sexta-feira, 2 de junho de 2023

O amor. José Mauricio de Carvalho

 



O amor é um destes temas universais e perenes que tocam nosso coração e inteligência. É assunto de todos os grupos humanos e é tratado pelos tempos afora com a mesma paixão e interesse. E sendo universal em seu encantamento é descrito em diferentes criações culturais como: nos poemas mais lidos, nos romances mais famosos, nas criações filosóficas e nos tratados científicos. E assim, por diferentes olhares e pelos tempos afora, o amor é assunto, por excelência, humano. O que surge para o homem de mais sagrado, grandioso e sublime aparece em sua consciência como amor, segundo a síntese de Jo. 4-8: “Deus é amor.”

A história do ocidente privilegiou quatro olhares para o amor. Na antiguidade, Platão considerava que Eros (amor) era a capacidade de pensar e que conclama a perfeição, elevando o olhar do particular sensível para o inteligível. Separando o divino da contaminação sensível chega-se a mais alta beleza: o amor contemplação. Na modernidade e noutro contexto, René Descartes observou que quando estamos unidos a um objeto e julgamos um bem possui-lo, nós o desejamos. Para ele, isso era amor. Um de seus discípulos famosos chamado Baruch Spinoza, deu sublimidade a essa interpretação dizendo que o amor é ir ao amado com serenidade e alegria, ou uma forma de beatitude. O romântico Domingos Gonçalves de Magalhães, julgou necessário distinguir no amor o impulso físico ou sexual dos sentimentos vividos intimamente na relação com o amado.

Nos dias atuais, quando passamos por uma crise de cultura que se arrasta há décadas, encontramos um homem frequentemente perdido em suas escolhas existenciais, com pouca clareza quanto ao sentido de sua vida e com escolhas que fariam a vida valer a pena. Suas relações pessoais possuem intenções confusas e um propósito não manifesto de não interagir. Essa realidade social instável se manifesta, na síntese de Zygmunt Bauman, nos encontros humanos ficando (Vida em fragmentos, Rio de Janeiro: Zahar, p. 123): “a estabilidade e a confiabilidade das relações humanas não em melhores condições.” Isso significa que as forças sociais, especialmente as práticas econômicas, conspiram contra vínculos estáveis, inclusive as relações de amor, (id., p. 124): “porque elas são disfuncionais no quadro do capitalismo corporativista. (...) O jogo da vida é rápido, totalmente absorvedor e consumidor da atenção, tornando nulo o tempo para parar e traçar projetos elaborados.” Encontramos, por resultado, uma vida fragmentada, onde o tempo perde a linearidade e onde o indivíduo se desconecta de seu passado e seu futuro, resultando em relações humanas mais estéticas do que éticas, não por adesão a gostos elaborados, mas para eliminar o compromisso com o outro, como aparece no romance A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera.

Embora seja necessário examinar o sentido do amor nessa crise de cultura, vamos destacar o olhar que o filósofo espanhol José Ortega y Gasset tem para o amor de homens e mulheres. Ele parte dos incômodos do amor, isto é, cada homem ou mulher que cruza conosco passa diante de nós como uma máscara debaixo da qual gesticula doendo gozoso o mistério de sua personalidade erótica. Essa partida para o tema, considerando uma força vital que alimenta o coração faz do amor não uma escolha racional, mas um entregar-se ao amado mesmo quando não se querer. Portanto, amor é emoção profunda e total. O que vem depois pode alimentá-lo ou mata-lo: cumplicidade, companheirismo, amizade, projetos comuns, afinidade, etc.

Ortega enxerga que a mulher, considerando a distinção fenomenológica, tem uma alma (psique) mais potente que o homem e esse mais força no espírito (pensamento). Por isso, o filósofo avaliou, a mulher conhece melhor sua intimidade, transita mais suavemente entre o sim e o não e esse equilíbrio ela realiza maravilhosamente e de forma delicada. A alma é o espaço entre os desejos fisiológicos e o pensamento, lugar dos sentimentos.

Como a vida tem muitos limites e dificuldades, o amor, em suas muitas formas (filial, fraternal, pela humanidade, romântico ou a caridade cristã) é lugar de descanso em nessa trajetória. E, para o pensador, geralmente a mulher conhece melhor este maravilhoso repouso que consiste em ser arrebatado, em viver, pelo amado. E o amor é uma tal forma de descanso que a distância do amado torna a vida mais pesada, e os lugares onde se viveu junto um lugar de boas e/ou tristes recordações.

Ortega observou que a beleza física torna a pessoa um objeto estético, capaz de atrair olhares, mas não paixões ou amores. Esses nascem por outras razões, ocultas ou inconscientes para nós. E assim, ainda que essa leitura esteja influenciada por nossa cultura e pela crise atual, essas são importantes sugestões do filósofo. Elas servem para nos ajudar a dialogar com nossa realidade social, o que é sempre complexo.

Apesar de nossas atuais dificuldades culturais, o amor continua sendo um dos mais importantes moventes da vida, um de seus sentidos mais maravilhosos e uma experiência riquíssima para todos os que são capazes de enxergar no outro alguém a ser amado.

 

 


sexta-feira, 26 de maio de 2023

A ética e a vida. José Mauricio de Carvalho

 




Quando o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche mencionava a aristocracia em seus textos sobre moral, tinha em vista antigas elites que não se preocupavam em justificar sua liderança. A moralidade enquanto costume, para ele, apenas afastava os grandes homens de seu destino. Se ele obedece leis externas não estará atento a suas exigências. Sendo assim, o espírito livre não é moral, porque nunca buscará fora um limite para seus impulsos. Zygmunt Bauman disse que Nietzsche afirmara isso considerando a moral cristã um projeto dos escravos de Roma, porém a liderança que o Nietzsche mirava era a medieval que vivia em castelos. Esse grupo de nobres constituía uma minoria distante da maioria (Vida em fragmentos, Zahar, 2011, p. 59): “nem construindo e nem precisando construir pontes por sobre o abismo que os mantinha separados, sem esperar por nenhuma comunicação dos comuns e dos de baixo, nem sentir a necessidade de comunicar qualquer coisa a eles.”

Em contrapartida, quanto a elite moderna, escreveu Bauman, quando pensou seu papel entendeu que necessitava justificar sua liderança perante as massas. Elas, então, precisaram de razões para liderar o que queria dizer que (id., p 60): “precisavam de uma ética – um código de regras para todos e para todas as ocasiões da vida, regras ubíquas, atingindo cada recanto e cada fenda do espaço dominado, direcionando ou detendo, conforme o caso exigisse, cada movimento para todos que habitassem aquele espaço.” Quanto à maioria moderna, em contrapartida, não necessitava de regras éticas uma vez que estavam numa situação que os obrigava por uma força brutal, as suas necessidades materiais. Essa maioria, que Bauman acolheu com a nomenclatura marxista de dominados, não necessitava, pois, de regras éticas. A ideia de que ela possuía algum modelo ético está distante da realidade e assim, segundo Bauman, não perderam o que não tinham. Para esses grupos não houve perda de padrões éticos, pois nunca acolheram as éticas dos filósofos como nunca entenderam a noção de mercado dos economistas. Para Bauman a maioria não é tocada por esses conceitos.

A interpretação de Bauman, em que pese acolha a ideia de crise de cultura que é fecunda, leva a conclusão de que (id., p. 64): “a crise da ética não necessariamente augura uma crise de moralidade. E ainda menos obviamente o fim da era da ética proclama o fim da moralidade.” Nesse sentido, as pessoas que vivem nesse novo tempo precisarão decidir o que fazer e se depararão com dilemas morais sem ter por referência uma regra moral. E nessa situação precisam se posicionar com a autonomia moral e também com sua responsabilidade. Essa conclusão de que a massa não necessita de um modelo ético como pano de fundo de suas escolhas morais parece injustificável, ainda que ela de fato não se detenha em construir e nem em fundamentar princípios. Reduzir as escolhas da maioria a responder a necessidades materiais tem o óbvio limite de acolher a visão materialista de um homem reduzido ao econômico, que foi próprio do marxismo do século XIX, visão superada nos séculos XX e XXI como disse Ortega há quase um século. O reconhecimento de que essa maioria, mesmo sem ter o controle da vida econômica, acabou assumindo o protagonismo da vida social, como mostrou Ortega y Gasset em A rebelião das massas, está mais próximo do que vemos acontecer. E há mais, a adesão das massas a uma interpretação rasa do evangelho cristão em nossos dias mostra o quanto o homem necessita de referências transcendentes para guiar-se no dia a dia. Isso considerando que essa interpretação, que lhe é ofertada em muitas religiões, está longe de uma leitura hermenêutica dos evangelhos. De todo modo, à parte dessas diferenças, podemos destacar uma confluência entre os dois filósofos, tanto Bauman quanto Ortega entenderam que as massas que assumem o protagonismo social no mundo pós-moderno não possuem um modelo ético, nem buscam a excelência da ação em suas escolhas quotidianas.

 

sexta-feira, 19 de maio de 2023

O TOTALITARISMO WOKE - A NOVIDADE DO SÉCULO VINTE UM: Selvino Antonio Malfatti

 


Já não se pode dizer que seja um caso isolado o “woke”. Pulula em diversas culturas, em territórios não contínuos, em línguas nada afins, em lugares diversos tanto distantes como próximos. Enfim, já é um fenômeno pancultural. Ouvimo-lo: na Irlanda, no Canadá, Austrália, Reino Unido, Estados Unidos, Brasil, União Europeia entre outros.

O que significa ou o que é “woke”? O verbo é o passado de “wake”, despertar. Como adjetivo significa bem informado, atualizado. Estar atento para as injustiças sociais, mormente o racismo. É um despertar para os problemas sociais, mormente o racismo e desigualdade. Além da raça (envolve também a imigração), questões trans, segurança e saúde na União Europeia. O perigo está no exclusivismo do "woke". 

No mundo político mundial, entenda-se onde há liberdade de opinião, expressas nas redes sociais, é iminente a aprovação de novas leis abrangentes que permitiriam aos governos censurar cidadãos pelas manifestações nas  plataformas de comunicação. A desculpa é prevenir “danos” e para tanto há uma onda de governos que querem colocar na mira da censura empresas de tecnologias. A tática é sempre a mesma: achar um inimigo comum na sociedade acusá-lo publicamente e culpa-lo pelos prejuízos causados à sociedade e apresentá-lo como alvo a ser atacado por todos. Nada mais semelhante que a estratégia de Hitler contra os Hebreus. Unem-se políticos, ONGs e agentes facilitadores para divulgar a necessidade e proteger o público contra as falsas informações, conhecido como “fake News”.

A Irlanda está prestes a aprovar uma lei que pode prender quem for considerado de posse de material de “discurso de ódio”. Nos Estados Unidos pela Lei Restrict o governo pode monitorar a atividade na internet se for considerado de risco à segurança. No Canadá o governo pode filtrar os conteúdos divulgados na internet. Na Austrália funcionários governamentais podem exigir remover conteúdos sociais. No Reino Unido pode haver exigências para censurar publicações. No Brasil está prestes a quererem implantar penalidades para “fake News”.

O mais ameaçador instrumento do controle das redes no Brasil é o PL 2630/2020 que, caso aprovado, “matará a internet moderna” conforme uma publicação da Telegram de 9 de maio deste. A votação na câmara dos deputados ainda não tem data desde que retirado pelo deputado comunista Orlando Silva.

Um dos alvos prediletos, pela importância das redes sociais é a União Europeia. A Lei de Serviços Digitais obriga as grandes empresas de tecnologia a compartilharem os dados com pesquisadores credenciados e a moderação ficaria a cargo de ONGs governamentais.

Concomitante ao avanço da expansão do “woke”, o Complexo Industrial da censura, cresce na mesma proporção e até mais a resistência. Citaremos algumas:

-  Está previsto um evento público em Londres, junho, e construir uma contrapartida ao Complexo Industrial, através da resistência  “o movimento global ao totalitarismo”.

- Na Irlanda em oposição à “criação de um crime de pensamento” estão sendo propostas emendas para que seja derrotado.

- No Canadá a romancista Margaret Atwood criticou a onda Woke dizendo que burocratas não tem nada a sugerir aos criadores  e um deputado criticou o “"O Projeto C-11 é perigoso por si só, mas também é um precedente para um governo que deseja estender essa forma de controle tecnocrático a outras áreas além do conteúdo online. Ele estabelece a base e o campo de testes para a inteligência artificial e algoritmos serem usados para controlar as massas."

- Na Nova Zelândia há ação direta de think tank com o “Projeto de Desinformação”. Os think tank explicitam melhor as ideias de debates sobre temas políticos, econômicos e científicos. Existem quase duas centenas deles no mundo, como Austrália, Brasil e União Europeia geral.

- Há evidentes sinais de que o mundo está se unindo contra a pressão “woke” através de censura promovida pelos “Woke” no mundo todo, objetivando um totalitarismo. A reação é a defesa de liberdade de expressão. (Michael Shellenberger, um ambientalista e Alex Gutentag, colunista na Tablet Magazine)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sexta-feira, 12 de maio de 2023

ÀS MÃES E EDUCADORAS – MARIA MONTESSORI E CECÍLIA MEIRELES. Selvino Antonio Malfatti

 






ÀS MÃES E EDUCADORAS – CECÍLIA MEIRELES E MARIA MONTESSORI.  Selvino Antonio Malfatti

    Para o Dia das Mães trago à reflexão duas mães e duas educadoras: Cecília Meireles e Maria Montessori.

    Pelos fortes traços de aproximação pode-se estabelecer um paralelo entre as duas mães e educadoras: Cecília Meireles brasileira e Maria Montessori, italiana. Ambas marcaram presença na educação na Década de Trinta, cada uma a seu modo, cada uma em seu país.

    Maria Montessori por ocasião dos setenta anos de sua morte 6 de maio, os educadores de mundo todo se voltam para o método educacional desenvolvido por ela.

    Formada em medicina pela universidade de Roma foi uma mulher pioneira como médica na Itália. Consagrou-se como pedagoga científica pelo seu método o qual consiste relacionar o desenvolvimento biológico e mental através do treinamento dos movimentos musculares que são exigidos no cumprimento das tarefas. Isto ela chamou de desenvolvimento integral da criança.

    Começou então sua projeção mundial como educadora.  Ela Ministrou cursos em diversos estados norte-americanos, Espanha, Índia, Holanda entre outros.

    Montessori, reconhecida internacionalmente faleceu na Holanda em 6 de maio de 1952.

    Cecília Meireles, por sua vez, (1901-1964) é uma educadora brasileira. Nasceu no estado do Rio de Janeiro. Em vida o torvelinho político envolveu Cecília. Em 1930, estoura a Revolução da Aliança Liberal cujo comando estava a cargo de Getúlio Vargas. Em 1932, deflagra a Revolução Paulista contra Vargas e o constitucionalismo. Nova Constituição de 1934 e o Golpe de Estado de 1937. No período ocorre o tenentismo, a intentona comunista, Ação Integralista e outros.

    Cecília, respeitada em seu país, faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de novembro de 1964.

Ambas:

1.    Viveram em regimes ditatoriais: Cecília com Getúlio e Montessori com Mussolini

2. Tiveram grande presença educativa na década de Trinta.

3. Ambas tiveram relação inicial amigável com os ditadores e depois romperam.

4. Propuseram uma nova concepção na educação. Cecília uma escola nova e leiga e Montessori uma educação livre e novo método

 5. Dedicaram-se de modo especial às crianças.

 6. Foram liberais.

CECÍLIA MEIRELES e a educação Infantil:

O que os livros de literatura infantil deveriam abrigar em seu bojo? Primeiramente deveriam ser livros agradáveis às crianças, o que elas demonstrassem prazer em ler. Por isso, não se deveria estabelecer a divisão de “literatura infantil”, para crianças, mas literatura das crianças, isto é, o que elas optaram para si. Desse modo, não seria uma literatura “a priori” feita por adultos, mas literatura infantil “a posteriori”, feita pelas crianças.

MARIA MONTESSORI a educação das crianças:

Na essência a proposta de Montessori é de Rousseau. “...o filho ensina a mãe”.  Para ela, diferente da orientação tradicional, a criança deve ter uma orientação para se tornar autônoma e não submissa. Diferente de obediência irrestrita que acata ordens, a autonomia sabe acatar as ordens, mas sabe também ser autônomo. Por isso que a autora propõe que nunca se deve impedir uma criança de fazer o que quer só por ser pequena. Por ser pequena não deve impedi-la de tentar fazer o que tem em mente. No mundo as crianças estão viajando num meio de transporte e os adultos são seus guias.


Outro aspecto para ambas a respeito do conteúdo da literatura infantil refere-se ao conteúdo espiritual dos livros. Para Cecília o ponto de partida sempre deve ser a criança para a criança e não o adulto para a criança. Os conteúdos científicos, literários e morais devem merecer o atrativo das crianças, antes dos educadores. Evidentemente o adulto colocaria ao alcance das crianças um universo de obras-primas e as crianças escolheriam o que lhes agradasse. Certamente não se deveria deixar totalmente ao critério das crianças, isto é, levá-las a uma biblioteca e escolhessem o que bem quisessem. O educador escolheria as melhores obras e destas a criança escolheria a que a agradasse.

 


sábado, 6 de maio de 2023

ORIGENS DO PENSAMENTO LIBERTÁRIO – ROUSSEAU. Selvino Antonio Malfatti

 




Não seria fácil encontrar um filósofo-pai com tantos paradoxos e contradições no decorrer da vida como Jean-Jacques Rousseau. A começar que nasceu de um parto cuja mãe morreu no seu nascimento. Foi entregue pelo pai a seu tio que por sua vez o enviou a um sacerdote para estudar. Apaixona-se por sua protetora Thérése Levasseur com a qual tem cinco filhos. Não tendo recursos para criá-los e sustentá-los os entrega a um orfanato. Esta será a saga e trajetória de vida e pensamento de Rousseau.

Comecemos com a concepção de homem individual, em Rousseau. Seus fundamentos estão principalmente no "Emílio".  Conforme ele existe uma oposição entre a educação da natureza, livre, e a educação da sociedade, deformadora. O homem e o cidadão distinguem-se. O cidadão é o homem em sociedade. O cidadão e o homem são inimigos, pois enquanto o homem é universal, a unidade numérica, absoluto, inteiro, sem relação com nada, a não ser consigo mesmo ou com seu semelhante, o cidadão é apenas uma fração com denominador e seu valor depende do social. As instituições sociais, por sua vez, quanto mais desnaturarem o homem, transformarem o "moi" em "commum", melhores o serão, pois é exatamente esta a função da vida em sociedade: liquidarem com o homem.

Ainda, conforme ele, constatamos dois tipos de educação: a pública e a doméstica. A pública é a educação do cidadão, dada pelo Estado. Educação para fazer os homens se parecerem uns com os outros.  A educação para a contradição. É a educação das instituições sociais como "Religião", "Moral", "Educação", "Casamento", praticados na educação do Emílio.

A educação doméstica é a do homem, da mãe ou da natureza. Por ela, se conseguiria formar uma sociedade constituída de tipos ideais com "Emílios", "Sofias", "Vigários", "Empregadas", e outros. Uma educação em que que o filho ensina a mãe. a natureza a cima do progresso. 

O homem individual, natural para Rousseau, seria puro, casto, bom, generoso, isto é, teria todas as qualidades que a bondade natural tem. Para ele, progresso, a ciência como, por exemplo, a Medicina, desprezados e considerados antinaturais. O homem, quando de posse da ciência e tecnologia, deturpa a natureza.

O homem da natureza, errante nas florestas, sem indústria, sem ciência nem tecnologia, sem domicílio, sem guerra e sem ligações com seus semelhantes, sem desejo de prejudicar ninguém, sem reconhecer sua própria individualidade, autossuficiente e único, não tinha passado nem continuidade. Era o homem sempre criança. Neste estado, não havia desigualdade entre os homens. Isto tudo se quebra quando o homem dá o salto para a sociedade. Como isto ocorreu? Diz Rousseau:

"O primeiro que, tendo cercado o terreno, se lembrou de dizer: “isto é meu” e encontrou pessoas bastante simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil".

Os dois direitos de igualdade e de propriedade nascem de um ato antinatural, violento. E por ele, o direito de liberdade do outro, ficou limitado perante o usurpador de uma propriedade. O direito de propriedade, que para os jus-naturalistas era um direito natural, para Rousseau não passa de um roubo. Para ele, somente alguém poderia invocar este direito quando a sociedade lhe conferisse, e assim mesmo, sempre provisoriamente.

A multiplicação da espécie humana, somada às dificuldades de subsistência geraram dificuldades. Estas premiram os homens no esforço de utilizarem sua inteligência e conseguiram inventar. As invenções provocaram relações: grande e pequeno, forte e fraco, devagar, medroso, ousado. Surge, então, o interesse comum, e com ele, a concorrência. Estabelecem-se compromissos. E quanto mais o homem era estimulado, mais usava sua razão para progredir. Começou a usar instrumentos, fez habitações, e com elas, surgiu a família. Nela nasce a linguagem. Reunião de famílias dá origem às tribos. O homem começa a elaborar conceitos e com eles as desigualdades. Nascem os deveres civis, e com eles a ideia de prêmio e castigo. O passo seguinte será a moralidade. Deve ser abolida: o homem tem a natureza para guiá-lo.

Estava instituída a sociedade libertária.

O projeto agora é voltar à natureza. Renegar a civilização e entronizar o homem natural. 


sexta-feira, 28 de abril de 2023

A TEORIA DO “nudge”. Selvino Antonio Malfatti.

 










Quem já não deu socos na cabeça de arrependimento por causa de um negócio mal feito? Foi a uma revendedora com o firme propósito de comprar um carro usado e acabou comprando um zero pelo triplo do preço? Pergunta-se:

- Onde estava com a cabeça?

Foi uma ação direcionada pelo revendedor através do «nudge» ou “empurrãozinho”.

O «nudge» é uma teoria analisada por Ricardo Viale no presente artigo. Basicamente significa que o ser humano além de racional é influenciado também por outros fatores como emoção, crenças, tradições, valores entre outros. Isto quer dizer que as decisões tomadas nem sempre são racionais.

Diante desta constatação a tarefa de quem influi é estimular as pessoas para que compreendam o ponto de vista de quem expõe. É mostrar que suas razões são as melhores, que as escolhas são as mais racionais e que aderindo trará não só bem estar como o melhor. 

A justificativa é que no cérebro humano há uma zona em que não predomina a razão, mas outros valores. Portanto, bastaria desviar o cérebro da racionalidade e enveredá-lo para outras escolhas. Seria uma questão de dar um “empurrãozinho” para outros valores transfigurando-os em racionais eletivos. Além das escolhas racionais podem dar-se através de automatismos, ilusões e distorções. A racionalidade humana é limitada, cometemos erros ilógicos, tendo como suporte preconceitos. Muitas vezes o que elegemos como o mais vantajoso, na verdade é o mais ilusório. Para os não escolhidos pela razão são jogados no depósito dos problemas.

O “nudge” é polivalente. Seus conteúdos podem ser aplicados a segmentos, classes, estratos, estamentos, hierarquias e grupos sociais e em níveis diversos. Não é refratário nem aos setores públicos, nem privados.

O ser humano é influenciado com tudo o que cerca e os conceitos que habitam nossa razão. Tudo o que os nos cerca, seres materiais e imateriais, pode ser objeto de “nudge” para nosso intelecto.

Não só objetos sensoriais como perfumes, layout do ambiente, sons podem influenciar nossa mente, mas também o emocional do cliente objeto do “nudge”, despertando nele uma necessidade ou um problema. Pode-se sugerir um falso problema ou necessidade e “descobrir” uma solução como se fosse um estímulo de recompensa. Alguém com dúvidas sobre a namorada certa pode descobrir na outra a solução através de “nudge” sugerido por outro, como beleza, inteligência, carinho, simpatia, companheirismo qualidades estas não encontradas na outra.

A “nudge” não é inexorável. Encontrará resistência perante:

1. Ação racional, tendo presente uma verdade, avaliada sob a luz da razão como um fim em si e escolhida sem qualquer tipo de coação. Neste caso há uma perfeita sintonia entre o ser buscado e a razão. As possíveis influências não racionais caem por terra diante das evidências do confronto entre veracidade e falsidade.

2. Ação racional, tendo presente um valor, avaliado sob a luz da razão como um bem em si e escolhido sem qualquer tipo de coação. Do mesmo modo o valor revestido da racionalidade anula os argumentos do “nudge”.

3. Ação sentimental, tendo presente uma emoção, avaliada pelo sentimento como uma sacralidade e escolhida de conformidade com a satisfação. Um sentimento despojado de influências externas ilusórias e calcado na reta razão se torna imbatível pelo “nudge”.

4. Ação tradicional, tendo presente um costume, avaliado tradicionalmente como eficaz e escolhido sob a égide da validade da repetição também pode enfrentar os ataques do “nudge” e sair vencedor. 

Com isto: “Além do Empurrão”, salvam-se a Liberdade de escolha, felicidade e comportamento livre.

Texto de Ricardo Viale:

"Liberdade de escolha, felicidade e comportamento

Somos seres racionais, mas com uma racionalidade limitada pela incerteza do meio e pelas características de nossa mente. Esta dupla condição leva-nos a tomar decisões por vezes imperfeitas do ponto de vista econômico. Não apenas na esfera privada: mesmo como cidadãos estamos sujeitos a muitos desvios da racionalidade. A esse respeito, o prêmio Nobel de economia Richard H. Thaler e o jurista Cass Sunstein cunharam o termo "nudge": para indicar um "empurrãozinho" que o Estado pode fornecer para nos fazer tomar decisões efetivas em várias questões cruciais. áreas da nossa vida, como a saúde (vacinar-se ou não) e a economia (inscrever-se ou não numa pensão complementar). Ao apresentar uma nova versão do “nudge”, atualizada às recentes descobertas das ciências comportamentais, o volume ilustra os processos cognitivos que estão na base do sucesso de estratégias e políticas úteis para o nosso bem-estar e a nossa felicidade."


sexta-feira, 21 de abril de 2023

Filosofia no Brasil - Antonio Paim


 

Em 30 de abril completam-se dois anos da morte de Antonio Paim. Por muitos é considerado um dos maiores filósofos brasileiros. Na entrevista que segue algumas ideias  com Crisóstomo e Ricardo Andrade.

 

Crisóstomo e Ricardo Andrade conversam com Antônio Paim sobre Filosofia no Brasil (1)

Crisóstomo - Você tem um vasto trabalho de história do pensamento filosófico no Brasil, não apenas como historiador das ideias mas também como filósofo. Puxando a brasa para minha sardinha, pois esse é o problema que mais me interessa quando me ocupo de pensamento filosófico brasileiro, entendo que você entra naquela história, trata de encontrar aí verdadeiros desenvolvimentos filosóficos, e sai dela com uma proposta filosófica e uma tarefa para filósofos brasileiros: o Culturalismo. Você e o conjunto de pesquisadores do Instituto Brasileiro de Filosofia. É isso? Existe mesmo essa posição? Começando, então, pelo fim, o que é esse Culturalismo, que creio você compartilha com mais representantes do IBF? Quais são as suas teses? Trata-se de um humanismo da pessoa, de um neokantismo (incluindo contribuições hegelianas), de um anti-positivismo (embora amigável à ciência)? E, em termos de filosofia política, trata-se de um liberalismo moderado?

Antônio Paim – Eu sou kantiano. Quer dizer, na verdade o kantismo é uma forma de discutir, é um esquema que a sociedade ocidental encontrou para discutir a cultura, não é? A cultura, do ponto de vista marxista, estaria ligada a luta de classes, determinada pela condição proprietária, o que, como kantiano, não aceito. Mas houve em torno disso, no próprio marxismo, uma disputa de doutrina (que descrevo no meu livro Marxismo e Descendência), sobre esse determinismo, até na Rússia soviética. A discussão começou porque, primeiro, no próprio desenvolvimento da ciência, os russos esbarraram numa porção de problemas que saiam do esquema de “lutas de classe”. O ponto de partida foi um livro do Stalin em que ele examinava a questão da linguística: O marxismo e a questão da linguística. Ele diz nesse livro que a língua e a técnica não são parte da superestrutura classista. Então não há língua de classe, nem técnica de classe. Eu estudava na Universidade de Lomonosov e lá esse livro do Stalin “legalizou” de certa forma os estudos linguísticos.

Ricardo Andrade – Quer dizer que a ciência e a linguagem, que pelo menos parte da cultura, da chamada superestrutura, não seria simplesmente de classe?

Antônio Paim: Essa é a discussão que descrevo no livro: a ciência não é de classe. Quer dizer, não existe matemática de classe, nem biologia de classe. Então, essa discussão do livro do Stalin foi muito enriquecedora, mas ela chegou a certo ponto em que o marxismo ficaria sem objeto, e a discussão foi interrompida. Eu me lembro que assisti a um jurista soviético dizer que “o direito penal não é de classe”. Que o suposto, para os dois lados, é o mesmo: que a pessoa humana é recuperável. Então, aí, eu me lembro que o jurista decano resolveu encerrar a discussão, porque ia acabar com o objeto do marxismo (risos). Naquele livro, eu mostrei que o marxismo também não é impermeável, não é uma coisa dogmática assim, que você diga “aqui nesse santo ninguém mexe”. Enfim, a respeito da cultura eu sou kantiano. Acho que o problema é um processo histórico de constituição de determinada área, ou seja, vai se construindo... É o que eu tentei fazer a propósito da filosofia brasileira. Quer dizer, tentar apreender como é que nós construímos historicamente nosso contato com o real. Você tem uma realidade, como você se aproxima dela? Então, a partir disso você constrói uma esfera de saber.

Ricardo Andrade: - E a tarefa do culturalismo, para a cultura brasileira?

Antônio Paim - Bom, essas coisas estão respondidas no meu História das Ideias Filosóficas no Brasil. Essa obra está na Internet na página do Instituto de Humanidades: www.institutodehumanidades.com.br. Tem lá todos os meus livros, os livros do Ricardo Velez, do Prota, enfim, tem todos os livros do Instituto Brasileiro de Filosofia. E depois tem os cursos, né? cursos de humanidades. Quanto à história da filosofia no Brasil, eu examinei primeiro as ideias filosóficas em debate. Depois, as correntes, escolas e tudo mais, no segundo volume. E a tarefa do culturalismo para a cultura brasileira? Não tem tarefa. A cultura brasileira está estudada na minha obra. Não tem propriamente a coisa do culturalismo; tenho aí uma hipótese sobre o Brasil, publicada num livro, Momentos Decisivos da História do Brasil. Quer dizer, acho que o que o culturalismo, o kantismo, na filosofia, ajuda a conceber... Nós partimos da hipótese de que existe uma coisa chamada ‘moralidade social básica’. Uma hipótese que pode ser discutida por quem quiser. Uma moralidade que, no nosso caso brasileiro, historicamente, não é muito propícia ao desenvolvimento. Mas haveria uma outra alternativa, o Brasil poderia, no século XVIII, ter escolhido seguir o caminho da indústria, da agroindústria, a moenda, a movimentação dela, a energia para movê-la. Então, enfim. havia outras alternativas. Por que uma delas não foi seguida? Sei lá, isso ai é um mistério... Como é que se forma uma moral social. É difícil de dizer por que se escolheu aquilo.

Ricardo Andrade – Qual contribuição específica a filosofia poderia dar ao pensamento do Brasil, em distinção, por ex., da investigação sociológica?

Antônio Paim – Eu acho muito pretensiosa essa discussão... Quer dizer: então não pode haver uma inquirição a respeito da sociedade brasileira, é isso? Isso não pode ser investigação filosófica?

Crisóstomo – Se não me engano, alguns expoentes do IBF veem um déficit histórico no nosso pensamento filosófico – originariamente dominado pela Escolástica - no que tange ao reconhecimento da noção de autoconsciência. Malgrado traços em Antônio Vieira, uma contribuição decisiva em Gonçalves de Magalhães, quiçá outra em Tobias Barreto, etc. Quais seriam os marcos principais desse desenvolvimento da consciência ou autoconsciência na nossa história da filosofia? Algo da literatura brasileira poderia entrar aí? Se se trata de ir às primeiras origens positivas para o pensamento filosófico do Brasil, não seria o caso de destacar, para além de nossa prolongada, sufocante e atávica formação colonial escolástica, as contribuições anti-escolásticas (ou, pelo menos, não-escolásticas), no período colonial, de Francisco Sanches e Mathias Ayres?

Antônio Paim – Eu não sei se seria bem isso de autoconsciência. Temos alguns pontos de partida que são difíceis de delinear. Por exemplo, como já sugeri, há um momento na cultura brasileira em que, por interferência da Inquisição, nós escolhemos, em vez de seguir o caminho que levou à revolução industrial, seguir os passos da Inquisição. Quer dizer, é um dado histórico isso. Eu acho que a contribuição que o culturalismo deu para o entendimento do Brasil... Não tenho diploma nenhum pra estar falando do culturalismo mas, como eu andei dando uns palpites nessa matéria, eu posso opinar, né? Então, eu acho que a nossa contribuição vai no sentido de que existe uma moralidade social básica, que você não explica como ela foi escolhida.

Ricardo Andrade - O catolicismo atrapalhou o desenvolvimento nacional, é isso?

Antônio Paim - O Brasil era um grande fornecedor de açúcar. Os engenhos de açúcar, as usinas de açúcar do período colonial... Chegou no século XVIII sendo uma espécie de dono desse mercado. Mas a Inquisição começou a perseguir, porque o que havia na Inquisição era uma incompatibilidade da Igreja Católica com o desenvolvimento do que se chamou depois de capitalismo. De modo que acho que o que nós contribuímos foi para dar uma ideia do nosso processo histórico em geral. Pode ser que a autoconsciência não seja um bom termo...

Crisóstomo – Para além de um simples inventário, ainda que vasto e valioso, de pensadores brasileiros e de suas ideias, e além da proposta culturalista já assinalada, o que você vê como paisagem geral – resumidissimamente, claro - do pensamento filosófico brasileiro, em termos de suas vertentes e debates? Há p. ex. o que se poderia chamar de uma corrente hegeliana - “de esquerda” e “de direita” - particularmente relevante, no nosso percurso filosófico? Me lembro de, ainda garoto, ter lido um interessante trabalho de Djacir Menezes, Proudhon, Hegel e a Dialética, e depois obras dos representantes do ISEB, alguns dos quais assimilavam, além de Hegel e Marx, também Sartre e a Fenomenologia, numa espécie de pensamento, hoje se diria, descolonial ou pós-colonial...

Antônio Paim: Eu acho que são ciclos. Por exemplo, a primeira corrente do nosso pensamento que se estruturou é a que veio de Victor Cousin, do coletivo de Cousin, o Ecletismo. E acho que tem muita coisa interessante ali, sobretudo na oposição que desenvolve ao esquematismo de que o homem seria uma espécie de máquina. Você vê, o senso do tempo ia e você reagia... O grande mérito do kantismo quanto a isso é reagir num ponto essencial, o estabelecimento da moral. Porque você não tinha como, daquele esquema mecanicista, vamos chamar assim, inferir o comportamento moral, que é essencial para convivência social.

Ricardo Andrade – E além do Ecletismo de Cousin?

Antônio Paim – Eu associaria a pergunta do Crisóstomo aos ciclos históricos. Então há um outro ciclo histórico que vejo, que talvez não seja crença dos culturalistas de modo geral, que seria o entendimento de que a cultura é um setor para ser examinado do ponto de vista filosófico, e não, mecanicamente, do ponto de vista de qualquer ciência isolada. Esse ciclo esgotou-se? É provável, eu estou com 92 anos, já chega, né? já vivi o suficiente (risos). Mas não tenho outra perspectiva. Então acho que estamos num ciclo em que ainda predomina um mecanicismo. O que não quer dizer que não haja outras correntes, não digo isso de modo nenhum. Passando ao marxismo brasileiro, por exemplo, tem um livro que se chama Formação do Capital e seu Desenvolvimento, do Leônidas Resende. Esse livro introduziu o marxismo no Brasil, e o que Leônidas diz nele é o seguinte: Karl Marx e Auguste Comte viveram na mesma época, tiveram os mesmos mestres e no fim pensaram a mesma coisa. A única diferença é que um é revolucionário e o outro é reformista. Quer dizer, é um equívoco funesto isso, eu acho, porque o Comtismo é um determinismo. Enquanto acho que o marxismo é uma construção que, se você tiver habilidade suficiente, você consegue... Nós não tivemos suficiente habilidade para impedir que o marxismo no Brasil dominasse certas áreas do conhecimento... Mas aquele marxismo positivista é um equívoco.

Crisóstomo – A essa altura poderíamos talvez aludir à velha história da bipartição da filosofia universitária brasileira, faz muitas décadas, entre, de um lado, a turma da filosofia (ou história da filosofia) de tipo uspiano, estruturalista, liderada, digamos, por José Arthur Giannotti, e, de outro, a turma do Instituto Brasileiro de Filosofia, que você integra, liderada por Miguel Reale. A primeira, ligada ao rigor da leitura estruturalista de obras de uma pluralidade de filósofos clássicos, canônicos, europeus. No entanto às vezes considerada toda de esquerda ou mesmo marxista. E, em todo caso, avessa a expressões brasileiras de pensamento. Toi essa turma que se tornou numérica e institucionalmente dominante. A segunda, que perdeu peso, predominantemente interessada na pesquisa do pensamento filosófico brasileiro, considerada pela outra como sendo, em seu conjunto, de direita, ou mesmo, reacionária e pró-ditadura de 1964. Considerada também predominantemente amadorista, desprovida de rigor, enquanto trabalho filosófico universitário. Como amadorista seria também toda a nossa produção filosófica anterior, que ela queria estudar, desprovida, por isso mesmo, de qualquer interesse. Daquele tempo para cá, porém, a primeira vertente, a estruturalista, abriu-se à filosofia analítica, ao estudo do pensamento epistemológico e político liberal anglo-americano contemporâneo, agora até à chamada “filosofia comparativa” e, embora ainda bem aos poucos, também a algum interesse pelo pensamento filosófico brasileiro, ou pelas expressões brasileiras de espírito. Como no meu próprio caso, que ainda no século passado escrevi mais ou menos nessa linha um ensaio “A Filosofia como Coisa Civil”. Como mostrado também, recentemente, no considerável debate, na Coluna Anpof, sobre Filosofia Brasileira. E como nos preciosos trabalhos sobre a filosofia no Brasil de Paulo Margutti e Ivan Domingues. Na sua opinião, o pensamento filosófico de direita e o pensamento brasileiro, histórico, continuam a ser ignorados pelo establishment filosófico brasileiro? A propósito, desde o começo dessa pendenga, Immanuel Kant parece ter sido sempre, apesar de tudo, a menina dos olhos dos dois lados. E é fato também que alguns filósofos vieram a transitar nos dois lados, como, se não me engano, Tércio Sampaio Ferraz ou Vilém Flusser. Você acha que ainda faz sentido falar naquela divisão, digamos, em termos de abrasileirados de direita e estrangeirados de esquerda? Você não acha que um feliz desenvolvimento para a comunidade filosófica brasileira poderia ser uma combinação de um pensamento filosófico mais técnico com a disposição e contribuição ensaística brasileira, histórica, eventualmente menos “rigorosa” mas, em alguns casos, de expressão tentativamente mais autoral, além de contextualmente referida?

Antônio Paim – Olha, eu acho que é um mal aquela vinculação política. Quer dizer, não tem por que concordar ou discordar do que você diz, porque… Bem, quando voltei da Rússia queria me ver livre do marxismo, resolvi fazer o curso de filosofia de novo, acabei entrando para ensinar. No fim, houve, acho que em 1968, uma mudança na universidade. Na continuação de uma decisão de criar departamento, de extinguir a cátedra, etc. Mas, como havia o governo militar no meio…, era uma continuação, mas virou uma coisa de direita. Mas eu não aceitei isso, e vários outros professores não aceitaram a discussão nesses termos....

Ricardo Andrade – Mas e a disputa entre os estruturalistas, a turma da leitura cerrada, da fidelidade ao texto, e os historiadores do pensamento brasileiro?

Antônio Paim – Não sei se isso que você está chamando de estruturalismo é esclarecedor nessa disputa. Quer dizer, há na verdade uma discussão que remonta ao começo dos tempos (dos tempos nossos, né?). O professor Miguel Reale resolveu esse problema mas ele está sempre voltando. É que a filosofia é dividida em certos segmentos. Quer dizer, você tem uma perspectiva filosófica em torno a Kant e em torno a Platão, que são duas grandes perspectivas diferentes, não haveria uma terceira. Quer dizer, pode ser que haja, mas para mim não saiu, Husserl por exemplo não conseguiu. Além disso, em cima disso, constroem-se sistemas de filosofia, sistemas que a história mostra que não são duradores, que desaparecem. Hoje não há mais nenhum sistema filosófico que consiga abrigar uma porção de gente e dar um certo rumo. Então o que sobressai é essa fragmentação, que é legítima, se você considera e aceita a hipótese do Miguel Reale, de que o que desenvolve a filosofia não são os sistemas, são os problemas. O mérito dos sistemas é que eles põem uma certa estrutura, mas nessa fixação de limites aparecem as limitações, etc. O que está subjacente a isto é que há problemas que são recorrentes. E é aí que entra a filosofia nacional, que se distingue da filosofia inglesa, americana... São as questões, não os sistemas, de que ela deve se ocupar...

Ricardo Andrade – Como você avalia o interesse atual dos filósofos acadêmicos pela filosofia brasileira? Quais seriam as possíveis consequências de um maior ou menor interesse nesse campo?

Antônio Paim – Olha, eu não conheço esses interesses. O que eu imagino é que houve tempos atrás uma exclusão... Impôs-se uma politização que sempre quisemos evitar: de que a filosofia brasileira é dirigida por um grupo de direitistas. Tudo bem, não acredito que é um problema ser de direita... Agora, isso não tem nada que ver com nossa obra. Se há um interesse, se voltar a ideia, a ideia não, o dispositivo legal, de que no quarto ano do ensino de filosofia haveria um semestre dedicado à filosofia brasileira, isso vai exigir professor com essa formação, vai começar tudo de novo...

Ricardo Andrade – Quais seriam as possíveis consequências desse um maior interesse por filosofia brasileira?

Antônio Paim - Não vai acontecer nada, não vai estourar a cabeça de ninguém (risos). vai ser um processo normal. Silvio Romero (1851-1914)), num concurso que estava prestando para a Faculdade de Direito, disse que a metafísica estava morta. Então os catedráticos examinadores lá, que eram da filosofia antiga, estranharam e perguntaram se foi ele que matou (risos). Ele ficou irritado, mandou tudo à merda e largou todos para lá. Tobias Barreto (1839-1889), que era um desorganizado, voltou a essa questão, andou escrevendo uns artigos e largou para lá. Ele não dava maior importância às coisas dele, que o próprio Silvio às vezes guardava até o fim. Mas eu achei um artigo dele que era uma espécie de resposta a isto. Futuquei, futuquei e achei outros. Quer dizer, é dali que nasce uma outra alternativa para o positivismo. O positivismo é que afirma que a metafísica está morta. Se o positivismo tem razão, tem alguma hipótese que possa levar a um outro caminho? Pode ser uma metafísica que não se ocupe dos temas clássicos, sobrevivência da alma, coisas que estavam na filosofia antiga, né? Esse foi o caso com a metafísica. Então, eu acredito que, com um maior interesse por filosofia brasileira, vai haver uma certa movimentação filosófica...

Crisóstomo – Por indicação do meu Departamento, você, quando eu ainda não lhe conhecia, participou da minha banca de concurso para professor titular em 1994, junto com os professores João Quartim, marxista ortodoxo, Olgária Mattos, marxista frankfurtiana, Arley Moreno, wittgensteiniano, Francisco Pinheiro, ex-padre, tomista. Como parte desse concurso, apresentei uma conferência no campo do hegelianismo de esquerda. Você me aprovou, junto com os demais, com uma nota excelente, não obstante ser eu, além disso, aparentemente mais do que a concorrência, um representante típico do outro lado, uspiano-unicampista. Vale recordar que minha titulação de doutorado, considerada no mesmo concurso, foi obtida com uma tese sobre Marx e Stirner, examinada pelos profs. Marcos Müller (meu orientador), Cirne Lima, Paulo Arantes, Carlos Alberto de Moura e Michel Debrun. Depois daquele concurso, você e eu nos tornamos próximos, tendo você, que simpaticamente me chamava, com exagero nos dois adjetivos, de “jovem marxista” (na verdade eu já não era jovem e começava a desenvolver meu próprio pós-hegelianismo pragmatista), me convidado  contribuir nas atividades do Centro de Estudos de Pensamento Brasileiro. E eu de fato sempre me interessei em conhecer melhor o chamado pensamento brasileiro. Por essas e outras, e ainda pelo que li de seus livros, me acostumei a ver você como, além de aplicado estudioso daquele pensamento, um representante do Esclarecimento, do secularismo, do pluralismo e da tolerância liberais. Diante disso, gostaria de saber o que você acha da atual negação radical, ao que parece de direita e conservadora, que assomou no nosso País nos últimos anos. Uma negação, intolerante, do Esclarecimento, da Modernidade, do Racionalismo, associada a certas visões filosóficas e “científicas” bastante inusitadas, bem como a certo fundamentalismo religioso...

Antônio Paim – Não… o que apoio é que a CAPES não pode ser um ente partidário. Ela conseguiu fechar todos os cursos que estudavam o pensamento brasileiro. Vou dar um exemplo. No nosso programa nós tínhamos uma revista, e a avaliação da CAPES disse o seguinte: O grupo de professores é muito ativo e tal, publica muito, mas todos num único veículo. Então a gente ficou com nota C ou D, sei lá, só sei que a gente ficou por baixo. Já a UNICAMP ganhou uma nota A porque tinha uma revista, só que havia três anos que ela não saia. Quer dizer, um negócio muito parcial. Isso é uma posição minha; eu não acho adequado que seja o Estado que diga que isso aqui é bom ou isso aqui é ruim, em matéria de pensamento. Acho que isso não é uma boa coisa. Nos países desenvolvidos, a avaliação se o curso tal é bom é feita por instituições privadas. Por ex.: Qual o objetivo do curso? o curso é para formar professores para trabalhar em que? Então, isso é fácil de medir, né? Você formou, tem emprego ou não tem. Agora, quando o objetivo é mais geral, tem a ver com a cultura, aí fica… o Estado não tem que se meter. A meu ver, né?

Ricardo Andrade – Uma proposta como “escola sem partido” não seria uma maneira do Estado interferir indevidamente no trabalho do professor?

Antônio Paim – Isso sou contra. Não tem por que o Estado estar se metendo nisso. Eu ensinei Kant durante muito tempo na Universidade. Eu dizia na primeira aula que sou kantiano. “Estou aqui para ensinar vocês a lerem a Crítica da Razão Pura pela primeira vez. Se isso aqui for entendido como proselitismo, então vamos ver onde é que está o proselitismo”. Porque eu condeno isso. Ou seja, não estou querendo que quem for aristotélico vire kantiano. Estou querendo é que a formação permita a quem se disponha a ter uma posição – porque não é obrigatório que tenha, né? – que tenha liberdade de escolha. Liberdade que eu digo no sentido de conhecimento de causa. Quer dizer, você escolhe o Aristóteles por isso, escolhe o Marx por isso. Escolhe. Para não ser uma coisa imposta ou dogmática.

Ricardo Andrade – Eu gostaria de conhecer sua opinião sobre o ensino da filosofia no segundo grau. Num livro que publiquei com André Galvão (Crítico Intrépido! Filósofo Tímido? Sílvio Romero e o ensino secundário de filosofia no Brasil), no qual você gentilmente assinou a contracapa, nós apresentamos as ideias de Silvio Romero para a reforma do currículo do Colégio Dom Pedro II. Silvio entendeu que seria uma espécie de abuso obrigar os jovens a estudar matérias complicadas, como são as filosóficas, numa idade em que eles ainda não estão devidamente amadurecidos para enfrentar os problemas da filosofia. Por isso, ele sugeriu a substituição de um programa de metafísica, de moral, etc., por um de lógica, que ensinasse aos jovens as bases da argumentação consistente. Pergunto, na sua opinião, a filosofia deveria ser obrigatória ou os jovens poderiam escolher se querem ou não estudar filosofia na escola?

 

Antônio Paim – Eu não tenho uma opinião sobre isso, honestamente. Quer dizer, seria útil, a meu ver, se fosse possível ensinar que o contato com o real é sempre relativo a um certo posicionamento. Eu sei que é muito difícil fazer isso. Por isso eu tenho dúvida. Porque é muito difícil você simplificar a tal ponto que não seja uma simplificação (risos).

Ricardo Andrade – Mas, você acha que o jovem precisa disso ou ele poderia esperar mais um pouco para ter contato com a filosofia? Quanto mais cedo melhor?

Antônio Paim - Eu acho que precisa. Quanto mais cedo melhor. Se fosse possível dosar. Por exemplo, por que você deve saber que tem matemática, que tem ciências sociais, mas não tem que saber que tem filosofia? Não tem religião? Não tem moral? De outro lado, ocorrem certas gaiatices... Me lembro que no meu tempo se examinou a questão de saber se o ensino de filosofia não estava sendo uma coisa ridícula. Como por exemplo ensinar que filosofia peripatética é andar para lá e para cá. Não sei, corre-se esse risco, mas acho que vale a pena. Honestamente, acho que sim.

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(1) Antônio Paim publica sobre filosofia no Brasil desde 1966, é autor do extenso História das Ideias Filosóficas no Brasil (1984), seguido de numerosos Estudos Complementares. Paim nasceu em Jacobina, Bahia, em 1927 e viveu hoje numa casa de repouso para idosos em São Paulo, onde, com muito boa vontade e certa dificuldade, recebeu Ricardo Andrade (UFRB) para essa conversa, em 17/01/19. 

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