sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ortega y Gasset e nosso tempo. José Mauricio de Carvalho - Professor do IPTAN




Acaba de ser publicado, pela Filoczar de São Paulo, Ortega y Gasset e nosso tempo. O livro é uma continuidade de nossos estudos sobre o filósofo espanhol. Em certo sentido continua o que foi proposto em Introdução à Filosofia da Razão Vital de Ortega y Gasset, publicado em 2002, pela editora Cefil, de Londrina. Não se trata de uma ampliação da temática abordada naquela ocasião, mas de uma reconstrução de aspectos fundamentais do pensamento orteguiano, a partir dos estudos mais recentes e sistemáticos feitos sobre sua obra. Desde a publicação daquele livro muitas dezenas de tese de doutoramento foram defendidas sobre o autor, surgiu a revista do Centro de Estúdios Orteguianos, que estuda exclusivamente sua obra, e uma nova edição comentada de suas Obras Completas foi publicada pela Taurus. Muitos desses estudos renovaram nossa compreensão do pensamento do filósofo.
Questões que no primeiro livro foram apresentadas como intuição e rapidamente comentadas, por exemplo a aproximação do raciovitalismo com a fenomenologia de Husserl, assunto controverso pois era negado pelo próprio filósofo, foram confirmadas com estudos mais recentes de uma nova geração de pesquisadores. Ficou bem demonstrado que Ortega conhecia apenas uma parte pequena da obra do criador da fenomenologia. Também ficou demonstrado o impacto do pensamento de Heidegger sobre a razão histórica e os livros da chamada segunda navegação. Além disso, a noção de razão vital apresentada como aprofundamento da ideia de autenticidade da vida em circunstância, isto é, dos assuntos propostos nos primeiros escritos parecem consolidadas com as últimas pesquisas sobre o autor. Ficou mais claro que os textos da década de trinta constituem uma segunda navegação, mas não propriamente uma mudança nos rumos da meditação inicial. E há muito mais novidade, os estudos sobre o tempo das massas nos permite entender melhor os dias que vivemos, ainda que muitos aspectos de nosso tempo Ortega tenha apenas vislumbrado, e há ainda a inédita aproximação com Karl Jaspers que estamos também antecipando.
O livro, portanto, é essencial para todos os interessados na obra do pensador espanhol e nos estudos de Filosofia em geral, mas destina-se a um público maior. O entendimento de que estamos num tempo de crise de valores é percebido hoje ainda mais que nos dias em que viveu Ortega e esse desvio do homem contemporâneo de crenças que guiaram as gerações anteriores, pede a compreensão da realidade humana, impregnada por questões onde a ética se torna um esforço de sentido. Esse compromisso de fidelidade do homem consigo mesmo e com o significado de sua vida é apresentado por Ortega como resposta a um tempo histórico e a uma sociedade que, sem referentes comuns, exige o extraordinário empenho de todos nós para encontrar sua missão. Missão entendida como concreta vocação que exprime o legado que somente o indivíduo é capaz de deixar para todos os homens em todos os tempos. Isto porque as escolhas que fazemos marcam não só nossa história pessoal, mas a trajetória da sociedade que vivemos.

Finalmente, o livro permite entender a Filosofia como atividade necessária e adequada a todo homem. A Filosofia é mais ou menos procurada ao longo da sua longa tradição de mais de dois mil e quinhentos anos de história. Em nossos dias refletir sobre a vida, tema essencial de Ortega, é exigência para a superação da rotina de trivialidades, de trabalhos superficiais e da luta pela sobrevivência, que geralmente ofuscam o que a vida tem de mais encantadora, desafiadora, saudável e realizadora. Não é a toa que pesquisas recentes mostram que o estudo da Filosofia melhora a inteligência das crianças e torna melhor a vida do adulto.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

AS RELIGIÕES E SUAS ÉTICAS. Selvino Antonio Malfatti






1.    Modelos de Teodiceias
O pensamento religioso de Max Weber tem como pano de fundo as Três Formas da Teodiceia.  As teodiceias são grandes construções teóricas que tentam encaixar toda realidade existente dando-lhe coerência e sentido. São como as teorias, no entanto sob o ponto de vista religioso. Para Weber existem três grandes modelos de teodiceias:

1º O Dualismo. É uma das formas mais difundidas e existe em diversas religiões. O zoroastrismo talvez fosse o modelo mais perfeito desta forma de teodiceia. O conteúdo religioso contempla a dualidade entre o bem e o mal religioso. Nesse sentido há o puro e o impuro. O deus do bem e o do mal, o virtuoso e o pecador. O problema é que esta crença ou teodiceia envolve uma contradição. Há um deus que possui seus poderes limitados por um rival. A ideia de salvação, através de um Salvador, como na teodiceia cristã, avançou esta concepção para a vitória do bem. Para os bons ficaria reservado o céu e para os maus o inferno. O responsável pelo inferno é uma criatura subordinada ao Deus do céu. O Deus do céu, superior, castiga o deus do inferno com todos os seus, condenando-os ao sofrimento infinito e eterno.

2º Predestinação. Nessa teodiceia se acredita que o homem é incapaz de conhecer qualquer desígnio de Deus. E por isso nada de bom pode fazer, cabendo a Deus a liberdade de escolher quem quer para a salvação. O condenado é um réprobo que merece este castigo e nada pode reclamar.
3º Salvação universal. Esta crença se poderia encontrar na religiosidade dos intelectuais indianos. A autorrealização do homem está garantida na salvação universal.

2.    A Ética das Religiões Mundiais
Weber propõe, como hipótese, que a confissão religiosa cria uma ética e esta influi tanto na atividade como no desempenho econômico. Ele a denomina genericamente de “ética econômica”. Pensa que o que anda nas consciências tem eco na economia. Há, por isso, conforme ele, um imbricamento entre religião, ética e economia. Isto não significa que uma economia seja exclusivamente determinada pela religião. Não significa, igualmente, que uma determinada ética produzirá sempre a mesma atividade econômica e nem mesmo que uma determinada atividade econômica só pode adaptar-se a uma determinada ética.
Em cada sociedade, com uma determinada religião há camadas sociais. Entre estas camadas sociais há uma que se sobressaia e influencia a religião mais que as outras e, consequentemente, tem mais peso ético e em decorrência também é preponderante na economia. As grandes religiões mundiais também tinham uma determinada camada que era mais significativa que as outras.

 1º confucionismo e taoismo era a ética dos prebendários, cuja educação literária provocava o racionalismo secular. Quem não pertencia a esta camada culta não tinha influência. A ética desta camada determinou o modo de vida dos chineses para sua própria camada e das demais. Esta camada distribuía o poder dentro da sociedade. Determinava o papel do imperador e das províncias. As funções dos mandarins (burocratas). O universo era visto como uma ordem eterna – Tao. Desenvolveu através de Lao-tsé uma mística que evoluiu para a magia e como consequência impediu o surgimento de práticas racionais.

2º hinduísmo e budismo. Era praticado por casta hereditária de letrados, que, embora não tivessem cargos, atuavam como conselheiros ritualistas e espirituais para indivíduos ou comunidades. Era uma sociedade de castas, as quais formavam uma ordem hierárquica, cujo topo era ocupado pelos brâmanes. Depois vinham os guerreiros, comerciantes, agricultores e por fim os trabalhadores. O intercâmbio entre as castas era proibido. Acreditavam na reencarnação e como todas as religiões orientais eram místicas. Os brâmanes constituíam um centro em torno do qual gravitava toda a organização social. Os brâmanes, educados nos Veda, era o estamento plenamente aceito. Mais tarde surge outro estamento, não brâmane, que passou a competir com eles. O budismo era constituído por monges contemplativos, mendicantes e errantes. Eram considerados membros integrais das comunidades religiosas. Os demais eram considerados inferiores, objetos e não sujeitos de religiosidade.

3º O islamismo. Inicialmente uma religião de guerreiros cujo objetivo era conquistar o mundo. Eram como os cruzados cristãos, mas sem o seu ascetismo sexual. Em torno do século VII d.C, surgiu o misticismo maometano, cujo resultado foi um simbolismo complexo. 

4º judaísmo. Após o exílio, os hebreus perambularam como um povo pária, isto é, o único vínculo era o Deus comum, Javé. Com a elaboração de uma lei sacerdotal, levada adiante pelos levitas, juntamente com a pregação dos profetas, abriu espaço para um caráter prático e ético, expurgando as crenças de magias que grassavam no meio do povo. Durante a Idade Média conseguiu que uma camada de intelectuais que imantava os diversos grupos esparsos pelo mundo. Esta camada representou a intelectualidade pequeno-burguesa, racionalista, mas quase proletária.

4º O cristianismo. O cristianismo - pensa Weber-  iniciou como uma doutrina de artesãos, jornaleiros itinerantes. Permaneceu sempre como uma religião urbana e cívica. Em todos os períodos manteve este caráter: antiguidade, Idade Média e Época moderna. A cidade do ocidente, diferente de todas do mundo da época, com um corpo de cidadãos, foi o palco do cristianismo. A ética pregada era privação, do ascetismo. A verdadeira vida vinha após a morte.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

PORTA SANTA. Selvino Antonio Malfatti













No dia 8 de maio deste ano em várias dioceses do Brasil foram abertas as Portas Santas. Em Santa Maria, o evento religioso foi comemorado no Santuário estadual da Medianeira e Santuario de Schoenstatt. Este acontecimento religioso católico está inserido no contexto do Ano Jubilar da Misericórdia, determinado pelo Papa Francisco. O período durará de 8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016, considerado Ano Santo da Misericórdia. Os católicos que cumprirem com as exigências poderão receber o perdão completo dos pecados até mesmo dos sujeitos à excomunhão como aborto e crimes de sangue.
Nas dioceses escolhidas pelo papa, os bispos indicarão os templos que terão a Porta Santa. Consiste numa porta de entrada de igreja, devidamente assinalada com as cores do Vaticano, que será aberta pelo bispo no dia indicado. Quem, com intenção de arrependimento, entrar por aquela Porta receberá o perdão dos pecados. Para tanto, os católicos deverão:
– Passar pela Porta Santa
– Confessar-se
– Comungar e refletir sobre a misericórdia
– Rezar nas intenções do Papa (a Profissão de Fe ou Credo).
A origem da prática da Porta Santa é pré-cristã. Os fundamentos estão no Jubileu hebraico que consistia em cada 50 anos propiciar o repouso da Terra. Evidentemente era uma medida com o objetivo de tornar a terra mais produtiva para os anos seguintes. Neste ano eram devolvidas as terras confiscadas para pagamentos de dívidas e a libertação de uma boa parte dos escravos. A origem da palavra jubileu está no corno de carneiro, jobel, que soava marcando o início da data.
Da parte dos cristãos a instituição do Jubileu surgiu com a prática da peregrinação a Roma a qual iniciou mais ou menos espontaneamente. Desde os primeiros séculos da era cristã periodicamente multidões de peregrinos costumavam a se dirigir a Roma. No século sétimo a cidade de Roma foi substituída por Jerusalém. No entanto, as peregrinações de fim de ano continuavam a afluir a Roma. Foi então que Bonifácio VIII, no ano de 1300, lançou o primeiro Ano Santo. Determinava que quem visitasse durante o período de 30 dias, para os romanos, e 15 para os peregrinos, as basílicas de São Pedro e São Paulo receberia o completo perdão dos pecados.
Já no século XV as peregrinações continuavam a se sucederem e passaram a ser fonte de rendimentos para hospedeiros, banqueiros e comerciantes. Evidente que enormes somas iam parar nos cofres da Igreja. O papa Nicolau V, no século XV, inovou ao determinar que quem não pudesse ir a Roma poderia receber a indulgência pagando uma determinada quantia de dinheiro.
Embora a ganância pelo dinheiro aumentasse sempre mais e as touradas passaram a ser o grande evento dos peregrinos, a celebração mantinha-se dentro dos padrões. A venda das indulgências, contudo, extrapolou os limites. Tornou-se um mercado. Quem não tinha algum pecado escondido no fundo do baú louco para se livrar? Agora se tornou fácil. Bastava pagar, e pronto! Estava livre. Propagou-se de tal maneira que levou ao cisma do cristianismo ocidental europeu após a reforma de Lutero e o esfacelamento religioso cristão.
Foi no pontificado de Alexandre VI que se fizeram algumas modificações na instituição da Porta Santa. Foi com ele que se introduziu a prática da Abertura da Porta Santa nas quatro basílicas jubilares. Mais tarde a instituição foi estendida às dioceses sob a responsabilidade do Bispo.
No entanto, continuavam a se sucederem os anos jubilares com as aberturas das Portas Santas em meio à corrupção e devassidão, vícios, jogos, procissões com alegorias carnavalescas, problemas de higiene e saúde pública, com epidemias como a bubônica. Inclusive, no jubileu do ano de 1600, houve o julgamento e cremação do filósofo Giordano Bruno, pelo Tribunal da Inquisição.
A situação tornou-se tão insuportável que em 1725 o Papa Bendito XIII estabeleceu algumas proibições. Foi o caso da proibição das loterias, de cheirar tabaco no interior da Basílica de São Pedro e suspensão das touradas no Coliseu. Mas foram apenas reformas periféricas, sem atingirem o essencial.
O jubileu de 1875 em Roma ocorreu em meio a problemas entre o Vaticano e o poder civil romano, pois aquele havia sido anexado ao Reino da Itália. O Papa Pio IX trancou-se no Vaticano declarando-se prisioneiro dos “usurpadores piemonteses”.
O ano de 1950 foi marcado por novos tempos. Dois milhões e meio de fiéis participaram. Os peregrinos puderam viajar de avião. Foi canonizada Maria Goretti e proclamado o dogma da Assunção da Virgem Maria.
Já em 2000, João Paulo II estendeu a indulgência a quem acompanhasse as cerimônias por rádio ou televisão e as Portas das quatro basílicas foram abertas. As Portas Santas se espalharam pelo mundo, inclusive atualmente até há até portáteis, como as das Ilhas de Salomão.
 (Fonte: http://www.brasil247.com/pt/247/revista_oasis/208511/O-Ano-Santo-da-Miseric%C3%B3rdia-Anistia-geral-a-todos-os-cat%C3%B3licos-arrependidos.htm)
             Porta Santa móvel em peregrinação pelas Ilhas Salomão


sexta-feira, 6 de maio de 2016

A Filosofia na vida contemporânea. José Mauricio de Carvalho




Não são incomuns as críticas à Filosofia. Embora elas sempre tenham existido nos últimos tempos uma revista tradicional tem mobilizado suas baterias contra essa atividade do raciocínio com mais de dois mil e quinhentos anos de existência. Desde sua criação a meditação filosófica passou a ser parte constitutiva da cultura ocidental, em alguns períodos com maior e em outros com menor visibilidade.
As críticas mobilizadas pela Revista se concentram em dois eixos: o ensino da Filosofia (e da Sociologia), servem de guardiãs de ideologias de esquerda e seu ensino ocupa um tempo da educação escolar que deveria ser ocupado com o ensino da Matemática e do Português, pois os resultados dos alunos brasileiros nas Ciências são ruins, conforme os parâmetros de avaliação internacional.
Esses argumentos são tão ruins que é difícil imaginar que alguém, em nosso tempo, ainda os apresente. Os mal resultados dos alunos brasileiros nos mecanismos de avaliação internacional explicam-se melhor por uma quantidade de fatores que somam: as más condições de funcionamento da escola, a desvalorização do ensino entre as classes mais pobres, a desvalorização profissional dos professores e profissionais do ensino, ausência de preparação continuada deles, alto índice de violência na sociedade que se transfere para a escola, os parcos recursos do sistema de ensino, etc. Se sabemos que as aulas de Filosofia no ensino médio são normalmente duas, enquanto as disciplinas de ciências juntas elevam-se a pelo menos nove vezes mais que isso, vê-se que não é a retirada da Filosofia que vai melhorar o conhecimento das ciências. Esse tipo de discurso é reedição empobrecida da pregação positivista  que resume o real à descrição dos fatos. Na verdade a argumentação é uma espécie de elogio inútil da Ciência que remonta aos tempos pombalinos, sem que redunde efetivamente na melhoria da qualidade do ensino das ciências.
A pobre argumentação do periódico não resiste à mínima análise. Primeiro porque o ensino da Filosofia, em nosso tempo, não pode prescindir da Ciência e de suas explicações como legítima interpretação da realidade. O ensino da Filosofia necessita e não concorre com as Ciências. Segundo porque a Filosofia não pretende, e não pode mesmo, assumir sozinha a tarefa de ensinar a pensar a realidade dos alunos, isso é desafio de todas as disciplinas. Terceiro porque a Filosofia ajuda a entender as raízes da cultura ocidental e dos valores que a estruturam, dão coesão social e a delineiam: a liberdade, a democracia plural, o respeito às leis, a tolerância, o respeito à argumentação racional o dar e o ter razão. Valores cuja ausência alimenta o terrorismo fundamentalista e o radicalismo religioso. Quarto porque a Filosofia é um discurso sobre a Verdade ampla (e não ideológico), que é maior, mas que está na base da própria Verdade científica, estética e no compromisso com ela. Quinto porque é da essência da Filosofia o debate livre de ideias e a comunicação do conteúdo pensado, o que é imprescindível à qualquer sociedade humana não autoritária. Sexto porque para se orientar na vida é importante clarificar racionalmente as escolhas feitas e a fazer, condição para superar o auto-esquecimento e não reduzir a vida às trivialidades rotineiras.
Voltando às argumentações iniciais contra a Filosofia é necessário dizer que todo discurso contra a razão filosófica é ele próprio filosófico. E, geralmente, de baixa consistência porque tem por pressuposto que meditar sobre os limites da realidade e os valores é desnecessário ou porque não tem utilidade, ou porque o verdadeiro se resume aos fatos. Em resposta a tal raciocínio não só a importância evidente de desenvolver uma compreensão crítica da realidade, como a preciosa lição de Ortega y Gasset que dizia que não vivemos sem boas razões para tal.  E entre as boas razões é preciso mais que sobreviver. Por isso, mesmo sem utilidade imediata a Filosofia é imprescindível, concluiu o filósofo.
Quanto ao desmascaramento das ideologias poucas disciplinas são tão necessárias como a Filosofia, como mostrou Karl Jaspers ao final da Segunda Guerra e da derrota nazista. Defesa intransigente da Filosofia que foi conduzida, não por um militante de esquerda, mas, como o próprio Ortega, por um dos maiores pensadores liberais da Alemanha livre no século XX.


quinta-feira, 28 de abril de 2016

Os humanistas renascentistas. Selvino Antonio Malfatti.


                                     
   O campanário de Giotto - Florença


Por ocasião do falecimento do Professor Leonardo Prota, em março deste, todos os que se pronunciaram fizeram questão de frisar como grande contribuição sua foi despertar o interesse pelas humanidades no Brasil. Manifestamo-nos também descrevendo sobre a necessidade de fazermos um segundo renascimento, retomando a valorização do ser humano atualmente vilipendiado na educação, política e economia.
Por sua vez, o Professor Ricardo Vélez Rodriguez escreve um artigo sobre os 400 anos da morte do renascentista espanhol Cervantes destacando sua contribuição como humanista. Neste ano também se celebra os 400 anos de falecimento de William Shakespeare, outro renascentista de primeira grandeza. Estamos, portanto, no âmbito dos 400 anos do Renascimento.
Com efeito, desenvolveu-se na Europa nos séculos XIV, XV e XVI um movimento cultural global incrementando o desenvolvimento artístico, literário, filosófico e científico em prol da valorização homem como ser natural, pois até então se idealizava um homem anjo: virtuoso, puro, santo. Era um homem que vivia para morrer e só depois iria poder ser feliz.
O renascimento, ao contrário, deu destaque ao homem como ser imperfeito, corrompido e pecador, mas que podia aperfeiçoar-se e ser feliz ainda aqui na terra.
O renascimento marcou a passagem do homem medieval - sem conotação negativa - para o homem moderno - também sem conotação positiva. Foi somente uma transição, mas com mudanças profundas. Seria mais feliz o homem que confiava em Deus ou o homem que dependia de sua razão? O balanço nunca foi feito e talvez jamais será.
No intuito de relembrar este movimento global em prol do homem, apresentamos abaixo os principais representantes com suas obras e países de origem:
Principais representantes do Renascimento e suas obras:
 1. Itália
- Giotto di Bondone (1266-1337) - Obras principais: O Beijo de Judas, A Lamentação e Julgamento Final.
- Fra Angelico (1395 - 1455) - Obras principais: A coração da virgem, A Anunciação e Adoração dos Magos.
- Michelangelo Buonarroti (1475-1564)- Obras principais: Davi, Pietá, Moisés, pinturas da Capela Sistina (Juízo Final é a mais conhecida).
- Rafael Sanzio (1483-1520) - pintou várias madonas 
- Leonardo da Vinci (1452-1519)- pintor, escultor, cientista, engenheiro, físico, escritor. Obras principais: Mona Lisa, Última Ceia.
- Sandro Botticelli - (1445-1510)- Obras principais: O nascimento de Vênus e Primavera.
- Tintoretto - (1518-1594) -. Obras principais: Paraíso e Última Ceia.
- Veronese - (1528-1588) - Obras principais: A batalha de Lepanto e São Jerônimo no Deserto.
- Ticiano - (1488-1576) - Sua grande obra foi O imperador Carlos V em Muhlberg de 1548.
- Giogrio Vasari - (1511-1574) - Entre suas obras principais, podemos citar: Adoração dos magos e Perseu e Andrômeda.

 2. Holanda
- Erasmo de Roterdã. Humanista e fervoroso crítico social, sua principal obra foi Elogio da loucura. Já no campo das artes plásticas, podemos destacar o pintor holandês Jan Van Eyck, cuja obra principal e mais conhecida é O Casal Arnolfini.

 3. Espanha
- Espanha: O escritor Miguel de Cervantes, autor da obra Dom Quixote de la Mancha. Nas artes plásticas, destaca-se o pintor El Greco, autor de A Ascensão da Virgem, Adoração dos reis magos, El Expolio, entre outras.

 4. França
- O escritor e padre François Rabelais, autor da série de romances Gargântua e Pantagruel. O filósofo Montaigne, autor de Ensaios.

 5. Inglaterra
- William Shakespeare é autor de muitas obras famosas como, por exemplo, Romeu e Julieta, O Mercador de Veneza, O Rei Lear e Macbeth.

6. Portugal
- Luis Vaz de Camões, com a obra os Lusíadas.

7. Renascimento Científico.
 - Nicolau Copérnico. Defendeu a revolucionária ideia do heliocentrismo e. Copérnico também estudou os movimentos das estrelas.
- Galileu Galilei: Desenvolveu instrumentos ópticos, além de construir telescópios para aprimorar o estudo celeste. Este cientista também defendeu a ideia de que a Terra girava em torno do Sol. Galileu teve que desmentir suas ideias para fugir da fogueira.
 - Gutenberg.  A invenção da prensa em 1439, revolucionou o sistema de produção de livros no século XV.
(Fonte: História geral da arte - Renascimento e Barroco. Autor: Janson,H.V. http://www.suapesquisa.com/renascimento. Acessado em 28/04/2016)

Algumas frases ficaram famosas dos renascentistas:

1.    Dante – O aviso na porta do Inferno:” Deixai toda a esperança vós que aqui entrais”.
2.    Shakespeare – “Eis a questão: ser ou não ser
3.    Miguel Angelo para a escultura de Moisés: “fala!”
4.    Galileu , no experimento da rotação da terra: “no entanto, ela se move”.
5.    Camões, à heroína feminina, Inês de Castro: “Alma minha gentil que te partiste, tão cedo desta vida descontente...”

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O caso Marcela Temer. José Mauricio de Carvalho




Certo periódico colocou em evidência a jovem esposa do Vice-Presidente da República. Desde então as redes sociais não perdoaram a míope perspectiva da reportagem e as críticas se multiplicaram. E já saiu de tudo, de cachorrinha vestida de madame  a madame vestida de prostituta, de estudante na balada à celebração nos bares, todas as imagens e vídeos ostentando a maravilhosa epígrafe da reportagem: bela, recatada e do lar.
É evidente que as referências da reportagem à Marcela Temer são de extremo mau gosto, pois expõem aspectos da sua intimidade que ela, recatada, não gostaria e nem precisariam vir a público, mesmo sendo os personagens, ela e o Vice-Presidente Michel Temer, figuras públicas. Além do mais, ela pode escolher como deseja viver e espero que seja feliz com sua escolha.
Um dos aspectos mais fascinantes da existência humana é que vivê-la é a realização de um sentido, de um caminho existencial singular, que cada um escolhe na circunstância em que se encontra. Na principal obra da primeira fase de sua reflexão filosófica intitulada La Meditación del Quijote, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) considera a questão do sentido como identificadora da vida humana. Conforme se lê em Ortega, a vida como realidade metafísica, texto publicado na Revista Trans/form/ação, Marília, 38 (1), 167-186, jan./abr. 2015: "Daí a caracterização da vida como o grande problema a ser desvendado. (...) Viver é realizar um programa, um destino, desenvolver um projeto vital num mundo que se encontra aí. (...) Assim, a característica principal da ontologia raciovitalista é conceber a vida como tarefa de vencer a circunstância no quanto ela impede a realização do projeto vital. A ação guarda uma fidelidade ao núcleo interior do sujeito que o filósofo formula como obrigação ética (p. 171).
Ao expor a esposa do Vice-Presidente a uma situação que ela certamente não desejaria e apresentá-la como ideal de mulher, o periódico revelou não só miopia de perspectiva, mas a mais completa imbecilidade.
Infelizmente não há outra palavra para qualificar a reportagem. Primeiro porque esse modelo de mulher, nada contra ele, não é mais a realidade da maioria absoluta das mulheres de nosso século. Essa realidade de todo o mundo não é diferente no Brasil. Hoje em dia a mulher trabalha fora, estuda, faz mil atividades e muitas brasileiras, dizem as pesquisas do IBGE, são chefes de família. São mulheres que ganham a vida trabalhando, além de atender às tarefas domésticas. Segundo, porque revela desconhecer o processo histórico pelo qual passou a sociedade no século passado, quando a brutal crise de cultura, as dificuldades econômicas, o desemprego em massa, as Guerras Mundiais e a vida convertida em tragédia exigiram novas considerações sobre a vida humana que não só superou escolas filosóficas e crenças em vigor, como mudou completamente a vida das pessoas e o papel da mulher na sociedade. Terceiro porque o tipo de vida da jovem esposa do Vice-Presidente somente pode ser desfrutado por uma minoria ínfima de mulheres de uma classe social privilegiada.
Se se tratou de estratégia jornalística para vender revista na verdade expôs o despreparo profissional e a falta de inteligência desses representantes da direita que, desde que apontaram Paulo Renato de Souza como notável educador, não se cansam de demonstrar incompetência e burrice. Cada dia o periódico se supera na incapacidade de defender, com elegância e inteligência, as teses do conservadorismo que representa. A lamentar o fato: para um debate político qualificado é preciso expor com qualidade as teses e posições políticas, o que não é o caso da reportagem em questão.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

A História e seus movimentos. José Mauricio de Carvalho - IPTAN



Giambattista Vico - Corsi i ricorsi

Temos vivido tempos difíceis, a economia mundial caminha lentamente desde 2008 e o Brasil embarcou de vez na crise econômica. Tivemos ano passado uma retração de quase quatro por cento na Economia, o que é um desastre para um país pobre e com tantos problemas. Além disso, assistimos um novo processo de impedimento de Presidente da República, o segundo depois da Nova República do Doutor Tancredo Neves. E o motivo é o mesmo, o envolvimento de altos funcionários do governo com a corrupção. Portanto, tempos de crise política. E há também a contaminação, o SUS está moribundo e elas estão aí: dengue, zika, chikungunya e H1N1. Vive-se, para completar esse quadro uma espécie de esvaziamento da criatividade e morte do talento do qual é exemplo a indignação de Ariano Vilar Suassuna, nosso talentoso romancista e ensaísta, contra a banda Calypso. Indignou-se o velho escritor, morto recentemente em 2014, com uma reportagem que anunciava a banda Calypso como retrato da alma brasileira e se referia a Chimbinha como músico genial.  A palestra com a indignação do poeta Suassuna correu as redes sociais Brasil afora. A banda Calypso representa a alma do valoroso povo brasileiro? E ainda se perguntava o escritor, como trabalhador que foi da língua portuguesa, se usamos o adjetivo genial para qualificar Chimbinha como músico, como vamos nos referir a Ludwig Beethoven ou a Amadeus Mozart? Nem era preciso tanto podia ter perguntado por Tom Jobim e Heitor Villa Lobos. Já era suficiente.
Meio atordoado nesse tempo de dificuldades assisti recentemente um episódio que teria feito nosso paraibano, autor de Auto da Compadecida, o Romance da Pedra do Reino e O príncipe do sangue do vai e volta, viver outro momento de justa indignação. Chegava em Belo Horizonte mês passado quando uma emissora local, exibia uma propaganda de quase um minuto. Em meio a um enorme foguetório parecido com a queima de fogos da passagem do ano em Copacabana, um locutor dizia as seguintes frases intercaladas: Ele vem aí (...), Ele está chegando (...), Ele vai mexer com você (...), prepare-se pois Ele vai abalar Belo Horizonte (...), Ele vai fazer o chão tremer (...). E seguiam-se outras frases semelhantes. Durante aquele minuto em que o locutor continuava com suas frases enigmáticas fiquei imaginando do se tratava. Minha imaginação cogitou inclusive a volta do Senhor Jesus. Com a insistência do locutor convenci-me de que era o fim do mundo. Com tanta desgraça acontecendo Cristo, para não assustar ainda mais as pessoas, havia dado àquela emissora de televisão a tarefa de anunciar seu retorno. Tratava-se de uma atitude generosa do Senhor para não apavorar as pessoas e dar tempo para os últimos arrependimentos. Daí as frases: Ele vem aí, Ele está chegando, Ele vai mexer com você, etc. Era mesmo o Senhor, pensei. No final da propaganda diz o locutor: Wesley Safadão.
Entrei em choque. O que ele queria dizer: Wesley Safadão está chegando, ele vai abalar Belo Horizonte, ele vai mexer com os mineiros? Não pode ser. Volta Suassuna, você precisa permanecer vivo, é preciso ainda indagar: a minha querida capital não, se Wesley Safadão vai abalar a cidade como vamos noticiar a visita da Filarmônica de Berlim ou da Orquestra Sinfônica de Nova York?
Em tempos assim o coração pede que filósofos como Saint Simon e Ortega y Gasset tenham razão. Eles diziam que na história, aos momentos de crise seguem-se tempos de calmaria, quando as coisas se assentam. Fica-se em paz até que surja um novo Safadão cantando a Dama e o Vagabundo. Aí é a certeza de uma nova crise. Eu só penso e sonho um novo tempo de calmaria, que leve embora Safadão e essa crise.


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