sábado, 30 de março de 2013

PASCOA - A INCRÍVEL HISTÓRIA DA RESSURREIÇÃO. Selvino Antonio Malfatti.






O Cristianismo tem algumas características que o assemelham a outras religiões monoteístas como islamismo, judaísmo, zoroastrismo. As semelhanças mais marcantes são a crença num Deus único, a grandeza moral e a crença numa vida pós-morte. O Cristianismo tem também estes conteúdos. No entanto, difere visceralmente destas pelas seguintes crenças: um Homem que se autodenominou Filho de Deus, a morte e Ressurreição deste Homem – Páscoa - e a Promessa de Ressurreição de todos.
A autodenominação de Filho de Deus era dita abertamente, perante pessoas humildes e autoridades e desafiava qualquer um que descresse. Há inúmeras passagens bíblicas a esta referência e ao desafio da prova em contrário. A ressurreição de todos os mortos é outra promessa contundente, embora já estive presente na doutrina judaica.
Mas é na própria ressurreição de seu Mestre que reside toda força desta religião. Causa espanto a singeleza e naturalidade da narrativa bíblica da ressurreição em oposição á grandiosidade do fato apresentado. Os textos bíblicos parecem que não se dão conta daquilo que estão informando. A impressão que se tem é de um conto de ficção científica misturando realidade e imaginação. Os gregos, por exemplo, quando ouviram Paulo falar sobre a ressurreição deram as costas e disseram em tom de galhofa: a este respeito vamos te ouvir mais tarde... E retiravam-se.
Testemunhos sobre a aparição de Jesus ressuscitado pululavam por toda parte na época. Claro, havia os que se mantinham cautelosos, céticos, prudentemente agnósticos. É o caso de Tome do seleto grupo dos Apóstolos:
“Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus.
Os outros discípulos disseram-lhe: Vimos o Senhor. Mas ele replicou-lhes: Se não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei!
Oito dias depois, estavam os seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse: A paz esteja convosco!
Depois disse a Tomé: Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé.
Respondeu-lhe Tomé: Meu Senhor e meu Deus!
Disse-lhe Jesus: Creste, porque me viste. Felizes aqueles que crêem sem ter visto! (Jo, 20, 24-3)
Por isso, quem quiser ser cristão genuíno tem que estar aberto à crença de um Homem Filho de Deus, na sua Ressurreição e na sua própria.

FELIZ PÁSCOA 

sexta-feira, 22 de março de 2013

A Igreja espiritual do Papa Francisco. José Maurício de Carvalho





A eleição do Papa Francisco foi momento de profunda emoção para os católicos. Emoção porque o Papa Bento XVI não morreu, renunciou quando sentiu que suas forças faltavam ante os desafios da Igreja no nosso tempo. E os católicos acolheram seu novo líder como alguém que irá enfrentar estes desafios. E o Papa Bento XVI teve pesados desafios desde que assumiu. Ele é teólogo e professor brilhante. Apesar dos gestos amáveis e fala doce teve uma missão difícil, quase impossível, de substituir o carismático João Paulo II, uma figura humana extraordinária, um quase místico e um comunicador sem comparação. E Bento XVI teve ainda um particular desafio que desagrada qualquer intelectual do nível do agora Papa emérito, enfrentar a burocracia e a maldade incrustada na Igreja sob a forma de corrupção no Banco do Vaticano e pedofilia no clero. É preciso mais que vontade férrea para uma missão destas, é necessário ter a alma fria de administrador eficiente e possuir muita força física. E o Papa Bento não possuía nenhuma das duas coisas. Sua renúncia foi testemunho de humildade, de consciência dos próprios limites e confiança de que Deus encontraria um modo de inspirar a Igreja depois de seu gesto.
O Papa Francisco chega para enfrentar estes desafios e muitos outros. Para a burocracia corrupta da Santa Sé anuncia uma Igreja pobre, sem ostentação. E lembra em seu nome um dos mais queridos santos da Igreja Católica: o pobre de Assis. O jovem Francisco cuja experiência de Deus o fez migrar para níveis elevados de espiritualidade. Um patamar onde a fome e a sede quase não o alcançavam, e a tentação do poder e da riqueza nem sequer se aproximavam. Um jovem que agradecia com entusiasmo a Deus pelo pão simples sobre a mesa e pela roupa singela que o protegia do frio. Francisco de Assis é modelo de espiritualidade e bondade em conformidade com os ideais do evangelho. Ele soube viver o Reino de Deus no amor aos outros e na simplicidade.
A figura de Francisco de Assis é modelo de espiritualidade e humanidade. Como modelo indica que o homem não necessita consumir crescentemente, possuir o corpo coberto por roupas finas e jóias, nem ser escravo do corpo para ter dignidade e valor. A dignidade está em escolhas livres e responsáveis. O Papa Francisco começa dando profundo testemunho de espiritualidade. Se ele ajudar as pessoas a entenderem isto, talvez diminua no mundo o hedonismo angustiado de nossa época que é impossível sustentar, mesmo que o capitalismo produza como nunca. Uma época em que para se sentir pessoa humana é preciso amealhar coisas, trocar quinquilharias, muitas vezes em detrimento da vida, dignidade e valores.
O espírito evangélico e a simplicidade pessoal ancorado na ideia de que todos somos filhos de Deus não nos tira, avalio, a obrigação de produzir riqueza para assegurar a sobrevivência material e a prosperidade social. Isto revela que a elevação da espiritualidade não significa condenação da riqueza e do trabalho produtivo como fizeram setores da Igreja depois do Concílio de Trento. Desejo que a vinda do Papa Francisco seja um tempo de acolhimento delicado aos homens que sofrem buscando o que não encontrarão no acúmulo ansioso e gozo irresponsável. Espero, mais ainda, que a espiritualidade elevada de Francisco de Assis não sirva para alimentar setores renitentes e sobreviventes do Concílio de Trento que renasceram no marxismo travestido de Teologia da Libertação. Já se escuta neste grupo o jubilo pelo afastamento do agora Papa emérito, porque ele combateu e desmontou no campo intelectual a Teologia da Libertação.  Espero que também não se distorça a espiritualidade elevada do querido pobre de Assis na condenação generalizada da riqueza, do trabalho, da poupança e da necessidade de fazer no mundo, como na alma, obra digna do Criador.

sexta-feira, 15 de março de 2013

FRANCISCO I – AS VICISSITUDES NA ELEIÇÃO DE UM PAPA. Selvino Antonio Malfatti



















Desde a renúncia do papa Bento XVI os católicos do mundo inteiro, aproximadamente 1bilhão e 200 milhões, aguardavam a eleição do novo papa que aconteceu no dia 13 de março de 2013, na pessoa do cardeal Jorge Mário Bergoglio com o nome de Francisco I, 266º papa.
Teoricamente qualquer cristão católico, solteiro e em comunhão com a Igreja, pode ser eleito papa. Por isso, quando a cátedra de Pedro torna-se vaga, potencialmente existem milhões de candidatos. Na prática, porém, há 625 anos que o último pontífice foi escolhido fora da lista do Colégio Cardinalício. Foi Urbano VI em 1378, arcebispo de Bari, Itália.
Até o Cristianismo tornar-se Religião Oficial do Império Romano, com Constantino, no século IV, a escolha do Papa era um ato privado e até mesmo sigiloso, pois os cristãos viviam perseguidos pelas autoridades romanas e a maior parte dos papas era martirizada.
Com o advento da União entre Igreja e Estado começam a surgir os problemas, isto por que um interferia no outro inevitavelmente. Os imperadores queriam escolher os bispos e estes queriam escolher os chefes políticos.
No mesmo período, um bispo da Igreja, Santo Agostinho desenvolve a teoria da supremacia do poder religioso sobre o poder civil. Nas relações entre Igreja e Estado, Agostinho entende que ambas são sociedades perfeitas e soberanas, cabendo à Igreja o espiritual e ao Estado o temporal. O Estado, porém, está subordinado à Igreja, porque a vida terrena é um meio para se atingir o verdadeiro fim que é a salvação. O Estado e seus membros devem ser subordinados à Igreja. Com Agostinho, estava firmada a doutrina da supremacia do espiritual sobre o temporal cujo debate ocupará a intelectualidade durante toda a Idade Média e até mesmo no século XIX encontrará defensores, principalmente no Sillabus do Papa Pio IX. Esta doutrina da Supremacia do poder espiritual sobre o temporal, como foi concebida, é essencialmente moral, no entanto, na prática provocara as mais sangrentas guerras de Papas contra príncipes, vice-versa e de príncipes entre si.
Esta doutrina, porém, não era pacífica nem mesmo na Idade Média e no período de Santo Agostinho. Como exemplo pode-se citar Marcílio de Pádua, entre outros. Este pensador não só defende a separação do poder temporal e espiritual, como a subordinação deste àquele. Diz ele que a Igreja é formada por todos os cristãos que têm por objetivo a felicidade eterna. Todos os cargos eclesiásticos são iguais e não deve haver limites territoriais para o exercício das funções religiosas. Para ele, São Pedro era igual aos demais não tendo primado algum sobre os outros, inclusive, é duvidoso que tenha estado em Roma. Conforme ele o poder do Papa foi usurpado dos Bispos e fiéis, com condescendência dos imperadores. O poder supremo da Igreja não está no Papa, mas no Concílio Ecumênico, cujos representantes seriam eleitos pelos fiéis. Quem deve convocá-lo é o executivo do povo romano, isto é, o imperador. O poder dos papas não pode ir além do conferido pelo povo cristão através de seus representantes e o imperador. Igualmente, caberia ao povo, aos fiéis, elegerem e depor o Papa, com a sanção do Imperador. O mesmo se daria com os Bispos e presbíteros. A Igreja não tem poder coativo sobre os fiéis, cabendo este poder ao civil. Para haver paz e tranqüilidade, pensa Marsílio, a Igreja deveria estar subordinada ao Estado.
É no século XI que começa o aprimoramento do processo de escolha de papas. Em 1050, o papa Leão IX inicia o processo convocando pessoas ilustradas para auxiliá-lo. Desde estudo nasce a decisão de que o papa sairá das fileiras dos cardeais. Um século depois nasce o Sacro Colégio e já no século XX é incorporado ao Direito Canônico.
O conclave teve origem na sucessão de Clemente IV cuja votação durou três anos. Numa disputa entre italianos e franceses os cardeais encontraram-se num verdadeiro beco sem saída. Até que os cidadãos de Viterbo, local onde os cardeais estavam reunidos, resolveram enclausurar os cardeais, destelhar o local da reunião deixando-os expostos ao relento, dando-lhes para alimentação somente pão e água. Em três dias vieram-lhes a inspiração e foi eleito o papa Teobaldo Visconti, com o nome de Gregório X, um monge, mas não sacerdote. Daí em diante a introdução do conclave – chaveados – forçou a decisão rápida na escolha do sucessor.
Já que o novo papa escolheu como patrono Francisco é bom ouvir o que este dizia na "Preghiera Semplice" (Oração de São Francisco):
http://www.youtube.com/watch?v=nKB8FCmMUh4




sexta-feira, 8 de março de 2013

Outro século e um mundo novo. José Maurício de Carvalho.





O século XXI se apresenta como um tempo onde as guerras entre Estados são raras, mas em que crescem os movimentos terroristas, revoltas étnicas e de forças isoladas de radicais religiosos, políticos e/ou grupos marginais que sobrevivem da droga e sequestros. Embora inimagináveis no cenário político até o século XX, quando os Estados Nacionais eram forças soberanas, estes novos grupos fazem coisas impensáveis até poucas décadas, como foi o ataque da Al Qaeda ao mais poderoso país da terra.  
Outro exemplo deste novo mundo, onde os Estados Nacionais deixaram de ser o monstro preconizado por Thomas Hobbes (Leviatã), monstro sempre capaz de esmagar pequenos grupos, é a invasão do Mali. A República do Mali é país da África Ocidental, tem nove milhões de habitantes espalhados por um território de mais de um milhão e duzentos mil km², superfície duas vezes maior que o Estado de Minas Gerais. Esta República, para os que estudaram nos antigos mapas da África, é o antigo Sudão francês que adotou o este nome depois da independência, em 1960.
Com a independência obtida há pouco mais de cinqüenta anos, a República do Mali nunca passou por período significativo de paz e estabilidade política. Já enfrentou revolta militar em 1968, Guerra contra Burkina Faso, em 1985 e outra revolta militar, em 1991, desta feita com a suspensão da Constituição. Este país de nove milhões de habitantes encontra-se ameaçado por uma força de menos de 6000 homens de quatro grupos diferentes: a conhecida Al Quaeda (serpente de muitas cabeças), os Defensores da fé, o Movimento Jihadista do oeste da África e a Brigada de Sangue. São grupos terroristas, formados por radicais islâmicos reforçados por cerca de mil guerreiros tuaregs, povo nômade (berbere) com cerca de um milhão de pessoas divididas em confederações. As confederações berberes se esparramam pelo território líbio, do Niger e adjacências e tinham relações de amizade com o ex-ditador Muamar Kadafi. Encontram-se sem espaço no novo governo da Líbia e entraram na guerra do Mali. Os grupos de radicais islâmicos, embora tenham origem diversa, convergem na filiação ao terrorismo e no uso da força para impor a Sharia, o terrível código de leis derivado do Corão. Em pouco tempo aterrorizaram a população da parte oriental do Mali, impondo-lhes a lei islâmica, enquanto as frágeis forças militares do país recuaram para a defesa da capital.
Depois de ter metade do território tomado pelos terroristas e o risco de perder o restante, o governo de Bamako (capital do Mali) fez o que parecia inimaginável: solicitou ajuda da antiga Metrópole. Encurralado pela circunstância e com antigos laços com a ex-colonia, o governo francês lançou uma ofensiva contra os terroristas. A França espera vencê-los rapidamente e passar o controle da ex-colonia a uma força internacional formada pela Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental.
A instabilidade na África Ocidental afeta muitos interesses ocidentais inclusive brasileiros, confiantes que estamos na retirada do petróleo do pré-sal. Dificilmente nossa marinha conseguirá enfrentar em alto mar, sem apoio terrestre, piratas e forças terroristas sediadas em algum país da África Ocidental controlado por terroristas.
Esta é mais uma razão para a aproximação entre países lusófonos, cujos interesses em torno da língua comum, costumes parecidos e negócios emerge neste novo mundo de configuração inimaginável há algumas décadas. Apenas para lembrar a Guiné-Bissau (outro país lusófono) está ao lado da confusão no Mali e seus dirigentes assistem preocupados os rumos do conflito.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA DE DROGADOS – A FAMÍLIA TAMBÉM É GENTE. Selvino Antonio Malfatti.





O governador do Estado de São Paulo, José Alkmin, e agora o do Rio de Janeiro, seguidos de outras autoridades decidiram internar compulsoriamente os viciados em crack. Evidentemente a decisão é polêmica, pois envolve aspectos jurídicos e éticos. Do outro lado da moeda, no entanto, existem outras realidades igualmente importantes, tais como a pessoal, familiar e social. Resumiria numa palavra: humana.
Para o cumprimento da lei exigir-se-ia uma solicitação médica de internação e a questão ética envolve o princípio da autonomia. Para atender o primeiro quesito faz-se necessário a criação de Centros de Atendimento Psicossocial – CAPS. Como nem união, nem estado e muito menos municípios possuem suficientes, por isso seria ilegal a internação.
A questão ética diz que é necessário o consentimento do paciente para que determinado procedimento seja feito ou de algum parente, como pais, filhos, esposa, netos etc. Quem são os atores envolvidos na questão das drogas químicas e mais especificamente o crack? Para mim é pessoa, a família e a comunidade. A sociedade indiretamente arca com o peso daquela pessoa viciada. Precisa dar-lhe alimento, vestuário, habitação, saúde. A sociedade só recebe a fatura e paga. Não tem nenhum retorno. Certamente concordaria com a internação compulsória. Acontece que a sociedade não é parente e, portanto, não pode dar o consentimento legal, embora apoie a internação compulsória dos viciados. A sociedade quer curar-se desta ferida que a está levando para a morte. Precisa urgentemente de socorro.


E o usuário de droga dará o consentimento? O viciado em crack não possui mais autonomia da vontade, pois é dependente, e por isso, abúlico. Tornou-se um simulacro de ser humano. É um corpo humano com alma, mas sem vontade e consequentemente sem liberdade. Está oco por dentro. Tem sentimentos, contudo a razão foi dominada pelo instinto. Quer ser recuperado? Até quer, mas não tem forças, vontade suficiente. Por isso está impedido de dar o consentimento.
Na impossibilidade de o sujeito manifestar-se é preciso consultar um familiar. Qual a situação da família com a presença de um viciado em crack? Por causa dele casais brigam, se ofendem, separam-se, odeiam-se. Os filhos se dispersam, os irmãos se desentendem, pais e filhos enfrentam-se. Quem não conhece casos de viciados em crack que roubam e assassinam os pais. Violentam as irmãs, batem nos irmãos, roubam-nos e os matam. São famílias inteiras pedindo socorro para que alguém faça alguma coisa. Pais amarram os filhos para evitar que se droguem. Mães trancam o filho para não deixá-los ir para rua. O desespero chega ao auge quando os filhos têm que dopar o próprio pai para levá-lo ao tratamento.E quando não aguentam mais e tiram-se a própria vida, suicidam-se.
Por isso, o objetivo maior da internação compulsória é a família e elas tem o apoio de todos. Elas também são gente. Os familiares merecem ter uma vida normal. A presença do drogado nelas as está desintegrando e jogando fora vidas inteiras. É muito sofrimento, um calvário que não termina mais e o grito desesperado dos familiares ouve-se de todos os lados: Meu Deus, por que tanto sofrimento?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Desafios para a nação. José Maurício de Carvalho.




O Brasil vem mudando nas últimas décadas, enfrentando antigos e novos desafios. É inevitável que em momentos felizes se tenha a sensação de que as coisas andam melhor e o mesmo ocorre nos períodos de dificuldade, quando se tem a impressão de que andam piores. Foi o que se observou recentemente nas avaliações do país que foi guindado, de uma hora para outra, à condição de cereja do bolo e dois anos depois rebaixado para a condição de cronicamente atrasado.
Deixando de lado avaliações extremas, entre os desafios de médio prazo, isto é, dos próximos quatro anos estão o realizar a Copa da Fifa, em 2014 e as Olimpíadas, em 2016. Isto não significa apenas concluir estádios e ginásios nos prazos pactuados, mas resolver problemas graves de infra-estrutura como: ampliação e modernização de portos, rodovias e aeroportos. Some-se a eles: melhorar os serviços nos hotéis, restaurantes, o mobiliário urbano e controlar a violência.
A lista acima não é inédita, a imprensa destaca ora um, ora outro ponto. Não estão aí os desafios de sempre como: preservar a memória nacional e aspectos significativos da cultura, manter a responsabilidade fiscal e a inflação sobre controle, oferecer educação de qualidade para a juventude e serviços de saúde eficiente, proteger as fronteiras, garantir o cumprimento das leis, combater a corrupção e fazer funcionar a previdência pública, etc. Também estes problemas não são desconhecidos.
O que não é tão conhecido e comentado são problemas de nossas raízes culturais responsáveis por nosso atraso e dificuldades. Se começarmos a enfrentá-los os desafios de sempre e os próximos serão vencidos em menos tempo e maior facilidade.
O primeiro é a necessidade de discutir e incorporar moral social laica e consensual. Moral social laica (não religiosa) e pactuada é distinta da religiosa que é importante para o crente e só para ele. A consensual e laica não desobriga dos compromissos sociais mesmo quando estão fora das convicções pessoais e religiosas.
O segundo é o sentido pessoal da responsabilidade, isto é, enfrentar os problemas e não esperar que alguém o faça por mim.  Não há nação forte sem que todos estejam comprometidos com sua missão, não importa qual seja.
O terceiro é a crônica ineficiência do serviço público e das empresas particulares, ancorada na falta de compromisso com a qualidade e competência. O desleixo alimenta a ética do atalho quando o que importa é descobrir quem é o responsável pelo que, para pedir privilégio no atendimento, enquanto a coletividade permanece na desgraça. Isto consolida o salve-se quem puder e a negligência imperdoável dos governantes com as tragédias anunciadas.
O quarto é o gasto supérfluo e suntuário e não o investimento que aumenta e consolida a riqueza.
O quinto é a enorme diferença entre ricos e pobres, apesar dos esforços louváveis do atual governo para reduzi-la. A sensação de que se paga muito imposto deve-se a que o funcionamento do Estado depende efetivamente de poucos. A maioria contribui pouco e depende muito.
O sexto é a desorganização partidária com arranjos impublicáveis, corrupção, coligações inviáveis e eleitoreiras. Isto dito sem desconhecer a consolidação da democracia e do Estado de Direito nas últimas três décadas.
O sétimo é o nível baixo de escolaridade que alimenta a improdutividade e as diferenças sociais.
O oitavo é a falta de planejamento eficiente e execução adequada o que leva ao improviso e o famoso ir-se safando do vender o almoço para comprar a janta.
A lista não está em ordem de importância, registra desafios. Alguns começam a ser enfrentados, a maioria não. Sem enfrentá-los continuaremos longe de ser o país que todos os brasileiros dizem sonhar. Ele não chegará a ser bom se sonharmos com a vida do suíço e agirmos como o personagem conhecido por “malandro carioca”.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

KISS – O BEIJO DA MORTE. Selvino Antonio Malfatti







Ainda sem abrir os lhos para o mundo sente o ímpeto de viver. Sofreguidão na procura do alimento de quem deu a vida. A partir daí a natureza acumula forças, vigor, vida em abundância. O corpo cresce, torna-se belo e tudo é encantador. Os hormônios fazem o sangue ferver de cupidez. Que bela é a vida. Cheia de energia, alegre, sempre precisar de esperança.
Por que os idosos falam de dor? Ressentem-se de decepções? Choram perdas de quê? De vez em quanto se houve falar que alguém está doente. Mas que mal tem? Falam que outro está desenganado. O que é isso? Comentam que fulano morreu. Que importa? Tudo está tão distante, inatingível. Isso é coisa de velho. O jovem está imune. Ele possui a vida que extravasa e inunda o seu redor.
Ah! Foi o velho doente que mora em outra cidade? O avô, bem, descansou o coitado. Por que o pai? Podiam ter durado mais alguns anos. Meu irmão? O problema é que não se cuidou! De repente se dá conta que ela rondou por perto. Mas aí? Mas aí já é tarde. Precisa urgentemente voltar. Mas “la diritta via era smarita”. Além disso, não há mais volta. O tempo, que parecia inesgotável, agora rola impassível, inexorável para Andrômeda.
Mas o jovem? O jovem não morre. Até vinte anos...a vida é eterna. Por que foi quebrada a lógica? Quem permitiu isso? O jovem? A família? Governo? A culpa? Não adiantam culpados. A vida não volta. A morte, sim, se compraz, diante da vítima. Esta desfalece. Antes da abocanhada final vai perdendo pedaços até deixar somente a metade. O corpo formiga, as pernas tremem e a boca endurece.  Partido ao meio sobrou apenas a metade, o corpo. Mas o pior é a perda da metade da alma. Vai junto com a outra parte. A realidade se torna etérea, evanescente, volátil. Levitam os sentimentos sem onde pousarem. Saltita a memória entre o início e o fim. O pensamento não consegue pensar. Ele se deixa levar pela ruptura da partição. Metade se foi. O que fará a outra metade?
Ao estupor sucede a revolta? Por se tirou metade. Talvez fosse preferível não ter sobrado nada, tirado tudo. Metade ficou para perambular inconsolável. A presença de quem se foi distanciando aos poucos, envolta em contemplação, luto, enlevo e revolta. Raiva e ódio. Por quê? Simplesmente não tem explicação. Aos poucos a resignação. Só resignação, nunca aceitação e menos ainda compreensão. Continuar a viver? Por que não partir junto? Mas encontrar onde a outra metade? Agarra-se a uma consolação: cuidou, rezou e chorou. Pelo menos o corpo recebe uma morada digna. A alma, onde estará ela? Às vezes faz alguma visita, mas muito rápida para deixar algumas gotas de bálsamo para a outra metade que ficou.  E então, com saudade exclama: “alma minha gentil, que te partiste tão cedo desta vida descontente, repousa lá no Céu eternamente” até nos unirmos novamente.

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