sexta-feira, 4 de maio de 2018

O QUE NOS UNE E O QUE NOS SEPARA.. Selvino Antonio Malfatti.


Somos uma nação. Temos identidade interna e externa. Por isso temos valores que nos identificam e que nos unem. E há valores que nos separam. Mas de um tempo para cá, aumentam os valores que nos dividem.
Sempre fomos um povo pacífico, respeitador, cordial. A diferença de classes ou de status era compensada pelo respeito mútuo e compreensão. Mas de uns tempos para cá esses valores foram jogados na vala do desprezo.

O que aconteceu? Incubou-se nas universidades públicas, nas ciências humanas, um grupo de professores que, em vez adotar o pluralismo na pesquisa, abraçaram o singularismo, privilegiando tão somente um elemento como se, através dele, se pudesse explicar tudo. Brandindo a espada do singularismo passaram a investir contra tudo e contra todo: educação, economia, cultura, religião, família, gênero etc. São exemplos desse singularismo: Marilena Chauí ("odeio a classe média"), Paulo Freire, Nelson Werneck Sodre.
O pluralismo - como de Miguel Reale (Tridimensionalidade do Direito), Guilberto Freye, Rui Barbosa () - foi tudo jogado na lixeira.
Com o singularismo foi acirrada as diferenças de classe. Não por parte da população mas por aquele estrato social incrustado no poder, que faz questão de ofender a classe média, atiçar o ódio entre os pobres, e ofender e humilhar os abastados e empreendedores. Tentar desmoralizar as Forças Armadas e todas as instituições do estado de direito. E o pior, eles se locupletam das demais classes e ao mesmo tempo que ofendem a classe que pertencem – a média.  Incitam o ódio entre as classes e lhes atiram migalhas em retribuição ao voto. Esbulham a classe alta para roubar-lhes as rendas que conseguiram.
Foram milhões e bilhões desviados, roubados e transferidos para suas contas pessoais até mesmo no exterior. Isto passou a nos dividir.

Mas o pior estrago cometido foi o esfacelamento da sociedade. Hoje, digo o tempo, após treze anos somos uma nação dividida, cujo veneno do ódio se espalhou em todos os setores. Os abrolhos começaram a destilar-se a partir da educação mais alta, a superior, penetrou no escalão médio e infiltrou-se na básica. Hoje, entre os educadores públicos, o respeito quase desapareceu. Não há mais recato nem às autoridades e muito menos entre colegas, sem falar nos educandos. Todos se odeiam, se ofendem e se atacam fisicamente e moralmente. Cada lado  estereotipa outro  chamando-se mutuamente de “petralhas”, “coxinhas”, “fascistas”, “canalhas”.

Incentivam a prostituição, a degradação moral das crianças e a depravação sexual social. O aborto – em vez de exceção – se torna regra. A opção de gênero, em vez de privada, quer que seja pública através do incentivo às práticas e experiências degradantes. Isso, inclusive, com crianças.
O uso de termos ofensivos passou do íntimo para público. Ofensas foram içadas às esferas de mídia, redes sociais e em lugares públicos e privados. Uma professora, em palestra na UFRGS,  chama a autoridade suprema do país de “canalha”. Políticos mandam ministros do Supremo Tribunal tomarem no símbolo do cobre. Professores e universitários disseminam  e destilam a cizânia do ódio entre colegas, superiores e alunos. Religião, moral e ética viraram deboche. É uma guerra de “haters”, Voltamos ao estado de natureza, de guerra de todos contra todos. (Bellum omnium in omnes). Não se pode discordar, que milicianos mercenários atacam como abelhas africanas.

Tudo isso foi possível - não causado - pelas redes sociais. Antes delas alguém poderia chamar o outro de "canalha" num ambiente restrito. Com as redes sociais isso tomou proporções inimagináveis. Não é para um grupo ou pessoas particulares que a ofensa é lançada, mas para o mundo. Além disso a pessoa pode ficar anônima se usar um pseudônimo. Não foram as redes que fizeram este ambiente, mas o uso delas num ambiente que se tornou acirrado e polarizado. Chegamos à fronteira da convivência.

O que sobrou para nos unir? Ainda somos uma nação ou um conglomerado de pessoas como num coletivo?
O que nos desune?
Partidos, diferença de classes, status, escolaridade, salários.
Mas o que nos deveria unir:
Pátria, solidariedade social, democracia pluralista, compreensão, valores permanentes, respeito.
Modestamente sugiro desarmar os espíritos e traçar um novo Pacto Social. Para tanto, nada melhor do que ter em mente a paz. Convido a todos:

1ª. Procurar a paz e segui-la.
2ª. Todos defenderem-se mutuamente em vez de se agredirem
3ª. Esforçar-se para ser sociável.
4ª. Perdoar as ofensas passadas e arrepender-se delas.
5ª. Banir a vingança.
6ª. Ninguém deverá devotar, nem demonstrar qualquer sinal desprezo pelo outro ou declarar ódio a seu semelhante.
7ª. Que cada um reconheça o outro como igual, por natureza.

Parece que não há outra alternativa: se não surgir um novo pacto social espontâneo, afundaremos e advirá, sim, mas quando toda esta geração estiver debaixo da terra. 
Ou seremos, como nação, banidos da face da terra.




sexta-feira, 27 de abril de 2018

O Mito, o conceito e sua deturpação.José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei





No decorrer da história da cultura a palavra mito teve significados distintos desde que surgiu entre os antigos gregos. Platão a concebeu como forma deturpada de verdade ou como aquilo que se distancia de uma narrativa verdadeira. Aristóteles elaborou na Poética essa compreensão e a apresentou não somente como falsa narrativa, mas como maneira aproximada ou simbólica de dizer algo. Esta noção de verdade aproximada abriu espaço para uso do termo como narrativa simbólica com valor moral ou religioso e assim passaram a ser nomeadas as narrativas cosmogônicas ou soteriológicas, isto é, que narravam as origens ou fins do universo de uma perspectiva religiosa, como se vê na Bíblia.
Entre os modernos a palavra mito adquiriu um sentido não reconhecido na antiguidade. Um dos responsáveis por essa virada gnosiológica foi o italiano Giambattista Vico que enxergou nas narrativas mitológicas não inverdades ou verdades diminuídas, mas uma outra forma de dizer a verdade. E ele observou que é possível comunicar uma verdade de várias maneiras. Disse ainda que os povos ao narrarem sua origem se valia de caracteres poéticos e simbólicos para expressar aspectos difíceis de serem transmitidos numa linguagem lógica e discursiva. Porém, foi no idealismo alemão que o mito ganhou uma significação mais elaborada ao ser apresentado como uma espécie de religião natural, isto é, forma natural pela qual ocorre a manifestação do Absoluto entre os povos. O grande articulador dessa forma de pensar foi Friedrich von Schelling autor de uma Filosofia da mitologia, onde avalia as narrativas mitológicas como manifestação da divindade na natureza.
O pensamento contemporâneo retomou as considerações do idealismo alemão para destacar na narrativa mítica uma realidade decorrente da compreensão fenomenológica de entender o mundo. Para os fenomenólogos sempre que se pensa se está pensando algo. Daí a expressão consciência de, para traduzir esse entendimento de que se é a consciência subjetiva que pensa o mundo, como ensinou Descartes, ela pensa o mundo representando-a nela ou o medindo segundo suas possibilidades. Por isso, Ernest Cassirer no Ensaio sobre o homem trata essas formas simbólicas ou poéticas de descrever as origens como reveladora da distância existente entre o símbolo e o que ele representa. Assim as narrativas míticas, embora privadas de rigor lógico, não são incoerentes se observadas na ótica dos sentimentos, que são muito fortes entre os primitivos.
A Sociologia moderna trouxe esse entendimento contemporâneo para descrever o surgimento de elementos de formação dos grupos. Esse uso foi deturpado na linguagem comum. Isso ajuda a entender o uso despropositado que passa ser feito do conceito para representar um homem e sua liderança. A extrema direita foi campeã nesse uso deformado do conceito ao veicular a ideia de que Hitler ou Mussolini eram mitos. Isso andou meio esquecido em razão dos destinos da guerra. Aproveitando-se da ignorância geral a direita brasileira está assanhada tentando propor outro mito ou de fazer a sociedade engolir outro mico.



sábado, 21 de abril de 2018

CASTROS FORA DE CUBA,mudança dentro da continuidade. .. Selvino Antonio Malfatti.



A saga começou em 1959, em Cuba, quando a ilha, dirigida pelo ditador Fulgêncio Batista, foi atacada por dois revolucionários: Fidel Castro e Che Guevara. Após ilhares de vítimas, os famosos “paredons”, os dois iniciam aquilo que denominavam as reformas socialistas: redistribuição de terras, educação e saúde públicas, propostas de transporte e alimentação por preços baixos. O Estado passou a controlar tudo e Fidel Castro concentrou todo poder em si mesmo.
Desde a tomada do poder, Castro decidiu afastar-se dos Estados Unidos e a ilha passou para a órbita da URSS, cujo período vai durar trinta anos.
Em 1991, com o esfacelamento da União soviética, esta relação acaba, e Cuba entra numa crise de escassez e isolamento. Castro, então, permite certa abertura para ver se os cubanos conseguem  salvar-se do afogamento. Permitiu-lhes criar pequenas empresas, comprar telefones portáteis, carros e vender suas casas.
Em 2006 o líder Supremo, Fidel Castro, passa o poder para seu irmão Raul Castro, que prossegue na política de liberação da economia. Agora, o poder passa para Miguel Diaz-Canel. A pergunta que se faz: qual a herança da revolução cubana?
Numa democracia isto se poderia denominar de mudança dentro da continuidade. Mas Cuba está longe de ser uma democracia. Nos regimes ditatoriais a dose de continuidade prevalece sobre o da mudança.
No dia 19 de abril deste ano Raul Castro (86), irmão de Fidel,  entregou o poder de presidente do Conselho de Estado a Miguel Diaz-Canel, candidato único e com isto não se fez exceção à regra.
Diaz-Canel, (57), nasceu depois da revolução, e, portanto, não conheceu a não ser o regime castrista. Possui o perfil clássico dos regimes de aparato do tipo da extinta União Soviética.
Na sua formação ostenta o título de engenheiro em eletrônica, professor universitário. Galgou metodicamente todos os escalões do Partido Comunista Cubano (PCC) por trinta anos e ultimamente  integrou a direção. Na sua província, Vila Clara, localizada no centro da ilha. Em 2003 ingressou no diretório do partido, já em 2012  assumiu uma das oito vice-presidências do Conselho de Ministros e no ano seguinte o número dois do Conselho de Estado, abrindo-se lhe a possibilidade de ser sucessor.
As reformas conduzidas através de uma economia de mercado não conseguiu cumprir seus propósitos. Com efeito, incompleta e mal conduzida, produziu o inverso do desejado, isto é, o acirramento das desigualdades, favorecida pela coexistência de duas moedas, das quais somente uma era conversível em divisas estrangeiras, sendo que agora se torna necessário unificar. A diferença de valor se multiplicou por dez no espaço de trinta anos. Depois de conceder meio milhão de licenças de trabalho autônomo
Depois de conceder mais de meio milhão de licenças por conta própria, o poder freou a iniciativa privada em 2017. Querendo evitar a virada do modelo chinês na direção do livre mercado, Castro limitou-se a proclamar a modernização do socialismo.
Diaz-Canel ousará ir mais longe? O mundo econômico ocidental e oriental o recebe com restrições, em que pese a fama de pragmático. Tem apenas a Venezuela como parceira a qual lhe fornece petróleo. E quem mais?





sexta-feira, 13 de abril de 2018

Tocar os limites. José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei





À medida que a vida vai acontecendo, acrescenta-se à existência apreensão. A expectativa é o que a preside na juventude, pois quando se é jovem os dias que se espera viver são muito mais numerosos do que os já vividos, pelo menos essa é a crença dos jovens. Isso é assim, mesmo que a jornada não tenha tempo fixo nem garantias. E é a novidade de viver o futuro o que predomina na juventude. Quando se é novo a vida parece guardar escondida, sob muitos lençóis, suas novidades e mistérios. Ela se assemelha a uma dessas casas antigas, mostrada nos filmes dos anos sessenta, que ao ser deixada pelos moradores por ocasião de uma viagem, permanecia coberta à espera dos donos. Esse foi um cenário comum há gerações passadas, quando as casas eram grandes, as famílias numerosas e a vida parecia passar mais devagar. Então, o casarão coberto de lençóis, ficava encoberto e escondido como é o horizonte do jovem.
Depois de algum tempo vivido, escolhas feitas, trabalho consolidado, filhos crescidos, a vida não perde as expectativas, mas acrescenta a apreensão de saber que os dias a viver são menos numerosos que os já vividos. Embora nunca haja a certeza da sua extensão, quanto mais se vive, mais cresce a apreensão. E se entendemos que somos tecidos pelas escolhas feitas, os caminhos por onde passamos têm paragens obrigatórias: sofremos pelos amores perdidos, pelos amigos que se foram, pelas oportunidades não aproveitadas, pelo desaparecimento dos adultos dos dias da juventude, pelas doenças que nos acometem ou culpas que carregamos. Sofremos, enfim, porque morre em nós cada possibilidade deixada para traz nas escolhas feitas. E os melhores de nós guardam dessa viagem as experiências de amor e das boas coisas feitas.   
Temos uma companheira nessa jornada, é a finitude, companheira de todas as horas. É ela que ensina a responsabilidade pelas escolhas feitas. Ela é a quem devemos consultar em cada nova escolha, pois é ela que dimensiona o que se escolhe. É ela que traz a conta do sofrimento causado a si ou aos outros e também é ela que mostra como as escolhas de hoje ficaram reduzidas pelas escolhas passadas.
Assim, aprende-se nessa viagem existencial, como disse Miguel Reale em seu livro Variações, a viver com lágrimas nos olhos, pois é o sofrimento das perdas o que nos irmana e escancara o valor do amor. Talvez seja por isso que Jesus o colocou como um importante princípio de vida, amar o próximo e próxima, nossos companheiros de jornada, tanto quanto a Deus que a criou.
E, entre as escolhas feitas e as por fazer, estabelece-se uma linha de continuidade que orientada pelo sentido e significado amarra o que foi feito e o que ainda resta a fazer. É a essa linha que chamamos sentido. Sentido é direção, é missão, é alvo para onde se fixa o olhar na caminhada. Sem que essa direção clara, a caminhada se perde nas paradas, as quedas se tornam mais dolorosas demais e as perdas viram peso. É a consciência da tarefa e o rumo a seguir o que acalenta nossos dias e os alimenta com a preciosa esperança de boas e novas realizações. A esperança não é a última que morre, é o alimento sem o qual não se vive.
Quanto mais passam os dias, mais se aprende o que devíamos saber já no início, é curto o tempo para amar quem nos ama, para dar nossa contribuição para a sociedade, enfim de tecer a manta da cultura que deixaremos para nossos filhos e netos e para os filhos e netos deles. E a caminhada já feita é onde ficou depositado esse legado os próximos. Lá está o que nos faz importantes aos que virão.


sexta-feira, 6 de abril de 2018

O Medo no Festival de Psicologia em Turim. Selvino Antonio Malfatti





Está marcado para os dias 6 a 8 de abril um evento que trata da questão do medo. Realizar-se-á em Turim Itália.
O medo é uma emoção como a alegria, a expectativa, a angústia, a morte, entre outras, e como tal são sentimentos. Podem ser objetos de reflexão tanto da psicologia como da filosofia, mormente da filosofia da existência como em Kierkegaard como em Heidegger.
A emoção acontece quando o ser humano, animal ou outro ser vivo sentem o valor que determinada circunstância tem para sua vida, suas necessidades ou interesses. É um sentimento que acompanha a dor ou prazer. Estes atribuem valor à vida ou necessidades do ser humano. É uma reação ao que é favorável ou desfavorável para sua vida.
O evento denominado de  Festival de Turim quer entrar na mente humana, e descobrir a essência do medo, suas causas e consequências. Sob a égide do tema: ”o individual e o coletivo: ambos se isolam quando amedrontados”, sob a direção do psicanalista Massimo Ricalcati. Dentro do tema serão abordados variados conteúdos, verdadeiros pesadelos da humanidade, como atentados terroristas que causam traumas individuais e coletivos. Serão debatidos também o papel do perdão e o sentimento de identidade.
Como se percebe há uma intersecção entre o individual e o coletivo, por isso se fará um encontro entre a psicologia individual e a coletiva. O medo é um tema atualíssimo; de um lado o fascínio do muro, da exclusão segregativa, os reforços de autodefesa e de outro, a necessidade de oxigenação, pois sem ela, a vida se apaga. Nisso reside sua importância porque se confronta com o isolamento.
Cada dia haverá uma apresentação de tema central, espécie de Aula Magna, que indicará conteúdos para debates, apresentados por psicólogos, psicanalistas, escritores que abordarão aspectos particulares do medo. O festival terá três palestras centrais. 1. Na sexta o especialista em geopolítica, Lúcio Caracciolo, discorrerá sobre quem são e o que querem os terroristas, sábado o próprio Ricalcati, se ocupará da violência e terror e no domingo a psicóloga marroquina Houria Abdelouahed apresentará na sua lectio o tema mulheres, islam e violência.
O coordenador adianta que se buscará saber se é possível prever a violência, ou como explicar aos pequenos a violência. Ou mesmo explicar o que é isolamento de um lugar ou de um sujeito. Explicar qual o medo maior e a fronteira do medo de ter medo.
A questão que se pode colocar é a seguinte: é possível fazer um paralelo entre os temores individuais e os da sociedade? Como se sabe o medo gera a clausura, o isolamento, potenciando as autodefesas. Mas, paradoxalmente, este comportamento empobrece a vida. Do mesmo modo uma sociedade dominada pelo medo é uma sociedade que se fecha e se torna endógena até definhar completamente. Então: o que fazer? Defender-se e morrer pelo auto enclausuramento ou permanecer aberta e ser massacrada pelo terrorismo?

sexta-feira, 30 de março de 2018

Páscoa 2018, ainda Jesus. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei



A comemoração de datas significativas é uma interessante estratégia humana de repensar a vida e seus significados. Sendo histórica a consciência humana, ela renova e aprofunda o entendimento dos fatos vividos quando a eles volta. Sendo histórica a própria vida, torna-se possível rever explicações e renovar convicções. Como celebração cristã, a festa da Páscoa é o centro da fé, pois se Cristo não ressuscitou é vã nossa fé (1 Cor. 15, 14). A recordação da morte de Jesus anuncia sua ressurreição e a lembrança de sua morte e ressurreição ressignificam fatos que não foram compreendidos enquanto ele vivia: a palavra proferida, o batismo e o enfrentamento do mal.
Este último aspecto é oportunidade para comentar bobagens que ultimamente povoaram as redes sociais. Depois do lamentável assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes, a mais idiota geração de direita que esse país já produziu, decidiu denegrir a imagem da moça. Veicularam que ela mereceu morrer porque defendia bandidos e marginais, dos quais acabou vítima. Ao fato respondeu a não menos dotada parcela da esquerda brasileira dizendo que igualmente não se devia lamentar a morte de Jesus, pois Ele também defendia bandidos e prostitutas. Nunca imaginei que ouviria um diálogo desse nível nas redes sociais, mais sua existência não pode ficar sem ser comentada.
Um comentário que começa com a constatação de que o tempo das massas ignorantes identificadas pelo filósofo espanhol José Ortega y Gasset, constituída por homens cujo conhecimento não estava à altura do seu tempo, produziu outra ou outras gerações igualmente ruins, provavelmente piores. A triste morte da vereadora carioca foi resultado da soma de corrupção policial, desmando político, descontrole público e injustiça social. O Rio de Janeiro, uma unidade do Estado Brasileiro, perdeu o controle da vida social, permitindo uma sequência de fatos desastrosos (assassinatos, furtos, roubos, violência crescente, tráfico de drogas, etc.). Essa realidade se implanta em sociedades submetidas a sérias catástrofes. Algo semelhante ocorreu depois do terremoto do Haiti, quando o Estado Nacional perdeu o controle da sociedade. Retomar esse controle é o que se tenta hoje com a intervenção federal no Rio. Porém, a situação de calamidade do Rio é difícil de ser enfrentada porque além da desorganização social há quadrilhas armadas que funcionam como poder paralelo. A vereadora foi vítima desse estado lamentável de coisas. Quando o crime atinge um agente do Estado como ocorreu com Marielle é sinal de que o descontrole chegou a um ponto gravíssimo.
Quanto a Jesus, a parte de haver sofrido um julgamento injusto, do qual nos tornamos cúmplices com nossas injustiças, nunca pactuou com o mal. No seu julgamento enfrentou líderes religiosos que reduziram a fé num instrumento de poder; autoridades civis que abdicaram da justiça por medo e o povo que testemunhou a injustiça por inércia. Essas coisas são próprias de quem é incapaz de viver o verdadeiro amor de Deus. A incapacidade de vencer o mal é própria do homem. É o que nunca faltou em Cristo, coragem e força para enfrentá-lo. Se Ele aceitou Paulo de Tarso, assassino de Estevão; Agostinho de Hipona, egoísta, ambicioso e libidinoso e Mateus, corrupto cobrador de impostos, não apadrinhou esses erros. Os perdoou porque eles passaram a lutar contra o mal, neles mesmos e no mundo.
Á parte do significado salvífico do sacrifício de Jesus, sua morte foi um decisivo passo no enfrentamento do mal de um modo que não somos capazes de fazer, Jesus é o que de melhor podemos desejar ser. E ao reaparecer, depois da horrorosa morte, para um grande número de testemunhas, Ele realizou o que nenhum homem conseguiu. Ele voltou da morte. Por isso, sua ressureição trouxe esperança e um significado para viver que somente Deus pode oferecer.

sexta-feira, 23 de março de 2018

VIDA LONGA E PRAZEROSA - BAIXO COLESTEROL OU GRANDES AMIZADES? Selvino Antonio Malfatti






Uma pesquisa iniciada há 80 anos na universidade de Harvard se propôs descobrir o segredo da longevidade e do viver bem. Os pesquisadores tinham em mente um ambicioso e sábio objetivo: compreender o que permite viver bem e muito tempo. Para tanto começaram anotar tudo o que acontecia com 300 estudantes matriculados no College de Harvard entre 1938 a 1944: saúde física e mental, trabalho, família, amigos e outros dados relevantes e alguns aparentemente superficiais. O estudo já conta com 80 anos e, parece que tão cedo não findará. E o que descobriram? A resposta surpreendeu os pesquisadores, mas não artistas. Os primeiros pensavam que fosse baixo colesterol, mas segundos, como os Beatles (Love, love, love), intuíram que era o amor e a amizade. Foi isto mesmo. Que o amor e a amizade nos fazem viver bem e longamente.

Além disso, descobriram que a educação é mais importante que dinheiro e a posição social, enquanto a solidão mata, assim como matam o álcool e o fumo e as drogas. Um dos colaboradores e pesquisador do projeto, George Vaillant, disse: “não basta ser brilhante para envelhecer bem. Deves estar enamorado, ou, ao menos, ter relações afetivas fortes, na família (pai, mãe, irmãos, irmãs, tios sobrinhos, primos) e fora dela muitos amigos”.

Não deveria ser os níveis de colesterol e pressão alta a fazerem mal? Com certeza, sim, mas comparados com os laços de família influenciam menos. Os conselhos comuns de bons médicos como não fumar, beber com moderação, consumir frutas, verduras e peixes e desenvolver exercícios físicos, ainda falta mais um e, talvez, o mais importante: dedicar e usar energias com pessoas de relações.
É importante reaprender, pois traz vantagens para o cérebro. Os cientistas documentaram fartamente com testes de performance intelectual e muitos outros exames, inclusive com eletroencefalograma, repetidos por 80 anos. Até mesmo os relacionamentos sociais das crianças são importantes, tanto com as outras crianças como com adultos. O que importa é que façam. Quanto mais experiências tiverem deste tipo ou que brinquem entre si, tanto melhor.

Evidentemente nenhuma pesquisa é perfeita. Esta, por exemplo, foi aplicada somente aos meninos, pois naquela época somente sexo masculino era admitido no College. Outro agravante era que naquele tempo todos eram homens, classe média alta e brancos. Um dos primeiros a participar da pesquisa foi John Fitzgerald Kennedy, futuro presidente dos Estados Unidos, Ben Bradlee, muitos anos diretor do Washington Post. E o que aconteceu com os outros?   Alguns se tornaram empreendedores, advogados de ponta, médicos famosos. Houve também pessoas comuns e até mesmo os de vida miserável: alcoólatras, drogados e esquizofrênicos.

Com o tempo a pesquisa ampliou seu leque incorporando muitas outras pessoas, inclusive mulheres e outras atividades paralelas como «Glueck» - previsão de crimes – em cujos projetos participaram rapazes que viviam nos subúrbios de Boston. Confrontando-se os frequentadores do College e os dos subúrbios resultando conclusões significativas.

Apesar de atualmente a pesquisa estar sob fogo cerrado das críticas, alguns ainda a acham válida. Como prova a descoberta de que, por exemplo, quem é homossexual não o é por culpa dele ou por ter escolhido, nem quem é alcoólatra não é uma falha própria, mas doença. Talvez, ainda, os dados podem coadjuvar na prevenção de certas doenças – como as cardiovasculares e diabetes, por exemplo – e mais, os distúrbios do sistema nervoso ou retardar o envelhecimento. Se assim for, o sistema sanitário mundial melhoraria e haveria uma sociedade com vida mais longa e bem estar.

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