sexta-feira, 21 de abril de 2023

Filosofia no Brasil - Antonio Paim


 

Em 30 de abril completam-se dois anos da morte de Antonio Paim. Por muitos é considerado um dos maiores filósofos brasileiros. Na entrevista que segue algumas ideias  com Crisóstomo e Ricardo Andrade.

 

Crisóstomo e Ricardo Andrade conversam com Antônio Paim sobre Filosofia no Brasil (1)

Crisóstomo - Você tem um vasto trabalho de história do pensamento filosófico no Brasil, não apenas como historiador das ideias mas também como filósofo. Puxando a brasa para minha sardinha, pois esse é o problema que mais me interessa quando me ocupo de pensamento filosófico brasileiro, entendo que você entra naquela história, trata de encontrar aí verdadeiros desenvolvimentos filosóficos, e sai dela com uma proposta filosófica e uma tarefa para filósofos brasileiros: o Culturalismo. Você e o conjunto de pesquisadores do Instituto Brasileiro de Filosofia. É isso? Existe mesmo essa posição? Começando, então, pelo fim, o que é esse Culturalismo, que creio você compartilha com mais representantes do IBF? Quais são as suas teses? Trata-se de um humanismo da pessoa, de um neokantismo (incluindo contribuições hegelianas), de um anti-positivismo (embora amigável à ciência)? E, em termos de filosofia política, trata-se de um liberalismo moderado?

Antônio Paim – Eu sou kantiano. Quer dizer, na verdade o kantismo é uma forma de discutir, é um esquema que a sociedade ocidental encontrou para discutir a cultura, não é? A cultura, do ponto de vista marxista, estaria ligada a luta de classes, determinada pela condição proprietária, o que, como kantiano, não aceito. Mas houve em torno disso, no próprio marxismo, uma disputa de doutrina (que descrevo no meu livro Marxismo e Descendência), sobre esse determinismo, até na Rússia soviética. A discussão começou porque, primeiro, no próprio desenvolvimento da ciência, os russos esbarraram numa porção de problemas que saiam do esquema de “lutas de classe”. O ponto de partida foi um livro do Stalin em que ele examinava a questão da linguística: O marxismo e a questão da linguística. Ele diz nesse livro que a língua e a técnica não são parte da superestrutura classista. Então não há língua de classe, nem técnica de classe. Eu estudava na Universidade de Lomonosov e lá esse livro do Stalin “legalizou” de certa forma os estudos linguísticos.

Ricardo Andrade – Quer dizer que a ciência e a linguagem, que pelo menos parte da cultura, da chamada superestrutura, não seria simplesmente de classe?

Antônio Paim: Essa é a discussão que descrevo no livro: a ciência não é de classe. Quer dizer, não existe matemática de classe, nem biologia de classe. Então, essa discussão do livro do Stalin foi muito enriquecedora, mas ela chegou a certo ponto em que o marxismo ficaria sem objeto, e a discussão foi interrompida. Eu me lembro que assisti a um jurista soviético dizer que “o direito penal não é de classe”. Que o suposto, para os dois lados, é o mesmo: que a pessoa humana é recuperável. Então, aí, eu me lembro que o jurista decano resolveu encerrar a discussão, porque ia acabar com o objeto do marxismo (risos). Naquele livro, eu mostrei que o marxismo também não é impermeável, não é uma coisa dogmática assim, que você diga “aqui nesse santo ninguém mexe”. Enfim, a respeito da cultura eu sou kantiano. Acho que o problema é um processo histórico de constituição de determinada área, ou seja, vai se construindo... É o que eu tentei fazer a propósito da filosofia brasileira. Quer dizer, tentar apreender como é que nós construímos historicamente nosso contato com o real. Você tem uma realidade, como você se aproxima dela? Então, a partir disso você constrói uma esfera de saber.

Ricardo Andrade: - E a tarefa do culturalismo, para a cultura brasileira?

Antônio Paim - Bom, essas coisas estão respondidas no meu História das Ideias Filosóficas no Brasil. Essa obra está na Internet na página do Instituto de Humanidades: www.institutodehumanidades.com.br. Tem lá todos os meus livros, os livros do Ricardo Velez, do Prota, enfim, tem todos os livros do Instituto Brasileiro de Filosofia. E depois tem os cursos, né? cursos de humanidades. Quanto à história da filosofia no Brasil, eu examinei primeiro as ideias filosóficas em debate. Depois, as correntes, escolas e tudo mais, no segundo volume. E a tarefa do culturalismo para a cultura brasileira? Não tem tarefa. A cultura brasileira está estudada na minha obra. Não tem propriamente a coisa do culturalismo; tenho aí uma hipótese sobre o Brasil, publicada num livro, Momentos Decisivos da História do Brasil. Quer dizer, acho que o que o culturalismo, o kantismo, na filosofia, ajuda a conceber... Nós partimos da hipótese de que existe uma coisa chamada ‘moralidade social básica’. Uma hipótese que pode ser discutida por quem quiser. Uma moralidade que, no nosso caso brasileiro, historicamente, não é muito propícia ao desenvolvimento. Mas haveria uma outra alternativa, o Brasil poderia, no século XVIII, ter escolhido seguir o caminho da indústria, da agroindústria, a moenda, a movimentação dela, a energia para movê-la. Então, enfim. havia outras alternativas. Por que uma delas não foi seguida? Sei lá, isso ai é um mistério... Como é que se forma uma moral social. É difícil de dizer por que se escolheu aquilo.

Ricardo Andrade – Qual contribuição específica a filosofia poderia dar ao pensamento do Brasil, em distinção, por ex., da investigação sociológica?

Antônio Paim – Eu acho muito pretensiosa essa discussão... Quer dizer: então não pode haver uma inquirição a respeito da sociedade brasileira, é isso? Isso não pode ser investigação filosófica?

Crisóstomo – Se não me engano, alguns expoentes do IBF veem um déficit histórico no nosso pensamento filosófico – originariamente dominado pela Escolástica - no que tange ao reconhecimento da noção de autoconsciência. Malgrado traços em Antônio Vieira, uma contribuição decisiva em Gonçalves de Magalhães, quiçá outra em Tobias Barreto, etc. Quais seriam os marcos principais desse desenvolvimento da consciência ou autoconsciência na nossa história da filosofia? Algo da literatura brasileira poderia entrar aí? Se se trata de ir às primeiras origens positivas para o pensamento filosófico do Brasil, não seria o caso de destacar, para além de nossa prolongada, sufocante e atávica formação colonial escolástica, as contribuições anti-escolásticas (ou, pelo menos, não-escolásticas), no período colonial, de Francisco Sanches e Mathias Ayres?

Antônio Paim – Eu não sei se seria bem isso de autoconsciência. Temos alguns pontos de partida que são difíceis de delinear. Por exemplo, como já sugeri, há um momento na cultura brasileira em que, por interferência da Inquisição, nós escolhemos, em vez de seguir o caminho que levou à revolução industrial, seguir os passos da Inquisição. Quer dizer, é um dado histórico isso. Eu acho que a contribuição que o culturalismo deu para o entendimento do Brasil... Não tenho diploma nenhum pra estar falando do culturalismo mas, como eu andei dando uns palpites nessa matéria, eu posso opinar, né? Então, eu acho que a nossa contribuição vai no sentido de que existe uma moralidade social básica, que você não explica como ela foi escolhida.

Ricardo Andrade - O catolicismo atrapalhou o desenvolvimento nacional, é isso?

Antônio Paim - O Brasil era um grande fornecedor de açúcar. Os engenhos de açúcar, as usinas de açúcar do período colonial... Chegou no século XVIII sendo uma espécie de dono desse mercado. Mas a Inquisição começou a perseguir, porque o que havia na Inquisição era uma incompatibilidade da Igreja Católica com o desenvolvimento do que se chamou depois de capitalismo. De modo que acho que o que nós contribuímos foi para dar uma ideia do nosso processo histórico em geral. Pode ser que a autoconsciência não seja um bom termo...

Crisóstomo – Para além de um simples inventário, ainda que vasto e valioso, de pensadores brasileiros e de suas ideias, e além da proposta culturalista já assinalada, o que você vê como paisagem geral – resumidissimamente, claro - do pensamento filosófico brasileiro, em termos de suas vertentes e debates? Há p. ex. o que se poderia chamar de uma corrente hegeliana - “de esquerda” e “de direita” - particularmente relevante, no nosso percurso filosófico? Me lembro de, ainda garoto, ter lido um interessante trabalho de Djacir Menezes, Proudhon, Hegel e a Dialética, e depois obras dos representantes do ISEB, alguns dos quais assimilavam, além de Hegel e Marx, também Sartre e a Fenomenologia, numa espécie de pensamento, hoje se diria, descolonial ou pós-colonial...

Antônio Paim: Eu acho que são ciclos. Por exemplo, a primeira corrente do nosso pensamento que se estruturou é a que veio de Victor Cousin, do coletivo de Cousin, o Ecletismo. E acho que tem muita coisa interessante ali, sobretudo na oposição que desenvolve ao esquematismo de que o homem seria uma espécie de máquina. Você vê, o senso do tempo ia e você reagia... O grande mérito do kantismo quanto a isso é reagir num ponto essencial, o estabelecimento da moral. Porque você não tinha como, daquele esquema mecanicista, vamos chamar assim, inferir o comportamento moral, que é essencial para convivência social.

Ricardo Andrade – E além do Ecletismo de Cousin?

Antônio Paim – Eu associaria a pergunta do Crisóstomo aos ciclos históricos. Então há um outro ciclo histórico que vejo, que talvez não seja crença dos culturalistas de modo geral, que seria o entendimento de que a cultura é um setor para ser examinado do ponto de vista filosófico, e não, mecanicamente, do ponto de vista de qualquer ciência isolada. Esse ciclo esgotou-se? É provável, eu estou com 92 anos, já chega, né? já vivi o suficiente (risos). Mas não tenho outra perspectiva. Então acho que estamos num ciclo em que ainda predomina um mecanicismo. O que não quer dizer que não haja outras correntes, não digo isso de modo nenhum. Passando ao marxismo brasileiro, por exemplo, tem um livro que se chama Formação do Capital e seu Desenvolvimento, do Leônidas Resende. Esse livro introduziu o marxismo no Brasil, e o que Leônidas diz nele é o seguinte: Karl Marx e Auguste Comte viveram na mesma época, tiveram os mesmos mestres e no fim pensaram a mesma coisa. A única diferença é que um é revolucionário e o outro é reformista. Quer dizer, é um equívoco funesto isso, eu acho, porque o Comtismo é um determinismo. Enquanto acho que o marxismo é uma construção que, se você tiver habilidade suficiente, você consegue... Nós não tivemos suficiente habilidade para impedir que o marxismo no Brasil dominasse certas áreas do conhecimento... Mas aquele marxismo positivista é um equívoco.

Crisóstomo – A essa altura poderíamos talvez aludir à velha história da bipartição da filosofia universitária brasileira, faz muitas décadas, entre, de um lado, a turma da filosofia (ou história da filosofia) de tipo uspiano, estruturalista, liderada, digamos, por José Arthur Giannotti, e, de outro, a turma do Instituto Brasileiro de Filosofia, que você integra, liderada por Miguel Reale. A primeira, ligada ao rigor da leitura estruturalista de obras de uma pluralidade de filósofos clássicos, canônicos, europeus. No entanto às vezes considerada toda de esquerda ou mesmo marxista. E, em todo caso, avessa a expressões brasileiras de pensamento. Toi essa turma que se tornou numérica e institucionalmente dominante. A segunda, que perdeu peso, predominantemente interessada na pesquisa do pensamento filosófico brasileiro, considerada pela outra como sendo, em seu conjunto, de direita, ou mesmo, reacionária e pró-ditadura de 1964. Considerada também predominantemente amadorista, desprovida de rigor, enquanto trabalho filosófico universitário. Como amadorista seria também toda a nossa produção filosófica anterior, que ela queria estudar, desprovida, por isso mesmo, de qualquer interesse. Daquele tempo para cá, porém, a primeira vertente, a estruturalista, abriu-se à filosofia analítica, ao estudo do pensamento epistemológico e político liberal anglo-americano contemporâneo, agora até à chamada “filosofia comparativa” e, embora ainda bem aos poucos, também a algum interesse pelo pensamento filosófico brasileiro, ou pelas expressões brasileiras de espírito. Como no meu próprio caso, que ainda no século passado escrevi mais ou menos nessa linha um ensaio “A Filosofia como Coisa Civil”. Como mostrado também, recentemente, no considerável debate, na Coluna Anpof, sobre Filosofia Brasileira. E como nos preciosos trabalhos sobre a filosofia no Brasil de Paulo Margutti e Ivan Domingues. Na sua opinião, o pensamento filosófico de direita e o pensamento brasileiro, histórico, continuam a ser ignorados pelo establishment filosófico brasileiro? A propósito, desde o começo dessa pendenga, Immanuel Kant parece ter sido sempre, apesar de tudo, a menina dos olhos dos dois lados. E é fato também que alguns filósofos vieram a transitar nos dois lados, como, se não me engano, Tércio Sampaio Ferraz ou Vilém Flusser. Você acha que ainda faz sentido falar naquela divisão, digamos, em termos de abrasileirados de direita e estrangeirados de esquerda? Você não acha que um feliz desenvolvimento para a comunidade filosófica brasileira poderia ser uma combinação de um pensamento filosófico mais técnico com a disposição e contribuição ensaística brasileira, histórica, eventualmente menos “rigorosa” mas, em alguns casos, de expressão tentativamente mais autoral, além de contextualmente referida?

Antônio Paim – Olha, eu acho que é um mal aquela vinculação política. Quer dizer, não tem por que concordar ou discordar do que você diz, porque… Bem, quando voltei da Rússia queria me ver livre do marxismo, resolvi fazer o curso de filosofia de novo, acabei entrando para ensinar. No fim, houve, acho que em 1968, uma mudança na universidade. Na continuação de uma decisão de criar departamento, de extinguir a cátedra, etc. Mas, como havia o governo militar no meio…, era uma continuação, mas virou uma coisa de direita. Mas eu não aceitei isso, e vários outros professores não aceitaram a discussão nesses termos....

Ricardo Andrade – Mas e a disputa entre os estruturalistas, a turma da leitura cerrada, da fidelidade ao texto, e os historiadores do pensamento brasileiro?

Antônio Paim – Não sei se isso que você está chamando de estruturalismo é esclarecedor nessa disputa. Quer dizer, há na verdade uma discussão que remonta ao começo dos tempos (dos tempos nossos, né?). O professor Miguel Reale resolveu esse problema mas ele está sempre voltando. É que a filosofia é dividida em certos segmentos. Quer dizer, você tem uma perspectiva filosófica em torno a Kant e em torno a Platão, que são duas grandes perspectivas diferentes, não haveria uma terceira. Quer dizer, pode ser que haja, mas para mim não saiu, Husserl por exemplo não conseguiu. Além disso, em cima disso, constroem-se sistemas de filosofia, sistemas que a história mostra que não são duradores, que desaparecem. Hoje não há mais nenhum sistema filosófico que consiga abrigar uma porção de gente e dar um certo rumo. Então o que sobressai é essa fragmentação, que é legítima, se você considera e aceita a hipótese do Miguel Reale, de que o que desenvolve a filosofia não são os sistemas, são os problemas. O mérito dos sistemas é que eles põem uma certa estrutura, mas nessa fixação de limites aparecem as limitações, etc. O que está subjacente a isto é que há problemas que são recorrentes. E é aí que entra a filosofia nacional, que se distingue da filosofia inglesa, americana... São as questões, não os sistemas, de que ela deve se ocupar...

Ricardo Andrade – Como você avalia o interesse atual dos filósofos acadêmicos pela filosofia brasileira? Quais seriam as possíveis consequências de um maior ou menor interesse nesse campo?

Antônio Paim – Olha, eu não conheço esses interesses. O que eu imagino é que houve tempos atrás uma exclusão... Impôs-se uma politização que sempre quisemos evitar: de que a filosofia brasileira é dirigida por um grupo de direitistas. Tudo bem, não acredito que é um problema ser de direita... Agora, isso não tem nada que ver com nossa obra. Se há um interesse, se voltar a ideia, a ideia não, o dispositivo legal, de que no quarto ano do ensino de filosofia haveria um semestre dedicado à filosofia brasileira, isso vai exigir professor com essa formação, vai começar tudo de novo...

Ricardo Andrade – Quais seriam as possíveis consequências desse um maior interesse por filosofia brasileira?

Antônio Paim - Não vai acontecer nada, não vai estourar a cabeça de ninguém (risos). vai ser um processo normal. Silvio Romero (1851-1914)), num concurso que estava prestando para a Faculdade de Direito, disse que a metafísica estava morta. Então os catedráticos examinadores lá, que eram da filosofia antiga, estranharam e perguntaram se foi ele que matou (risos). Ele ficou irritado, mandou tudo à merda e largou todos para lá. Tobias Barreto (1839-1889), que era um desorganizado, voltou a essa questão, andou escrevendo uns artigos e largou para lá. Ele não dava maior importância às coisas dele, que o próprio Silvio às vezes guardava até o fim. Mas eu achei um artigo dele que era uma espécie de resposta a isto. Futuquei, futuquei e achei outros. Quer dizer, é dali que nasce uma outra alternativa para o positivismo. O positivismo é que afirma que a metafísica está morta. Se o positivismo tem razão, tem alguma hipótese que possa levar a um outro caminho? Pode ser uma metafísica que não se ocupe dos temas clássicos, sobrevivência da alma, coisas que estavam na filosofia antiga, né? Esse foi o caso com a metafísica. Então, eu acredito que, com um maior interesse por filosofia brasileira, vai haver uma certa movimentação filosófica...

Crisóstomo – Por indicação do meu Departamento, você, quando eu ainda não lhe conhecia, participou da minha banca de concurso para professor titular em 1994, junto com os professores João Quartim, marxista ortodoxo, Olgária Mattos, marxista frankfurtiana, Arley Moreno, wittgensteiniano, Francisco Pinheiro, ex-padre, tomista. Como parte desse concurso, apresentei uma conferência no campo do hegelianismo de esquerda. Você me aprovou, junto com os demais, com uma nota excelente, não obstante ser eu, além disso, aparentemente mais do que a concorrência, um representante típico do outro lado, uspiano-unicampista. Vale recordar que minha titulação de doutorado, considerada no mesmo concurso, foi obtida com uma tese sobre Marx e Stirner, examinada pelos profs. Marcos Müller (meu orientador), Cirne Lima, Paulo Arantes, Carlos Alberto de Moura e Michel Debrun. Depois daquele concurso, você e eu nos tornamos próximos, tendo você, que simpaticamente me chamava, com exagero nos dois adjetivos, de “jovem marxista” (na verdade eu já não era jovem e começava a desenvolver meu próprio pós-hegelianismo pragmatista), me convidado  contribuir nas atividades do Centro de Estudos de Pensamento Brasileiro. E eu de fato sempre me interessei em conhecer melhor o chamado pensamento brasileiro. Por essas e outras, e ainda pelo que li de seus livros, me acostumei a ver você como, além de aplicado estudioso daquele pensamento, um representante do Esclarecimento, do secularismo, do pluralismo e da tolerância liberais. Diante disso, gostaria de saber o que você acha da atual negação radical, ao que parece de direita e conservadora, que assomou no nosso País nos últimos anos. Uma negação, intolerante, do Esclarecimento, da Modernidade, do Racionalismo, associada a certas visões filosóficas e “científicas” bastante inusitadas, bem como a certo fundamentalismo religioso...

Antônio Paim – Não… o que apoio é que a CAPES não pode ser um ente partidário. Ela conseguiu fechar todos os cursos que estudavam o pensamento brasileiro. Vou dar um exemplo. No nosso programa nós tínhamos uma revista, e a avaliação da CAPES disse o seguinte: O grupo de professores é muito ativo e tal, publica muito, mas todos num único veículo. Então a gente ficou com nota C ou D, sei lá, só sei que a gente ficou por baixo. Já a UNICAMP ganhou uma nota A porque tinha uma revista, só que havia três anos que ela não saia. Quer dizer, um negócio muito parcial. Isso é uma posição minha; eu não acho adequado que seja o Estado que diga que isso aqui é bom ou isso aqui é ruim, em matéria de pensamento. Acho que isso não é uma boa coisa. Nos países desenvolvidos, a avaliação se o curso tal é bom é feita por instituições privadas. Por ex.: Qual o objetivo do curso? o curso é para formar professores para trabalhar em que? Então, isso é fácil de medir, né? Você formou, tem emprego ou não tem. Agora, quando o objetivo é mais geral, tem a ver com a cultura, aí fica… o Estado não tem que se meter. A meu ver, né?

Ricardo Andrade – Uma proposta como “escola sem partido” não seria uma maneira do Estado interferir indevidamente no trabalho do professor?

Antônio Paim – Isso sou contra. Não tem por que o Estado estar se metendo nisso. Eu ensinei Kant durante muito tempo na Universidade. Eu dizia na primeira aula que sou kantiano. “Estou aqui para ensinar vocês a lerem a Crítica da Razão Pura pela primeira vez. Se isso aqui for entendido como proselitismo, então vamos ver onde é que está o proselitismo”. Porque eu condeno isso. Ou seja, não estou querendo que quem for aristotélico vire kantiano. Estou querendo é que a formação permita a quem se disponha a ter uma posição – porque não é obrigatório que tenha, né? – que tenha liberdade de escolha. Liberdade que eu digo no sentido de conhecimento de causa. Quer dizer, você escolhe o Aristóteles por isso, escolhe o Marx por isso. Escolhe. Para não ser uma coisa imposta ou dogmática.

Ricardo Andrade – Eu gostaria de conhecer sua opinião sobre o ensino da filosofia no segundo grau. Num livro que publiquei com André Galvão (Crítico Intrépido! Filósofo Tímido? Sílvio Romero e o ensino secundário de filosofia no Brasil), no qual você gentilmente assinou a contracapa, nós apresentamos as ideias de Silvio Romero para a reforma do currículo do Colégio Dom Pedro II. Silvio entendeu que seria uma espécie de abuso obrigar os jovens a estudar matérias complicadas, como são as filosóficas, numa idade em que eles ainda não estão devidamente amadurecidos para enfrentar os problemas da filosofia. Por isso, ele sugeriu a substituição de um programa de metafísica, de moral, etc., por um de lógica, que ensinasse aos jovens as bases da argumentação consistente. Pergunto, na sua opinião, a filosofia deveria ser obrigatória ou os jovens poderiam escolher se querem ou não estudar filosofia na escola?

 

Antônio Paim – Eu não tenho uma opinião sobre isso, honestamente. Quer dizer, seria útil, a meu ver, se fosse possível ensinar que o contato com o real é sempre relativo a um certo posicionamento. Eu sei que é muito difícil fazer isso. Por isso eu tenho dúvida. Porque é muito difícil você simplificar a tal ponto que não seja uma simplificação (risos).

Ricardo Andrade – Mas, você acha que o jovem precisa disso ou ele poderia esperar mais um pouco para ter contato com a filosofia? Quanto mais cedo melhor?

Antônio Paim - Eu acho que precisa. Quanto mais cedo melhor. Se fosse possível dosar. Por exemplo, por que você deve saber que tem matemática, que tem ciências sociais, mas não tem que saber que tem filosofia? Não tem religião? Não tem moral? De outro lado, ocorrem certas gaiatices... Me lembro que no meu tempo se examinou a questão de saber se o ensino de filosofia não estava sendo uma coisa ridícula. Como por exemplo ensinar que filosofia peripatética é andar para lá e para cá. Não sei, corre-se esse risco, mas acho que vale a pena. Honestamente, acho que sim.

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(1) Antônio Paim publica sobre filosofia no Brasil desde 1966, é autor do extenso História das Ideias Filosóficas no Brasil (1984), seguido de numerosos Estudos Complementares. Paim nasceu em Jacobina, Bahia, em 1927 e viveu hoje numa casa de repouso para idosos em São Paulo, onde, com muito boa vontade e certa dificuldade, recebeu Ricardo Andrade (UFRB) para essa conversa, em 17/01/19. 

sexta-feira, 14 de abril de 2023

FINLANDIA DÁ EXEMPLO – SAI DA RUSSIA E VAI PARA EUROPA. Selvino Antonio Malfatti

 




A Finlândia tem 338.440 km² e uma população de 5 milhões e meio de habitantes, com a capital Helsinque.

No dia 4 de abril de 2023 a Finlândia entra oficialmente para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

 O garoto Davi enfrentou o gigante Golias ou, a fisicamente pequena Finlândia desafia a megalópole Rússia. Serviu de lição para o mundo todo.

Depois da Segunda Guerra a Europa para proteger-se criou a OTAN – Organização dos países do Atlântico Norte enquanto a Rússia e seus liderados criaram o Pacto da Varsóvia. Com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, 1991, extinguiu-se também o Pacto de Varsóvia. A Finlândia estava agregada ao Pacto.

Descontente com os rumos tomados pela Rússia na guerra com a Ucrânia, a Finlândia resolve abandonar a satelitização russa e agregar-se à OTAN. A reação russa responde prontamente com ameaças advertindo que tomará as medidas cabíveis contra Helsinque.

Com isso a Finlândia converteu-se no 31º membro da OTAN, tendo em vista o cumprimento integral do processo de adesão. O ministro das Relações Exteriores finlandês, Pekka Haavisto, entregou o documento que torna oficial a inclusão da Finlândia na Aliança ao secretário dos Estados Unidos, Antony Blinken, na sede da OTAN em Bruxelas.

Por sua vez o secretário geral da OTAN, Jens Stoltenberg, deu as boas vindas à Finlândia, enfatizando que o presidente russo está colhendo exatamente o inverso do esperado por ele. Sua expectativa era aumentar o poderio russo com a anexação da Ucrânia, mas deu um tiro no pé: perdeu a Finlândia e Suécia.

Este acontecimento marca o fim da neutralidade militar da Finlândia desde a Segunda Guerra, quando a União Soviética ensaiou uma invasão. A partir de então procurou manter uma relação amigável. Com a invasão da Ucrânia  em fevereiro de 2022, a Finlândia percebeu quão insegura era esta amizade russa e procurou uma maior proteção na OTAN que determina que um ataque contra um membro será considerado um ataque contra todos.

O que causa surpresa é que a diplomacia brasileira está indo na contramão da história. Enquanto há uma tomada de distância de governos totalitários o Brasil faz esforços de aproximação. O ex-chanceler Celso Amorim foi a Moscou para "um acordo de paz com a Ucrânia...."




sexta-feira, 7 de abril de 2023

Sudário dobrado. Apóstolo João

 





O denominado Santo Sudário está guardado na Catedral de Turim, Itália, desde a Idade Média.A crença comum e tradicional espontânea dos fiéis é de seja a imagem de Cristo morto e ressuscitado. Os céticos acreditam que foi uma fraude da Idade Média, mas os cientistas atestam que neste período não havia conhecimentos suficientes para elaborar tal fraude.

Abaixo um parecer de uma Comissão Científica:

Havia sangue humano no sudário;

As gotículas de tinta ocre seriam resultado de contaminação;

A habilidade e equipamentos necessários para gerar uma falsificação daquela natureza seriam incompatíveis com o período da Idade Média, época em que o sudário apareceu e foi guardado;

Como cientistas, também não podiam afirmar que a mortalha era verdadeira;

As marcas do Sudário são um duplo negativo fotográfico do corpo inteiro de um homem. Existe a imagem de frente e de dorso;

A figura do Sudário, ao contrário de outras figuras bidimensionais testadas até então, contém dados tridimensionais;

Não existe ainda explicação científica de como as imagens do Sudário foram feitas;

O Sudário apresenta marcas compatíveis com a descrição da crucificação nos Evangelhos."



 Viu também o sudário que estivera sobre a cabeça de Jesus. Não estava, porém, com os panos, mas enrolado num lugar à parte.


1.No primeiro dia que se seguia ao sábado, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro. Viu a pedra removida do sepulcro.

 2.Correu e foi dizer a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem Jesus amava: “Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram!”

 3.Saiu então Pedro com aquele outro discípulo, e foram ao sepulcro.

4.Corriam juntos, mas aquele outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro.

5.Inclinou-se e viu ali os panos no chão, mas não entrou.

6.Chegou Simão Pedro que o seguia, entrou no sepulcro e viu os panos postos no chão.

São João, 20 - Bíblia 




sexta-feira, 31 de março de 2023

A GAIOLA DOS HOMENS E O UNIVERSO. Selvino Antonio Malfatti

 

 




De tempos em tempos a humanidade é presenteada com homens de ciência. Na antiguidade destacaram-se Tales de Mileto e Pitágoras. Já na idade Média evidencia-se Nicolau de Cusa e Nicolau Copérnico. Já na idade moderna Galileu e Copérnico e na idade contemporânea Einstein e Hawking.

E se nosso mundo humano se limitasse a uma gaiola através da qual pudéssemos contemplar o universo lá fora. Uma gaiola sempre menor, carente de tudo, desde o ar, alimento, espaço. Uma gaiola que inevitavelmente teremos que nos livrar um dia ou outro e soltar-nos no espaço do cosmos como paraquedistas. Dizia ele:

«Devido à mudança do clima e ao progressivo esgotamento dos recursos temos de procurar outro lugar. E o único lugar para onde podemos ir são outros mundos, outros sistemas solares. Sair e nos espalhar pode ser o único caminho a seguir que pode nos salvar de nós mesmos. “Estou convencido de que a humanidade deve deixar a Terra.”

Estas são as palavras de Stephen W. Hawking nascido em 8 de janeiro de 1942 e falecido em 14 de março de 2018.

A vida reservou-lhe dois desafios. O primeiro foi vencer fisicamente as limitações impostas ao corpo. Era portador de esclerose, que degenerava os músculos, mas não as funções cerebrais. Teve que adaptar um sintetizador de voz para comunicação. Foi perdendo os movimentos de braços e pernas, a musculatura voluntária, não conseguindo nem manter a cabeça erguida. Com isto a mobilidade era praticamente nula. A doença o deixou mudo e dependente dos gestos. Quanto mais o corpo o aprisionava, tanto mais seu espírito se libertava e nunca a ciência foi tão útil para pensar, escrever, falar – através de um computador que lhe descortinava o universo. Preso e dependente de uma máquina nem por isso levou uma vida de misantropo e muito menos de misógino. Casou com Jane, cristã fervorosa, alertando o filósofo de que Deus para ela sempre viria em primeiro lugar. Ao que ele respondeu:

- Não me incomoda ficar em segundo lugar depois Deus.

Depois que Jane se separou do outro casamento o físico retorna para ela e seus três filhos.

O universo dos poetas era um espetáculo, dos filósofos um enigma, mas para Hawking um desafio. E enfrentou um inexplorado: os buracos negros do universo. Os monstros que engoliam estrelas.

Perscrutando os mistérios do universo, era inevitável que sua curiosidade fosse atraída pelo mais intrigante enigma, os buracos negros, os monstros do céu gerados pela morte de algumas estrelas, capazes de engolir matéria e luz, tornando-se uma mancha escura.

Geralmente a filosofia começa onde não há ciência e termina onde ela começa. É um conhecimento pré-científico e pós-científico. E foi isto que aconteceu com o físico Hawking. Quando acabou a ciência procurou a filosofia e se perguntou que teoria poderia explicar tudo? E chegou à conclusão que nem a filosofia seria capaz de dar uma resposta.

sexta-feira, 24 de março de 2023

QUARESMA. Selvino Antonio Malfatti.

 



 

O catolicismo , e algumas religiões cristãs como a Igreja Ortodoxa, a Anglicana, a Luterana, tem um período de seu ano litúrgico denominado Quaresma, cuja origem etimológica é Quarenta.

O cristianismo se alicerça sobre três grandes pilares: o pecado/culpa, redenção e o perdão. Dentre eles o mais problemático é o pecado por que gera a culpa coletiva e hereditária da humanidade. O pecado original. Exige arrependimento individual e coletivo para obter o perdão. Só com isso se restabelece a ordem na sociedade. Mas o que é a culpa original. É uma crença e sentimento coletivo de perda. O cristianismo apresenta como causa o pecado dos primeiros seres humanos. Prudentemente apresenta um corte da história humana: a presença da razão. Um “antes” e um “depois”. Evidentemente não há uma autocritica mais profunda do surgimento da razão. Foi instantâneo? Como a intervenção direta de Deus, pintada por Miguel Ângelo, em um Adão descansando no cotovelo do mapa do Brasil recebendo o elã espiritual do Deus da velha Europa?

Contudo subsistia o problema do mal. No início da Idade Média, um bispo, Santo Agostinho de Hipona, enfrenta a questão do mal. E a conclusão é que a causa do mal é o pecado e este tem uma origem inerente à natureza humana, é originário à natureza. No entanto, contrariando Pelágio, é necessária a graça de Deus. Não bastou o sacrifício de Cristo.

 HiponaHipona,

E o pecado cometido por culpa de quê? Que pecados poderiam cometer? Desobedecer a Deus? Pobres humanos! Coitados! E mais: uma culpa colossal que passa de geração em geração. Se não deveriam provar do fruto, senão conheceriam o bem e o mal, como poderiam fazer bem ou mal antes da desobediência, sem conhecer o bem e o mal? O problema está nisso: se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não há culpado porque então culpado?

Os personagens no ato do Pecado original: Deus, Adão e Eva, a serpente, o fruto. Desenvolvimento. A serpente insta Eva a provar do fruto, ela aceita, oferece a Adão este também aceita. São flagrados por Deus nus, são expulsos do Paraíso devem trabalhar sofrer e morrer.  A Salvação acontece com Jesus que se oferece em sacrifício para o perdão do Pecado Original e os demais pecados. 

Até mesmo a Igreja demorou para reconhecer o Pecado Original: século XVI d.C, no Concílio de Trento.

Este é o pecado original, origem da vulneração da natureza humana, da dor e do mal no homem e na sociedade. É um pecado de raiz, transmissível e geral aos seres humanos. O homem não se faz pecador, nasce com o carisma: “minha mãe me gerou em pecado”, diz o Salmo 51. Além disso, o pecado original é fonte de todos os demais pecados.

A questão é que o problema está invertido. Em vez de partir da hipótese do pecado (culpado), se deveria partir da virtude (inocência). Quem disse que somos maus, pecadores? Com certeza não foi Deus! Muito menos o sexo é algo repugnante.

Não existe nada para perdoar. Tudo que Deus fez é bom. Ele viu que tudo era bom. Foi uma obra perfeita, em que pesem as paixões e incoerências, mas superadas com livre arbítrio. Será que Deus deu o livre arbítrio como armadilha para induzir o homem ao pecado e condená-lo? Não se esconda de Deus. Sua nudez não é má. Não precisa ir longe para encontrá-lo. Ele está dentro de nós.

Diz o filósofo Baruch Spinosa:

‘Pare de me pedir perdão! Não há nada a perdoar. Se eu o fiz, eu é que o enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso culpá-lo se responde a algo que eu pus em você? Como posso castigá-lo por ser como é, se eu o fiz?”

 


sexta-feira, 17 de março de 2023

DEZ ANOS DE PONTIFICADO DE FRANCISCO I . Selvino Antonio Malfatti.

 



Fazem 10 anos  que está no meio de nós. Foi só alegria. Continue conosco, Francisco. 

Qualquer instituição costuma de tempos em tempos proceder a uma análise crítica ou uma avaliação de si mesma. Esta análise pode ser de iniciativa  interna ou externa. Interna quando for de dentro para fora e externa se for de fora para dentro.

Precisamente em 13 de março de 2013 o cardeal Mario Jorge Bergoglio sucede no Trono de São Pedro a Bento XVI e torna-se papa. Marcou época, pois o primeiro Papa não europeu desde Gregório III (século VIII), o primeiro do continente americano, Cardeal de Buenos Aires e, portanto, fora dos muros do Vaticano. Durante o conclave longe das apostas dos fiéis e boa parte da hierarquia eclesiástica. Mereceu do cardeal esloveno Franc Rodé logo após a eleição o comentário: “Será um desastre”.

Nossa análise será de caráter externo, isto é, vista não pelo próprio agente, mas esporadicamente por ele e por outras pessoas ou órgãos.

Quando a fumaça branca brilhou sobre o céu do vaticano, todos ficaram na expectativa de quem seria. E o conclave mostrou o cardeal Bergoglio. Já era conhecido entre os cardeais, pois havia sido membro de órgãos da Cúria e voz corrente é que havia se posicionado em segundo lugar na eleição de Joseph Ratzinger. Continuava apesar disso a descrença. Já estava com 76 anos e as chances se esvaíam junto com a idade. Inclusive, ele próprio, ria dos conterrâneos que acreditavam nele como vitorioso. “Ninguém o esperava”, era o que se ouvia após o resultado da eleição.

Sem maiores pretensões destacamos em seguida os carismas de Bergoglio.

Bergoglio, como cardeal, costumava frequentar as periferias da metrópole. Ele mesmo dizia que Jesus preferia as periferias existenciais. Para ele o centro de Deus era a periferia do homem. Dizia ele que o Bom Pastor não deve ficar om as ovelhas da sacristia, mas ir buscar as 99 que não estão na igreja. Para salientar sua preferência, em suas viagens, preferia países distantes, de minoria católica, passando de lado de países numerosos e de maioria católica. Conversa com ateus, acolhe grupos transexuais, desabrigados e os recebe em alojamentos em Santa Marta. Inclusive é alcunhado de “papa das periferias”.

Suas viagens podem ser resumidas:

 Europa (17 viagens)

 Ásia (10 viagens)

 América (8 viagens)

 África (5 viagens)

 Oceania (0 viagens)

Francisco I dedicou-se também à ecologia. Inclusive com uma Encíclica: “Laudato Si”. Confronta a ecologia mundana que polui e a ecologia integral de Deus que enlaça o social e o ambiental. Une o grito da Terra e o grito dos pobres. O grito da Terra é um apelo à conversão interior. Não há saída, pois não existe um Planeta B. Condena a “gula dos recursos naturais”, mas também a tagarelice dos Encontros que deixam de tomar medidas efetivas. Inclusive sugere inserir no Catecismo da Igreja Católica o “pecado da ecologia”.

Um desvio novo ressurgiu no seio do cristianismo atual. Trata-se do clericalismo ou a influência temporal do clero na vida social, econômica e política. Para o papa não passa de um mundanismo espiritual nos moldes do domínio temporal sobre o espiritual. Nem o inverso Francisco defende. Considera um flagelo, pois coloca uma casta de sacerdotes superiores ao povo de Deus. Pertencem ao clericalismo aqueles que fazem da religião um trampolim para a escalada econômico social. Abusam da autoridade e exploram os pobres.  O remédio contra o clericalismo é o “cheiro das ovelhas”, ao caminhar junto com o povo de Deus.

O sínodo é um momento sagrado. É um caminhar juntos sob a inspiração do Espírito Santo. Por isso está longe de ser um Parlamento ou uma aferição de opiniões. A etimologia do sínodo dá a pista para o sentido eclesial. É um caminhar juntos, ouvir os outros inclusive com suas diferenças. É o carisma da Igreja de Francisco. Este é um modelo caro para o papa. Para tanto, promoveu reuniões e debates diocesanos, continentais, em preparação às assembleias sinodais previstas em Roma nos anos de 2023 e 2024, nos meses de outubro. Esta é fórmula da descentralização através da corresponsabilidade entre sacerdotes, leigos, em suma todos os batizados.

No entanto, o que angustia o papa são os rumos que está tomando o Caminho Sinodal alemão com a preocupação expressa do surgimento de um cisma tendo em vista algumas propostas radicais, como exemplo a ordenação de mulheres e abolição da obrigatoriedade do celibato.

A misericórdia se alcança pelo perdão através da confissão. Este é o procedimento tradicional e comum na Igreja católica. E também, que Deus sempre e tudo perdoa. Inclusive em 2016 lançou o Jubileu da Misericórdia. A parábola do Filho Pródigo é sua preferida, inclusive elegendo-a como lema: “Escolhido por que perdoado.” Não importa quantas recaídas houver, Ele sempre perdoa.

A cultura do Encontro deve prevalecer à cultura da rejeição. A cultura do Encontro é mais uma marca registrada de Francisco. Sua arquitetura  é forjada pelas iniciativas de paz, expressa na Encíclica Fratelli Tutti. Conjuntamente com o mundo árabe, através do Grande Ímã Al-Azhar Ahmed Al-Tayyeb, foi assinado em 2019: Documento sobre a Fraternidade Humana para a Paz Mundial e a Coexistência Comum. Neste documento são abordados temas polêmicos com fanatismo religioso, liberdade religiosa, direito das mulheres.

“Como eu gostaria de uma Igreja pobre, para os pobres!”, são palavras de Francisco. O sentido de pobre entendido pelo papa não é o pauperismo, mas o “não ser escravo da riqueza, não viver para a riqueza.” Dentre os pobres Francisco destaca os imigrantes, os quais o levaram a Lampedusa.

Evidentemente, os pobres são aqueles que constam no próprio  Evangelho.  Para Francisco “Os pobres são o nosso passaporte para o paraíso”.

 

 

sexta-feira, 10 de março de 2023

FIM DOS TEMPOS DA DEMOCRACIA. Selvino Antonio Malfatti


 


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Todos se apercebem quando um livro é simplesmente repetição do que outros escreveram e, ao contrário, há algo novo. No primeiro caso as teorias já consagradas são simplesmente repetidas. No segundo caso as próprias teorias tradicionalmente aceitas são postas em discussão e uma a uma são desmanteladas, tais como informática e internet comparável à máquina a vapor e eletricidade, as revoluções sociais e tecnológicas serem base da economia moderna? Ou, a sociedade da informação, com sua inteligência artificial, o último estágio do progresso?

Atualmente é lugar comum justificar qualquer coisa contrapondo à democracia, como se esta fosse o parâmetro da justiça, quando justamente a democracia está submetida à justiça. A justiça é a condição da democracia.

É o que o livro de Franco Bernabè e Massimo Gaggi, quer nos alertar. (“Profetas, Oligarcas e Espiões”)  O desenvolvimento digital não é simples progresso dos tempos atuais, mas uma alteração nas relações entre sociedade, economia e Estado. Em detrimento dos sistemas parlamentares e classe média.

Sobre os autores. Bernabé foi líder de grandes indústrias exercendo a presidência da CEO da ENI e da Telecom Itália, Energia e Comunicações. Gaggi foi vice-editor do jornal Corriere e há vinte anos vem decodificando a sociedade americana como colunista da Nova York.

Ambos passaram por grandes crises desde o pós-guerra. O 11 de setembro com o Atentado das Irmãs Gêmeas que deram origem ao Patriot Act, lei da vigilância em massa. A multidão de turbulentos que invadiu Capitol Hill, o Congresso Americano.

No início da Internet, como numa Lua de Mel, tudo era atraente e ilusoriamente gratuito. Este mundo novo que se vislumbrava e deslumbrava era propriedade da Big Tech.  No entanto, não será o domínio da tecnologia da web que frouxa os freios e contrapesos, alicerces da democracia, mas é a forma como essas concentrações de poder será submetida. Na verdade por trás delas está o poder econômico. Por isso, o primeiro a ser dominado será o poder econômico.   Neste, três variantes precisam ser colocadas nos limites: identificar os riscos do descontrole da tecnologia, chegar a um consenso de regras aplicáveis e introduzir um travão para domesticar os monopólios. O tabuleiro de jogo de forças pode ser definido: 1º A Europa tem vontade política, mas não tem força. 2º Os Estado Unidos tem a força, mas não consegue força política. 3º A China se aproveitando para monopolizar o poder político e econômico. Por isso, não basta deixar à mão invisível guiar a política, o algoritmo, mas manter o controle pelo debate democrático submetendo-o à justiça,

O que provocou o nascimento, crescimento e a consolidação de uma oligarquia venenosa para o funcionamento da democracia foi o processo de desregulamentação dos anos Noventa que permitiu à indústria da internet criasse raízes tão profundas que os impérios financeiros, dela originários, ocultassem os do passado. A vontade de Reagan era não matar no berço o recém-nascido. Quando se deu conta, contudo, já não tinha volta. Já não é tarde imaginar  como era antes de “curtir”?

Neste momento pululam os “arrependidos”. Como paradigma pode-se citar Evan Williams, conhecido como pai do Twitter, declarou publicamente: “Achei que dar às pessoas mais liberdade para trocar ideias e informações online era suficiente em si mesmo para criar um mundo melhor. Eu estava errado, a internet está quebrada”. Muitos agora lembram quantos denunciaram o mais tóxico do Vale do Silício: o Facebook. Tal como o ópio, o facebook criou em boa parte da juventude uma sensação generalizada de ansiedade, insegurança e irresponsabilidade. O setor editorial com certeza está em crise. O pensamento crítico foi sufocado. Em vez de bibliotecas surgiram “salas” que alimentam as ofensas, acusações, ódios, os piores instintos. Não há raciocínio, apenas exaltação da pornografia e crimes contra vida, homicídio, infanticídio e aborto.  

Qual a origem?

- A Seção 230, nos Estados Unidos, que protege as empresas. Ela praticamente as isenta da responsabilidade pelos conteúdos publicados por terceiros. Á chamada a Lei de Decência nas Comunicações (Communications Decency Act).

 

 

 

 

 

 

 

 


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