sexta-feira, 29 de novembro de 2019

CECÍLIA MEIRELES E A PROPOSTA EDUCACIONAL. Selvino Antonio Malfatti





O mês de novembro é o 110º aniversário de Cecília Meireles. Nasce -7 e falece 9 - a poetisa, literata, jornalista, contista, teatróloga, folclórica brasileira Cecília Meireles. Sua obra teve abrangência para além do Brasil e recebeu prêmios nacionais e internacionais. 
Cecília Benevides de Carvalho Meireles viveu no miolo do século XX, isto é, de 1901-1964.  Propõe-se a debater alguns tópicos sobre educação através do viés da Escola Nova. Estes pensamentos da autora não é crítica, nem avaliação, apenas exposição de recortes de ideias. Isto porque nem ela mesma pretendeu dar uma sistematização teórica de suas concepções. 

Seu pensamento emerge no torvelinho da política, ora defendo posições, ora atacando outras e, até mesmo, retocando algumas que lhe pareciam incompletas. Não vamos encontrar uma Meireles acadêmica, mas um jornalista polemista, ora na ofensiva, ora na defensiva, mas a maior parte das vezes batalhadora de front, empunhando sua arma de ataque e defesa: a Página de Educação no jornal Diário de Notícias e depois na Folha de São Paulo.

Viveu e escreveu num período politicamente conturbado, a maior parte dele no governo de Getúlio Vargas que não se cansava de inovar no seu autoritarismo. Revolucionário, constitucional a seu modo, ditador e suicida.
Através da espada da Página da Educação, em política exibe a marca mais saliente de Cecília Meireles: sua opção pela democracia liberal. Por isso, de imediato granjeou desafetos entre os partidários do “Sr. Ditador”, entre deles o ministro da Educação e Saúde, Francisco Campos. Entre os católicos, no tradicionalismo da Igreja, que insistia no ensino religioso, mesmo em escolas públicas, Tristão de Atayde. Meireles propunha um ensino universal, unissexual e supraconfessional.

Na organização social combatia a divisão de classes, grupos, o sectarismo e preconceito racial. Defendia o feminismo através do mérito, sem privilégios. A mulher deveria “subir” através de sua capacidade. Da mesma forma, ao exacerbado nacionalismo, próprio da época, contrapunha a fraternidade universal.

Paralelamente à atuação como jornalista combativa, obrava, quase em silêncio, uma professora poeta, que fazia poesia para as crianças, louvava a natureza e meditava misticamente sobre a natureza humana. Cada situação, encontro, viagem, livro era motivo de uma meditação filosófica externada na poesia.

Estas são as duas “cecílias”: a poetisa e a guerreira.
O fenômeno da Escola Nova na educação não foi um movimento isolado no Brasil. No Inglaterra iniciam-se um iniciativas e ensaios no sentido de renovação do ensino. Surgem algumas escolas com o nome de “public-schools”. Não eram instituições oficiais. Eram chamadas de públicas porque mantidas por fundações de interesse geral e recebem alunos de todas as regiões do país, ao contrário das escolas locais. Os dirigentes perceberam alguns defeitos das escolas do seu tempo como convencionalismo, intelectualismo e individualismo e se propuseram a saná-los. Para tanto algumas escolas começaram a mudar sua filosofia como Arnold na Escola de Rugby, Sanderson na Escola de Oundle, este último procurando estabelecer uma harmonia entre a escola e a vida real dos alunos.

No Brasil, a ideia de Escola Nova, incorporou a realidade brasileira, isto é, os problemas específicos, mormente no que se refere o conteúdo e método educacionais. Os principais princípios que norteavam a Escola Nova eram: a laicidade, o publicismo e a coeducação.

Na escola tradicional o conteúdo privilegiava um ensino clássico pelo qual o aluno assimilava, sem participação, o que lhe era ministrado. O método, por sua vez, era formal, isto é, o professor ministrava a matéria e o aluno decorava o conteúdo. Contra isto, Cecília se insurgia. Era preciso inverter, dizia ela. O ponto de partida é o aluno, seus problemas reais, sua circunstância, sua realidade. O método devia ser também a partir do aluno, fazer que ele mesmo construa o conhecimento. Em seu programa, Cecília reivindicava novos estudos afetos à psicologia do comportamento humano. Os grandes responsáveis pela educação, a Família, Igreja e Estado, deveriam propiciar uma renovação educacional.

O ponto nevrálgico, porém, da proposta educativa de Cecília foi a questão da responsabilidade da ação educativa. Para ela, nem o a Família, nem o Estado deveriam ser os titulares, mas a Escola. Isto por que a Escola era o espaço público, por isso a defesa da escola ser administrada pelo Estado, embora houvesse interferência doutrinária e moral da Igreja e da Família. Uma e outra eram responsáveis pela estrutura social vigente ou interferirem na vida pública do indivíduo, apontando-lhe um destino profissional e na vida espiritual, de ordem privada, ao lhe pregar uma moral e uma conduta a seguir.
Além disso, com a transferência da educação para a responsabilidade da escola haveria democratização da instrução, ao contrário do que acontecia até então, quando isto era entregue à Família e à Igreja.
Desta forma o princípio da Escola Nova era a liberdade individual em substituição à autoridade institucionalizada. Em Cecília defrontam-se os dois princípios: o da liberdade, da Escola Nova, e o da autoridade, defendida e praticada pelos católicos. Ambos, grupo de católicos e escolanovistas, creditavam à educação esta tarefa.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

FASCISMO, COMUNISMO E NAZISMO- IRMÃOS SIAMESES. Selvino Antonio Malfatti

















Ninguém pode se surpreender se um comunista chamar alguém de:
- Fascista!
Nem se um nazista chamar outro de:
- Comunista!
Muito menos se um fascista apontar um colega como:
- Nazista!
Na verdade são poucos os que sabem o que é cada uma das três ideologias. Se examinadas a fundo e confrontadas não diferem muito uma das outras. São irmãs siamesas. Vejamos alguns exemplos:
A igualdade dos indivíduos está contida no critério da igualdade: o todo, a homogeneidade econômica e a raça.
1.       
Nenhuma delas deixa espaço para a liberdade individual. O coletivo em todas está acima do individual.

2.       Em todos elas a propriedade não é plena. Primeiro pertence ao estado ou ao coletivo e em segundo plano, ao indivíduo.
3.       Outro aspecto que se pode confrontar é o trabalho. O resultado do trabalho individual primeiro beneficia o coletivo e este lhe destina uma parte.
4.       Quando à vida privada nem se fala. Não é permitida uma esfera só do indivíduo. O Estado tem sempre o poder de invadi-la quando bem entender.
5.       Em política o poder preexiste à vontade individual. Representações intermediárias autônomas são terminantemente proibidas. São dependentes do poder público.
6.       Atividades econômicas autônomas são proibidas. Sempre dependem do poder estatal.

7.       Religião está fora de cogitação como crença de caráter privada. 





Fascismo                                  Comunismo                      Nazismo
Inspiradores
Alceste De Ambris e Filippo Tommaso Marinetti.
- O indivíduo isolado é impotente. O Estado atribui as tarefas a cada um.
- Não existe liberdade nem política, nem econômica.
- Salário mínimo instituído pelo governo.
- Jornada de trabalho de 8 horas
- representantes no alto escalão das indústrias
- Os sindicatos com o mesmo poder decisório que os executivos das empresas e funcionários públicos.
- imposto de renda progressivo.
- seguro invalidez arcado pelo estado e outros benefícios sociais.
- confisco de bens das sociedades religiosas
- sistema corporativista, do tipo soviets.


Inspiradores: Marx e Engels: Manifesto Comunista.

-o indivúdo está diluído na sociedade. Existem duas pontas na escala social: os dirigentes políticos e os proletários
- Não existe liberdade. O estado é totalitário.
- Imposto de renda progressivo.
- Crédito monopólio exclusivo da Estado.
- Centralização dos meios de transporte e de comunicação.
- Centralização do trabalho agrícola e industrial.
- educação pública.
- Trabalho obrigatório.
- Expropriação da propriedade de terras.

Adolf Hitler e Partido

- a raça é superior à individualidade.
- A raça atribui o grau de liberdade.
- Socialização de empresas monopolistas
- Municipalização de grandes lojas de departamento
- Expropriação de terras para propósitos caritativos
- Proibição da especulação imobiliária
- Expansão de todo o sistema educacional estatal.
- Defesa do meio ambiente
-Distribuição de lucros de grandes empresas.
- Abolição do “rendismo”.
- reforma agrária adaptada às necessidades nacionais;
- criação de uma lei para a livre expropriação de terras para propósitos caritativos. --- Abolição do consumo da terra e proibição de toda e qualquer especulação imobiliária.
- Criação de um exército popular.


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A QUEDA - BERLINER MAUER. Selvino Antonio Malfatti















Em 1945, fim da Segunda Guerra Mundial.Tanto para os aliados ocidentais, como para os soviéticos, a Alemanha havia sido a responsável pela Guerra. O Terceiro Reich mereceu toda sorte de tratativas da parte dos vencedores, divergindo os ocidentais que queriam neutralizar militarmente a Alemanha e os soviéticos que queriam simplesmente apagá-la do mapa. 

O resultado das negociações, realizadas na Conferência de Yalta, de 4 a 11 de fevereiro de 1945, foi que os soviéticos decidiriam os destinos da Alemanha Oriental e os ocidentais decidiriam o lado Ocidental, ficando o norte para os ingleses, o oeste para os americanos e aos franceses o leste. Os quatro aliados ocupariam permanentemente a capital, Berlim, que também foi dividida em zona de influência soviética e zona de influência tríplice dos ocidentais.

Junto com a rendição alemã, maio de 1945, exigiu-se também o afastamento do governo. Para tanto, foi nomeada uma Comissão Aliada de Controle. Os soviéticos tomaram a iniciativa de organizar sua parte. De imediato os comunistas permitiram a organização dos antigos partidos, desde que fossem antinazistas. Foram reconhecidos os partidos: Partido Comunista da Alemanha, o Partido Socialdemocrata Alemão, a União Cristã Democrática e o Partido Liberal Democrático. 

Mas, acima dos partidos e controlados por ela, estava a Administração Militar soviética. A primeira medida dos soviéticos foi desmantelar toda a indústria e serviços da Alemanha Oriental, inclusive com seu pessoal, e transferi-lo para a URSS. As propriedades privadas foram confiscadas e decretou-se um reforma agrária radical. Como os resultados eleitorais não deram vitória ao partido comunista, em 1946 os soviéticos resolveram impor pela força o partido único, o Partido Alemão de Unidade Socialista, juntamente com um sindicato único. 

A estas medidas os aliados ocidentais se opuseram e os atritos levaram á criação de dois Estados alemães: a República Federal da Alemanha, em 10 de maio de 1949, dotada de uma Constituição Democrática, a Lei Fundamental de Bonn; e os soviéticos criaram a República Democrática Alemã, em sete de outubro do mesmo ano. E, para sustenta-la, em 1961, foi criado o Muro de Berlim, baseado num esboço já pré-existente – uma barreira que impedia o intercâmbio, dentro de Berlim, entre comunistas orientais e democratas ocidentais.

Com a Queda do Muro de Berlim não houve vitória militar dos democratas sobre o comunismo, mas capitulação do comunismo em favor do democracia. Foi um ato espontâneo demonstrando que a experiência vivida pelo comunismo malogrou. Um cadáver morto e abandonado. Ficaria como uma experiência fracassada exposta para o futuro. O bloco comunista, de Varsóvia a Berlim, rasgaram a cortina de ferro e ingressaram delberadamente na democracia. 

Em 1989 a Europa está em cima de um muro olhando para trás e para frente. Para trás lamentando. Para frente esperançosa.
Espera que de ora em diante a guerra fria tenha findado. A meia irmã da Alemanha, voltado à casa materna da Europa. Os olhos prolongam-se para um futuro antevendo que outros pedaços da Europa retornariam: Polônia, República Checa, Finlândia, Eslováquia, Hungria, em síntese, partes da antiga República socialista soviética, reduzindo-se à histórica Rússia. E por fim, esta mesma, não motu próprio, mas empurrada pelas circunstâncias, abandonou boa parte do socialismo econômico, espremendo-se  no círculo do político. Comparando-se a URSS de Stalin com a Rússia de Putin não se reconhece mais o mesmo sujeito político: o primeiro é um cadáver insepulto e o segundo, pouco a pouco atinge a maturidade.







quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A jornada humana: para os que fazem da história um compromisso de vida. José Mauricio de Carvalho. Academia de Letras de São João del-Rei




Pode-se falar de muitos aspectos de uma jornada, do caminho percorrido, das impressões vividas no trajeto, da paisagem com seus encantos e desafios, do olhar em perspectiva para tudo o que foi experimentado no deslocamento, das lições que o percurso deixou. Sempre há o que observar e relatar, pois isso que resultou do percurso é a vida já vivida, a vida que se fez no tempo dessa jornada. Vida é mesmo esse que fazer no tempo.
Tempo é do que trataremos, o que nos tece e nos torna diferentes do que éramos e, também, mesmo sendo distintos, ainda nos mantém iguais ao que já fomos um dia. Um pouco fica e outro muda. E o que muda guarda algo do que ficou. Melhor assim, quando estão unidas essas pontas que amarram o não mais ao ainda surge um compromisso íntimo de jornada que não nos afasta do que somos. Essa deliciosa experiência no tempo foi resumida pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset nos seus estudos sobre a vocação. Para ele, o homem só está seguro de si quando é fiel a sua vocação. Contra o intento de ser o que não é, declara o filósofo, na segunda parte de España Invertebrada, na fórmula de Píndaro (ORTEGA Y GASSET, José. España Invertebrada. Obras Completas. v. III, 2. reimpresión, Alianza, Madrid:  1994, p. 102): “voltemos as costas para as éticas mágicas e fiquemos com a única aceitável, que faz vinte e seis séculos resumiu Píndaro em seu ilustre imperativo: torna-te o que és.”
 Esse tecido da existência, que é o tempo, une no momento presente tudo o que se passou e se alimenta da esperança e responsabilidade pelo que virá. Assim é quando está amarrado pela missão existencial que é a concretização social da vocação. Se não estão presas as pontas do passado e do futuro as escolhas ficam sem esse fio íntimo que lhes dê coerência e sustentação. É a esperança renovada e a responsabilidade com o próprio destino que alimenta a vida e impede que o passado seja simplesmente um cadáver, que possa ter sentido e ser o alimento de novas coisas. Assim, enquanto a vida continua é a esperança de futuro, recuperando o passado e alimentando o presente que tecem aquilo que chamamos história. História que tem raízes na temporalidade do homem, nas escolhas que a vida permite e nas alternativas que ficam abertas na circunstância, que é única, para cada pessoa.
A vida humana é história, vivê-la de forma consciente é assumir a responsabilidade pelo futuro. É essa consciência que permite entender o passado como tecido de escolhas e não fatalizá-lo. Ao reconhecer as alternativas anteriores, é possível avaliar as alternativas do futuro.
Assim, a história já vivida não é apenas a matéria-prima dos historiadores, mas a possibilidade ainda não criada e por criar. O futuro não é um prolongamento do passado, mas a poesia a ser rimada a partir do que se tem por viver.


quinta-feira, 31 de outubro de 2019

ENCONTRO DA FAMÍLIA GIOVANELLA – GIOSEPPE E MARIA LETIZIA. Selvino Antonio Malfatti




Está sendo muito comum atualmente famílias de descendes de italianos que imigraram para o Brasil no final de século XIX reunir-se numa data para confraternizar. Embora os primitivos troncos não mais existam, seus descendes fazem questão de se encontrarem e festejarem. A história de cada família é praticamente igual a todas as demais. A situação econômica e social entre os que aqui chegaram e a prole dos descendentes está muito distante. Os que vieram mal tinham como se sustentarem pelo cultivo de suas lavouras. Moravam em casinhas de madeira construídas por eles mesmos. Recursos econômicos, como dinheiro vivo era praticamente zero.

Ao chegarem cada familia recebia um lote de terra, sem nenhuma benfeitoria, no meio da selva. Os caminhos eram trilhas no mato que ligavam uma familia ás outras. A única fonte de renda para sobrevivência era o lote de terra comprado do governo brasileiro a ser pago por um dilatado prazo e o próprio trabalho manual. Os três fatores, propriedade, trabalho e poupança possibilitaram progresso. 

Atualmente, seus descendentes, estão longe daquele primeiro estágio: o trabalho utiliza tecnologia de ponta, a agricultura praticamente foi substituída pela indústria ou agroindústria e as novas gerações estão migrando para serviços. 

O sonho dos imigrantes de encontrarem a “Cocagna”,foi realizado pelos descendentes que ascenderam ao status de pequenos proprietários dedicados ao agronegócio, empresários de indústrias nacionais e internacionais e profissionais reconhecidos.

É neste contexto que os descendentes da família GIOVANELLA se encontrarão nos primeiros dias de novembro no local onde se estabeleceram os imigrantes originários: Batovira, localidade do distrito de Garibaldi, hoje pertencente ao município de Progresso. Para tanto farão um Encontro.

A família Giovanella, cujo elo une descendentes brasileiros e ascendentes italianos, foi Giovanni Giovanella, 53 anos e sua esposa Celeste Giovanella, 40 anos, provenientes da Itália, Trento, 1875. Juntos vieram os filhos Pietro, 17 anos, Giovanni, 16 anos, GIOSEPPE , 9 anos. Posteriormente nasceram Ferdinando, Antonio e Cesare. Foram residir em Bento Gonçalves, na picada Garibaldi, hoje município.

Gioseppe casou-se com Maria Letizia, em Encantado (RS), em 1921. O casal teve como filhos: Fiorello, Arnesto, Arlindo, Benilde, Venilde, Amélia, Irene, Míria, Lourdes e Adélia.
Atualmente constituem 311 descendentes. Filhos, genros e noras 20; Netos e cônjuges 105; Bisnetos e cônjuges 130; Trinetos e cônjuges 56.

O Encontro terá a seguinte Programação:
No dia 2 de novembro de 2019, na localidade de Batovira, município de Progresso, RS, ocorrerá o Encontro no salão da comunidade. O evento terá início às 8:30hs com apresentação dos familiares. Às 9:30 visita ao Cemitério onde estão os restos mortais de seus antecessores. Missa festiva às 10hs na Capela São Roque e ao meio-dia almoço de confraternização. Durante o evento haverá homenagem especial às cinco filhas vivas do casal Gioseppe e Maria Letizia.

sábado, 26 de outubro de 2019

A filosofia e a superação da radicalidade política. José Mauricio de Carvalho



Tornou-se comum analisar o processo social e político brasileiro com a categoria radicalidade. A pessoa comum diz que o país se encontra dividido em duas categorias políticas com as quais ela resume a disputa política: esquerda e direita. Essas categorias dizem pouco porque, por exemplo, a social democracia e o socialismo radical encontram-se à esquerda, mas são projetos distintos. O mesmo se diga da direita onde o tradicionalismo católico, os segmentos evangélicos e o nazismo estão à direita, embora sejam muito diferentes entre si. A radicalidade política começa a ser combatida com conhecimento do processo político e dos seus projetos. É pouco simplesmente tratar essa questão reduzindo o problema a esquerda e direita. Essa não é uma questão simplesmente teórica. Na prática nem todo cidadão que critica o governo Bolsonaro deseja a liderança de Lula e nem todo crítico do Partido dos Trabalhadores é adepto de Bolsonaro.
Se o primeiro passo para a superação da radicalidade política é o conhecimento das forças políticas, um segundo passo é o conhecimento da política como a arte do debate e de construir consensos. Em outras palavras, a política exige que se converse de forma tranquila com pessoas de todas as posições. Nesse sentido, faz falta um homem como Tancredo Neves que era capaz de dialogar de forma aberta com todos os segmentos políticos e buscar consensos. Isso não apenas se devia à sua disposição psicológica para a moderação e o equilíbrio, mas ao reconhecimento de que era necessário construir consensos para além das legítimas disputas pelo poder. Quando os alemães ocidentais estavam divididos, ao final da Segunda Guerra, entre aqueles que queriam uma aliança com os Estados Unidos e os que pretendiam uma política independente, o filósofo Karl Jaspers observou que primeiro era preciso construir um consenso entorno à organização livre e democrática. A construção de consensos, para além do apoio à seleção de futebol do país, é fundamental sob pena de ameaçar nossa existência como nação.
Esses dois passos contemplam a ciência política e sua prática, mas há um terceiro passo que é imprescindível. Ele depende da educação humanista e ampla que anda atualmente em baixa em nosso país. Porém, é esse pensamento que alimenta a reflexão crítica e preserva a racionalidade contra qualquer atitude indigna dela. Nesse sentido, tem muita importância a formação filosófica e a capacidade de reflexão. São elas que esclarecem os princípios e os objetivos da prática política, preservando o essencial da vida social, os valores estruturantes da sociedade e o destino da humanidade. Por isso tem sido um desastre o uso da filosofia na defesa de ideologias, tanto à esquerda quanto à direita, nas redes sociais.
A filosofia é um pensamento que funciona se independente, não da vida e de seus problemas concretos, mas de posições radicais que impedem a procura da verdade. Uma independência capaz de buscar no passado a orientação que importa e de estimular a busca de consensos para viabilizar o futuro. Todo verdadeiro praticante da filosofia está comprometido não com ideologias, mas com a liberdade e independência das ideias já estabelecidas para buscar a verdade. Esse terceiro passo é também fundamental.


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O DEBATE DO ENSINO PÚBLICO E EDUCAÇÃO RELIGIOSA NO BRASIL. Selvino Antonio Malfatti.





A Educação no Brasil passou por vários períodos. No período colônia predominou a ensino da Escolástica que dava ênfase a uma educação formal sob a orientação da Igreja católica, mais precisamente pelos padres jesuítas.
Este período perdura até o século XVIII, sendo substituído no governo do ministro Marquês de Pombal que mandou que se implantasse um ensino eminentemente científico, mas sem se desvincular da orientação católica.

Com a Independência, no século XIX, o ensino continuou ter a orientação da Igreja católica, inclusive a educação estava entregue à Igreja, dentro do princípio do Padroado.

A ruptura acontece com a República que institui um ensino leigo, mas sem proibição do ensino privado. A Revolução de Vargas confirma o ensino leigo, mas permite o ensino religioso em todas as escolas, mesmo no ensino público.

É neste momento que se dá o grande debate objetivando o afastamento do ensino religioso das escolas públicas, levado adiante pela educadora CECÍLIA MDEIRELES, na Década 1930-1940, através principalmente de jornais.

O maior embate ideológico enfrentado por Cecília Meireles na educação foi o confronto envolvendo Governo de Getúlio Vargas, Igreja católica e a ideologia da Escola Nova. O Governo, de cunho positivista, mostra uma fachada liberal, mas internamente era positivista. A Igreja, ainda despeitada pelo despojo da Proclamação da República, continua mantendo sua posição tradicionalista e a Escola Nova posiciona-se pelos princípios liberais.

O divisor ideológico bem antes viera à tona. Mas foi com o Manifesto dos Pioneiros da Educação, 1932, elaborado por Fernando de Azevedo e seguido por 26 intelectuais, que se propunha inovar na educação brasileira, assim como acontecia em vários países da Europa.

No Brasil, reinava relativa harmonia ideológica na educação até o final da década de Vinte. No entanto, a questão da educação do país sempre esteve na pauta das discussões políticas por parte de grupos organizados. Tome-se como referência a Associação Brasileira de Educação, 1924, a influência da Escola Nova na crítica ao tradicionalismo pedagógico da Igreja. Por sua vez, Getúlio Vargas, filho de um hibridismo ideológico, pois, por parte de pai era chimango e pela mãe, maragato. Mas, ao que tudo indica, a preponderância ideológica coube ao pai – positivista- e, como tal, o catolicismo pouco interesse despertava nele ele.

No início de 1929, no entanto, apresentam-se três grupos rivais dispostos a disputarem a hegemonia da educação brasileira: os da Escola Nova - escolanovistas –, a Igreja – católicos -, e governo-estrategistas. Os dois desforçavam-se perante o governo querendo provar que sua concepção de educação poderia alcançar a salvação nacional, mas cada um deles com projetos distintos quanto aos fins propostos. Os católicos arregimentaram-se em torno do tradicionalismo e os liberais passaram com os argumentos dos Pioneiros da Educação. (LAMEGO, 1996, p. 80-96.)

O pivô da questão foi o Decreto de 1931 que facultava o ensino religioso em qualquer escola: pública ou privada. A posição do governo é defendida pelo ministro da Educação e Saúde, Francisco Campos. Sua concepção política, de acordo com Bomeny e Schwartzmann, alinhava-se ao fascismo italiano, cujo ideal político era um regime de autoridades, ao contrário do liberalismo que defendia a liberdade e a individualidade. (LAMEGO, 1996, p. 80).

Campos defendia a arregimentação das massas a partir de um ideário comum, sob a liderança de um mestre, apoiado num Estado forte e legítimo. Defende um regime voltado para as massas, calcado num líder carismático centro da integração política. Este regime é próprio da ditadura e não da escolha. (Id.)
Evidentemente, com esta visão política e ideológica, bate de frente com os princípios liberais da Escola Nova que preza a liberdade individual acima de qualquer interferência do Estado. Para Campos, o liberalismo é um regime anacrônico e o tradicionalismo católico poderia servir melhor aos objetivos do governo de Vargas.

No grupo dos católicos alinhavam-se membros das principais associações: Centro D. Vital, em São Paulo e no Rio de Janeiro, na Associação dos Professores Católicos do Distrito Federal e, principalmente, a partir de 1934, na Confederação Católica Brasileira de Educação. Seus membros congregaram-se principalmente na Revista Festa (FESTA, 1978) da qual Cecília no início foi colaboradora. Além da tradição, acompanha a linha espiritualista, atraindo um número relativamente grande de filósofos e escritores católicos.

Neste grupo destacaram-se principalmente: Tristão de Athayde(1893 – 1983), Gustavo Corção (1896 –1978), Jackson de Figueiredo (1891 - 1928).
O alvo da crítica na questão religiosa, no Decreto, é o ministro Francisco Campos. Isto por que o documento facultava o ensino religioso em escolas públicas e privadas. Para Cecília, religião é catequese, isto é, a subordinação à uma seita. Cecília não dirige críticas diretas a Getúlio Vargas, mas sempre ao ministro da educação. (LAMEGO, p. 84).

Getúlio Vargas, para legitimar a Revolução, necessitava arregimentar forças político-sociais a seu favor. Evidentemente buscaria algum grupo que sintonizasse, ao menos em parte, com sua ideologia positivista. Viu que este grupo, defensor tradicional da moral, seria a Igreja católica. E por isso abre-lhe as portas da educação, inclusive no ensino superior, ou universidades. (FESTA. Edição Fac-similada. Rio de Janeiro, Inelivro. 1978.A Igreja não se fez de rogada ao convite. Evidentemente, sem subordinação. Conforme o cardeal D. Leme: ou o Estado reconhece o Deus do povo, ou o povo não reconhece o Estado. (In: LAMEGO, p.124). 

À ação moralizadora, meta do governo de Getúlio, a Igreja correspondeu plenamente. Como os princípios liberais da Escola Nova, não só eram concorrentes como uma ameaça, por isso mereceu da parte da Igreja um combate sistemático. Centrou-se sobre a laicidade da educação, a coeducação dos sexos e o monopólio estatal. Conforme Alceu Amoroso Lima, a Constituição, a Escola e a consciência ficaram sem Deus. Era preciso restitui-Lo.

Num balanço feito sobre a Primeira República diz a Igreja que: o regime laicista teve tempo suficiente para dar provas de si, ruiu em 1930 após informar toda a instrução pública primária, secundária, normal e superior, Deus foi excluído na formação dos brasileiros, seccionou o ensino público do privado, a escola da família, introduziu a indiferença moral. (A ORDEM, 15/05/1931).
À medida que a Igreja ascendia, a Educação da Escola Nova perdia terreno. Já havia demonstração de vitória, como aconteceu com a Consagração de Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil, diante de uma multidão Getúlio e o Cardeal Leme discursando juntos. Cecília lamenta num artigo intitulado: “Pobre Escola”. (MEIRELES, Pobre Escola, Página da Educação, 9/05/1931).

Dentre os dois segmentos após a vitória da Aliança Liberal que se apresentaram na disputa pela hegemonia ideológica, Escola Nova e Igreja, conforme Cecília incontestavelmente a Igreja levou a melhor. Prova disto é a atuação das Legiões, grupos paramilitares em defesa dos interesses revolucionários, que se posicionam abertamente na defesa dos compromissos com a Igreja, mormente no que se refere ao ensino religioso e a validade do casamento religioso, conforme Gustavo Capanema, diretor de Instrução, de Minas Gerais: “a Legião reafirma todos os compromissos com a Igreja...”

BIBLIOGRAFIA
Decreto do Governo Provisório, nº 19.941. Diário Oficial da União – Seção 1 – 6/5/1931. p. 7191.
FESTA. Edição Fac-similada. Rio de Janeiro, Inelivro. 1978.
LAMEGO, Valéria. Arpa na Lira: Cecília Meireles na Revolução de 30. Rio de Janeiro/São Paulo, Editora Record, 1996.
MEIRELES, Cecília. Pobre Escola. Página da Educação. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 1931.
Revista A ORDEM. Editorial n. 15, 1931, p. 257-262.




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