sexta-feira, 14 de junho de 2024

Um capítulo curioso da modernidade líquida José Mauricio de Carvalho

 






Vamos tratar, neste texto, do impacto que a crise de cultura teve na vida sociopolítica do ocidente. Sabemos que o Estado Moderno se consolidou depois de forte empenho de seus líderes centrais. Como parte da consolidação do poder centralizado firmaram-se inicialmente padrões de medida, distância, superfície e volume que promoveram a uniformização de procedimentos necessários à centralização conduzida por monarcas absolutos. Essas práticas serviram para dar uniformidade de procedimentos em benefício da administração central.

A atuação do Estado precisava ter uma padronização capaz de assegurar homogeneidade de procedimentos para promover uma atuação uniforme do poder central em todo o território. Por isso, Bauman comentou no livro Globalização que (Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p. 37): “o que estava em jogo na principal batalha dessa guerra era o direito de controlar o ofício cartográfico.” Esse controle significava que o poder central precisava que fosse reconhecida sua interpretação das fronteiras contra qualquer outro entendimento que dele retirasse parte de seu território ou o colocasse fora de sua administração. Isso fazia todo sentido dentro do propósito de centralização do poder contra uma forma de poder regionalizado ou feudal que vigorou durante a Idade Média.

A diferença de representação do território significava a afirmação do poder central, em detrimento da perspectiva dos cidadãos e significava a afirmação de um olhar sobre todos os outros. E a diferença precisou ser superada à força, pois (id., p. 39): “nem toda criatura humana ocupa o mesmo lugar e, portanto, contempla o mundo da mesma perspectiva, nem todas as visões se equivalem.” O esforço de imposição da visão do poder central permitia superar as diferentes perspectivas que produziam os diversos modos de representação do território.

A centralização do poder pode ser identificada com o processo de modernização, que significava tornar hegemônica e eliminar toda representação do espaço que não aquela do monarca absoluto. Assim, o processo consistia em impor que a leitura do espaço fosse feita a partir do mapa oficial e não o contrário, isto é, deixar que a representação do espaço fosse elaborada a partir de olhares locais.

A construção dos Estados pela implantação de um plano de centralização e racionalização administrativa acabou sendo projetado também para as cidades. Técnicos e governantes criticavam os urbos espontâneos da Idade Média e propunham como alternativa as cidades planejadas, conforme um código já existente no século XVIII que estabelecia, na reprodução feita por Bauman, que (id., p. 43): “serão erguidos armazéns públicos para guardar todas as provisões necessárias e com salas de reuniões públicas – tudo uniformizado e de aparência agradável. Fora desse círculo serão dispostos regularmente os distritos urbanos – todos do mesmo tamanho, de forma similar e divididos por ruas iguais.” 

Os habitantes dessa cidade teriam habitações conforme suas ocupações e responsabilidades, formando quarteirões mais sofisticados que outros, embora todos assegurando a dignidade dos moradores. A organização da cidade precisava considerar também as funções de trabalho, vida doméstica, compras, culto, esporte, etc. Quanto ao lixo humano produzido, a saber, velhos improdutivos, doentes em geral, pessoas com transtornos mentais, eles serão recolhidos em instituições próprias e isoladas das cidades. Todo esse esforço de controle e planejamento não tinha correspondência com a realidade existente.

O esforço descrito significava um novo planejamento da vida social e política pela razão, como ocorria em outras partes da vida cultural. Temos um esforço moderno para racionalizar a criação e uso do espaço nacional e urbano, inclusive dele afastando o lixo humano. Esse esforço foi confirmado no século passado com a arquitetura moderna onde nomes célebres como Le Corbusier ratificaram a proposta de planejamento urbano e (id., p. 49): “proferiu uma sentença de morte contra as cidades existentes – refugo podre de história rebelde, descuidada, infeliz e urbanisticamente ignorante.”

A crise que assistimos alcança essa área da cultura devido a grandes mudanças na vida social com a globalização da economia e, paradoxalmente, com o fechamento das fronteiras nacionais a migrantes vindos de áreas de guerras ou pouco desenvolvidas constantes nesse momento da história. O afastamento dos setores produtivos da realidade local retirou o compromisso da elite econômica com os problemas do povo, esse permaneceu, ao contrário, vinculado aos locais onde habita. Por outro lado, o enfraquecimento dos processos econômicos minou a sustentação do Estado do Bem estar social e promoveu a ascensão da extrema direita em diversos países do mundo ou mesmo na União Europeia como acaba de ocorrer.

 

sexta-feira, 7 de junho de 2024

PECADOS E VIRTUDES. Selvino Antonio Malfatti.

"O riso mata o medo, e sem medo não pode haver fé. Aquele que não teme o demônio não precisa mais de Deus". Umberto Eco.

O Papa Francisco se ocupou dos pecados durante várias ocasiões como na audiência de 28 de fevereiro.  Analisou várias ações consideradas pecados pela teologia católica e algumas igrejas cristãs como a ortodoxa e anglicana. A homilia veio a propósito da acusação de alguns membros do clero de se envolverem em atos libidinosos. Talvez o papa quisesse mudar o foto dos escândalos do clero para uma simples reflexão. Conforme ele há dois pecados principais. Mereceram por diversas vezes a desaprovação do papa: inveja e à vanglória. Mas em várias ocasiões faz alusão a sete pecados capitais. 

Esta religião se alicerça sobre três grandes pilares: o pecado, redenção e o perdão. Dentre eles o mais problemático é o pecado por que gera a culpa coletiva e hereditária da humanidade a qual exige arrependimento individual e coletivo para obter o perdão. Só com isso se restabelece a ordem na consciência e na sociedade. Do pecado provém a culta. Mas o que é a culpa? É um sentimento individual ou coletivo de uma ação ilícita.

O cristianismo apresenta como causa da culpa o pecado dos primeiros seres humanos. A filosofia se perguntaria: mas culpa de quê? De seres semi-humanos recém emersos da evolução, semirracionais, sem noção de moral? Que pecados poderiam cometer? Desobedecer a Deus? Pobres e coitados humanos! E mais, esta culpa passa de geração em geração. O problema está nisso: se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não sou culpado porque então sou culpado?

Este é o pecado original, origem da vulneração da natureza humana, da dor e do mal no homem e na sociedade. É um pecado de raiz, transmissível e geral aos seres humanos. O homem não se faz pecador, nasce com o carisma: “minha mãe me gerou em pecado”, diz o Salmo 51. Além disso, o pecado original é fonte de todos os demais pecados.

O pecado original deu origem aos desvios sociais e a culpa individual. Embora a teologia cristã contrapôs aos pecados as virtudes, a ênfase maior incide sobre os pecados. Não eram as virtudes que brilhavam, mas o lusco fusco dos pecados que davam o rumo do convívio social e comportamento individual. Na vida social não eram os santos que sobressaíam, mas os pecadores. Disso decorreu o paradoxo do pecado: in ligno vincebat, in ligno quoque vinceretur  ( -o pecado- vencia na cruz e pela cruz seria vencido).

A Igreja cristã selecionou 7 pecados capitais e as virtudes 

1. Com soberba/humildade.

Individualmente é uma pretensão de se considerar superior aos demais. Isto se manifesta no comportamento social do soberbo em relação aos semelhantes: desprezo, arrogância, humilhação. O antídoto seria a humildade que é o agir com simplicidade.

2.      Avareza/pobreza

Apego desordenado aos bens matérias, como dinheiro, terras, capitais. O avarento se torna sovina, mesquinho e sórdido. A pobreza não significa a ausência absoluta de bens. A pobreza é um estado de espírito: desapego, simplicidade, frugalidade. Pode existir um pobre avarento como um rico pobre. 

3.      Impureza/pureza

O cristianismo na idade antiga e média dava ênfase ao ascetismo nas relações carnais. Dizia-se que era preciso submeter os desejos da carne. Por isso, era necessária a renúncia e limitação dos desejos para se alcançar a graça de Deus. A Idade Média encarnou todo este ideal na meta da mortificação da carne. Daí que as virtudes desejadas eram a castidade, abstinência, celibato entre outras.

4.      Ira/mansidão

Um dos conceitos mais intensos atualmente é o ódio. É um sentimento permanente contra tudo de mágoa e rancor. Muitas vezes não tem uma causa identificada, pois é uma atitude agressiva permanente. Seu antônimo na virtude é brando, pacífico, meigo. Mostrar-se sempre submisso, acatar ordens de todos não chegará a assustar ninguém. 

5.      Gula/temperança

É considerado um vício de quem bebe ou come demasiado, embora satisfeito, continua comento ou bebendo ó pelo prazer. Seu reverso, a virtude, é a moderação, parcimônia, meio termo, equilíbrio. Significa também prudência, comedidamente. 

6.      Inveja/generosidade.

Sentimento doentio de ciúme para com alguém que possui algo que ele não tem e gostaria de ter. A virtude da generosidade se manifesta no desinteresse, fazer o bem sem esperar retorno. Se ninguém se dispuser a querer ser melhor que outros, tirar-lhe vantagens, mesmo despojando-o não haverá maior ou menor. 

7.      Preguiça/trabalho

É um dos pecados que recebeu maior ênfase do pontífice. O pecado da preguiça é falta de vontade de trabalhar e não tomar atitude para realizar tarefas ou trabalhos. Deixar tudo como está. A ética do labor coloca o trabalho como prioridade de vida.  Através de um ethos de vida. Nada de gozar a vida com o dinheiro ganho ou os bens adquiridos. Gastar somente o necessário para sobrevivência. A orientação é ser prudente e diligente. Afastar a preguiça, pois tempo é crédito para conseguir graça de salvação. Combate-se a preguiça pelo trabalho.

A meta do cristão é posicionar-se ao oposto do pecado: sede santos como vosso pai do céu é santo. 



sexta-feira, 31 de maio de 2024

O DNA BRASILEIRO. Selvino Antonio Malfatti

 



Qual a tua identidade no mundo como brasileiro? És americano?  Sul-americano? Latino? Como és visto pelos outros que não são brasileiros? Quando se encontram juntos franceses, ingleses, espanhóis, italianos, portugueses o que tem de comum entre si? Consideram-se europeus. E se juntassem argentinos, brasileiros, chilenos, uruguaios o que considerariam terem em comum? Sul-americanos? Sentir-se-iam orgulhosos de serem sul-americanos?

Numa ocasião que estive na Europa percebi que ao se juntarem algumas nacionalidades a palavra que se ouvia era: somos europeus. Na América latina só uma vez ouvi em Buenos Aires de um garçom: somos do Mercosul. Em outras ocasiões cada um se representava pelo seu país.

Isto evidencia a não existência de um eu comum na América e menos ainda na América Latina.  Individualmente se identifica como brasileiro, argentino, chileno etc. E por que isto? A hipótese é que houve uma ruptura com a pátria-mãe e por isso se desvinculou da raiz a que pertencia: a Europa. Não podemos ser europeus, mas nem por isso nossa matriz histórico-cultural não seja a Europa. Claro que não somos europeus, mas herdamos sua cultura. Numa abrangência mais ampla a Europa é ocidental. Sugiro, por isso que nos identifiquemos como ocidentais. O que nos une como ocidentais? Não é a geografia, não é a língua, não é a nacionalidade, mas a cultura. È um DNA axiológico que remonta à Grécia antiga como, uma economia de mercado, uma ordem jurídica e um regime político democrático. Estes três valores atravessaram os séculos, sobreviveram às guerras na Europa e migraram para as novas terras através dos descobridores europeus. Temos um liame cultural com a Antiga Grécia de Sócrates, Platão e Aristóteles, Homero, Heródoto, Tucídides, Eurípides ou Sófocles. O poeta e escritor Paul Valéry divisou os valores dos pensadores gregos: “Devemos-lhe a disciplina do Espírito (…). Devemos-lhe um método de pensamento que tende a relacionar todas as coisas ao homem, ao homem completo. » As invasões dos bárbaros que fragmentaram o império romano, não destruíram suas raízes culturais. A influência do Cristianismo assimilou a cultura grega e  conseguiu um centro de poder na Europa e devido a isso não  foram sepultados aqueles valores. Há de se destacar o papel dos mosteiros cujos monges copiavam e difundiam a cultura grega, logo após conhecerem Aristóteles através do árabe Averrois. As ordens religiosas eram transnacionais e intercambiavam a cultura.

Os valores adormecidos germinaram pelo Renascimento e tomaram vigor no Iluminismo, nas universidades europeias, Bolonha, Oxford. O Iluminismo inicialmente uma esnobação em cafés, salões e lugares de emulação intelectual, a "belle èpoque". Desde um demolidor Voltaire até o suprassumo da racionalidade Kant discutiam-se os valores relacionados com o homem. Sua obra “A paz Perpétua” é o maior modelo de uma Europa e do ocidente unidos em torno dos valores humanos.

Estes valores atravessaram séculos e mantiveram-se vivos na Europa. Com os Descobrimentos foram estendidos à América e atualmente fazem parte não só da Europa, mas do Ocidente. Como dizia Erasmo de Roterdam: “O mundo inteiro é a pátria de todos nós”, na Querela Pacis. »

Em que pese a península ibérica, Portugal e Espanha, terem ficado à margem do Renascimento, pois seguiram praticando as normas do Concílio de Trento, no período iluminista recuperaram o atraso, introduzindo reformas culturais nas metrópoles e nas colônias como exemplo em Portugal o ministro iluminista Marquês de Pombal. Com isso os futuros países ficaram conectados à cultura do ocidente e por isso mantiveram-se fiéis àqueles valores.

Portanto, nosso DNA brasileiro é dos valores do ocidente europeu.


quinta-feira, 23 de maio de 2024

Bauman e o desafio das vidas desperdiçadas. José Mauricio de Carvalho

 



 

A tese de que a Europa moderna produziu excedentes populacionais que foi anunciada em Amor líquido foi retomada e aprofundada por Zygmunt Bauman no livro Vidas desperdiçadas. A novidade é que nesse último livro o assunto ganhou dramaticidade por que a sobra demográfica foi comparada a lixo humano (BAUMAN, 2005, p. 12): “a produção de refugo humano, ou mais propriamente, de seres humanos refugados (os excessivos e redundantes (...), é um produto inevitável da modernidade, e um acompanhamento inseparável da modernidade.” E assim, em nosso tempo, com o esgotamento da solução moderna entramos numa crise sobre como alocar esse entulho, porque o planeta já não tem locais livres para acolhimento ou formas de fazer a reciclagem desse processo. O atual processo produtivo não tem um número tão grande de empregos para a todos ocupar em toda parte.

Então, na ausência de meios de vida nessas ex-colônias da Europa, que acolhiam as sobras humanas daquele continente em outros dias, vemos iniciar um movimento de retorno para os países de origem, pois nessas antigas colônias também não há meios disponíveis para ocupar esse excesso de pessoas desocupadas. Há ainda o problema de guerras entre Estados artificialmente criados. De tal forma que um regresso dessa gente, por guerras ou miséria, acirra as dificuldades da sociedade consumista e hedonista, também ela necessitando dar solução para excessos demográficos (id., p. 14): “os problemas do refugo humano e da remoção do lixo humano pesam ainda mais fortemente sobre a moderna e consumista cultura da individuação.” Como se vive essas dificuldades?

A primeira consequência dessa situação é a falta de emprego para as populações, tanto nos países mais ricos como nos pobres, resultando em quadros depressivos graves para jovens que não encontram postos de trabalho adequados. Assim, a juventude dos anos 70 (id., p. 18): “experimenta sofrimentos que eram desconhecidos das gerações anteriores.” Eles chegam a um mercado de trabalho onde não há espaço para trabalhadores sem experiência, resultando em conselhos para não serem exigentes na procura pelo emprego e a ficarem felizes com qualquer oportunidade, sem considerar a vocação de cada um ou seu projeto de vida. A baixa-estima e a depressão emergem nesse contexto e pioram com comentários como (id., p. 20): “os outros não necessitam de você. Podem passar muito bem, e até melhor, sem você. Não há uma razão autoevidente para você existir nem qualquer justificativa óbvia para que você reivindique o direito à existência.” E como essas pessoas não têm meios de sobreviver acabam recebendo alguma ajuda do Estado, não sem contestação crescente da parcela que trabalha e que, fechada no próprio egoísmo, sente menos a necessidade de construir uma sociedade solidária e a toda proposta nesse sentido é chamada de comunismo.

A perda da autoestima ou o abandono de um projeto singular de vida é o que a geração X, nascida nos anos 70, experimenta como coisa própria, independente de quão difícil tenha sido a vida de seus antepassados. E a depressão também é alimentada porque esses jovens se sentem colocados fora do ônibus do progresso e do desenvolvimento. Eles não esperam emprego duradouro e a falta de regras do mundo do trabalho aumenta a ansiedade. Para as gerações anteriores, mesmo sendo mal pagas e enfrentando dificuldades, essa insegurança não existia. Na pior das hipóteses havia uma reserva de trabalhadores para suprir as necessidades de mão de obra, mas nada como a atual realidade (id., p. 23): “as preocupações da geração X – preocupações quanto à redundância – diferem dos problemas vivenciados e registrados pelas gerações anteriores, e são sofridas e enfrentadas à sua maneira própria e singular.”

O problema atual é a indefinição, não se sabe o que fazer, para onde ir. Não se tem certeza de um caminho para superar a condição de refugo, o que antes se tinha claro. Desde o que fazer até como proceder para voltar ao mercado. Isso significa que (id., p. 25): “o mais importante é que, para qualquer um que tenha sido excluído e marcado como refugo, não existem trilhas obvias para retornar ao quadro de integrantes.” A noção de refugo significa que aquilo que foi posto fora do espaço visível não mais pertence ao mundo que conta, não há comparação com o desempregado de algum tempo que, apesar das dificuldades, sabia o caminho da volta pelo trabalho.

Diante dessa realidade, o uso da razão, o debate livre e sem ódio de ideias, a recusa da radicalização política e da mentira como sua propaganda; a procura real para os problemas mencionados, o compromisso com a verdade, a defesa do estado de direito e da democracia, a valorização da ciência, da filosofia, da razão, são os melhores meios de enfrentamento dessas dificuldades que a vida de hoje nos apresenta.

 

sexta-feira, 17 de maio de 2024

CAPITAIS EUROPEIAS DA CULTURA 2025: NOVA GORICA E GORIZIA. Selvino Antonio Malfatti

 



A União Europeia – UE - está anos-luz à frente do Mercado Comum do Sul – MERCOSUL. Enquanto nós ainda estamos disputando picuinhas eles já estão dando muita atenção à cultura. Só para citar algumas: mostras culturais, concertos, conferências, festival do cinema, prêmios de reconhecimento artístico entre outras. O que custaria ao MERCOSUL fazer as mesmas promoções ou agilizando a criatividade e introduzir outras de cunho local. Neste artigo analisaremos uma das promoções da UE, Refiro-me às Capitais Europeias da Cultura por iniciativa da União Europeia. Cada ano é escolhido uma cidade da Europa que mostrará seu potencial cultural abrindo espaço para o entrelaçamento de toda a União Europeia.

A prática iniciou em 1985 sob a sugestão da ministra grega Melina Mercouri com o nome de: Cidade Europeia da Cultura. Entre os objetivos constam a valorização do pluralismo cultural e linguístico europeu e maior conhecimento mútuo dos cidadãos da Europa. Sucedem-se as capitais da cultura anualmente por ordem alfabética. Em 1990 foi estendida para países não pertencentes a União Europeia. Os princípios que regem a iniciativa da Capital Europeia da Cultura são: democracia, pluralismo e estado de direito.  Em 1999 a designação passou a ser Capital Europeia da Cultura. A comunidade europeia é um bloco político e econômico formado por 27 países. É uma das organizações internacionais mais influentes do mundo.

Para 2025 serão duas cidades: Nova Gorica e Gorizia. A primeira na Eslovênia e a segunda na Itália. Juntas serão a capital Europeia da Cultura em 2025, juntamente com a cidade alemã de Chemnitz.

Nas duas cidades, como aconteceu com Berlim, havia um muro que as separava. O local foi palco de disputas ferozes durante a Segunda Guerra. Passou pelos regimes nazistas e comunistas até que pelo Tratado de Paz de 1947 Goriza ficou do lado dos aliados e a parte que ficou com os comunistas da Iugoslávia de Tito e foi fundada a Nova Goriza. Coriza, por sua vez tornou-se um elo de conjunção entre as culturas romana, eslava e germânica.

Atualmente os próprios habitantes querem ser italianos, inclusive, todos os anos realiza um ato de reflexão sobre os acontecimentos do passado, sob o título de «èStoria».  As duas cidades elaboram projetos fronteiriços conjuntos, como a ciclovia, trilhas e promoções culturais.

Alguns locais culturais de Coriza e Nova Gorica.

1.   Piazza Transalpina, la vecchia stazione ferroviaria della Transalpina e il ponte di Solkan

2.   Il Castello di Gorizia e

3.   il Museo del Medioevo Goriziano

4.   Duomo di Gorizia

5.   Piazza della Vittoria e le vie di Gorizia centro

6.   Via Carducci

7.   Via Oberdan e il Mercato coperto di Gorizia

8.   Sveta Gora (Holy Mountain)

9.   Solkanski Most

10.               Rihemberk Castle

11.               Franciscan Monastery Kostanjevica


sexta-feira, 10 de maio de 2024

Bauman e a cidadania universal, um desafio para o nosso tempo. José Mauricio de Carvalho

 




A proposta de uma cidadania universal que foi tema de A Ideia de uma história com propósito universal, de Kant foi mencionada por Bauman em Amor Líquido. Trata-se de um assunto revisitado em A ética é possível num mundo de consumidores? Nesse último livro, a questão tem o mesmo tom do primeiro, mas o assunto foi melhor elaborado. O sociólogo observou que há excessos populacionais e de produtos no mundo contemporâneo, problemas que foram resolvidos pela Europa em outras épocas exportando bens e populações para outras regiões do mundo. Essa solução, no entanto, não é mais possível porque não há espaços disponíveis. Ele explicou (id., p. 232/3): “a Europa solucionou esses problemas produzidos internamente (e assim localmente) transformando outras partes do planeta em fontes de energia e recursos naturais de baixo custo, trabalho barato e dócil, e acima de tudo, em muitas áreas de descarte para produtos excedentes e redundantes.” Porém, como ele advertiu, essa antiga solução não é mais possível. Antes quando um europeu chegava num país africano ou asiático, mesmo tendo vindo de uma condição social baixa em seu continente natal era recebido como alguém muito importante. E como estão as coisas atualmente? Hoje ao chegar a um país estrangeiro o europeu está sujeito a muitos problemas, exceto quando sai numa excursão bem planejada e se porta como bom turista.

A realidade hoje em dia é que o mundo está quase todo ocupado, enfrenta dificuldades variadas e estamos desafiados a criar uma cidadania universal de que falava Kant (id., p. 229): “todos ficamos e nos movemos na superfície dessa esfera, não temos outro lugar onde ir e, por conseguinte, estamos condenados a viver para sempre na companhia e na vizinhança uns dos outros.” E então a questão posta por Kant e que ficou na prateleira por duzentos anos se reapresenta como atual. E há ainda a questão da hospitalidade universal proposta por Kant em A paz perpétua que é também um desafio atual pois (id., p.230): “a hospitalidade é a própria cultura, e não uma ética entre outras ... a ética é a hospitalidade.”

Este novo mundo produz perda de confiança nos europeus e estabelece o desafio de criar uma nova identidade europeia como de redefinir o seu papel na história mundial. Isso mesmo do ponto de vista geopolítico, a Europa não é mais o centro decisório do mundo (id., p. 234): “em meio ao caos planetário, são a Casa Branca, o Capitólio e o Pentágono que, entre eles, definem o significado da nova ordem mundial.” E o que se segue a esse domínio americano é algo parecido ao que se passou ao final do Império Romano com as invasões bárbaras, a incapacidade de o exército regular enfrentar o invasor produziu o caos, ansiedade e insegurança absoluta na sociedade.

Atualmente a poderosa máquina de guerra americana não consegue enfrentar com eficiência os ataques terroristas que usam outra lógica e atitude dos exércitos regulares. E ao tentarem responder às ameaças o resultado é a criação do caos, com o aumento de tudo quanto se esperava combater. Algo exatamente assim ocorre na Guerra em Gaza em 2024, com o texto de um livro de 2008. As palavras que se seguem se fossem escritas hoje não seriam mais precisas ou atuais (id., 327):

 

Dada a natureza das armas modernas, suas respostas aos atos terroristas devem parecer embaraçosas, e, com isso, mais terror, ruptura e desestabilização que os próprios atos terroristas poderiam provocar; e, assim, também produzem um salto adicional no volume de mágoas, ódio e fúria acumulados, aumentando ainda mais a fileiras de recrutas em potencial para a causa do terrorismo.

 

Por sua vez, essas células terroristas não enfrentam diretamente os exércitos nacionais, nem respondem à suas represálias. Elas acompanham em silencio e com desdém toda a movimentação dessas forças militares. E, a certo momento, com uma dúzia de homens provocam um mal que milhares de soldados não conseguem evitar. Esses grupos não necessitam de grande organização ou estratégia para provocar o caos (id., p. 239): “nem precisam projetar, construir e manter uma estrutura rígida de comando.”

Estando sob constante ameaça, as grandes cidades ocidentais, tornaram-se fortalezas onde se tenta criar barreiras para que os problemas globais não as alcancem, mas convenhamos isso não é possível. E essas cidades multiculturais e plurais são espaço de convivência de cidadãos e terroristas. Quanto as nações não estão a salvo das ações violentas. E completa Bauman (id., p. 239): “se há um império Global, ele se confronta com um tipo de adversário que não pode ser capturado nas redes que ele tem, é capaz de tecer e adquirir.” A guerra contra o terrorismo não pode ser vencida com meios militares, o que significa que Bauman sugere apostar na educação das pessoas e espera o apoio das nações ricas para resolver questões da vida social das mais pobres. E nessa missão a Europa desempenha um papel crucial porque os americanos não se preocupam com a coabitação planetária pacífica e nem enfrentam, como seria necessário, a pobreza, a desigualdade de recursos e a carência social.

Nesse mundo que está se desenhando a Europa não pode competir com o poderio militar americano e nem recuperar a liderança industrial do passado. Então ela terá que descobrir um novo papel na atualidade. E dada a sua história de guerras e sofrimentos, o continente tem condições de liderar as nações na busca pacífica de conflitos de interesses e na defesa da democracia. Quanto à sobrevivência da democracia há muitos críticos que julgam uma tarefa difícil de ser levada adiante sem a contribuição de uma identidade afetiva entre as pessoas, o que é complicado num mundo multicultural e multirracial. Sem a força do sistema democrático a coesão interna dos povos passa a ser buscada nos sentimentos nacionalistas e no fechamento das fronteiras, pautas que atualmente foram assumidos pela extrema direita. E como está mundo? Nada confortável para o europeu (id., p. 250): “o mundo já não está mais convidativo. Parece um mundo hostil, traiçoeiro, que respira vingança, um mundo que precisa se tornar seguro para nós, europeus.”

A Europa está se cercando contra imigrantes e se isolando das demais nações, mas não há como resolver os problemas da Europa isoladamente, apenas voltada para dentro. Isso porque (id., p. 251): “o destino da liberdade e da democracia em cada local é decidido e estabelecido no palco global.” Quanto a distribuição da riqueza, em que pese as inúmeras dificuldades, ela continua se concentrando (id., p. 252): “noventa por cento da riqueza global do planeta permanece nas mãos de apenas 1% dos habitantes da terra.” E a política de subsídios acaba privilegiando algumas categorias nos países ricos em detrimento de milhões que poderia melhorar muito a vida numa economia verdadeiramente livre e sem subsídios.

E como a Europa está enfrentando as alterações na economia global? Tentando manter investimentos e riquezas, se não mais dentro dos estados nações dentro da comunidade europeia. Isso muda um pouco o que estava sendo feito até aqui, mas não muda muito a antiga condição (id., p. 254): “a criação de unidades políticas maiores em si mesmas não altera em nada o modo de standortskonkurrenz enquanto tal.” O que fica claro é que se há uma necessidade da construção de uma comunidade global, não há uma base ético-política que lhe dê sustentação. Essa mudança é qualitativa e não apenas de ampliação geográfica, o que implica numa mudança qualitativa da organização mundial e não sabemos como a Europa irá caminhar.

 


sexta-feira, 3 de maio de 2024

REPARAÇÃO DA ESCRAVIDÃO. Selvino Antonio Malfatti

 



O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, que ocupa um cargo simbólico-representativo, declarou que Portugal deve uma reparação ao Brasil, pelo período colonial no qual prevaleceu a escravidão.

A proposta não constitui uma novidade numa relação entre metrópoles e ex- colônias. Em 2022 o primeiro-ministro da Holanda pediu desculpas pelo envolvimento do seu país no escravidão e destinou um fundo de 200 milhões de euros para a educação às suas ex-colônias.

No ano seguinte, 2023, o governo canadense criou uma comissão de reconciliação com os povos indígenas e destinou 17,35 bilhões de dólares.

Por enquanto, Portugal limitou-se a pedir desculpas, sem outra iniciativa concreta. Inclusive o presidente português declarou perante Luís Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, que Portugal deveria assumir a responsabilidade pelo colonialismo e escravatura. Falou em “pagar os custos”.

Se for levado adiante, até se chegar ao consenso destes custos vai haver muita articulação política, negociação e debates. Falta, portanto, um projeto concreto sobre o qual incidirão os debates. Isto seria através de um valor pecuniário? E a quem e quanto atribuir?  Aos descendentes? Ou seria através de políticas sociais como educação, saúde, bem estar? E note-se que os indígenas também deveriam ser incluídos.

Far-se-ia através de entidades específicas, como quer Naira Leite, coordenadora da ODARA – Instituto da Mulher Negra, que na ONU, exigiu reparação, mas não foram bem recebidas as declarações por entidades brasileiras que cobraram posições mais concretas em termos de reparação. Mudando o discurso, para torná-lo mais objetivo, sugeriu que fossem ouvidos os interessados objeto de exploração pela escravidão. Diz Naira:

 “Minha grande preocupação é que as organizações da sociedade civil precisam ter uma participação ativa nos grupos de trabalho e nos processos. Caso contrário, não vamos alcançar um projeto de reparação que de fato dê conta de reduzir ou de responder aos impactos do colonialismo e da escravidão”.

Na ocasião, na ONU, foram apresentadas sugestões como criação de museus, centros de memórias e outros equipamentos políticos que lembrem a escravidão no Brasil. Outra sugestão foi de incluir no ensino oficial uma disciplina ou conteúdo denominado: “História dos Impactos Nocivos do Colonialismo Português para o Contexto Brasileiro”. Além disso:

- Firmar acordos efetivos com investimentos financeiros, salvaguardas da memória e parceria de trânsito dentre os dois países;

- Incentivar todos os países europeus que tiveram colônias e escravos que implantem medidas reparatórias;

- Combate à xenofobia e ao racismo com a população afrodescendente.

Já para Humberto Adami, presidente da Comissão da Verdade da Escravidão, da Ordem dos Advogados do Brasil, enfatizou os aspectos financeiros. Neste sentido sugere a criação de um fundo em dinheiro, inspirado no modelo para os judeus depois do Holocausto.

Em síntese, a questão é complexa pois envolve pessoas, entidades e países. Para chegarem a um denominador comum neste enredo, muito tempo, negociações, debates advirão.

Pensando bem: o Brasil já não teria se adiantado quando reservou cotas raciais (Pretos, Pardos e Indígenas) em concursos vestibulares e outros?


 

Postagens mais vistas