sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O Individualismo liberal e o niilismo existencialista. Selvino Antonio Malfatti.





Na concepção liberal, o individualismo é no sentido de libertar cada ser humano das cadeias que o prendiam dentro do sistema feudal em suas várias dimensões: política, econômica, religiosa, moral e jurídica. Foi de propiciar às pessoas a possibilidade de fazer suas escolhas de como viver em sociedade. Em nenhum momento negou-se a vida social, ao contrário sempre se a pressupôs. A meta era como sair do estado de natureza (sem nexos sociais) para viver em sociedade. O individualismo liberal quer uma convivência social pautada pela racionalidade.
Por sua vez, uma parcela do existencialismo - o ateu, como em Jean-Paul Sartre - nega qualquer liame social pulverizando os indivíduos. Para esses, o lema é “proibido proibir”. . Então, cada um pode seguir seus próprios impulsos e instintos. Deste pensamento emergiu uma desconfiança generalizada sem esperança de salvação. Os valores são abolidos, aliás, o único valor é apropria vontade. Neste afã, os indivíduos lançam-se ao consumismo e na busca de compensação nos bens materiais. Como consequência nasce uma sociedade psicopática, “impolítica”, que se alimenta da raiva social. Termos, então, um ambiente que cada um individualizou para si o conflito e ao mesmo tempo tornou-se incapaz e administrar os problemas. Tudo o que se opuser à satisfação individual deve ser destruído. Esta proposta de um existencialismo nihilista produz o “abestamento” social, o único guia comportamental é o instinto.
Em hordas ou individualmente estes grupos destroem tudo o que encontram pela frente: praças e calçadas, ornamentações. Jardins e árvores são arrancados ou pisoteados.  Picham prédios e residências, sujam calçadas, inclusive fazem necessidades em locais públicos. Todo cidadão evita-os.
Onde estão o uso de álcool e drogas é generalizado.
Famílias não podem mais usufruir de lugares públicos como praças, pois estão tomadas de pessoas nuas, outras fazendo sexo explicitamente e publicamente. Associam todo tipo de droga com prostituição, tanto homo como heterossexual.
Armas de fogo ou armas brancas são vistas ostensivamente , com fogos de artifício e explosivos
Veículos com capôs abertos e som ligado às alturas. Nas redondezas ninguém consegue ter sossego e muito menos descansar. Carros em alta velocidade colocando em risco pessoas e outros veículos. Quem se atrever chamar atenção é agredido brutalmente.
Todos são obrigados a desviar ou se afastar destes grupos ou indivíduos. É o que está acontecendo com boa parcela de nossa sociedade. Para eles o importante é viver o agora, sem se importar com os demais. Valores são abolidos como ponderação, respeito, bom senso. Ninguém pode atravessar seu caminho. Ninguém pode negar nada. O objetivo deles é usufruir ao máximo de si, dos demais e do ambiente.
Há esperança de sair deste estado hobbesiano?  Pode-se pensar num abandono pacífico destes princípios, ou através de um rígido stalinismo, ou, quem sabe, os acenos neonacionalistas? Qual a alternativa capaz de romper o círculo vicioso?
Se analisarmos a fundo a questão o problema reside não só na ignorância como no “abestamento” social. Alguém pode ser ignorante, mas não agir como irracional, guiado pelos instintos. Abestamento social é quando uma determinada sociedade abandona a racionalidade e se deixa guiar pelos instintos. Neste sentido por mais ingênuo que pareça, a única saída ainda é a tradicional, isto é, instituir a racionalidade pela educação e ensino na produção de bens, serviços, cultura, informações, como afirma o sociólogo Mauro Magatti, no livro Mudança de Paradigma.
 
. É preciso contrapor a racionalidade ao abestamento. Se alguém disser que determinado produto é artístico, submeta-se ao critério racional e não ao emotivo. Por que o nu do Davi de Miguel Ângelo é uma obra de arte? E outros nus não são? Por que, aplicando-se a análise racional, se chega a esta conclusão. O objetivo de Miguel Ângelo não é o erotismo, mas a beleza da criatura humana, como obra prima divina.

Evidentemente que isto não acontece do da noite para o dia. Leva tempo. Talvez a geração que inicia não veja os frutos. Mas é preciso algum dia iniciar.

domingo, 22 de outubro de 2017

MODERNIDADE DEIXOU PARA TRÁS A FRATERNIDADE. Selvino Antonio Malfatti.

















A implantação da modernidade deu-se sobre três pilastras: liberdade, igualdade e fraternidade. A liberdade para fazer suas próprias leis, a igualdade de todos junto às mesmas leis e a fraternidade seria um ethos que cimentaria a união.
 “O individualismo faz as almas desmoronarem. A sociedade nasce com o Nós”.  É o que afirma o presidente da Pontifícia Academia pela Vida, Monsenhor Vicenzo Paglia, no livro a Derrota do Nós, (Il Crollo del Noi).  Sua hipótese tem como fundamento uma passagem bíblica, do Genesis, que diz: “não é bom que o homem fique só”. Conforme ele, na modernidade foi esquecido o Nós, a base da convivência social e da fraternidade. Foi uma promessa que a modernidade acenou, mas não foi cumprida.
Não se pode dizer que a liberdade e igualdade tenham vingado plenamente, mas se pode constatar que a fraternidade é a mais prejudicada. Isto porque o Nós vem depois do Eu proprio. O Eu vem depois do Nós. Embora seja  gerado pelo Nós, O Eu faz parte do Nós, integra-o.
Estamos no processo de construção de um mundo global, mas o perigo está que lhe falte a alma. Deve haver uma razão para tamanha dimensão. Há uma profunda contradição nesta tarefa: o advento de um mundo global coexiste com a desintegração da sociedade de convivência, a forma associativa da vida, da família, da comunidade e da nação. O drama catalão está aí para confirmar o fenômeno. Assistimos a proliferação de um novo individualismo que direciona tudo para si mesmo. É como se um vírus tivesse infectado e desintegrado o estar juntos, a convivência.
Apesar de tudo a família ainda resiste, mas até quando? Como se pode perceber é dela que emergem as contradições, onde os liames se enfraquecem progressivamente. As pessoas casam não para construírem um futuro comum, porém casam-se para se realizarem a si mesmos, até que os laços se enfraquecerem e se rompem. A prova deste narcisismo é tão escancarada que se chegou ao absurdo de um homem ou, uma mulher, casar consigo mesmo. Vê-se que o objetivo do individualismo foi alcançado. Nem a família resistiu e teve que dobrar-se.
Conforme Paglia, Deus cria um ser perfeito, mas se da conta que é um ser solitário. Este foi um erro de Deus. Então redobra de cuidados e cria sua obra prima: a mulher. Diante dela Adão cai de joelhos. Estabelece a aliança de ambos, isto é, do homem e da mulher. Erige então seu plano Providencia, confia a eles não só a condução da família, mas toda história humana. Se esta aliança não estiver bem, a própria história estará mal.
Perguntado sobre a questão da imigração se a Igreja que a defende não perdeu a sintonia com a opinião pública, responde que cabe à Igreja defender o acolhimento, pois todos necessitam dos outros. Basta interpretar a Parábola do Samaritano, diz ele. À pergunta “quem é meu próximo”, responde que cada um deva ser o próximo do outro. E o próximo do próximo é o vizinho. É por isso que se deve acolher o imigrante. É o começo para cimentar o Nós. Se se recusar o irmão é como se numa casa o filho único não se aceita a presença de mais um. Temos que reinventar a proximidade, repartir com os vizinhos mais descartados, os periféricos, como diria o papa Francisco.
Paglia faz um convite para recompor o sentido da fraternidade entre os seres humanos, de todos os credos, raças, gêneros e lugares. É o aceno para instituir uma sociedade global alicerçada sobre o amor.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Dando destaque. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei




A imprensa tem papel fundamental nas sociedades democráticas. Ela leva ao público informações que orientam cada cidadão em suas escolhas. Também funciona controlando autoridades públicas que ficariam em cômoda invisibilidade sem o público acompanhar o que se passa nos meandros do Estado. Assim, há um conflito de interesses entre o público que deseja a verdade e políticos que querem ocultar seus atos. Esse conflito de interesses se explicita quando envolve dirigentes envolvidos em esquemas de corrupção e violência.
Se esse importante trabalho da imprensa merece ser destacado e elogiado, pois a desonestidade não traz benefícios para a sociedade, muitas vezes a imprensa é parcial e divulga seletivamente os fatos. Quando a imprensa se afasta da verdade contribui torna confusa e lança na ignorância a opinião pública. É preciso notar que a opinião pública não é apenas uma opinião sobre os assuntos, é também espaço de educação. Um povo se educa quando conhece seus problemas e os discute de forma honesta. Portanto, a opinião pública é mais que um fórum de opinião, ela é lugar de desenvolvimento intelectual pelo livre debate de ideias. Quando a imprensa não colabora para essa educação coletiva falha gravemente, ainda que informe o acontecido. Por isso, é importante que a mídia abra espaço para filósofos, religiosos e cientistas exporem suas análises dos problemas e seus pontos de vista sobre os diferentes assuntos que preocupam a sociedade.
Contudo, a parte dessas missões da imprensa, nem sempre cumpridas com a exatidão e a honestidade desejadas, há uma triste estratégia atual da mídia que está sendo crescentemente usada. Trata-se da repetição do desastre para promover o doentio gozo no sofrimento. Quanto mais triste o fato, quando mais chocante o ocorrido, mais os jornalistas se revessam repetindo a mesma história, com pequena variação de detalhes. Assim, a mesma notícia é repetida dezenas de vezes, mostrando os mesmos acontecimentos horrorosos. Em contrapartida, fatos fundamentais para a sociedade, aquilo que revela o melhor de sua parte íntima fica escondido ou é mal comentado. É importante mudar isso.
Assim, enquanto a imprensa escrita e falada insiste nas mortes das crianças, repetindo seus nomes e idades, enquanto os jornalistas esmiúçam a vida do vilão da tragédia ocorrida no Centro Municipal de Educação Infantil Gente Inocente, na cidade de Janaúba, no norte de Minas Gerais, desejo destacar a reação das pessoas comuns. Trabalhadores que passavam pelo local e que procuraram ajudar as crianças feridas, a dedicação das equipes de saúde, a solidariedade da população com as famílias atingidas, todos se envolveram para responder a tragédia. Mas tragédias tem heróis, nem sempre suficiente reconhecidos. Nessa tragédia de Janaúba, entre as professoras e funcionários do Centro Infantil que socorreram os feridos, a professora Helley de Abreu Silva Batista entrou e saiu mais de uma vez da cena do desastre, com o corpo em chamas, salvando várias crianças. Ela morreu , mas salvou vários alunos. Sua atitude de respeito ao próximo e solidariedade ao sofrimento é o comum para a maioria dos funcionários públicos comuns do país. A ela deve ser dado destaque e ao seu ato heroico. Seu heroísmo precisa ser enaltecido para envergonhar a meia dúzia de dirigentes ladrões da sociedade. A professora Helley, nossa gratidão por mostrar quem são, de verdade, as pessoas que fazem o país. Nossa gratidão por nos mostrar que apesar de líderes que envergonham e políticos que não nos representam, cidadãos comuns vivem a generosa face da moralidade.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

SOCIEDADE QUE SE AUTO INSPIRA E INDIVÍDUOS ATOMIZADOS. Selvino Antonio Malfatti.





O historiador alemão, Jacob Burckhardt, no estudo das civilizações antigas constatou um fenômeno genuinamente peculiar com a cidade-estado de Esparta: o poderio de Esparta surgiu de si mesma, por autoafirmação, pelo seu gênio interno de submeter e exterminar os povos submetidos como um fim em si mesmo. Era uma sociedade que emergia de sua própria energia, um pathos peculiar que a fazia diferente das demais. Haja vista a vizinha Atenas que desenvolvia uma democracia, cultivava a liberdade e prezava a igualdade, culminando c om a democracia liberal do século XIX.
O germe de Esparta não morreu nem se perdeu na história. Ressurgiu com toda força no decorrer do século XIX, e ainda está em curso. Apresenta-se como um movimento contra tudo que pudesse evocar o “religioso”. Pode ser caracterizada como uma sociedade laica, sem necessidade de ditames externos, para se tornar ela mesma um quadro de referência para qualquer significação. Na sua fisiologia e estrutura as explicações e razões se deveriam buscar no interior de si mesma.
O modo de ser político, econômico, jurídico assume formas as mais divergentes. Na economia como capitalismo ou socialismo; na política, democráticas ou ditatoriais; jurídico, como protecionistas, liberais ou militares. Em qualquer circunstância sempre devendo ser consideradas como variantes da própria sociedade. Parece que a sociedade foi amputada da capacidade de ver mais longe do que a si mesma. A capacidade de buscar referências externas foi extirpada. Colocou-se numa posição de viver a cima do bem e do mal.
Apesar de estender-se a todos os regimes esta maneira de viver em sociedade é na democracia que encontra o melhor solo para germinar. Nesta forma de governo, o sumo da felicidade consiste em viver e favorecer a máxima liberdade. Na democracia é possível o pensar, decidir e proceder que emergem da sociedade em si mesma. Todos os modos de pensar são legítimos, exceto aquele que pretende revogar a democracia. Sinteticamente Thomas Jefferson definiu como: o preço da democracia é a eterna vigilância. Qualquer cochilo pode acarretar-lhe a morte. Um exemplo histórico foi o que aconteceu na Alemanha em janeiro de 1933, Hitler, que convenceu de ele e somente ele poderia salvar a Alemanha. Foi o golpe mortal contra a democracia alemã. “Viva a Alemanha, o povo e o Reich!”. Engenhosamente Hitler introduz um elemento fora da sociedade, transformado em teologia, que se torna política, a qual se torna totalitária.
Mas este processo político, como modelo, vai se estendendo a todos os níveis. Sem o temor do mistério a sociedade se recusa a aceitar a realidade e a proposta se torna apenas acadêmica. Não encontra palavras para definir, conforme regras consagradas, a sociedade envereda para a superstição nova e insinuante: a superstição de si mesma, difícil de perceber e dissolver, pois qualquer tentativa é considerada preconceituosa. Quem se opuser é in limine escrachado e marginalizado.
Os piores desastres aconteceram e acontecem quando a sociedade secular resolve tornar-se orgânica, aspiração recorrente de toda sociedade que desenvolve o culto de si mesma, calcada sobre as melhores intenções. Sempre tendo como pano de fundo a Perda do Paraíso e modernamente a perda da bondade de Rousseau, ou a concórdia de Marx, Saint- Simon, Hitler e Lenin. Visionários do Orgânico, do belo. Para eles a atomização da sociedade é considerada uma maldição. Ninguém se dá conta que é justamente nisso que consiste a autodefesa dos males mais graves. Nesta sociedade atomizada não é preciso que a polícia secreta bata a porta às quatro da manhã, pois ela mimetiza sua segurança.
Atualmente esta tendência evolui no sentido de a individualidade assumir as mesmas características do orgânico.
Como uma tendência antípoda do orgânico e igualmente contrário à democracia, e dentro dela, está se manifestando aqui e acolá uma postura anárquica, isto é, uma reação negativa não só externa à sociedade como o que emana da sociedade. É uma tendência de atomização total da sociedade sem nenhum vínculo de coesão. Tudo o que vier fora de si próprio, do indivíduo é condenado. É um movimento novo, ainda não individuado totalmente. As palavras mais comuns para mostrar a repulsa de tais indivíduos à postura do bom senso é “fascista”, “moralista”, “escroto”, “reacionário”, conservador, asqueroso etc. Ninguém pode opinar em questões de gênero,  sexualidade, arte, política, educação, drogas. Até mesmo a pedofilia é defendida. Dentre os ativistas mais atuantes está o grupo LGBT. Os valores da democracia, para estes indivíduos, são disfarces de dominação .  Causa estranheza que tais atitudes não floresçam na Rússia, China, Cuba, Coreia do Norte, Indonésia mas em sociedades livres. São sofistas da época atual.
Algumas questões podem ser postas:
1.    Mudanças são necessárias, mas será a partir de terra arrasada?
2.    O movimento inclui o desfrute ao máximo tudo o que se apresenta.: o próprio corpo, meio ambiente, família, sociedade, sem limites. E as gerações futuras?
3.    Os movimentos que tentam conter tal onda (sic?) conseguirão freá-lo pacificamente? Religiões, Grupos organizados, poder judiciário?
4.    Disso advirá uma nova ordem?

Uma assistente social que atende adolescentes encaminhados pela justiça dá um depoimento sobre o estado anárquico e as perspectivas de recuperação. Diz ela que observa, a partir dos atendimentos, uma sociedade profundamente perdida, esperando que surja alguém que diga qual o caminho?
Diz que seu trabalho é avaliar as situações, orientar mostrando as possibilidades de mudanças, que se ganha ou se perde, mas cada um precisa e deve saber de suas carências e dificuldades. Vê o quando ficam frustradas esperando algo magico, como uma pílula que resolvesse e extirpasse toda dor ou sofrimento.
A salvação para uma sociedade não se perder, seria o fortalecimento da família, onde se transmite valores, regras e o respeito ao outro.
As famílias estão minúsculas, os irmãos aprendiam uns com os outros, principalmente dividir companheirismo, livros, brincadeiras etc
Mas as famílias estão deixando suas crianças nas creches, terceirizadas e sendo cuidadas por pessoas que não formam vínculos, um bebê, sem o aconchego, será um adulto inseguro o emocionalmente,  fragilizado.  Hoje existe um movimento para as escolas prepararem as crianças para lidar com as perdas e frustações, assim serão adultos preparados para viver em sociedade.
O desfrute onde o ser que se consome no vazio de sua existência, numa procura incessante do prazer, nada mais é que o vazio da vida. Vejo uma sociedade sem regras, sem autoridade, sem leis que devem ser respeitadas. Isto possibilitaria a formação de cidadãos cientes de seus deveres, conhecedores de seus direitos, mas com uma grande consciência de sociedade participativa e honesta consigo mesma. (I.R.S.)


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

José Mauricio de Carvalho. Martin Buber e o diálogo – Academia de Letras de São João de Rei.





Em razão do acima dito, o encontro parece ser o combustível da atividade filosófica, necessário alimento para pensar depois que o indivíduo se enamora do mundo e de seus problemas. Então, quando já está apaixonado pela verdade última que amarra todas as outras verdades, como o adolescente fica obcecado em seu primeiro amor, o pensador pode iniciar o encontro com a tradição de pensamentos pensados, desafiado a fazê-lo por conta própria. Então poderá responder aos desafios que descortina em sua existência e vislumbra na cultura do seu tempo. Se a Filosofia é aproximação da verdade pelo desvelamento de seus aspectos no tempo, o encontro com os filósofos é o que alimenta essa aproximação.
Assim, é particularmente inspirador quando um filósofo faz do diálogo o objeto não só do encontro com a tradição filosófica, mas da própria condição humana que se mostra no encontro com o mundo e os outros. Essa foi a problemática de Buber. Foi o que
procuramos mostrar no livro Martin Buber: a filosofia e outros escritos sobre o diálogo e a intersubjetividade. Esse filósofo, no seu livro no livro mais importante: Eu e Tu, descreve o encontro que tece o homem. Ele revela, naquela obra, sua inspiração fenomenológica e sua fé profunda no diálogo. O diálogo maior é direto com Deus a quem se fala e, sobretudo, a quem se escuta. O diálogo com o Grande Tu assegura o travamento necessário para à vida instável. No diálogo se resume o homem, nas relações que estabelece com as coisas (relação Eu – Isso) e no encontro com os outros homens, (relações Eu – Tu). Nessas duas palavras-princípio se expressa a ontologia da relação, o homem se faz no que está entre o Eu e o Tu, tema desenvolvido em outra de suas grandes obras: Do diálogo e do dialógico. Esse entre resume o encontro, o que é verdadeiramente real nas relações. Na primeira lição de Eu e Tu, Buber resumiu as relações humanas em dois pares de vocábulos. São eles respectivamente: Eu-Tu e Eu-Isso, sendo o Isso substituível por Ele ou Ela, objeto de quem se fala, mas não a quem se fala e de quem se escuta. Todo verdadeiro viver nasce no encontro, no entre, esse é o ponto fundamental de nossa realidade. Para Buber, quando se fala Tu ou Isso, pronunciam-se palavras-princípios, que resumem as relações possíveis com o que está à volta do Eu.

Encontramos nesse autor não apenas os elementos para um diálogo com a tradição filosófica, mas para pensar o significado de nossa humanidade no diálogo.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A IMPORTÂNCIA DA FILOSOFIA NA ATUALIDADE. Selvino Antonio Malfatti


















Em 2002 foi instituído pela UNESCO o Dia Mundial da Filosofia, na terceira quinta-feira do mês de novembro. O objetivo de celebrar tal data foi de demonstrar a importância da Filosofia para a vida humana e convivência social.

O físico inglês Hawking afirmou recentemente que a Filosofia estava morta. Claro, o mesmo se poderia dizer da física. Como assim? Depende de que filosofia e de que física. A filosofia cosmológica está morta e o mesmo se pode dizer da física com base na cosmologia. O que se quer dizer que cada área de conhecimento tem um objeto específico. A física teria por objeto as leis básicas do universo e a filosofia os princípios da convivência humana. Ou, como afirma chefe da agência da ONU, Irina Bokova, “em um mundo de múltiplas rupturas, a filosofia desempenha um papel essencial no pensamento e na ação pela dignidade humana e harmonia”. Para tanto se alça à casuística do “hic e nunc” para encontrar o que é específico no homem, isto é, sua dignidade. E isto o faz pela filosofia. 

Evidentemente que existem várias teorias filosóficas, mesmo aqueles que a negam, mas a supõem. O que não se pode fazer é julgar um objeto específico do conhecimento pelo outro também específico. É o caso do físico Hawking que ao raciocinar sobre a morte da filosofia baseou-se na física. 
Enquanto a maioria dos países europeus tem convicção sobre a importância do estudo da filosofia, no Brasil, provavelmente devido à origem portuguesa, não há a mesma crença. O pensamento filosófico português somente adquiriu independência do católico no final do século XIX e ainda assim optou pelo tecnicismo, o qual foi transferido para o Brasil. A partir daí o pêndulo balançou entre o tecnicismo e humanismo, mas o currículo oficial sempre deu preferência ao tecnicismo. Quem manteve a chama acesa do humanismo foi o ensino privado.

Atualmente a Reforma do Ensino do Brasil prevê a desobrigação do ensino da Filosofia nos currículos. Isto evidentemente é um retrocesso, uma volta ao pensamento tecnicista dos governos militares. É o alijamento, mais uma vez, do conteúdo humanista. Retrocederemos à Reforma do Marquês de Pombal quando o Brasil ainda era colônia de Portugal. O preconceito contra a filosofia acompanhou todas as reformas do ensino no Brasil. 

A mais próxima da independência, a Reforma de Pombal consagrou o tecnicismo. A da República, embasada no positivismo como o suprassumo do preconceito contra a filosofia, deixou de compor o currículo. Já na década de Trinta passou a fazer parte do currículo do ciclo complementar. Na Reforma Capanema, nos anos quarenta, com a divisão em ensino científico e colegial a filosofia aparece neste último. A reforma do período militar colocou a filosofia na mira, novamente, do tecnicismo e consequentemente a filosofia foi paulatinamente se extinguindo do currículo.  LDB de 1996 contemplava a filosofia no currículo mas a presente reforma em curso, novamente a disciplina recebe um tratamento secundário, senão excludente.

Para ver como a filosofia é importante apresentamos um elenco de filósofos da atualidade de diferentes países, inclusive ingleses e americanos países, de pensamento de cunho essencialmente pragmático. 

Isto nos leva a refletir como Aristóteles em Protético:

“Se se deve filosofar, deve-se filosofar, e se não se deve filosofar, deve-se igualmente filosofar para argumentar que não se deve filosofar”.

Alguns filósofos da atualidade:

G. E. M. Anscombe , A. J. Ayer , Ruth Barcan Marcus , Isaiah Berlin, Simon Blackburn , Ned Block , Rudolf Carnap , Avram Noam Chomsky , Donald Davidson , Sigmund Freud. , Edmund Husserl, . Henri Bergson, Heidegger, Adorno, Foucault , Habermas entre outros.

Do Brasil: Antonio Paim e de Portugal Antonio Braz Teixeira, ainda vivos.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

AS SEPARAÇÕES DO DIVÓRCIO. SelvinoAntonio Malfatti



Quando se perde um ente querido da família costuma-se preservar o que deixou. Seu guarda-roupa, objetos pessoais, local de trabalho. Foi o que aconteceu com a filha Serena de Giulio Andreotti, falecido em 2013. Passados quatro anos animou-se a examinar o acervo de cartas enviadas e recebidas. Qual seu espanto quando descobriu entre as cartas um romance inédito do pai. Imediatamente, ao saberem, as editoras se interessaram e o romance será publicado em dezembro deste ano pela Nave de Teseo. 

A importância do romance, intitulado, “Il Buono Cattivo” (O Bom Mau), reside na peculiaridade de ser ambientado no fragor da batalha do referendum sobre o divórcio na Itália, em 1974. De um lado o Vaticano contra e de outro um Parlamento e sociedade divididos a favor ou contra.  Este fato histórico significava para a Itália ou continuar um estado quase confessional, e intimamente ligado aos desejos do Vaticano e de outro tornar-se um estado totalmente laico.
O romance assume importância, pois foi escrito, na época, por alguém que foi um dos maiores líderes do partido da Democracia Cristã, exerceu por sete vezes o cargo de Presidente do Conselho (primeiro ministro), senador vitalício. Não escapou as acusações de Mani Pulite por associação com a máfia, no entanto, a justiça não conseguiu condená-lo.

Na época, Andreotti, em que pese ser do partido majoritário, o da Democracia Cristã e recém deixado o governo, não se envolveu “cum ira et studio” na batalha do referendum sobre o divórcio que dividiu a Itália pelo SIM ou pelo NÃO. Preferiu uma atitude sutil, moderada. Provavelmente, como político astuto, já sabia o desfecho, ou previa. Farejava os sinais dos tempos, em que pese fosse católico devoto e frequentador do Vaticano, via que a sociedade não pensava assim. Já não era mais nos tempos de Alcide di Gasperi, o líder político-católico, fundador da Democracia Cristã, perípdo no qual se dizia: Di Gasperi, na Missa, fala com Deus e Deus fala com o padre. Por isso retirou-se estrategicamente e participou a seu modo do confronto. Sem o fervor do líder do partido do Escudo Cruzado, Gabrio Lombardi ,e muito menos deu ouvidos às profecias milenaristas de Amintore Fanfani e outros líderes semelhantes da Democracia Cristã de braços dados com o com alguns outros partidos. Encarou o pleito com frieza, ou por desencanto ou por prever o resultado. Podia-se dizer que estava com os pés no chão, sem ilusões.

No entanto, em que pese sua suposta indiferença e e passividade, o fracasso não estava nos seus planos. A prova está no texto encontrado, escrito no galope do desenrolar do processo eleitoral, abordando questões ético-políticas, nas quais a Itália se engalfinhou ferozmente.

O enredo envolve uma pensãozinha no lago Como. Os personagens: a patroa, a senhora Falconi e os hóspedes. O mais importante, o advogado Pedro Paulo Santulo e o próprio narrador. Além de temas de tribunais eclesiásticos aqui entram outros temas, tornando a narrativa cativante. A filha de Andreotti, ao ler o romance testemunha que se pode “escutar” o pai, claro nas idéias, ora benevolente, ora irônico, consigo mesmo e com os demais.
Na verdade Andreotti não estava de acordo com a consulta popular. Achava que o assunto era ainda prematuro e que melhor seria procrastiná-lo para melhor amadurecê-lo.

A Itália caminhava a passos rápidos rumo à laicização. Um dos parâmetros que podia medir externamente a religiosidade era a participação à missa dominical. Já se podia perceber o rápido declínio neste culto religioso. Quanto ao uso de contraceptivos, o clero posicionou-se contrário. No entanto, a taxa de natalidade diminuía a olhos vistos. Não menos dogmática era a postura em relação ao aborto. Entretanto, os abortos clandestinos aumentavam dia à dia, igualando-se aos nati-vivos. Mas a de maior repercussão, mormente para a Democracia Cristã,  foi a questão do divórcio. 

Em dezembro de 1970, num debate que durou aproximadamente cem horas, foi aprovada a lei da instituição do divórcio. Isso aconteceu graças à união dos deputados  católicos aos deputados dos partidos laicos, desafiando, inclusive, a orientação do Vaticano. Amintore Fanfani, acreditando numa maioria do eleitorado católico, e, que fosse fiel às orientações do partido e da Igreja, propõe a abrogação da lei através de uma consulta popular. A Igreja, porém, parece que percebia melhor a tendência da sociedade despercebida pelo próprio líder Fanfani da Democracia Cristã. Até mesmo no interior do partido havia oposição ao referendum como foi o caso de Flaminio Piccoli. Diante da insistência da Fanfani pelo referendum, a direção do partido, em reunião de 9 de fevereiro de 1974 estabeleceu a posição do partido perante o referendum. Deveria votar pela abrogação da lei embora optasse por manter os temas religiosos fora da campanha eleitoral. Os argumentos contra o divórcio não deveriam ser de caráter religiosos mas de ordem social e civil. Além disso, se deveria manter a porta aberta ao diálogo com os católicos contrários à abrogação, ou os católicos do não. Decidiu-se, também, manter o atual governo bem como a aliança que o sustentava fora da contraposição. Para obter os votos necessários ao SI o governo e seus aliados, fizeram de tudo. O líder do do Partido Socialista italiano, Bettino Graxi, ao ser entrevistado em quem deveria votar dizia laconicamente: vão à praia. A abstenção favoreceria o Si. Mas nada adiantou.
O resultado não podia ter sido mais desastroso para a Democracia Cristã e seus aliados.. Os divorcistas, isto é, os partidários do “No”, pois não queriam a abrogação da lei do divórcio, conseguiram 59,1%, sobre uma população de 88% que compareceu à votação.
As conseqüências se fizeram sentir de imediato:

1.  Divórcio entre a Democracia Cristã e Vaticano. Na prática, romperam relações.
2.  O partido da Democracia cristã fracionou-se internamente.
3.  A Democracia Cristã perde a maioria.
4.  Vários filiados e políticos a abandonaram.. 
5. Perdeu-se a credibilidade nos valores do partido Democracia Cristã.
     6. Os políticos começaram a envolver-se em corrupção.

A partir de então, inicia-se o processo de diáspora dos simpatizantes, uma longa agonia, dissolução e morte da Democracia Cristã.

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