sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Uma face da crise atual . José Mauricio de Carvalho

 



O sociólogo Zygmunt Bauman examinou esse assunto em A sociedade individualizada; vidas contadas e histórias vividas. No livro aprofundou temas tratados em outras obras aprofundando explicações e posicionamentos. Para o sociólogo, o que cada um considera como vida boa pode possuir variações, mas tem os contornos estabelecidos pela sociedade. Nela (BAUMAN, 2008, p. 8): “o veneno do absurdo é retirado, pelo costume, o hábito e a rotina, do ferrão da finalidade da vida.” É a sociedade que reconhece sentidos válidos e é ela que exclui aqueles indivíduos cujos significados não são adequadamente compartilhados. Por isso (ibidem): “todas as sociedades são fábricas de significado. Até mais do que isso: são sementeiras da vida com sentido.” O tema das buscas existenciais, fundamentais na filosofia e na psicologia fenomenológica ganham aqui um novo contorno, embora possamos considerá-lo responsabilidade individual, sem submetê-lo aos contornos sociais.

O sociólogo avaliou que o homem procura a transcendência, que o conceito representa o propósito da imortalidade, mas isso não lhe parece que se faça, pelo menos atualmente, pelo acolhimento de aspectos da natureza ou da cultura como em outros tempos. De todo modo, ele avalia, esse desejo humano alimenta a necessidade de realizar coisas que se estendam além da morte, como foi ao longo de muitos séculos. Um bom exemplo foram os faraós e imperadores que (id., p. 303): “ordenavam que seus restos mortais fossem colocados em pirâmides que resistiriam ao tempo e que ninguém poderia deixar de notar; as histórias de seus feitos deveriam ser gravadas em pedras indestrutíveis ou esculpidas em colunas e nos arcos.” Essas figuras notáveis tornaram-se personagens de livros de História ou de outras formas de registros. Uma outra forma de imortalidade é a família, cujo patrimônio genético se estende de geração em geração, dando continuidade à vida dos seus componentes. Comentou o sociólogo (id., p. 306): “de todas as entidades supra-individuais conhecidas pelos seres humanos por sua experiência diária, as nações e as famílias são as que chegam mais perto da ideia de eternidade”.

Um grande problema de nossos dias, provavelmente uma das fases mais duras de nossa crise de cultura, é que esse significado da imortalidade não mais se encontra no Estado e na família. O primeiro perdeu força devidos aos rumos do capitalismo financeiro e a segunda se diluiu em nossos dias devido a relações efêmeras de cada vez mais curta duração. Assim, as formas tradicionais de chegar próximo à imortalidade ou permanência se esfumaçaram. Era um caminho difícil e demandava esforço. Hoje há um número grande dos que querem alcançar a glória, mas não pelo esforço ou dedicação ao longo da vida. A imortalidade buscada por essa massa é pela notoriedade, passageira. Isso tem para o sociólogo relação direta com a forma atual do capitalismo (id., 308/9): “uma sociedade de consumidores sobressalentes e materiais descartáveis, na qual a arte de reparar e preservar é redundante e já foi esquecida. A notoriedade é descartável e instantânea, assim como a experiência da imortalidade.” Trata-se daquela máxima de que o importa são os quinze minutos de fama ou o máximo impacto antes do esquecimento imediato. Isso significa que a imortalidade agora se obtém pela fama instantânea e os benefícios. O que importa é a quantidade de prazer vivido e o lucro obtido.

Logo, como o que importa é tirar da vida o maior prazer enquanto se vive, o objetivo de viver é conseguir uma vida longa e prazerosa. A atenção está concentrada no que está acontecendo, deixando de lado o futuro, importa o happening. Para o sociólogo, a sociedade se beneficia de ambas as formas de como esse desejo de permanência se manifesta. No caso da busca atual, ela controla para que o significado da vida seja realizado dentro de (id., p. 9): “objetos verossímeis de satisfação, sedutores e dignos de confiança para instigar esforços que façam sentido e dêem sentido à vida.” Assim, a procura pelo prazer é estimulado se puder ser buscado pelos indivíduos dos diversos grupos, cada qual conforme suas possibilidades e interesses.

Esse olhar para a imortalidade sugere ao sociólogo que o propósito da atividade econômica, além de gerenciar a escassez de recursos, é evitar que as pessoas se coloquem diante da morte como algo real. Mesmo sem obter sucesso completo, a atividade econômica espera adiar, ao máximo, a preocupação dos cidadãos com a morte. Por outro lado, a economia oferece significados de vida como uma mercadoria valiosa para todos que queiram viver e não se ocupar tanto de nosso destino real. E tem um propósito adicional que é (id., p. 11): “acolher essa energia de transcendência que mantém a formidável atividade chamada ordem social em movimento; ela a torna necessária e possível.” Para Bauman, as culturas oferecem significados e manipulam o desejo de transcendência das pessoas, que beneficiam mais uns que outros. Quando um sentido já não é mais realizável por qualquer motivo, a sociedade dirige a atenção das pessoas noutra direção. Como a ânsia de transcendência é enorme, ela sempre precisa ser dirigida e acolhida socialmente.

Um aspecto destacado por Bauman é que as culturas reescrevem conteúdos e revisam fatos e que isso significa um necessário desvirtuamento da compreensão original do fato ou da explicação que tiveram. Isso foi apresentado com o conceito de articulação (id., p. 16): “a articulação é a construção de um conjunto de relações a partir de outro, e com frequência envolve desvincular ou desarticular conexões para vincular ou rearticular outras.” E como a História é recontada conforme as experiências das gerações ela vai sendo permanentemente desvirtuada. Isso se tornou um fato frequente, embora para o sociólogo (id., p. 18): “explicações alternativas foram buscadas, sendo encontradas em abundância na cultura de massa; com a mídia especializada em lavagem cerebral e em diversões baratas." Porém, pode não estar havendo propriamente um desvirtuamento, mas uma compreensão mais ampla ou elaborada dos acontecimentos. O desvirtuamento é uma possibilidade.

O problema nuclear do livro e, talvez de boa parte da obra de Bauman, seja entender porque a sociedade está se tornando um lugar de individualidades, onde o sentido da vida e outros significados ficam sob a responsabilidade, cada vez maior, dos indivíduos isolados. E estando sós isso é difícil de ter uma vida com sentido e adicionalmente todo o fracasso recai no próprio sujeito. Essa realidade também está invadindo os espaços públicos, que vêm se convertendo em lugar de interesses privados onde dificilmente se estabelecem laços sociais.

 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

O DEUS DE NOSSOS PAIS. Selvino Antonio Malfatti.

 

 



Será que estamos diante de outro fenômeno literário como “O Nome da Rosa”? Trata-se do livro de Aldo Cazzullo que em 4 meses distribuiu 360 mil exemplares. O título do livro é "Il Dio Dei Nostri Padri" (O Deus de Nossos Pais). O que há de extraordinário no livro? Nada, o conteúdo é conhecido por todos e é o mais lido de todos os tempos. O espetacular está na forma como é apresentado. Num linguajar simples, familiar, quase coloquial, contado pelo autor faz da Bíblia uma romance da História do Homem com Deus. Cada palavra, cada frase parece que saiu de nossa boca. Todos sabem o seu final, mas o jeito de abordar cativa tanto que não se quer parar de ler. É um romance que se conhece o enredo e a última cena está em aberto, pois sugere que cada um escolherá.

A História é tão simples que segue a ordem cronológica bíblica, mas associando à atualidade à vida pessoal, a grandes acontecimentos da História, à obras de arte. Tudo isso como se estivesse acontecendo agora. Tudo num estilo simples, alegre, como se pode ver na citação no final do artigo[i].  

O livro O Deus de Nossos Pais de Cazzullo planta a cultura cristã como o elemento chave que conduz a história. O povo italiano principalmente fica de pano de fundo, como o povo hebreu, simbolicamente escolhido como povo de Deus pelo qual a mão de Deus guia a Humanidade. A escolha do italiano poderia ser o francês, alemão ou qualquer povo cristão. Destacamos alguns conteúdos presentes na narrativa do autor através de alusões como Dante, Shakespeare, Cervantes e muitos outros

Sem dúvida o alicerce da cultura cristã reside no período antigo envolvendo a base principal que é a herança hebraica, seguidos pela civilização greco-latina. Esta incorporou ao cristianismo sua filosofia, língua e arte.

Com o advento do cristianismo Roma passa o ocupar o centro do cristianismo devido as pregações e martírios de Pedro e Paulo. A partir do Imperador Constantino a Igreja Católica manteve Roma como capital.

O tronco romano do cristianismo lançou seus ramos pelo resto do mundo tornando-se protótipo da arte, arquitetura, catedrais ainda existentes. O cristianismo concebeu em si mesmo uma renovação dando origem ao Renascimento com sua escultura, literatura, músicas, bem retratadas pelo Gênio do Cristianismo de François-René de Chateaubriand.

O autor dá ênfase na espiritualidade nas obras de arte e literatura universais no período medieval ao mesmo tempo em que os monges salvaram obras importantes que teriam sido destruídas nas invasões europeias como o mosteiro de Monte Cassino na Itália. Isto salvou a continuidade da educação cristã para toda a Europa.

Outro detalhe importante foram os santos místicos como São Francisco de Assis e Santa Clara que garantiram os valores cristãos e a espiritualidade num período de grande decadência religiosa.

Por último a influencia do cristianismo que exerceu um papel moderador nas guerras entre si de príncipes europeus. Por isso o Deus de Nossos Pais é um romance que conhecemos, mas sempre gostamos de ouvir.


[i] I nostri padri erano convinti di vivere sotto l’occhio di Dio: la sua esistenza era certa come quella del sole che sorge e tramonta. Oggi abbiamo smesso di crederci, o anche solo di pensarci. E la Bibbia nessuno la legge più. Invece la Bibbia è un libro meraviglioso. Che si può leggere anche come un grande romanzo. L’autobiografia di Dio. (Os nossos pais estavam convencidos de que viviam sob o olhar de Deus: a sua existência era tão certa como a do sol nascente e poente. Hoje deixamos de acreditar, ou mesmo de pensar nisso. E ninguém mais lê a Bíblia. Em vez disso, a Bíblia é um livro maravilhoso. Que também pode ser lido como um grande romance. A autobiografia de Deus.)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Papa Francisco, uma benção em tempos difíceis. José Mauricio de Carvalho

 



Temos vivido tempos difíceis. Não porque o mundo não tenha mais máquinas e apetrechos que tornaram a rotina menos custosa, mas porque as categorias com as quais pensávamos a realidade já não servem para entender a realidade emergente. Assim, direita e esquerda, conservador e progressista, cristão e não cristãos, não são mais a mesma coisa de cinquenta anos. Numa Guerra do Estado Islâmico contra um ditador cruel e sanguinário, não há o que apoiar ou dizer quem está certo. E o que dizer da reação de Israel contra um grupo terrorista e sanguinário? Como apoiar a Guerra em Gaza? Como condenar a ação do governo de Israel depois da agressão que sofreram?  Nesse mundo confuso, cheio de contradições e paradoxos, a figura débil do Papa Francisco, sua voz sensata e suave exortando a paz é um sopro de equilíbrio. Apesar das diferenças que temos precisamos viver em paz. A guerra propaga o sofrimento e pode levar ao fim da humanidade.

Temos vivido tempos difíceis. Não porque não seja necessário estudar o passado, compreender suas lições, aprender com seus erros, mas porque muita gente resolveu repetir aquela vida. Uma nova vida pede novas respostas, mas alguns passaram a chamar conservadorismo a perseguição aos homossexuais e outras minorias, a condenar políticas públicas de ajuda aos mais pobres. Esses anacrônicos repetem Caim (Gn. 4, 9): “por acaso sou guarda do meu irmão?” Sim, responde o Papa Francisco, nossa consciência deve nos responsabilizar pelo destino dos irmãos mais frágeis. Não porque somos iguais, não precisamos sê-lo, mas porque é necessário preservar a dignidade do outro. Lembra-nos Tiago (2:14-17): “Assim é a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.” Ou ainda mais claramente o disse o Mestre de Nazaré (Jo. 4-20): “Se alguém declarar: Eu amo a Deus, porém odiar a seu irmão é mentiroso, porquanto quem não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não enxerga.” Obrigado Papa Francisco por mostrar que se responsabilizar pelo outro é princípio ético necessário e não comunismo.

Temos vivido tempos difíceis. Não porque não se possa encontrar na fé uma resposta transcendente para a realidade, mas porque a fé em Deus, em Cristo para os cristãos, não significa abandonar a racionalidade, a ciência ou o estudo. Uma fé somente é autêntica se for meditada e não contrariar as regras da natureza, nem a fraternidade. Essa última é a raiz de todos os modelos éticos do ocidente. Assim, uma fé que desdenha a ciência e não considera as críticas de uma razão sensata, evolui para uma teocracia fanática e irracional, contrariando a evolução axiológica, jurídica e política do ocidente. E o tradicionalismo que daí emerge, longe de ser fé pura e verdadeira só serve para justificar uma moral irracional. É o Papa Francisco a voz equilibrada da fé que defende a Ciência, a Filosofia, a moral meditada e dialoga com outros religiosos de boa vontade. Francisco defende as religiões que tornam as pessoas melhores para Deus. Isso não significa abrir mão de sua fé e das verdades cristãs, mas o reconhecimento de que Jesus não é de ninguém. Francisco segue o mestre que diante da reclamação dos discípulos, surpreendeu com uma resposta inusitada (Mc. 9, 40): “Quem não é contra nós, está a nosso favor”. 

Temos vivido tempos difíceis, não porque as igrejas não possam ser mantidas pelos fieis, mas porque criou-se um falso cristianismo que serve para enriquecer pastores e propor um ideal de enriquecimento, empreendedorismo e vida principesca, que nada tem a ver com a mensagem evangélica. Não porque Deus nos queira pobres e miseráveis, mas porque o propósito das Igrejas não é enriquecer pastores, como não é dar vida de príncipe aos cardeais romanos. Obrigado Papa Francisco porque sua vida, sua roupa, seus costumes são simples como os de seu Mestre. Enfim, viver como um homem simples e sem luxos em meio aos bens não significa ser miserável.

E há também a se agradecer ao Espírito Santo por nos ter dado um Papa tão necessário para esses dias difíceis. Tempos líquidos onde tudo muda rapidamente e nada parece seguro. Que os homens de boa vontade sejam capazes de ouvi-lo antes que algum desastre maior nos agrida em nossa humanidade. Se o desastre surgir, um novo Hitler por exemplo, teremos que viver como bandidos que não querem lembrar o mal feito depois de praticá-lo.

 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

LIVROS SÃO MELHORES QUE TELAS. Selvino Antonio malfatti.

 



Uma pesquisa realizada pela Epson em 20 países da união europeia sobre a volta de livros escolares e materiais didáticos impressos nas salas conclui que da parte de professores e pais isto deveria acontecer para maior aproveitamento dos alunos.

O resultado da pesquisa apontou que em média europeia 63% e de professores 71% preferem que os livros e o papel fossem material didático preferencial em sala de aula. Não é uma questão de preferência pessoal ou opinião, mas um constatação empírica de que se aprende melhor no papel do que na tela.

Diante de uma página escrita, impressa, estamos mais concentrados do que diante de uma tela, de um monitor, onde é mais fácil se distrair, divagar, estar menos presente. Estudos tendem a mostrar que a compreensão da leitura é melhor em papel impresso do que em texto digital: um comportamento conhecido como vantagem do papel ou efeito de inferioridade da tela. O resultado estende-se ao material de apoio como fichas, projeções, fotocópias, gráficos. A pesquisa levou às seguintes conclusões:

Os livros em relação à tela não proporcionam cansaço visual. As telas podem irritar os olhos. Os livros proporcionam retenção de informações. As pesquisas demonstraram melhor compreensão e  retenção na memória dos conteúdos expostos pelos professores.

O grau de atenção sobre um determinado conteúdo não é prolongado. Estima-se que a atenção não passa de de 2 a 5 minutos na idade de 2 anos e 9 anos de 20 a 40 minutos. Por sua vez os livros não possuem atrativos correlatos, como links que desviam a atenção.

No papel a leitura fica mais marcante e na tela mais superficial. A pagina escrita atrai mais atenção, enquanto diante de uma tela somos levados por inúmeras  a distrações.

Os livros, em relação à tela, mantém os alunos no foco. Os livros proporcionam um ambiente mais calmo, livre de outras distrações e e leva naturalmente à concentração.

Os livros proporcionam outros efeitos colaterais como fixar o conteúdo e desenvolver atividades motoras, através da escrita e anotações.

Livros estão isentos de influências externas como apagões sendo acessíveis em qualquer momento e lugar, o que não acontece com a multimídia que depende de inúmeros acessórios como computadores, telas, eletricidade. Os livros são de fáceis “navegação”, pois só dependem do sujeito e do livro.

Em suma a pesquisa evidenciou o que empiricamente se sabia: que os livros em relação à tela possuem várias vantagens como despertar a criatividade pessoal, a autonomia individual, submeter a tecnologia como auxiliar na aprendizagem. O livro faz do aluno o sujeito do processo educativo, enquanto as telas o tornam objeto.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Aquele Outro que nasceu em Belém. José Mauricio de Carvalho





Há na Bíblia um lindo texto onde Rute fala para Naomi que a seguiria. Onde você estiver aí estarei (Rt. 1,16): "Não insistas comigo que te deixe que não mais te acompanhe. Aonde fores irei, onde ficares ficarei! O teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus!”

O que há de especial nas palavras de Rute é que quem faz a experiência com YHVH e O descobre como um Tu, não encontra outro lugar melhor para estar. A expressão Tu para designar Aquele Outro que contemplo e que me contempla, não por eventuais belezas que eu tenha, virtudes, utilidades ou qualidades que eu possa ter, mas que me sonda como sou e, apesar de meus vazios, me deixa vê-lo em si mesmo é alguém especial, uma pessoa. Se essa Pessoa for Deus, esse será o maior encontro de nossas vidas.

Uma das mais criativas análises e comentários sobre as relações pessoais encontra-se no livro escrito por Martin Buber intitulado Eu – Tu, (1923). A primeira parte da obra descreve as relações humanas, resumindo-as em dois pares de vocábulos. Os dois pares são respectivamente: Eu-Tu e Eu-Isso, sendo o Isso substituível por Ele ou Ela. Para Buber, quando se fala Tu ou Isso, pronunciam-se palavras-princípios, que resumem todas as relações possíveis aos homens.

A expressão Eu - Tu exprime, nessa descrição, o encontro íntimo ou mais estritamente a relação com o inobjetivável. Nesse sentido, nesse encontro é imprescindível a presença e a relação e não sobrevive sem elas. O que permanece sem a presença é o Objeto que não é duração, coisa pensada, fixidez, interrupção, ou ausência de relação. E aqui se manifesta o aspecto nuclear do caráter relacional do homem, as relações Eu - Tu, na ausência do Tu, se mudam em Eu - Isso, o que significa que aquilo que ficou depois da presença foi uma representação de algo que é dinâmico, indizível e inatingível.

Quando a relação perde as características próprias do encontro Eu-Tu, o Outro da relação deixa de ser Tu para tornar-se Isso. Como nem sempre o processo é linear o mundo, às vezes Deus, aparece na duplicidade, ele é Tudo, Ser, o que não se objetiva, mas pode ser objetivado. A totalidade ou Deus é quem (p. 71): "confronta, mas sempre como uma presença e cada coisa Ele a encontra somente como presença, aquilo que está presente se descobre a Ele no acontecimento e o que acontece, se apresenta a Ele como Ser". E, assim, na relação com o Tu surge o amor, pois o amor não se manifesta quando o que se pretende é experimentar, aproveitar, gozar e utilizar, os modos do Isso que é o tipo de relação objetiva, de posse, utilidade ou qualidade. A relação com o Tu tem características únicas e especiais que podemos resumir em: imediatez, reciprocidade, presença, totalidade, estar além do tempo e do espaço, fugacidade, não se tornar objeto.

Assim, nesse tempo de natal, o melhor presente é um encontro com Jesus de Nazaré, descobri-lo num encontro Eu – Tu. O frágil menino do presépio foi Alguém que, mais que qualquer Outro, fez com Deus (Pai) um encontro Eu – Tu. Aquele menino cujo nascimento foi descrito tão singelamente por Lucas Lc. (2, 6-7): “Enquanto estavam lá, chegou o tempo de nascer o bebê, e ela (Maria) deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria” é a mesma Pessoa que chamava JHVH de Pai. Pai é o parceiro de um diálogo de eterno amor. Isso fica claro quando a criança do presépio, ao ser batizada, Dele ouviu (Mt. 3,16): “Este é meu Filho amado, em quem muito me agrado”.

E, assim, nesse advento de tempos líquidos e mentiras gerais que povoam as redes sociais, que Deus o livre de transformar Jesus num Isso para Dele se valer em negócios e mentiras. Porque o menino que veio trazer a salvação é causa de condenação para os que mentem sobre Ele e sobre os planos do Espírito Santo de Deus.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

O NASCIMENTO DE JESUS. Selvino Antonio Malfatti.

 



Estamos em tempos natalinos: festas, presentes, decorações, promessas, augúrios. Comemora-se o quê? A festa natalina da pessoa mais importante da História universal: Jesus. Quem nos noticia o Nascimento de Jesus são dois evangelistas, Lucas e Mateus. Os dois evangelhos são considerados Certidões de Nascimento de Jesus.

Cada um dos historiadores narra de forma diferente, mas sem contradições essenciais entre eles. Os dois focos principais são os históricos e os teológicos. Embora a preocupação dos evangelistas não era escrever fatos históricos, mas subsídios para serem lidos nas reuniões das comunidades cristãs. Por isso, há algumas discrepâncias entre eles. Os evangelhos eram, por assim dizer, cartas e mais tarde foram compiladas para formarem uma unidade e se tornarem evangelhos.

Evangelho de Mateus

Escreveu o Evangelho entre 60 a 100 d.C. na Galineia.[i]

É considerado fonte para os demais evangelistas. Mateus define claramente o local do nascimento de Jesus, Belém, dizendo ainda que foi em cumprimento das escrituras na profecia de Miquéias (Mq 5:2). Acrescenta outros elementos complementares noticiando que Magos vindos do Oriente seguiram uma estrela para encontrar Jesus. Fala da matança dos inocentes por Herodes querendo atingir o recém-nascido. Em consequência a família de Jesus foge para o Egito.

A preocupação de Mateus é demonstrar que Jesus é o Messias prometido pelas escrituras, por isso cita os escritos da Escritura relacionando-os à vida de Jesus.

A crítica diz que não existem fontes externas que comprovem a estrela. Quanto à matança dos inocentes não aparece em outros registros fora da Bíblia. Com relação à fuga para o Egito pode ter acontecido por que eram comuns as migrações para esta região.

Evangelho de Lucas

Escreveu entre 60 a 105 numa cidade da Gécia.[ii]

Lucas é médico e historiador. Caracteriza-se por acrescentar detalhes aos acontecimentos narrados.

O local de nascimento de Jesus é Belém que coincide com Mateus.

Os detalhes que não constam em Mateus: foi em Belém devido a um decreto de Cesar Augusto que obrigou José a ir para esta cidade.  Outros descritos foram a manjedoura, por que não havia lugar na hospedaria, anjos anunciam o nascimento a pastores.

Lucas quer inserir o nascimento de Jesus no cenário do Império romano. O censo mencionado tem questionamentos, embora os censos fossem comuns, no entanto para este não foram encontradas provas da obrigatoriedade da cidade de origem. O contexto dos pastores e manjedoura quer contrastar com a pompa do império romano e mesmo da corte de Herodes.

Diante das narrativas de Mateus e Lucas podemos concluir que, em que pese Lucas contextualizar o nascimento ao ambiente político-social romano-judaico, não consegue encontrar provas externas às suas afirmativas e Mateus ao associar Jesus às tradições judaicas, em vez de esclarecer, dificulta a sua compreensão. Por isso, somente pela fé cristã os Evangelhos são documentos basilares e complementares entre si.

 

 (15) Noite Feliz (com letra) - Música de Natal - YouTube



[i] Mateus nasceu em Cafarnaum na Galileia. Era cobrador de impostos do governo romano. Conheceu Jesus e pregou na Judeia, Etiópia e Pércia. Foi martirizado na Etiópia e seus restos mortais estão na cidade italiana de Salerno.

[ii] Lucas nasceu na Antioquia, Síria. Profissão médico. Não conheceu Jesus pessoalmente, mas através dos apóstolos. Além do Evangelho escreveu os Atos dos Apóstolos, um relato das atividades dos apóstolos nos primeiros tempos da Igreja. Foi martirizado, mas não se sabe bem qual o local: Roma, Pátara ou Tebas. Seus restos mortais se encontram na Basílica de Santa Giustina, em Pádua, Itália.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Filosofia Clínica, aprofundamentos necessários. José Mauricio de Carvalho

 


                                                            Prof. Dr. José Maurício de Carvalho


A editora Filoczar, de São Paulo, está concluindo a edição de um novo livro sobre Filosofia Clínica. Já fizemos outros, além de participar de livros de colegas. Esse, no entanto, nos é particularmente caro. E por qual motivo? Primeiro por que acolhe pesquisas e sistematizações recentes que dão maior densidade e a aproximam das grandes técnicas de psicoterapia. A obra incorpora os estudos da Matemática Simbólica tal como vêm sendo conduzidos pelo criador da técnica o Prof. Lúcio Packter. Segundo por que é uma técnica com recursos para ajudar as pessoas nesse tempo de crise, contradições e dificuldades. Tempo marcado por mudanças na forma como foram consolidados o pensamento, sonhos e crenças da sociedade moderna.

O sociólogo Zygmunt Bauman fez uma leitura dessas dificuldades e apesar de pontos controversos em suas explicações, ele foi preciso ao mostrar que, entre as transformações em curso, encontra-se o surgimento de uma sociedade pouco estável. Tempos líquidos, ele nos disse, em resumo. E, esses dias em que nada está seguro e tudo pode acontecer, traz muitas dificuldades para a maioria das pessoas, algumas pela ausência da estabilidade profissional, outros afetiva, outros, ainda, institucionais. Estamos vendo desenvolver-se uma nova forma de viver a individualidade, que é parte da crise da subjetividade iniciada no século passado. São modificações que tentam ser compreendidas por vários representantes da filosofia contemporânea que esmiuçam esses problemas. E isso nos coloca diretamente na maneira como a cultura havia estruturado as instituições sociais para oferecer certas garantias e seguranças, todas elas postas em causa pela globalização e pela revolução nas comunicações. Essa confusão deu origem a um neoconservadorismo, com elementos religiosos e políticos. Mas um conservadorismo pouco crítico e inteligente que postula um modo de vida inadequado para os nossos dias, já que não podemos repetir o passado quando a vida renova os problemas.

Quanto à Filosofia Clínica, há algum tempo em evidência nos meios intelectuais, podemos dizer que ela não é desconhecida do público brasileiro. Em que consiste? Essencialmente é um método de abordagem psicoterapêutica desenvolvido sobre três colunas: análise categorial, estrutura de pensamento e submodos. Essas três colunas são apresentadas e comentadas nessa obra que não deixa de trazer um resumo do método, oferecendo uma compreensão ampla do assunto. No entanto, a obra não fica nessa exposição didática dos momentos do método, ela inclui um aprofundamento sistemático de procedimentos clínicos, considerando as pesquisas recentes. Em outras palavras, incorpora resultados de pesquisas avançadas lideradas por Lúcio Packter e oferece um conhecimento mais profundo da Filosofia Clínica, trazendo as atualizações necessárias para quem deseja estar atualizado no assunto. Por isso, é um livro tanto para quem está querendo conhecer a Filosofia Clínica como para aqueles que querem aprofundar seus estudos na área.

Cabe observar que, como técnica, ela é diferente da Psicologia pelo diálogo mais estreito com a Filosofia. Entretanto, a Filosofia Clínica se distingue de outras abordagens que usam a Filosofia nos trabalhos clínicos, porque não emprega as teorias filosóficas no aconselhamento psicológico. O método foi singularmente construído por Lúcio Packter que fez um diálogo criativo com a tradição filosófica. No entanto, para nós esse diálogo com a herança filosófica, que é singular como método, tem uma marca do tempo em que foi criado e possui elementos estruturantes da fenomenologia-existencial. Uma fenomenologia existencial considerada mais como filosofia que como método. Ou de forma mais simples, a Filosofia Clínica tem, por pano de fundo, as referências da filosofia contemporânea desenvolvidas na Europa continental, mesmo sem deixar de dialogar com a filosofia analítica e com o pragmatismo norte-americano.

Trata-se de um livro com muitas novidades, mesmo para aqueles que já têm um conhecimento da Filosofia Clínica. Esperamos que seja bem acolhido e examinado pelo público.

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