Agostinho era de 350 d. C. e Anselmo de 1033. Temos, então, mil anos de diferença, mas irmãos de pensamento. E o progresso foi imenso. Agostinho, baseado em Platão, tinha concluído que pelo conhecimento da Perfeição devia existir Deus. Agostinho vislumbrou Deus na Perfeição. Anselmo conheceu Deus na Perfeição. Agostinho e Anselmo eram como os irmãos. Ambos sentiam a presença de Deus. Anselmo, porém, o conheceu.
O primeiro ficou no conhecimento, o segundo no Ser. Esta
descoberta foi tão importante que um filósofo atual, Plantinga,ainda vivo e com 94 anos, baseou
a conclusão de sua filosofia sobre a existência de Deus em Anselmo. Diz
Plantinga:
"Portanto, se a existência de Deus é mesmo apenas
possível, conclui-se que Deus necessariamente existe, e existe em cada mundo
possível."
É um argumento lógico-ontológico de Anselmo e ontológico de Plantinga.
Na filosofia de Agostinho, Anselmo desejava encontrar algo ainda mais radical. No Proslogion,
escrito por volta de 1077–1078, procura um único argumento que fosse suficiente
por si mesmo para conduzir racionalmente à existência de Deus. Surge então o
raciocínio ontológico.
Diferentemente das provas cosmológicas, que começam pelo movimento, pela
causalidade ou pela contingência do mundo. Anselmo não começa olhando para o
universo. Seu ponto de partida é o próprio conceito de Deus. Por isso seu
argumento é caracterizado como a priori: pretende avançar daquilo
que a inteligência necessariamente compreende quando pensa Deus para a
afirmação de sua existência.
Anselmo define Deus como “aquilo maior do que o qual nada
pode ser pensado”. Não se trata simplesmente de imaginar um ser
extraordinariamente poderoso ao lado de outros seres. Deus é concebido como o
ser absolutamente máximo, acima do qual nenhuma realidade superior pode sequer
ser pensada. O argumento começa, curiosamente, com o próprio indivíduo que nega
Deus, chamado por Anselmo, seguindo o salmo bíblico, de “insensato”. Mesmo
aquele que afirma que Deus não existe consegue compreender o significado da
expressão “ser do qual nada maior pode ser pensado”. Logo, ao menos enquanto conceito,
esse ser encontra-se no intelecto daquele que o pensa.
A partir
daí se desenvolve o núcleo do raciocínio. Suponhamos que esse ser exista apenas
no pensamento e não na realidade. Nesse caso seria possível pensar outro ser
possuidor das mesmas perfeições, mas que, além de existir no pensamento,
existisse também realmente. Esse segundo ser seria maior que o primeiro.
Teríamos, então, uma contradição: aquilo que foi definido como o ser acima do
qual nada maior pode ser pensado admitiria que algo maior fosse pensado.
Portanto, conclui Anselmo, o ser do qual nada maior pode ser concebido não pode
existir apenas no intelecto; deve existir também na realidade.