sexta-feira, 31 de julho de 2026

II- ONDE ENCONTRAR DEUS? Selvino Antonio Malfatti

 


Os primeiros pensadores, mormente os gregos, contemplaram o cosmos e tiraram conclusões sobre si mesmos e o que os rodeia. Sobre universo, concluíram que  não pode estar vazio. Há algo misterioso no universo. O que contém não é inacessível, mas esconde uma inegável sua presença. Sobre si, que cada um continha o todo.

Perguntaram sobre o enigma do universo, pois se deram conta que havia uma um espaço preenchido, mas não explicado. Não chegaram propriamente à pergunta teológica. Os próprios deuses não eram a resposta do mistério do universo, mas parte dele. O universo, por sua vez, respondia plenamente à lógica da inteligibilidade. Isto lhes causava estupor que eles o denominaram de thaumázein. Por que o universo é desse jeito? Por que tem algo e não nada? E por que é belo, harmonioso e agrada ver? É um cosmos, racional e regrado.

Quem o regula? Quem o torna sinfônico?

Apareceram vários opinantes que carregavam a certeza. O filósofo de Mileto, Tales, chegou ao princípio da água, Anaxímenes do ar, Heráclito do fogo. Este último concluiu também que existia o princípio do logos, da razão e Anaximandro do apeiron princípio fonte das derivações. Finalmente Parmênides chegou ao Ser princípio eterno e imutável. Estes pensadores não partiram de Deus para explicar o universo. Talvez se preocupassem com o universo para explicar Deus.

No aprofundamento da solução surgem outras com caracteres mais insinuantes como de universo visto pela matemática. Por ela Pitágoras estendeu o conhecimento para o universo e o compreendeu como uma estrutura racional que aponta para mais além.

Contra o pensamento dos sofistas se insurge Sócrates, (399-269 a.C.), precisamente na questão das generalizações. Para ele os conceitos tinham valor universal e, portanto, era possível o conhecimento, bem como, em moral, propor-se leis gerais de conduta. Ao relativismo científico-moral, opõe-lhe a certeza. Isto foi possível graças ao avanço introduzido na questão dos conceitos: são gerais, abstratos e necessários, enquanto as coisas, são particulares, sensíveis e contingentes. O homem, através de sua razão, capta o dado natural e o formula em conceitos. Há uma correspondência adequada entre aquilo que o homem elaborou com sua capacidade mental e aquilo que a natureza apresenta fenomenologicamente. O dado particular e o conceito geral estão em sintonia. Não é uma ruptura, mas uma continuidade. Esta postura gnosiológica levada à política e às leis, implicará em respostas diversas às dadas pelos sofistas e epicureus.

Sócrates não se referiu a uma lei natural propriamente dita ou a um direito natural. No entanto, ao proceder a crítica aos sofistas contrapõe-lhe a racionalidade das leis e da moral, apontando para a questão da racionalidade e generalidade em oposição aos instintos, aos sentimentos e à relatividade. Para ele, a virtude é inteligência, razão e ciência. Discorda, portanto, também dos epicureus, para os quais a virtude é um meio para o prazer. Em Sócrates, virtude é conhecimento e vício é ignorância. O fim do homem é o bem e não o útil. Ao declarar que era preciso alçar-se aos sentidos, propunha o ordenamento da ordem natural através da razão. Era preciso procurar os princípios na natureza e não a seguir cegamente. Por isso era preciso buscar a universalidade.

A Justiça não consiste apenas em normas e leis, mas numa Justiça Superior, oriunda da divindade, do daimon, ou da racionalidade. Nesse sentido há um “cum sensu” entre a ordem cósmica até mesmo teológica - e a atividade racional do homem.[1]

A mudança de método surge com Sócrates: o homem. Este é apenas o microcosmos. Se o compreendermos ao mesmo tempo deciframos o enigma do universo. O “conhecer-se” é o axioma do universo. Se deciframos o homem, pensa Sócrates, tem-se a plenitude do conhecimento, pois é na consciência que se encontra a ética moral, chave da compreensão superior do universo através do indivíduo. O “conhecer-se“ abre o caminho do conhecimento.

Pode-se dizer que Sócrates intermediou a cosmologia e antropologia. No primeiro plano estão os pré-socráticos que queriam explicar o cosmos, o universo. Já no segundo, o próprio Sócrates que desloca a reflexão para si mesmo. Os dois se complementam, pois no afã da busca de Deus os dois são válidos. Deus pode ser pesquisado no universo como os cientistas atuais e no próprio homem como os filósofos de agora.

 

 



[1] PLATÃO. Diálogos.V.II, Fédon, Sofista Político. Trad. De Jorge Paleikat e Cruz Costa. Porto Alegre, Globo, l955, p. 270-296.

 

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