sexta-feira, 26 de novembro de 2021

ELEIÇÕES DE 2022 - AS PROPOSTAS DE SÉRGIO MORO. Ricardo Vélez Rodríguez

 


                                        SERGIO MORO

O EX-MINISTRO DA JUSTIÇA E SEGURANÇA PÚBLICA, SÉRGIO MORO

 

É saudável, para a democracia, o debate ao ensejo das eleições, especialmente as presidenciais. Muitos acham que debate é coisa ruim, equivalente a uma briga. Ora, precisamos saber que o debate é essencial à vida democrática. Como na sociedade não há unanimidade e tudo se constrói pelo caminho da negociação entre interesses diversos, sem debate não haveria o necessário consenso. No caso das eleições presidenciais, o debate deve ser presidido pela discussão dos temas presentes nos diversos programas. É ruim para a vida democrática o clima de “já ganhou”, que muitos utilizam para potencializar a expectativa do seu respectivo candidato. Ora, pesquisas eleitorais jamais podem substituir a decisão das urnas. O debate claro e aberto entre as várias propostas é vital para a preservação da democracia. Infelizmente, na nossa história republicana, temos tido vários períodos autoritários que são responsáveis pela pouca valorização dos debates, ao ensejo da tentativa de alguns espíritos absolutistas de querer impor os seus pontos de vista e os seus candidatos. Contra esse clima de intolerância e de falta de lucidez é necessário reagir com força.

O fato de termos a nossa preferência num pleito eleitoral, não nos exime do esforço de conhecer os programas dos demais candidatos. Liberal-conservador por convicção, para o pleito do ano que vem tenho o propósito de conhecer os programas dos vários candidatos. Claro que escolherei aquele que melhor se afinar com as minhas prioridades axiológicas e com a defesa dos meus interesses. Mas, como professor, esforçar-me-ei, também, por conhecer os demais programas, a fim de conversar sobre esse tema com os meus alunos, amigos e conhecidos.

O primeiro plano de voo que me vem às mãos é o do ex-ministro Sérgio Moro, a quem conheci no primeiro gabinete do atual governo, como ministro da Justiça e Segurança Pública. Eu ocupava o cargo de Ministro da Educação. Durante a Transição e ao longo dos três meses que permaneci no governo, tive a oportunidade de conversar com o Ministro Moro sobre assuntos que tangiam à minha pasta e colaborei com ele na discussão das suas propostas acerca do Projeto de Política de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, que seria apresentado ao Presidente Bolsonaro, para ser encaminhado ao Congresso.

De outro lado, cumprindo com a promessa que eu tinha feito quando tomei posse, no sentido de coibir as práticas administrativas corruptas, foi assinado por mim, em 14 de fevereiro de 2019, um Protocolo de Intenções junto com o Ministro da Justiça e Segurança Pública, com o Ministro Wagner Rosário da Controladoria Geral da União, com André Mendonça, titular da Advocacia Geral da União e com a participação do Diretor Geral da Polícia Federal. Do Ministro Moro recebi atenção especial na confecção e debate desse Protocolo, que foi denominado de “Lava-Jato do MEC” e que visava a identificar irregularidades na gestão de algumas repartições do Ministério.

Passo, a seguir, a mencionar e analisar, brevemente, os pontos que me pareceram mais destacados no discurso de Sergio Moro, quando da sua filiação ao Partido Podemos, em Brasília, no dia 10 de novembro deste ano.

1 – “Para que possamos demonstrar com sinceridade o nosso desejo de reconstruir o País e de reformar as instituições, nós precisamos provar que estamos dispostos a sacrifícios”.

Nesse contexto, Sérgio Moro propôs que a classe política deixasse de ter como foco aumentar o seu poder ou os seus privilégios, passando a cuidar do bem comum e do interesse público. Para tanto, ele propôs o fim do foro privilegiado, que trata o político ou a autoridade “como alguém superior ao cidadão comum”. O foro privilegiado “não deve existir para ninguém e para nenhum cargo, nem para o presidente da República”. Quanto à reeleição para cargos no poder executivo, devemos admitir que é uma experiência que não funcionou em nosso País. Nesse contexto de igualdade democrática, Moro propôs o fim da reeleição “para cargos no poder executivo”.

2 – “A Petrobrás foi saqueada, dia e noite, por interesses políticos, como ‘nunca antes na história deste País’ ”.

A consequência direta desse fato criminoso é, hoje, uma persistente recessão provocada pelos mesmos governos que permitiram tudo isso, com as pessoas comuns desempregadas e empobrecendo. Pode Lula falar no Parlamento Europeu quanto quiser, que os seus desfeitos para com o Brasil não desaparecerão da memória coletiva num passe de mágica. Pior: estão trazendo, como consequência catastrófica, dor, frustração, desemprego e fome.

3 – “Conseguimos de fato, em 2019, diminuir a criminalidade violenta e enfrentamos para valer o crime organizado”.

Ninguém combateu o crime organizado de forma mais vigorosa do que o Ministério da Justiça na gestão de Sérgio Moro. Lembrou o ex-ministro que “aproximadamente dez mil vidas brasileiras deixaram de ser ceifadas pelo crime”. As lideranças das gangues mais perigosas foram isoladas em presídios federais. A propósito, o ex-ministro frisou: “Disseram que reduzir crimes no Brasil e combater o crime organizado era impossível, mas isso foi feito”.

4 – “O meu desejo era continuar atuando, como ministro, em favor dos brasileiros. Infelizmente, não pude prosseguir no governo. Quando aceitei o cargo, não o fiz por poder ou prestígio. Eu acreditava em uma missão”.

Quando o ex-ministro viu que não contava com o apoio do chefe do Executivo no seu combate ao crime organizado, deixou o Ministério para não coonestar com uma farsa. E frisou, determinado: “Nenhum cargo vale a sua alma”. Infelizmente, destaca o ex-ministro, “os avanços no combate à corrupção perderam a força. Foram aprovadas medidas que dificultam o trabalho da polícia, de juízes e de procuradores. É um engano dizer que acabou a corrupção quando na verdade enfraqueceram as ferramentas para combatê-la”.

5 – “Ao olharmos para as reformas que estão sendo aprovadas, o que a gente percebe é que ninguém está pensando nas pessoas”. Em que pese o fato de se apresentarem iniciativas boas como o aumento do Auxílio-Brasil ou do Bolsa-Família, estas vêm acompanhadas de algo ruim como o calote às dívidas, “o furo no teto de gastos e o aumento de recursos para outras coisas que não são prioridades”.

6 – “A degeneração maior da vida política consiste em que a busca do interesse público foi substituída pela busca egoísta dos interesses próprios e dos interesses pessoais e partidários”.

Esse defeito ocorre quando a máquina pública está voltada para si mesma. Isso explica por que “o Brasil continua sem futuro, com o povo brasileiro sem justiça, sem emprego e sem comida”. Ninguém pode ter a pretensão de elaborar um projeto só para si mesmo. Para reagir contra esse despropósito, frisou o ex-ministro, “resolvi entrar na vida política e filiar-me ao Podemos, um partido que apoia as pautas da Lava Jato. Mas esse não é o projeto somente de um partido, é um projeto de País aberto para adesão por todos os demais partidos, pela sociedade brasileira, do empresário ao trabalhador (...). Queremos juntos construir hoje o Brasil do futuro.”

7 –“ Nossas únicas armas serão a verdade, a ciência e a justiça. Trataremos a todos com caridade e sem malícia”.

O ex-ministro fez questão de sublinhar que “O Brasil é de todos os brasileiros e nosso caminho jamais será o da mentira, das verdades alternativas ou de fomentar divisões ou agressões de brasileiro contra brasileiro”. Sérgio Moro destacou que “Jamais iremos propor o controle sobre a imprensa (...). Isso vale para mim e para qualquer pessoa que queira nos apoiar”.

8 – “Precisamos proteger a família brasileira contra a violência, contra a desagregação e contra as drogas. Propomos incentivar a virtude e não o vício, uma sólida formação moral e cidadã”.

O projeto de redução da criminalidade violenta, do combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas deve ser realizado “com todo o vigor, sempre na forma da Lei, e buscando recuperar aqueles que se desviaram do bom caminho”. Paralelamente, destacou o ex-Ministro, “precisamos de uma sociedade inclusiva, que acolha as diferenças, e precisamos também de uma sociedade que respeite todas as crenças e religiões”.

9 – “Por acreditarmos no potencial de cada um, defendemos o livre mercado, a livre empresa e a livre iniciativa, sem que o governo tenha que interferir em todos os aspectos da vida das pessoas”.

Isso implica na realização da reforma tributária e a retomada das privatizações. É necessário abrir e modernizar a economia buscando mercados externos 

10 – “Uma das prioridades do nosso projeto será erradicar a pobreza, acabar de vez com a miséria. (...) Para tanto, precisamos mais do que programas de transferência de renda (...), identificar o que cada pessoa necessita para sair da pobreza”.

O caminho deve ser simples e concreto: garantir “uma vaga no ensino, um tratamento de saúde ou uma oportunidade de trabalho”. Como ponto de partida, o ex-ministro propôs “a criação da Força-Tarefa de Erradicação da Pobreza, convocando servidores e especialistas das estruturas já existentes”.

11 – “Propomos investir na educação de qualidade. Quem vai para a escola pública tem que encontrar ensino da mesma qualidade que o das escolas privadas”.

O ex-ministro propôs “tornar real em todo o País, o que a lei já autoriza: que os alunos possam escolher parte das disciplinas e, fazendo isso, estudarem com maior motivação”. Além disso, propôs, também, expandir o ensino em tempo integral, começando pelos lugares mais carentes. Frisou que é necessário, outrossim, fazer chegar a todas as escolas públicas a tecnologia e a internet.

12 – “Propomos, sem mais delongas, aprovar a volta da execução da condenação criminal em segunda instância, para que a realização da justiça deixe de ser uma miragem”.

O ex-ministro frisa que é necessário garantir a independência do Ministério Público, bem como a autonomia da Polícia com mandatos para os diretores, a fim de evitar a interferência política. E propôs a criação de uma Corte Nacional Anticorrupção, à semelhança da iniciativa realizada em outros países.

13 – “A floresta é um patrimônio valioso e precisamos mudar a percepção do mundo a nosso respeito. Precisamos dar oportunidades de desenvolvimento para quem vive na região da Amazônia, mas precisamos proibir o desmatamento e as queimadas ilegais”.

O Brasil, além de ser celeiro do mundo, pode exercer também a liderança na preservação da floresta e na exploração de energias limpas, criando uma economia verde autossustentável e de baixo carbono.

14 – “Precisamos cuidar da defesa nacional e de nossa soberania. Vamos valorizar as Forças Armadas”.

Todos somos brasileiros e devemos zelar pela preservação das nossas Forças Armadas, evitando coloca-las a serviço de ambições pessoais ou interesses eleitorais. “As forças Armadas pertencem aos brasileiros e não ao governo”.

 

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

ORIGENS DA CULTURA EUROPEIA - LATIM E GREGO. Selvino Antonio Malfatti.

 





Por iniciativa do ministro francês Jean-Michel Blanquer foi promovida a I Jornada Europeia das línguas e culturas antigas, em 16 de novembro de 2021. Desde 2001, em Estrasburgo, realizam-se as Jornadas europeias das línguas. Neste ano, como consequência deste evento foi elaborada uma Declaração Conjunta dos ministros da cultura da Itália, França, Grécia e de Chipre, Patrizio Bianchi, Jean-Michel Blanquer, Niki Kerameus e Prodromos Prodromou respectivamente. Todos se declararam persuadidos de que o LATIM E O GREGO são uma herança comum da cultura europeia e mediterrânea, a ninfa de suas línguas. 

A cultura europeia penetra suas raízes na tradição greco-romana. Embora a língua se sobressaia, seu manto se estende na ciência, no direito (público e privado) filosofia, artes, geometria, arquitetura, matemática, física e medicina, sem falarmos nas línguas neolatinas. Países deste meio tem a responsabilidade de transmitir esta cultura aos jovens não só como patrimônio do passado, mas como chave de interpretação e leitura de nossa contemporaneidade, afirmaram os ministros.

Em termos práticos as línguas latina e grega geraram para nossa l´ngua a etimologia (origem da palavra), grafia (maneira correta de escrever), sintaxe (significado) entre outras. A etimologia, por exemplo, nos dá a pista do significado. Quando digo “hagiografia” basta ver a composição da palavra: hagios – santo e grafia – escrita, seria então a vida dos santos. Ou, se disser “axiologia”, sentido etimológico, o estudo dos valores: axie, valor e logos, estudo, ciência.

Numa visão geral as contribuições greco-latinas poderiam sinteticamente ser:

1.    Os sofistas: as normas morais gerais e universais.

2.    Os estoicos: Existem normas morais que extrapolam o “hic et nunc” assumindo uma dimensão universal, perene e geral. Estas normas transpõem o tempo e o espaço e tornam-se éticas.

3.    Os epicuristas: A moralidade tem por fim a felicidade do homem. A ética, embora supratemporal e histórica, tem sempre um fim prático: o bem de todos.

4.    Céticos: crítica ao relativismo ético-moral e depuração das pretensões de uma moral absoluta.

5.    Contribuição política: em política existem alguns princípios éticos que dizem à sociedade como um todo. Estes princípios é o ponto de partida e de chegada da convivência política. Os princípios são: a vida, a liberdade, igualdade e a propriedade.

6.    Sócrates: governar não é uma tarefa puramente técnica e mecânica, mas essencialmente humana e ética.

7.    Platão: a preocupação moral com a justiça social. A categoria política dos sábios, juntamente com a dos guerreiros, deveriam ser imunizados da ganância e da apropriação indevida, através da proibição da propriedade privada.

8.    Aristóteles: a constatação de uma esfera de normas válidas para todos, a Ética e uma esfera dependente do tempo e espaço, moral. A lei, sem o conteúdo ético-moral, não passa de um decreto originário da vontade de um tirano.

9.    Cícero: encontra-se uma lei natural – cósmica – e uma humana, das quais as instituições emanam pela atividade da reta razão humana. Na convivência política, há as esferas do público e do privado que não podem se imiscuir. A lei, não é uma criação a bel prazer do homem, mas está inclusa no complexo universal do qual o homem é agente passivo e ativo.

 

O TEXTO DA DECLARAÇÃO

Os Ministros da Educação da França, Itália, Chipre e Grécia, a seguir designados "os signatários",

Convencidos de que o latim e o grego antigo são o legado vivo e característico da base comum à cultura europeia e mediterrânea, e a força vital de suas respectivas línguas,

Ciente de que essas raízes comuns favorecem e fortalecem a reaproximação e a intercâmbios entre os povos e que o conhecimento de línguas antigas é um bem precioso e tangível útil para aprender línguas modernas, continuando no ensino superior e para realização pessoal na vida social, cívica, cultural e profissional,

Convencidos de que o aprendizado de línguas e culturas da antiguidade, a prática tradução e compreensão da cultura humanística permitem o desenvolvimento do conhecimento fundamentais e ferramentas que conduzam à reflexão e a um conhecimento mais amplo do mundo e sociedade modernos, ao espírito crítico e raciocínio necessário para a emancipação dos alunos, a cidadania europeia e a defesa dos valores comuns,

Com vontade de construir, através das pontes entre os povos constituídos pelo latim e do helenismo, um novo eixo estruturante e um novo impulso cultural para a criação de Área educacional europeia,

Afirmando a vontade comum de colocar as ciências humanas no centro dos currículos escolásticos, para demonstrar a relevância e modernidade do latim e do grego antigo, para promovê-los renovar e desenvolver seu ensino para ajudar a fortalecer o futuro da União Europeia,

Comprometendo-se a fortalecer a cooperação no estudo do latim e grego antigo, incentivando e desenvolvendo parcerias bilaterais e multilaterais, intercâmbios e a mobilidade de alunos e professores para produzir um movimento dinâmico em torno dos projetos novos municípios, abertos a qualquer público e via de educação e formação, seguindo uma abordagem inclusiva e em sintonia com os aspectos mais modernos e inovadores da civilização contemporânea.

Os signatários concordam em estabelecer um grupo internacional de especialistas de alto nível encarregado de refletir sobre uma estratégia global e internacional para a promoção e desenvolvimento de Latim e grego antigo e apresentar novas propostas concretas. Os países signatários vão convidar cada ano, por sua vez, os países parceiros participam nos seus trabalhos de reflexão à distância e em presença.

Assinaturas:

Os Ministros da Educação da França, Itália, Chipre e Grécia:

Patrizio Bianchi, Jean-Michel Blanquer, Niki Kerameus, Prodromos Prodromou.

 

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

NOVO RUMO EDUCACIONAL - PROFISSIONAL TÉCNICO? Selvino Antonio Malfatti

 

                  Escola tradicional e escola do futuro - COC  


Há falta de emprego no Brasil? Sim e não. Sim, por que as filas na busca de emprego são intermináveis. Não, por que sobram vagas a serem preenchidas.

Diz o Ministério da Economia: “...nos cinco primeiros meses deste ano o número de vagas criadas superou a marca de 1 milhão. Nesse período, foram gerados 1.233.372 vagas com carteira assinada.

Então, qual é o problema? Se há vagas de trabalho de sobra e há trabalhadores em busca de emprego, algo está errado.

Detalhemos a questão: 

1.    Profissões em alta em 2021

Enfermagem, medicina e outras especializações de saúde

Especialista em Marketing Digital

Áreas da tecnologia

Profissionais de finanças

Profissionais de customer success

Área de vendas e comercial

Especialista em  e-commerce

Profissionais autônomos de conteúdo

Especialistas em saúde mental

2.    Profissionais mais procurados:

1 – Engenheiro. A primeira profissão da lista é a de Engenheiro. ...

2 – Administrador de empresas. ...

3 – Médico. ...

4 – Profissional de Tecnologia da Informação. ...

5 – Atleta. ...

6 – Professor de escola. ...

7 – Mecânico de veículos. ...

9 – Advogado.

3.    Profissões mais procuradas

Gestor(a) de mídias sociais

Engenheiro(a) de cibersegurança

Representante de vendas

Especialista em sucesso do cliente

Cientista de dados

Engenheiro(a) de dados

Especialista em Inteligência Artificial

Programador(a) de JavaScript

Investidor(a) Day Trader

Motorista

Consultor(a) de investimentos

Assistente de mídias sociais

Desenvolvedor(a) de plataforma Salesforce

Recrutador(a) especialista em Tecnologia da Informação

Coach de metodologia Agile.

Se há ofertas de vagas e há trabalhadores buscando emprego, a hipótese mais provável é que não há uma correspondência entre o perfil de trabalhador exigido e o candidato à vaga. O candidato, nem por culpa dele, nem da escola, não está preparado para a atividade ofertada. Se há vaga para operador de máquina e o pretendente é formado em filosofia com certeza não será aceito por que não está preparado para a função, isto é, falta-lhe competência.

Ao que tudo indica existe um descompasso, uma defasagem entre as necessidades empresariais e a formação ofertada pela escola. A necessidade da sociedade não encontra correspondência com o perfil do profissional formado pela escola. (George Gilder, “Riqueza e pobreza,”).

No entanto, não é tão simples assim para solucionar. Suponhamos uma Escola constatando as necessidades da sociedade - profissionais técnico-aqrícolas - se propõe atendê-las. Para tanto precisa contratar profissionais qualificados para ministrar conhecimentos e habilitar estudantes profissionalmente.  Há necessidade de laboratórios, insumos, desde matérias primas até materiais descartáveis, instalações, licenças operacionais dos poderes públicos, investimentos e uma infinidade de itens necessários para operacionalizar os laboratórios. Isto leva um bom tempo e grandes investimentos. Após isso inicia a habilitação dos inscritos. Provavelmente após 2 a 3 anos consegue formar os novos profissionais. Mas, quem garante que naquele momento posterior às necessidades da sociedade serão as mesmas de quando começou a preparação profissional? Não terão mudado, não serão outras, não terão novas nuances de conhecimentos? Com certeza, com isso, deverá iniciar o novo ciclo e quando findar este novamente deverá reiniciar. Estamos diante da lenda de Sísifo? Isto é, do círculo vicioso entre oferta e formação de trabalhadores.

Diante de tal realidade alguns sugerem que as habilidades sejam adquiridas concomitantemente na teoria e na prática. Tradicionalmente se adquirem conhecimentos teóricos na escola e em seguida os conhecimentos são levados à prática digamos, genericamente, na empresa.

Este era o mundo da economia tradicional. A empresa (fábrica, como querem outros) recebia alunos formados, habilitados. As funções técnicas eram mínimas e as operárias, maioria esmagadora. Agora inverteu. Praticamente todos são técnicos e os operários desapareceram. A escola, então, atualmente na prática não deve preparar uma minoria, mas  todos para funções técnicas. Até mesmo funções mais humildes como as de limpeza, agora exigem domínio de informática e por isso também são técnicos.

Sugere-se uma mudança no modelo: estes dois momentos sejam fundidos. Pratica-se adquirindo os conhecimentos. Podem-se citar como exemplos as escolas de línguas. O candidato pratica o linguajar e através dele passa a dominar a teoria desta prática. Pratica-se e aprende-se.

Há uma empresa no Rio Grande do Sul que age dentro deste novo modelo. No último ano do ensino médio, a empresa entra em contato com a escola solicitando uma visita de um técnico da empresa. No dia acertado, o técnico vai à escola, conversa com os alunos, aplica os testes e oferece o estágio remunerado. O estagiário cumpre o período recebendo o treinamento específico e após, se o perfil do profissional procurado pela empresa estiverr de acordo e o candidato  tiver interesse é contratado.

Há um consenso de que as habilidades são incorporadas gradualmente, a partir do conhecimento. Atualmente na bagagem de mão não podem faltar habilidades digitais.

A década de Noventa poderia ser considerado o marco inicial da era digital e com ela o engatinhar da inteligência artificial.  As próprias máquinas têm sua autoaprendizagem e os jovens que chegaram nesta época assimilaram a novidade, mas sem seu domínio. Até onde chega seu domínio teórico e prático da informática? Com certeza não passa do bê-á-bá.

Aí está o gargalo do processo. O jovem conhece o senso comum da informática, mas não a assimilou.  Na inscrição para o emprego o candidato diz que conhece informática, mas quando exige a aplicação não consegue operacionalizá-la. Logo, falta-lhe treinamento. O novo trabalhador de empresa é um técnico e não um operário.

As mesmas atividades antigas, atualmente são feitas pela informática. Os jovens ao serem inquiridos sobre atividades de mecânicos, soldadores, encanadores, carpinteiros, eletricistas dizem que conhecem após a contratação.  Mecânica, carpintaria, eletrônica e outras atividades agora não são mais manuais ou mecânicas, mas digitais ou automáticas, operacionalizadas através de robôs.

Qual o rumo para a educação? Inverter ou adaptar? Submeter-se totalmente às exigências econômicas da tecnologia da informática? Desconhecer a nova realidade e continuar com uma educação tradicional, mas defasada?

Balançar um meio termo entre o tecnológico e o tradicional.  Adotar um modelo híbrido: após concluir seus estudos secundários o candidato  ingressa numa empresa como aprendiz, estagiário, e após, se quiser,  é admitido plenamente na empresa ou prossegue nos estudos superiores.

 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

G20, ROMA E COP26, ESCÓCIA – POLÍTICA x CIÊNCIA. Selvino Antonio Malfatti

 




Atualmente se realizada a cúpula do clima em Roma com as 20 maiores economias do planeta, e em seguida a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow, na Escócia.

Nas duas a constatação de que o clima do planeta está no limite. Já se tentou estabelecer metas de diminuição de poluentes. Mas isto leva a diminuição da produção e com ele a restrição ao consumo. E isto as maiores potências não querem  por que ninguém quer a privação, ninguém quer produzir menos, ninguém quer o sacrifício para salvar o clima.

Se numa família ou em outro grupo as provisões não conseguirem satisfazer as necessidades dos membros há três alternativas: ou consumir menos ou produzir mais ou administrar melhor. Se 5 sacos de batatas não forem suficientes ou se diminuem os gastos ou se acrescentam mais batatas ou se consuma racionalmente de tal forma que não falte.

O mesmo acontece com nossa morada comum, a terra. Neste momento o consumo é maior do que se produz. A produção envolve um desgaste tal que neste ritmo a terra não suportará mais em breve. Até agora o diapasão para solucionar foi diminuir o consumo. Acontece que as grandes economias não querem a privação, ao contrário querem aumentar. O aumento de produção, no entanto acarreta o aumento do desgaste o qual levará em breve ao colapso do sistema. Logo, a solução da privação coletiva ou o aumento da produção estão descartados. Numa solução política o bode expiatório são as nações sem poder econômico, mas com potencial despoluidor através do seu meio ambiente. É para elas que se voltaram o dedo acusatório. Chega de agredir o meio ambiente, de poluir de desmatar. Mas a pergunta: o que fizeram os países ricos com o meio ambiente, com a poluição, com o desmatamento? Não seria exatamente por isso que são ricos, em cima das costas dos pobres?

Qual alternativa? A meta seria diminuir a produção mundial para diminuir a temperatura. Conforme o G20 se esta aumentar mais – 1 grau ou 1/5- o planeta entrará em colapso.

Surgem e já surgiram várias propostas, mas a mais nova e original é da climatologista italiana Claudia Tebaldi, há anos nos Estados Unidos. Certamente baseada nas conclusões de Maltus que afirmava que a população mundial aumentava geometricamente enquanto a produção de alimentos aritmeticamente. Nesta proporção em 25 anos a população dobrava e a produção de alimentos aumentava desproporcionalmente. O que Maltus não previu foi a tecnologia que colocou a produção no mesmo patamar.

Cláudia Tebaldi sugeriu que em vez de se insistir na diminuição da produção se aplicasse a tecnologia na contenção dos efeitos perversos da produção, isto é, a poluição. Diz ela: “Realisticamente, acho que será mais fácil resolver o problema do aquecimento global com a tecnologia do que mudar radicalmente nosso estilo de vida, como a política promete fazer".

A climatologista é contra tão somente a propostas políticas, contrapondo uma solução também científica. Ela acha que será mais fácil resolver o problema do aquecimento global do que mudar o estivo de vida das populações. Se isto fosse através de métodos compulsórios talvez se conseguisse por algum tempo. Mas definitivamente não. Então a saída não pode ser só política, mas científica.

A prova de que medidas científicas podem resolver problemas basta compara o Katrina com Ida. O primeiro causou grandes prejuízos materiais. Foram mais de 108 bilhões e 1800 vidas.  Enquanto o segundo teve efeitos maiores com a perda de 30 milhões de barris de petróleo, no entanto salvou mais vidas.

Para o caso do Katrina medidas científicas preventivas foram tomadas. A Allianz implementou inspeções frequentes de telhados, verificando a idade e estruturas e exames minuciosos e com isso pode suportar melhor os impactos das chuvas e vendavais.

Está colocada a questão: política ou ciência. Basta escolher.

 


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

ASTEROIDE DESTRUIU SODOMA E GOMORRA . Selvino Antonio Malfatti.

 

            Escavações em Tall el-Hamman - antigamente  Sodoma e Gomorra.


Instigante a narrativa bíblica sobre a destruição de Sodoma e Gomorra. O texto bíblico vem recheado de interpretação por parte de quem escreveu. Eis o texto bíblico:

“O Senhor fez então cair sobre Sodoma e Gomorra uma chuva de enxofre e de fogo, vinda do Senhor, do céu. E destruiu essas cidades e toda a planície, assim como todos os habitantes das cidades e a vegetação do solo." (Gênesis, 19, 24-25)

Assim como este texto bíblico há outros, como da mitologia grega, egípcia, romana, mesopotâmica, hindu, que apresentam narrativas semelhantes: acontecimento “sobrenatural”, atribuição a autoria à divindade, com objetivo moral ou religioso.

O que teria acontecido com Sodoma e Gomorra? Levantamos a hipótese de que: 1. Os fatos realmente aconteceram como narrados na Bíblia. 2. Agora se constatou que não houve intervenção de seres sobrenaturais, mas apenas um fenômeno natural.  3. A explicação bíblica deveu-se a um intérprete humano que adaptou o fato à acessibilidade compreensiva da população.

Como aconteceu com fenômenos semelhantes as explicações foram atribuídas a seres sobrenaturais. No entanto, faz-se necessário distinguir os fenômenos naturais dos sobrenaturais, de seres terrestres extraterrestres e da divindade. Seres sobrenaturais dizem respeito à divindade. Seres naturais são os originários da natureza inclusive os do cosmos, como os humanos e extraterrestres. Os fenômenos sobrenaturais estão foram da dimensão física e afetos à religião. Por isso, se houver intervenção de seres extraterrestres os fenômenos são também naturais.

Atualmente sabe-se por comprovação científica que boa parte dos fenômenos extraordinários bíblicos atribuídos à divindade são de origem natural. O que falta ainda é associar estes fenômenos não à divindade, mas a seres extraterrestres. É o caso dos grandes milagres de Jesus. Um dia a ciência chegará lá?

Seria irracional pensar que houve um tempo de convivência entre extraterrestres (antigos deuses) e humanos? Muito mais lógica e fácil seria a explicação dos fenômenos extraordinários se admitíssemos isto. Não estaria acontecendo novamente hoje em dia a intervenção de extraterrestres nos fenômenos extraordinários atribuídos a milagres de origem divina?

Aquele mundo descrito e povoado por anjos, demônios, deuses, espíritos não seria apenas seres extraterrestres?

Conforme artigo publicado na Revista “Nature” a destruição de Sodoma e Gomorra foi causada por objeto natural, extraterreste, um asteroide, provavelmente. É a conclusão de cientistas, que, depois de 15 anos de escavações concluíram que Tall el-Hamman (antigamente Sodoma e Gomorra), foram destruídas por um objeto vindo do espaço, tal como aconteceu em 1908 com Tunguska, na Sibéria.

Como os patriarcas, profetas, sacerdotes explicavam os fenômenos extraordinários acontecidos naqueles tempos como Sodoma e Gomorra? Podemos imaginar a estupefação das populações ao ver as cidades em chamas e fumo. Indagavam a Lot e perguntavam o quê aconteceu. Lot explicava-lhes o acontecido:

- Como sabeis as duas cidades viviam em pecado. Apesar de eu lhes pedir em nome de Deus para praticarem a justiça, continuaram na sua devassidão e perversão, inclusive praticando sexo com animais, adorando ídolos e espoliando os pobres. Então Deus as castigou destruindo-as pelas chamas.

Lot precisava dar uma explicação e apelou para a intervenção divina. Mas atualmente sabe-se que as pesquisas de arqueólogos, geólogos, geoquímicos, geomorfologistas, mineralogistas, paleobotânicas e outras. Especialistas em impacto cósmico e médicos encontraram evidências que foi um fenômeno natural, embora não originário do planeta terra. Foram descartados vulcões, incêndios ou terremotos. De onde então? Foram encontrados micro diamantes, esférulas vitrificadas e grãos de quartzo com estruturas decorrentes de altas pressões, típicas de áreas atingidas por intensas ondas de choque. Tudo isto leva crer que algum objeto extraterrestre tenha atingido as duas cidades e perto daí, também Jericó sofreu as consequências. (https://www.corriere.it/cronache/21_settembre)


sexta-feira, 22 de outubro de 2021

DEZ ANOS SEM STEVE JOB E MUNDO VIRTUAL. Selvino Antonio Malfatti.

 





Fazem dez anos que o empresário norte-americano Steve Jobs (1955-2011)  criou a Apple e com ela "Macintosh", o "iPod", o "iPhone" e o "iPad". Foi um empreendedor e inovador na área de informática. A Apple teve sua maior importância no surgimento de computadores pessoais, filmes, música e telefones celulares.

A bibliografia mais significativa é de Walter Isaacson, intitulada Steve Jobs.

Na lenda de Górdio dar-se-ia o trono da Ásia a quem desatasse o nó Górdio. Nenhum pretendente conseguia o feito, até que Alexandre, o Grande, desembainhou a espada e cortou o nó. Alexandre desrespeitou as regras, pois o nó devia ser desatado e não cortado. Mesmo assim Alexandre tornou-se o soberano da Ásia.

Com Jobs aconteceu o mesmo cortando o nó Górdio da tecnologia. O que todos julgavam impossível, ele, serenamente, sem agredir ninguém, rompeu a barreira do som e tornou-se o rei, fundando a Apple. Existem outros cofundadores como Steve Wozniak e Ronald Wayne entre outros. A Apple tornou-se a líder mundial de projetos e comércio de insumos eletrônicos.

Jobs socialmente foi um sujeito difícil. Era conhecido como “quebra regras”, como ocupar estacionamento para deficientes. No entanto, intelectualmente e empresarialmente era um gênio. Sua biografia é fonte e serve de inspiração a todos os que a leem e releem.

Qual o conteúdo desta biografia de vida? O que esconde atrás das letras frias e ao mesmo tempo palpitantes?

Jobs inverteu a lei de marketing. : "Você não pode apenas perguntar aos consumidores o que eles querem, e aí tentar dar isso a eles. Quando você tiver construído isso, eles vão querer algo novo".  Daí que, em vez de ofertar o que o mercado procura, oferta para o mercado procurar. É o que acontece atualmente: o mercado oferta e os consumidores consomem. Pode-se citar como exemplos os iPod, iPhone e iPad. Antes eram grandes, pesados e complicados. No lançamento não se esqueceu de dourar a pílula. Ele os transformou em pequenos, leves e fáceis e atraentes. Era o “campo de distorção da realidade”. O sucesso foi grande.

Job descobriu como os consumidores identificavam aspectos físicos – roupas – com os produtos. Vestia uma malha preta da marca St. Croix de gola alta, um jeans 501 da Levi's, e tênis 991 da New Balance. Isso nos lembra o dono da Havam, Luciano Hang:  terno verde-bandeira.

Na Índia tomou contato com a filosofia hindu, inclusive frequentou ashram, tipo de monastério e adotou o budismo por toda vida.

Para Job tudo é possível desde que “seja a pessoa certa, na hora certa e no lugar certo.”

A vida de Job parece ser um prefácio da esperança de saber tudo online. Tudo o que queremos saber, em segundos, temos a resposta no Google. As bibliotecas, os museus, os centros de documentação tudo pode caber num verbete do Google. As invenções de Job propiciaram uma revolução cultural sem precedentes, mas perigosamente alicerçada sobre as nuvens. Qualquer descuido, mudança de programa, clicagem em tecla errada, tudo pode desaparecer. Este mundo atual todo líquido, sem vértebra, nem consistência teve início com a Criação da Apple, “uma reencarnação da criatura.”

E o pior está por vir: o mundo online ficará reservado para uma mínima minoria. Os demais serão dependentes. Será a inimaginável tirania da minoria na informação. Os demais serão prisioneiros quando precisarem de alimentação, saúde e viver. Ingressamos no mundo virtual de smartphones, sites, programas, aplicativos e senhas. Um inferno dantesco do mundo digital.

Sem desespero. A Humanidade sempre encontra um meio para sair do fundo do poço.


sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Vilém Flusser, dificuldades contemporâneas e fake news. José Mauricio de Carvalho

 


Entender o homem contemporâneo, seus desafios e sua forma de vida é um assunto que desperta curiosidade. Todas as pessoas chegam a esse tema intuitivamente, mas para cá nos trouxeram os grandes intelectuais da atualidade desde que Emmanuel Kant estabeleceu os limites da interpretação metafísica do mundo, isto é, aquela que vinha sendo utilizada desde os antigos gregos e Martin Heidegger em Ser e Tempo apertou os contornos da razão transcendental inaugurada por Kant (STEIN, A caminho de uma fundamentação pós-metafísica, 1997, p. 105): “Postos esses limites (da razão), não se pode mais responder a nenhuma dessas questões a que correspondem as três perguntas nas obras de Kant: a) que posso saber – Crítica da Razão Pura; b) que devo fazer? – Crítica da Razão Prática; e c) que me é dado esperar? Kant colocou que a metafísica resolveria esses problemas se conseguisse responder a pergunta que é o homem?”

Então, na tentativa de encontrar resposta para: o que posso saber do mundo e como confiar nesses conhecimentos, como devo agir e o que posso esperar com minha vida e escolhas, os escritores, filósofos e cientistas tentaram explicar quem é o homem.

Desse debate participou o filósofo tcheco que viveu grande parte da vida no Brasil. Para ele, o homem de hoje é um funcionário ou programador. O ponto de partida de sua análise foi a crise contemporânea da cultura. Como quase todos os intelectuais contemporâneos ele entendeu que vivemos numa sociedade em crise. Essa crise se mostra num vazio que lembra os dias do barroco, quando (FLUSSER, 1983, p. 9): “a vacuidade que ressoava nos seus passos (do homem barroco) era a do vazio debaixo do palco.” Hoje em dia, entretanto, o vazio social é diferente, não mais pode ser comparado ao do vazio do palco. Debaixo de nossos pés há outro vazio que o do tablado do teatro. Para Flusser, o homem contemporâneo age como um criminoso que quer apagar um crime. O maior de todos os crimes recentes foi cometido no campo de Auschwitz. O campo de concentração é mais que um fenômeno isolado, é um produto característico de nossa cultura (id., p. 11): “o inaudito em Auschwitz não é o assassinato em massa, não é o crime. É a reificação derradeira de pessoas em objetos uniformes, em cinza.” A razão é que, por traz do campo de extermínio, a contemporaneidade colocou para funcionar um aparelho capaz de transformar cada homem ou mulher num objeto, retirando dele sua singular humanidade. Em outras palavras, é a transformação das pessoas em objeto, um fenômeno social que se repete atualmente.

Assim sendo, resta o desafio de superar o caminho torto da objetivação das pessoas que aparece em outras organizações sociais contemporâneas que atuam como caixas-pretas. Essas organizações funcionam segundo uma programação que des-humanizam e que, a partir de certo momento, escapam (id., p. 14): “ao controle dos seus programadores iniciais.” A crise surge porque (id., p. 15): “perdemos a fé na nossa cultura, no chão que pisamos; isto é, perdemos a fé em nós mesmos.” E o homem contemporâneo tornou-se um funcionário das organizações contemporâneas. Isso nos leva ao tema da responsabilidade com o próprio destino e o de todos, que parece longe do horizonte existencial do homem de hoje. Para Flusser, isso se dá porque a irresponsabilidade é o que surge numa realidade que transforma tudo em coisa.

O essencial dessas considerações é a urgência do uso cuidadoso da razão, porque somente seu cultivo crítico e a procura honesta da verdade são capazes de superar a conversa fiada que marca os diálogos contemporâneos. Creio que pode acrescentar ao que foi dito as Fake News, que é ordinariamente a transformação da mentira em arma política e de encobrimento ideológico e que funciona como uma nova forma de programa oferecido a funcionários que a põem a circular.


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