sexta-feira, 5 de junho de 2020

O mundo na e pós pandemia .José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.



Nos últimos dias tem se espalhado nas diferentes mídias a ideia de que o mundo sairá dessa pandemia, provocada pelo Coronavírus, mais solidário, isto é, que os homens serão melhores e entraremos numa nova era. Não se pode dizer que mudanças não ocorrerão, provavelmente acontecerão. Porém, até aqui as tentativas de prever o futuro falharam. Os erros aumentaram desde que os intelectuais do século XIX decidiram fazer teorias sobre o futuro: Hegel e os idealistas, Marx e seus admiradores, Comte e seus herdeiros positivistas. Erraram enormemente e contribuíram para a crise mundial de cultura no século passado, pois anunciaram um futuro promissor, onde os homens seriam melhores, e mergulhamos na brutalidade de duas Guerras Mundiais, em governos totalitários (nazi-fascismos e comunismo), campos de extermínio, guerra fria, crises econômicas terríveis. As previsões falharam essencialmente porque transformaram o ideal ético em promessa. A melhor ética não é automática e nem alcançará todas as pessoas. Talvez seja possível aprimorar o estatuto legal, mas mesmo isso não é certeza.
Há um episódio interessante que Viktor Frankl relatou no seu best-seller mundial Em busca de sentido. Quando os sobreviventes voltaram do campo de concentração encontraram seus vizinhos e amigos vivendo normalmente e nada modificados, nem constrangidos com o que se passara. Davam as desculpas mais tolas para justificar nada terem feito. As pessoas (Vozes, 2017, p. 118): “não reagiam de outra forma do que simplesmente encolhendo os ombros ou dando de si frases baratas.” O que isso mostrou? Frankl foi impecável na conclusão. Somente sai melhor de um sofrimento quem consegue significá-lo, isto é, que descobre um sentido para ele. Do contrário poderá sair ainda pior, mais amargo, inseguro, neurótico e angustiado. Frankl tinha esperança, acreditou que as pessoas poderiam aprender no sofrimento inevitável, mas só quando elas o apreendessem e lhe conferissem significado. Pesquisas médicas sobre espiritualidade e saúde vão na mesma direção, a presença de um sentido religioso ajuda na saúde mental, mas isso não significa que elas se tornarão melhores (VANDERWEELE, 2017, VANDERWEELE, Tyler J. Religious Communities and Human Flourrishing. Association for Psychological Sciense. 26 (5), 2017. p. 478): “o tipo de enfrentamento religioso pode ajudar a encontrar o sentido e reforçar relações em um contexto de sofrimento e doença.” A melhora pessoal pode vir pela prática religiosa e também pelo estudo, pela solidariedade, pela meditação. No entanto, a melhoria moral somente virá para aqueles que usarem esse momento como oportunidade para pensar o sentido do sofrimento e da solidariedade humana. Os demais sairão iguais ou piores se mergulharem na amargura e no sofrimento.
O sofrimento não nos torna automaticamente melhores. Frankl observou, apenas explicita o que os homens são (FRANKL, Fundamentos antropológicos da psicoterapia, 1978: “nos campos de concentração os homens se diferenciavam. Os salafrários deixavam cair as máscaras. E os santos se manifestavam. A fome fazia vir a qualidade de cada um.” Isso é assim porque os homens somente podem ser considerados pelo que fazem, há os que fazem bem e os que praticam o mal. Dito de outro modo (id., p. 229): “há somente duas raças: a raça dos homens decentes e a raça dos que não prestam. Justamente porque sabemos que a primeira constitui uma minoria, compete-nos aumentá-la e fortalecê-la.”
Creio que é legítima esperança e entender que, aqueles que tornarem o sofrimento desse momento uma oportunidade de crescimento, poderão sair melhores dele.


quinta-feira, 28 de maio de 2020

EXORTAÇÃO AOS MÉDICOS E ENFERMEIROS EM MEIO A PANDEMIA. Selvino Antonio Malfatti.





Está despertando interesse um texto, relativamente pequeno, de Albert Camus intitulado AOS MÉDICOS DA PESTE. É praticamente inédito para a maioria das línguas, inclusive para o português.
Camus foi filósofo. Jornalista, dramaturgo. É detentor do Prêmio Nobel da Literatura de 1957.
Originário de Mondovi, Argélia, durante a ocupação francesa de 1913. Filho de camponeses ficou órfão de pai na batalha de Marne na Primeira Guerra Mundial ainda criança. Logo no início as dificuldades financeiras bateram à porta da casa. Trabalhou em diversos setores como vendedor, meteorologista, escritório na marinha e na Prefeitura. Para sua formação em Argel teve a ventura de ter sido ajudado por dois professores.
 A PESTE é considerada sua obra prima. O pano de fundo da obra está envolta na filosofia existencialista professada pelo autor. Possui um forte conteúdo moral principalmente no que se refere à solidariedade entre os seres humanos. Ao tratar da questão da liberdade chama a atenção não só para o livre arbítrio como a responsabilidade pelos atos de cada um.
Quanto ao texto da EXORTAÇÃO AOS MÉDICOS DA PESTE, 1941, parece ser uma introdução à obra maior que viria posteriormente: a Peste, 1947.
O livro de Camus A Peste é altamente simbólico e alegórico. Simbólico por que por trás do texto desenvolve-se a Segunda Guerra Mundial e alegórico porque pelo conteúdo são analisadas as diversas reações da natureza humana diante do perigo comum.
Camus imagina ou inventa uma epidemia, em 1940, Oran, na Argélia. Três personagens são centrais na alegoria: há o médico,  Bernard Rieux,   humanista, incansável, dedicado, pronto para sacrificar-se, crendo na natural bondade humana;  seu vizinho, Jean Tarrou, que se dispões a organizar a resistência contra a epidemia; o oportunista, Joseph Cottard, que aproveita a crise para fazer negócios principalmente de contrabando.
Mas vamos ao texto da Exortação, válido ainda após 75 anos de sua publicação. O Covid-19 reacendeu o interesse de Camus, pois nele dá principalmente para médios e enfermeiros orientações, avaliações, exortações para enfrentar o inimigo invisível que pode estar no chão, no ar, nos objetos, onde menos se espera, como no fôlego do amigo, na sua mão, no seu abraço e mesmo no beijo.
Diz ele que não sabemos se é contagiosa, mas entendemos que sim. Por isso, uma das precauções é deixar as janelas bem abertas. Além disso, munir-se de máscaras e óculos apropriados para evitar o contágio. Munir-se de tudo o que pode evitar o contato. Cada um tenha cuidado de si não só para não ser contaminado como para não contaminar.
Deve-se evitar olhar de frente para o contaminado. Não visitar pacientes em jejum ou depois de alimentar-se demasiadamente. O contato físico, nem pensar. Descartado “ in limine”. Isto vale, sobretudo para médicos e enfermeiros.
Se for profissional como médico ou enfermeiro o ponto de partida é nunca ter medo. O medo infeta o sangue e esquenta os ânimos. Além disso, numa guerra os projéteis matam tanto os corajosos como os medrosos. Para que o corpo possa vencer o foco infeccioso a alma deve estar forte. Camus fala:
“Portanto, vocês, médicos da peste, devem enfrentar a ideia da morte e se reconciliar com ela, antes de entrar no reino em que a praga o prepara. Se você for vitorioso nisso, será vitorioso em todas as coisas e os verá sorrir em meio ao terror. Em conclusão, eles precisarão de uma filosofia.”

Cultivar a alegria razoável de modo que a dor não altere o fluxo do sangue. Nada em contrário em consumir um vinho em pequena quantidade. Ajudará a manter o ânimo. Zelar para que as regras adotadas sejam respeitadas tais como os bloqueios e as quarentenas. A população pede para que esquecer um pouco quem si mesmo, sem esquecer o que deve a si mesmo.
Armados da firmeza da virtude deve enfrentar o cansaço e manter a imaginação acesa. Jamais habituar-se a ver os homens morrerem como moscas, como acontece hoje nas estradas. Não deixar de comover-se diante das gargantas enegrecidas, das quais emana um suor fétido e sanguinolento.
E arremata Camus:
A primeira coisa é que você nunca deve ter medo. Homens foram vistos fazendo seu trabalho como soldados muito bem, apesar de terem medo do canhão. Mas isso ocorre porque a bala de canhão mata indiscriminadamente os corajosos e medrosos. Na guerra, muito se deve ao acaso, mas não à peste. O medo corrompe o sangue e aquece o humor, todos os livros dizem [...] Para que vocês, médicos da peste, se fortaleçam contra a ideia da morte e se reconciliem com ela, antes de entrar no reino preparado pela peste. Se você triunfar aqui, triunfará em todos os lugares e todos verão você sorrir em meio ao terror. A conclusão é que você precisa de uma filosofia”. (Albert Camus, 1947-  Exortação aos médicos da Peste)
Se quiséssemos fazer uma comparação poderíamos dizer que o texto se assemelha à Ética a Nicômaco de Aristóteles no trato do profissional com os pacientes.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Imprensa Morbosa. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.



Em 1917, o filósofo espanhol Ortega y Gasset escreveu um pequeno e provocador ensaio sobre os rumos da democracia espanhola, denunciava um plebeísmo triunfante que tomara conta da Europa e que representava uma degeneração da democracia. Isso porque, deixando de representar uma forma de organização política, tornava-se expressão de massas adoecidas que queriam dirigir o destino da cultura. A democracia (ORTEGA, Obras, v. II, p. 135): “estrita e exclusivamente como norma de direito político, parece ótima coisa. Porém, uma democracia fora de si, a democracia na religião e na arte, a democracia do pensamento e do gesto, a democracia no coração e nos costumes é o mais perigoso morbo que pode padecer uma sociedade.” Em resumo, uma democracia que queria ser o que não era tornava-se doentia.
Em 2020, em meio a pandemia do coranavirus, a imprensa brasileira, especialmente sua mais bem equipada rede de comunicação, mostra-se adoecida, como a antiga democracia espanhola, deixando de cumprir o que dela se espera. Da imprensa sadia se espera que aponte os crimes contra a sociedade e a própria humanidade, mas que o faça no estrito compromisso com a verdade, porque a verdade é não só o esteio da dignidade humana, mas a base da vida social. Isso lembrando que uma verdade social e política somente pode ser buscada em conjunto, com a exposição isenta e ponderação das interpretações. Karl Jaspers lembrava que (JASPERS, Introdução ao pensamento filosófico, p.97): “na comunidade o curso das coisas se torna falso quando o homem cala o que é importante para todos.” Sem a apresentação equilibrada das diversas posições não se forma opinião pública madura e os homens se tornam superficiais e ignorantes da verdade.
Uma das maiores falhas da imprensa é quando ela engana as pessoas (e aos próprios jornalistas) mistificando a violência que é a mentira e a manipulação dos fatos. Essa distorção da verdade ocorre quando ela não divulga objetivamente os fatos e os comentários não apresentam as interpretações dele. Além de uma espécie de imprensa partidária, outros males a acometem. Uma grave doença revela-se quando ela se comporta como consciência moral da opinião pública, o que ela decididamente não é, porque ela não é isenta. Além do mais, consciência moral é pessoal, que pode e precisa ser educada, mas não é instância social. O que se vê quando jornalistas andam pelas ruas a acusar o cidadão de não cumprir o isolamento sem saber exatamente o que cada um anda fazendo e porque está fazendo. À Justiça cabe velar pelo cumprimento das leis, não à imprensa. Embora seja fundamental a imprensa denunciar crimes. Note-se crimes, não o que os jornalistas ou seus patrões consideram errado.
Outro morbo dessa imprensa é o sadismo. Seus profissionais repetem, com requinte de detalhes, tudo o que há de pior, os crimes mais pavorosos, os fatos mais horríveis e fazem isso continua e repetidamente durante horas e dias. É um gozar no sofrimento. Quanto maior a desgraça, mais ela é repetida e divulgada. Essa doença é como o vírus da covid, se espalhou rápido entre as várias mídias e emissoras.
Não se pode esquecer também a doença da bobice pura e simples, isto é, divulgação de fatos privados de artistas como coisas de grande interesse público do tipo: Fulana se bronzeia durante a quarentena, aquela outra exige corpaço e faz graça de biquíni, esse cantor pede namorada em casamento no confinamento, etc.
Seria fundamental para a Democracia que a imprensa se comportasse sadiamente. Que ela com a mesma intensidade com que reivindica respeito quando criticada cumprisse seus deveres. A impressa somente é fundamental para a democracia quando cumpre seu papel de divulgar com isenção, comentar com equilíbrio, não gozar na e da desgraça, abdicar da bobice e não se arvorar em consciência moral da sociedade, etc.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

CORONAVIRUS – UM PLANO DE DISTANCIAMENTO PARA SAÚDE E ECONOMIA. Selvino Antonio Malfatti – professor titular de Ciência Política, da UFSM.












                     
                                                BRASIL - RS


O professor esloveno de Sociologia e Filosofia da universidade Ljubljana, autor do ensaio de “Virus”, analisando a atual situação da pandemia propõe que não se deve escolher entre economia e saúde para superar o atual dilema, mas refletir sobre a questão. Esta atitude pode levar a um meio termo que privilegie a ambas simultaneamente.
Conforme o autor, nos dias de hoje, sob a sombra do Coronavirus já não conseguirmos distinguir realidade de ficção. Estamos vivendo uma realidade ou estamos assistindo um filme? E mesmo que projetemos para o futuro nos perguntamos qual o filme que vamos ver, séries na TV ou outras narrativas. Tudo fica nebuloso e sombrio. Seria a combinação de uma sociedade liquida e sombria.
Confinados devemos reinventar outras formas de conviver, o uso dos recursos: econômico, social, psicológico, cultural e espiritual. Novas regras de mercado urgem, agora subordinadas à solidariedade, a redistribuição dos recursos. Os governos devem deixar de ser por demais liberais e mais intervencionistas, a limitação dos privilégios e mesmo corte em que pese os setores mais conservadores que se negam a abrir mão.
Em alguns lugares os armários já estão sem suprimentos, farmácias, embora continuem abastecidas, os idosos não podem chegar. Até quando a população vai aceitar viver na carência? Quem garante que de repente, hordas famintas não invadirão casas, mercados, supermercados e bancos? E o pior: invasão de hospitais buscando atendimento e remédios? Médicos e enfermeiros poderão ser agredidos e mesmo assassinados. Este é um cenário possível. E os governos, que farão neste caso? Execuções sumárias, pena de morte, prisões!
Mas pensemos que ainda temos tempo. Que podemos achar soluções razoáveis. Uma destas tentativas, por mais modesta que seja, pode ser válida ou ao menos é uma tentativas Trata-se do modelo jé implantado no Rio Grande do Sul, estado brasileiro, pelo governo do estado.
O Modelo gaúcho parece que vai ao encontro do pensamento de Zerek pois, colocando como objetivo principal a saúde, salva a economia através de estratégias. O centro da estratégia está em não fazer terra plana do território do Rio Grande e nem considerar a epidemia igual em intensidade em toda a área. Para tanto o território foi dividido em regiões e nessas regiões aplicam-se critérios baseados em desempenhos setoriais. É denominado de distanciamento social controlado. Prevê diferentes níveis de cuidados por região, num total de 20, cada uma delas com um índice, fixado por uma bandeira, possibilitando flexibilizar a mobilidade social de acordo com a resposta das variáveis como horários, modo de operação, número de funcionários, leitos disponíveis, testes, máscaras, mortes pela doença, internações etc. Cada sábado será feito um feedback para reavaliar o plano. Este tem a supervisão do Ministério da Saúde e em observação por órgãos mundiais da saúde e acompanhados por outros países interessados.
É uma alternativa mais flexível às experiências testadas em países europeus como Itália e Espanha que generalizaram a proibição de circulação de pessoas intrarregional  e interregional. A proposta teve um embasamento teórico de “Como reabrir economias nacionais durante a crise de Coronavirus”, da consultoria americana McKinsey&Company, e Restrição do Contato social durante a Pandemia de Covid-19.
Com isso se pretende conseguir chamar pessoas de volta ao trabalho mais rápido, preservar sua saúde e garantir sua subsistência.


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Nação e Heróis. José Mauricio de Carvalho - Academia de Letras de São João del-Rei



Tempos extremos suscitam o heroísmo. Infelizmente também promove o contrário. Viktor Frankl dizia que nas situações extremas da vida as escolhas separam os santos e os porcos. E nós precisamos demais dos primeiros.
Nesses dias em que o mundo enfrenta uma pandemia, heróis são fundamentais. Quanto mais difícil o momento, mais precisamos deles. Eles estão agora entre profissionais de saúde, trabalhadores que precisam manter serviços essenciais e pessoas que apoiam os mais vulneráveis.
Fui educado numa limitada visão de democracia que ensinava que um povo não necessita de heróis. Foram precisos anos de experiência e um genial pensador espanhol chamado Ortega y Gasset para mostrar que não é assim. Uma nação necessita de heróis para guiá-la, lidera-la e mantê-la de pé. A democracia, é uma forma de organização política e é ótima quando não impede a liberdade e os talentos individuais. Em resumo, uma democracia que respeita a liberdade, para não adoecer, não pode ir além da organização política, não pode alcançar, disse Ortega (Democracia Morbosa, Obras Completas, v. II, 1988, p. 135): “a religião e a arte, (...) o pensamento e gesto, (...) o coração e os costumes (sendo nesses casos) a mais perigosa doença que pode padecer uma sociedade.” Poucas coisas são piores para um povo que, em momentos de crise, possuir uma legião de porcos, como disse Frankl.
A lição de Ortega sobre democracia, somada ao que ele escreveu em dois livros clássicos; España Invertebrada (1921) e A Rebelião das Massas (1930), mostra que pessoas notáveis são chamadas a liderar a sociedade. Ninguém lidera em todas as áreas, apenas alguns se destacam em cada uma: o artista nas criações estéticas, o prático nas atividades tecnológicas, o gênio nas criações científicas e filosóficas, o ético nos movimentos sociais e também o santo. Essas são formas diferentes de ser herói. Viktor Frankl relata em Em busca de Deus e questionamentos sobre o sentido a atuação de médicos na Segunda Guerra (2014, p. 90): “minha tarefa é testemunhar diante de vocês como médicos vienenses passaram fome e morreram; dar testemunho de verdadeiros médicos que viveram como médicos (...) que não podiam ver os outros sofrer, não podiam deixar sofrer”. Esses médicos foram heróis.
O mês de abril é um tempo bom para falar de heroísmo, não apenas porque se recorda a morte de Tiradentes, que deu a vida pela liberdade do país, mas porque se comemora a vitória da FEB em Montese, que, se não foi significativa como a de Fornovo, foi marcada pela bravura e onde, em pouco tempo, morreram quase quinhentos brasileiros. Veio depois da Batalha de Monte Castelo, que se arrastou por três longos meses e onde morreram mil militares. E ocorreu antes da de Fornovo ocasião em que soldados da FEB aprisionaram a 148ª Divisão Alemã e parte de uma Divisão Panzer no total de quase 15 mil soldados alemães. Esses brasileiros morreram, como tantos outros já haviam feito em nossa história, para termos uma nação forte.
Que nosso povo veja surgir muitos heróis nesses dias e que eles sejam, para os outros brasileiros, exemplo e inspiração.


sexta-feira, 1 de maio de 2020

REUNIAO NO CEMITÉRIO DE PRAGA – CIENCIA, FILOSOFIA E TEODICEIA. Selvino Antonio Malfatti





Tudo que o que as ficções científicas projetaram estão se concretizando. Em “1984” projetou-se uma sociedade completamente vigiada e direcionada pelo Grande Irmão, Estado. O Estado via tudo, inclusive a intimidade das pessoas até mesmo as relações amorosas.
Depois do Covid-19, China e Coreia implementaram programa de vigilância biométrica sobre a população. O simples acesso facial pode levar ao conhecimento dos mínimos detalhes de cada indivíduo: gostos pessoais, comida, política, sexo, lazer e outros. Isto foi possibilitado pelos algoritmos. São capazes de detectar não só nossas preferências on-line off-line, mas cruzar estes dados com nossos movimentos, nossas emoções.

Fomos apossados pela tecnologia como um vírus, pois no dilema entre a privacidade e saúde optamos por esta e entregamos à ciência nossa intimidade como nosso Genoma. A ciência assumiu o topo de nossos valores. Ela só explica o aspecto físico, material para a doença e a morte. Mas é só isso? Os outros aspectos, os “meta físicos”, descartados sumariamente e a priori. Alguém se lembrou de perguntar algo à filosofia? Onde está a filosofia com seus conhecimentos metafísicos? Ela poderia dar uma resposta.
No entanto, ambas, após 40 dias de pandemia, ciência está às moscas perante o vírus. A ciência, no alto de seu pedestal, não consegue vencer uma bolha que invade um corpo humano. Milhares, já se aproximando do milhão, de pessoas estão morrendo como insetos infectados pelo COVID-19. E a ciência arrasta-se sem sucesso no encalço do vírus.

A filosofia imoblizada, com toda sua soberba em afirmar o “homem é isto”,  o “homem é aquilo” está muda diante da bolha que devasta sem dó nem piedade os seres humanos.
A teologia ou teodiceia? O que diz? Ela que quer estabelecer um elo entre a criatura e o criador sente-se desprezada em seus esforços para comover o sobrenatural.
E a bolha graxeia coroada continua impassível ceifando vidas!

Não será necessária uma reunião ugente no Cemitério de Praga de Ciência, Filosofia e Teodiceia para ver o que cada uma poderia colaborar? Reunir os maiores sábios do mundo e abrir o jogo. Representantes de Roma, Paris, Londres Washington, Madrid, Lisboa etc.etc.etc. para assinar um Protocolo gnosiológico  e restabelecer o diálogo entre as áreas do conhecimento. A ciência representando o universo; a filosofia, o homem; e a teodiceia, o sobrenatural.

 No período clássico dos gregos e romanos, ciência e filosofia entrelaçavam-se, seguindo o modelo traçado pelo médico - filósofo, Aristóteles.Ciência e filosofia complementavam-se. A religião era algo separado da ciência e filosofia. No entanto, entre filosofia e ciência havia intercâmbio.

Após este período, a filosofia imiscuiu-se com a religião. Nesta relação, a filosofia perdeu seu norte ao abandonar a comprovação como critério científico. Santo Tomás tornou-se o protótipo: Filósofo e Teólogo.  O critério de conhecimento passou ser a Autoridade: diz a Escritura. A partir de então a filosofia foi absorvida pela religião. Embora não tenha sido a filosofia, mas a religião que foi vencida pela ciência, a ciência descartou as duas.

No advento do Renascimento, quando as duas poderiam ter retomado as relações, preferiram seguir seu próprio caminho como duas bicudas que não queriam e não podiam se beijar.

Atualmente entreabriu-se uma porta de acesso. Trata-se da mediadora Ética que abre o diálogo entre a filosofia e ciência. E precisamente no mesmo ponto que Aristóteles estabeleceu a conexão: medicina e ética. Justamente a ciência médica foi buscar o socorro e convidou a ética para dialogar. 

Por isso, atualmente há novamente uma aproximação entre filosofia e ciência. Grandes cientistas são também grandes filósofos. Quando a ciência chega ao limite do conhecimento, aciona a filosofia pedindo para mostrar-lhe o caminho a seguir. A ciência busca o “scire ens”, saber o que é a entidade do ser. A ciência jamais conseguirá captar o ser, apenas o contornará, pois o ser é “Meta físico” e a ciência somente poderá chegar ao físico. O “meta físico” é invisível, quando na verdade é ele que conduz a nossa mente. Esta conduz nossa vida. A causa do visível é o invisível. Se me proponho a ir a um lugar (visível) minha mente traçou o caminho (invisível). Basta o visível seguir o invisível. Isto foi até hoje.

A partir deste momento entramos em outra dimensão com a permissão de explorar nosso íntimo. A técnica já era conhecida, o algoritmo, mas ainda não havia sido utilizada para este fim. O algoritmo, como uma receita de conhecimento prático, é capaz de criar a ponte entre o invisível de nossas mentes e o visível de nossos “data” biomédicos e a partir disso direcionar nossos comportamentos. As informações disponíveis poderão ser usadas na manipulação de comportamentos desejados por quem detém os “data”.

A questão que se coloca é: existe uma entidade invisível, próxima à nossa alma, capaz de rastrear o que os algoritmos estão operando? E que seja capaz de detê-los quando passarem dos limites? Que a consciência tenha capacidade de dizer não às ciladas, embustes, armadilhas dos “data” inseridos no programa para dominar nossas ações visíveis. Em síntese, a Liberdade pode estar à salvo dos algoritmos e cintilar soberana a cima das pressões dos programas dos algoritmos? A consciência soçobrará às investidas do visível sobre seu invisível? Ficará a salvo a intimidade? Estamos, portanto, diante de um mundo de incertezas, vislumbradas por Heisenberg.  Os “data” inseridos na consciência poderão ser controlados ou mesmo parados quando desejarmos? Se o mundo e a consciência já estão cheios de incertezas, imaginem quando começarmos a manipular as incertezas!

Nossos sentimentos ainda poderão ter autonomia? Conseguiremos afastar o entulho dos programas e conhecer a nós mesmos? Isto a afetará não somente nossas consciências pessoais como a consciência coletiva de que fala Jung. Mais do que nunca os algoritmos estão prestes a apoderar-se da consciência coletiva e controlar a mente humana. Isto poderá acontecer com indivíduos sem autonomia, escravos de seus próprios estereótipos de seu sistema de referência.

A filosofia deve marcar presença para garantir a vida do espírito, o princípio ontológico da natureza humana, com o mundo do Ser e não do devir. É preciso que o vir-a-ser de Heráclito esteja em sintonia com o Ser de Parmênides. Só assim, evitará que os algoritmos elaborem e implantem programas sociais voltados a eliminar o que ainda resta de humanos.
Por isso faz-se necessária uma runião urgente dos sábios do mundo inteiro no Cemitério de Praga para salvar o universo e o homem.




sexta-feira, 24 de abril de 2020

Os primeiros passos de uma consciência nacional. José Mauricio de Carvalho



O novo corona virus (covid 19) contaminou as sociedades nacionais como numa sequência de queda de dominós, dessas montadas para promover a admiração das pessoas. Uma a uma foram contaminadas as sociedades nacionais e, com rapidez assustadora, espalhou-se pelo mundo a morte, o medo, a angústia e a insegurança. Temerosos assistimos as notícias de morte nas sociedades primeiramente contaminadas e que nos antecederam no pico da contaminação. Nelas a doença provocou o colapso da vida econômica e social, contaminando indistintamente ricos e pobres, cultos e menos cultos, cidadãos e camponeses.
Na medida em que o medo e a angústia passaram a povoar os corações dos povos, os governos orientaram seus cidadãos a permanecerem em casa, evitando um contato que espalhasse mais rapidamente a doença, antes que o sistema de saúde estivesse minimamente organizado para combater a epidemia. Algo assim começamos a viver em nosso país.
Em meio ao temor pela contaminação, experimenta-se o paradoxo representado por adotar medidas de proteção social para poupar vidas e depois vê-las destruí-las pelo desemprego e desespero. Com a economia quase parada e as vidas estagnadas, começa a crescer um temor secundário, nas pessoas isoladas em suas casas. Não mais o medo do vírus, mas do perigo que representa uma sociedade com milhões de desempregados, cujas vidas foram despedaçadas pelo desemprego e paralização da economia.
Nesse tempo de crise intensa começa nosso Estado, seu povo e seu governo a tomar as primeiras lições de vida nacional. Em meio ao sofrimento e a insegurança geral reduz-se os antagonismos verificados na recente polarização política das últimas eleições, perde força o discurso fascista, elitista, que discriminava os pobres e fazia apologia da violência, do terror e da discriminação. Discursos incapazes de reconhecer nos cidadãos a condição de pessoa humana, embora ainda circulem pelas redes sociais milhares de notícias falsas que minam a democracia e as bases da sociedade nacional.
 Assistimos o ministro da economia dizer que ninguém será deixado para traz em alusão às muitas medidas de proteção social que precisarão ser desenvolvidas. Utiliza uma frase típica de militares em combate para se referir aos colegas feridos.
Essas primeiras iniciativas são ainda muito tímidas. Estamos nas primeiras semanas do ensino fundamental da nacionalidade, estamos escutando as primeiras lições do que significa ser uma nação, possuir objetivos nacionais acima de partidos políticos, construir metas de estado e objetivos maiores que os interesses de grupos. Uma nação precisa disso, algo maior que interesses. Precisamos de uma prática política capaz de conceber objetivos gerais para a sociedade, não à imagem de um passado de discórdia, mas de um futuro em que nos pensemos como povo.
Não é preciso que a sociedade seja comunista, nem é necessário padronizar vidas e comportamentos de uma espécie com indivíduos únicos, basta que os homens dessa terra aprendam a viver como companheiros de destino, ajudando-se diariamente em meio, não a grandes crises, mas aos problemas comuns da vida.
    

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