sexta-feira, 15 de abril de 2022

Páscoa. José Mauricio de Carvalho

 




                                  "Cristo Ressuscitado no Túmulo"


 

A Páscoa é uma festa judaica relatada na Bíblia. No Primeiro Testamento os livros relataram a história da libertação dos judeus do Egito. Eles denominavam de Pessach ou "Festa da Libertação", a celebração desse fato que se deu aproximadamente em 1446 a.C. O relato bíblico mostra que a efetiva presença de Deus representou uma virada na vida dos judeus cativos no antigo Egito, introduzindo na vida do povo uma vida nova cheia de esperança. O que significou isso? Que a presença de Deus, quando invocada com fé consciente tem o poder de mudar as coisas do mundo. Porém, o livro do Êxodo mostra também que a mudança não vem sem sofrimento e que a libertação e a esperança são conquistas que incluem uma transformação interna que o homem pode experimentar diante de Deus, se ele superar o que o mantinha numa vida pobre e inautêntica. Uma vida que não contempla todas as possibilidades de uma vida plena. Em Êxodo 16,3 se lê: “Quem dera tivéssemos morrido por mão do Senhor na terra do Egito, quando estávamos sentados junto às panelas de carne, quando comíamos pão até fartar! Porque nos tendes trazido a este deserto, para matardes de fome a toda esta multidão.” E esse mesmo lamento da condição anterior, da perda da confortável prisão em que viviam se repete no livro de Números 11:4-6: "Ah, se tivéssemos carne para comer! Nós nos lembramos dos peixes que comíamos de graça no Egito, e também dos pepinos, das melancias, dos alhos porós, das cebolas e dos alhos. Mas agora perdemos o apetite; nunca vemos nada, a não ser este maná! "

 

O episódio da saída de uma vida de escravidão para uma vida em liberdade, com a promessa de uma vida plena numa terra de fartura mostra que o homem vive nesse mundo e que enquanto aqui estiver deve construir um sentido para viver, mas um sentido que não se esgota no dia a dia ou na fenomenologia da existência. Ele precisa descobrir para ter vida plena um sentido que vá além dos objetivos imediatos.

 

O Segundo Testamento considera também a Páscoa o momento de passagem para uma vida plena. Nela Jesus recupera a vida depois de haver morrido. A fazê-lo acena para a continuação da vida como está em Mt, 28, 1-7: “Passado o sábado, no domingo bem cedo, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo onde Jesus tinha sido enterrado. 2 Naquela ocasião houve um grande terremoto, pois um anjo do Senhor tinha descido do céu, removido a pedra que fechava o túmulo e agora estava sentado sobre a pedra. 3 Ele se parecia com um relâmpago e as suas roupas eram brancas como a neve. 4 Os guardas tinham ficado com tanto medo, ao ponto que ficaram tremendo e, ao mesmo tempo, paralisados como se estivessem mortos. 5 Então o anjo disse às mulheres:—Deixem de ter medo! Eu sei que vocês vieram procurar por Jesus, aquele que foi crucificado, 6 mas ele não está mais aqui. Ele ressuscitou, exatamente como havia dito que iria fazer. Venham ver o lugar onde ele estava deitado. 7 Agora, vão depressa e digam aos discípulos dele o seguinte: “Jesus ressuscitou dos mortos e vai adiante de vocês para a Galileia. Lá vocês o verão novamente”.

 

 As duas descrições bíblicas da Páscoa representam a passagem de uma realidade para outra mais plena, que lhe dá continuidade. E creio que se possa somar às duas descrições pois Jesus cumpriu toda a Lei antiga e foi um judeu excelente como reconheceram Martin Buber e Vilém Flusser, esse último considerou mesmo Jesus a figura central do judaísmo porque nele via quem conseguiu modificar a consciência histórica dos homens com a noção de fraternidade universal. Isso significava apresentar um projeto existencial para todos os homens com termos universalmente judaicos.” E assim, embora pregasse para os filhos perdidos da casa de Israel que viviam naqueles dias, a mensagem de Jesus é transhistórica isto é, possui um sentido existencial que não fica presa à contingências históricas. Jesus recolhe em si toda a experiência judaica e depois a apresenta para o mundo todo e com validade para todos os tempos. E como modelo Ele está além de toda realidade concreta. Creio que a Páscoa traduz isso, a proposta de um grande sentido existencial que vem da passagem de uma vida para outra mais plena.


sexta-feira, 8 de abril de 2022

ESCATOLOGIA: O DESTINO DA HUMANIDADE. José Tiago da Silva Machado

 




Pr. José Tiago da Silva Machado

Bacharel em Teologia Bíblica pela UNINTER[1]

 

O termo escatologia deriva do grego: estudo: eschatos, que significa “último no tempo ou no lugar; último numa série de lugares; último numa sucessão temporal”, e de logos, que pode significar “doutrina, ensino”.

Sendo assim, a escatologia bíblica é o ensino das últimas coisas, é a doutrina que revela os eventos futuros para toda humanidade, incluindo a Terra e tudo que existe no universo. Portanto a escatologia bíblica não só mostra o desfecho final da teologia cristã, mas mostra o poder e domínio de Deus sobre toda a criação. “A escatologia bíblica é o ponto culminante da teologia sistemática, não é apenas o clímax, o desfecho final da teologia cristã, mas mostra o poder e domínio de Deus sobre toda a criação” [i].

Uma grande parte das pessoas tem curiosidade sobre o que vai acontecer no futuro, elas querem saber o que irá acontecer em seguida. A vinda de Cristo está relacionada com o fim dos tempos? Como saber se a vinda de Cristo está próxima e quais os sinais?

São tempos difíceis, muitas coisas acontecendo e tão rápido que dificilmente se pode acompanhar, antes de nos recuperarmos de algum evento surge algo ainda maior; tensões entre as nações, crise econômica mundial, doenças, pandemia, crise moral, violência, desenvolvimento de armas, guerras, fome no mundo todo, os suicídios aumentando, sentimos que o mundo está se direcionando para algum grande acontecimento.

O objetivo desse estudo é ajudar a compreender o que a bíblia diz sobre o futuro, apontar para os sinais do fim dos tempos, bem como o arrebatamento que também faz parte do contexto escatológico. “A singularidade de Deus está expressa na natureza preditiva da profecia bíblica. Não há nada assim em qualquer outra religião. Somente o Deus da Bíblia pode prever o futuro com perfeita exatidão” [ii].

O propósito das profecias bíblicas não é amedrontar as pessoas, mas trazer clareza e esperança para o povo de Deus. Em tempos de incerteza humana podemos descansar seguros na promessa do Senhor “Aguardando a Bem-aventurada esperança, e o aparecimento da glória do Grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” [iii].

Já no Antigo Testamento essa promessa era anunciada. “Eu sou Deus, e não há outro Deus [...] que anuncio o fim desde o princípio e, desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam [...] porque assim o disse, e assim acontecerá”[iv]

Será mencionado também o acontecimento que é considerado o ápice do cumprimento de todos os sinais referentes ao fim dos tempos que é o arrebatamento da Igreja e a segunda vinda de Cristo.

Tendo em vista os aspectos como o fim dos tempos e a volta de Cristo, percebemos que não importa o que o ser humano faça: o destino da humanidade está nas mãos de Deus e tudo já está preparado. Em Apocalipse Ap 7. 9-14[v]livro do julgamento vindouro está na mão direita do que está assentado no Trono, o qual mostra como acontecerá o julgamento e que finalmente concluirá a Redenção da terra.

A escatologia não trata apenas da destruição e do fim do mundo, mas mostra o poder de Deus salvando o seu povo (Israel), que vai se arrepender[vi]  e aqueles que passarem pela tribulação e lavarem suas vestes no Sangue do Cordeiro [vii]

Para a igreja do Senhor (a Noiva), há uma promessa: Jesus Cristo virá como noivo e a levará para as bodas. Essa é a esperança que temos; cremos que seremos arrebatados antes do “Grande Dia do Senhor”. Algumas histórias na bíblia nos levam a crer nesta promessa. Em Hebreus 11.5 diz que Enoque foi arrebatado para não provar a morte. Elias foi levado para o céu em um redemoinho. O próprio Jesus Cristo foi elevado as alturas até ser oculto por uma nuvem, sendo visto por muitos Galileus[viii] .Dessa mesma forma os salvos em Cristo, na ocasião do arrebatamento, subirão para encontrar com o Senhor nos ares como está escrito.[ix]

Estudando o contexto das profecias escatológicas percebemos que estamos no princípio das dores. Guerras, doenças, terremotos em vários lugares e muitos outros acontecimentos são sinais que a bíblia mostra que iríamos viver nos últimos tempos.

Não sabemos quando será o fim, mas cremos que há um futuro certo para todos. O fim é para aqueles que recusarem o perdão oferecido por Jesus Cristo, mas aqueles que creem e aceitaram esse perdão, será o início de uma nova vida com Deus.

Não precisamos temer o fim, nem se preocupar com o futuro, pois temos uma promessa feita pelo próprio Senhor Jesus. “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Você crê nisso? [x]

“Se, com tua boca, confessares ao Senhor Jesus e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo [...]. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será Salvo” [xi] “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devemos ser salvos [xii] , Jesus é o único caminho que nos leva ao Pai. “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna" [xiii].

A razão pela qual Deus deu tantas informações em Sua Palavra sobre o fim dos tempos é que Ele não quer que sejamos achados negligenciando a sua vontade, mas servindo ao Senhor. O Seu desejo é que todos venham ao arrependimento, e vivam com Ele para sempre no céu João.[xiv]


[1] Data de Nascimento: 23/05/1984

Pastor da Igreja Evangélica Gerados pela Palavra

Terapeuta 



[i] HISTÓRIA DAS RELIGIÕES, 2016, p. 101).

[ii] LAHAYE, Tim; HINDSON, 2015, p. 7

[iii] Tito, 2: 13

[iv] Isaías, 46: 9b; 10ª; 11b

[v] Ap 7. 9-14

[vi] Isaías, 46: 9b; 10ª; 11b

[vii] Ap 7. 9-14

[viii] Ap 7. 9-14

[ix] 1 Tessalonicenses 4. 14-17.

[x] João, 11: 25,26).

[xi] Romanos 10: 9,13).

[xii] Romanos 10: 9,13).

[xiii] João, 3: 36

[xiv] João, 3: 36




sexta-feira, 1 de abril de 2022

SALVATORE VECA – MIRAGEM SOCIALISTA X REALISMO LIBERAL . Selvino Antonio Malfatti.

 



Salvatore Vercca, nascido em 1943 em Roma, graduou-se em 1966 na Universidade de Milão. Em seguida professor de filosofia política na universidade de Pavia. Admirador e seguidor do pensador John Rawls dedicou-se ao aprofundamento da questão da justiça. Dizia:

“Estou convencido de que as questões da justiça, em particular da justiça social, são absolutamente relevantes e cruciais, mesmo nos tempos difíceis em que vivemos estou convencido de que se adotarmos e olharmos para a constelação da vida injusta nós vamos perceber que, uma das chaves, é a injustiça da Terra.”

(Sono convinto che le questioni della giustizia, in particolare di giustizia sociale, siano assolutamente rilevanti e cruciali, anche nei tempi difficili che viviamo – spiegava Veca – Sono convinto che se adottiamo e guardiamo alla costellazione della vita ingiusta ci rendiamo conto che, una delle chiavi, è l’ingiustizia della Terra).

Seu pensamento oscila entre socialismo e liberalismo, bem na esteira de Rawls. Este vai ao limiar no liberalismo, mas não consegue dar o passo para o socialismo. Da mesma forma Vecca dedica uma admiração inconteste ao socialismo, mas sempre permanece teoricamente um liberal. Na vida prática filia-se aos socialistas, mas vive como um liberal.

Estas palavras foram pronunciadas por ocasião da despedida da universidade de Pavia na qual trabalhou anos. Passou a trabalhar como docente na universidade de Milão, após breve passagem pela universidade de Bolonha. Em Milão dedicou-se ao estudo de Rawls aprofundandou a questão do contratualismo dos pensadores Locke, Hobbes e Rousseau. Para ele a política devia abandonar o estudo das questões teóricas para dedicar-se procedimentos institucionais mais justos e propor uma distribuição igualitária dos bens. Para se chegar à equidade era necessário que os menos afortunados tivessem vantagens econômicas, justificando os lucros econômicos, concordando com Rawls com a equidade como justiça.

Do vasto conhecimento de Veca escolhemos alguns excertos que possam ilustrar seu pensamento.

1.         Gentileza

Para Veca o ódio deveria ceder lugar à bondade. Isto se daria pela comunicação do conhecimento de uma forma educada. A ideia de bondade deveria ser buscada nos conhecimentos e valores velhos e novos. Tudo o que fosse bom deveria novamente ser resgatado e ao mesmo tempo ser incorporado aos valores novos. Proceder a uma triagem incorporando valores e práticas boas.

2.         Respeito

É preciso renovar o vocabulário e introduzir a confiança nas promessas que estão sendo oferecidas.

3.         A Lealdade

A lealdade tem dois pontos de apoio: um no passado que preserva seus valores e outro no futuro cuja conexão se fará por tentativas de acerto e erro. Com isso se conseguirá estender a compreensão àquilo que advirá.

4.         A alma

O corpo é a imagem da alma e cada um sente a seu modo. O espírito sopra onde quer. Não se sabe onde procurar a alma de Milan, mas saber que pode encontra-la. E isto é o espírito do nosso Milan.

5.         O corpo

Quando pensamos a alma, pensamos também o corpo e com isso se torna luminoso. Com isso encontramos o elo entre a ética e a estética. A Covid nos lembrou que devemos valorizar nossos seres, expostos ao destino e ao inesperado. Somos seres humanos em carne e osso. Não temos corpos, somos corpos. Não habitamos a terra, somos a terra.

6.         Humanidade

Qualquer reflexão sobre o local nos levará necessariamente ao global. Por isso, nossa adesão deve ser a humanidade, o planeta. Somos chamados a construir a constelação da solidariedade, desviando os que operam a laceração do entorno do espaço humano. Somos minados pelo racismo, sexismo, classismo, nacionalismo e fundamentalismo. Será que isto é o homem? Guerras, massacres, deportações, exploração, barbárie, tortura e escravidão? Devemos acreditar em outra sociedade na qual as pessoas embora diferentes, são iguais, todos terão a mesma idade embora mais velhos serão novos. Por isso ainda penso, “na cultura que acolhe e não aceita as desigualdades.” (alla cultura che accoglie e non accetta le ineguaglianze).

 

 

 


sexta-feira, 25 de março de 2022

QUEM APOIA UCRÂNIA E QUEM APOIA RÚSSIA. Selvino Antonio Malfatti.

 




Pouco a pouco, o apoio à Ucrânia ou Rússia vai se clareando. No Brasil de um modo mais explícito, o PT e o Partido Operário, vão se posicionando, ora em favor da Rússia enquanto outros procuram manterem-se neutros ou em favor da Ucrânia. Aqueles culpam o “imperialismo yankee” pela resistência da Ucrânia liderada por Volodymyr Olexandrovytch Zelensky, um “palhaço”, conforme seus adversários. Estes almeja autonomia para a Ucrânia para poder escolher seu próprio destino. Em resumo os totalitários são pró Rússia e os partidos liberais pró Ucrânia. Da parte da Rússia é uma guerra de “purificação” e da Ucrânia uma luta para sobrevivência democracia.

Evidentemente a democracia da Ucrânia não é por ora. Vale o provérbio latino: “primum vivere post philosophare”. (primeiro viver, depois filosofar). A Ucrânia precisa primeiramente viver e depois refletir sobre regimes, ideologias, parlamento e outros.

Para vencer Putin não bastam sanções, é o que pensa a jornalista Anne Applebaum, numa entrevista ao Jornal Le Monde. Os ucranianos têm que derrotar o czar russo Putin e depois preocupar-se com a democracia. Sabem os ucranianos que o presidente russo vê nas democracias ocidentais uma ameaça ao próprio estado russo avesso às liberdades. Por isso invadiu a Ucrânia por que o modelo político de seu país - autocrático e cleptocrático- colide de frente com o modelo democrata e ético do ocidente. Putin tem tonturas só em pensar que uma ex-colônia da Rússia se torne uma democracia integrada ao modelo político do mundo ocidental.

A Rússia argumenta como justificativa para invadir a Ucrânia: 1. Que há um expansionismo exagerado da OTOAN em direção ao leste europeu. 2. Que a Ucrânia ameaça a Rússia se aderir à aliança militar da OTAN. 3. Que a soberania da Rússia fica ameaçada pela soberania da Ucrânia. Puro desvio de foco.

Primeiramente a desculpa da invasão: combater os nazistas presentes na Ucrânia. O mesmo argumento de Hitler contra os judeus: a “purificação”, palavra esta pronunciada por Putin no dia 16 de março durante uma conferência televisionada. O alvo teria sido toda população russa refratária ao regime imposto autocraticamente. Esta purificação está forçando cada vez mais a classe média e intelectuais ao exílio, como aconteceu com Alexei Navalny, condenado a nove anos adicionais de prisão, mas envenenado antes da prisão. Na escalada proibiu o grupo Memorial que lançava a público os crimes do stalinismo.

Em segundo, a necessária ação rápida e incruenta para o restante da população. Paulatinamente transforma-se numa guerra de política de terror de abrangência global sobre a população tendo como alvo indiscriminadamente militares, civis, mulheres, crianças, idosos e doentes. Daí o caos, desolação, angústia, vidas destruídas. Silenciosamente o objetivo seria aniquilar a jovem democracia emergente. Por isso o falante emudeceu de repente. Proibiu pronunciar a palavra: guerra.

Por quê? Fracasso interno e externo. Interno por que não esperava tamanha resistência da Ucrânia. O exército ucraniano frustrou as pretensões russas de esmagar rapidamente a oposição. Mostrou-se como um punhado de soldados gregos impedindo o avanço dos persas nas Termópilas e externamente a ação da OTAN entregando armas à Ucrânia e o congelamento da moeda russa. Mas o terror continua manifesto nas ações contra Mariupol.

 

 


sexta-feira, 18 de março de 2022

A PESQUISA – DE PREFERÊNCIA A PURA. Selvino Antonio Malfatti.

 



Há poucos dias foi criada na Itália a Fundação Blaumann sob a inspiração de Giovanni Franceschini. Nasceu sob os auspícios do empresariado da Bréscia. Propõe-se dar um novo enfoque à ciência. Visa apoiar a pesquisa teórica fundamental, sem pretender diretamente às aplicações, ao prosseguimento do que existe ou a novas tecnologias calcadas no que sabemos, mas tem em mente entender a realidade em profundidade. Frente ao conhecimento já possuído se perguntar: o que está por trás dele? Para tanto, esforçar-se para melhorar a estrutura conceitual para entender melhor a realidade. Disso decorre refletir para formular um juízo axiológico sobre a ciência pura e como pode ser sustentada. A constatação é que estamos nos desviando deste valor, inclusive na lógica dos investimentos.

A civilização ocidental originou-se graças à criação de um cabedal de ferramentas conceituais desenvolvidas coletivamente através da História de diversos povos, em diferentes épocas e por inúmeros atores pensantes. Este conjunto forma a cultura. A riqueza da nossa civilização não é material, mas espiritual. É saber pensar e saber fazer.

Contemple-se o cenário do final da Segunda Guerra Mundial. A Europa estava em ruínas e seus bens materiais em grande parte destruídos. Apesar disso, em algumas décadas, a Europa voltou a ocupar os lugares mais ricos do mundo. Por aconteceu isto? Simplesmente por que sua cultura subsistiu à destruição.

Sua riqueza assenta-se na capacidade de pensar, nas ferramentas conceituais. Os povos destituídos desta cultura permaneceram os mesmos. O cabedal dos conhecimentos científicos faz parte deste patrimônio comum da cultura. O pensamento científico tem seu objeto material, mas não é material, porém, imaterial ou conceitual. O corpo humano material é o mesmo para um médico e um curandeiro. O que  os difere é o cabedal conceitual de cada um. Por isso, tecnologia, medicina, plantas industriais, química, sistemas complexos, gestão de informação e outros, nada disso existiriam se não tivesse um pensamento científico básico. O que os difere é o pensamento e não a realidade material. É um patrimônio coletivo mental e não um baú. Este patrimônio tem vida, desenvolve-se  crescendo continuamente.

Sempre, desde o Liceu e Academia da Grécia, às primeiras universidades europeias do século XI, como de Bolonha e Pádua, aos maiores centros de conhecimento do mundo moderno, a cultura e mais especificamente a científica, é sempre ligada à educação. O conhecimento cresce ao ser transmitido e se transmite ao crescer.

Pode-se constatar que sempre as universidades são centros da criação e transmissão do conhecimento científico.

Diante disso conclui-se que é preciso investir em universidades. Há países que investem muito pouco como alguns europeus e América Latina. O nível de investimentos no Brasil para as universidades é muito aquém do esperado. No mínimo precisaria duplicá-los para alcançar o mínimo europeu ou norte-americano.

 

sexta-feira, 11 de março de 2022

Artur do Val na terra da cegueira. José Mauricio de Carvalho

 



As observações desumanas e maldosas do deputado Artur do Val sobre como aproveitar-se da fragilidade das mulheres ucranianas em fuga desesperada da guerra causaram indignação em alguns setores da nossa sociedade. O deputado é figura pública e conhecido da internet. Ostenta muitas fotos ao lado de Sergio Moro, candidato à Presidência por seu partido (Podemos), que agora quer se descolar dele e também com Bolsonaro. Com esse último se aproxima pela adesão a ideias que ele deixou escapar com naturalidade e que depois quis consertar. Não é possível, o que ele pensa é claro. Ou alguém considera que se pensasse o oposto, iria se pronunciar dessa forma nos vídeos que lotaram as redes sociais? Sua justificativa é que é jovem e falava para seus amigos. Em outras palavras, vocês têm um público enorme para converter em objeto sexual.

No ambiente de cegueira generalizada em que vivemos não é difícil mostrar como essa mentalidade torpe se espalhou. Ela começou desvitalizando o amor em suas formas legítimas, incluindo as manifestações de humanidade e respeito aos pobres, carentes e necessitados. Toda atenção a esses desvalidos encontra imediatamente a caracterização de comunista, ou coisa de esquerda, cuja experiência histórica como sistema político totalitário foi inaceitável. Porém humanismo não é comunismo, assim como as limitadas ideias históricas e econômicas de Marx, que apesar dos muitos erros próprios de se tempo, também não foram responsáveis pelas as atrocidades cometidas por ditadores assassinos. A brutalidade, desumanidade, violência são próprias de governos totalitários como o foi também o nazi fascismo inimigo do comunismo. Inimigos políticos, mas irmãos siameses nas práticas desumanas que utilizaram.

O humanismo é a essência da ética ocidental, é o núcleo de sustentação do cristianismo. Mas o que fez com o humanismo e o cristianismo o nazi fascismo contemporâneo? Com o primeiro baniu da cena cultural, junto com a Filosofia, a Arte e tudo aquilo que preservava o valor da pessoa humana e a colocava acima das coisas. Tudo foi reduzido a inutilidades. Deixaram ao homem a condição de coisa. O deputado Artur do Val mostrou só uma face disso. Quanto ao cristianismo foi reduzido a teses e práticas tão distantes dos ensinamentos do Mestre de Nazaré como são os pontos extremos do universo. Não há cristianismo compatível com violência, nem arminhas e muito menos com igrejas cujo propósito fundamental é o enriquecimento de seus donos. Não é que a riqueza não é um valor, apenas não é o valor principal nem o objetivo da vida cristã.

A homofobia, o machismo e outras manifestações semelhantes são difundidas livremente em nossos dias, solapando por dentro o humanismo e o respeito ao diferente. Por que a indignação contra o deputado que apenas mostrou como se torna alguém objeto na prática, reduzindo a frágil mulher refugiada de guerra em objeto de exploração sexual?

O amor à terra onde se nasceu e vive é próprio do homem, não é mal nem contrário ao humanismo. O mesmo não se pode dizer do nacionalismo cego e irracional que as versões contemporâneas das várias formas de nazi fascismo e totalitarismo que se espalharam pelo mundo. E há mais. A agressão ao regime democrático em nome de um poder absoluto e violento, o ataque à imprensa livre, o racismo, o nacionalismo cego, o desvirtuamento do cristianismo, tudo isso reapareceu em nossos dias e é parte da destruição do humanismo e seus valores. As palavras de Artur do Val são uma pequena consequência dessa mentalidade.


 

sexta-feira, 4 de março de 2022

BIDEN X BOLSONARO Selvino Antionio Malfatti.

 



 

Dois líderes políticos iniciaram praticamente juntos seus mandatos presidenciais: o norte-americano Joe Biden - LIBERAL SOCIAL e o brasileiro Jair Bolsonaro - LIBERAL CONSERVADOR. Este, do maior país da América do Sul e aquele, do maior país da América do Norte.  O primeiro iniciou seu mandato em 20 de janeiro de 2021, enquanto que o segundo em 1º de janeiro de 2019.

O primeiro alinhando-se à ideologia política Liberal social e o segundo liberal conservador. Parece proveitoso estabelecer um paralelo, pois os da esquerda do Brasil criticam ferozmente Jair Bolsonaro, mas complacente com Biden, enquanto os da esquerda americana não estão nada contentes com seu presidente, mas tecem elogios ao brasileiro. Na disputa eleitoral Biden derrotou um conservador, o republicano, Trump e Bolsonaro um socialista, o petista Haddad.

Biden conseguiu a maioria dos votos em 2021 em relação a Trump, enquanto Bolsonaro ultrapassou em votos seu rival Haddad. Temos uma vitória invertida dos candidatos: um vence um conservador e outro um socialista.

No livro “A aposta de Biden", Massimo Gabbi, constata que o Protetorado do Mundo exercido pelos Estados Unidos não existe mais. Seria aquela liderança que determinados países exerceram em determinadas épocas. Poderíamos citar: os egípcios e assírios, no período pré-helênico. Atenienses e macedônios, pré-romanos. Romanos pré-cristianismo. Império cristão e papado, na idade média. Claro que existiam lideranças políticas nacionais que não acatavam, como os cartagineses no império romano, Tebas e Corinto no período helênico.

Estes países ou sociedades políticas se destacaram como líderes globais entre seus pares. Estenderam suas influências em todas as dimensões da existência humana da época: militar, política e cultural. O declínio destas lideranças geralmente começou a ser minado de dentro para fora, ou pelas lutas internas.

Os americanos exercem esta liderança desde a II guerra mundial. Os vencedores da guerra a almejavam. Os perdedores acatavam-na tacitamente. Mas atualmente o declínio está patente. E a contestação avoluma-se sempre mais. É o que está acontecendo com o Protetorado Americano. Do oriente ao ocidente, de norte a sul do planeta, de nações de Primeiro mundo ao de Terceiro.

Atualmente os americanos de Biden enfrentam duas crises internas: o sistema ideológico bipartidário, pelo qual na prática somente dois partidos chegavam ao poder, com ampla maioria de votos (democratas e republicanos); e a crise econômico-administrativa: classe média se empobrecendo, infraestrutura anacrônica como saúde e defesa.

O presidente americano Biden ainda está convencido que pode retomar a liderança, agora sob outra orientação político-ideológica. Pensa que as políticas neoliberais conservadoras podem ser substituídas por outras de cunho mais social, liberal social, como o relançamento industrial, reabilitação ambiental, proteção social, e uma revalorização da classe média...É uma guinada ideológica, mas sem mexer com os dogmas!

Claro que não inicia na estaca zero. Já na época de Trump este volver à esquerda, para o social, teve início com o pacote de 1.900 milhões de dólares para fazer frente os efeitos da Covid na economia, além de uma política de apoio às famílias. O grande problema, porém, está no setor político interno. É o que ser costuma de denominar de “crise da democracia americana”. Todos estão recordados do impasse da última eleição. O candidato oposicionista Trump não aceitava a derrota, pediu recontagem de votos, acusou os adversários de roubo, desrespeito às regras eleitorais entre outras.

A proposta está na mesa: reformar a democracia americana sob a orientação social. Evidentemente que o diapasão seja o liberalismo, mas até então, ninguém nos Estados Unidos se atreveu: à esquerda volver.

No Brasil, Bolsonaro se apresenta como um liberal conservador, mas nem por isso deixa de enxergar o social. Perdoou a dívida dos estudantes com o Fies e as dívidas das Igrejas, implantou uma renda mínima durante o período da pandemia, substituiu Bolsa Família por Auxílio Brasil, e na esfera internacional comprometeu-se com a defesa do meio ambiente. São alguns exemplos de ingerência de um conservador no social.

Continuará esta convergência de ambos para o social? Ou assumirão suas identidades ideológicas: Biden priorizando o social e Bolsonaro o mercado?

 

 

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