Os primeiros
pensadores, mormente os gregos, contemplaram o cosmos e tiraram conclusões sobre si mesmos e o
que os rodeia. Sobre universo, concluíram que não pode estar vazio. Há algo misterioso no universo. O que contém não é inacessível, mas esconde uma inegável sua presença. Sobre si, que cada um continha o todo.
Perguntaram sobre
o enigma do universo, pois se deram conta que havia uma um espaço preenchido,
mas não explicado. Não chegaram propriamente à pergunta teológica. Os próprios
deuses não eram a resposta do mistério do universo, mas parte dele. O universo,
por sua vez, respondia plenamente à lógica da inteligibilidade. Isto lhes causava
estupor que eles o denominaram de thaumázein.
Por que o universo é desse jeito? Por que tem
algo e não nada? E por que é belo, harmonioso e agrada ver? É um cosmos,
racional e regrado.
Quem o
regula? Quem o torna sinfônico?
Apareceram
vários opinantes que carregavam a certeza. O filósofo de Mileto, Tales, chegou
ao princípio da água, Anaxímenes do ar, Heráclito do fogo. Este último concluiu
também que existia o princípio do logos, da razão e Anaximandro do apeiron
princípio fonte das derivações. Finalmente Parmênides chegou ao Ser princípio
eterno e imutável. Estes pensadores não partiram de Deus para explicar o
universo. Talvez se preocupassem com o universo para explicar Deus.
No aprofundamento
da solução surgem outras com caracteres mais insinuantes como de universo visto
pela matemática. Por ela Pitágoras estendeu o conhecimento para o universo e o
compreendeu como uma estrutura racional que aponta para mais além.
Contra o pensamento dos
sofistas se insurge Sócrates, (399-269 a.C.), precisamente na questão das
generalizações. Para ele os conceitos tinham valor universal e, portanto, era
possível o conhecimento, bem como, em moral, propor-se leis gerais de conduta.
Ao relativismo científico-moral, opõe-lhe a certeza. Isto foi possível graças
ao avanço introduzido na questão dos conceitos: são gerais, abstratos e
necessários, enquanto as coisas, são particulares, sensíveis e contingentes. O
homem, através de sua razão, capta o dado natural e o formula em conceitos. Há
uma correspondência adequada entre aquilo que o homem elaborou com sua
capacidade mental e aquilo que a natureza apresenta fenomenologicamente. O dado
particular e o conceito geral estão em sintonia. Não é uma ruptura, mas uma
continuidade. Esta postura gnosiológica levada à política e às leis, implicará
em respostas diversas às dadas pelos sofistas e epicureus.
Sócrates não se referiu
a uma lei natural propriamente dita ou a um direito natural. No entanto, ao
proceder a crítica aos sofistas contrapõe-lhe a racionalidade das leis e da
moral, apontando para a questão da racionalidade e generalidade em oposição aos
instintos, aos sentimentos e à relatividade. Para ele, a virtude é
inteligência, razão e ciência. Discorda, portanto, também dos epicureus, para
os quais a virtude é um meio para o prazer. Em Sócrates, virtude é conhecimento
e vício é ignorância. O fim do homem é o bem e não o útil. Ao declarar que era
preciso alçar-se aos sentidos, propunha o ordenamento da ordem natural através
da razão. Era preciso procurar os princípios na natureza e não a seguir
cegamente. Por isso era preciso buscar a universalidade.
A Justiça não consiste apenas
em normas e leis, mas numa Justiça Superior, oriunda da divindade, do daimon, ou da racionalidade. Nesse
sentido há um “cum sensu” entre a
ordem cósmica até mesmo teológica - e a atividade racional do homem.[1]
A mudança
de método surge com Sócrates: o homem. Este é apenas o microcosmos. Se o
compreendermos ao mesmo tempo deciframos o enigma do universo. O “conhecer-se”
é o axioma do universo. Se deciframos o homem, pensa Sócrates, tem-se a
plenitude do conhecimento, pois é na consciência que se encontra a ética moral,
chave da compreensão superior do universo através do indivíduo. O “conhecer-se“
abre o caminho do conhecimento.
Pode-se
dizer que Sócrates intermediou a cosmologia e antropologia. No primeiro plano
estão os pré-socráticos que queriam explicar o cosmos, o universo. Já no
segundo, o próprio Sócrates que desloca a reflexão para si mesmo. Os dois se
complementam, pois no afã da busca de Deus os dois são válidos. Deus pode ser
pesquisado no universo como os cientistas atuais e no próprio homem como os
filósofos de agora.
[1]
PLATÃO. Diálogos.V.II, Fédon, Sofista Político. Trad. De Jorge Paleikat e Cruz
Costa. Porto Alegre, Globo, l955, p. 270-296.
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