sexta-feira, 29 de maio de 2026

O fascismo e sua crença. José Mauricio de Carvalho

 



O historiador Yuval Noah Harari entrou em assuntos polêmicos em 21 lições para o século 21. Por exemplo, refletindo sobre as razões de os homens manterem crenças como as religiosas, ele atribuiu o fato ao cérebro humano fazer arranjos estranhos, que mais se parecem a dissonância cognitiva. Por exemplo, comentando a conduta dos conservadores americanos filiados ao partido Republicano, armamentista e contrário a políticas sociais, ele observou a mais completa incoerência com os ensinamentos de Jesus de Nazaré. Ele mostrou que, ao contrário do que esses conservadores cristãos, a mensagem de Jesus foi noutra direção (id., p. 337): “Jesus não foi mais incisivo quanto a ajudar os pobres do que quanto a armar você até os dentes.” Os ensinamentos de Jesus foram exatamente o contrário do que praticam aqueles grupos. A mesma incoerência, ele avaliou, aparece no muçulmano que quer vingar o companheiro fé morto em conflito quando ensina que, morrendo nessa luta, ele vai direto para o Paraíso. Não faz sentido, ele ridiculariza a conduta de terroristas que querem vingar um irmão de fé que foi levado ao Paraíso justo por esse motivo. Por que alguém vingaria alguém querido porque ele foi conduzido ao Paraíso? O cérebro humano permite as incoerências construindo mais de uma identidade, melhor seria dizer, vivendo papéis diferentes na vida ou em momentos dela. A pregação de fé nada tem a ver com a prática terrorista que alimentam. Temos aqui uma crítica muito dura à forma como vivem as pessoas de fé.

Se a crítica à religião parece limitada por sua visão simplificadora como comentaremos a seguir, a sua crítica ao fascismo parece bem exata. Para não deixar o termo vago e com definição superficial, ele explicou o que denomina fascismo. Trata-se da absolutização de uma narrativa ruim. O fascismo corrompeu o nacionalismo porque não considera o amor e respeito à sua nação como um valor entre outros. Um governo fascista diz que (id., p. 358): “minha nação é suprema e devo a ela obrigações exclusivas.” E isso leva seus seguidores a fazer absurdos (ibidem): “se minha nação exigir que eu mate milhões de pessoas – devo matar milhões de pessoas.” E ainda tão mal quanto isso (ibidem): “se minha nação exigir que eu traia a verdade e a beleza – devo trair a verdade e a beleza.” O que importa é servir à nação, o resto não tem relevância. Uma tal crença prospera em momentos de crise social porque, como ele observou (id., p. 359): “simplifica muito os dilemas difíceis e também porque faz as pessoas pensarem que pertencem à coisa mais importante e mais bela do mundo – a sua nação.”

Como observamos quando se aplica esse raciocínio às religiões comete-se equívocos. O grande problema por trás de crenças, ele avaliou, é sua absolutização. E há uma crença que lhe parece ruim por excelência, a crença em algo absoluto, pois ela vai produzir algum problema. Ele afirmou que a crença absoluta tem muitos objetos possíveis, mas todas causam as mesmas dificuldades (id., p. 371): “a essência eterna às vezes é chamada de Deus, às vezes de nação, às vezes de alma, às vezes de eu autêntico e às vezes de amor verdadeiro.” Para contraditar esse pensamento ele recordou Buda e defendeu que as pessoas não precisam de um sentido e que tudo passa e nada permanece.

Quando mencionamos acima que essa estimativa da religião é superficial foi porque Harari comparou práticas antigas a formas atuais de lidar com o sagrado. E mais, ele desconsiderou o papel da religião na vida cultural de uma sociedade, e igualmente desconheceu o florescimento pessoal que ela propicia a seus seguidores, nem considerou como ela contribui para o desenvolvimento humano. Pior ainda é quando ele atribui à religião a maldade das pessoas (HARARI, 2018, p. 173): “outras tradições religiosas enchem o mundo de muita feiura e fazem as pessoas serem más e cruéis.” O que torna alguém ruim é o fanatismo na ignorância, não a prática de uma religião com o propósito de se aproximar de Deus e cujas práticas não se afastam da excelência moral.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

MAGNIFICA HUMANITAS. Selvino Antonio Malfatti.

 


Inteligência humana e inteligência artificial, como se distinguem uma da outra? A humana é criativa e a artificial é generativa. Como criativa a inteligência humana é capaz de gerar, isto é, dar à luz a um novo ser a partir de algo, mas essencialmente outro. A inteligência artificial deduz a partir de algo anterior. Não é novo, mas diferente.

Na biologia, por exemplo, o criado na inteligência humana é um ser novo. No sistema computacional o resultado é a geração de dados decorrentes de programas postos pela inteligência humana e equacionados pela inteligência artificial. A inteligência humana é capaz de resolver problemas como auxílio da inteligência artificial. O mesmo se dá na biologia: o natural é o substrato gerado pelo auxílio do meio artificial, como sistemas e máquinas.

Com efeito, na biologia temos uma novidade de fato. Acontece a autogeração, metabolismo, crescimento de dentro, reprodução vital. Filosoficamente há um novo orgânico e teleológico. Já a inteligência artificial o conhecimento corresponde a processamento de dados e resultados a partir de modelos pré-construídos. Por isso, na biologia o organismo natural desenvolve-se no meio e na inteligência artificial compreende resultados pelos comandos pré-inseridos.

Os conteúdos diferenciais sinteticamente podem ser definidos como:

INTELIGÊNCIA HUMANA               INTELIGENCIA ARTIFICIAL


  • compreende sentido;
  • interpreta;
  • possui consciência de si;
  • cria finalidades;
  • age moralmente;
  • pode transcender o próprio programa biológico. A IA:
  • calcula;
  • correlaciona;
  • prediz;
  • reorganiza dados;
  • mas não “sabe” que sabe.


A inteligência humana tem consciência, moralidade e abertura ao transcendente. A Inteligência artificial permanece uma inteligência derivada e instrumental.

O novo papa, Leão XIV, inova na doutrina ao publicar a primeira encíclica “Magnifica Humanitas”, 25 de maio de 2026, na qual discorre sobre a Inteligência Artificial. A interpretação é atribuída a diversos pensadores da Igreja. Cada um deles emitirá um parecer, dentro de sua especialidade e abrangendo os diversos campos: teologia, ética social católica, diplomacia vaticana e pesquisa tecnológica. A seguir, uma síntese provável e coerente do pensamento de cada um deles sobre IA, a partir de suas obras, posições públicas e áreas de atuação.

1.      Christopher Olah

Estuda a “interpretabilidade” das redes neurais, isto é, pela tentativa de compreender como os sistemas de IA “pensam” internamente.

2.      Léocadie Lushombo

Trabalha com ética teológica, justiça social, colonialidade, pobreza e pensamento social católico. Sua leitura da IA tende a ser profundamente humanista e social.

3.      Cardeal Víctor Manuel Fernandez

Possui a responsabilidade pela ortodoxia doutrinal da Igreja, provavelmente abordará a IA sobretudo em perspectiva antropológica e espiritual.

4.      Cardeal Michael Czerny

Atuação ligada: migrantes, pobreza, justiça social, ecologia integral e exclusão econômica.

5.      Anna Rowlands

Conhecida por articular teologia política, democracia, participação social e ética comunitária.

6.      Cardeal Pietro Parolin

Diplomata principal do Vaticano, provavelmente fará uma síntese geopolítica e ética.

O que defenderão em comum?

Com certeza um núcleo comum os juntará. Este terá como componentes: a inteligência artificial - subordinada à dignidade da pessoa humana - consciência moral, liberdade e a responsabilidade ética do ser humano. Conforme sua formação e função, cada um acentuará aspectos distintos. Todos defenderão a ideia do controle da Inteligência Artificial pelos condutores que se submeterão à ética da dignidade, liberdade e autonomia da pessoa humana. Em síntese a Inteligência Humana manterá o controle da Inteligência Artificial.

 

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