá, tem a tendência a concentrar tudo no
presente, o que se quer é gozar aqui e agora, o que significa não adiar os
prazeres, gozar logo tudo o que se quer, tudo de uma vez, tudo ao mesmo tempo.
Porém, a vida não pode ser conduzida assim, sem propósito não há sentido o futuro,
sem passado não há memória nem referências. E assim, vivendo entre o que já foi
e não é mais e o que ainda não é, mas será, o homem escolhe o que vai dar
significado a seus dias. E vivendo no tempo com história própria e em uma
sociedade que também o é, o homem vê cruzar diante de si diferentes
alternativas que o levarão para um lado ou para outro, conforme a opção que
escolher. Isso vale também para a sociedade onde ele vive, a cada momento escolhas
e acontecimentos a levarão para uma direção diferente, de modo que a totalidade da vida pessoal ou da História é
incognoscível de antemão.