sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Giorgio Galli - o estudioso dos sistemas bipartidários incompletos: Selvino Antonio Malfatti - pós-doutorado em Ciência Política.

 


 

As ciências humanas acabam de perder uma dos maiores pensadores de sua área: Giorgio Galli, professor da Universidade Estatal da Itália, em Milão. Nasceu em Milão em 10 de fevereiro de 1928 e faleceu em Camiogli em 20 de dezembro de 1920. Tinha 92 anos. 

Sua tese fundamental é sobre o sistema político italiano. Acha que é um sistema bipartidário incompleto. Os dois maiores partidos italianos, a democracia cristã e o partido comunista italiano, eram até o década de Noventa os candidatos naturais para formarem as maiorias partidárias e disputarem a Presidência do Conselho. No entanto, nem a Democracia cristã conseguia maioria absoluta (para ser maioria aboluta teria que conseguir 50% dos votos)  e só atingia 35% e nem o Partido Comunista, que fazia em torno de 29%.  A Democracia cristã alia-se ao partido socialista que faz uma média de 22% dos votos, forma maioria e deixa de fora o partido comunista. A alternância não se forma e a democracia cristã, eleição pós-eleição, exclui o partido comunista. Nisso consiste o bipartidarismo incompleto de Galli.

Isto vem ao caso com a celeuma criada na eleição americana, cujo modelo é de um sistema bipartidário completo, considerado perfeito, para ano qual só dois partidos formam maioria e absoluta, nem assim mesmo evitou a crise, apesar de tê-la superado.

Na Itália, logo após a derrota do Fascismo tem início a ação de reconstrução do Estado. Já durante o conflito, e pressentindo-se seu fim, nos bastidores do Vaticano organizava-se uma força política, sob a liderança de Alcide de Gasperi, para substituir o regime fascista. Se este regime totalitário estava em decadência, outro, também totalitário estava em ascensão, o comunismo. A nova organização católica devia ideologicamente ser capaz de apresentar-se como alternativa de ambos. O Fascismo, derrotado militarmente,  politicamente apresentara-se como uma alternativa ao liberalismo, propondo substituir a representação política pela representação econômico-profissional. Não eram os cidadãos e seus interesses que se deviam representar, de conformidade com a doutrina liberal, mas os diversos grupos econômicos. O Fascismo na Itália ideologicamente apresentava-se como uma força política capaz de pôr fim ao atraso econômico. Culpava o liberalismo pela defasagem econômica em relação aos demais países da Europa, pois, no liberalismo, tudo devia obedecer ao “laissez faire”. Em substituição ao “deixar fazer” era preciso introduzir o “obrigar fazer” propunham os mentores do Fascismo.

No entanto, outro regime rondava a Itália no fim da II Guerra Mundial. Tratava-se do comunismo. A Europa  tinha alguma experiência dele, e o que se sabia era o que acontecia no Leste Europeu e o que chegava da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas- URSS. Este regime também se apresentava como uma alternativa ao liberalismo. Em vez da representação, o comunismo propunha a vanguarda operária, encarnada no partido. O partido era a voz da maioria e ele gerenciaria o Estado. Economicamente propunha a coletivização dos bens de produção a proibição da propriedade privada e uma economia livre de lucros.

O modelo do bipartidarismo imperfeito irá encontrar outro inimigo, o interno, que o levará à bancarrota. Trata-se da currupção endêmica que tomará conta de todos os partidos e pessoas de todos os partidos, mesmo fora do trinômio Democracia Crista, Partido Socialista e Partido Comunista, cujo início tem lugar com a prisão do socialista Mario Chiesa, feito prisioneiro sob a acusação de envolvimento com o crime organizado. Neste momento começa o movimento Mani Pulite ou Tangentopoli que sacudirá todo o sistema político-partidário, levando à sua completa reformulação, inclusive com o fechamento dos partidos da Democracia Cristã e Socialista, os quais, com o concurso de outros três partidos, menores formavam o pentapartido da chamada Primeira República.(GALLI, Giorgio. Mezzo Secolo di DC.  Milano,  Rizzoli, 1993, p. 418)

Também neste caso, pelo o que acontecia no Leste Europeu e pelas notícias chegadas da URSS, o preço do regime era alto demais. Milhões de pessoas sacrificadas, outras tantas deportadas, bem como desaparecidas. Era o regime totalitário, da desolação, no qual até mesmo a consciência era invadida. Por isso, Galli mantém distância com o comunismo revolucionário, totalitário, fora da Europa.

Hitler E O Nazismo Magico: 1989

As Componentes esotéricas do III Reich

Esoterismo e politica 2010

Storia delle dottrine politiche 1995

Storia dela DC, 2007

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O desafio das sombras. Dr. José Mauricio de Carvalho

 



O ano começa mais leve, a perspectiva da vacina contra a pandemia do Coronavírus representa a esperança de uma vida próxima da normalidade nos próximos meses. O ano começa mais leve também pela iminência da posse de Joe Biden, o 46º presidente da história dos Estados Unidos. Com ele o Partido Democrata volta ao poder, mas o que chama atenção nessa transição não é a alternância de poder entre Republicanos e Democratas, o que é uma rotina na democracia americana, mas os novos ares na política da nação mais importante da terra. Esses ares, com certeza, logo alcançarão outros países, purificando o ambiente mundial.

Os tempos de Trump no governo americano foram marcados por um aumento estrondoso de mentiras nas redes sociais. Somente na última campanha eleitoral americana contou-se cerca de 900 mensagens falsas sobre fraudes nas eleições americanas. A conta pessoal do presidente americano foi tirada do ar pelo Facebook por veicular comprovadamente e reiteradamente inverdades. Grupos de supremacia branca, inspirados nas ideias de Trump, passaram a falar livremente contra negros e latinos e a defender abertamente a intolerância contra feministas e homossexuais. Algo semelhante ao que fez o  gabinete do ódio em nosso país, fazendo emergir tempos de obscurantismo que baniu do espaço público o compromisso com a verdade e com aquelas qualidades próprias da pessoa que os romanos denominavam humanitas.

O discurso do ódio aumentou as ações racistas nos Estados Unidos como a que resultou na morte de George Floyd, apenas um caso mais falado entre tantos outros nesses últimos anos. Esse mal se alimentou das redes sociais com os defensores da superioridade étnica e pela propagação da ideia nazista de existir vidas de segunda classe que não merecem ser vividas. O slogam vidas negras importam foi uma reação a tais ideias e práticas. Nesse mesmo espírito de ódio, Trump construiu um muro (ou parte dele) para separar os Estados Unidos do México, implantou uma política isolacionista e xenofóbica contra os árabes, facilitou o comércio de armas em benefício da indústria bélica americana (como fez o governo brasileiro ao liberar a compra de armas e facilitar a sua importação).

A Faculdade de Direito da Universidade de Harvard, que acompanha a legislação ambiental americana, constatou um programa sistemático de desmantelamento regulatório de proteção ambiental (o equivalente tupiniquim ao passar a boiada do Ministro Sales). O governo Trump anulou 34 leis ambientais, enquanto 33 outras foram tiradas de vigor. Os cientistas alertaram que somente essas medidas aumentariam a temperatura do planeta e provocariam a morte de mais de 80 mil pessoas por ano, ao que Trump respondeu com crítica sistemática à ciência, radicalizando o obscurantismo e defendendo a ignorância e interesses mesquinhos criticando cientistas e ambientalistas.

Quanto aos filósofos foram lançados no vazio, com a exaltação de ideólogos pouco críticos, ficando encantoados na defesa da racionalidade e da inteligência. As boas práticas do raciocínio que foram para as gerações anteriores um ideal a ser buscado tornou-se coisa ridícula. Ainda assim, em meio ao deboche das redes e aos kkkkkkkk diante de qualquer tentativa de raciocínio, coube aos que vivem o compromisso com a verdade seguir as regras da razão e ao imperativo da bondade. Assim tentaram preservar um resto de humanidade e esperança em meio a um ambiente geral de fake news, intolerância e obscuridade.

Apesar desse esforço solitário de alguns poucos, ganhou força a mentira, dita sem constrangimento, abriram o caminho para afirmações sem comprovação ou descompromisso com a verdade. Desse fato consta a negação do aquecimento do planeta. Mentira repetida para atender parte (parece que minoritária) de setores do agronegócio, de empreendimentos imobiliários e das madeireiras, que pouco se importam com os efeitos da destruição ambiental e suas consequências, desde que garantam, no curto prazo, o aumento dos seus lucros.

Quanto ao ódio à ciência e a racionalidade, ele foi impulsionado por Trump com as críticas às medidas de proteção contra o coronavírus, inspirando nosso governante maior a igualmente menosprezar a recomendação das autoridades sanitárias. Trump e Bolsonaro foram os únicos presidentes a receitar medicamentos e prescrever protocolos terapêuticos contra o coronavírus sem possuir formação médica. E nunca foram acusados de prática ilegal da medicina, o que seria feito com qualquer outro cidadão. Então, mesmo sem entrar na relevância terapêutica da droga, ambos defenderam e propagaram a eficácia do uso da hidroxicloroquina para o tratamento e prevenção da Covid-19, que os dois presidentes afirmaram ter tomado sem impedir que fossem contaminados.  Naturalmente a audácia do governante americano inspirou seu fã tupiniquim a também prescrever a droga na prevenção e tratamento da Covid 19, por ele rebatizada de gripezinha.

Nesse novo ano esperamos a vacina, mas ainda mais que ela. Desejamos novos ares com o reconhecimento da validade da ciência e o entendimento de que o compromisso com a razão e a verdade é valor social, bem como o respeito às boas práticas da lógica.  Esperamos um 2021 com abertura para o diálogo racional e paciência para o estudo dos problemas. Razão que anda não só com a ciência, mas ao lado da fé, como sua companheira de jornada. Não para lhe ditar o rumo transcendente em direção a Deus, mas para lhe impedir que, na procura do Altíssimo, entre nos desvios da ignorância, superstição e irracionalidade.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

CICLO DAS FESTAS NATALINAS. Selvino Antonio Malfatti


 

Há um conjunto de comemorações no período do Natal denominado de cliclo de Festas Natalinas. A maior, para o Ocidente, é  Natal e a de Reis, para oriente. Ambas celebram o Nascimento de Jesus só que em datas diferentes: Natal, 25 de dezembro e de Reis, 6 de janeiro.

As outras do ciclo de Natal são: 

1. No Domingo entre os dias 25 e 1º de janeiro a Igreja celebra a Festa da Sagrada Família

2.  No dia 1º de janeiro, Oitava do Natal, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus.

3. No Domingo, entre 2 e 8 de janeiro, a Epifania ou a Festa de Reis.

4. A festa do Batismo do Senhor, na Igreja Católica, Comunhão Anglicana e outras denominações ocidentais, é relembrada num dia da semana seguinte à Festa de Reis.  

Há um ditado italiano que diz: "La festa dell'Epifania le altre feste porta via" (a Festa da Epifania leva embora as demais festas". Com efeito, a Festa da Epifania encerra o cliclo das festas natalinas. 


FRESTA DE REIS OU EPIFANIA - Narra Mateus:

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. Onde está - perguntaram eles  - o rei dos Judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo.

Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.

Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.

Eles responderam: “Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo Profeta:

‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo'”.

Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.

Depois enviou-os a Belém e disse-lhes: “Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo”.

Ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino.

Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.

Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-NO. Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra.

E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Ano Novo. José Mauricio de Carvalho - pós-doutorando no NUPES/UFJF

 


                                           
                                            Jano

A contagem do tempo em anos é a forma humana de melhor identificar o que passou e colocar os fatos na ordem em que ocorreram. É mais simples localizar e ordenar os acontecimentos dessa maneira, situando-os nos séculos e lugares do mundo. Contudo, a celebração de cada novo ano no calendário solar mostra que vivemos no tempo com os olhos e a esperança no futuro. Já houve época em que a esperança era alimentada por ilusões. Hoje estamos mais maduros, não podemos nos iludir de que esperança se separe do compromisso de fazer boas escolhas e realizar com qualidade nossos trabalhos. Quando avaliamos que a vida é produto das escolhas, temos que assumir com responsabilidade a criação do futuro. O que vem não é mera continuidade ou repetição do passado.

Se a vida é um que fazer contínuo, isto é, proceder escolhas todo tempo em meio à insegurança desse processo, então viver é olhar o horizonte. Olhar o futuro a partir de qual ponto? Do presente pessoal e do da sociedade. Escolhe-se, especialmente, pelo que se projeta além desse presente, pelo que dá sentido a ele, pelo que lhe enche de esperança. Entretanto, se o futuro não é continuação do já vivido, não se pode sonhá-lo sem considerar nossa história, sem o impacto e a incorporação do passado.

O ano novo virá para nós com novas realizações, novas pessoas, novas tecnologias, novos conhecimentos, novas criações, novas crenças, enfim, muitas coisas novas. Mas esse mundo antevisto nos sonhos de esperança não é produto do acaso, ele é criação do homem iluminado por um projeto. E que mundo é esse a surgir na esperança de hoje? É um mundo capaz de vencer a violência das cidades, de assegurar dignidade a crescente número de pessoas, de superar guerras e revoluções como solução para as diferenças políticas. Violência que cresce quando queremos uma vida mais rápida do que ela pode ser experimentada, quando aspiramos mais coisas do que somos capazes de adquirir e o mundo de fornecer, quando perdemos o afeto nas relações e o sentido da dignidade no trato com as pessoas. O presente vivido na pressa, dirigida para o consumo ansioso e sem obrigação da excelência numa vida autenticamente nossa, é tempo de violência, de corrupção, de drogas, de insatisfação e de gozo irresponsável.

Não quero apenas desejar um feliz ano novo, é necessário pedir que todos o construam mais próximo de nossa esperança, realizando responsavelmente seu trabalho, vivendo relações pessoais mais iluminadas pela amizade e benevolência, descobrindo o significado particular e o sentido da própria vida.

E se reconheço que a vida que me anima é semelhante, mas não igual a dos animais que diariamente estão à minha volta, se essa diferença dos outros seres vivos nasce da fé e esperança em Deus, não importa o nome de Deus ou a forma como Ele seja cultuado, então a obrigação de renovar o mundo, aquele compromisso mencionado no parágrafo anterior, ganha uma outra justificativa. Nessa fé nasce um pacto não só com a humanidade presente em cada homem, mas com Deus que espera nossa colaboração para fazer o sol nascer, todos os dias, sobre um mundo melhor. Então toda história da humanidade, que não está além dos fenômenos experimentados, torna-se transfigurada e iluminada pela esperança capaz de vencer a insegurança, a ruína, a angústia e a morte.

Façamos um 2014 feliz, pois não se justifica a esperança que não nasce do reconhecimento da dignidade humana e da responsabilidade pessoal pela construção de um futuro melhor. Pois esperança não é otimismo ou ingenuidade, esperança é responsabilidade, é esforço consciente para mudar o futuro, dedicação ao que nos distingue dos outros entes.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

JESUS. O CRISTO. São João, 1.

  







 

1.No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.

2.Ele estava no princípio junto de Deus.

3.Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.

4.Nele havia vida, e a vida era a luz dos homens.

5.A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

6.Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João.

7.Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele.

8.Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz.

9.O Verbo era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.

10.Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu.

11.Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.

12.Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus,

13.os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.

 14.E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.

Ἐν ἀρχῇ ἦν  λόγοςκαὶ  λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόνκαὶ θεὸς ἦν  λόγος2 οὗτος ἦν ἐν ἀρχῇ πρὸς τὸν θεόνπάντα δι’ αὐτοῦ ἐγένετοκαὶ χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἓν  γέγονεν 4 ἐν αὐτῷ ζωὴ ἦνκαὶ  ζωὴ ἦν τὸ φῶς τῶν ἀνθρώπων· 5 καὶ τὸ φῶς ἐν τῇ σκοτίᾳ φαίνει καὶ  σκοτία αὐτὸ οὐ κατέλαβενἘγένετο ἄνθρωπος ἀπεσταλμένος παρὰ θεοῦ ὄνομα αὐτῷ Ἰωάννης· 7 οὗτος ἦλθεν εἰς μαρτυρίαν ἵνα μαρτυρήσῃ περὶ τοῦ φωτόςἵνα πάντες πιστεύσωσιν δι’ αὐτοῦ8 οὐκ ἦν ἐκεῖνος τὸ φῶς ἀλλ’ ἵνα μαρτυρήσῃ περὶ τοῦ φωτός9 Ἦν τὸ φῶς τὸ ἀληθινόν φωτίζει πάντα ἄνθρωπονἐρχόμενον εἰς τὸν κόσμον10 ἐν τῷ κόσμῳ ἦν καὶ  κόσμος δι’ αὐτοῦ ἐγένετο καὶ  κόσμος αὐτὸν οὐκ ἔγνω11 εἰς τὰ ἴδια ἦλθεν καὶ οἱ ἴδιοι αὐτὸν οὐ παρέλαβον12 ὅσοι δὲ ἔλαβον αὐτὸνἔδωκεν αὐτοῖς ἐξουσίαν τέκνα θεοὺ γενέσθαιτοῖς πιστεύουσιν εἰς τὸ ὄνομα αυτοῦ13 οἳ οὐκ ἐξ αἱμάτων οὐδὲ ἐκ θελήματος σαρκὸς οὐδὲ ἐκ θελήματος ἀνδρὸς ἀλλ’ ἐκ θεοῦ ἐγεννήθησαν14 Καὶ  λόγος σὰρξ ἐγένετο καὶ ἐσκήνωσεν ἐν ἡμῖνκαὶ ἐθεασάμεθα τὴν δόξαν αὐτοῦδόξαν ὡς μονογενοῦς παρὰ πατρόςπλήρης χάριτος καὶ ἀληθείας.


"In principio erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum 2.Ele estava no princípio junto de Deus. 2.hoc erat in principio apud Deum 3.Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.* 3.omnia per ipsum facta sunt et sine ipso factum est nihil quod factum est 4.Nele havia vida, e a vida era a luz dos homens. 4.in ipso vita erat et vita erat lux hominum 5.A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.* 5.et lux in tenebris lucet et tenebræ eam non conprehenderunt 6.Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. 6.fuit homo missus a Deo cui nomen erat Johannes 7.Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. 7.hic venit in testimonium ut testimonium perhiberet de lumine ut omnes crederent per illum 8.Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. 8.non erat ille lux sed ut testimonium perhiberet de lumine 9.[O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.* 9.erat lux vera quæ inluminat omnem hominem venientem in mundum 10.Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu. 10.in mundo erat et mundus per ipsum factus est et mundus eum non cognovit 11.Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. 11.in propria venit et sui eum non receperunt 12.Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, 12.quotquot autem receperunt eum dedit eis potestatem filios Dei fieri his qui credunt in nomine ejus 13.os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.* 13.qui non ex sanguinibus neque ex voluntate carnis neque ex voluntate viri sed ex Deo nati sunt 14.E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade. 14.et Verbum caro factum est et habitavit in nobis et vidimus gloriam ejus gloriam quasi unigeniti a Patre plenum gratiæ et veritatis"
São João, 1 - Bíblia Católica Online





sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Ortega y Gasset e os desafios de viver . José Mauricio de Carvalho-pós-doutorando no NUPES/UFJF

 

 



José Ortega y Gasset, nasceu em Madrid, em 9 de maio de 1883 e morreu na mesma cidade em 18 de outubro de 1955. Foi ensaísta, jornalista, político e, também, professor da Universidade de Madrid. Ele é considerado o principal filósofo espanhol do século XX, fundador da chamada Escola de Madrid. Esse pensador tem muito a dizer ao nosso tempo, por que anteviu muitos problemas que estão acontecendo hoje.

Vivemos dias que valorizam a liberdade, mas a abordam com dificuldade. Para entendê-la como realidade humana é necessário pensá-la como tal. Os filósofos do século passado procuraram explicar o que era a tão desejada liberdade. Para levar adiante tal projeto tiveram que considerar a crise pela qual passava a sociedade ocidental e a perplexidade com os rumos tomados pelos acontecimentos.

A meditação filosófica, junto à liberdade, tratou de outras questões. O homem foi descrito livre, mas com uma liberdade ameaçada pelo mundo e até por Deus. Por isto Martin Heidegger diz que ele nasceu sem uma razão, sem destino. Jean Paul Sartre completou a assertiva afirmando que o homem está mergulhado no absurdo. Em meio a estas expressões de angústia, solidão e ameaça, conexas à liberdade, surgiram também explicações menos dramáticas e mais confiantes no futuro do homem. De todo modo a vida humana, como um que fazer foi percebida mesmo como drama em meio à liberdade.

Ortega tratou primeiro de explicar a vida como drama, descrevê-la como risco de se perder em meio às escolhas livres, mas num segundo momento considerou que esse homem que, muitas vezes, não sabe o que fazer, vive numa sociedade massas. Essa condição agrava o seu compromisso de fidelidade a si mesma. A menção ao homem-massa aparece em vários textos de Ortega e resumia o modo humano de viver a liberdade sem responsabilidade. O homem-massa, dizia Ortega, é aquele que não aproxima a liberdade da responsabilidade com as escolhas. Além disso, encontra-se satisfeito com o que encontrou no mundo, não se empenha em mudá-lo para melhor; comporta-se como criança mimada, não entende as dificuldades e riscos do viver e torna-se um especialista ignorante, sabe cada vez mais sobre cada vez menos, desligando-se da complexidade da vida. É esse homem-massa o responsável pelos muitos problemas da sociedade de seu tempo.

 

A vida, realidade fundamental

Na primeira fase de seu pensamento, Ortega escolheu a vida como tema e se perguntou: o que é uma vida autenticamente humana? Como a pensamos à luz de uma razão vital? Ortega explica: “Nossa vida, pois nos é dada – não a demos a nós mesmos -, mas não nos é dada feita. Não é uma coisa cujo ser está fixado de uma vez para sempre, senão que é uma tarefa, algo a ser feito, em suma, um drama. Daí que de pronto, tenha o homem que fazer ideias sobre sua circunstância e interpretá-la para poder decidir todo o demais que tem que fazer”. ( p. 123-124).

Eis o que isto significa: “Ela é única, isto é, não se repete, acontece numa circunstância determinada que não escolhemos, mas que nos pode aniquilar, o que lhe confere um conteúdo dramático; é partilhada com outros homens, o que faz da intersubjetividade uma questão importante; o homem não é primariamente racional, o que significa que pensamos para viver; herdamos muito do que se passou o que significa que o homem é histórico. Aprofundemos as implicações epistemológicas da razão vital” (p. 63).

A vida demanda enorme esforço. Os conceitos anteriores de ser proclamavam que ser é o que não necessita de nenhum outro, basta a se mesmo para fazer o essencial. Em Que é Filosofia (1997) afirma: “O ser substancial é o ser suficiente – independente” (p. 410). No entanto, diz no livro Em torno a Galileu (1994): “este foi um erro terrível da época moderna, (...) estar na crença de que o ser primário do homem consiste em pensar” (p. 124).  O erro consiste em apartar o ser humano do seu entorno.

 

Ser o que ainda não se é.

            Ortega fala da nossa vida como uma realidade em construção, algo inacabado até o momento do desfecho natural que é o morrer. O que se realiza sem o concurso do indivíduo é natural, mas é o que não se percebe como natural o que o cada um de nós assume como nosso. O homem é o único ser que pode não se realizar. Uma pedra não pode deixar de ser pedra, mas o homem pode deixar de ser homem, o que significa que ele pode deixar de ser o que, no seu núcleo é, ou de realizar sua vocação.

 

A sociedade de Ortega y Gasset

Ortega vivia um tempo em que a democracia era um ideal. Muitas eram as formas de democracia que se apresentavam. Para Ortega y Gasset a democracia era importante, mas acabou fortalecendo uma sociedade de massas. O fenômeno das massas se generalizou e oportunizou o aparecimento de governos fortes, porque onde existem massas é preciso que a instituição política dê mostra de sua autoridade.

O tempo das massas

            Então Ortega que numa primeira etapa havia se dedicado a descrever o que é uma vida humana autêntica, nessa segunda etapa examina o homem na história. Para Ortega, houve, durante décadas, um gradual ataque aos valores mais importantes da cultura, pois as massas não os assumem com ardor. Elas não se preocupam em vencer os desafios da vida e da história, esperam que alguém faça isso por elas e para elas: um governo, um líder, um chefe.

O tempo dos direitos sem obrigações é um período niilista, nele o homem “sentindo-se incapaz busca compensação aniquilando os valores do mundo” (idem, p. 719). Por isso, a chegada desse tempo de massas foi anunciada por vários autores como um momento de destruição do ocidente, ou um tempo de crise. Isso se compreende porque, observa Ortega, nem as elites morais, nem as massas se prepararam para enfrentar os novos desafios de uma sociedade onde as minorias deixam de exercer a liderança e as massas esperaram assumir o protagonismo da história.

 


sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

UMA SOCIEDADE DE CIDADÃOS-PROPRIETÁRIOS EM JOHN RAWLS. SELVINO ANTONIO MALFATTI - professor titular da UFSM

 



Para Rawls a justiça social não pode ser atingida nem pelo capitalismo do laissez-faire, nem pelo welfare state e nem pelo socialismo. O que de fato pode propiciar a justiça no âmbito social é a democracia de cidadãos-proprietários. Sugere que também pode ser alcançada através do socialismo liberal.

Privilegiamos para nossa análise a democracia dos cidadãos-proprietários, visto que esta ideia encontra guarida em John Locke ao afirmar que somente o proprietário é um membro pleno da sociedade (full member). Para ele, a propriedade e somente ela, pode propiciar liberdade ao indivíduo. Mas, o que é a propriedade para Locke? Diz ele que a primeira propriedade e da qual se originam todas as demais é a própria pessoa. Minha pessoa é minha primeira propriedade e com ela adquiro as demais.

O que Rawls entende cidadãos proprietários? A ideia de cidadão proprietário não contempla a distribuição equitativa da propriedade privada dentre os cidadãos, ou a abolição da propriedade privada com a instituição da pública, mas uma dispersão da propriedade privada entre os cidadãos através da redistribuição de riquezas presentes no mercado. Conforme Rawls:

“a  democracia  de  cidadãos-proprietários  garante  as  liberdades básicas  juntamente  com  o  valor  equitativo  das  liberdades  políticas  e  a  igualdade  de oportunidades,  e  regula  as  desigualdades  econômicas  e  sociais  por  um  princípio  de mutualidade,  se  não  pelo  princípio  da  diferença”.

Rawls procede uma crítica aos sistemas econômicas e suas instituições: O capitalismo do laissez- faire somente proporciona garantias formais esquecendo-se das reais, liberdades políticas e liberdade equitativa de oportunidades. O socialismo estatal, por sua vez, timoneado por um partido, viola a igualdade de direitos e as liberdade públicas. A terceira opção, o capitalismo de bem estar social, em que pese preocupação com a igualdade de oportunidades e encampar provisões de mínimo social deixa à mercê dos grandes proprietários a propriedade real, ficando presa fácil desses conglomerados econômicos.

O que é, então, a democracia de cidadãos-proprietários em Rawls?

Primeiramente é necessário preencher três condições: 1. Ampla dispersão de capital, com cidadãos controlando parcelas substanciais e iguais do capital produtivo: humano e não humano. 2. Proibição de transmissão de capitais entre gerações como heranças e doações. 3. Salvaguardas contra a corrupção, com vigilância sobre financiamento público, partidos políticos, campanhas eleitorais, através de fóruns para debates políticos.

Através do sistema de cidadãos proprietários Rawls quer garantir a coexistência das liberdades básicas, da igualdade e da democracia, isto é, os valores da liberdade, a igualdade equitativa de oportunidades e regular as desigualdades econômicas e sociais pelo princípio da mutualidade ou pelo princípio da diferença. Ao dispersar a propriedade garante que ninguém possa se apossar do todo, como pode acontecer no capitalismo através de particulares ou no socialismo, através do público. O regime de cidadãos-proprietários situa-se entre ambos: nem domínio do privado, nem do público sobre a esfera do cidadão.

Num regime de cidadãos-proprietários é essencial que aja um sistema de assistência e saúde universal para atender ao princípio da igualdade equitativa de oportunidades.

Nesse modelo e outros os cidadãos não estão interessados apenas em seus salários, mas em todo o bem estar que possa dispor e gozar. Os próprios cidadãos sentir-se-ão responsáveis pelo entorno de seu trabalho: ordem, limpeza, organização entre outros. Por isso, zelam pela proteção de seus locais.

Para que ninguém se sinta excluído é preciso providenciar um mínimo a todos, além de evitar a dependência que poderia provocar a desigualdade. Uma das formas de dependência seria a exclusão do mercado de trabalho. Por isso, a necessidade de trabalhar seria universal para que nenhum cidadão se sinta inferior ao outro.

CONCLUSÃO

Em tese e na realidade, atualmente não seria impossível transformar todo cidadão em proprietário. A quantidade de bens disponíveis é incontável e por isso cada um poderia ser galhardeado na prática com um deles. Não são apenas bens materiais, mas culturais, de investimentos, ações, rendas, poupança, letras do tesouro, investimentos, propriedades imobiliárias, monetárias entre outros. Como na parábola do senhor que antes de viajar distribuiu moedas entre seus empregados:

“Antes de viajar, chamou dez dos seus empregados, deu a cada um uma moeda de ouro e disse: “Vejam o que vocês conseguem ganhar com este dinheiro, até a minha volta.”

Do mesmo modo, quando o cidadão entrasse no mercado de trabalho, deveria receber uma propriedade ficando responsável por ela e fazê-la render. De tempos em tempos haveria uma avaliação, e, conforme sugere a parábola, se merecesse maior investimento ou retirar o investido.

 

 

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