sexta-feira, 11 de setembro de 2026

BUSCA DE DEUS: SANTO ANSELMO - CRÊR PARA ENTENDER. Selvino Antonio Malffatti

 


Agostinho era de 350 d. C. e Anselmo de 1033. Temos, então, mil anos de diferença, mas irmãos de pensamento. E o progresso foi imenso. Agostinho, baseado em Platão, tinha concluído que pelo conhecimento da Perfeição devia existir Deus. Agostinho vislumbrou Deus na Perfeição. Anselmo conheceu Deus na Perfeição. Agostinho e Anselmo eram como os irmãos. Ambos sentiam a presença de Deus. Anselmo, porém, o conheceu.

O primeiro ficou no conhecimento, o segundo no Ser. Esta descoberta foi tão importante que um filósofo atual, Plantinga,ainda vivo e com 94 anos, baseou a conclusão de sua filosofia sobre a existência de Deus em Anselmo. Diz Plantinga:

"Portanto, se a existência de Deus é mesmo apenas possível, conclui-se que Deus necessariamente existe, e existe em cada mundo possível."

É um argumento lógico-ontológico de Anselmo e ontológico de Plantinga.

Na filosofia de Agostinho, Anselmo desejava encontrar algo ainda mais radical. No Proslogion, escrito por volta de 1077–1078, procura um único argumento que fosse suficiente por si mesmo para conduzir racionalmente à existência de Deus. Surge então o raciocínio ontológico. Diferentemente das provas cosmológicas, que começam pelo movimento, pela causalidade ou pela contingência do mundo. Anselmo não começa olhando para o universo. Seu ponto de partida é o próprio conceito de Deus. Por isso seu argumento é caracterizado como a priori: pretende avançar daquilo que a inteligência necessariamente compreende quando pensa Deus para a afirmação de sua existência.

Anselmo define Deus como aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado”. Não se trata simplesmente de imaginar um ser extraordinariamente poderoso ao lado de outros seres. Deus é concebido como o ser absolutamente máximo, acima do qual nenhuma realidade superior pode sequer ser pensada. O argumento começa, curiosamente, com o próprio indivíduo que nega Deus, chamado por Anselmo, seguindo o salmo bíblico, de “insensato”. Mesmo aquele que afirma que Deus não existe consegue compreender o significado da expressão “ser do qual nada maior pode ser pensado”. Logo, ao menos enquanto conceito, esse ser encontra-se no intelecto daquele que o pensa.

A partir daí se desenvolve o núcleo do raciocínio. Suponhamos que esse ser exista apenas no pensamento e não na realidade. Nesse caso seria possível pensar outro ser possuidor das mesmas perfeições, mas que, além de existir no pensamento, existisse também realmente. Esse segundo ser seria maior que o primeiro. Teríamos, então, uma contradição: aquilo que foi definido como o ser acima do qual nada maior pode ser pensado admitiria que algo maior fosse pensado. Portanto, conclui Anselmo, o ser do qual nada maior pode ser concebido não pode existir apenas no intelecto; deve existir também na realidade.

 "Sua originalidade encontra-se exatamente aí. Não procura Deus inicialmente fora do pensamento, no movimento do cosmos ou na cadeia das causas, mas examina o que a própria razão afirma quando concebe seriamente aquilo que chama Deus. Se Deus é verdadeiramente o ser absoluto, não pode ser pensado como um existente contingente entre outros existentes. Para Anselmo, pensar adequadamente Deus significa pensá-lo como necessário. Sua demonstração pode ser aceita ou recusada — e efetivamente foi discutida durante nove séculos —, mas colocou uma questão que a filosofia jamais conseguiu simplesmente eliminar: pode a própria ideia de um ser absolutamente perfeito conter razões suficientes para afirmar sua existência? É essa pergunta que conecta o monge medieval do século XI à lógica modal e à filosofia analítica contemporânea".


Postagens mais vistas