quinta-feira, 1 de abril de 2021

A realidade do mal. José Mauricio de Carvalho

 



Numa life semana passada, para tratar da falta de resignação, organizada do IDE/JF, meu amigo Dr. Ricardo Baesso comentou a realidade do mal e, ao lembrar uma conversa antiga que tivemos, me colocou na circunstância de revisar o assunto numa perspectiva judaico-cristã não reencarnacionista. Revisar sempre no espírito do que está em Zc. 8,16: “Estas são as coisas que deveis fazer: falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas.” No programa, Ricardo mencionou, com seu habitual brilhantismo, algumas explicações para o mal que entende como: expiação, provação, abertura à transcendência, evolução e missão pessoal.

Tomar o mal como objeto de análise racional não é tarefa simples, mas devemos partir do reconhecimento da sua existência. Ele é tão real que tive um amigo padre que dizia que geralmente via-se em dificuldade para explicar a existência de Deus, mas para mostrar a existência do demônio não tinha problema algum. O mal estava sempre próximo dele e do interlocutor. Á parte a ironia, o assunto merece atenção e cuidado e ser tratado no real e verdadeiro propósito de buscar a verdade.

O essencial do que mencionou Ricardo na sua apresentação é compatível com uma visão cristã católica do problema, por exemplo, o entendimento de que o mal pode ser a ocasião de uma abertura para a transcendência (Deus), que ele pode permitir o desenvolvimento pessoal e/ou ajudar a pessoa a descobrir uma missão de vida. No entanto, creio que essa mudança pessoal será possível se o indivíduo tiver encontrado um sentido para o mal que lhe acomete. Se ele descobre esse sentido, se e somente se ele for capaz de ressignificar sua visão de mundo pelo sentido, então ele poderá valer-se do mal para seu crescimento pessoal, poderá melhorar sua capacidade de empatia, ou mesmo descobrir sua vocação mais íntima, aquela que fará a sua vida reluzir como verdadeiro valor.  Se a pessoa descobre um sentido para o mal poderá enxergá-lo como parte de sua trajetória de ascensão espiritual na direção de Deus.

O psiquiatra Viktor Frankl mencionou a indignação de vários ex-prisioneiros dos campos de concentração nazistas que percebiam que as pessoas saíram da Segunda Grande Guerra sem se culpar ou importar com o que ocorreu com os judeus. Essas pessoas diziam não saber o que se passava nos campos de extermínio, que também elas sofreram privações, que a guerra é dura para todos, etc. Enfim, somente quando o mal é inserido no contexto de um sentido é que o homem consegue viver as elevações espirituais mencionadas pelo Dr. Ricardo.

Por sua vez, ao considerarmos o mal enquanto oportunidade de crescimento pessoal é preciso distinguir alguns níveis do mal, começando pelo mal moral. Esse é o mal do homem próprio de quem não luta contra seus instintos, que faz da vida a busca desenfreada de prazer irresponsável. Esse homem não consegue enxergar nada além do relativo, sua vida não tem um grande propósito e ele se torna escravo do relativo.

Há uma segunda forma de mal muito em voga em nossos dias. Somente se compromete com a verdade, somente procura fazer o certo quando isso convém, quando não coloca a pessoa em situação difícil, ou quando não lhe prejudica. Enfim, a pessoa busca o bem que não a coloca em situação difícil. Apenas nessas ocasiões ela se ocupa de fazer o bem.

Porém, há ainda uma terceira e mais radical fonte do mal. Aquele mal que nasce do desejo de fazer sofrer, da clara intenção de destruir os outros, do gosto por assassinar, torturar e destruir. Esse mal ou perversidade aponta para uma raiz ontológica do problema, que não faz sentido num processo de evolução necessária comanda por Deus. O aprimoramento pessoal na direção do bem e da verdade é uma decisão pessoal, somente ocorre quando há esse propósito. Do contrário, o que se assiste é a destruição do homem e dos valores mais importantes da humanidade.

Quanto ao progresso cultural, ele é real e verdadeiro, mas se consolida nas regras do direito e na organização política da sociedade. Não me parece que seja uma conquista moral de uma comunidade que ascende, conjuntamente, a um patamar superior de humanidade, pois essa conquista moral é necessariamente pessoal, fruto do esforço do indivíduo. O progresso moral vem do esforço e do desejo de ser melhor, de dedicar-se a boas causas não importa se humanas ou divinas. Ela nasce do desejo verdadeiro de contribuir para o crescimento do tempo de Deus que Jesus chamava  Reino de Deus.

Dessa forma, ainda que cercado de mistério, a resposta de Jesus foi combater o mal em todas as suas formas. “A paixão de Jesus torna-se o exemplo para suportar o mais injusto e incompreensível sofrimento, para não desesperar no abandono, para alcançar a Deus.” (JASPERS, Mestres da Humanidade, 2003, p. 139)

O mal, mostrou Jesus, deve ser combatido em todas as suas formas. No mínimo para promover a obrigação moral da fraternidade universal. A fraternidade no sofrimento. Somos irmãos porque padecemos dos mesmos males: adoecemos, caímos em culpa e morremos. Jesus nos deu motivos para acreditar num alto propósito para viver, com esperança e confiança em Deus, apesar da presença do mal no mundo.

STABAT MATER DOLOROSA

https://www.youtube.com/watch?v=REMhOdxTcEE

sexta-feira, 26 de março de 2021

O POETA POLONÊS ADAM ZAGAJEWSKI DO 11 DE SETEMBRO. Selvino Antonio Malfatti

 


                                                                 

 


 O mundo da cultura perde mais um líder. Trata-se de Adam Zagajewski, 75 anos,falecido no domingo, dia 7 de março na Cracóvia. Polonês, ficou conhecido como poeta do 11 de setembro.

 

Nascido em 1945, Ucrânia, destacado poeta recebendo vários  prêmios. Inclusive mencionado para Nobel da literatura. A consagração pública veio com o poema - “Try to Praise the Mutilated World” – publicado na revista The New Yorker.  Traduzindo livremente: “Tente se Orgulhar d Mundo Mutilado”. Teve que se mudar para Paris quando o general comunista, Wojciech Jaruzelski. em 1968, apertou o cerco contra os dissidentes e mandou fechar o Solidariedade em 1982.

A poesia:

 

Try to Praise the Mutilated World

 

“Tente elogiar o mundo mutilado.

Lembre-se dos longos dias de junho,

e morangos silvestres, gotas de vinho rosé.

As urtigas que crescem metodicamente

as propriedades abandonadas dos exilados.

Você deve elogiar o mundo mutilado.

Você observou os iates e navios elegantes;

um deles tinha uma longa viagem pela frente,

enquanto o esquecimento salgado esperava outros.

Você viu os refugiados indo a lugar nenhum,

você ouviu os algozes cantarem alegremente.

Você deve elogiar o mundo mutilado.

Lembre-se dos momentos em que estávamos juntos

em uma sala branca e a cortina tremulou.

Volte em pensamento para o concerto onde a música explodiu.

Você colheu bolotas no parque no outono

e as folhas rodaram sobre as cicatrizes da terra.

Louvado seja o mundo mutilado

e a pena cinza que um tordo perdeu,

e a luz suave que se dispersa e desaparece

e retorna.”

"

Try to Praise the Mutilated World

Try to praise the mutilated world.
Remember June's long days,
and wild strawberries, drops of rosé wine.
The nettles that methodically overgrow
the abandoned homesteads of exiles.
You must praise the mutilated world.
You watched the stylish yachts and ships;
one of them had a long trip ahead of it,
while salty oblivion awaited others.
You've seen the refugees going nowhere,
you've heard the executioners sing joyfully.
You should praise the mutilated world.
Remember the moments when we were together
in a white room and the curtain fluttered.
Return in thought to the concert where music flared.
You gathered acorns in the park in autumn
and leaves eddied over the earth's scars.
Praise the mutilated world
and the gray feather a thrush lost,
and the gentle light that strays and vanishes
and returns.
https://lyricstranslate.com

 

 

 

sexta-feira, 19 de março de 2021

Os inimigos da liberdade. José Mauricio de Carvalho

 



A liberdade é uma preciosidade humana, pois ainda que comporte muitas definições e tenha limites práticos, a vida livre combina a trama do que se busca na vida com o que ela fez de nós. Assim, entre o que resulta do que escolhemos e do que nos acontece seguimos nossa história pessoal, trazendo na memória os marcos desse percurso singularíssimo que amarra nossa consciência única com uma circunstância igualmente única.

A tradição ocidental consolidou, deste a antiga Grécia, os germes de uma liberdade que ia da vida singular à participação política. Ela se dava no debate dos problemas da cidade nas praças por uma parte da sociedade. E assim, passando pelo cristianismo que focou a liberdade humana na sua dimensão moral, na capacidade de escolher entre o bem e o mal, até a modernidade quando René Descartes costurou a ideia de uma subjetividade livre, o mundo ocidental acostumou-se ao tema. Tornou-o um valor importante, desde que parece ao homem ocidental odiável ter a sua vida privada tutelada por outrem ou pelo Estado.

Os debates entorno à primeira questão levaram ao desaparecimento da escravidão e da segunda orientou a experiência política liberal. Na pátria de origem do liberalismo, a Inglaterra, a liberdade política foi, inicialmente, uma exigência da classe proprietária, que obrigou a oligarquia monárquica a aceitar a sua participação na gerência do Estado. Isso ocorreu com a participação dos proprietários na Assembleia Nacional. O principal teórico desse momento inicial do liberalismo, John Locke, não apenas formulou a ideia de representação pelos interesses, como amarrou bem o exercício da liberdade pessoal à representação política. Dessa forma, outras pessoas e classes conseguiram, mais tarde, se fazer representar no parlamento com as reformas eleitorais inglesas dos séculos XIX e XX. Foi então, quando todos os cidadãos podiam votar e serem votados, que o liberalismo se aliou definitivamente à democracia.

O liberalismo democrático consolidou-se no Reino Unido e nos Estados Unidos e, depois, foi-se firmando em outros países ocidentais. E as teses liberais se consolidaram em todos os campos da vida social, como na relação entre a democracia e a educação nos livros de John Dewey. Nas últimas décadas o liberalismo viu crescer uma corrente conservadora que proclamou uma menor intervenção do Estado na economia, movimento que ganhou força no governo de Ronald Reagan nos Estados Unidos, com Thatcher na Inglaterra e Jacques Chirac na França. Esse liberalismo conservador era pragmático, antirromântico e cuidadoso na defesa da liberdade pessoal e do indivíduo contra o Estado. Assim, embora proclamassem uma menor intervenção do Estado na vida do indivíduo, valorizavam o estado de direito, a representação política e a justiça independente, garantias do cidadão contra as arbitrariedades do governo.

Quando se vê, em nosso país, pessoas defendendo soluções antidemocráticas e contrárias ao estado de direito, à organização constitucional e contra os poderes Judiciário e Legislativo, julgando defender a liberdade e a propriedade estão justamente fazendo o inverso e revelando desconhecimento político. O verdadeiro amigo da liberdade e defensor da livre iniciativa trabalha com as instituições, a divergência entre os liberais está no quanto deve o Estado atuar na construção de políticas sociais, uns acreditando que deve ser mais, outros menos.  Essa é a discussão entre os democratas e republicanos nos Estados Unidos, considerando-se intolerável qualquer tentativa de desorganizar os outros poderes, como ocorreu na confusão feita por Donald Trump no final do seu governo. Naquele dia, como disseram os norte-americanos, eles pareceram ser uma república das bananas. Venceram afinal as instituições e Trump saiu pela porta dos fundos.

É o judiciário livre e independente que assegura a defesa do cidadão, da propriedade e é um legislativo livre e atuante que assegura a procura do consenso em meio ao dissenso próprio da democracia. A ditadura do executivo é um nazifascismo, a intervenção de força nos outros poderes também foi observada na experiência comunista. Nazistas, fascistas e comunistas são totalitários e, nesse aspecto, farinha do mesmo saco.

A experiência histórica do ocidente mostrou a não confiar em soluções fora do Estado de direito quando o que se pretende é defender a liberdade pessoal, o direito de propriedade e a autonomia do cidadão frente ao Estado.


 

 

sexta-feira, 12 de março de 2021

A CULPA. Selvino Antonio Malfatti

 



Sempre que a Humanidade se depara com um perigo de ameaça de destruição global surge a questão: que culpa temos disso? Aconteceu com os hebreus no Egito e na destruição de Jerusalém, junto com a diáspora. Na Europa invadida pelos bárbaros. Nas inúmeras epidemias que assolaram a Humanidade. Na era atual nas carnificinas das guerras, nos Campos de Concentração. Nos Apóstolos apavorados na tempestade do Mar de Genesaré. E neste momento diante da pandemia que nos ameaça destruir a todos? Pergunta-se: onde está Deus?

Quem é O culpado e por quê? Procura se pela Culpa Original.

Se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não sou culpado porque então sou culpado? Se a culpa faz parte como componente da essencial da Humanidade, como posso me desfazer. Mas por que sou culpado?

Contudo, embora não se tem dívida com alguém e nem tenha causado algum desagrado a alguém, mesmo assim persiste a culpa, A culpa, a cima de tudo não é uma razão, mas um sentimento. É algo do qual se quer livrar-se. Apesar de alguém ter certeza de que pode ser feliz, não o é porque subsiste o sentimento de culpa. Junto com a culpa vem o remorso que mata, por dentro, a esperança de felicidade. Por mais que se queira explicar a si mesmo que não há motivo de culpa, ela reaparece enchendo a alma. É como Caim que vaga pelas florestas, corroído de remorso pela morte do irmão Abel. Neste caso há uma causa, o assassinato do irmão. E quando sem causa se sente a culpa? Desde que o homem teve consciência de si, sentiu-se culpado.  Por que um pagão como Anaximandro diria que não há culpa maior do que o de ter nascido? Por que Platão diria que a culpa é por não conhecer a verdade? O cristianismo solucionou com o mistério ou mito do pecado original. Assim se pode desfilar os grandes pensadores da humanidade como Rousseau que encontrou a sociedade seu bode expiatório. Se não fosse a sociedade o homem poderia ir ao encontro de seus desejos, satisfazer suas paixões, entregar-se à felicidade da vida, sem culpa, se não fosse a sociedade. O indivíduo é bom, não tem culpa. A sociedade é má, a culpada.

Nietzsche, na mesma linha, vê na sociedade não só estratégias de controle, mas formas de poder. Há os que querem demonstrar que o mundo não é como deveria ser. Eles dizem aos homens o que devem fazer, como se portar, até mesmo ordenando-lhe agir contra a sua natureza. O próprio Deus seria um desses pretensos idealizadores de felicidade. Mas todos estão mortos: monarcas, nobres, inclusive Deus. Mas algo sobreviveu: o sentimento de culpa.

Já Freud tira Deus do céu e o acomoda no coração do homem. Nele faz o papel de juiz, o Superego. Este impõe ao homem um código moral que inevitavelmente é transgredido, engendrando o sentimento de culpa.

E nos filósofos da existência, como vêm a culpa. Para Jaspers é uma situação limite, dela o homem não pode furtar-se. Heidegger vê na culpa um modo de ser do ser-aí, uma atribuição substancial do ser humano. Em última análise, em ambos a culpa é um trajeto inexorável. Tudo o que o homem fizer, ele pode ter certeza que será culpado. Se fizer o bem, ou se fizer o mal, ou mesmo se não fizer nada, sentir-se-á culpado. A culpa é a condição humana. E o pior dos paradoxos da culpa: quanto menos culpado se é, mais culpa se sente. Um santo se sente mais culpado que um assassino psicopata.

Entretanto, a culpa existencial é uma falsa culpa, ou culpa contraditória. Se é culpado porque se é um ser-aí. E este ser-aí é um fundamento do nada. Isto significa que ninguém o colocou aí. Não foi o indivíduo o autor deste ser-aí, nem outro. Logo, ele é um ser aí produto do nada. Como o nada dá origem a nada, logo ele, homem, não está aí. E sendo assim não tem culpa de nada porque não é nada. Por isso o ser-aí não pode ser causa de culpa e nem mesmo ser-aí.

Ou o homem é um ser-aí por si ou por outro. Evidentemente ele não é por si, porque se fosse não teria se feito apenas um ser-aí. Logo, ele é por outro, quer pela matéria, quer pela espiritualidade ou outra entidade superior a ele. Mas o porquê de sentir-se culpado é de poder se arrepender. Mas arrepender-se de quê? De ter aceito ou continuar aceitando ser apenas uma existência. Qualquer outro ser do universo pode não arrepender-se, menos o homem. Os demais seres não sabem que estão-aí. Somente o homem tem esta consciência. Enquanto o homem continuar aceitando esta condição de existência viverá se arrependendo e por isso se sente culpado. Se o homem pudesse se livrar do arrependimento deixaria de sentir-se culpado. Mas para desvencilhar-se do arrependimento da existência a única saída é livrar-se da existência. Mas com certeza é preferível viver e sentir-se culpado do que suicidar-se e livrar-se da culpa. Ele se arrepende de querer viver e por isso se sente culpado perante Deus, perante seus semelhantes e perante o universo. Se o homem como existência fosse imortal nunca se sentiria culpado. O arrependimento da existência o faz culpado disso. Ou exista e se arrependa e sinta-se culpado ou abandone a existência e livre-se do arrependimento e da culpa.

Se partirmos da constatação de que existimos, de imediato veremos a precariedade de nossa existência. Não conseguiremos recuar até o instante de nossa consciência, de nossa interioridade que, iluminada, toma consciência de si. Estamos suspensos, sem ser e com desejo de mendigos de tê-lo. Quando ocorreu o acender de nossa consciência? Tudo se esvanece no passado longínquo o qual não conseguimos identificar. Caminhamos sobre o Nada, como o Mestre caminhava sobre as águas.

O que nos consola como reduto último é a Esperança. Entre o Ser e o Nada, perigosamente suspenso sobre a Morte, o homem consegue viver porque se recusa cortar o fio da Esperança. Se este for rompido, cairemos no Nada.  Os acenos das Angústias, do Cuidado, da Náusea, na verdade, são apenas acenos do desespero, pois são formas de cortejar o Nada, de quem pendula entre a Morte.

A Luz pode ser a metáfora da vida, enquanto a Noite é a da Morte. O primeiro um ser-em-si e o segundo o não ser. Esta dualidade reflete-se na gnosiologia, na relação entre sujeito e objeto. No ato do conhecimento, o sujeito não só contempla o objeto, mas também o objetiva. A relação imediata que surge é uma bipolaridade de eu- isto. Neste primeiro contato sujeito-objeto, é estabelecida uma relação fria. O primeiro ignorando a concretude do segundo e este reduzindo ao mínimo sua concretude. Dessa relação surge uma metafísica materialista ou mesmo estruturalista. A relação sujeito-objeto nos leva a renunciar ao conhecimento da Vida, do Homem e do Espírito, pois há um sujeito diante de uma coisa e vice-versa. Será possível outra relação? É possível, diz Soveral, desde que a relação que se estabeleça seja de natureza Eu-Tu , Nós-Ele, Eu-Vós. Esta relação muda a natureza, pois em vez de objetos, coisas, há relações de sujeitos intersubjetivos. Com essa relação é possível captar a vida, o espírito e o Homem concreto. O existente humano é o ser-em-si em trânsito, na busca do Ser-em-Si-para-Si.

Mas, faz sentido buscar algum sentido para algo que parece sem sentido?

 

 

sexta-feira, 5 de março de 2021

Becos da Irracionalidade. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei


Vivemos há algumas décadas um clima de irracionalidade que ficou mais visível nesse tempo de pandemia. Trato por irracionalidade não os atos involuntários que fazemos sem racionar, como respirar, andar e digerir, mas aqueles em que a reação impulsiva e irrefletida se dá diante de questões vitais e desafios morais.
É natural que, em momentos como esse, quando a vida muda as perguntas que costumava fazer, não exista resposta pronta. É que a vida não sendo racional espera que nós respondamos com a razão, com a ciência nos assuntos que podem ser solucionados pela razão experimental e com uma razão não experimental ou filosófica nos demais assuntos.
Embora a razão seja sempre uma alternativa, a recusa da racionalidade é estimulada por governos totalitários, grupos mesquinhos, por uma coisa abstrata chamada mercado, num momento de clima generalizado de medo como agora, ou por outros inimigos dela. Esses adversários da razão, ordinariamente se aliam a uma população mal formada, que age como massa. A massa é incapaz de pensar por si mesma, compra uma imagem falsa do mundo, da vida, da felicidade e assume um padrão bizarro de comportamento. E se há algo fundamental na Filosofia é que ela obriga a pensar o que está aí e o que devemos fazer diante disso que se nos apresenta. Como ela questiona governos totalitários, duvida do mercado quando quer dar o caminho da felicidade e dos grupos mesquinhos e egoístas, a Filosofia é, por seus inimigos, acusada de ser inútil tentativa de compreender o mundo. Os mais idiotas a consideram coisa de comunistas. Afinal, pensar a realidade não agrada o mercado, os totalitários, os espertos e os maus até que a vida muda as perguntas e essa gente fica sem respostas batendo cabeça. Por isso, hoje todos os adversários da Filosofia parecem baratas tontas sem saber o que fazer, o que eles diziam carece de consistência.
As investidas das forças irracionais contra a Filosofia é um dos temas de O homem e a filosofia (Porto Alegre, 3 ª edição, MKS, 2018, 343 p.). No capítulo 6, por exemplo, se mostra como os governos totalitários (nazismo, fascismo e comunismo) contribuíram para formar uma sociedade de técnicos que reage como massa informe aos desafios da vida. Comenta-se o que escreveu Hannah Arendt no livro Origens do totalitarismo descrevendo o comportamento político que “emergiu nas primeiras décadas do século XX. A filósofa avalia a destruição da vida pessoal e o problema do mal presentes na sociedade humana a partir das notícias que lhe chegavam do campo de concentração de Auschwitz. Sua primeira observação é de que se tratava de fenômeno ímpar na história humana, irredutível a uma única causa e inexplicável com conceitos da filosofia do seu tempo.” (p. 133) O extermínio em massa dos judeus era um tipo de crime não codificado e que foi realizado com a mentira de que eram eles os responsáveis pelos males do mundo e, ainda, a propaganda nazistas dizia que os alemães possuíam uma razão superior, capaz de decidir que vidas mereciam ser preservadas. Negros e outros povos inferiores seriam os próximos a serem eliminados.
Arendt examinou ainda o comportamento de Eichmann no livro A dignidade da política (1993). Ela relatou que, em seu julgamento, “o militar não apresentou uma personalidade doentia, nem convicção ideológica profundamente arraigada ou uma especial tendência para o mal.” (p. 136) Em outras palavras, não era um monstro ou uma aberração, pelo contrário era pessoa comum, bom pai e esposo, soldado obediente. O que se passou com ele? Simplesmente, atendendo a propaganda nazista, ele se “tornou um agente potencial do mal porque abdicou de sua consciência como guia moral para as escolhas, ele se tornou escravo de uma engrenagem inimiga da liberdade. O mal praticado por Eichmann tinha origem na sua incapacidade de pensar e agir segundo sua consciência.” (p. 137). Em outras palavras, o mal vinha de sua incapacidade para pensar racionalmente.  Num outro livro denominado Eichmann em Jerusalém, a filósofa aprofundou os problemas que incapacitam examinar racionalmente os problemas.
Nesses dias de pandemia quando se obriga a usar máscaras a motoristas que viajam só, quando não se observa o essencial do distanciamento social (que é se manter, no mínimo, a dois metros de distância uns dos outros, usar máscara e tomar outras medidas de higiene quando houver contato ou risco de aproximação com outras pessoas, e não, necessariamente, ficar em casa), quando o presidente receita, sem ser médico, um remédio não testado para uma doença nova; quando a imprensa espalha o terror, assume o papel de consciência moral da sociedade, goza na repetição do mal e deixa de lado sua tarefa legítima de informar; quando o cidadão não toma as medidas de higiene necessárias e põe em risco a própria vida e de seus vizinhos; quando alguns não entendem que a solidariedade no sofrimento é uma das formas que identifica nossa humanidade e não comunismo, vemos os sintomas da vitória da irracionalidade e o desastre que é uma sociedade que deixou de lado a filosofia e suas lições.



domingo, 28 de fevereiro de 2021

ESPARTA E ATENAS – MAIS SEMELHANÇAS QUE DIFERENÇAS. Selvino Antonio Malfatti.

 



Eva Cantarella é professora universitária de direito romano e direito da Grécia antiga da Universidade degli Studi di

Milano e reitora da Faculdade de Direito da Universidade de Camerino. Autora de Diritto e teatro in Grecia e a Roma.

A título de aprofundamento propôs-se revisar as diferenças e semelhanças das Cidades-Estado de Esparta e Atenas. Chega à conclusão de que há mais semelhanças que diferenças entre elas em que pese de comumente se salientar as diferenças.

No rol das diferenças principalmente comandantes militares costumam chamar a atenção do caráter beligerante de Esparta, como Joseph Goebbels que se se dizia sentir como numa cidade alemã por que a Alemanha nazista era a “Nova Esparta”, cidade de conquistadores, capazes de através dos séculos preservar a raça pura, estes mesmos 6.000 combatentes dominaram os 360.000 mil invasores.

Para Robespierre e os Jacobinos, os espartanos eram o modelo de virtude cívica, exemplos de sentido de dever e sacrifício por si mesmos e pela coletividade. Como Leônidas e os Trezentos, dispostos a imolar-se para defender a pátria dos invasores bárbaros.

Em Stalingrado, nem mesmo durante a derrota, o marechal de campo Göring, chega a exclamar: "Viajante, se você for para a Alemanha (para Esparta), diga a eles que nos viu lutar em Stalingrado (nas Termópilas), obedientes à lei, pela segurança de nosso povo!"

 

 Afinal, os comunistas não eram os novos bárbaros, prontos para descer à Europa para destruí-la? E não importa se os alemães haviam invadido e não os russos, prontos para massacrar a Europa, como fizeram no Leste europeu?

Quanto Atenas recebe elogios de toda parte, mas não merece tanto. Dizia Donald Trump hà alguns anos: "Eu amo os gregos, oh, eu amo os gregos ..."Com ele se encerra a fila de presidentes e políticos norte-americanos que faziam questão de comparar os Estados Unidos à Atenas associando-a ao berço da democracia e da liberdade. Na Segunda Guerra Mundial se associou Atenas aos Estados Unidos e Esparta aos soviéticos.

A ideia volta a ganhar força sempre que se deseja exportar a democracia ateniense (norte-americana) para o resto do mundo. Dizia George W. Bush: "A América não é uma potência imperial, é uma potência libertadora".

 

Em tempos mais recentes, tem sido usado para justificar iniciativas infelizes. A comparação com Atenas volta continuamente quando se discute a necessidade de "exportar" a democracia para o mundo.

No entanto, a fama entre historiadores não é tão louvável. Quando se pergunta, como Atenas tratava seus aliados, historiadores não duvidam de classifica-los: “como vacas a serem ordenhadas continuamente”.

Eva Cantarella desmascara em parte este mito: Esparta igual autoritarismo, militarismo, armas, corpos sadios para a guerra. Atenas igual à democracia, educação, mente sã para as artes. Esparta aparece como uma miragem, envolta em brumas de um passado glorioso, com uma constituição de setecentos anos, mas agora desaparecida.  Ao contrário Atenas salienta-se como a cidade do Partenon e da democracia sempre viva.

Como foi destacado, muitas vezes predominam estereótipo, chavões, lugares comuns. Um deles é afirmar que Esparta desprezava a cultura. Os espartanos prezavam o poder da palavra e valorizavam ir direto ao assunto, sem rodeios e enfeites desnecessários que só servem para complicar em vez de clarear. É o famoso estilo lacônico dos espartanos, arte de sintetizar em poucas palavras todo um pensamento que os prolixos gastariam uma verdadeira verborreia.

A propaganda ateniense foi eficiente: conseguiu incutir que o estilo lacônico era ignorância. Por outro lado os espartanos também foram eficientes quando identificaram um estilo eloquente das mulheres, com os atenienses em superficialidades e discussões de futilidades.

Na verdade Esparta estendia a educação às mulheres no momento que as considerava parte do projeto cívico. Mas teve o preço: a eliminação do espaço privado da família e do indivíduo. Não havia lugar para laços afetivos entre mães e filhos. Tudo era público e os filhos não eram da família, mas do Estado.

Cantarella salienta que ambas, Esparta e Atenas, estavam engajadas num projeto político, diferindo no modelo: Esparta apoiava-se no Estado e Atenas na sociedade.

No entanto, é sintomático como espontaneamente as sociedades autoritárias se identificam com Esparta e as democráticas com Atenas. Os mais paradigmáticos se mostram ser o comunismo Soviético com Esparta e a democracia americana com Atenas.

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O OUTONO DA IDADE MÉDIA. Selvino Antonio Malfatti

 




Trazemos esta semana para a reflexão um pensador holandês, Johan Huizinga (1872-1945), em (Sacro e quotidiano, i segreti del Medioevo  - Sacro e cotidiano: os Segredos da Idade média).   

Considerado eminente filósofo e historiador da cultura do século XX, teve destaque em retratar os padrões culturais: descrever pensamentos e sentimentos, e suas manifestações em obras de literatura e arte.

Neste artigo comenta a Idade Média no período em que foram lançadas as bases do mundo moderno. Com certeza não aceita a afirmativa, sem comprovação científica, de Leonardo Bruni e Francesco Petrarca, de que a Idade Média foi um período de trevas, uma Noite de mil Anos, um hiato de barbárie do esplendor da cultura greco-romana e o alvorecer da Idade Moderna. Huizinda se propõe a uma crítica. Primeiramente se pergunta pelo início e com ele o quê e por quê? Não basta dizer quando começou, mas o quê começou?  Explicar o conteúdo implica em explicar o quê do conteúdo.

O que fez mover a engrenagem medieval?

A difusão do cristianismo? As crises demográficas, os climas, a economia, a ética dos séculos II a VII? O fenômeno migratório? Se colocados tais problemas não levarão ao “mito” evolucionista?

Parece que a Idade Média não fugiu à regra das sociedades de nascer, se desenvolver e entrar em declínio, isto é, teve seu outono ou ocaso.

Novamente a questão? O quê e por quê? Conteúdo e causas. Podem ser apontadas: perda da importância das instituições eclesiais, perda de confiança no modelo político, a substituição do universalismo pelos estados e nações, a ordem cósmica substituída pela concepção humana e a consequente secularização, a ética universal cede lugar ao individualismo, novos valores éticos como econômicos e tecnológicos, dão lugar aos religiosos e sobrenaturais.

Tudo isto nos leva a pensar em múltiplas intersecções de formas dialógicas: unidade e diferença, homogeneidade e diversidade, conservação e reforma, ordem e mudança, continuidade e descontinuidade e permanência e ruptura.

Mas há um fato novo em tudo isto: a dilatação do mundo. O pequeno mundo europeu com a parte conhecida do oriente, de repente, se expande em continentes em proporções até então não imaginadas. Os novos mundos abriram-se à exploração e o homem deixou para trás as antigas teorias e lançou-se ao explorando. Este é o conteúdo e a causa da Idade Moderna. Como diria Carlo Maria Cipolla: Foram os navios e os canhões que transformaram o mundo antigo e medieval.

A Idade Moderna incorporou as concepções cosmológicas da antiguidade e da Idade Média: pelo primeiro, um sistema de terras cercadas por mares imensos, montanhas, pântanos, desertos e florestas habitados por feras ou monstros. Jamais seria capaz de possuí-lo; pelo segundo uma imensa esfera, agora com um homem determinado pela vontade e secundado pela tecnologia conseguirá não só dominar, como possuir o sistema.

 

Frases famosas de Johan Uizinga:

La povera Europa si avviava verso la prima guerra mondiale come un'automobile sgangherata in mano di un conducente ubriaco per una strada tutta buche e cunette.

(A pobre Europa caminhava para a Primeira Guerra Mundial como um carro em ruínas nas mãos de um motorista bêbado em uma estrada cheia de buracos e buracos.)

Educators are aware that they can reach the youth only by making use of gang spirit and guiding it, not by working against it.

(Os educadores têm consciência de que só podem atingir os jovens fazendo uso do espírito de gangue orientando-o, não o combatendo.)

These are strange times. Reason, which once combatted faith and seemed to have conquered it, now has to look to faith to save it from dissolution.

"Estes são tempos estranhos. A razão, que outrora combateu a fé e parecia tê-la conquistado, agora deve recorrer à fé para salvá-la da dissolução."

Revolution as an ideal concept always preserves the essential content of the original thought: sudden and lasting betterment.

(A revolução como conceito ideal sempre preserva o conteúdo essencial do pensamento original: melhora repentina e duradoura.)

((“Fonte: https://le-citazioni.it/autori/johan-huizinga

 

 

 

 

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