sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Mudanças Político-sociais. Selvino Antonio Malfatti




Há duas formas de se promover as mudanças político sociais: separar o joio do trigo ou lavrar joio e trigo juntos. No primeiro caso se vai buscar o que está  errado, o que é obsoleto, o que não funciona. É a reestruturação. No segundo caso, se faz terra rasa e depois se promove tudo novo. É a desestruturação.
Na Antiguidade, pode-se dizer que os primeiros a proporem a restruturação foram Platão e Aristóteles, ao estabelecerem como norte para a política a PRUDÊNCIA.  Era preciso cautela, verificar somente o que fosse um estorvo, removê-lo e manter o que estivesse bem.
Já na Idade Média, temos Santo Agostinho e Santo Tomás, que  pregaram  o bom senso, o meio termo, o costume, a lei natural. Aqui também se agia com cautela, prudência para não cometer injustiças ou deixar a sociedade perdida.
continuando a evolução histórica, na transição do antigo regime medieval para o novo, moderno, confrontam-se  os dois modelos encarnados na revolução britânica e na revolução francesa. A primeira extirpou o que já não correspondia aos novos tempos da idade moderna. No entanto, aproveitou o que havia de bom.  A monarquia foi mantida, mas dotada do sistema representativo, os novos capitalistas foram incorporados à representação e introduziu-se o voto, em quer pese, ainda censitário, e a religião também mereceu reformas, mas mantida.
A França também faz sua revolução,  mas abole tudo para erigir um edifício novo. O rei primeiramente despojado de seus poderes, depois decapitado, Os estados gerais abolidos. Os parlamentos fechados, os conselhos destituídos, a religião laicizada. O poder foi entregue aos representantes, os quais, populisticamente, aliaram-se ao povo e instauraram um democratismo, uma democracia totalitária.
Três aspectos foram introduzidos que acabaram de pôr por terra todas as tradições francesas: o sistema eleitoral, a divisão do poder e a publicidade dos atos governamentais. O sistema eleitoral privilegiava o número, na divisão do poder o executivo e o judiciário ficaram submetidos à Assembleia a qual vai anulando uma a uma as tradições do reino. Na divisão do poder, submeteram todos à Assembleia e a publicidade dos Atos governamentais tinha ou um controle interno, “a se”, ou o povo era chamado à toda hora para externar sua vontade, c omo aconteceu com os líderes Marat e Robespierre. A consequência: tudo ruiu. O povo não sabia mais a quem obedecer.
 É neste contexto que surge o livro de Edmund Burke – Reflexões sobre a Revolução em França - denunciando as arbitrariedades cometidas pelos revolucionários franceses ou libertários.
Poderão dizer alguns que no fundo é uma crítica conservadora à revolução francesa. Com certeza. Mas, analogicamente, veja-se o que acontece com a ciência. Nesta nada se cria do nada, ao contrário se “descobre” o que já existe. Aquilo que não corresponde com isso, é afastado. Então, faz-se uma nova reestruturação do conhecimento.
Pode-se dizer que foi Burke que primeiro teorizou o modelo de reestruturação, no sentido de que estabeleceu como critério da mudança, uma REFLEXÃO sobre a realidade fazendo a devida crítica. É um modo de pensar, digamos prudente, que posteriormente foi seguido por vários outros,  como Tocqueville. Atualmente, um dos mais destacados é Russell Kirk. Como age a política da reestruturação  ou conservadorismo?
1º As instituições político-sociais não são somente uma preferência, ou objeto da preferência própria, mas o preferível, o desejável, o objeto de uma antecipação da direção normativa da ação humana.
2º Não é um mero ideal que se possa prescindir, mas o guia das próprias escolhas apresentadas a cada um individualmente e à sociedade como um todo. É o próprio critério de juízo.

3º É uma possibilidade de escolhas, uma disciplina racional antecipada das preferências podendo acolher umas e eliminar outras. É uma autêntica possibilidade do exercício do livre arbítrio, acreditando na universalidade e permanência dos valores.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Pensar um caminho para o Brasil. José Mauricio de Carvalho


















Pensar a própria realidade é básico para traçar metas existenciais razoáveis. Por esse motivo muitas escolas psicoterápicas trabalham com o autoconhecimento como estratégia para a construção do sentido da vida. Sem esse conhecimento, o propósito de fazer o futuro torna-se um projeto alheio, distante do indivíduo e dificilmente capaz de levar à felicidade. Esta parece ser também a realidade de um povo, a julgar pelo que escrevem Gilberto Freire em Casa Grande e Senzala e Darcy Ribeiro em O Povo Brasileiro.
Ambas as obras, clássicos da antropologia brasileira, são fundamentais como referências na construção de um auto retrato. Ambas são muito estudadas, criticadas, debatidas. E é bom que seja mesmo assim, pois pensar sobre si é um exercício dialético e que precisa ser constantemente refeito.
Quando consideramos a extensa obra de Darcy Ribeiro acima mencionada alguns aspectos chamam atenção. Há questões fundamentais embora possamos discordar da forma como foram tratadas.
Logo de início um desses pontos fundamentais. A referência ao nome Brasil como sendo anterior à descoberta. Falta incrementar o que Darcy ali escreve, a experiência da descoberta e o encontro com belos nativos que viviam num lugar de matas exuberantes e cheias de vida enchem o imaginário lusitano com a ideia de um paraíso, podendo-se imaginar o que um europeu daqueles dias podia entender da descrição teológica do jardim do Éden. Muitos dos problemas e dificuldades que o próprio Darcy indica no livro ficariam mais claros se considerássemos a distância entre os sonhos experimentados na descoberta e a dura realidade de viver um território nos trópicos. Território que estava longe de ser um paraíso, a mata atlântica limitava-se ao litoral, o calor era altíssimo, as tempestades tropicais difíceis de conviver, o interior era formado pelo sertão semi-árido em grandes extensões.
A tentativa de aculturação do indígena e a escravidão negra foram momentos tristes da história brasileira, mas tanto a empresa escravista como a empresa comunitária dos jesuítas com os índios, acabaram aproximando grupos étnicos diferentes e promovendo intensa mestiçagem. Essa mestiçagem não conseguiu superar o preconceito social, mas reduziu muito a intolerância racial, de modo que não vemos episódios como o do fuzilamento recente dos negros numa igreja americana por um jovem branco, nem o assassinato cruel de dois jornalistas brancos por um negro nos Estados Unidos.
Por outro lado, ao destinar ao negro a tarefa de trabalhar sem a chance de enriquecer a existência da escravidão dificultou a incorporação do sistema liberal capitalista, que necessita do trabalho contínuo, árduo e planejado como estratégia de enriquecimento. Os sonhos de enriquecimento vêm, neste contexto, com a herança ou com a sorte nas loterias, quando não da propina que enriquece maus funcionários públicos, maus políticos e maus empresários, todos igualmente culpados do desvio de dinheiro nesta Terra de Santa Cruz.
A dificuldade de ascensão social, a pouca sensibilidade das elites para com as parcelas mais pobres da população, a enorme distância econômica entre ricos e pobres (perversa concentração de renda), a arcaica estrutura  dos latifúndios improdutivos, são problemas que decorrem desta história singular. Alguns problemas são mais agudos numa região do país (o latifúndio não é tão comum no sul), mas muitos deles estão em toda a parte como a distância entre os mais ricos e pobres na nossa arcaica estrutura sócio-cultural.
Interessante o esforço de Darcy Ribeiro de caracterizar as diferentes áreas do Brasil e mostrar suas diferenças: o Brasil crioulo (que nasce do engenho açucareiro), o caboclo (da região amazônica), o sertanejo (da ocupação agropastoril do interior do nordeste), o caipira (formado pelas economias mineradora e do café) e o sulino (como predomínio da população branca europeia), são áreas muito distintas.
O final do livro é uma apologia à felicidade, de Aristóteles a Ortega y Gasset os filósofos dizem que o homem aspira ser feliz, e sobretudo de esperança na superação desses problemas e na reinvenção de um país novo e melhor.
Precisamos mesmo da esperança e da confiança de nossos antropólogos Darcy Ribeiro e Gilberto Freyre, pois esperança e confiança são  alimentos que nutrem nossa jornada para o futuro.



sexta-feira, 4 de setembro de 2015

IGUALDADE OU A ELIMINAÇÃO DA POBREZA? Selvino Antonio Malfatti





Chegar ao patamar da igualdade não significa a eliminação da pobreza. Podemos ser iguais e ao mesmo tempo todos pobres. Nem eliminar a pobreza quer dizer chegar à igualdade. Pode uma sociedade livrar-se da pobreza sem tornar-se igualitária.

Com certeza devemos nos preocupar com a desigualdade, mas antes de tudo devemos nos preocupar om nós mesmos. O verdadeiro nó da questão é a pobreza. E ai de nós se não enxergarmos isso!

Quem nos mostra este caminho é o filósofo Harry G. Frankfurt, professor de filosofia da universidade de Princeton, em seu livro “On Iniquality”. Ele nos orienta a concentrar-se mais sobre a eliminação do pobreza do que a redução da desigualdade entre ricos e pobres. Por quê? Porque a pobreza é uma condição dolorosa, que causa danos ao ser humano, enquanto a desigualdade por si só é inócua. A situação de subalterno pode ser suficientemente boa para garantir uma vida satisfeita. Alguém pode não ter uma renda de executivo, mas se sente satisfeito com salário de professor universitário. É melhor conseguir uma posição social economicamente satisfatória do que ser ou sentir-se igual e insatisfeito. Pouco importa que outros ocupem posições superiores se individualmente houver satisfação.

Há diversos tipos de desigualdades. Países nos quais quase todos são pobres porque os recursos são escassos. Estes recursos podem ser naturais, como meio geográfico ou culturais, como atraso científico e tecnológico. Pode ainda haver recursos que beneficiam somente uma pequena parcela da população, como sói acontecer nos países produtores de petróleo, ou mesmo recursos ilícitos como no narcotráfico. Nesses há significativa desigualdade entre uma mínima minoria e a grande maioria. A pobreza é predominante. A distribuição da riqueza não existe de modo que a pobreza é praticamente igualitária, pois quase todos são pobres, todos incapazes de produzirem e todos insatisfeitos. A desigualdade implica que haja uns com mais, outros com menos. A pobreza é um estado de subumanidade. 

Pode haver uma minoria pobre ou rica enquanto a maioria está em situação satisfatória. O objetivo então é concentrar-se sobre esta minoria pobre e trazê-la para o patamar de satisfação. (And... the last of the list!)

No entanto, há ideologias – como do socialismo - que teimam na igualdade desprezando a questão da pobreza. Talvez porque a perspectiva mostre enganosamente que é mais fácil se atingir a igualdade e automaticamente se eliminaria a pobreza. No entanto, como dissemos, é uma miragem porque a igualdade não dá nenhuma garantia de eliminação da pobreza.

No liberalismo clássico se vê a desigualdade como positiva, pois ela estimularia os esforços no sentido de aplainar as diferenças socioeconômicas. A ambição – vício individual – pode se tornar um agente de mudanças ao estimular os indivíduos para o progresso – virtude pública. Por isso, há racionalidade no pensar liberal, enquanto que a concepção socialista racionalmente é utópica, à medida que quer atingir um objetivo através de um meio que não dá garantias. O liberalismo também quer a igualdade como objetivo ideal e não através da plaina. O objetivo é a igualdade como ideal e a meta imediata é a pobreza. Se a igualdade vier, tanto melhor, mas se não vier, paciência. 

Garantir que todos tenham o suficiente para viver sem se preocupar se tem mais ou menos que os demais é uma orientação político-ideológica que não está assentada no liberalismo clássico, e muito menos num liberalismo também clássico. Poderíamos defini-lo um liberalismo mitigado: mantém a liberdade econômica de mercado e ao mesmo tempo aciona o Estado para corrigir as distorções que este mercado pode provocar. O modelo estaria próximo do Estado de Bem Estar Social de John Maynard Keynes.

Mas quem conseguiu atualmente conciliar melhor a desigualdade com eliminação da pobreza?
Parece que é a Escandinávia. Ali existe fraca desigualdade e praticamente pobreza nula.



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O aparato do Estado corrigindo os caminhos da burocracia. José Mauricio de Carvalho - Professor do IPTN Tancredo Neves





Este triste momento da história pátria é a marca de nosso tempo, tempo de corrupção e de crise econômica. Ele tem altos funcionários da República e políticos envolvidos em atos de corrupção de grandes proporções. Todos os dias os meios de comunicação mostram novas fases da operação lava jato, que assustam o cidadão comum. Felizmente igualmente mostram o aparelho do Estado punindo aqueles que se afastaram dos procedimentos esperados dos seus funcionários. Esta realidade do Estado Moderno de que nos falava Max Weber nos seus Ensaios de Sociologia (Rio de Janeiro: Guanabara, 1981) é muito curiosa, ela mostra como o funcionário de carreira cria um interesse por colegas e pela carreira, que, às vezes para o mal se desvia no corporativismo, mas geralmente promove as correções necessárias nos órgãos públicos. Por isso, a sociedade moderna percebe que não pode prescindir de uma boa máquina administrativa: necessita de bons policiais, professores, médicos, juízes, fiscais, administradores públicos e um aparato de suporte para o trabalho deles. De gente boa e comprometida com seu trabalho, embora a experiência mostre que todos precisam permanecer sob a vigilância de chefias que se controlam.
Além de sabermos que o homem é suscetível de corrupção e que ela aparece em todos os lugares e tempos da história humana, parece fundamental, para seu atual enfrentamento, além da excelência na profissionalização do setor público, o desenvolvimento do sistema econômico e educacional para reduzir a diferença social. Esse fato consolidará a substituição do privilégio pela competência, tanto na seleção para o serviço público, como nas atividades econômicas em geral. A valorização da competência e a formação cidadã comprometem os membros da sociedade com o funcionamento e seu futuro. Estamos aprendendo, com vergonha e dor, que esse é um caminho que precisaremos trilhar. E a mudança começa necessariamente pelo esforço de cada um para bem cumprir suas tarefas e respeitar as regras sociais, mas inclui a substituição da mentalidade patrimonial por uma forma legal de administrar a coisa pública. O problema, como venho insistindo transcende os Partidos e atuais dirigentes, embora quem errou deva ser punido conforme a lei. Simples assim.
Uma forma de administração patrimonial é, como ensina Weber, resultante de formas de dominação tradicional como ocorria nos antigos califados que ocuparam a Península Ibérica durante boa parte da Idade Média. A história mostra que Portugal e Espanha tiveram que incorporar práticas patrimoniais para enfrentar exércitos poderosos do Califa cuja vida e morte dos soldados estavam nas mãos dos Senhores. Se foram eficientes no enfrentamento do invasor, a sobrevivência do modelo prejudicou o desenvolvimento da mentalidade moderna na formatação desses Estados, modelo que se transferiu para as colônias. E como é a administração patrimonial? Ela é arbitrária (não há um sistema de leis impessoais), o administrador não se submete a regras de controle de sua autoridade, disso resultando ausência de supervisão do trabalho dos dirigentes. A forma de acesso aos cargos é por amizade ou parentesco com os dirigentes e os demais contratados são empregados pessoais dos dirigentes (no Brasil de hoje companheiros de Partido), os assuntos públicos são tratados em encontros pessoais e resolvidos diretamente, sem documentos oficiais. Enfim, é uma forma de administrar que não combina com o Estado Moderno, mas pode sobreviver dentro dele, como parece ocorrer entre nós.
No nosso caso, infelizmente, o patrimonialismo somou-se à sobrevivência da moral contrarreformista, com sua implicância com a riqueza e o enriquecimento pessoal e o desastre do idealismo jurídico como está em Caminhos de moral moderna, a experiência luso-brasileira (Belo Horizonte: Itatiaia, 1995).
Assim, apesar da tradição patrimonial e a falta de formação cidadã, se a polícia e justiça atuarem agora como parte de uma administração legal, como prevalece nos Estados Modernos, diminuirá consideravelmente os efeitos da corrupção. Fica o restante e maior desafio para a formação moral dos cidadãos e sua preparação para viver na República. Para isso será necessário organizar a escola, melhorar as relações familiares e sociais de modo geral. Também será ótimo se as Igrejas ensinarem que a vida mais próxima de Deus implica em solidarizar-se com o destino dos outros homens, começando pelos mais próximos que habitam nosso país.
De alguma forma a existência do homem passa pelo bem viver, por encontrar uma razão para a vida num mundo em crise pela desconfiança das utopias e do progresso automático. Estamos mergulhados na falta de crenças de que falava Ortega y Gasset para explicar os momentos de crise e não superamos a era da massas que ele descreve em A rebelião das massas. Enfim, vivemos num mundo que precisa descobrir novas razões para bem viver e num país que precisa encontrar rapidamente os caminhos da racionalidade administrativa, da superação do patrimonialismo e da formação cidadã.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A PROBLEMÁTICA DOS PERÍODOS CULTURAIS NA ATUALIDADE. Selvino Antonio Malfatti.





A civilização Ocidental sempre teve momentos ou períodos que marcaram determinadas épocas. Estes períodos possuem um conjunto de características que individualiza a época tornando-a distinta da outra, isto é, sui generis. É por assim dizer, uma metamorfose cultural, em oposição à metamorfose do poeta Ovídio do período da cultura romana. Ele mesmo já identificava eras culturais como a idade do ouro, idade da prata, idade do bronze e idade do ferro. A denominação atual tem outros nomes como: a época de Péricles de Atenas, o helenismo, período romano, o cristianismo medieval, o renascimento, o modernidade, o romantismo (belle époque), o moderno e o pós-moderno.  Agora já ingressamos em outra época cultural: o pós-pós-moderno.
Cada período tem um centro, uma ideia-mãe, um eixo que imanta as demais dimensões.  Por isso, nestes períodos, praticamente todos os aspectos são influenciados. Se analisarmos o período romântico, constatamos que a literatura, a pintura, escultura, a política e até mesmo a religião são românticos. Vejamos, por exemplo, alguns aspectos do período. François René de Chateaubriand escreveu “Le Génie du Christianisme”, obra de cunho romântico para defender a religião católica contra os ataques dos revolucionários franceses. Os revolucionários franceses, por sua vez, embasaram suas ideias em princípios românticos, como igualdade, fraternidade e liberdade. Os cientistas sociais enfatizavam a situação miserável dos pobres e a saída apontada era a distribuição dos bens retirados dos mais abastados.
A passagem de uma época cultural para outra se dá imperceptivelmente. O novo período não se desmembra do outro, apenas toma outra forma tornando-o distinto em relação ao anterior. É como a metamorfose de determinados insetos e mesmo a mutação das espécies.
A transição do pós-moderno para outra fase cultural,  ainda não recebeu denominação definitiva, sendo apenas designado por pós-pós-moderno. Como poderíamos descrever o novo período ? O que constatamos? Velocidade na comunicação, globalização das informações, robótica na produção de bens, era digital,conquista espacial, produção geneticamente modificada, valores (monetários) virtuais, valores (axiológicos) materiais, religião de extremos (radicalismos de uns e ceticismo de outros) são alguns dos componentes do pós-pós-modernismo.
Os períodos culturais são sempre menos duradouros, mais rápidos, podendo emendar algumas gerações. Quando teria iniciado o pós-pós- moderno? Os sociólogos pensam que o pós moderno tenha iniciado em 1979 e seu término ocorrera em 2004, dando início então o pós-pós-moderno. Atualmente, por exemplo, já convivem no mínimo três gerações culturais: a moderna, a pós- moderna e agora a pós-pós- moderna. Diz Daniela Coli, no jornal italiano Corriere della sera (10/0/2015), descrevendo o suceder de momentos culturais:

Nel 1979 Lyotard teorizza la fine dei grandi racconti come l’illuminismo, l’idealismo e il marxismo, perché né il progresso scientifico e tecnico, come prevedeva l’illuminismo, né la progressiva spiritualizzazione dell’uomo immaginata da Hegel, hanno prodotto una nuova umanità, come dimostra p.e. l’Olocausto. Né c’è riuscito il marxismo, un mix di illuminismo e hegelismo rovesciato, che ha prodotto una delle rivoluzioni più sanguinarie della storia e un regime più tirannico di quello degli zar. Per Rorty Dio è morto e i filosofi lo hanno rimpiazzato con romanzi metafisici spacciati per veri e razionali. Un critico della modernità come Strauss, non riteneva però riducibile la filosofia moderna alle metanarrazioni settecentesche e ottocentesche. “ Condorcet e perfino Comte – scrisse a Löwith il 15 agosto 1946 – non volevano rimpiazzare la cristianità: essi volevano sostituire il nonsense con un ordine intellegibile. Ma questo lo volevano anche Descartes e Hobbes. Soltanto quando la querelle fu in sostanza risolta, vi fu introdotta la religione e la cristianità, e questa successiva interpretazione del movimento moderno dominò l’ingenuo e insopportabilmente sentimentale secolo decimonono”.

No entanto, nem todos concordam como é o caso de Carlo Bordoni, no mesmo jornal de 2 de agosto, dizendo que o pós-moderno pode não estar morto, apenas apenas moribundo.

Não admira, portanto, que haja tantas incertezas no mundo atual. As pessoas se sentem perdidas culturalmente. Os referenciais já não são os mesmos para todas as pessoas da mesma sociedade. As novas gerações assimilam rapidamente os avanços culturais e as mais antigas vão ficando para trás. Crianças operam com desenvoltura computadores de última geração enquanto há idosos que nem conseguem sacar dinheiro em caixas de auto-atendimento. 


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Considerações sobre os pais. José Mauricio de Carvalho




O domingo que passou, devido à comemoração do dia dos pais, assistiu se multiplicarem nas redes sociais os cumprimentos aos pais. Também se viu agradecimentos tímidos, lembranças saudosas, mas quase nada sobre o sentido e valor da paternidade. E, em meio às mensagens e às mudanças nas famílias de hoje, terminei o dia pensando na importância do pai enquanto referência de afeto, segurança, dos valores morais e da esperança. Pouca novidade, Freud já associara a formação da estrutura moral à educação paterna. Por outro lado, Freud insistiu pouco na importância que tem as referências paternas na construção da vida singular, que é o modo próprio da vida humana.
O homem, apesar da racionalidade, é um animal. Como tal precisa aprender a viver com seus instintos e a realizar seus desejos como é possível numa sociedade civilizada. Neste sentido, a presença do pai junto aos filhos, especialmente enquanto ainda são pequenos, é referência imprescindível de orientação existencial. Ainda quando os filhos se rebelam, e frequentemente o fazem para experimentar trajetória própria, é o pai que eles têm em vista. E é este pai que eles aprenderão a imitar e respeitar à medida que seguem sua própria via existencial, mesmo quando seguem por caminho diferente. Mesmo envolvido na difícil tarefa de levar adiante a existência singular, mesmo criando cada geração seu estilo de viver, é o pai que cada um terá como referência quando a vida trouxer as crises. É a lembrança paterna, sobretudo da infância, o espaço onde cada qual encontra os elementos para seguir adiante e fazer diferente do pai, mas como o pai. E quanto mais velhos ficamos, mais reconhecemos o valor e o significado desta presença.
Quando o pai consegue ser presença de afeto e segurança, o que ele ensina não simplesmente reproduz os valores sociais, mas é orientação segura para vida, baliza do que é bom e do que não é. Neste nosso tempo de violência, irresponsabilidade e gozo ansioso, quanta gente pode dizer que teve um pai como referência? Quantos jovens que hoje enchem as casas de correções, quando destes que já não cabem em nossas cadeias estariam lá se tivessem tido, ao seu lado, principalmente na infância, um pai. Não importa a classe social, nem é preciso ser perfeito, mas é necessário ser alguém que ama e orienta. Quantos desses jovens perdidos não o seriam se tivessem tido um pai. Apenas um pai que eles também pudessem amar e de quem não se envergonhassem.
Ninguém pode deixar de cuidar da própria vida, de fazer diariamente suas escolhas. E não há como subtrair-se à responsabilidade pessoal nas escolhas do dia a dia, no campo pessoal ou profissional, no universo político ou religioso. A vida de cada um é essencialmente sua edificação, mas na hora de escolher, o que o pai ensinou ou deixou de fazê-lo, mostrará seu peso.
O que foi dito acima mostra que cada pessoa é responsável pelo rumo que der a seus dias. Em última instância é o indivíduo mesmo o grande agente de sua vida. No entanto, o que este dia dos pais sugere é que criar com trabalho e amor deixa a marca da presença paterna na vida singular. E não estamos falando ao longo deste texto do pai biológico, mas do que é presença. Não somos o primeiro homem, dizia Ortega y Gasset para explicar que aprendemos uma língua, ciência, costumes e crenças que já existem. Se tudo isso estará presente em nossas escolhas futuras como ele diz, também aprendemos a coragem, a perseverança, a experiência do amor e os valores na condução da vida pela convivência com o pai.
O dia dos pais passou, que ele possa, além dos cumprimentos da ocasião, ser oportunidade de reflexão sobre o compromisso de ser pai. Que ele aumente a consciência da responsabilidade com os filhos e com o futuro dos homens e do país. Se não formos melhores pais, não contribuiremos muito com o futuro da humanidade. Pois sem limitar os instintos, superar o egoísmo primitivo, não é possível a aceitação do outro, o reconhecimento de sua liberdade. Não se aprende a amar e a ir adiante das situações sem superar as limitações do egoísmo infantil.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

DIA DOS PAIS. Selvino Antonio Malfatti




















Em várias partes do mundo há um dia consagrado aos pais. A data não é unânime em todo mundo. Portugal celebra em 19 de março (Dia de São José – pai adotivo de Jesus), nos Estados Unidos, Inglaterra e numerosos países a celebram em junho pois foi este mês que foi celebrado pela primeira vez nos Estados Unidos em homenagem a um pai na data de seu nascimento.
A data comemorativa tem dois suportes valorativos: um, lembra a figura paterna no seio da família de concepção religiosa -geralmente cristã - e outra presta uma homenagem aos antepassados (grandfather ). No caso de família com sentido religioso, atualmente não é mais totalmente confessional, mas cultural. Da mesma forma, a ideia de "homenagem aos antepassados" também é cultural. No caso brasileiro, a data de agosto foi uma homenagem a São Joaquim, sacerdote na religião judaica. Ele era pai de Maria e avô de Jesus, pela religião cristã, cuja festa é celebrada em agosto. Por isso, poder-se-ia dizer hipoteticamente que a data obedeceu a critérios bi-confessionais: judaísmo e cristianismo.
A fundamentação cultural judaico-cristã evoca a figura paterna do próprio Deus, considerado um Pai. Na verdade o que se quer é apresentar um modelo axiológico no qual todos os pais pudessem se espelhar, como próprio Deus–Pai seria.  Quais as qualidades destacadas:
1.       Presença. O significado não quer dizer apenas uma presença física (embora seja também), mas viver junto com a família. Lembra acompanhar, participar, compartilhar, transmitir confiança e segurança. Evidentemente que isto pode ser mais espiritual que físico. Embora seja difícil e até mesmo extenuante após um dia de duro trabalho é preciso conversar. Se o ambiente estiver pesado, comece com uma observação de humor. A partir da primeira resposta o diálogo fluirá naturalmente.
2.       Afeição. Um pai presente desperta na família uma afeto mútuo entre os membros. O respeito à dignidade de cada um irá refletir-se em cadeia entre si. O pedir licença, desculpar-se, ser exemplo, fará com que os demais membros, principalmente as crianças, façam o mesmo. A interação afetiva proporcionada pelo pai começa ser a regra geral dentro da família. Ser modelo de bom pai, homem íntegro, cidadão exemplar. Suas ações são mais poderosas que suas palavras.
3.       Autoridade. Não é a o mesmo que poder. A autoridade tem legitimidade, o poder a força. O pai exerce na família uma autoridade legítima, isto é, obtém o consentimento dos demais devido a concordância na justiça de suas exigências, pois ele  mesmo se submete a elas.
4.       Limitação. Com afeição e autoridade, estabelecer limites que se desdobram desde o físico, entrando pelo econômico, lazer, moral, sexo e mesmo espiritual. O mundo não é uma galáxia infinda dando a qualquer a ser desfrutá-lo ao seu bel prazer. Ao contrário, é um Éden a ser preservado.
5.       Promessa. A promessa aponta para uma meta, um ideal a ser alcançado. Acenar e prometer devem ficar também dentro de suas próprias limitações. Despertar expectativas e não realizá-las causam muitos prejuízos psicológicos mais do que se nunca tivessem sido vislumbradas. O prometer e o cumprir devem andar de mãos dadas. Só assim é pai pode se apresentar como promessa de que agindo assim alcançarás o prometido.
6.        Religião. Como na maior parte das vezes o conceito de pai está associado ao culturalismo judaico-cristão, mas não necessariamente, perguntamo-nos o que é ser um pai neste contexto?  Deixemos responder um pai cristão. Trata-se do professor e filósofo português  Eduardo Abranches do Soveral. Um pai cristão que assim publicamente se declara, conforme ele, deve ter sempre presente:
a)      A Dignidade da pessoa humana. Cada homem é uma pessoa e não um indivíduo. Possui uma dignidade conferida pelo próprio criador e uma natureza assumida pela própria divindade. 
b)      A fraternidade dos homens. Os homens são irmãos por serem filhos do mesmo Pai, que é Deus. Esta fraternidade é a origem de sua liberdade e igualdade relativamente de uns para com os outros.
c)       Caridade pessoal. A caridade é de coração para coração e não para com os homens em sentido universal. A caridade começa com os mais próximos – pais, irmãos, vizinhos, companheiros de trabalho etc. – e depois estende aos demais. Isso tem sentido como um Corpo Místico de Cristo. Sempre na situação concreta e não geral. Cada um seja um Cristo na situação concreta. “És professor? Sê Cristo como professor. És aluno? Sê Cristo como aluno. empregado? Sê Cristo como empregado”.
ÉS PAI? SÊ CRISTO COMO PAI.





    

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