Passados mais de 2 mil anos, desde os gregos até
hoje, o homem continua estupefato a comtemplar o universo: tudo está em ordem,
cada astro cumpre sua função dentro de leis estabelecidas. Ninguém se adianta,
nem se atrasa, nem age por conta própria, nem se rebela. É uma sintonia
perfeita entre os astros como os gregos contemplavam do alto da acrópole e
diante do mar Egeu. O matemático Pitágoras explicava aos cidadãos as relações do
mundo do universo e lhes dizia as razões de sua existência interpretadas à luz
da matemática.
- A matemática, lhes dizia, nos faz entender as
regularidades, inclusive nos permite antecipar acontecimentos. Sabemos que
agora é verão porque podemos calcular a menor distância da terra em relação ao
sol. Aquilo que podemos calcular também podemos conhecer. E vice-versa.
Saltemos para nosso tempo. O matemático e
astrofísico, da Universidade de Harvard, Willie Soon,
explica que a ordem cósmica sugere uma inteligência por trás daquilo que a
matemática constata. Não é uma fórmula cujo resultado é Deus, mas uma pista. Não
é uma equação insolúvel, apenas ainda não foi encontrada a incógnita. Não conseguir demonstrar a existência de Deus,
por determinado argumento, não demonstra sua inexistência; tampouco prova que a
pergunta esteja mal formulada. É filosofia e nela a formulação e a equação são
diferentes. Em filosofia continua aberta à investigação. E nem que se
conseguisse a precisão matemática, mesmo assim a interpretação metafísica não seria
logicamente demonstrada. Haveria que se considerar outras condições e suas
probabilidades.
A filosofia reflete sobre os resultados
matemáticos. A questão deve ser direcionada para o fundamento. Por que existem
leis às quais o universo está submetido? Por que e qual a realidade
racionalmente inteligível? Neste momento saímos da ciência e entramos na
filosofia. Esta antecede e pós segue à ciência. Vem antes da ciência e continua
depois dela.
Recapitulando, as conquistas filosóficas.
Pitágoras, matemático, o universo não era um caos, mas uma ordem cósmica. Platão procurou
o fundamento do conhecimento numa realidade inteligível. Aristóteles investigou
os princípios do ser e do movimento. Santo Tomás partiu do mundo sensível para
perguntar por seu fundamento último. Leibniz, pelo princípio da razão
suficiente, perguntou por que existe algo em vez de nada. Cada um, segundo seu
método, procurou alcançar uma razão que ultrapassasse a descrição dos
fenômenos.
Entretanto, a crítica de Kant exige que
reconheçamos os limites desse esforço. Não podemos tratar Deus como um objeto
submetido à observação e à medida. A passagem da ordem do universo à existência
divina precisa justificar seus pressupostos e enfrentar as objeções que
encontra. A força sugestiva de uma ideia é o começo de uma investigação.
Soon não afirma categoricamente a existência de
Deus como certa. Faz com maestria de outra forma. A matemática antecipa aspectos da realidade; essa
correspondência sugere uma inteligibilidade profunda do universo; Soon vê nela
um sinal de Deus. Para ele, é a
equação de Dirac: ele relata que a formulação matemática
apontou para uma possibilidade física posteriormente reconhecida na descoberta
do pósitron. O mesmo aconteceu com em 1916, Einstein mostrou que suas equações
da relatividade geral admitiam ondas gravitacionais: perturbações do
espaço-tempo que se propagam à velocidade da luz. Quase um século depois, em
2015, o LIGO detectou diretamente essas ondas, produzidas pela fusão de dois
buracos negros; a descoberta foi anunciada em 2016. Novamente a matemática é
capaz de apresentar uma realidade que existe na realidade. Interpretar essa
correspondência como sinal de Deus exige uma justificação filosófica adicional.
Numa entrevista no jornal argentino La Nacion,
diz Soon: “Si hay tanto orden, tanta armonía en las matemáticas que rigen el
universo, ¿no podría ser eso una señal de un Creador?”
