sexta-feira, 16 de agosto de 2024

VOTO = DEMOCRACIA? Selvino Antonio Malfatti.

 



Eleição nos USA. O candidato ex-presidente Donald Trump não aceita a derrota contra Joe Biden.

Eleição no Brasil. Ex-presidente Jair Bolsonaro não reconhece a vitória de Luís Inácio Lula da Silva.

Eleição na Venezuela. O opositor Edmundo González Urrutia  não aceita a derrota contra o presidente Nicolás Maduro.

Eleições municipais no Brasil em outubro. Como serão?

Nos três resultados eleitorais - Estados Unidos, Brasil e Venezuela - o perdedor não aceita a derrota, invocando fraudes que favoreceram seu opositor no pleito. Nos três casos a discórdia ocorreu com resultado. Por quê? Por que não bastam eleições, mas regras da eleição, a processo eletivo e lisura na apuração. Imaginemos:

Cenário 1 – Uma assembleia decide que haverá eleição. Espalha-se a notícia: alto falantes anunciam, jornais veiculam a notícia, rádios e canais de televisão informam nomes de candidatos de suas preferências.

Cenário 2- Eleição. Comparece o povo qualquer dia e qualquer hora, com crianças, jovens e adultos, gritando aleatoriamente nomes. Surgem protestos daqui e dali dizendo que crianças não podem votar. Uma confusão. generalizada.

Cenário 3- Apuração. Qualquer um atribui voto para qualquer um. Uns vociferam que o voto do delegado vale mais, outros que o voto é igual de todos, outros que o voto do pastor vale em dobro. Ninguém se entende

Nestes três cenários acima se constatam três momentos da eleição:  regras, processo e apuração.

Há um consenso em torno da aceitação da democracia e outro na condenação de outros regimes. Não se quer ditaduras, oligarquias, autocracias e o pior, o totalitário.

A História nos ensina que a passagem de um regime para outro, não se dá bruscamente. Só excepcionalmente ocorre uma ruptura repentina. O normal é que avance imperceptivelmente.

Vejamos como se transita de um regime democrático para um totalitário. Há um longo caminho a ser percorrido que precede este regime. Cada etapa prepara e torna mais fácil a próxima. A etapa antecedente molda a mente de cada um e da sociedade para aceitar a posterior. Esta dinâmica em tempos cruciais pode potenciar o processo. Quando ingressa nesta dinâmica algum ingrediente vivencial, identitário individual ou social se torna obsessivo e fora de controle. Esta psicose empana a mente deixando ter a correta percepção da realidade social e econômica. Podemos seguir a trajetória de um regime liberal para um totalitário.

Hitler liderava o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Tentou derrubar o governo alemão e foi preso. Durante o julgamento somou inimigos, mas também fanáticos seguidores. Na prisão escreve Mein Kamp (Minha Luta) expondo e esclarecendo seu pensamento político. Pretendia: expansão territorial, estado racial pura (ariano), eliminação dos judeus, ciganos e outros povos. 

Fora a prisão abandona o método revolucionário para conseguir o poder e opta por vias legais. Consegue isto em 1933 quando o presidente Paul von Hindenburg nomeou-o chanceler, cargo equivalente a primeiro ministro.

O programa do Mein Kamp vai tomando forma no seu governo. Desvia-se do rumo do governo e foca-se no aumento de poder. Para tanto passa a contestar as instituições, dissemina e incentiva a brutalidade, atira a culpa dos fracassos sobre grupos como judeus, divide a nação entre alemães puros e párias intrusos e exploradores. Dissemina o joio do ódio entre grupos e partidos e incentiva atos racistas.

O desfecho é conhecido. O líder totalitário ataca os demais poderes colocando-os no banco dos traidores. Fecha o congresso e o judiciário. Entrega ao exército e ao grupos de juízes escolhidos por ele o julgamento das acusações de ordem e de política. 

Institui o regime da rolha. Destrói a consciência individual, regime do terror, a desolação como diria Hanna Arend. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

SEXO DE JOVENS CATÓLICOS E EVANGÉLICOS. Selvino Antonio Malfatti

 



Sexo, o que é? Tentemos partir do conceito mais simples ao mais complexo. O primeiro e mais simples é um ato conjuntivo entre os órgãos de um ser masculino e um feminino. O mais complexo seria qualquer ato tanto masculino como feminino de origem ou fim libidinoso.

No passado embora houvesse “perversões” sexuais como; incesto, homossexualidade, zoofilia, pedofilia, pederastia, fetichismo, sadomasoquismo, transvestismo, narcisismo, autoerotismo, coprofilia, necrofilia, exibicionismo, voyeurismo, mutilações sexuais, o considerado normal era o sexo entre um ser masculino e um feminino. Atualmente, além das citadas práticas, a variedade é inumerável em quantidade e inqualificável nas formas.

Sexo sempre mereceu um controle de fora, desde as normas religiosas no passado até o controle próprio, o autocontrole atual.

Em que pese Aristóteles associar o sexo ao amor evidentemente não é mais exclusivamente assim nos dias atuais. Da mesma forma Tomás de Aquino vincula o sexo à finalidade do órgão que é a procriação.

A análise sociológica revela em contrapartida o sexo com objetivo exclusivo de prazer. Este será nosso foco(socióloga francesa Marion Maudet -No começo era o casal. Sexualidade, Amor e Religião entre os Jovens ).

Ainda a religião oferece resistências ao sexo como prazer. Sua orientação segue a raiz filosófica do amor e da procriação. Isto cria um conflito de consciência com a realidade social.

Faremos uma reflexão sobre esta realidade analisando principalmente duas vertentes religiosas cristãs no Brasil: os jovens católicos e evangélicos praticantes . Escolhemos população de 12 a 25 anos. Em ambos os grupos religiosos as orientações são recebidas nos centros religiosos como paróquias para os católicos e igrejas para os evangélicos.

Primeiramente os católicos. A partir de 1970 a vida sexual dos jovens católicos praticantes tem se aproximado dos não praticantes e não católicos. São as práticas mais comuns condenadas pela Igreja e praticadas em larga escala pelos jovens: masturbação, uso de contraceptivos, consumo de pornografia. O mesmo se pode dizer da primeira experiência sexual. Os jovens católicos portam-se como se não houvesse orientação religiosa. Em ambos, católicos e evangélicos, concordam que sexo antes do casamento é lícito.

Uma mudança ocorre com os jovens  quando chegam aos 25 anos.  Demonstram um apego mútuo do casal, valorizam o casamento e a fidelidade conjugal. A sexualidade é praticada no âmbito do casal e é neste ambiente que é legítima e satisfatória. As práticas sexuais modernas como “hookups”, poliamor são rechaçadas pelos casais que já veem no parceiro um futuro marido ou esposa. A orientação católica acompanha seus crentes neste processo por meio de cursos de preparação ao matrimônio, retiros espirituais e grupos de apoio.

E a questão da homossexualidade? Alguns jovens católicos praticantes separam radicalmente a fé e a orientação sexual. A vida sexual é uma coisa e a fé é outra. São esferas incomunicantes. Outros rompem com a fé religiosa, vivendo uma espiritualidade autônomas em relação à paróquia ou congregação religiosa. Rejeitam totalmente a orientação da religião.

Quanto aos evangélicos praticantes existem posições bem mais conservadoras. As orientações dos pastores são seguidas ao pé da letra. A Bíblia é algo imutável. Como a Bíblia condena sexo fora do casamento, então todo sexo deste contexto é pecado. Diz um pastor evangélico: “O sexo lidera a lista de pecados capitais evangélicos”. ( Marcos Botelho). O jornal italiano, “Corriere”, ao se referir aos escândalos de pederastia da Igreja católica diz: ” a cruz da Igreja é o sexo".

Estas considerações somente são válidas para jovens católicos e evangélicos, pois para os demais, vale tudo, quase uma pandemia sexual. Como dizem: como o diabo gosta.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

A democracia e seus inimigos. José Mauricio de Carvalho

 


A análise de Bauman sobre a liberdade na obra O mal-estar da pós-modernidade foi feita no contexto político. Quando alguém, num sistema democrático ele afirmou, perde uma contenda pode aguardar uma próxima oportunidade e o vencedor sabe que logo poderá ser derrotado num outro pleito. Nesse contexto, nenhuma derrota ou vitória é definitiva (id., p. 246): “a experiência dos que se empenham no jogo chamado liberdade é tão incerta, contingente e inconclusiva como o destino.” Portanto, a democracia encontra-se na raiz da liberdade.

A democracia, ao permitir a alternância de visões de mundo, mostra que a verdade pode ser olhada de diferentes modos e isso parece fundamental, pois uma única leitura da verdade já provocou desastres sem fim.  Bauman lembrou que (id., p. 248): “a história está cheia de assassínios de massa cometidos em nome de uma única verdade.” E pior ainda quando essa verdade se mistura com assuntos religiosos porque, nesse caso, as atrocidades não parecem absurdas, pois são feitas em nome de Deus. No caso (ibidem): “não são então os humanos os perpetradores da crueldade que assumem a responsabilidade, temendo assim serem censurados por sua consciência.”

Quando se pensa na verdade como estando na posse de um grupo, um partido ou uma ideologia isso sugeri que seja razoável o monopólio do poder e o controle de todos os outros indivíduos pela força. Por isso, a defesa da democracia aparece, na leitura de Bauman, como o caminho natural para evitar a opressão e a obediência cega a um determinado líder.

O pior do momento que vivemos é que as forças que pretendem eliminar as liberdades, creio que a seta de Bauman se dirige para a extrema-direita ou para ditadores de plantão, é que há aqueles que temem a liberdade. Esses não se importam em cedê-la voluntariamente (id., p. 250): “como demonstrou a experiência de nosso tempo de totalitarismo para além da dúvida razoável, com uma demasiada frequência o desejo de tirar a liberdade se encontra com o desejo de concedê-la.”  Assim, há aqueles que usam sua liberdade para renunciar a ela e assim perdem a possibilidade de experimentar e buscar um caminho próprio em meio às inseguranças da vida. Ao contrário, renunciam a ele para não viver a ansiedade que acompanha essas escolhas ou a insegurança quanto aos resultados. Bauman destacou que é um caminho inadequado renunciar a liberdade porque ela (id., p. 251): “é nosso destino: uma sorte de que não se pode desejar o afastamento e que não se vai embora por mais intensamente que possamos desviar dela os nossos olhos.”

A questão atual da liberdade inclui, ele avalia, a contradição entre aqueles muito ricos que querem mais dela para fazer literalmente tudo o que desejam e os mais pobres que não dispõe de quase nenhuma autonomia. A questão da liberdade se coloca de tal ordem que ela não pode ser assegurada pelos indivíduos, tanto porque é circunstanciada como porque individualmente nenhum sujeito é capaz de garanti-la individualmente (id., p. 255): “a liberdade individual não pode efetivamente ser atingida por esforços apenas individualmente; que para alguns poderem assegurar e desfrutar disso, algo deve ser feito para assegurar a todos a possibilidade de seu desfrute.” E, nesse contexto, parece ao nosso autor, que a única coisa justificável é ser solidário com os excluídos, aqueles que ele em outras obras denomina de lixo humano.

Fica-nos uma questão: é possível a democracia conviver com aqueles que embora vivam nela almejam destruí-la logo que possível? É possível admitir totalitários de plantão como foram Mussolini e Hitler no século passado, deixando-os disputar tranquilamente os pleitos e depois questionar o sistema para destruí-lo? Creio que o sistema precisaria se precaver desses oportunistas que, como serpentes venenosas, encontram-se escondidos na democracia para a matarem logo que aparece a oportunidade.

sábado, 27 de julho de 2024

ISMAIL KADARÉ, A VOZ DISCORDANTE DO TOTALITARISMO ALBANÊS. Selvino Antonio Malfatti.

 



Em 1º de julho deste mês, o mundo intelectual perdeu um grande pensador, Ismael Kadare. Natural de Gjirokastër e falecido aos 88 anos em Tirana, Albânia. Viveu a devastação da Segunda Guerra em seu país. Sua produção intelectual reflete os horrores que ele e seu país passaram. A obra principal: “Os Tambores da Chuva”.

Possui uma perspectiva universal e foi por isso que angariou fama mundial e sua obra está traduzida em mais de quarenta línguas.

O regime ditatorial e comunista de Enver Hoxha a contragosto tolerava-o embora tentasse cooptá-lo.  Com sua ida para França, 1990, conquista o reconhecimento internacional. Conquistou os principais prêmios:  

Man Booker International Prize, 2005

Prêmio Asturias për Letërsinë, 2009

Prêmio"Lerici Pea", 2010

Prêmio Jerusalém], 2015[9]

Commandeur de la Légion d’Honneur (C. LH), França, 2016

Prêmio "Letërsia shqipe", Kosovo, 2017

Prêmio "Nonino". 2018

Prêmio Park Kyung-ni 2019

Várias vezes indicado para Prêmio Nobel.

Um dos momentos decisivos na produção intelectual de Kadaré foi quando a Albânia foi anexada ao bloco comunista em 1950. A partir de então os intelectuais de seu país tiveram que se submeter às normas do Socialismo  Realismo. Autores que se negassem a se submeter ao pensamento foram impedidos de publicar. Outros apenas plagiavam obras soviéticas. Tanto a didática como a filiação ideológica foram impostos aos escritores. Os temas não podiam sair do círculo ideológico: luta pela libertação nacional, celebração dos progressos do socialismo ou assuntos afetos ao socialismo.

Quando Kadaré publica Os Tambores da Guerra, cujo conteúdo narra a história de um general e de um padre que buscam os restos mortais de soldados italianos mortos na guerra,  foi recebido com fúria pelo governo. A principal acusação era a definição dada a um padre: “um bom homem”. As tribulações de Kadaré contra o regime continuaram. Após a publicação de Os Tambores da Chuva o ditador reclama que seus livros são publicados no exterior e com conteúdo de tristeza. O ditador provocou-o a publicar algo sobre o “heroico partido albanês”. Kadaré não deu a menor atenção. No entanto o ditador fê-lo assinar uma declaração onde confessa ter “escrito coisas contrárias ao bem do povo”  (povo entendido como partido) comportando-se como “inimigo do comunismo”. Esta declaração foi apenas paras evitar represálias piores.

No romance “O Palácio dos Sonhos” praticamente faz uma paródia da Revolução dos Bichos de Orwell e descreve o sistema burocrático e policiesco do regime otomano, entendendo-se como o regime comunista. Revivia o Grande Fratello, Grande Irmão.

A substituição do ditador Hoxha por Ramiz Alia vislumbrou alguma esperança. No entanto, teve que declarar numa entrevista: “O Estado albanês prometeu tudo sem procurar soluções eficazes, enganou continuamente os cidadãos, mas na realidade ninguém tinha intenção de fazer nada».

Obras:

Os tambores da chuva

O Dossier H

Concerto no fim do inverno

O Palácio dos Sonhos

A Pirâmide

Três Cantos Fúnebres pelo Kosovo

Abril despedaçado

O General da Armada Morta (Le général de l'armée morte) 2004

O jantar errado, (Darka e gabuar), Companhia das Letras, 2013.

O acidente, (Aksidenti), Companhia das Letras, 2010

Crônica na pedra (Kronikë në gur), Companhia das Letras, 2008

Uma questão de loucura (Çështje të marrëzisë), Companhia das Letras, 2007.

Vida, jogo e morte de Lul Mazrek, (Jeta, loja dhe vdekja e Lul Mazrekut), Companhia das Letras, 2004.

Obra: “O General da Armada Morta”

“Vinte anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, um general e um coronel capelão do exército italiano, recebem um mandato pesado e delicado: encontrar os restos mortais de muitos dos nossos soldados que morreram na Albânia. A missão logo se choca contra as rochas de um clima hostil, de uma terra impermeável, à qual se soma a frieza de um povo orgulhoso para quem a guerra parece ser uma condição de vida. Quando o general estava pronto para trazer o exército morto de volta para casa, percebe que exumou, além dos restos mortais (ainda faltavam muitos na chamada silenciosa), também desconfianças e ressentimentos antigos, atávicos em um povo diferente nos costumes, no sentido da vida, da morte e da honra, que “sempre teve gosto por matar e ser morto”. Relembrando os horrores da guerra na terra das águias.  ((www.qlibri.it › romanzi › il-generale-dell'armata-mortaIl generale dell'armata morta - Ismail Kadare -) Tradução automática e do autor


sexta-feira, 19 de julho de 2024

O discurso da extrema direita e os sonhos da classe média. José Mauricio de Carvalho

 



Há muita coisa acontecendo nos últimos tempos, mas de modo geral podemos dizer o que têm em comum os nossos dias é que nada parece seguro. O clima econômico, político, social, axiológico muda de forma tão rápida que deixa as pessoas sem chão. Essa situação é olhada pelos mais brilhantes intelectuais de nossos dias como um tempo de crise. E esses intelectuais são unânimes ao reconhecer a crise de cultura, divergem, contudo, na sua leitura e explicações dela. Alguns dos mais conhecidos estudiosos da crise de nossos dias são Ortega y Gasset com seu estudo das massas, Vilém Flusser e suas análises das consequências deixadas pelos campos de concentração, Max Scheler e suas considerações sobre as transformações dos valores, Karl Jaspers e Viktor Frankl e por seus estudos sobre a falta de sentido da vida em meio a tantas transformações; ou talvez da fata de autenticidade, diria metafisicamente Martin Heidegger; provavelmente também uma crise de como entender e viver a liberdade diria Jean Paul Sartre; do que fazer na história dissera antes Kierkegaard; de um mundo sem referências absolutas, notara Nietzsche; ou que se esqueceu de dialogar com Deus, retificou Martin Buber. Em resumo, um mundo pouco preocupado com questões transcendentes ou referências estáveis.

Bauman enxergou na raiz dessa crise de cultura a existência de profundas alterações no mundo econômico devido às dificuldades de um capitalismo financeiro e globalizado. De um lado, há problemas econômicos o que significa que o dinheiro virou variável independente, o trabalho foi reduzido a mercadoria deixando se ter ênfase na relação intersubjetiva, a desterritorialização do capital, tornou frágil os governos nacionais diminuindo a capacidade de atuar do Estado Nacional.  Por isso, a relação dos cidadãos com o Estado ficou fragilizada, porque Ele não consegue lhes oferecer, com qualidade, aquele mínimo que se tinha como consenso até alguns anos. O Estado social está em agonia e cumpre mal a tarefa de oferecer educação e saúde de qualidade. Por outro lado, aumenta enormemente os gastos com segurança e os resultados são criticáveis.

Além dessas alterações econômicas e sociais, as guerras e disputas locais que explodiram no final da Guerra Fria provocaram e continuam provocando o deslocamento de milhões de pessoas pelo mundo, tornando gravíssimo o fluxo migratório mundial. E diminuindo, em contrapartida, o número de empregos de qualidade. O resultado é o aumento do migrante que chega em quantidade crescente nos países mais desenvolvidos. O empobrecimento da classe média passou a ameaçar a organização social e o fato a ser usado pelos políticos, especialmente de direita, como sendo a causa das dificuldades da sociedade, mesmo quando claramente não o é. A grande migração e o aumento do número de pobres é um sintoma e não a causa que está ocorrendo. No entanto, a classe média empobrecida, vendo os empregos reduzirem, vendo as oportunidades diminuírem, enxerga no migrante e no pobre uma ameaça real. O primeiro concorre com os poucos empregos que existem e o segundo lembra a classe média que ela pode ser pobre.

O discurso de direita que tanto cresce mundo afora quer parecer que seu projeto resgatará a qualidade da vida dessa classe média, que esse nacionalismo lhes protegerá dos migrante e pobres. Nesse sentido, o discurso contra qualquer esforço para melhorar a vida dos mais pobres é taxado de comunista e qualquer tentativa de limitar a ação do capital, mesmo quando ameaça seriamente a natureza, é apresentado como ameaça à liberdade.

Assim vamos seguindo, com a extrema direita desejando repetir seus feitos do último século e levar a humanidade a repetir o século XX.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Roberta Metsola reeleita presidente do Parlamento Europeu. Selvino Antonio Malfatti

 


                                           Roberta Metsola


A nova presidente do Parlamento Europeu é Roberta Metsola, do Partido Popular Europeu, este oriundo do extinto Partido da Democracia cristã. Recebeu 572 votos de um total de 720 eurodeputados. Pertence ao Partido Nacionalista de seu país.

Estudou em direito na Universidade de Malta. Doutorou-se em 2003.





sexta-feira, 12 de julho de 2024

Por que ler Bauman. José Maurício de Carvalho.

 


                                                 Friedrich Wilhelm Nietzsche

Uma questão que se nos apresenta desde que temos contato com um autor é: o que ele traz? O que ele comenta e como o faz? Nós falamos de um dos clássicos da Sociologia contemporânea, mas as repostas de Bauman para a crise de cultura ou as dificuldades de nosso tempo vão para muito além da Sociologia. Há dois campos em que suas questões logo dialogam, com a Filosofia e com a Economia. Talvez ainda haja um terceiro campo por onde passam seus estudos, a Psicologia.

Entendemos que os grandes intelectuais têm com seu tempo um compromisso vital, entendê-lo, decodifica-lo e apresenta-lo aos contemporâneos. O que o tornará um clássico é a qualidade do conteúdo que oferecerá na compreensão dos seus dias, dos seus problemas e de como eles dialogam com as grandes questões humanas. E não há como começar a entender Bauman se o percebemos acompanhar a enorme quantidade de intelectuais que se debruçaram com o tema da crise de cultura. Vivemos um tempo de crise, dias diferentes de quando a humanidade caminha serena em suas rotinas.

Desse entendimento partilham intelectuais de várias áreas como filósofos, historiadores, sociólogos, antropólogos e de tantas outras. E se são unânimes na identificação da crise, divergem, contudo, na sua leitura e explicações dela. Alguns dos mais conhecidos são Ortega y Gasset e seu estudo das massas, Vilém Flusser e seus estudos sobre os campos de concentração, Max Scheler e suas considerações sobre valores, Karl Jaspers e Viktor Frankl sua avaliação sobre a falta de sentido da vida; ou talvez de uma autenticidade, diria metafisicamente Martin Heidegger; provavelmente também uma crise de como entender e viver a liberdade diria Jean Paul Sartre; do que fazer na história disse Kierkegaard; de um mundo sem valores absolutos, dissera Nietzsche; ou que deixou de considerar Deus, retificou Martin Buber.

Bauman enxergou na raiz da crise a existência de profundas alterações no mundo econômico e as próprias dificuldades do capitalismo globalizado. De um lado há problemas econômicos o que significa que o dinheiro virou variável independente, o trabalho foi reduzido a mercadoria deixando se ser elemento na relação intersubjetiva, a desterritorialização do capital, tornou frágil os governos nacionais reduzindo o estado de ação do Estado do bem estar social.  Por isso, a relação dos cidadãos com o Estado ficou fragilizada, porque esse não consegue lhe oferecer com qualidade aquele mínimo que ele se acostumou a ouvir ser obrigação do Estado. As guerras e disputas locais provocaram o deslocamento de milhões de pessoas pelo mundo, tornando gravíssimo o deslocamento migratório de grande quantidade de pessoas. E a presença do estrangeiro em grande quantidade passou a ameaçar a organização social e ser usado pelos políticos de direita como sendo a causa das grandes dificuldades da sociedade, mesmo quando claramente não o é.

E esse mundo em transformação acelerada afeta a vida das pessoas e torna a existência subjetiva um desafio de sentido, isso porque a sociedade de consumo estimulou tratar as dores e dúvidas da existência fora de um esforço pelo sentido. Sem qualificar a rotina a pessoa passa a nela viver apenas o gozo irresponsável apontado pela sociedade na distração e do consumo. Em certo sentido esse é um quadro que veio se desenhando há mais de um século e que se acelerou desde o final do último século. Porém já encontramos notícias desses assuntos na conhecida obra de Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra onde o filósofo antecipou a antítese entre o homem que tomava a vida nas mãos e o contrário dele, o hedonista irresponsável ou o niilista arquetípico que nada faz de notável, não aceita correr riscos e busca apenas conforto na rotina, gozo consumista e segurança.

A sociedade de massa e de consumo de nossos dias ajuda a promover esse novo hedonismo. Ela orienta a forma de viver: sente a vida vazia? Consuma! O reflexo consumista é melancólico identifica o desafio existencial, os medos e a finitude e os reduz a sentir vazio, frio, deprimido e o combate com a necessidade de encher o íntimo de coisas quentes, ricas, prazeirosas. Claro que as indicações de consumo são amplas, não se limitam a alimento (pode ser roupa, passeio, distração em geral, sexo irresponsável, relações efêmeras, tudo o que apenas distrai e não tem razão maior). O resultado de tal vida é que estamos vendo crescer pelo mundo: a depressão, o medo, a insegurança, consumo de drogas, ou ainda um conservadorismo anacrônico que procura voltar a costumes e antigos padrões existenciais que não respondem mais aos novos desafios. A questão é que essa proposta redunda em amores líquidos, relações sem consistência, além da tristeza, infelicidade, nervosismo, insônia, como descreveu o psiquiatra Viktor Frankl. O simples atendimento do desejo não resolve a questão existencial, o desejo quer gozar. Assim cada desejo satisfeito acende outro numa aspiral crescente e acelerada, alimentando a ansiedade e, no fundo, a insatisfação com a vida se a tanto ela se limita.

E o que nos permite pensar as considerações de Bauman sobre a crise de cultura, as soluções propostas e os dilemas que elas abrem? Que o encontra-se como sempre esteve preso ao mundo material e dos prazeres que ele necessita para viver, mas não lhe oferece sentido. Esse mundo o domina e aniquila, deixando-o na solidão, na depressão, na insegurança, no tédio que se segue ao prazer e na ameaça de se perder nas coisas, de se tornar uma coisa entre tantas. Fica-nos o desafio do sentido, das buscas de um ente que se descobre em movimento, mas que é preciso se abrir a coisas maiores entre os desafios banais do que fazer no dia a dia.

Então vemos reaparecer os alertas que a filosofia fez nos últimos tempos. Não há como fugir do mundo e de seus desafios, mas a forma como se faz isso faz toda a diferença. Sem abertura a algo maior, a pessoa fica na sua limitação e infelicidade. E sem se questionar sobre o que há, sem encontrar um sentido para o ordinário, fica-se no muito limitado. Tenho que encontrar um sentido pessoal, mas há referências culturais que não se pode desconhecer, que não se pode perder. Elas ajudam na qualificação da vida. A cultura me oferece a Ciência, a Filosofia, a Religião, a Arte e preciso apanhar na cultura o que meu tempo tem a dizer de cada um desses elementos. Somente assim consigo me orientar e estar à altura do meu tempo. Desses aspectos culturais a Filosofia abrirá um diálogo com a transcendência no espaço da razão e nos ajudará a superar esses dilemas.  Caberá a cada um buscar apoio e conhecimento em cada uma das grandes construções culturais.

 

 

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