sexta-feira, 28 de junho de 2013

Manifestações cidadãs. José Maurício de Carvalho




Boa parte do país e do mundo assiste atônito às cenas de violência e protestos que se espalharam pelas maiores cidades do Brasil. O movimento começou como protesto pelo aumento do preço das passagens de ônibus nas capitais dos Estados e, nessa altura, se protesta contra tudo, desde a inoperância do presidente do Bahia até a falta de qualidade dos jogadores do Palmeiras. Meu amigo Jorginho estava indignado na última manifestação porque o verdão está disputando a série B do Campeonato Brasileiro e gritava a plenos pulmões: queremos time. Misturado a eles, baderneiros de toda ordem saqueiam lojas, quebram o patrimônio público, fazem arrastão. Estão promovendo enorme prejuízo, destruindo o patrimônio público e privado diante de manifestantes pacíficos e autoridades perplexas que não sabem como proceder.
Deixando de lado os baderneiros, vândalos e os inconformados palmeirenses infiltrados nas manifestações cidadãs, a maioria dos manifestantes é jovem e acreditam sinceramente que seus protestos resultarão num país melhor. É, sobretudo, a eles que me dirijo hoje. Jovens cujas posições podem provocar mudanças no país, digo podem, ao recolocar na pauta de discussões nossos velhos problemas e a necessidade de mudar a sociedade. Nossa estrutura social é injusta (já foi pior), os serviços públicos são ruins (e melhoraram nos últimos anos), nossas instituições respondem com dificuldade aos problemas que temos (vivemos décadas de ditadura e total afastamento entre a estrutura do Estado e a Sociedade). Apesar das melhorias alcançadas, as aspirações dessa geração são maiores e ela espera que o país mude rapidamente. Sobretudo os manifestantes esperam que a corrupção diminua (isto não tenho base de comparação), que também diminua a violência e a insegurança (essas pioraram muito na última década) e que melhorem os serviços públicos (e como precisam melhorar).
É a essa geração de patriotas que me dirijo para refletir com eles que é preciso encontrar um rápido meio de contato com as instituições do país. Manifestações de rua estão acobertando bandidos e desordeiros. E as mudanças não virão espontaneamente da atual elite política e econômica, mas não virão, de modo consistente, se não vierem pelos meios institucionais. Somente mudando o país desde dentro a vida cotidiana deixará de ser espaço de violência, de injustiça e abandono. A democracia, por sua vez, só melhorará com respeito a todos os cidadãos. É inútil pedir democracia e exigir favores, manifestar-se por igualdade e pedir privilégios, pedir o fim da corrupção e ser desonesto.
Sobre mudança é preciso realismo. Muitos sindicatos e partidos que se dizem progressistas e vanguardistas, buscam privilégios e/ou vendem irrealidade, como carreira fácil em que todos vão ao topo sem mérito real. E mais ainda: transporte gratuito, escola gratuita, hospital gratuito não existe. Existe serviço público pago com impostos. E alguns serviços precisam mesmo ser públicos e subsidiados pelos impostos, mas quais? Além das funções básicas de defesa do Estado, de segurança pública e da aplicação da justiça, deveriam ser gratuitos e para todos: a educação básica, a medicina preventiva, os serviços de saúde de alta complexidade e a segurança. Também poderiam ser gratuitos a universidade pública e hospitais do Estado, zelosos ambos da qualidade do atendimento.

Permitam-me pequeno esclarecimento, os estádios da copa padrão Fifa são, na verdade, padrão Suíça. Conhecem a Suíça? Para que nosso país alcance aquele nível de desenvolvimento será preciso décadas de crescimento acelerado. Desejo que seus netos vivam num país próximo do que é a Suíça hoje. Nenhuma melhoria virá nessa direção sem a participação de todos, trabalho sério, punição rigorosa aos corruptos e condenados pela justiça, sobretudo, fim dos privilégios e investimento financeiro.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

AS REDES - A NOVA ARMA DOS JOVENS. Selvino Antonio Malfatti




A onda de protestos que toma conta do Brasil atualmente teve como reivindicação inicial o aumento dos preços das passagens em São Paulo e no Rio de Janeiro e logo se alastrou para outras capitais e interiores. Dessa motivação inicial imediatamente saltaram para outros patamares bem mais significativos como a corrupção política, impunidade e a tentativa de afastar o ministério público das investigações de crimes, a chamada PEC-37. Com efeito, há uma dezena de condenados pelo Supremo Tribunal Federal e assim mesmo anda solta e mesmo ocupando cadeiras no Parlamento. A revolta também teve como ingrediente o fato de milhões e milhões terem sido gastos para serem erguidos os estádios para as copas das Confederações e o campeonato mundial. Enquanto isso médicos desesperados não dão conta de doentes que morrem em seus braços. Faltam hospitais, aparelhos, remédios, médicos. A educação ocupa o penúltimo lugar na avaliação internacional. As escolas estão mal aparelhadas, sem verbas, o corpo decente mal remunerado. A segurança pública está à deriva. Cadeias superlotadas, bandidos soltos vivendo do crime, pessoal mal aparelhado e mal pago.

As últimas explosões de protestos de jovens por todo Brasil, de norte a sul, revelam um fato novo nas comunicações de massa: os aparelhos tradicionais foram postos de lado e foram utilizados os não convencionais. Jornais, rádios televisão utilizados para a mídia foram abandonados e em seus lugares os jovens lançaram mão dos aparelhos twitter, facebook, ipad, iphone, celulares, tabletes, smartphones, computadores e outros para se comunicarem nas redes. O que se viu foi um furar de bloqueio e domínio das comunicações costumeiras para as não convencionais. O movimento simplesmente driblou a censura bem como o monopólio e estabeleceu uma linha de comunicação direta, rápida e eficaz entre si.

A idéia não é originária daqui. Temos como antecedentes a Batalha de Seatle, onde acontecia em 1999 a reunião da organização Mundial do Comércio. Outra foi a Davos e a Globalização em 2000. A terceira poderia ser a Toronto contra o G20 e várias outras. Mas a mais característica foi com os países árabes, com a revolta dos jovens contra as ditaduras. Ali também funcionou da mesma maneira. Foi furada a barreira do controle estatal e os jovens saíram às ruas e desestabilizaram os ditadores.

Estamos diante de uma mudança de qualidade de meios na comunicação de massa. A Mídia foi substituída pelo novo ambiente, as redes. Até então eram utilizados meios que falavam para as massas e depois chegavam aos indivíduos. Agora a comunicação é individual, direta, e depois se forma a massa. Os jovens se comunicam entre si e a partir de então nasce o movimento massivo. Por isso os meios tradicionais não conseguiram localizá-los. Quando os órgãos de segurança se deram conta estavam diante de uma multidão que brotava do chão, vinha de todos os lugares, engrossava a cada segundo e seguia exatamente um plano pré-estabelecido sem que ninguém soubesse como. Saíam às ruas, encontravam-se num local combinado e dirigiam-se a alvos já previamente escolhidos. 


No futuro é muito provável que este meio de se comunicar no intuito de captar ou formar opinião seja aproveitado politicamente. Um governante poderia saber a tendência da opinião sobre assuntos polêmicos em questão de poucas horas e direcionar sua ação neste sentido. Até mesmo poderia ser aproveitado para, pouco a pouco, engatinhar numa ética social, diferente da ética vinda de cima para baixo. Uma ética emersa do consenso o qual gera o consentimento e deste a legitimidade. Ao contrário de uma ética imposta geradora da desconfiança provocadora da revolta.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O RADICALISMO RELIGIOSO E A HOMOFOBIA. José Maurício de Carvalho.













                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    


A recente marcha dos evangélicos em Brasília contra o casamento homossexual e os protestos dos conservadores franceses, inclusive com suicídio na Catedral de Notre Dame, o  pelo mesmo fato não têm a mesma inspiração, a julgar pelo que dizem suas lideranças.  De um lado, os pastores evangélicos condenam o homossexualismo em   nome da família tradicional, de outro as lideranças civis francesas, com apoio dos partidos conservadores, são contrárias ao reconhecimento, pelo Estado francês, do casamento homossexual.  Em comum entre os movimentos apenas o terem sido projetados como manifestações pacíficas e terem descambado para a violência. Mais lá do que aqui, pois muitos franceses partiram para cima da polícia encarregada de manter a ordem.
A diferença essencial no discurso das lideranças é o seguinte. Os pastores defendem a família tradicional porque consideram a homossexualidade uma perversão da natureza humana, uma falta moral condenada nos ensinamentos bíblicos. Os líderes franceses não contestam a opção sexual, mas não querem o casamento homossexual. Não querem porque casamento, pelas leis do Estado Francês, significaria permitir a estes casais o direito de adotar crianças ou tê-las por inseminação (no caso de casais femininos), sem a presença de um pai masculino.
A argumentação religiosa de que a homossexualidade consiste numa falha moral decorre da interpretação linear do texto bíblico (o que é um absurdo hermenêutico) ou de uma antiga visão de natureza humana que remonta à antiga Grécia. Para Aristóteles, a natureza é causa ou essência necessária e para os estóicos ela é disposição que move por si, segundo razões de origem. Esta última escola identifica natureza com a ordem do mundo e deu origem à chamada lei natural de grande importância na Moral e no Direito até o século XIX. Para ambas a humanidade se divide em dois sexos que os corpos trazem definido, além do uso da razão. Deixemos de lado outras concepções de natureza, como a de Plotino, que a toma por manifestação imperfeita do espírito ou ainda o entendimento funcional que a ciência contemporânea tem de natureza, definindo-a como campo de estudo delimitado por seu objeto. O conceito de Aristóteles e dos estóicos considera que tudo o que não obedece a esta ordem essencial é um desvio de sua finalidade. Considerando-se tenha Deus criado o gênero humano, Ele quis que o gênero fosse dividido em homens e mulheres. A homossexualidade é, nesta visão metafísica um desvio da natureza.
Além da razão histórica (aproximação da visão grega), as Igrejas cristãs foram contrárias ao homossexualismo porque, durante séculos, a sobrevivência da humanidade dependia do nascimento de muitas crianças, pois era alta a mortalidade e curta a expectativa de vida.

Contra a visão de natureza acima mencionada, que só se misturou ao cristianismo por circunstâncias históricas que não cabe aqui detalhar, a Psicologia atual mostra que as preferências sexuais têm muito mais a ver com a educação e a identificação com figura do mesmo sexo. Não podemos, com nosso conhecimento atual, precisar matematicamente como as duas variáveis orientam a escolha sexual e se mais alguma atua. A escolha é importante, é claro. Assim, impedir alguém de viver uma escolha homossexual com base na interpretação de natureza dos gregos é, pelo que sabemos hoje, avalio, um daqueles crimes contra a humanidade que historicamente perpetramos (queimar bruxas, perseguir judeus, matar o infiel, etc). Por outro lado, saber precisamente o que ocorrerá com os filhos destes casais não sabemos. Isto significa que se há alguma razão a dar aos conservadores franceses, nenhuma há no fanatismo religioso. Acredito que Cristo não condenaria ninguém pela escolha sexual se vivesse hoje, embora tenha condenado e o faria de novo ao farisaísmo e a ignorância. 


terça-feira, 11 de junho de 2013

MATA. Selvino Antonio Malfatti






Na região central do Rio Grande do Sul, no município de Mata, existe uma das maiores preciosidades geo-paleontológicas. Trata-se de uma mutação de madeira em fóssil. O que antes era um vegetal agora é uma pedra. A penetração da sílica (espécie de vidro) nos vegetais foi um processo vagaroso, de expulsão das substâncias de madeira, que aos poucos vai se cristalizando e conservando as estruturas das células. As plantas fossilizadas em Mata sofreram esse processo chamado substituição, por meio do qual os elementos minerais, carregados pela água de percolação, expulsaram os tecidos da planta. Com isso, a forma externa de vegetal ficou preservada, mas seu conteúdo foi substituído: na verdade, deixou de existir, restando somente sua estrutura. O que existe são pedras em forma de árvores que se fragmentaram por ação basáltica.
Todo este material era considerado um estorvo pelos habitantes até que um vigário, Padre Daniel Cargnin, estudioso da paleontologia lhe dá o verdadeiro valor. Padre Daniel transformou Mata, uma cidade bucólica, semi-agrícola, em centro turístico, passando a ser considerado um “museu a céu aberto”. Com efeito, essa imagem confere com a realidade, pois quem percorre esse pequeno município encontra fósseis de madeira nas praças, nas calçadas, nas ruas, nos barrancos, nos pátios das casas, nos terrenos, nos sítios, nas matas, enfim, as pedras estão em toda parte. Assim como na cidade de Florença, na qual, para onde se olhar se vê arte, em Mata se enxerga madeira fossilizada em toda parte. Mata passou a fazer, de fato, jus ao nome “mata”
Com o advento do turismo, a cidade foi reestruturada para atender à nova realidade: as ruas sofreram um novo traçado. Ergueu-se um hotel com o sugestivo nome de Paleon Hotel. Construiu-se um museu, demarcaram-se sítios arqueológicos, elaboraram-se folders. Criaram-se sites. Foi uma guinada, pois passou de cenário agrícola para turístico.
Neste processo de mudança, a atividade de ornamentação seguiu um plano: dar sentido aos locais, por meio da preservação da madeira fossilizada. Cada praça, rua, gruta ficou contextualizada no todo. E é para esse cenário que os visitantes são convidados a contemplarem: natureza dada por Deus e remodelada pelo homem. Padre Daniel estabeleceu assim, uma simbiose entre o natural, sobrenatural e o humano.
Esta postagem vem a propósito do aniversário de 48 anos de emancipação político-administrativa do município, celebrado em 13 de junho, cuja data celebra-se o Dia de Santo Antônio, padroeiro da paróquia. As duas maiores religiões do município são a católica e luterana, seguidas provavelmente pela Assembléia de Deus. A atividade econômica predominante é a agricultura de arroz e fumo. Em relação às etnias predominam descendentes de italianos e alemães, mas com forte presença lusa. http://www.youtube.com/watch?v=HGhDHnFZOtI

LEI ESTADUAL N ° 4.836,
DE 2 DE DEZEMBRO DE 1964.
CRIA O MUNICÍPIO DE MATA.
ILDO MENEGHETTI, Governador do Estado do Rio Grande do Sul:
Faço saber, em cumprimento ao disposto nos artigos
87, inciso II e 88, inciso 1, da Constituição do Estado, que
a Assembléia Legislativa decretou e eu sanciono e promulgo a Lei seguinte:
Art. 1° - É criado o novo Município de Mata, com Sede na localidade do mesmo nome, constituído dos atuais Distritos de Mata, Clara e de parte do de Demétrio Ribeiro, todos pertencentes a General Vargas.
Art. 3º - A Câmara Municipal, para o primeiro período legislativo, será constituída de sete membros, que terão concluídos seus mandatos a 31 de Dezembro de 1967.
Art. 4° - Os mandatos do primeiro Prefeito e Vice- Prefeito extinguir-se-ão em 31 de Dezembro de 1967.
Art. 5º - Revogam-se as disposições em contrário
Art. 6° - Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação.
PALÁCIO PIRATINI, em Porto Alegre, 2 de dezembro de 1964.
ILDO MENEGHETTI
Governador do Estado


sábado, 8 de junho de 2013

A EXPERIÊNCIA DA VIDA EM MOVIMENTO. José Maurício de Carvalho.




A psicóloga Regina Beatriz de Resente Silva fez o lançamento da segunda edição do seu livro A mulher de 40, em outubro próximo passado. O livro resume as transformações físicas e emocionais pelas quais passa a mulher na meia idade, faz um histórico da vida sexual feminina na sociedade ocidental destacando as mudanças ocorridas no último século, aborda a experiência da sexualidade neste período da vida e finalmente, apresenta os quarenta anos como o começo da nova etapa da vida, ocasião da experiência mais próxima do envelhecimento. Quando do lançamento da primeira edição fizemos um comentário da descrição de Regina Beatriz sobre este momento da existência.  Falamos das partes do livro. A segunda edição permite tocar numa questão específica que se tornou urgente e que a autora faz com rara felicidade: situar a passagem pelos quarenta sem fantasias, sem falsos consolos, mas apresentando-a  como um tempo onde é possível estar bem.
O que faz da abordagem de Regina Beatriz uma leitura tão feliz? Ela não fantasia os 40. Trata-se de um tempo onde “a textura da pele muda, bem como o tônus muscular” (p. 57). É o momento da vida em que a mulher vive o climatério e a maioria passa pela menopausa. O corpo já não é mais o mesmo e o fato afeta o modo de viver a sexualidade. Contra esta posição serena e objetiva da autora a pressão irreal da mídia e da indústria de cosméticos que apresentam a mulher de quarenta como uma espécie de extensão das de quinze ou vinte. Há pouco tempo uma revista de circulação nacional destacou na capa o que denominou de geração sem idade, comparando mãe e filha, apresentando-as como companheiras de baladas, igualmente belas, igualmente disponíveis para o sexo. Nada mais falso, irreal e gerador de frustrações.
A abordagem é feliz porque apresenta a passagem pelos quarenta como um tempo de sofrimentos e perdas, mas principalmente de mudanças, ocasião de “estabelecer prioridade, rever valores, usufruir conquistas, dar uma reviravolta” (p. 113). Não se é mais o que se foi na juventude, a nossa história nos fez diferentes.
A leitura de Regina Beatriz é feliz porque mostra que se o corpo não é mais o mesmo e o desejo sexual também não, isto não significa que a mulher não possa viver a sexualidade de forma prazerosa. Em certo sentido a vida sexual pode ficar mais leve, quer porque o medo da gravidez já não está presente, quer porque os anos e a história pessoal permitem olhar de forma mais serena os medos e fantasias da sexualidade. A mulher ainda tem medos, mas os enfrenta com mais serenidade. Compreendeu que a vida, inclusive a sexual, é singular. Pode contar com ajuda médica e psicológica para lidar melhor com as limitações da idade e das fantasias. Pode estimular o desejo e desmistificar os preconceitos. Ela pode descobrir que “o sentido de suas ações, tanto no sexo como na vida, não está em evitar o fracasso, mas em ousar experimentar” (p. 79). Ela pode fazer muito se souber escolher com o que dispõe como corpo e experiências. Há uma frase linda que merece ser repetida: “À mulher de 40, mais consciente que aos 20 e aos 30, fica a sugestão: aproprie-se de sua vida, seja autora de sua história. As escolhas são suas” (p. 81). Clara percepção daquilo que o filósofo Ortega y Gasset ensinou no último século, a vida é o que fazer com a circunstância de que dispomos.

A interpretação da autora é feliz porque mostra os quarenta como um momento de passagem para a velhice. A mulher então “chora mais, ri mais, seleciona mais, lê mais, pensa mais, pois sabe que não tem o tempo todo ao seu dispor” (p. 85). Experimenta então o que a analítica existencial propõe, a consciência da morte é um estímulo para uma vida mais autêntica, uma vida com escolhas que têm mais a ver mais conosco e menos com o outros. Ela conclui: “o processo de envelhecimento é gradual, é lento e decorre de uma sucessão de acontecimentos (...) que transcorrem de modo vagaroso ao longo da vida. Envelhecer é um processo (...), não é uma doença” (p. 87).

sexta-feira, 31 de maio de 2013

GERAÇÃO CANGURU E A NOVA FAMÍLIA. Selvino Antonio Malfatti.



                      Fonte: Ks95808 FOTO SEARCH COM.BR

Uma geração de jovens, a partir de 1990, tende a estender a permanência na casa dos pais por mais tempo e, alguns, até indefinidamente mesmo que já tenha alcançado a autonomia econômica. Se verificarmos as estatísticas pode-se constatar este fenômeno, inclusive crescendo década após década. No Brasil, por exemplo, na década de noventa, jovens com até 25 anos, havia 17% residindo com os pais. Em 2000, subiu para 21% e na década seguinte pulou para 25% a estatística. Desse modo, parece que está se invertendo o costume ou necessidade de os pais morarem com um filho depois de envelhecer. Agora são os filhos que envelhecem na casa paterna ou materna.
Alguns fatores influíram para que isso fosse possível e efetivamente acontecesse. Apontaria: o diálogo entre pais e filhos, a maior liberdade para os filhos, a maior compreensão dos pais. Nas gerações anteriores os pais, mormente o pai, era o que decidia. Cabia aos filhos, e mesmo às vezes a própria esposa, acatar as determinações. O espaço para a liberdade era muito restrito, aos filhos restava a obediência. Dizia-se quer se os filhos quisessem decidir deveriam formar seu próprio lar. Havia situações que os próprios pais incentivavam a saída.
Certamente o que aconteceu foi um aplainamento do modus vivendi dentro da família. A nova geração não é igual a dos pais. Tem gostos, expectativas e maneiras de pensar diferentes. Além disso, há uma gama de diversidade entre os próprios filhos. Uns gostam de festas e as querem promover dentro de casa, outros de convidar namorados e lá permanecerem e há os que gostam de ficar no seu canto e não serem incomodados. Todas estas arestas deviam e foram removidas. Os pais também querem sua privacidade, o espaço para sua liberdade e a satisfação de suas aspirações Há, com o se percebe, duas realidades convivendo: a da geração dos pais e a dos filhos. Houve uma readaptação entre as duas, operada pela influência mútua que possibilitou a convivência. Ambos cederam abrindo o espaço para a aproximação. E nessa mútua influência ambos abdicaram de vantagens e ambos obtiveram ganhos.
Os filhos perderam parte de sua autonomia. Se estivessem na sua própria casa teriam mais opções, como horários, espaços físico-sociológicos, individuais. No entanto o principal ganho é o econômico, pois não pagam aluguel e a maioria deles nem a alimentação. Este dinheiro liberado pode ser aplicado em aperfeiçoamento profissional, lazer e mesmo investimentos patrimoniais. Os pais também tiveram que abrir mão de sua privacidade, horários, espaço físico e psicológico. Mas, em compensação, agregaram companhias agradáveis e até mesmo eventuais ajudas nas tarefas caseiras. Sentem-se menos sós, mais seguros e tranqüilos numa eventualidade de doença. Podem deixar a casa aos cuidados dos filhos e viajarem, fazerem refeições fora, se divertirem. E se vierem os netos então será uma bênção multiplicada.

As conseqüências desta tendência ainda não podem ser avaliadas com segurança, mesmo porque pode haver retrocesso ou tomar outros rumos. Parece certo, porém, que a família nuclear – pai, mãe e filhos – está sofrendo uma mutação. Se ocorrer a família extensa é outra questão. Parece que a possibilidade de um patriarcado ou matriarcado está remota, pois exigiria uma gerontocracia, isto é, subordinação ao mais velho de toda gama parental. O que se delineia é um convívio mais harmônico entre os parentes próximos e mesmo os do mesmo sangue ou sobrenome. Haja vista as promoções dos “encontros” de famílias que estão cada vez mais numerosos.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A previdência social e as aposentadorias. José Maurício de Carvalho.















O século XXI chegou com o país crescendo e oferecendo melhores condições de vida aos brasileiros. Há um longo caminho para atingirmos o padrão das sociedades mais adiantadas, mas a melhoria é real. E esta é uma boa notícia, aspiramos mesmo por uma vida melhor, mais confortável e com acesso aos bens produzidos pela tecnologia que não para de avançar e pelo modo de vida capitalista, que produz em quantidades crescentes. No caso brasileiro, o crescimento econômico não chega a ser tão acelerado que se sinta o efeito da mudança tão rapidamente como queremos, mas em períodos mais longos a mudança é sentida. E uma das mudanças mais significativas e observáveis é o envelhecimento progressivo da população, o que nos desafia a conviver de forma respeitosa com crescente número de pessoas idosas. Novos profissionais para cuidarem deles, lugares onde possam viver com segurança e qualidade, atendimento prioritário nos serviços públicos, aposentadoria digna, acessibilidade, etc.
O Brasil de hoje não é mais o país dos jovens como há quarenta ou cinqüenta anos, onde a população infantil era enorme e os velhos representavam percentagem insignificante. A enorme mortalidade daqueles dias era compensada com o nascimento de muitas crianças. Não era incomum encontrarmos famílias com oito ou até mais filhos. Hoje estes números soam absurdos, as famílias são menores e é maior a expectativa de vida. Isto significa possuir uma população adulta que ruma para ser envelhecida. Este perfil etário da sociedade brasileira é ainda mais acentuado nas nações mais ricas da Europa e na América do Norte. Ali o fenômeno é mais visível e os problemas decorrentes do envelhecimento da população mais urgentes e graves.
As atuais dificuldades da sociedade européia devem servir de alerta para vivermos esta nova etapa de nossa história de forma mais leve e humana. A queixa crescente dos aposentados de que a renda das aposentadorias diminui com os anos coloca em questão a relação entre tempo de contribuição e a idade necessária para obter o benefício. Governos populistas e a dificuldade da sociedade de conviver com mudanças necessárias somente protelam medidas que precisarão ser mais duras e dolorosas quando aplicadas. Hoje se estuda nos países europeus o aumento da idade mínima da aposentaria dos 63 para 66 anos. É muito para os nossos padrões, mas é a realidade deles e o que nos aguarda para logo.
A hipótese de conceder aposentadorias para quem nunca contribuiu, de conceder benefício crescente para quem contribuiu durante poucos anos são medidas que só se sustentam se a sociedade tiver outros meios de aporte para a Previdência Social. E a sociedade brasileira também reclama que já paga muitos impostos, o que sugere que este caminho também não poderá ser seguido.
Deixando de lado o problema como se apresenta para as comunidades nacionais para trazê-lo para a vida privada dos cidadãos, fazer uma previdência complementar à pública e construir uma reserva para a velhice são duas medidas absolutamente necessárias aos jovens de hoje que aspiram ter vida longa e de mais qualidade que a das gerações anteriores.
Para tratar os velhos de hoje e de amanhã com o respeito que merecem é necessário, da parte dos gestores públicos, planejamento rigoroso do sistema previdenciário e seriedade absoluta na solução dos problemas previdenciários. Enfim, deixar de lado o jeitinho e o improviso. Para as pessoas que pensam em uma vida digna na velhice o planejamento dos ganhos e aposentadoria complementar são medidas imprescindíveis. Viver no limite da renda e com níveis altos de endividamento não permitirá velhice tranqüila, a não ser por um golpe de muita sorte, o que é, claro, uma chance desprezível.

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