Na antiguidade, quando ocorreu o desenvolvimento
da agricultura, ela mudou o modo de viver dos primeiros grupos humanos,
crianças com menos leite materno e mais mingau desenvolveram um sistema
imunológico pior, e, em épocas de seca, a fome crescia e na abundância das
colheitas fartas havia risco de sague. Muitas coisas novas com que se preocupar
trouxe a revolução agrícola.
Quando a reunião de agricultores deu
origens a cidades poderosas e até reinos fortes foi necessário criar elementos
que assegurassem a reunião dessa gente. Isso se fez a partir de crenças comuns
e mitos compartilhados por todos ou por grande parte dos membros do grupo. O aparecimento
de grandes civilizações propiciou o desenvolvimento de uma legislação que
fortalecia essa ordem imaginária, ou mesmo de instituições com um ethos
próprio nos diz o historiador Yuval Harari em 21 lições para o século 21
(2018, p. 120): “é impossível organizar um exército unicamente por meio de
coerção. Pelo menos alguns dos comandantes e soldados precisam acreditar
realmente em alguma coisa: pode ser Deus, honra, pátria, coragem ou dinheiro.”
Não é possível manter um grupo unido sem uma crença comum.
O Código de Hamurabi, elaborado em 1754
a.C., foi o primeiro da História e pretendeu consolidar uma organização social.
Ele privilegiava o homem superior, ou um sistema hierárquico de classe. Nessas
sociedades a desigualdade parecia natural e alguns tinham uma vida melhor que
outros. Os criadores da pátria americana alimentaram crença diversa: o da
igualdade dos homens em função de sua filiação divina. Essa crença encontra-se
atualmente bastante ameaçada com o desenvolvimento da inteligência artificial e
com a globalização da economia.
Se pensamos nas consequências atuais da
revolução agrícola, a saber o desenvolvimento da noção de propriedade e a
efetiva posse de objetos, nós chegamos ao desenvolvimento de algo assim. Com a
propriedade afirmou Harari (id., p. 103): “surgiram rígidas sociedades
hierarquizadas, nas quais pequenas elites monopolizavam a maior parte da
riqueza e poder, geração após geração.” E foi dessa forma que a posse da terra,
de animais, plantas e ferramentas passaram a alimentar uma sociedade
crescentemente desigual, sob a aparência de ser essa a natural vontade de
Deus. E dentro dessa mesma lógica a
sociedade do século XXI pode estar caminhando para a organização mais desigual
da História. Seria isso uma evolução natural? Pelo menos podemos contrapor que
a consciência humana considerou que, de uma perspectiva axiológica, que é
desejável uma sociedade humana não tão desigual. E o que faz esse fato tão
estranho em nossos dias? O que se passou nos últimos séculos quando a
modernidade alimentou o sonho de se criar uma sociedade menos desigual? Porque
fomos criados na crença de que era possível uma sociedade mais justa?
No capítulo 4 de 21 lições para o
século 21, Harari tentou responder e começou lembrando que (id., p. 103):
“a igualdade tornou-se um ideal em quase todas as sociedades humanas.”
Poderíamos dizer mais realisticamente, esse ideal é não de igualdade, mas de
uma sociedade não tão profundamente desigual. O historiador recordou e resumiu o
pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman sobre o processo de globalização,
observando que esse fenômeno e o fim da sociedade industrial desidrataram o
estado do bem-estar social. |Isso porque o Estado e os empresários antes
precisavam de (ibidem): “milhões de trabalhadores saudáveis para operar
as linhas de produção e de milhões de soldados leais para lutar nas
trincheiras.” Precisavam, mas não precisam mais, pois com a globalização o
capital voa livre de um local para o outro e não necessita de muitos
trabalhadores, além dos drones substituírem centenas de homens nas guerras
atuais. As máquinas inteligentes, as novas matérias-primas e a pulverização da
produção garantem produzir sem grandes custos. O resultado do menor
investimento social é que (id., p. 104): “o 1% mais rico é dono da metade da
riqueza do mundo. Ainda mais alarmante, a cem pessoas mais ricas possuem juntas
mais do que as 4 bilhões mais pobres.”
E há ainda algo mais perverso nesse mundo
que se avizinha de biotecnologia avançada. Os muito ricos poderão pagar
tratamentos e procedimentos que garantam maiores habilidades físicas e
condições mentais superiores aos demais. Isso que hoje não é real, ainda que
amplamente veiculado, poderá mesmo vir a ser a realidade. Um outro aspecto
desse processo é que pode ser que em alguns lugares do mundo, a elite nacional
econômica continue a cuidar da população local, mas na maioria dos países,
inclusive nos Estados Unidos, a avaliação do historiador é que a elite
aproveite (id., p. 105): “a primeira oportunidade para desmantelar o que
restava do Estado do bem-estar social.” Nos países considerados em
desenvolvimento isso será ainda mais dramático porque o nível de pobreza é
maior.
Em resumo, a democracia e uma sociedade
menos injusta encontra-se sendo esvaziada, tal como o estudo das humanidades e
o desprestígio da intelectualidade.