sexta-feira, 29 de julho de 2022

CAIU A MÁSCARA DA GLOBALIZAÇÃO. Selvino Antonio Malfatti

 


 


Vantagens da globalização econômica. Costuma-se citar algumas vantagens da globalização econômica:

- Os mercados abertos possibilitam que mais pessoas tenham acesso a eles: movimentos rápidospara alcançar vantagens, comprar e vender serviços em todo mundo.

- O conhecimento e os saberes são difusos

- interação social, religiosa de usos e costumes. No passado as diferenças constituíam barreiras para a integração. Atualmente com a interação desapareceram.

- Os mercados abertos e a economia livre, libertaram pessoal e politicamente as pessoas.

- a globalização abriu o mercado do trabalho. As fronteiras do trabalho praticamente desapareceram. Não só fisicamente como virtualmente. Um francês em seu país pode trabalhar para um inglês em seu país.

O contra ponto veio pela economista francesa. LISABELLE BENSIDOUN[i], economista do jornal Le Monde, levanta a hipótese de que uma variável unicamente econômica não consegue efetivar uma opção econômica mundial. Para justificar seu argumento se louva em três fatos recentes globais.

1.         O primeiro seria a crise financeira de 2008. O acontecido: uma bolha imobiliária nos Estados Unidos aumentou consideravelmente os valores imobiliários sem ser acompanhado pela aumenta da renda da população.

2.         A crise sanitária de 2020. A pandemia simplesmente fragmentou a organização social. Houve um descompasso entre as trocas econômicas e as relações políticas internacionais. Em que pesem as relações econômicas estarem interconectadas digitalmente, surgiu a questão da informação que se desprendeu do geral e permaneceu isolada em cada país.

3.         O novo tabuleiro da geopolítica causado pela Guerra na Ucrânia.

Bastou um ator do tabuleiro afastar-se do consenso global para que tudo viesse abaixo. Foi o caso da guerra da Ucrânia.

O presidente da Rússia, Putin, invade o território da Ucrânia justificando a operação para salvar as repúblicas separatistas.

Com efeito, a Globalização prometia trazer prosperidade e democracia para todo ocidente, isso devido aos laços estabelecidos entre os povos nas últimas décadas. Era de supor que o menor clique nos comandos da economia em qualquer lugar do ocidente repercutiria nos confins do ocidente agindo como se fosse um corpo só com uma única alma. Pensou-se que ondas magnéticas se estenderiam da economia para a política, cultura, artes, enfim tudo agiria de forma globalizada.

Ao invés, há quinze anos, a crise que se abateu sobre a economia financeira ocidental findou com a hiperglobalização a qual pairava soberana desde a década de Noventa. Pensava-se que a liberalização sempre maior traria prosperidade para todos. A reboque na liberalização econômica viria a política. No entanto, o efeito foi o inverso, isto é, em vez da globalização adveio a desglobalização, isto é, uma brusca freada na dinâmica dos fluxos internacionais de bens e capitais.

Disso várias lições foram aprendidas. Aquelas certezas que nos animavam de que a globalização traria benefícios ficaram ainda nas expectativas. Por outro lado, o lado amargo, de reconhecer que a globalização é culpada de ter destruído empregos industriais, mormente nos países avançados e barrada sua criação em países em desenvolvimento. Uma consolação pode ser colhida, embora ainda fraca: a baixa dos preços. No entanto, a perspectiva mais alvissareira, a cereja do bolo, não se constatou: a liberação econômica seria acompanhada pela liberação política.

Quanto à crise sanitária várias vulnerabilidades afloraram: a escassez das máscaras, reagentes e medicamentos. Estes três componentes deixaram as populações a descoberto, pois quando faltava um, o outro ficava inoperante.

Pensava-se que estariam  garantidas as fluidezes das cadeias de suprimentos. Após a saída do Lockdown , os confinamentos coagidos, abalou-se a crise de falta de matérias primas: esgotaram-se aço, semicondutores, madeira, papel e outros. Isto levou à dúvidas as famosas cadeias de interdependências mormente de um continente ao outro. A falha de uma cadeia afeta a produção global, sem falar na falta de transparência dos custos dessas cadeias.

A Europa e Estados Unidos aplicam as restrições nos créditos. A Rússia fecha as torneiras do gás. A Europa e Estados Unidos correm para as usinas neuclares, dando adeus à poluição. É a globalização invertida. Todos estão dependentes de algo dos demais. Virou uma guerra de todos contra todos: bellum omnium in omnes.



[i] Isabelle Bensidoun est économiste, adjointe au directeur du Centre d’études prospectives et d’informations internationales (Cepii).

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Liberalismo e estado de direito. José Mauricio de Carvalho

 


Um dos desafios de nossos dias é conseguir dialogar com o mundo que emergiu no século XXI. De certa forma, esse mundo começou a se desenhar antes desse nosso século, com o fim do comunismo real e o término da guerra fria de um lado e com a emergência daquilo que o filósofo Vilém Flusser chamou de sociedade telemática. Hoje escuto falar em comunismo, mas estou certo de que literalmente essa gente não sabe do que fala. Atualmente temos poucos estados comunistas no mundo e o comunismo não é uma ameaça. Coisa diferente é a social democracia europeia que embora tivesse uma inspiração socialista se ajustou ao estado de direito e a liberdade de mercado. Nesse sentido os sociais democratas estão próximos dos liberais moderados.

 Falemos então dessa sociedade de massas e da informática? Flusser explicou que ela possui uma estrutura social nova que ordena as pessoas em torno de imagens. Nessa sociedade todos ficam conectados pelas imagens técnicas, isto é, imagens produzidas por aparelhos. Todos se conectam em imagens, numa rede de aparelhos, mas vivendo em inegável solidão porque o aparelho se interpõe entre o indivíduo e a sociedade e impede relações laterais e o exercício do pensamento crítico. Flusser disse essas coisas há mais de quarenta anos e elaborou uma boa imagem do mundo da internet de hoje, especialmente se entendemos que a rede mundial de computadores deu um novo perfil à sociedade de massas de que falava Ortega y Gasset no século passado. Uma sociedade de massas, isso é comum, é um agrupamento de pessoas imaturas (Ortega chamava o homem-massa de criança mimada), com conhecimento de um campo, geralmente limitado a alguma profissão técnica (mas sem um conhecimento geral e humanista à altura de seu tempo). Tratava-se de pessoas que não se esforçavam e desejavam o prazer, eram contrárias ao esforço e excelência moral (Ortega os denominava senhorzinho satisfeito).

O homem-massa não aprecia o esforço moral e nem cuida de sua preparação intelectual, assim prefere um governo forte, onde não há dúvida e questionamentos, mas uma versão criada e difundida como verdade. Um protótipo perfeito dessa sociedade foi a experiência nazifascista que, por ironia do destino se originaram na pátria do humanismo (a Itália) e na maior cultivadora da filosofia desde a antiga Grécia (a Alemanha). Justo a Alemanha da venerável universidade de pesquisa, a instituição máxima da busca honesta pela verdade e pela sinceridade. Não foi à toa que os nazistas hostilizaram os professores que não se curvaram as suas mentiras. Eles passaram a controlar as universidades com mão de ferro impondo a mentira, a mais famosa a de uma raça ariana superior que acabou no extermínio de milhões de pessoas inimigas do regime e de judeus. O nazismo produziu uma sociedade vazia de humanismo, de racionalidade e liberdade. Uma sociedade que agia como um criminoso que quer apagar o mal feito de suas culpas de cujo exemplo mais terrível foi o campo de Auschwitz. O campo de concentração é produto de uma sociedade que perdeu o compromisso com a verdade, que eliminou a justiça independente, que perseguiu juízes independentes, destruiu a democracia e o estado de direito.  Hoje essa extrema direita destrói o meio ambiente, desprestigia a ciência, difunde o uso de armas e a novidade foi que inventaram um cristianismo que está longe dos ensinamentos do jovem carpinteiro de Nazaré.

Embora inicialmente os liberais não fossem democratas, pois defendiam uma representação política apenas dos grandes proprietários, aos poucos entenderam que a democracia com liberdade de associação, imprensa livre e de poderes independentes era a melhor forma de enfrentar os tiranos, especialmente aqueles que dissimulavam um propósito autoritário. E não se pode esquecer que liberais de raiz como John Locke e Charles-Louis de Esconda, barão de La Brède e de Montesquieu desenvolveram a ideia de poderes independentes e harmônicos como forma de o cidadão se defender do Estado. Em outras palavras, um judiciário forte, independente e que julga a partir de leis votadas pelos representantes do povo livremente escolhidos é a base das democracia ocidental e a melhor forma de defesa do homem comum contra o poder despótico (o poder absoluto concentrado nas mãos de um tirano).

Estamos diante desse desafio, defender, nesse novo mundo telemático e que revive as teses da extrema direita, as boas causas da humanidade que são: o humanismo (o entendimento de que o homem concreto é o maior valor), a liberdade responsável, o estado de direito, o meio ambiente, a imprensa livre, a ciência, a racionalidade contra o antirracionalismo. E para os que creem, recuperar a imagem do Cristo dos evangelhos: o pregador simples e humilde, o carpinteiro trabalhador, pacífico, fraterno, caridoso, próximo e amigo dos que sofrem todas as formas de miséria humana. O jovem profeta da casa de David prometido pelos outros profetas, o Messias que foi hostilizado e morto pelas autoridades políticas que obedeceram, por comodismo, aos fanáticos religiosos. Foi a esses últimos que Jesus se dirigiu em Mt. 21,31: “Em verdade vos digo, que os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus.”


 

 

sexta-feira, 15 de julho de 2022

SOCIOLOGIA: CIÊNCIA DOS FATOS SOCIAIS OU SENTIDO DA AÇÃO? Selvino Antonio Malfatti.


 


                                                                                                   

                                         

                      

Aproximam-se as eleições. Haverá enxurradas de pesquisas de opinião, cada uma delas pretendendo ser o espelho da verdade. Vejamos até que ponto isto é verdadeiro.

Desde que Augusto Comte chamou a atenção para a positividade da realidade social, com a intenção clara de desvincular a sociologia da filosofia ou metafísica, a celeuma não teve mais fim. Em seguida apresenta-se Èmile Durkheim chamando a atenção para os fatos em oposição a abstrações. A partir daí lança as bases para o empirismo sociológico: generalidade, exterioridade e coercitividade. No entanto, ainda atualmente se pergunta se isto é possível. Como deve ser o objeto experimental? 1. Não pode ter autonomia para se modificar. Deve ser completamente passivo. Receber uma ação externa e cumpri-la. 2. Não pode negar-se à ação externa ou ter livre arbítrio, isto é, escolher. 3. Apresentar sempre a mesma reação ao estímulo. Dá a questão? As ciências humanas decorrentes da sociologia podem ser experimentais? Tomemos a eleição na política. A ação sobre o indivíduo tem autonomia? O indivíduo pode negar-se? Evidentemente, sim. Pode dizer não à ação sobre ele.

- Votei em ti, o que dás? O indivíduo pode dizer nada ou propor uma troca.

Além disso, pode num determinado momento dizer sim, depois mudar de posicionamento.

E mais: para um estímulo apresentar várias respostas.

Como se vê para as ciências humanas, como sociologia, dentro dos parâmetros metodológicos de Durkehim,  é refratária à pesquisa experimental. Por quê? O homem é um ser dotado de livre arbítrio. Pode fugir, esquivar-se ou negar-se a qualquer enquadramento experimental.

Se o método experimental é inadequado à pesquisa sociológica, deve-se encontrar outro método. Foi o que fez Max Weber. Propõe não a experimentação, mas a compreensão. Esta parte do pressuposto da racionalidade humana, isto é, o homem se move em sociedade pelo sentido que á à sua ação. Ela não é resultado da ação de agentes sociais, mas de escolhas racionais que dão sentido ao agir. E neste ponto entra a valor atribuído pelo sujeito racional. Ficam então descartados os fatos sociais bem como sua positividade. Não são os fatos sociais, mas o sentido valorativo objeto da sociologia.

E A teoria weberiana sobre o sentido da ação humana, conjugada com a teoria das formas de dominação, pode lançar luz sobre a questão. Conforme Weber, a ação humana pode ter quatro sentidos:

1. Ação racional, tendo presente uma verdade, avaliada sob a luz da razão como um fim em si e escolhida sem qualquer tipo de coação. Neste caso há uma perfeita sintonia entre o ser buscado e a razão.

2. Ação racional, tendo presente um valor, avaliado sob a luz da razão como um bem em si e escolhido sem qualquer tipo de coação.

3. Ação sentimental, tendo presente uma emoção, avaliada pelo sentimento como uma sacralidade e escolhida de conformidade com a satisfação.

4. Ação tradicional, tendo presente um costume, avaliado tradicionalmente como eficaz e escolhido sob a égide da repetição.ste sentido valorativo envolve:

Além da racionalidade e valor, incluem-se como método weberiano os tipos ideais que balizam comportamentos. Se me pergunto como seria um genuíno capitalista, um tipo ideal de capitalista puro surge algumas características que o descrevem: visa o lucro pelo lucro, acúmulo contínuo de capital, a única ética é o lucro. Embora um tipo ideal não se encontre na sociedade, mas é ele que traça os limites da perfeição. Quanto mais me aproximar do ideal, mais perfeito serei. Isto vale sempre dentro da ética estabelecida por este tipo. Posso me perguntar como seria um perfeito tipo ideal de “serial killer”, santo, ladrão, justo etc.

Quanto mais próximo do ideal, tanto mais corresponde à veracidade da pesquisa. 

Pensemos: qual a valor de um pesquisa de opinião. Simplesmente válida provisoriamente para aquele momento, para aquele lugar e para aquela realidade. Lembremo-nos da pesquisa de opinião para presidente. Dava Haddad em todos os tempos e lugares. No entanto, foi Bolsonaro o venceder.

Medir a opinião momentânea é uma coisa, medir o sentido do voto dado pelo eleitor é outra.

 

 

 

 

 


sexta-feira, 8 de julho de 2022

PARA MUDAR O MUNDO A ESQUERDA DEVE MUDAR O MUNDO OU DE MUNDO. Selvino Antonio Malfatti.

 




A Esquerda nasceu na França e por um acaso. Os deputados mais barulhentos, mais exaltados e radicais localizavam-se à esquerda do Presidente da Assembleia dos deputados, na Revolução Francesa. Esquerda designava, então, apenas uma localização: à mão esquerda. Pouco a pouco à localização física juntou-se o estilo do grupo e mais tarde o conteúdo ideológico: uma oposição ao status quo sócio-político, designado como de direita ou conservador. Atualmente o significado de “conservador” muda conforme o local. Na Rússia e Estados Unidos conservadores são socialistas radicais que não admitem mudanças.

A esquerda que teve como origem a França, de um modo geral ainda hoje  continua dar a pauta para esquerda de diversos países contrapondo-se às sociedades liberais. No entanto, seu raio de ação vai diminuindo eleição após eleição. Isso devido, como frisa o autor do artigo, “Pour changer le monde, la gauche doit changer de monde”,  Nicolas Truong, em Le Monde. Á desordem não só dos campos políticos, mas a natural evolução da sociedade rumo à emancipação. Isso configura um cenário de eleitores desesperados e em consequência uma esquerda desesperada. A perspectiva é de um cenário desastroso diante de uma eleição presidencial. O resultado das eleições mostrou que o eleitorado francês não quer nem a direita, nem a esquerda. Seria o centro? Sim e não. Quer um governo de centro, mas não tão forte que possa governar sozinho, pois perdeu a maioria. Quanto à esquerda, ficou em terceiro lugar. A socialdemocracia francesa não consegue imantar votos para impor-se como a primeira força política. Por enquanto serve-lhe um segundo lugar. As demais ramificações também patinam na esteira. O comunismo se concentrou na proposta do projeto nuclear e abandonou, ao que parece o ideal de igualdade. O ecologismo que parece ter uma base social de recepção não empolga suas lideranças. O trotskismo apresenta-se com uma reduzida cultura minoritária e patrimonial, despontando aqui e ali em resultados eleitorais. Há ainda os movimentos insurrecionais que se atrapalham e acabam no anticapitalismo ou nas teorias da conspiração.

Em questões pontuais temos uma esquerda fraturada: a questão da união ou unidade, imigração, islamismo e laicismo, em vez de igualdade a diversidade, uma classe política desintelectualizada e longe de seus membros, sindicatos longe dos novos temas atuais como produção, consumo e trabalho. O próprio âmago da ideologia de luta de classes cedeu lugar à luta de embates. Por tudo isso a esquerda já não é mais “um espectro que assusta” a Europa, ou “um cadáver de cabeça para baixo”, de Sartre. De tanto mudar sobrou um fantasma.

Vejamos o desempenho eleitoral atual que fala mais alto que a teoria.

Em 10 de abril, houve eleições para presidente em 1º turno  em França. Principais Candidatos: 

MACRON - LRM : 20.21% (9 560 545 votos) -Centrista

MARINE LE PEN - RN : 17.14% (8 109 857 votos) - Direita

JEAN-LUC MELENCHON - LFI : 16.07% (7 605 225 votos) – Esquerda

Com este resultado Macron e Marine vão ao segundo turno, no dia 24 de abril.  A esquerda não teve candidato próprio devido ficar em 3º lugar.

Vamos ao 2º turno:

1.         Emmanuel MACRON - La République en marche - 58,54 % - 18 79 641

2.         Marine LE PEN - Rassemblement national - 41,46 % -13 297 760

Nas eleições para a Assembleia houve um leve crescimento da esquerda em detrimento tanto do centro como da direita. Macron perde a maioria no Parlamento. Em segundo lugar, a coligação de esquerda Nova União Popular Ecológica e Social (NUPES) -- que junta forças como a França Insubmissa, os socialistas, ecologistas e comunistas -- tem 124 deputados e 6.418.964 votos (31,46%). Le Pen também cresce, pois consegue eleger 89 deputados contra os 8 deputados da eleição anterior.

Em que pese o crescimento da esquerda ainda não pode sonhar com um governo na França.


sexta-feira, 1 de julho de 2022

LEONARDO E MICHELANGELO - Selvino Antonio Malfatti

 








Toda vez que uma nova obra de arte surge ou uma nova descoberta científica é aprovada ou um novo entendimento ilumina a filosofia é motivo de regozijo para a humanidade. Quando o encoberto se desvela, o adormecido desperta para a vida, o sorriso contido desabrocha, é motivo de festa como a volta do irmão perdido. Toda vez que a poesia é declamada, o canto entoado, o discurso publicado de um Te Deum de gratidão que estremece os ares.

Da mesma forma quando uma nova forma de interpretar é descoberta é motivo de júbilo, pois sobe aos céus um hino de ação de graças.

Da mesma forma por ocasião da publicação do livro de Roberto Mercadini, «L’ingegno e le tenebre», (Ingenuidade e escuridão), no qual são analisadas as vidas e obras de Leonardo da Vinci e Michelangelo Buonarroti, compartilhamos a iniciativa.

Leonardo, natural de Vinci, da atual Itália, figura expressiva do renascimento, foi cientista, matemático, engenheiro, inventor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. Principais obras: Anunciação, Adoração dos Magos, A Última Ceia, Mona Lisa ou La Gioconda, A Virgem e o Menino com Santa Ana.

Michelangelo, natural de Caprese, Provença da Itália, semelhante a Leonardo, exerceu muitas atividades tais como pintor, escultor, arquiteto. Do mesmo modo destacou-se no renascimento, com obras primas como Davi, Pietá, Juízo Final, Capela Sistina entre outras.

- Leonardo era riflessivo, pacato, eclettico e interessato nos fenômenos da mundo da cultura. Michelangelo, ao invés, era turbolento, idealista e muito impulsivo.

Leonardo e Michelangelo (Leonardo da Vinci 1452-1519) e (Michelangelo Buonarroti  1475-1564) foram conterrâneos e contemporâneos. Ambos são de Florença e ambos dos séculos XV e XVI. Conheceram-se e não gostaram um do outro. Michelangelo foi predominantemente escultor enquanto Leonardo foi pintor. Ambos renascentistas, pois se valiam de temas e modelos greco-romanos para expor conteúdos cristãos, as duas obras-primas de ambos: Davi de Michelangelo e Mona Lisa, de Leonardo.

Leonardo parece ter o dom da ubiquidade, pois assim como as nuvens, está sempre em outro lugar. É indescritível como seu autorretrato. Leonardo é vaidoso, sabe se vestir, e mesmo a cor rosa não é desprezada. É homem da corte, que encanta, sabe atrair atenção até de papas, patronos e nobres. É um “bon vivant”, não se importa com as contas. Seu modo de ser diz sim a todos, embora esteja subentendido um não. É um extremista da experimentação, sempre curioso no aprender criativo de cada segmento. Nada lhe escapa, desde o sistema solar como o voo dos pássaros ou tintas transparentes. Mantem-se sempre como aprendiz e nuca mestre. Sua determinação o leva em ser ele mesmo até rejeitar a técnica do afresco ao pintar a Última Ceia pondo em perigo o desaparecimento de sua obra prima. Nem se importa com a indeterminação de sua sexualidade: homossexual? Bissexual? A Mona Lisa era continuamente retocada e nunca a dava por pronta e entregá-la ao cliente.

Michelangelo, incansável, trabalha noite e dia. Não recusa tarefas e quase sempre as conclui. Ao mesmo tempo em que esculpe Davi, encomendado pela Catedral de Florença, mas também, em segredo uma Madona e o Menino, a pedido de um mercador flamengo. Michelangelo é rico, mas vive como pobre. Não se importa com a aparência. Numa provocação seu nariz é esmagado por Pietro Torrigiano. De gênio irritado, nunca muda de roupa. Está sempre de mau humor se perguntando sobre Deus e o significado das coisas. Os nus masculinos são para ele verdadeiras obsessões. De porte musculoso e esculpido assim se apresenta como pintor.  A criação de Adão, na Capela Sistina, não mais é representada pelo sopro nas narinas, mas de um Deus que voa.

Mona Lisa, tem um olhar inigmático, misterioso. ninguém sabe quem é e o que quer.

Davi tem postura imponente, não deixa dúvida de quem é e o que quer.


sexta-feira, 24 de junho de 2022

POBREZA ABAIXO DO MARCO ZERO. Selvino Antonio Malfatti.

 




Pobreza. Como podemos descrevê-la ou identificá-la? Qual o marco referencial para uma discussão teórica? Esta, conjugada à fome, certamente seria uma discussão inóqua.Como dizia o sociólogo brasileiro Herbert de Souza: "quem tem fome tem pressa, não pode esperar." Por isso, fiquemos no plano teórico. 

Tomemos aleatoriamente como paradigma São Francisco de Assis. Um pedaço de pão e um copo de água ele dispunha na caverna de seu “convento”. Os irmãos tinham um abrigo e umas roupas para se vestirem. E só. E nada mais. Em tudo mais, os irmãos eram dependentes da caridade. Fixemos esta situação como marco zero da pobreza.

Numa das ausências de Francisco os irmãos quiseram sair deste limite da pobreza. Eles ergueram um abrigo, uma casa. Ao chegar Francisco indagou o que era aquilo. Os irmãos responderam que era uma casa para se abrigarem. Francisco lhes retruca:

- Vocês não entenderam nada da nossa pobreza. Nós não temos nada. Somos absolutamente pobres. Vivem como os pássaros do céu daquilo que o Senhor nos dá cada dia,

 Tentemos fixar a pobreza no marco zero em relação à fome. A partir daí pode-se escaloná-la para cima como menos pobreza, isto é, menos fome, ou para baixo, isto é, mais pobreza e mais fome. Com efeito, pode-se estar no limite da pobreza. Daí para cima menos fome e para baixo, mais fome.

Lancemos um olhar na história e para ver alguns exemplos de pobreza abaixo do marco zero. Com efeito, abaixo deste marco de pobreza a história registra alguns exemplos dos horrores da fome. O pároco de Andreis, na província de Udine em 1815 relata que a população comia espigas de milho moídas, temperadas com capim sem sal e em alguns casos com esterco. Por sua vez o estudioso Franco dela Peruta, dizia que os  habitantes das montanhas comiam as ervas dos campos como se fossem cabras. Na Antiga Roma costumavam abandonar os recém-nascidos ao lado de uma coluna e qualquer um podia pegá-los e tê-lo como escravo. E de lá para cá de dor em dor de revolta em revolta, de hipocrisia em hipocrisia a humanidade avançou na fome, até a idade média.

Nesta período melhora um pouco a fome pois o cristianismo introduziu a ideia de que o pobre  representava a figura de Cristo, através das Bem-aventuranças. Mas logo aparece o reverso da medalha da interpretação, conforme Elígio de Noyon: " Deus poderia ter criado todos os ricos, mas queria que os pobres existissem também no mundo, para oferecer aos ricos uma oportunidade de redenção de seus pecados”. Esta ideia perpassa a Idade Média e chega ao século XIX, em 1817: "No plano da Divina Providência, a pobreza é necessária para a Ordem do Universo".

Com Martinho Lutero a tese da pobreza e da fome merece outra interpretação: Os pobres teriam pacto com o diabo, impedindo esmolas. A ideia evolui no sentido de que os pobres se aproveitam da caridade dos outros. Isto chega aos monges franciscanos e eremitas com a tese de que: “fizeram da pobreza uma opção de vida".

A caça aos pobres segue sua escalada. As epidemias e as fomes fizeram com que enormes massas populacionais mudassem do campo para as cidades. O medo tomou conta das cidades e espalha-se a ideia da necessidade de separar os "os verdadeiros pobres" dos "falsos pobres". Sempre mais o cerco se apertava para o pobre e nesta escalada as mulheres levavam a pior. Bastava ser acusada de sem-teto ou desempregada que podia ser presa pela polícia no século XVIII. Ninguém mais que as mulheres sofreram tantas humilhações como as mulheres pobres neste período. Outra categoria social foram as crianças. Chegou-se a marcar com ferro em brasa no pé das crianças o “P”, de pobre. A mortalidade infantil chegou a ser de 92% na cidade de Pádua. 

Salta à vista de que a pobreza e a sina das mulheres e crianças andaram na história lado a lado.  Uma sina de choro, lágrimas e tormentos. E até mesmo quem se propunha ser um lenitivo para a dor endêmica era apenas um disfarce como da Pia Escola de Caridade que só aceitava:

"virgens, de pai e mãe honrados, honestos de costumes e fama".

Daí a conclusão a que chegava o historiador britânico Brian Pullan:

“Culpa dos pobres, concluiria amargamente, muito tempo mudos: cavar, cavar, cavar...”

 

 

sábado, 18 de junho de 2022

TRABALHAR NA INGLATERRA – SONHO SEMPRE MAIS DISTANTE. Selvino Antonio Malfatti

 

 


 

Se você almeja em trabalhar na Inglaterra, país de Primeiro Mundo, salário altíssimo, moeda em libras, o sonho se tornou menos realizável devido às novas exigências. Agora tem que conseguir o ”Visto Especial” para ingresso naquele país a partir de 30 de maio de 2022. Visa manter a liderança mundial da Grã-Bretanha como centro internacional de tecnologias.

O referido Visto é para estudantes formados nas melhores universidades do mundo e que querem trabalhar neste país. É chamado de “High Potential Individual“. As universidades escolhidas são em número de 37 de um conjunto de grandes centros de saber.  O primeiro é Times Higher Education, que incluem mais de 1600 universidades em 99 países. Os indicadores são ensino, pesquisa,e  transferência de conhecimentos e perspectivas internacionais. O segundo é QS World University Rankings, publicada cada ano pela Quacquarelli Symonds. Com mais de 1300 ateneus no mundo. E o terceiro, Academic Ranking of World Universities, elaborada pela universidade Jiao Tong di Shangha e publicada pela organização independente Shanghai Ranking Consultancy. (www.gov.uk/government/publications/high-potential-individual-visa-global-universities-list/high-potential-individual-visa-global-universities-list-

Em síntese:

1.    Times Higher Education World University Rankings

2.    Quacquarelli Symonds World University Rankings

3.    O Ranking Acadêmico das Universidades Mundiais.

Por esta classificação os clientes preferenciais são os americanos enquanto entre os europeus figuram apenas nos dois Politécnicos Suíços, nomeadamente o de Lausanne e o de Zurique, a Universidade de Munique na Alemanha, o de Ciências e Letras de Paris - que é a antiga École Normale Supérieure - e o Karolinska de Estocolmo. Os demais países europeus como Itália, Espanha, Portugal, Áustria e outros nem são mencionados. Nesta lista não aparecem  universidades dos países Sul-Americanos, África, da Ásia alguns, Japão .

Para os excluídos se quiserem trabalhar na Inglaterra há custos. Para receber o Visto Especial de “High Potential Individual”, deve-se pagar mais 715 libras esterlinas ou 900 euros (R$4.411,55), 750 euros seguro saúde e comprovar a posse de R$ 7.836,00 ou 1500 euros.

Como se percebe há duas formas de ingresso na Grã-Bretanha para trabalhar. Uma é pela origem de formação que são as universidades selecionadas e outra é pelo status pecuniário individual. E pelo que se percebe são exatamente os mais ricos que são dispensados de renda e avaliados pela formação, enquanto os mais pobres devem desembolsar significativa quantia e sua capacidade demonstrar na prática.

Com certeza a Grã-Bretanha pode fazer isto, tanto pelo verbo poder como capacidade, como poder com permissão (CAN, MAY). Depois que se desvencilhou da Comunidade europeia alcançou plena autonomia e pode impor regras próprias.

 

 

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