sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

COMO SE FORMOU A CRENÇA DO PURGATÓRIO CONFORME JACQUES LE GOFF. Selvino Antonio Malfatti.
















No dia 12 de janeiro, com 90 anos, faleceu o historiador francês Jacques Le Goff. Foi um especialista em história da cultura medieval. Durante muitos anos perdurou a ideia de que a Idade Média foi uma noite de mil anos. O que aconteceu é que o progresso não foi propriamente material, mas espiritual. Não foi somente um período de “queima de bruxas”, excomunhões, anátemas, ignorância generalizada. Foi outro tipo de cultura, com outro ritmo e outros valores. Floresceu a arte, a pintura, escultura e arquitetura nas catedrais, igrejas e abadias, a música, a literatura, a filosofia. E houve também progresso material, como as universidades e hospitais que são testemunhas visíveis. Isso tudo Le Goff resgata nos seus estúdios históricos.
Talvez a maior contribuição de Le Goff tenha sido a particularidade de reconstituição da ideia de Purgatório no cristianismo medieval. Desde a crença num estado temporário até a transformação em “lugar” intermediário entre Céu e Inferno. 
Quando uma alma, ainda com resquícios de pecado, precisa livrar-se deles cairia no Purgatório. Esta alma não é tão pecadora que merecesse a condenação eterna, mas não tão pura que pudesse partilhar com os eleitos. Este estado de não ainda totalmente puro para alcançar o Céu, mas também não totalmente merecedor da exclusão total, o Inferno, transforma-se em realidade, o Purgatório, com o mesmo status das categorias de Céu e Inferno. Aquilo que era apenas um estado torna-se “lugar” intermédio. A descoberta do “lugar” para o estado conseguiu superar a contradição de que ajudava os mortos orar por eles. Se estivem no Céu não precisavam de oração ou ajuda e se estivessem no Inferno não lhes adiantava nada as súplicas. Não importa se Céu, Inferno e Purgatório existem ou não. O que importa é que foi criada uma explicação lógica para uma crença religiosa tradicional.
Conforme Le Goff, isto temporariamente aconteceu na Baixa Idade Média, em torno do século XII. E antes? Acompanhemos a pesquisa de como um estado de alma indefinido se transmuda em “lugar” temporário definido.
Conforme Le Goff, historicamente a ideia de Purgatório somente foi consagrada na Baixa Idade Média. Há, porém, resquícios desta representação na religião judaico-cristã, como é o caso de Shéol, que abriga alguns elementos importantes. Um deles é o estado de trevas que caracteriza o mundo dos mortos. Há ainda a montanha e o rio que separam um e outro. Há também referências de um “lugar” intermediário, como no livro de Esdras e no Apocalipse. Alguns pensadores medievais que se ocuparam com a ideia de purgatório: SANTA PERPÉTUA ( sec. III d.C), ABÉRCIO Sec. II e III) d.C), ATOS DE PAULO E TECLA (sec. II d.C.), CLEMENTE DE ALEXANDRIA  (sec. II d.C), TERTULIANO (sec. II d.C),  CIPRIANO DE CARTAGO (sec. III d.C.), ORÍGENES (sec. III d.C.), LACTÂNCIO (sec. IV d.C), BASÍLIO MAGNO (sec.IV d.C), CIRILO DE JERUSALÉM (sec. IV, d.C), JOÃO CRISÓSTOMO (sec. V d.C.) entre outros. Todos eles de uma forma ou de outrA, direta ou indiretamente, se ocuparam da questão do Purgatório.
Nos Santos padres – como Ambrósio, Jerônimo e Agostinho (sec. IV e V d.C) – as almas poderiam sofrer um provação antes do Juízo Final. No entanto, onde se localizaria esta provação era uma incógnita. É o que consta quando fala na eficácia da intervenção de santa Mônica que suplicava perante Deus pedindo a conversãoi do filho Agostinho. Acreditava, inclusive, que as preces poderiam comover a Deus, desde que o morto tivesse uma vida não pecaminosa. A ideia de Purgatório começou a ter foros oficiais com o papa Gregório, O Grande, em 593, mas somente foi proclamado como dogma em 1439, no Concílio de Florença. A ideia consagrou-se, conforme Le Goff, como um “lugar” de purificação após a morte, e, passado o tempo e o consequente pagamento da pena, a alma encontrará Deus.




sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Para viver melhor é preciso considerar os problemas.José Mauricio de Carvalho





Para viver melhor, além de resolver os inevitáveis desafios da sobrevivência e do conforto pelo estudo e trabalho sistemáticos e ainda pela qualidade e compromisso com que se enfrenta esses compromissos, há dois outros desafios fundamentais. Nenhum deles pode ser esgotado, mas podem ser continuamente apresentados, considerados e revistos.
O primeiro se dá em nossa intimidade, no enfrentamento da angústia existencial que nasce da incerteza de nossas escolhas, dos rumos que damos à nossa vida e do inevitável desfecho de nossa vida corporal e psíquica. Não toco na sobrevivência do espírito que é da fé de cada um. Porém nesse mundo enfrentamos a angústia de viver e responder desafios depois que se sai do ventre materno. Primeiro vem a angústia da vida social, de enfrentar o jardim de infância, a escola e suas exigências. Angústia que é ativada na adolescência quando os hormônios afloram a necessidade do sexo, mas também da aceitação e do amor, num momento em que o corpo muda e mergulhamos na insegurança de sermos aceitos. Angústia que se renova no fim da adolescência com a escolha da profissão com a qual vamos ganhar a sobrevivência, mas que também precisa ser fonte de alegria e realização. Angústia na escolha da companheira de uma vida, cuja presença de amor representa mais que a perpetuação dos genes, criação da prole e superação da rotina, mas identidade alma, de carinho, enfim de um companheirismo que está acima dos outros que também estabelecemos com os amigos e colegas de profissão. Angústia diante do envelhecimento e de suas limitações, da necessidade da comunicação precisa com a qual compartilhamos o mundo pessoal, nossas respostas ao encantamento da vida, de suas belezas, perplexidades, mas também de seus dramas e crises. Trata-se de uma aprendizagem dificílima e poucos de nós conseguem levar essa tarefa adiante comprometido com a excelência das escolhas e com a fidelidade íntima que leva a uma vida feliz.
O segundo dos desafios se dá no âmbito social, onde nossa existência é compartilhada com todos os homens, com o destino comum da humanidade, mas desafio vivido numa pátria pela qual se concretiza, em nosso tempo, essa humanidade comum. E para a nossa afirmação como sociedade nacional é preciso o enfrentamento dos desafios materiais e dos outros problemas sociais, econômicos, morais, jurídicos e políticos que podem ser resumidos por cultura. O enfrentamento desses problemas exige respostas a muitos desafios, mas todos começam pela imprescindível reflexão sobre nossa realidade, a origem e a compreensão de seus problemas, como acentuou recentemente Paulo Margutti em Desenvolvimento, Cultura, Ética: as ideias filosóficas de Mário Vieira de Mello, publicado em São Paulo, pela Loyola (184 p).
Apesar dos pontos frágeis da interpretação de Vieira de Mello sobre a realidade brasileira, que Margutti aprofunda e discute em seu livro, ele valoriza o esforço que Vieira de Mello fez para entender a realidade nacional ao qual se soma seu próprio esforço de interpretação. Se quisermos entender nossas dificuldades e começar a enfrentá-las de modo eficiente será preciso discutir essas questões, mesmo que seja para discordar é preciso debater. Não impor, mas esclarecer e clarear o caminho. O filósofo e diplomata Vieira de Mello analisou inúmeros problemas da Europa, Estados Unidos e do Brasil de forma independente, diz Margutti, "voltada para uma crítica desassombrada do mundo contemporâneo" (p. 178). Só fazendo assim vamos ampliando a consciência de nossos problemas e dos caminhos a trilhar. Ele passa, como disse Vieira de Mello, pelo enfrentamento dos problemas morais que costuram a cultura, pelo entendimento de nossos descaminhos e pela decisão pessoal e coletiva de mudar.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Os jardins de Castelo Branco em Portugal. Selvino Antonio Malfatti.





Meu orientador de pesquisa de pós-doutorado, Professor José Esteves Pereira, chamou-me a atenção do belíssimo jardim de Castelo Branco de Portugal. Daí que tive a inspiração de trazer ao público este aspecto de Portugal que, certamente, faz parte do acervo cultural luso-brasileiro.

PORTUGAL NÃO POSSUI UM LOOK DE JARDINS MUNDIALMENTE RECONHECIDOs COMO OS JARDINS DE VERSAILLES NA FRANÇA OU SCHÖNBRUNN NA ALEMANHA, MAS TEM TAMBÉM SEUS JARDINS QUE ENCANTAM. TRATA-SE DE CASTELO BRANCO, ABAIXO DESCRITO.
"O DESLUMBRANTE JARDIM DE CASTELO BRANCO QUE A MAIORIA DOS PORTUGUESES DESCONHECE.
De influência barroca, com cinco lagos e imponentes estátuas, é um espaço único pela originalidade e elegância que deve integrar o seu roteiro na sua próxima visita à cidade
Foi um bispo da Guarda, D. João de Mendonça (1711-1736), que encomendou e provavelmente orientou as obras do Jardim do Paço Episcopal de Castelo Branco. Mais tarde, já no fim do século XVIII, o segundo bispo da diocese da cidade, D. Vicente Ferrer da Rocha, fez ali obras de algum relevo. Em 1911, o jardim passa para as mãos da câmara municipal local por arrendamento e, em 1919, é adquirido pela autarquia a título definitivo. Este jardim barroco, em forma retangular, que muitos portugueses ainda não conhecem, é dominado por balcões e varandas com guardas de ferro e balaústres de cantaria.
Apresenta cinco lagos, com bordos trabalhados, nos quais estão instalados jogos de água. No patamar intermédio da Escadaria dos Reis, existem repuxos e jogos de água surpreendentes. Por entre os canteiros de buxo erguem-se simbólicas estátuas de granito, em que se destacam «Novíssimos do Homem», «Quatro Virtudes Cardeais», «Três Virtudes Teologais», «Signos do Zodíaco», «Partes do Mundo», «Quatro Estações do Ano», «Fogo» e «Caça».
Dispostos à maneira de escadório, encontram-se representados os apóstolos e os reis de Portugal até D. José I. No patim superior, encontram-se estátuas alusivas ao Antigo Testamento e à simbologia da água como elemento purificador. O Jardim Alagado, tanque floreado de curvas bem delineadas e canteiros de flores, tem ao centro um repuxo de cantaria por três golfinhos entrelaçados e encimados por uma coroa. Veja a galeria de imagens deste jardim.
A intervenção de restauro que foi feita
O interesse e curiosidade da iconografia do conjunto escultórico resulta do facto de haver uma aliança singular entre o universo religioso e universo panteísta. Este jardim beneficiou de uma profunda e complexa intervenção de restauro e conservação, no âmbito do Programa Polis, a nível de tratamento de vegetação, reintrodução de espécies vegetais originais, recuperação dos sistemas de águas, iluminação cénica e drenagem.
A intervenção contemplou também na limpeza da cantaria e recolocação de estátuas nos locais originais, recuperação dos muros e do tanque principal, sob a cascata de Moisés. Durante a intervenção foi descoberto o sistema hidráulico perfeitamente intacto, construído em 1725. Nessa altura, procedeu-se à sua conservação e restauro.
Os muros de azulejos que pode admirar
Os muros delimitadores do Jardim do Paço Episcopal de Castelo Branco apresentam painéis de azulejo figurativo, monocromo, azul sobre fundo branco, representando várias vistas de Castelo Branco, da antiga quinta e do bosque e da Capela de São João com o respetivo cruzeiro. Aparecem, ainda, painéis de azulejo retilíneos, com os ângulos curvos, emoldurados a cantaria e a faixa cerâmica, a representar os desenhos de Castelo Branco, efetuados por Duarte de Armas, no século XVI, bem como a representação do bispo D. João de Mendonça".
artigo do parceiro:

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Sobre a honestidade e a política.José Mauricio de Carvalho



Nada fez tanto sucesso nas redes sociais que a afirmação de nosso ex-presidente de que não há no Brasil ninguém mais honesto do que ele. Sucesso considerando-se a quantidade de comentários e partilhamentos. Foi o fato que mais circulou na Internet e nas mídias. De engraçado a imagem do ex-presidente com as vestes papais em aura de santidade. Não entendi se tantos compartilhamentos foi porque muita gente teve consciência de que era tão honesta como Lula, tão desonesta como ele ou nenhuma das alternativas anteriores. Enfim, como não tenho condição de auferir a verdade da afirmação (não estou na consciência do ex-presidente), vou deixar à justiça a tarefa de verificar a afirmação. Aproveito, contudo, a oportunidade para tratar da honestidade.
Quando se pensa em honestidade não há como não se lembrar do ensaio  intitulado Sobre a Discordância entre a Moral e a Política, a propósito da paz perpétua, escrito pelo filósofo alemão Immanuel Kant. Depois de explicar que política e moral são duas ordens distintas e que, portanto, a prática mostra a distância entre elas, Kant defende a honestidade como valor fundamental da sociedade, afirmando que ela não é incompatível com a prática política. Kant disse: "Quando estas duas coisas não podem coexistir em um mesmo mandamento, há realmente um conflito entre a Política e a Moral, mas se ambas devem ser inteiramente unidas, o conceito do contrário é absurdo e a questão de saber como resolver aquele conflito não se apresenta mais como problema. Embora a proposição: a honestidade é a melhor política, contenha uma teoria que infelizmente, a prática com muita frequência contradiz, a proposição igualmente teórica: a honestidade é melhor do que qualquer política, está infinitamente acima de toda objeção, sendo mesmo condição indispensável da política" (Textos seletos, Petrópolis, 1985, p. 130).
O texto de Kant veio a calhar toca em dois pontos importantes. Primeiro, na vida política o comportamento moral é difícil, segundo, embora difícil a consciência honesta pode presidir qualquer ação social, inclusive na política. Portanto, é bem possível a um político ser verdadeiramente honesto e então descobrimos um Lula kantiano, não porque ele faz o que diz, mas porque afirma, como bom kantiano, que não há incompatibilidade entre a vida política e a honestidade. Ao confirmar a afirmação kantiana, Lula coloca nossa classe política numa situação complicada, pois não é um filósofo que diz que é possível ser honesto e político, é um político contemporâneo. Assim, os políticos pegos na mentira, além de responderem criminalmente pelo mal feito, cometem imoralidade. Devem se punir diante da própria consciência, o que exigiria, no mínimo, arrependimento, um pedido público de perdão e reparação do mal, para que pudessem pagar na cadeia por seus crimes, mas com a consciência redimida.
Além disso, a fala de Lula é importantíssima porque anuncia a necessidade da moral, ou do seu acirramento, num tempo em que os valores e a religião encontram-se em baixa. De fato, é preciso retomar a discussão sobre os costumes e seus fundamentos para assegurar que a sociedade possa bem viver. Sem moral não se pode esperar bom funcionamento do corpo social, pois é a constrição da consciência de cada um que o obriga a agir corretamente: o motorista a levar responsavelmente seus passageiros, o médico a operar com excelência, o eletricista a bem ligar a eletricidade e assim sucessivamente. A retomada da moral como um importante agente do tecido social é talvez o que de mais importante ficou do episódio do ex-presidente.


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

DIFERENÇAS ENTRE O FÓRUM ECONÔMICO INTERNACIONAL MUNDIAL E FÓRUM SOCAIL MUNDIAL. Selvino Antonio Malfatti.












Quase simultaneamente realizam-se os dois fóruns: o Econômico o Internacional Mundial - WEF e o Fórum Social Mundial - FSM. O primeiro começa no dia 20, em Davos na Suíça e o segundo no dia 19, em Porto Alegre Brasil. Apesar de as datas serem praticamente coincidentes seus conteúdos e métodos são diametralmente opostos devido a ideologias opostas.



Em um e outro os participantes também diferem, pois cada um leva em sua bagagem a ideologia própria de seu país, melhor dito, de seu governo, pois nem sempre a ideologia do país coincide com o governo.
Nossa pretensão é apontar algumas diferenças, entre ambos não no sentido de desmerecê-lo ou aprová-lo, mas submetê-lo ao crivo da crítica. (
Crítica no sentido originário grego: crinein= distinguir). Eis algumas confrontações:
1.    Renovações científico-tecnológicas
As novas descobertas científicas e tecnológicas devem estar a serviço do bem estar das populações, não só beneficiando a todos e não excluindo ou explorando outros, como são acusados os seguidores do sistema capitalista. Os partidários do Fórum Social querem a socialização plena da ciência e tecnologia.
2.    As migrações
Como enfrentar os novos habitantes, migrantes de países em conflitos internos? O que fazer para acolhê-los? São um milhão de refugiados. O Fórum Social quer a liberação total das migrações, enquanto os do Fórum econômico quer uma migração racional, isto é, medir a capacidade concreta de cada país para absorver as ondas migratórias.
3.    Segurança
O terrorismo é uma realidade que atinge a todos. Como conseguir a segurança respeitando os direitos humanos? A divisão política e religiosa que grassa no oriente se expande pela Europa e América, divisão entre sunitas e xiitas, Arábia Saudita e Israel. O terrorismo já alcançou uma escala mundial. Os do Fórum Social pensam que o terrorismo é uma consequência das injustiças praticadas pelo sistema econômico capitalista, enquanto os do Fórum Econômico atribuem à incapacidade de assimilar a ideia de tolerância religiosa, de raça, etnias e classes.
4.    Crise nos países emergentes
Como estimular o crescimento destes países? Quais ações afirmativas – incentivos econômicos - e ações dissuasivas – combate à corrupção? Os do Fórum Social acham que os países emergentes ou de terceiro mundo devam criar uma economia alternativa, não capitalista, mas social. Os do Fórum Econômico apostam na assimilação destas economias.

5.    Desníveis entre ricos e pobres
Como mudar o quadro de 1% da população ser detentora de 99% dos bens? O(s do fórum social querem a distribuição e os do fórum econômico a participação.
6.    Sistema econômico-financeiro global
Como blindar o sistema econômico e financeiro mundial das crises econômicas locais ou regionais? Como criar uma estabilidade em momentos de instabilidade? Justamente nisso que diferem os dois fóruns. O sistema econômico mundial entende que a interdependência é benéfica a todos, enquanto o fórum social mundial acha que cada país, região ou local deve ter uma economia adaptada às necessidades e potencialidades locais. Os primeiros são partidários da globalização e os segundos da regionalização.

7.    Meio ambiente
É possível crescer, produzir, desenvolver respeitando a natureza? É isto que pensa o Fórum Econômico Mundial. O Fórum Social acha que se deve pôr um basta na exploração econômica do planeta. Irá pronunciar-se nada mais e nada menos que o ativista Leonardo di Caprio.
8.    Trabalho
Uma das grandes ameaças ao trabalho humano, aliás sempre foi, é a tecnologia,  como as máquinas e agora a robótica. O Fórum Econômico entende que pode conviver pacificamente tecnologia e trabalho. O Fórum Social quer a máquina longe do trabalho, pois este é de exclusiva competência do homem.
9.    Petróleo
Um dos temas é a queda vertiginosa do preço deste produto natural. Em 2014 valia US$ 100 o barril, 2015 valia 57 US$ o barril e atualmente US$ 30 o barril. O Fórum social quer que sejam socializados os lucros da exploração deste produto natural. O que é da terra é de todos, dizem seus partidários.
10. Saúde mundial
Apesar de todo o avanço mundial na saúde as populações marginais não são beneficiadas. Como conseguir? O Fórum social aposta na estatização da saúde, enquanto o econômico não se opõe que haja saúde estatizada, mas quer garantir também um espeço para a iniciativa privada.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O novo caso de amor patrimonialista da política nacional com o grande empresário. José Mauricio de Carvalho


Correu no Brasil dos smartfones e celulares o vídeo de um empresário dono de uma das empresas denunciadas na Lava Jato. Ele foi hostilizado num resort. Não importa a empresa, nem o local, nem o empresário, o emblemático é o fato. Ele reflete a indignação dos que trabalham honestamente (ou invejam os esquemas fraudulentos de enriquecimento ilícito), mas expressa, nos dois casos, a desconfiança das instituições. Nenhum cidadão tem que hostilizar outro no espaço social. Cabe à justiça julgar e punir, na forma da lei, quem errou. E assegurar a aplicação da punição. Se algo deve fazer o cidadão honesto é acompanhar e cobrar o funcionamento da justiça. O que a operação lava jato mostra é que faz tempo que a política perdeu seu sentido verdadeiro e descobrimos, em nosso país, um novo caso de amor entre o políticos e o grande empresariado.
Sabe-se que a base da moral é a consciência individual, moral é uma interdição da consciência para fazer o mal. É sempre possível agir moralmente, mesmo em ambientes ruins. Contudo, ambientes ruins alimentam a imoralidade e permitem que pessoas de moral frouxa encontrem mais espaço para agir. E um exemplo de ambiente assim é o que se instalou em nosso país: quase quarenta partidos (sem qualquer razão real para existir ou ideologia além de sobreviver e beneficiar os seus). O espectro ideológico poderia ser coberto por três ou quatro partidos. As maiores democracias do mundo não fogem a isso. Essa realidade se agrava com custos crescentes da campanha eleitoral e o uso dos meios de comunicação de massa. Essas mídias privilegiam a performance publicitária mais que as propostas e seu detalhamento. Some-se a isso uma população pouco escolarizada, com reduzido espírito crítico e pequena capacidade de entender os problemas. Acrescente uma elite egoísta, desejosa de prazer imediato e despreocupada com as consequências do que faz. Se no dia a dia o esforço pessoal é o que conta, há certos problemas no espaço social que se não forem resolvidos dificultam a vida de todos, dito de outro modo, não é possível se salvar sozinho de um barco afundando e do qual não há como sair. E assim enquanto alguns acham que se salvam em festas privadas e condomínios fechados, a miséria e a ignorância permanecem e crescem geração após geração.
O que a lava jato mostrou é o casamento, com juras de amor eterno: entre políticos de carreira com o grande empresariado. As exceções existem e confirmam a regra. O político discursa sobre o destino do povo, mas apenas quer se manter no poder e o empresariado faz o discurso capitalista da livre concorrência, mas não arrisca e ganha o grosso do seu dinheiro fazendo negociatas com o Estado. Obtém recursos subsidiados e paga propina para garantir grandes obras, em resumo, fraudam os mecanismos de controle do Estado e patrocinam os esquemas de poder de políticos corruptos e seus comandados nas empresas públicas. Casamento abençoado pela grande mídia que ganha fortuna com o jogo político e a propaganda partidária e dos governos. Tudo isso num sistema mundial que alimenta o consumo, o gozo irresponsável e o divertimento das massas. Trata-se, enfim, de uma acomodação do patrimonialismo tradicional à nova circunstância do mundo globalizado.
O que se vê é que políticos e alguns grandes empresários reconstruíram as bases do patrimonialismo tradicional, num mundo chamado de pós-moderno, em que as circunstâncias são diferentes do capitalismo mercantil ou industrial. Refizeram o discurso capitalista naquilo que convém a cada um. A corrupção existe em todo o mundo, basta lembrar do que se passou na FIFA e recentemente e os casos de corrupção denunciados na Turquia, na China, na Ucrânia, etc., mas ela não fragiliza Estados fortes, nem os desvia de sua rota de longo prazo, porém fragiliza os países emergentes, neles perpetua a miséria, pune os que trabalham honestamente e piora a vida dos mais pobres.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

SOCIEDADE LIQUIDA. Selvino Antonio Malfatti.




O pensador polonês Zygmunt Bauman é o autor da teoria da sociedade liquida. 
Nasceu em 1925, em Poznán. Na II Guerra Mundial combateu no exército russo. Pertenceu ao partido comunista polaco, mas desfilhou-se devido às experiências fracassadas no leste europeu.
Graduado em sociologia pela URSS chegou ao cargo de professor universitário. Inicia sua carreira acadêmica na universidade de Varsóvia, mas é afastado devido aos seus escritos, censurados pelo Partido Comunista. Sai da Polônia devido às perseguições antissemitas e radica-se na Grã-Bretanha, como professor titular da Universidade de Leeds. Durante sua carreira conquista vários títulos acadêmicos. Atualmente está com 90 anos e participou de um debate em Burgos numa promoção do Foro da Cultura em cujo evento, em novembro, dá uma entrevista. Várias questões lhe foram postas. Destacaria algumas:
1.      A democracia diante do modelo político democrático. É preciso haver um casamento entre poder e política. O primeiro é a capacidade de atuar e o segundo selecionar o que é mais urgente ou necessário. Na cidade-estado de Atenas origina-se a democracia que combina perfeitamente poder e política. Aí, um grupo é considerado cidadãos iguais, a democracia, os eupátridas. Funcionou principalmente por que havia identidade de interesses do grupo local com as medidas políticas a serem adotadas pelo estado.
Na idade moderna, o modelo grego recebeu a forma de democracia liberal cujo modelo foi praticado na Inglaterra. Politicamente tinha como critério o censitário, isto é, os mesmos interesses econômicos e políticos de grupos locais. Com isso, tanto o local como o estado combinavam, pois o estado atendia os interesses locais.
No período contemporâneo, de nação-estado, surge a universalidade da participação política criando uma dicotomia entre os interesses localizados e as políticas globais. Neste modelo, a democracia entrou em crise, pois o poder é universal e a política tem demanda local. Não há mais interdependência entre o poder e a política. O todo não tem o querer local e o local não tem poder global. Concretamente pode ser amenizado através do voto distrital que contempla algumas demandas sociais locais e globais.

2.      A dicotomia entre liberdade e segurança.
Um dos temas que Bauman  atribui maior importância  é o dilema entre liberdade e segurança. Pensa o autor que são dois valores dificílimos de conciliar. Se quisermos segurança deves renunciar certas liberdades e o inverso, se preferirmos liberdade, ficamos expostos à insegurança. A crença na liberdade absoluta levou a sociedade à orgia de consumo. Tudo estava ao alcance de todos mediante o crédito. Este pode satisfazer a todos os desejos e o próprio sistema econômico dissemina esta ideia. Mas, quando acaba o crédito, como acontece atualmente, cai-se numa dura realidade. A classe média, então, foi a mais atingida, pois passou a viver em situação de precariedade. Tudo era incerto, provisório: o emprego, a empresa, os bens que se possui. O conflito de classe foi substituído pelo de sociedade. A barreira não é mais a classe, mas a sociedade. E a falta se segurança acabou atingindo a liberdade. Neste momento o homem perdeu a liberdade e a segurança.
Outro tema caro de Bauman é o ativismo das redes sociais. Acha que aquilo que é chamado de identidade própria, como as comunidades das redes, é algo puramente imaginário por que comunidade se tem ou não. O que se pode fazer é criar artificialmente um substituto da comunidade. Nesta cada uma lhe pertence, nas redes a comunidade lhe pertence. Todos podem acrescentar amigos, eliminá-los, podem controlar sua comunidade. Mas na vida real não é assim, Há necessidade de interagir com outras pessoas, há que se dialogar e aí volta o conflito que parecia eliminado nas redes sociais. As redes sociais podem fazer bem, mas são apenas engodos, cedo ou tarde, mostram sua artificialidade.
O pano de fundo do pensamento de Bauman e sua matriz condutora é o conceito de sociedade liquida em oposição à sociedade sólida. Parte da constatação do fim das ideologias (comunismo, socialismo e capitalismo). Agora não há mais por que lutar, sonhar, refletir, planejar. Em vez de o homem conduzir a história é o mercado que a conduz. Este dita regras, estabelece comportamentos, derruba valores existentes. A vida passa a ser desordenada, não há mais uma previsão de comportamentos. Cada um se move conforme os apelos momentâneos do mercado.
Fonte: Estado de crisis. Zygmunt Bauman y Carlo Bordoni. Traducción de Albino Santos Mosquera. Paidós. Barcelona, 2016.







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