Não podemos residir num espaço porque precisamos de um
lugar para residir. Se estivermos no espaço então precisamos de um lugar para ser individualizados e não permanecer
num não lugar.
O antropólogo Marc Augè nasceu em Poitiers em 1935 e
viveu 87 anos. As principais obras são: O Gênio do Paganismo, uma resposta a Chateaubriand
autor do Gênio do Cristianismo e As Três Palavras que mudaram o mundo: Deus não
existe. Como antropólogo realizou pesquisas na América e África e como
antropólogo dirigiu École des Hautes Études en Sciences Sociales em Paris.
O homem é um animal que se relaciona pelos símbolos.
Estas relações se dão no espaço e tempo em lugares que concretizam o contato.
Sem contato o espaço e tempo são vazios, isto é, não lugares. Os não lugares
são espaços criados artificialmente para suprirem a necessidade de troca entre
unidades sem identidade pessoal. Há, por exemplo, mil pessoas no shopping,
trezentas pessoas no saguão, quinhentas no metrô. Nenhuma tem identidade
pessoal. É o resultado da sobremodernidade, globalização, a superação da
pós-modernidade.
A sobremodernidade tem três características. Primeiramente é uma superabundância de eventos. E tal é a explosão que os historiadores não conseguem mais assimilar e a interpretação lhes escorregam do pensamento. E em segundo lugar, a sobremoderrnidade é superabundância espacial que possibilita deslocar-se para todo lado, como marcar a onipresença de imagens de todo mundo. Isto é possível pela televisão. E uma terceira característica é a individualização das referências, ou o desejo de cada um de ser o genuíno intérprete sem necessitar de auxílio de terceiros.
Nesse sentido demonstram a necessidade de serem
reconhecidos dentro de um mundo de solidão. Pela comunicação o indivíduo
consegue individualizar-se e neste momento consegue criar um não lugar dentro
do espaço e assim sai da solidão. É o que acontece com os jovens que nas redes,
típicos não lugares, é reconhecido como outro. E aqui surge o paradoxo: o não
lugar é o espaço e tempo de cada um.
Para Augé, o bistrô é um tipo por excelência de lugar.
Nele as pessoas praticam relacionamentos autênticos e vivem com alegria. Isto
por que nossa sobremodernidade criam uma divisão de classes diferentes do que
eram nas sociedades tradicionais
Agora temos uma classe de poderosos, que se furtam às
leis nacionais; consumidores, herdeiros da extinta classe média; os excluídos,
que nem esperança lhes está ao alcance. Para tanto buscam compensação na
evasão, um furtar-se a si mesmos.
TRECHO ORIGINAL DE MARC AUGÈ:
Diferença entre simbólico e o imaginário
Há diferença sim, mas não posso fazer uma exegese de
Lacan e Levi Strauss – o que seria muito difícil, mas emprego a palavra
simbólico, no sentido empregado por LéviStrauss. É bem isto, um sistema de
relação: o primeiro é a linguagem que implica indivíduos em si mesmos. Acho que
classicamente, já se observava que a etnologia estuda as relações, portanto: o
simbólico – seu sentido. Algumas vezes, refiro-me ao “sentido” – sentido social
do fato nas quais estas relações são pensadas pelos seus termos. O imaginário é
o produto da imaginação. Pode ser coisa como os contos, imagens. A relação
imaginária às coisas é uma relação individual. Tenho uma relação imaginária com
o que imagino ou tenho uma relação imaginária com a imagem. Se vejo os
indivíduos na televisão que me contam coisas – tenho com eles uma relação imaginária
– no sentido que é uma relação que não se aplica ao outro. Pode haver outros que
estabeleçam esta relação, mas esta não se estabelece como particular. É
diferente, se vemos uma peça de teatro, que pertence ao nosso patrimônio comum,
uma tragédia grega, por exemplo, ou quando compartilhamos uma peça de música,
há uma convergência de imaginação em direção a algo comum que nos diz qualquer
coisa. Há um elo entre os que compartilham este momento. Em contrapartida,
quando este elo é rompido não há mais que uma relação individual às coisas. O
que me parece importante é a relação entre o imaginário individual e o
imaginário coletivo e entre o imaginário coletivo e o simbólico. O “imaginário”
simbólico é a relação explícita entre uns e outros e o imaginário coletivo é o
produto de uma imaginação partilhada, o mito, por exemplo. E depois o imaginário
individual – o que é de cada um que pode ser fechado naindividualidade.
Sobre Don Juan
Don Juan é um personagem, um herói pelo qual sempre tive
simpatia. Principalmente pelo Don Juan de Molière, porque ele busca as coisas,
ele refuta os valores estabelecidos. Ele tem um gesto, que não se explica nos
termos do cinismo. É amor à humanidade. Ele parece prefigurar o século XVIII.
Tudo aquilo que eu amaria crer: a liberdade do indivíduo, a solidariedade, e,
para evocar a divisa revolucionaria, a fraternidade. Fundamentalmente, uma
certa igualdade face à morte. É um personagem que me fascina por sua relação ao
tempo. Porque, bem entendido, ele é infiel, mas ele é fiel a si próprio, no
sentido de que aquilo que o atrai é o novo. De uma certa maneira, podemos
imaginar que ele experimenta, sempre, a mesma coisa – é o que ele chama o “charme
das inclinações nascentes” – quando se apaixona. É uma espécie de vacilo, de frêmito,
de sair de si próprio. Se pensarmos em termos deste começo, é um homem que nunca
renuncia. Cada vez que ele repete, ele recomeça. É a ilusão de recomeçar. Neste
sentido, ele é verdadeiramente um mito. É um mito moderno? Sim, acredito ser um
mito do indivíduo, no século XVIII. O que ele teria a ver com a
supermodernidade ou a época atual: nós poderíamos relacioná-lo ao consumidor
compulsivo, mas penso – isto me desagradaria, pois tenho simpatia por ele –
esta é uma interpretação possível. Creio que, se Don Juan de Molière vivesse
hoje, ele não tomaria as coisas seriamente. Ele seria o sacrilégio. Ele é
sempre o sacrilégio, D. Juan. Portanto, diante do culto do consumo, diante das
evidências que nos acenam ao longo do tempo, através da mídia, creio que ele não
seria este homem do consumo. Eu imaginaria o D. Juan de hoje, mas ele teria – eu
não sei o que ele faria – ele encontraria um meio de democratizar o que estamos
habituados. Ele procuraria o verdadeiro rito, o rito que pode inaugurar,
verdadeiramente, abrir as coisas. Porque D. Juan não é o homem da repetição
simplesmente. Ele não recua jamais. Ele seria um suicida, desesperado – nós o
podemos direcionar para muitas coisas, já que é um personagem de teatro. Ele
não teria medo de enfrentar o que não crê.
(http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2007/resumos/R1560-2.pdf)