sexta-feira, 12 de julho de 2013

O URUBU E A POLÍTICA. José Maurício de Carvalho.


Hoje quero expressar minha homenagem a Jean de la Fontaine, o escritor francês que se tornou mundialmente conhecido por suas deliciosas fábulas. La Fontaine viveu no século XVII, nasceu em 8 de julho de 1621 e morreu em 13 de abril de 1695. Ele deu ao classicismo francês grande expressão. Antes de escrever suas instigantes fábulas elaborou contos interessantes onde examinava a psicologia feminina. Ele foi também autor de novelas notáveis como Boccacio e Ariosto (1665) e Os amores de Psique e Cupido (1669). As fábulas de La Fontaine foram reunidas em doze volumes publicados entre 1688 e 1694. Suas fábulas mais conhecidas são: A cigarra e a formiga, O lobo e o cordeiro, A raposa e as uvas e O corvo e a raposa. A marca de La Fontaine são personagens animais com características humanas, especialmente virtudes e vícios. La Fontaine usou seu talento literário para discutir questões morais.
A homenagem ocorre no momento em que estados do sudeste estão alagados pela imprevidência e falta de planejamento dos governos e sociedade. O fato lembrou-me uma história da infância e que era mais ou menos assim: contam que, certa vez, no reino da bicharada a vida na floresta ficou difícil por conta da superpopulação. Bichos muito numerosos estavam com convivência difícil, exigindo leis e ações de planejamento que assegurassem o bem estar de todos. Havia enorme desconfiança dos bichos que ocupavam os lugares baixos da floresta em votar nos que habitavam os lugares altos e vice versa, os que viviam nas águas não confiavam nos que habitavam a terra e estes não queriam entregar o poder administrativo das matas a quem não punha os pés em chão firme.  Apenas a urgência de administrar as dificuldades obrigou a organização das eleições. Depois de muita confusão e um processo eleitoral conturbado venceu o pleito a Coligação Floresta Feliz liderada pelo Urubu, candidato da Vigilância Sanitária (Partido da Higiene), que tinha na Vice-Presidência a Serpente (Partido da Fidelidade) e como conselheira a raposa (Partido da Sinceridade). Estabelecido o governo todos os animais se acreditavam bem representados. Além do mais os políticos prometeram solenemente se comportar, o Urubu a não comer restos públicos, a Serpente a não ser traiçoeira e a raposa a ser transparente nas contas e sincera nas declarações.  
Os animais estavam incomodados porque a destruição da mata ciliar aumentava as enchentes, a venda das árvores para uma carvoaria aumentava a temperatura ambiente e influía no ritmo das chuvas, a falta de preservação das nascentes e esgotos sem tratamento diminuía a água de qualidade. Os eleitos empossados trataram de se arrumar, o Urubu conseguiu morar num condomínio de luxo no único conjunto de árvores ainda preservado, a serpente ganhou um vale preá e a raposa transferiu o gabinete para o galinheiro. Quando veio o tempo das águas nada havia sido feito a não ser as leis que favoreciam a boa vida dos políticos. Sem mata ciliar para proteger os rios a inundação foi grande e o sofrimento da bicharada aumentou. Enquanto isto do alto de sua árvore sua Excelência prometia aos meios de comunicação: ano que vem será tudo diferente, tomarei enérgicas providências. Vou determinar o reflorestamento, usar os recursos públicos na proteção dos rios e cuidarei da qualidade das águas.

Depois de grande sofrimento para a sociedade passou o período das chuvas. Diante do céu azul, o Urubu de asas abertas no lindo sol dedicou-se a comer os restos do exercício anterior. A serpente com estoque renovado de preás e sapos (com o adicional de produtividade) e a raposa com galinheiro cheio cuidavam de encher a pança. E assim viveram os tempos da fartura até que um novo período de inundação se abateu sobre a floresta. Diante do desastre geral a Raposa, em férias no galinheiro da capital foi chamada às pressas para organizar a coletiva de imprensa. A culpa é da natureza, chegou dizendo aflita aos repórteres, as chuvas estão fortes demais este ano. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

VÍCIOS INDIVIDUAIS E VIRTUDES PÚBLICAS. Selvino Antonio Malfatti.

















Se as ações humanas fossem pautadas somente pela racionalidade, liberdade e vontade soberana haveria possibilidade limitada de progresso. Supondo-se que o agir humano fosse igual a seres imaginários puros, como anjos caso existissem, a realidade sempre permaneceria idêntica. A causa do progresso está justamente na imperfeição, na possibilidade de erro e conserto, na reflexão sobre o imperfeito. O ato perfeito não poderia causar outro ato mais perfeito, senão o primeiro não seria perfeito. Por isso, a mudança, o progresso e retrocesso, estão ínsitos à condição humana. Anjos, cujas ações são racionais puras, livres de qualquer influência, quistos pelo que possuem de perfeição, não conseguem progredir em nada. Alguma religião afirma que o mundo transhumano tenha se modificado em algo? Que a divindade tenha promovido uma perfeição, algum melhoramento? Todas são unânimes em afirmar o pronto, acabado, imutável.
Poderia alguém se perguntar qual desses mundos é melhor? Os protótipos da humanidade, Adão e Eva, fizeram-se mesma pergunta. O que era melhor: o paraíso perfeito ou a terra de espinhos e abrolhos? É melhor ser imutável ou mutável? Não conhecer o erro e não praticá-lo ou conhecê-lo e poder cair nele?
O progresso é fruto de nossos instintos auxiliados pela razão. Sem vaidade não haverá ninguém que queira se sobressair aos demais. Sem orgulho não haveria alguém que quisesse mandar no maior número de pessoas possíveis. Sem ganância não haveria ninguém que quisesse acumular mais do que pode consumir. Sem luxúria não haveria ninguém que desse presentes a não ser a sua mulher. Sem gula, não haveria centros de gastronomia, sofisticação de comidas e bebidas, restaurantes afamados.
O estado acima descrito leva á competição de todos contra todos. É o típico estado natural. É uma guerra sem armas de todos contra todos. Disso decorre uma pergunta: como será possível o progresso na iminência da autodestruição? 
É possível se pudermos estabelecer regras de convivência social e liberdade de ação individual. Em outras palavras, é possível se conseguirmos transformar os vícios individuais em virtudes públicas. É questão posta por Mandeville, e a resposta de Rawls.  De um lado temos os vícios individuais impulsionadores do progresso e de outro lado temos a ética social garantindo a convivência pacífica.
Com efeito, Bernard Mandeville, na conhecida Fábula das Abelhas descreve uma colmeia em dois momentos: no primeiro, sob a égide do egoísmo privado e no segundo, sob o império da virtude pública.
Enquanto a colmeia era regida pelo egoísmo prosperava e todos os seus habitantes eram felizes. Os vícios grassavam nesta comunidade. Os jurisconsultos se ocupavam de manter a animosidade entre os litigantes, os médicos preferiam a reputação à cura das doenças. Não se importavam com as pessoas, mas procuravam apenas conquistar a simpatia das empresas farmacêuticas. Os religiosos apenas se preocupavam em benzer a colmeia. Eram ignorantes, preguiçosos, avaros e vaidosos. Os soldados, fugitivos da guerra eram cobertos de honras. Os que se empenhavam na guerra perdiam um a um seus membros até que recebiam uma miserável pensão. O rei da colmeia, uma vergonha. Os ministros do rei faziam de tudo para enganar a coroa, sem falar que saqueavam descaradamente o tesouro. Gastavam perdulariamente embora seus salários fossem mesquinhos. A justiça que se gabava de ser cega, enxergava muito bem o brilho do ouro. A balança, de tanto peso de presentes e propinas, havia pendido para um dos lados chegando a cair.
Os políticos do Brasil inverteram a Fábula. Os atores se apropriaram do resultado das virtudes públicas e as carrearam para vícios individuais. A ética social converteu-se em ética individual. E aí só prosperaram vícios individuais.



sexta-feira, 28 de junho de 2013

Manifestações cidadãs. José Maurício de Carvalho




Boa parte do país e do mundo assiste atônito às cenas de violência e protestos que se espalharam pelas maiores cidades do Brasil. O movimento começou como protesto pelo aumento do preço das passagens de ônibus nas capitais dos Estados e, nessa altura, se protesta contra tudo, desde a inoperância do presidente do Bahia até a falta de qualidade dos jogadores do Palmeiras. Meu amigo Jorginho estava indignado na última manifestação porque o verdão está disputando a série B do Campeonato Brasileiro e gritava a plenos pulmões: queremos time. Misturado a eles, baderneiros de toda ordem saqueiam lojas, quebram o patrimônio público, fazem arrastão. Estão promovendo enorme prejuízo, destruindo o patrimônio público e privado diante de manifestantes pacíficos e autoridades perplexas que não sabem como proceder.
Deixando de lado os baderneiros, vândalos e os inconformados palmeirenses infiltrados nas manifestações cidadãs, a maioria dos manifestantes é jovem e acreditam sinceramente que seus protestos resultarão num país melhor. É, sobretudo, a eles que me dirijo hoje. Jovens cujas posições podem provocar mudanças no país, digo podem, ao recolocar na pauta de discussões nossos velhos problemas e a necessidade de mudar a sociedade. Nossa estrutura social é injusta (já foi pior), os serviços públicos são ruins (e melhoraram nos últimos anos), nossas instituições respondem com dificuldade aos problemas que temos (vivemos décadas de ditadura e total afastamento entre a estrutura do Estado e a Sociedade). Apesar das melhorias alcançadas, as aspirações dessa geração são maiores e ela espera que o país mude rapidamente. Sobretudo os manifestantes esperam que a corrupção diminua (isto não tenho base de comparação), que também diminua a violência e a insegurança (essas pioraram muito na última década) e que melhorem os serviços públicos (e como precisam melhorar).
É a essa geração de patriotas que me dirijo para refletir com eles que é preciso encontrar um rápido meio de contato com as instituições do país. Manifestações de rua estão acobertando bandidos e desordeiros. E as mudanças não virão espontaneamente da atual elite política e econômica, mas não virão, de modo consistente, se não vierem pelos meios institucionais. Somente mudando o país desde dentro a vida cotidiana deixará de ser espaço de violência, de injustiça e abandono. A democracia, por sua vez, só melhorará com respeito a todos os cidadãos. É inútil pedir democracia e exigir favores, manifestar-se por igualdade e pedir privilégios, pedir o fim da corrupção e ser desonesto.
Sobre mudança é preciso realismo. Muitos sindicatos e partidos que se dizem progressistas e vanguardistas, buscam privilégios e/ou vendem irrealidade, como carreira fácil em que todos vão ao topo sem mérito real. E mais ainda: transporte gratuito, escola gratuita, hospital gratuito não existe. Existe serviço público pago com impostos. E alguns serviços precisam mesmo ser públicos e subsidiados pelos impostos, mas quais? Além das funções básicas de defesa do Estado, de segurança pública e da aplicação da justiça, deveriam ser gratuitos e para todos: a educação básica, a medicina preventiva, os serviços de saúde de alta complexidade e a segurança. Também poderiam ser gratuitos a universidade pública e hospitais do Estado, zelosos ambos da qualidade do atendimento.

Permitam-me pequeno esclarecimento, os estádios da copa padrão Fifa são, na verdade, padrão Suíça. Conhecem a Suíça? Para que nosso país alcance aquele nível de desenvolvimento será preciso décadas de crescimento acelerado. Desejo que seus netos vivam num país próximo do que é a Suíça hoje. Nenhuma melhoria virá nessa direção sem a participação de todos, trabalho sério, punição rigorosa aos corruptos e condenados pela justiça, sobretudo, fim dos privilégios e investimento financeiro.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

AS REDES - A NOVA ARMA DOS JOVENS. Selvino Antonio Malfatti




A onda de protestos que toma conta do Brasil atualmente teve como reivindicação inicial o aumento dos preços das passagens em São Paulo e no Rio de Janeiro e logo se alastrou para outras capitais e interiores. Dessa motivação inicial imediatamente saltaram para outros patamares bem mais significativos como a corrupção política, impunidade e a tentativa de afastar o ministério público das investigações de crimes, a chamada PEC-37. Com efeito, há uma dezena de condenados pelo Supremo Tribunal Federal e assim mesmo anda solta e mesmo ocupando cadeiras no Parlamento. A revolta também teve como ingrediente o fato de milhões e milhões terem sido gastos para serem erguidos os estádios para as copas das Confederações e o campeonato mundial. Enquanto isso médicos desesperados não dão conta de doentes que morrem em seus braços. Faltam hospitais, aparelhos, remédios, médicos. A educação ocupa o penúltimo lugar na avaliação internacional. As escolas estão mal aparelhadas, sem verbas, o corpo decente mal remunerado. A segurança pública está à deriva. Cadeias superlotadas, bandidos soltos vivendo do crime, pessoal mal aparelhado e mal pago.

As últimas explosões de protestos de jovens por todo Brasil, de norte a sul, revelam um fato novo nas comunicações de massa: os aparelhos tradicionais foram postos de lado e foram utilizados os não convencionais. Jornais, rádios televisão utilizados para a mídia foram abandonados e em seus lugares os jovens lançaram mão dos aparelhos twitter, facebook, ipad, iphone, celulares, tabletes, smartphones, computadores e outros para se comunicarem nas redes. O que se viu foi um furar de bloqueio e domínio das comunicações costumeiras para as não convencionais. O movimento simplesmente driblou a censura bem como o monopólio e estabeleceu uma linha de comunicação direta, rápida e eficaz entre si.

A idéia não é originária daqui. Temos como antecedentes a Batalha de Seatle, onde acontecia em 1999 a reunião da organização Mundial do Comércio. Outra foi a Davos e a Globalização em 2000. A terceira poderia ser a Toronto contra o G20 e várias outras. Mas a mais característica foi com os países árabes, com a revolta dos jovens contra as ditaduras. Ali também funcionou da mesma maneira. Foi furada a barreira do controle estatal e os jovens saíram às ruas e desestabilizaram os ditadores.

Estamos diante de uma mudança de qualidade de meios na comunicação de massa. A Mídia foi substituída pelo novo ambiente, as redes. Até então eram utilizados meios que falavam para as massas e depois chegavam aos indivíduos. Agora a comunicação é individual, direta, e depois se forma a massa. Os jovens se comunicam entre si e a partir de então nasce o movimento massivo. Por isso os meios tradicionais não conseguiram localizá-los. Quando os órgãos de segurança se deram conta estavam diante de uma multidão que brotava do chão, vinha de todos os lugares, engrossava a cada segundo e seguia exatamente um plano pré-estabelecido sem que ninguém soubesse como. Saíam às ruas, encontravam-se num local combinado e dirigiam-se a alvos já previamente escolhidos. 


No futuro é muito provável que este meio de se comunicar no intuito de captar ou formar opinião seja aproveitado politicamente. Um governante poderia saber a tendência da opinião sobre assuntos polêmicos em questão de poucas horas e direcionar sua ação neste sentido. Até mesmo poderia ser aproveitado para, pouco a pouco, engatinhar numa ética social, diferente da ética vinda de cima para baixo. Uma ética emersa do consenso o qual gera o consentimento e deste a legitimidade. Ao contrário de uma ética imposta geradora da desconfiança provocadora da revolta.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O RADICALISMO RELIGIOSO E A HOMOFOBIA. José Maurício de Carvalho.













                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    


A recente marcha dos evangélicos em Brasília contra o casamento homossexual e os protestos dos conservadores franceses, inclusive com suicídio na Catedral de Notre Dame, o  pelo mesmo fato não têm a mesma inspiração, a julgar pelo que dizem suas lideranças.  De um lado, os pastores evangélicos condenam o homossexualismo em   nome da família tradicional, de outro as lideranças civis francesas, com apoio dos partidos conservadores, são contrárias ao reconhecimento, pelo Estado francês, do casamento homossexual.  Em comum entre os movimentos apenas o terem sido projetados como manifestações pacíficas e terem descambado para a violência. Mais lá do que aqui, pois muitos franceses partiram para cima da polícia encarregada de manter a ordem.
A diferença essencial no discurso das lideranças é o seguinte. Os pastores defendem a família tradicional porque consideram a homossexualidade uma perversão da natureza humana, uma falta moral condenada nos ensinamentos bíblicos. Os líderes franceses não contestam a opção sexual, mas não querem o casamento homossexual. Não querem porque casamento, pelas leis do Estado Francês, significaria permitir a estes casais o direito de adotar crianças ou tê-las por inseminação (no caso de casais femininos), sem a presença de um pai masculino.
A argumentação religiosa de que a homossexualidade consiste numa falha moral decorre da interpretação linear do texto bíblico (o que é um absurdo hermenêutico) ou de uma antiga visão de natureza humana que remonta à antiga Grécia. Para Aristóteles, a natureza é causa ou essência necessária e para os estóicos ela é disposição que move por si, segundo razões de origem. Esta última escola identifica natureza com a ordem do mundo e deu origem à chamada lei natural de grande importância na Moral e no Direito até o século XIX. Para ambas a humanidade se divide em dois sexos que os corpos trazem definido, além do uso da razão. Deixemos de lado outras concepções de natureza, como a de Plotino, que a toma por manifestação imperfeita do espírito ou ainda o entendimento funcional que a ciência contemporânea tem de natureza, definindo-a como campo de estudo delimitado por seu objeto. O conceito de Aristóteles e dos estóicos considera que tudo o que não obedece a esta ordem essencial é um desvio de sua finalidade. Considerando-se tenha Deus criado o gênero humano, Ele quis que o gênero fosse dividido em homens e mulheres. A homossexualidade é, nesta visão metafísica um desvio da natureza.
Além da razão histórica (aproximação da visão grega), as Igrejas cristãs foram contrárias ao homossexualismo porque, durante séculos, a sobrevivência da humanidade dependia do nascimento de muitas crianças, pois era alta a mortalidade e curta a expectativa de vida.

Contra a visão de natureza acima mencionada, que só se misturou ao cristianismo por circunstâncias históricas que não cabe aqui detalhar, a Psicologia atual mostra que as preferências sexuais têm muito mais a ver com a educação e a identificação com figura do mesmo sexo. Não podemos, com nosso conhecimento atual, precisar matematicamente como as duas variáveis orientam a escolha sexual e se mais alguma atua. A escolha é importante, é claro. Assim, impedir alguém de viver uma escolha homossexual com base na interpretação de natureza dos gregos é, pelo que sabemos hoje, avalio, um daqueles crimes contra a humanidade que historicamente perpetramos (queimar bruxas, perseguir judeus, matar o infiel, etc). Por outro lado, saber precisamente o que ocorrerá com os filhos destes casais não sabemos. Isto significa que se há alguma razão a dar aos conservadores franceses, nenhuma há no fanatismo religioso. Acredito que Cristo não condenaria ninguém pela escolha sexual se vivesse hoje, embora tenha condenado e o faria de novo ao farisaísmo e a ignorância. 


terça-feira, 11 de junho de 2013

MATA. Selvino Antonio Malfatti






Na região central do Rio Grande do Sul, no município de Mata, existe uma das maiores preciosidades geo-paleontológicas. Trata-se de uma mutação de madeira em fóssil. O que antes era um vegetal agora é uma pedra. A penetração da sílica (espécie de vidro) nos vegetais foi um processo vagaroso, de expulsão das substâncias de madeira, que aos poucos vai se cristalizando e conservando as estruturas das células. As plantas fossilizadas em Mata sofreram esse processo chamado substituição, por meio do qual os elementos minerais, carregados pela água de percolação, expulsaram os tecidos da planta. Com isso, a forma externa de vegetal ficou preservada, mas seu conteúdo foi substituído: na verdade, deixou de existir, restando somente sua estrutura. O que existe são pedras em forma de árvores que se fragmentaram por ação basáltica.
Todo este material era considerado um estorvo pelos habitantes até que um vigário, Padre Daniel Cargnin, estudioso da paleontologia lhe dá o verdadeiro valor. Padre Daniel transformou Mata, uma cidade bucólica, semi-agrícola, em centro turístico, passando a ser considerado um “museu a céu aberto”. Com efeito, essa imagem confere com a realidade, pois quem percorre esse pequeno município encontra fósseis de madeira nas praças, nas calçadas, nas ruas, nos barrancos, nos pátios das casas, nos terrenos, nos sítios, nas matas, enfim, as pedras estão em toda parte. Assim como na cidade de Florença, na qual, para onde se olhar se vê arte, em Mata se enxerga madeira fossilizada em toda parte. Mata passou a fazer, de fato, jus ao nome “mata”
Com o advento do turismo, a cidade foi reestruturada para atender à nova realidade: as ruas sofreram um novo traçado. Ergueu-se um hotel com o sugestivo nome de Paleon Hotel. Construiu-se um museu, demarcaram-se sítios arqueológicos, elaboraram-se folders. Criaram-se sites. Foi uma guinada, pois passou de cenário agrícola para turístico.
Neste processo de mudança, a atividade de ornamentação seguiu um plano: dar sentido aos locais, por meio da preservação da madeira fossilizada. Cada praça, rua, gruta ficou contextualizada no todo. E é para esse cenário que os visitantes são convidados a contemplarem: natureza dada por Deus e remodelada pelo homem. Padre Daniel estabeleceu assim, uma simbiose entre o natural, sobrenatural e o humano.
Esta postagem vem a propósito do aniversário de 48 anos de emancipação político-administrativa do município, celebrado em 13 de junho, cuja data celebra-se o Dia de Santo Antônio, padroeiro da paróquia. As duas maiores religiões do município são a católica e luterana, seguidas provavelmente pela Assembléia de Deus. A atividade econômica predominante é a agricultura de arroz e fumo. Em relação às etnias predominam descendentes de italianos e alemães, mas com forte presença lusa. http://www.youtube.com/watch?v=HGhDHnFZOtI

LEI ESTADUAL N ° 4.836,
DE 2 DE DEZEMBRO DE 1964.
CRIA O MUNICÍPIO DE MATA.
ILDO MENEGHETTI, Governador do Estado do Rio Grande do Sul:
Faço saber, em cumprimento ao disposto nos artigos
87, inciso II e 88, inciso 1, da Constituição do Estado, que
a Assembléia Legislativa decretou e eu sanciono e promulgo a Lei seguinte:
Art. 1° - É criado o novo Município de Mata, com Sede na localidade do mesmo nome, constituído dos atuais Distritos de Mata, Clara e de parte do de Demétrio Ribeiro, todos pertencentes a General Vargas.
Art. 3º - A Câmara Municipal, para o primeiro período legislativo, será constituída de sete membros, que terão concluídos seus mandatos a 31 de Dezembro de 1967.
Art. 4° - Os mandatos do primeiro Prefeito e Vice- Prefeito extinguir-se-ão em 31 de Dezembro de 1967.
Art. 5º - Revogam-se as disposições em contrário
Art. 6° - Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação.
PALÁCIO PIRATINI, em Porto Alegre, 2 de dezembro de 1964.
ILDO MENEGHETTI
Governador do Estado


sábado, 8 de junho de 2013

A EXPERIÊNCIA DA VIDA EM MOVIMENTO. José Maurício de Carvalho.




A psicóloga Regina Beatriz de Resente Silva fez o lançamento da segunda edição do seu livro A mulher de 40, em outubro próximo passado. O livro resume as transformações físicas e emocionais pelas quais passa a mulher na meia idade, faz um histórico da vida sexual feminina na sociedade ocidental destacando as mudanças ocorridas no último século, aborda a experiência da sexualidade neste período da vida e finalmente, apresenta os quarenta anos como o começo da nova etapa da vida, ocasião da experiência mais próxima do envelhecimento. Quando do lançamento da primeira edição fizemos um comentário da descrição de Regina Beatriz sobre este momento da existência.  Falamos das partes do livro. A segunda edição permite tocar numa questão específica que se tornou urgente e que a autora faz com rara felicidade: situar a passagem pelos quarenta sem fantasias, sem falsos consolos, mas apresentando-a  como um tempo onde é possível estar bem.
O que faz da abordagem de Regina Beatriz uma leitura tão feliz? Ela não fantasia os 40. Trata-se de um tempo onde “a textura da pele muda, bem como o tônus muscular” (p. 57). É o momento da vida em que a mulher vive o climatério e a maioria passa pela menopausa. O corpo já não é mais o mesmo e o fato afeta o modo de viver a sexualidade. Contra esta posição serena e objetiva da autora a pressão irreal da mídia e da indústria de cosméticos que apresentam a mulher de quarenta como uma espécie de extensão das de quinze ou vinte. Há pouco tempo uma revista de circulação nacional destacou na capa o que denominou de geração sem idade, comparando mãe e filha, apresentando-as como companheiras de baladas, igualmente belas, igualmente disponíveis para o sexo. Nada mais falso, irreal e gerador de frustrações.
A abordagem é feliz porque apresenta a passagem pelos quarenta como um tempo de sofrimentos e perdas, mas principalmente de mudanças, ocasião de “estabelecer prioridade, rever valores, usufruir conquistas, dar uma reviravolta” (p. 113). Não se é mais o que se foi na juventude, a nossa história nos fez diferentes.
A leitura de Regina Beatriz é feliz porque mostra que se o corpo não é mais o mesmo e o desejo sexual também não, isto não significa que a mulher não possa viver a sexualidade de forma prazerosa. Em certo sentido a vida sexual pode ficar mais leve, quer porque o medo da gravidez já não está presente, quer porque os anos e a história pessoal permitem olhar de forma mais serena os medos e fantasias da sexualidade. A mulher ainda tem medos, mas os enfrenta com mais serenidade. Compreendeu que a vida, inclusive a sexual, é singular. Pode contar com ajuda médica e psicológica para lidar melhor com as limitações da idade e das fantasias. Pode estimular o desejo e desmistificar os preconceitos. Ela pode descobrir que “o sentido de suas ações, tanto no sexo como na vida, não está em evitar o fracasso, mas em ousar experimentar” (p. 79). Ela pode fazer muito se souber escolher com o que dispõe como corpo e experiências. Há uma frase linda que merece ser repetida: “À mulher de 40, mais consciente que aos 20 e aos 30, fica a sugestão: aproprie-se de sua vida, seja autora de sua história. As escolhas são suas” (p. 81). Clara percepção daquilo que o filósofo Ortega y Gasset ensinou no último século, a vida é o que fazer com a circunstância de que dispomos.

A interpretação da autora é feliz porque mostra os quarenta como um momento de passagem para a velhice. A mulher então “chora mais, ri mais, seleciona mais, lê mais, pensa mais, pois sabe que não tem o tempo todo ao seu dispor” (p. 85). Experimenta então o que a analítica existencial propõe, a consciência da morte é um estímulo para uma vida mais autêntica, uma vida com escolhas que têm mais a ver mais conosco e menos com o outros. Ela conclui: “o processo de envelhecimento é gradual, é lento e decorre de uma sucessão de acontecimentos (...) que transcorrem de modo vagaroso ao longo da vida. Envelhecer é um processo (...), não é uma doença” (p. 87).

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