sexta-feira, 5 de setembro de 2014

DILMA, MARINA OU AÉCIO. Selvino Antonio Malfatti



O dia da eleição se aproxima. Ao que parece todo mundo está de olhos nos candidatos à presidência, esquecendo-se que, num modelo de Democracia Consensual tão importante, senão mais, são as eleições parlamentares, tanto para as assembléias estaduais como para o parlamento nacional. Por quê? Pelo simples fato de que o executivo para governar precisa da maioria do legislativo.
Existem diversas formas fórmulas para se obter maioria no parlamento. A mais comum e a mais empregada é estabelecer alianças com partidos ideologicamente afins. Um partido de centro, por exemplo, busca seu parceiro mais próximo ou à direita ou à esquerda. Nunca na extrema esquerda ou extrema direita. Mas há alguns anos no Brasil se lançou mão de outro critério, qual seja, o fisiológico, isto é, o mercado do voto, ou simplesmente a compra e venda do voto dos parlamentares.
Com este critério pouco importa a ideologia do partido, mas o preço do voto. E é por isso que se dá pouca importância às eleições parlamentares. Diz-se:
            - Com quem contaremos, veremos depois das eleições.
Esta prática envenenou todo o sistema: parlamentares, empresários, intelectuais, profissionais liberais, juristas. O parlamentar cobra um valor por seu voto, o empresário quer “vencer” as licitações, os intelectuais reivindicam cargos públicos, os profissionais liberais aumento nas tabelas de preços, os juristas, assentos nos tribunais. E o pior é que não se vislumbra perspectivas de reversão deste quadro. Não há arrependimento de ninguém, nem mesmo daqueles condenados e trancafiados atrás das grades. Juram vingança.
Uma Democracia Consensual acontece onde nenhum partido consegue fazer 50 dos votos mais um.  Por isso exige uma partilha de poder. Isto é normal. Acontece em países desenvolvidos, como França, Itália, Alemanha e outros, da mesma forma que o modelo de maioria acontece nos Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e outros.  No modelo consensual, como é o caso brasileiro, há separação de poderes. Nenhum poder pode destituir o outro a não ser em casos excepcionais, previstos nas Constituição.
Nestas democracias há um rígido bicameralismo: o senado representa as minorias e os deputados as maiorias. O número de senadores por estado é uniforme, mas de deputados varia de estado para estado. O multipartidarismo, característica dessas democracias, pode ser um fator de estabilidade, mas de instabilidade. Quando o partido representa de fato anseios de comunidades, legitima o sistema. Mas quando o partido representa o interesse do candidato, trabalha contra o sistema. Além disso, os partidos devem ser multidimensionais, isto é, não só abranger um determinado setor, como UMA religião, por exemplo, mas representar pessoas dos setores diversos como industriais, serviços, comércio e religiões.

Por isso, não basta os candidatos vencerem as eleições nas urnas, é preciso que saibam costurar uma maioria no Parlamento.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Política e Tolerância. José Maurício de Carvalho.

















A tolerância entendida como necessidade de conviver com a diferença parece  tão antiga e natural quanto a experiência social do homem.  É que o homem é singular na sua herança genética e único no modo de compreender o mundo. Contudo, a história da humanidade foi quase sempre povoada de opressão e intolerância, recheada de imposição pela força de uma crença ou modo de vida. Lamentável faceta da animalidade humana.
A noção de tolerância só se firma quando a vida comunitária adquire amadurecimento e compreensão ética no respeito ao diferente. Neste sentido, merece registro o entendimento de Guilherme de Ockam, ainda no século XIV, de que Deus podia acolher entre seus escolhidos alguém que vive na razão. Dizer isto não era simples num tempo em que se acreditava que o caminho até Deus podia ser interditado pelos homens e que era legítimo torturar e matar quem partilhasse outra fé. Assim, a noção de tolerância entra na história em momento determinado e se torna importante nas disputas religiosas da cristandade dividida do início da modernidade.
O termo ganhou força depois da formação do Estado Moderno, pois pela primeira vez depois de séculos tinha-se a experiência de um poder forte e centralizado dirigindo grande comunidade. Enfrentar a intolerância tornou-se urgente com a divisão da cristandade e multiplicação de igrejas cristãs. É, neste contexto, que as Cartas sobre a Tolerância (1689), de John Locke, adquirem significado, pois reconhecendo ser o Estado um instituto para conservar e promover os bens civis, cabia-lhe assegurar o convívio pacífico dos cidadãos, desde que suas ações não contrariassem as finalidades pelas quais Ele existe, a saber: defender a vida, a liberdade e a propriedade das pessoas.
Locke, contudo, admitia um limite, pois para estar entre os protegidos pelo instituto da tolerância os cidadãos deviam professar algumas dentre as crenças cristãs disponíveis. Os infiéis não podiam beneficiar-se da tolerância. Era o pavor da brutalidade sem os limites do homem que não temia Deus.  Foram as novas experiências sociais da Europa laica que estimularam o debate público e trouxeram ao espaço coletivo estudos e reflexões como o Tratado sobre a tolerância (1763), de Voltaire. Desde então o assunto ganhou importância crescente entre as diferentes sociedades civis regulamentadas pelo Estado moderno, pois neles, conclui-se, o destino dos homens encontra-se nas próprias mãos. Política é o exercício deste destino.
Os episódios da semana que terminaram com depredação e violência em Porto Alegre, lamentáveis incidentes de rebeldia ilegal que se repetem pelo país, mostra como, com o exercício da violência, estamos longe de entender o significado da tolerância como estratégia moderna de convivência no espaço público. O problema se agrava com a divulgação crescente de teorias radicais que proclamam legítimo um dito poder popular, nome usado para impor à força o que parece legítimo a um grupo radical.

A violência e a intolerância é não apenas um meio de fugir do estado de direito e das leis existentes nas sociedades modernas, mas o caminho seguro de destruição da paz social. É legítima a participação na vida política e no destino da sociedade, mas isto não valida a brutalidade e a violência contra as leis do país e princípios de conduta racionalmente reconhecidos. O debate público do uso ilegítimo da força e o entendimento do significado da tolerância no espaço político são temas para reflexão em nossa sociedade nos dias que correm. Esperemos que ela inspire outras atitudes.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O BRASIL E OS MODELOS DE DEMOCRACIAS. Selvino Antonio Malfatti
















A propaganda eleitoral está nas ruas; competitiva, agressiva, absorvente, algumas vezes feroz. Qualquer espaço físico ou cultural vai sendo invadido. Nada fica fora, desde ambientes religiosos até os econômicos. Isto é a democracia. Mas afinal, o que é a democracia? Por definição:
1.Governo do povo - concretamente se faz pelos representantes. O povo institui o governo, no entanto, o exercício é dos representantes.
2. Governo pelo povo - o povo deve concordar, isto é, legitimar.
3. Governo para o povo - em seu próprio benefício.
Desde a publicação do livro de Arend Lijphart, As Democracias Contemporâneas, já se passou mais de meio século. De lá até hoje, várias outras democracias surgiram neste planeta, latino-americanas, asiáticas e africanas. O aumento pode ser considerado fantástico se comparado com o que existia logo após a Segunda Grande Guerra: basicamente trinta e seis. O que, porém, permaneceram foram os modelos intuídos por Lijphart: democracia majoritária e democracia consensual e os pressupostos da democracia,
Quanto aos pressupostos diz?
a) Liberdade para constituir e integrar-se em organizações.
b) Liberdade de expressão.
c) Direito de Voto.
d) Competição entre os líderes políticos.
e) Fontes alternativas de informação.
f) Eleições livres e isentas.
g) Existência de instituições capazes de viabilizar o governo do partido vencedor da eleição.
h) Políticos e cidadãos dispostos a respeitarem as regras do Jogo, respeitando a ética.
Ao que parece, o Brasil preenche todos os quesitos, com exceção da ética da parte dos alguns políticos. Mesmo assim pode se incluído entre os países democráticos
Em relação aos modelos, majoritário e consensual:
2. Diferenças gerais entre os modelos de democracia
- No modelo majoritário, o poder executivo se concentra no governo com a maioria parlamentar reduzida (um partido vence, fazendo 50%+1) ,enquanto na consensual, sendo necessário a coligação , repartem o poder entre si entre os vários partidos.
- No modelo majoritário prevalece o executivo, no modelo consensual há um equilíbrio entre executivo e legislativo.
- No modelo majoritário o poder legislativo se concentra numa câmara e no consensual se distribui entre duas.
-O Majoritário tem sistema bipartidário (formal ou informal) e o consensual multipartidário.
- No sistema majoritário, geralmente o sistema eleitoral é distrital, e no consensual é proporcional.
- O majoritário tem um dissenso somente no econômico no consensual o dissenso atinge outras realidades como religião, língua, etnia...

Por estas características o Brasil é um país democrático e se enquadra no Modelo Consensual.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Brasil e o ocidente. José Maurício de Carvalho.





Há muitas formas de entender o Brasil e de explicar suas virtudes e dificuldades. Minha geração cresceu ouvindo explicações sobre os problemas do país e a maioria delas hoje soa  destituída de sentido. Esses comentários reaparecem vez por outra causando confusão e bastante mal. Eles nunca me  convenceram, mas apenas hoje, um pouco mais maduro, um pouco mais estudado, um pouco mais crítico e um pouco mais preocupado com o destino da pátria consigo entender melhor a razão. E por que é importante desmascarar essas explicações? Por que elas colaboram para popularizar uma imagem distorcida do que somos e nos afasta, pela inconsciência, de um futuro melhor.
A primeira delas é: o Brasil é um país jovem. E o que se quer dizer com isso? Que a juventude histórica explica nosso atraso econômico e cultural. Como estado nacional, o Brasil nasce em 1822, mas seu espírito não é jovem. Foi colônia por três séculos, mas desde o final do século XVIII começou a ser preparado para ser o centro do Império lusitano. O Brasil é realização do projeto nacional da geração pombalina e tem os méritos e limites desse projeto. Boa parte das nações da Europa só se consolidaram na modernidade e alguns países como a Itália e a Alemanha só se unificaram como Estado nacional em 1870, bem depois de nós. O afastamento político de Portugal depois da independência não nos fez, no íntimo, diferentes do projeto português que nos concebeu. Encontra-se nele as razões de nossas virtudes e dificuldades, lamentável que o conheçamos pouco.
Outra afirmação ingênua é: O Brasil recebeu do criador  natureza generosa. E o que isso significa? Que estamos protegidos das catástrofes naturais que assolam outras partes do mundo e aqui a vida é fácil. Houve uma época na Europa que se julgava ser a América o país da Cocanha. Grande ilusão, o Brasil tem problemas com sua natureza como outros povos. Implantar nessa região do globo uma grande nação é um empreendimento hercúleo. Estamos numa região de muito calor durante quase o ano todo, temos solo pobre na maioria do território, tempestades tropicais, uma enorme região semi-árida e outra com parte significativa da maior floresta equatorial do mundo. Esses ambientes são de difícil adaptação e demandam tecnologia própria para conviver num local tão diverso da velha Europa. Apenas o sul tem clima e território parecido com a Europa, berço do ocidente.
Segue-se esse outro primor de incorreção: o brasileiro tem preconceito racial. Se há algo que não temos é isso, pelo menos se entendermos por preconceito o modo como outros povos enxergam estrangeiros e/ou tratam outras nacionalidades. Há preconceito contra o pobre, infelizmente. E a razão é a péssima distribuição da riqueza, última herança da velha nobreza lusitana. Aquela mesma aristocracia improdutiva que vivia dos favores reais, quase sempre cultivando aparências, julgando-se melhor que o cidadão comum, distraindo-se no ócio e na caça, tentando aparentar mais do que verdadeiramente possuía e podia. Pombal fez o que pode para acabar com essa nobreza improdutiva, mas não conseguiu.
Essa outra é ótima: somos pobres porque fomos explorados por Portugal. Essa é a joia rara do marxismo tupiniquim e do chamado terceiro mundismo. Pombal na hora do aperto disse algo parecido ao rei D. José I para explicar a decadência portuguesa: somos pobres porque a Inglaterra nos explora. Safou-se, mas deixou um mau exemplo culpar os outros por nossa incompetência. Na verdade, se tivéssemos que pagar o custo da implantação da nova nação: casario, estradas, pontes, palácios, bibliotecas, igrejas, instalações militares, creio que ainda deveríamos a Portugal, mesmo descontados os impostos pagos e o ouro embarcado. O que nos faz pobres é a dificuldade de viver o espírito do capitalismo ou do mercado como se diz hoje em dia. E isso decorre principalmente de nossa matriz católica (como a espanhola e italiana). Max Weber e sua geração compreenderam que a cristandade ocidental encontrava-se dividida entre dois projetos distintos: um católico e outro protestante. O segundo favoreceu o desenvolvimento do capitalismo, o primeiro não. Só há uma forma de enriquecer como povo: trabalhar muito e com qualidade, poupar e investir no que gera riqueza.

O Brasil é um país ocidental, sua raiz íntima não se afasta dos valores centrais do ocidente: a pessoa, a democracia liberal, o estado de direito e a liberdade. Nossa cultura está estruturada sobre os três pilares do ocidente: a cristandade, a forma jurídica romana e o cultivo do pensamento lógico que é a base da ciência e da filosofia. Nossas dificuldades econômicas, a má gestão da coisa pública, a corrupção e a falta de uma moralidade que não esteja amarrada no direito ou na religião, nossos problemas sociais, a má distribuição da riqueza e a intransigência de impor à força interesses particulares de pequenos grupos (sindicatos radicais e vândalos de plantão), enfim, nossos problemas, nossa timidez e falta de espírito crítico são mazelas de nossa formação cultural.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

TROCAR PARTIDO NO PODER É PRECISO. Selvino Antonio Malfatti






Em sociedades democráticas, a alternância de partidos no poder é tão necessária como revezamento de culturas nos solo. Com efeito, o agricultor sabe por experiência que não pode por muito tempo continuar plantando a mesma espécie no mesmo solo. A partir da segunda colheita a terra enfraquece e a produtividade vai caindo sempre mais. Da mesma forma acontece com partidos políticos ou grupos de poder. Eles se desgastam e deixam de cumprir com seu propósito.

Com efeito, quando assumem o poder o fazem com entusiasmo, com ideal, dando o melhor de si. Mas, à medida que o tempo passa, o entusiasmo esmorece e é substituído pela rotina, o ideal dá lugar aos interesses privados e o melhor de si que antes era dedicado público passa a ser mínimo.

Além da anterior, eis algumas razões da necessidade de troca de partidos no poder:
Primeiro. Esvaziamento do programa. Quando o partido assume o poder apresenta-se com um programa que a sociedade o aprovou. Implantado e bem sucedido cumpriu seu papel e a partir de então deve ser ou criado outro ou substituído por outro. O partido que está no poder não criará nada e, portanto, continuará na mesma. Então, é necessário chamar outro partido que oferecerá outro programa. Da mesma forma este, depois de cumprir o que prometeu deverá ceder o lugar a outro. Isto é alternância, indispensáveis em democracias.

Segundo. Frouxidão ética. Diz o ditado que a “ocasião faz o ladrão”, isto é, a proximidade do poder e a facilidade para usá-lo amanteigam a ética pessoal e  desvios de condutas e corrupção se tornam rotineiros. É preciso não só convicção, mas também certa dose de medo de perder o poder para evitar sobrepor o interesse geral ao pessoal. Como diz Maquiavel: não é preciso que o Príncipe seja amado, basta que seja temido. Isto acontece numa é autocracia. Numa democracia os papéis se invertem: o povo não precisa ser amado pelo príncipe, basta que o príncipe tema o povo.

Terceiro. Torneiras sempre mais abertas. Partidos que se perpetuam no poder, para se manterem no poder, sempre mais prometem, concedem e cedem para poderem atender a demanda eleitoral. Aquilo que antes era apenas uma promessa agora deve ser convertido em dinheiro vivo. Se o partido prometeu 40 milhões, depois do segundo mandato no poder deve entregar 80 milhões.

Quarto. Espírito democrático esquecido.  Governos muito prolongados esmorecem o gênio democrático dando lugar ao autoritarismo. Os ocupantes do poder vão achando natural serem bajulados, reverenciados e mesmo louvados. Começam a se convencerem que realmente são indispensáveis, os melhores e que os demais são segunda categoria. É preciso chamá-los à realidade e tomar um chá de humildade.

Quinto. A perseguição aos adversários. A permanência de partidos no poder provoca uma confusão entre competidores e inimigos políticos. Com a crítica da oposição surge o espírito de caça às bruxas. Falam em: “os inimigos da pátria, os vendidos ao capitalismo ou socialismo, os inimigos do povo...” Enfim, quem não está com o partido no poder é antipatriota".

Sexto. Esta é a mais nefasta para a democracia: transfiguração da “parte” no “todo”. Um partido em permanência prolongada no poder escamoteia a realidade de “parte” que é, e passa a exibir-se como todo. Para tanto promove as reformas, como do ensino, da constituição, partidária, eleitoral, segurança inoculando o pensar, agir e sentir da democracia. Quando atingiu a totalidade faz crer que o totalitarismo é a genuína democracia, tal como o desfecho de A Revolução dos Bichos"

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Uma nova ferida que se abriu. José Maurício de Carvalho -UFSJ




A chuva desse último final de semana de julho no sudeste do país foi particularmente importante para a região e um alívio para a secura na cidade. Foi recebida como um alívio.
Esse último final de semana de julho, apesar dessa chuva bem vinda, não foi contudo, um momento feliz para a cidade. Nossa terra amanheceu sem outro de seus casarões centenários, nova ferida aberta no cenário urbano que surge pela destruição de um exemplar arquitetônico que deveríamos orgulhar de manter. Pior que das outras vezes é que a destruição também atingiu uma área verde ao lado da propriedade, uma área que precisava ser mantida junto com a edificação. Preservar para as futuras gerações, por Minas e pelo Brasil.
Ao insistir no tema da preservação de nossa memória e no cuidado ambiental como valores reconhecidos e legítimos, Miguel Reale os denominaria invariantes axiológicos, somos movidos pela esperança de que todos os cidadãos se sensibilizem com esses valores. E nossa comunidade vai, aos poucos entendendo essa mensagem. Esse novo clima é sentido de modo geral, mas episódios como o desse final de semana prejudicam a emergência do novo, trazendo de volta o pior do passado recente, concretizando interesses ilegítimos porque ilegais e que atacam valores reconhecidos.
Destruições como essa tornam-se o lado triste de nosso tempo. Elas acabarão vinculando a atual geração com aquelas parcelas que não souberam preservar a belíssima paisagem urbana legada pelos séculos XVIII e XIX. Tomar consciência disso é assumir um compromisso com o futuro. Para fazê-lo melhor é preciso mudar a insensibilidade para os valores ecológicos e de preservação cultural, reafirmando um tempo novo e uma nova compreensão de História pelo respeito aos bens culturais e ecológicos.
Essa concepção de História como criação humana e preservação de valores racionalmente reconhecidos e legitimamente consagrados nas leis do país precisa impedir ações especulativas como essa. O momento atual é um presente que se põe entre um passado importantíssimo e um futuro que temos que construir com a inspiração desse legado. Se fazemos dos dias de hoje um momento bárbaro de ignorância e destruição de nossa memória, não teremos um futuro alicerçado nesse passado construído e na experiência que ele propicia. O que existiu se degrada em pó e desaparece na recordação de alguns que levarão para o túmulo o que era para ser a base dos projetos de futuro de nossa cidade. Mata-se a esperança da renovação criativa,  destruindo os bens e os tornando objeto de nostalgia de velhas memórias que em pouco não existirão mais.
A história de uma sociedade não é um prolongamento automático do seu passado, mas também não é uma criação do nada que apaga o que foi deixado pelas gerações anteriores. E assim, numa cidade como a nossa o legado dos séculos XVIII, XIX e XX precisam conviver e inspirar o que hoje se vai fazer nesse início de século XXI. Contra a ilusão de que podemos viver sem esse passado inspirador, vamos fazer surgir a visão contrária. Esse legado de nossos avós não pode ser jogado fora impunemente.
Mesmo sendo esse o ambiente geral sabemos que a vida humana é marcada pelas escolhas e suas consequências. A base da responsabilidade é o reconhecimento de que o sujeito pode prever o resultado de seu comportamento e fazer suas escolhas. O filósofo alemão Immanuel  Kant disse algo parecido quando afirmou que a imputação é o juízo pelo qual alguém é considerado o autor, isto é, capaz de escolher uma ação que é submetida a leis e ser punido em razão do que fizer contra a sociedade.
Esperemos que a justiça reconheça esse ato contra nossa História e nossas leis e responsabilize o autor ou autores desse atentado triste. Não teremos um tempo novo de valores renovados para nos orgulharmos com atitudes como essa.  

sexta-feira, 25 de julho de 2014

PARTIDOS POLÍTICOS NA EUROPA: EVOLUÇÃO E DIFERENÇAS. ANTÔNIO PAIM




Antônio Paim é, entre nós, um dos pesquisadores que mais têm estudado a realidade dos partidos políticos, como fica claro no volume, de sua autoria, dedicado ao assunto no Curso de Introdução ao Pensamento Político Brasileiro  (Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 1994, 13 volumes, edição coordenada por ele). No que tange à realidade européia, Paim escreveu clássico da história do pensamento político intitulado: O Liberalismo Contemporâneo (3ª edição. Londrina: Edições Humanidades,  2007). Divulgo aqui recente resenha que o mestre escreveu sobre obra de Daniel-Louis Seiler, acerca da evolução dos Partidos Políticos na Europa, bem como das relações entre eles.

Comentarei aqui a obra de Daniel-Louis Seiler  Clivages et familles politiques em Europe. Editions de l´Universite de Bruxelles, 2011.

O Departamento de Ciência Política da Universidade de Bruxelas corresponde, na atualidade, ao principal centro de estudos da disciplina na Europa Ocidental. Realiza pesquisas sistemáticas, muitas delas tornadas públicas no site Digithèque- Université Libre de Bruxelles, destacando-se, entre as mais recentes aquela em que se procede ao balanço dos sistemas proporcionais (incluindo os países do Leste Europeu) e a que foi denominada Le mode de scutin fait-il l´élection?. Em geral coordenadas pelos conhecidos estudiosos Pascal Delwit e Jean-Michel De Waele.

Daniel-Louis Seiler é um dos editores da obra que se tornou fonte obrigatória de consulta, que reúne ampla caracterização de Les partis politiques en Europe de  l´Ouest (Paris, Econômica, 1998). É considerado como o principal especialista contemporâneo no tema. Além dessa edição monumental, publicou, entre outras obras, Les partis politiques (Armand Collin, 2000) e Les partis politiques en Occident; sociologie historique du phénomène partisans (Ellipses, 2003). Outra de suas obras muito citada corresponde a La méthode comparative en science politique(Armand Collin, 2004).

Para lembrar, a idéia de clivagem provém da obra Party Systems and Voter Alignments  (1967), da autoria de Seymour Lipset (1922/2008) e de Stein Rokkan (1921/1979) e corresponde à busca de uma alternativa para a camisa de força imposta pelo marxismo --sistematicamente trombeteada pelos franceses. Consiste na tese de que, com a emergência do Estado Moderno e o surgimento da Revolução Industrial o conflito social subdivide-se em quatro grandes blocos: Estado/Igreja; Centro/periferia; Urbano/rural e Capital/Trabalho.

O livro de Seiler para o qual estamos aqui chamando a atenção sugere muitas idéias interessantes que vamos destacar, dispensando-nos de revisitar a minuciosa caracterização a que procede das principais famílias políticas européias. Seriam o liberalismo,  a social democracia; a democracia cristã e o conservadorismo.

Entre estas destacaria uma observação que considero  muito elucidativa para o estudo da vertente liberal. Trata-se de que os partidos políticos que buscam encarná-la têm sido vítimas do próprio sucesso e da criatividade evidenciada no curso histórico, a partir da constatação de que têm sido apropriadas pelas outras correntes igualmente destacadas, em especial as que provêm do socialismo.

A primeira dessas criações diz respeito ao governo representativo e a sua posterior democratização, seguindo-se a economia de mercado.

Os socialistas que nasceram reivindicando a tomada do poder pela força aderem ao sistema democrático-representativo, especialmente em sua forma parlamentar. Esta seria a grande bandeira da Segunda Internacional Socialista, defraudada em fins do século XIX e começos do seguinte. Nas décadas iniciais, sem romper com o marxismo, que acabaria sendo abandonado nos começos do último pós-guerra, dando nascedouro à social democracia. Esta abdica simultaneamente da estatização da economia (aderindo portando à economia de mercado) e à utopia da sociedade sem classes. Com a adesão dos trabalhistas ingleses (remember Tony Blair), torna-se a bandeira da maioria dos partidos socialistas da Europa Ocidental.

Outra observação digna de destaque diz respeito ao fato de que a abordagem da luta política pela ótica esquerda/direita achar-se-ia, na Europa Ocidental, circunscrita praticamente à França.

Avança a hipótese de que a tendência consiste em que venham a consolidar-se e enfrentar-se --considerada a Comunidade Européia e não os países isoladamente-- três grandes correntes: liberais, socialistas e sociais-democratas. Nessa hipótese, a social democracia seria liderada pelo Partido Social Democrata Alemão, contando com a adesão, na França, do grupo chefiado por Chirac-Villepin, bem como uma parte dos democratas cristãos (na Alemanha, presumivelmente CSU -União cristã- social da Baviera). O PS Francês lideraria os socialistas remanescentes na Europa aos quais se agregaria a extrema-esquerda (presumivelmente os remanescentes do PC que têm conseguido atrair outros saudosistas do comunismo, sob a bandeira do que chamam de Esquerda Unida). A facção liberal seria integrada pelo New Labour (ingleses herdeiros de Blair no Partido Trabalhista), a parcela nuclear da democracia alemã, representada pela CDU (União Cristã Democrata, principal agremiação dessa corrente na Alemanha); pelo Partido Popular Europeu (no qual destaca o PP espanhol), o PSD português e os pós-comunistas poloneses. Cabe lembrar que sobrevivem Partidos Democratas Cristãos em muitos países europeus. No conjunto da obra, enfatiza o papel do PSD português, como representante da vertente liberal.



De minha parte, a suposição que acalentei era a de que a tendência na Europa seria a predominância do embate entre sociais democratas e liberais conservadores. Tenho em vista a popularidade, entre nós, alcançada pela divisão desse grupo em liberais conservadores e liberais sociais, devida ao saudoso José Guilherme Merquior (1941/1991). Na 3ª edição de O liberalismo contemporâneo (2007) registro o virtual desaparecimento, na Europa, do liberalismo social, sobretudo em decorrência da fusão do Partido Liberal inglês com o Partido Social Democrata (fins de 1988).

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