sexta-feira, 31 de julho de 2020
SOCIEDADE LIQUIDA . Selvino Antonio Malfatti
sexta-feira, 24 de julho de 2020
O reencontro homem moderno com o mundo natural. José Mauricio de Carvalho – pós-doutorando do NUPES/UFJF
Quando
tentamos fazer síntese do que houve num século ou num tempo ainda mais extenso
que uma centúria, corremos dois grandes riscos. O primeiro é saber como bem
caracterizar e apontar o essencial de um período tão longo. O segundo é a
superficialidade e o engano porque à medida que avançam os anos e as pesquisas,
mudamos o olhar para o passado e ele começa a ficar diferente quando fica
iluminado pelos novos estudos. Em outras palavras, quanto mais sabemos do
passado mais diferente ele nos parece do que dele nos fora dito. Para falar do
novo olhar para o mundo natural, próprio do homem no início da modernidade,
temos que ter uma boa compreensão do universo cultural europeu dos séculos XVI
a XVIII separando dois momentos: uma primeira metade com a ênfase nos estudos
de matemática e uma segunda com os trabalhos de Física. Porém, não se pode
começar a falar desse novo olhar para o mundo natural sem voltar mais para trás
e é isso que procuraremos fazer a seguir.
O século
XVI, e seus estudos de matemática, foi preparado pelo século anterior. Leonardo
da Vinci (1452-1519) e seus contemporâneos, como Nicolau Copérnico (1473-1543),
viram que a razão podia identificar os segredos do mundo e o reconstituíram com
o cálculo, não mais necessitando voltar à experiência. Na esteira dessas ideias,
foi que mais tarde Galileu Galilei (1564-1641) afirmou que a matemática era o
alfabeto do mundo. A medida e a representação matemática da natureza foram as
bases da nova ciência que nasceria em seguida. Foi nessa perspectiva que Kepler
(1571-1630) descreveu o funcionamento do sistema solar, destruindo de uma só
vez, a cosmologia antiga de Aristóteles e a visão medieval da natureza. Adicionalmente
estimulou novas formulações filosóficas a partir do heliocentrismo. Note-se que
todos esses homens não contestavam a Teologia, nem a Filosofia. A autonomia dos
estudos da natureza deixava, ao contrário, mais consistente a Filosofia e a
Teologia do que as antigas formulações escolásticas, pois as construções
medievais amarravam os dois mundos: o da natureza e o da transcendência.
Na
segunda metade do século XV, Pico della Mirandola (1463-1491) ajudou a preparar
o novo momento combinando a ideia de racionalidade, resumida pela filosofia da
época, com a noção teológica de criatura de Deus. (CARVALHO, O homem e a Filosofia, Porto Alegre:
MKS, 2018, p. 168): “Ele escreveu em A dignidade do Homem (1988) qual
era o destino humano naquele novo tempo que se iniciava: tu, porém, não estás coartado por amarra nenhuma. Antes, pela decisão
do arbítrio, em cujas mãos te depositei hás de determinar a tua complexão
pessoal.”
O
surgimento da ciência moderna foi preparado, portanto, nos séculos XIV e XV
pelo legado de homens como Mirandolla, Leonardo da Vinci e Nicolau Copérnico.
Ele foi um período de transição para uma nova maneira de compreender o mundo. Esses
dois séculos se seguiram aos quatrocentos ainda cheio de grandes construções
metafísicas, lembro de Alberto Magno, Roger Bacon e Guilherme de Ockam. A
característica mais marcante desses dois séculos foi a investigação autônoma do
funcionamento da natureza. Note-se que, nesse estilo de compreensão do mundo
natural não há espaço para o ateísmo, antes nota-se a importância e significado
da presença de Deus, além de não se contestar o valor da Filosofia. O que então
se fez foi olhar mais atentamente o funcionamento do mundo, não ainda como na ciência
moderna, mas já preparando a nova mentalidade.
Se
o ideal da ciência nos quatrocentos era ainda descobrir a essência pura das
substâncias, com a perspectiva copernicana, trabalhada nos séculos XVI e XVII
por Kepler e Galileu, esse propósito mudou na direção apontada pelo método
experimental. Esse método consistia na observação dos fenômenos naturais, sua
tradução em relações quantitativas e numéricas, a formulação de hipóteses
explicativas dos futuros fenômenos (indução) e a verificação da hipótese com o
cálculo. Se o fato observado e o cálculo chegam a resultado igual, criava-se
uma lei válida para explicar a natureza.
Embora
atento aos movimentos do mundo, o homem dos séculos XIV e XV fora marcado pelo
humanismo, não mais o cristão da Idade Média, mas o da antiguidade clássica,
redescoberto junto ao esforço de valorização das realizações humanas. E esse
homem, olhando para o mundo clássico, desenvolveu um novo olhar para as
relações de fé. Em que pese a existência das novas religiões cristãs,
provocando o cisma da cristandade medieval, popularizou-se a ideia de uma
religião natural e um direito natural, ambos acima das diferentes religiões e
dos sistemas positivos do Direito. Essa forma de ver a religião ajudou a
entender verdades naturais que não separavam, mas aproximavam as religiões.
Quanto ao jusnaturalismo moderno, no século XVII com Samuel Puffendorf ajudou
não apenas na formulação dos códigos de Direito, mas na organização do Estado
Moderno sob bases diferentes da medieval. Como se encontra em O Homem e a Filosofia (Porto Alegre,
MKS, 2018, p. 277): “No início da modernidade a consciência
da diferença entre ética e política provocou uma crise, pois significou uma
mudança radical no modo de pensar da Idade Média. Porém, aos poucos foi
possível compreender a singularidade da Política.” Muito interessante
que o Leviatã, livro de Thomas Hobbes
(1588-1679), embora ainda concebido sob a noção de poder absoluto, admitiu um
acordo onde as pessoas renunciavam ao interesse próprio em nome dos benefícios
de todos e logo depois, um ajuste nessa teoria do contrato social, permitiu
passar do absolutismo de Hobbes para o liberalismo e a ideia de tolerância desenvolvida
por John Locke (1632-1704).
Os
séculos XIV e XV prepararam, portanto, o desenvolvimento da razão experimental,
afirmaram a dignidade e valor do homem com a recuperação do platonismo,
contestaram a leitura de Aristóteles, popularizada na Europa Medieval, por
Averróis. Ambas as coisas propiciaram, não eliminar Deus do espaço cultural,
mas desnaturalizá-lo e construir uma nova ciência e um novo espaço social para
substituir a cristandade medieval.
As
diversas leituras e releituras feitas por especialistas desses movimentos
intelectuais da modernidade mostraram que embora a ciência nunca tenha
contestado a fé ou o funcionamento da razão, houve uma filosofia que começou a
fazê-lo, séculos mais tarde, o positivismo. Na esteira do positivismo, já na
segunda metade do século XIX, desenvolveu-se uma teoria materialista da ciência
que foi nessa direção.
Na
segunda parte do clássico Eu e Tu,
Martin Buber resumiu a história do indivíduo e das primeiras civilizações
através das expressões: mundo do Isso, que se refere à objetividade, à
civilização e à ciência e mundo do Tu para se referir às relações do homem com
a transcendência. As civilizações se iniciaram, lembrava Buber, com poucos
objetos, o que significava que a consciência humana começou devagar a se
articular na compreensão das coisas. Aos poucos, além das próprias
experiências, essas antigas civilizações receberam influências de outras
civilizações e os antigos impérios trocaram conhecimento sobre o mundo do Isso,
quer diretamente como Roma fez da Grécia, quer indiretamente como foi a relação
da sociedade medieval com a antiga Grécia. O mundo do Isso é o mundo da
experiência e da utilidade. Assim, quando aumenta o experimentar e o utilizar
no espaço social, amplia-se o mundo do Isso. Foi assim que Martin Buber
explicou o que se passou também com a nova ciência. Ocorreu uma espécie de
renovação do que houve no início das grandes civilizações. A ampliação da
preocupação com as coisas e o funcionamento da natureza provocou, isso no
século XIX, o esquecimento dos elementos espirituais que estavam presentes nos
séculos XIV e XV. O que Buber observou não foi que Deus acabou esquecido ou a
Filosofia abandonada ao longo da modernidade, mas que quando a razão humana
reduz as relações espirituais e fortalece as relações com o isso, os aspectos
transcendentes, metafísicos ou teológicos, ficam obscurecidos no espaço
cultural e no mundo mental de cada pessoa. Ficam eclipsados para usar a
expressão que o filósofo utiliza. Conhecer os mecanismos do mundo é
imprescindível para o homem, mas ele também necessita das referências
metafísicas e religiosas para viver. Isso significa que precisamos retomar
aquela perspectiva humanista dos séculos XIV e XV, pois a ciência não nasceu e
não precisa ser feita contra a transcendência e a fé.
sexta-feira, 17 de julho de 2020
Aristóteles, coragem para dias difíceis. José Mauricio de Carvalho – Academia Mantiqueira de Estudos Filosóficos.
A vida alterna momentos doces e amargos, fáceis e
difíceis, realizadores e frustrantes, cheio de chegadas e partidas. É essa
dinâmica existencial que se acelera nesses dias de confinamento e isolamento
social. Por um lado, estamos privados dos lazeres das ruas, viagens, ansiosos pela
perda dos rendimentos, do trabalho e infelizes com os planos adiados e, por
outro, na intimidade, tocados pelas dores emocionais, cansaços, medos,
inseguranças e incertezas do momento. Isso porque não é simples passar pelo sofrimento.
Ele expõe as limitações pessoais e nossa finitude. Ela evidencia que coisas
ruins simplesmente nos acontecem. Para dias difíceis, além da serenidade, a
virtude da coragem é nossa melhor vestimenta. Aristóteles, como bom filósofo, ajudou
a tecê-la.
Quando olhamos a história do pensamento
encontramos duas formas de considerar a coragem, ambas necessárias para dias
como esse: a moral ou a justa escolha e a ontológica, isto é, a coragem de
realizar o sentido do que somos, de assumir o que faz sentido para nós. Da
primeira tratou Aristóteles, que viveu na antiga Grécia entre 385 e 323 a. C.,
a outra foi estudada por autores contemporâneos como Ortega y Gasset, Paul
Tillich e Viktor Frankl.
Aqui vamos nos concentrar no que Aristóteles
ensinou sobre coragem no segundo livro da Ética
a Nicômaco. Naquela obra, o filósofo afirmou que “o homem que tudo teme e
de tudo foge, não fazendo frente a nada, torna-se um covarde, e o homem que
nada teme, mas vai ao encontro de todos os perigos torna-se temerário.” (Ética a Nicômaco, São Paulo, Nova
Cultural, 1987 – os pensadores, p. 28). O que Aristóteles quis dizer é que
coragem não é não sentir medo, muito menos se lançar de qualquer modo contra o perigo.
O corajoso sente medo, mas o enfrenta e sabe se mover contra as dificuldades
inevitáveis. Não é covarde, nem temerário. Portanto, coragem é uma virtude que está
no justo meio entre a covardia e a temeridade, sendo “destruída pelo excesso e
pela falta, e preservadas pela mediania.” (Id., p. 29). E do mesmo modo que o
homem fica forte por ingerir bons alimentos e fazer exercícios, a coragem
também se fortalece quando nos abstemos de prazeres dispensáveis e somos mais
capazes de fazê-lo.
Essas lições de Aristóteles realçam que, quando
nossas escolhas têm em vista o prazer puro e imediato, caímos em desejos
irresponsáveis e numa existência superficial. Quem escolhe apenas o que lhe dá
prazer torna-se, para o filósofo, intemperante, isto é, irresponsável ou capaz
de magoar pessoas queridas e fragilizar a própria vida, comprometendo saúde e
projetos.
Para Aristóteles a suprema forma de coragem é a
capacidade de morrer pelo essencial. No caso essencial era ser bom cidadão e
contribuir para o desenvolvimento da Polis. Ainda que seu intento seja
discutível aos olhos do homem de hoje, o essencial dessa lição é que coragem
não é apenas vencer os impulsos de covardia, mas fazê-lo pela grandeza dos
motivos. O que fizeram, por exemplo, Sócrates e Jesus de Nazaré, ambos aceitando
a morte injusta que lhes foi imposta pelos governos de suas sociedades. A
aceitação corajosa da morte foi a marca de ambos. Coragem é o que caracterizava
o soldado grego, sempre disposto a morrer por sua Atenas, aquela flor da Grécia
democrática, linda exceção entre os antigos Impérios.
Aristóteles deixou lições preciosas para tempos
difíceis. E essa capacidade de descobrir o justo meio, em cada ato, o que
diferencia o homem dos outros seres. Ele é capaz de escolher uma coisa ou
outra. E, pelo exercício, pelo estudo, pela meditação filosófica e treino que
se aperfeiçoa a prática da coragem, sem a qual não seguimos pelo caminho da
justiça, como é defender o bom, o belo, a verdade, ou seja, nosso Deus, nossa
família, nossos amigos e nossa pátria. Quando agimos querendo o que é bom
purificamos nossas ações e nos afastamos do ódio e de tudo o que destrói
pessoas e sociedades.
Aristóteles nos convida a agir com coragem, a nos mover
com a claridade da razão, tomando cuidados com a saúde, mas seguindo imperturbável
na realização das tarefas que não podemos deixar. Vivendo numa sociedade
superficial e incapaz de aprofundar a discussão política, perdida em discussões
inúteis, cabe preservar a justa indignação contra o mal, não fazer concessões a
ele, não fugir das responsabilidades, e viver sereno seguindo o exemplo
daqueles que, pelo esforço e dedicação, venceram seus medos e, por isso, se
tornaram o melhor tipo de homem: os que vencem a situação e a si mesmos.
sexta-feira, 10 de julho de 2020
SAÚDE E POLÍTICA. Selvino Antonio Malfatti.

O ator brasileiro, Flávio
Migliaccio suicidou-se deixando uma Carta acusando, genericamente, não se sabem
bem quem:
“Me desculpem, mas não deu
mais. A velhice neste país é (…) como tudo aqui. A humanidade não deu certo. A
impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este e com esse tipo de
gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje”, disse na carta.
Questiona-se: o quê e por
que não “deu certo” a velhice. Responderia que foi pelo seguinte: a saúde fez
a sua parte, mas a política se omitiu. A ciência melhorou a saúde, deu mais
anos de vida, aprimorou a qualidade de vida, ofereceu a possibilidade de
alegria de viver na velhice. A política não providenciou assistência à saúde,
não disponibilizou locais próprios, abandonou-os à própria sorte ou encerrou-os
em casa junto com filhos e netos: sem saúde, sem alimentação adequada, sem
acesso a bens materiais e imateriais, sem lazer, sem passeios, como poderia dar
certo?
O que está em jogo é
estruturar o período da velhice para que seja prazeroso e o menos dolorido
possível. Em sociedades adiantadas, os vários períodos da vida possuem uma
organização cujo trajeto flui normalmente. Assim acontece com o período de
criança, infância, adolescência, juventude e vida adulta. Em cada período
destes as pessoas ingressam e saem naturalmente. Para cada uma delas esperam-se
comportamentos adequados e o ingresso e saída se dá sem traumas, a não ser os
próprios do período. Uma criança passa da infância para a adolescência sem
sentir e transcorre o tempo no estágio sem transtornos.
Isto é ocorre com a velhice.
Quando a pessoa ingressa nela se vê perdido, abandonado, sem finalidade. Não há
uma estrutura que abrigue a velhice. Refiro-me uma estrutura institucional
assumida pelo poder público e coadjuvado pela iniciativa privada.
Este é o princípio da
solidariedade entre as gerações. Há uma geração anterior que originou a atual,
uma geração atual que precisa cuidar desta quando envelhecer. São três momentos:
anterior, atual e posterior. O fluxo solidário não pode ser interrompido com o
perigo do rompimento do vínculo cultural. Se o elo estabelecido se romper as
gerações deixarão de se identificar umas com as outras como um nós.( Cf. Manuel
Castells, sociólogo espanhol, em artigo publicado por La Vanguardia, 20-06-2020).
Acresce-se o aumento da
expectativa de vida em lugares de ciência mais avançado, mas de estruturas de
assistência não tão avançados, causa desequilíbrios quando não houver políticas
públicas adequadas. Até pouco causava
admiração os septuagenários, depois vieram os octogenários, em seguida os
nonagenários e agora já aparecem os centenários. A gerontologia requer cuidados especiais: saúde, alimentação,
lazer, assistência 24 horas. O problema é que não há estruturas públicas para
isso e as privadas são caríssimas. As famílias não conseguem dar suporte
econômico a esses seus familiares. E o poder público é omisso. Com isto as
gerações de idosos ficam à mercê das famílias que não podem suportar
economicamente e muito menos emocionalmente os idosos.
sábado, 4 de julho de 2020
Sócrates e a vida virtuosa. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei
Sócrates viveu aproximadamente setenta anos entre 470 a.C. até 399 a.C. Morreu depois de um julgamento injusto, como também foi o julgamento de Jesus de Nazaré. A forma como ambos aceitaram a condenação revela grandeza moral e extrema coragem, embora Sócrates no tribunal se comportasse como um bom grego, isto é, argumentando e desmontando racionalmente os argumentos da sua condenação, enquanto Jesus respondeu rapidamente a Pilatos, mas se recusou estabelecer uma polêmica contra seus perseguidores: “Acusado pelos chefes dos sacerdotes e pelos líderes religiosos, ele nada respondeu. Então Pilatos lhe perguntou: ‘Você não ouve a acusação que eles estão fazendo contra você? Mas Jesus não lhe respondeu nenhuma palavra, de modo que o governador ficou muito impressionado.” (Mateus 27:12-14). O evangelho de Mateus mostra que, ao ser denunciado Jesus não retrucou, recusando-se a responder às falsas acusações por julgar que a verdade devia se impor e se ele estivesse num reino de justiça ela deveria se impor. Se Sócrates se defendeu de forma diferente de Jesus, ao ouvir a condenação não fez nada que a modificasse. Aceito-a.
Quando Sócrates viveu, era comum em Atenas, que os cidadãos não somente se reunissem para fazer as leis, mas para zelar pelo seu cumprimento. Cabia, em outras palavras, o exercício direto do poder legislativo e judiciário. Assim foi composto, por sorteio, um júri com 500 cidadãos para julgar Sócrates, depois de ser acusado de corromper os jovens. A vida de Sócrates teve outra semelhança com Jesus, depois de um tempo de juventude dedicando-se aos combates e a defesa de Atenas, passou a vida adulta andando e ensinando, não uma doutrina religiosa, mas as pessoas a pensarem logicamente e a justificarem seus argumentos. Enfim, a viver de forma racional e a não cultivar pensamentos sem a devida fundamentação. Sócrates tinha como sua missão aquilo que depois passou a ser feito por seus discípulos, a defesa do pensamento racional na compreensão do mundo, da vida, do bem e do belo.
O que nos ensinou Sócrates, sua vida e morte? Na sua vida se dedicou a compreensão racional da realidade pessoal e do mundo. E, como consequência, a ajudar os cidadãos de Atenas a fazerem o mesmo. Ao invés de negócios e enriquecimento, ele cultivou o propósito da vida virtuosa como condição não apenas de boa cidadania, mas daquilo que é básico na vida pública e privada. Em outras palavras, não que não se possa viver trabalhando e desejando enriquecer-se, mas ele avaliou que isso somente valia a pena numa sociedade justa e construída com base na confiança de seus cidadãos. Um lugar onde a violência, a irracionalidade (cidadãos invadirem hospital para verificar se ali há doentes de covid 19, como aconteceu nesse fim de semana no Espírito Santo) e inverdades (ou fake News, o novo nome da mentira) imperam não é um bom lugar para viver. Sócrates quis dizer que uma sociedade assim não é um espaço político digno de alguém que entendeu o sentido de viver em comunidade. Isso porque, numa sociedade de violência, irracionalidade e mentira, não era possível viver e confiar no que era dito, inclusive pelas autoridades políticas, sem o que os cidadãos não sabem no que acreditar e mergulham no vazio e na insegurança.
Além dessa atitude de profundo significado político, que
o impediu de propor uma pena alternativa à sua morte, o que certamente seria
aceito pela assembleia e de fugir enquanto poderia, ele aceitou com serenidade
a condenação. O filósofo preferiu viver segundo suas convicções, a assumir que
tinha culpa e merecia a condenação. Por outro lado, uma vez expedida a
condenação não lhe cabia recusá-la, como honesto cidadão. Sócrates é um homem
que não traiu suas crenças, valores e altas convicções. Não cometeu atos
indignos dos quais depois se envergonharia. Ele venceu suas dúvidas ao assumir
com autenticidade sua missão de vida. Ele mostrou que a viver somente vale a
pena quando tem um sentido, um para quê, cujo significado é o compromisso com o
mais autêntico de si mesmo. Viver pela verdade, política, científica,
filosófica e pessoal, é o que nos fica de Sócrates, sua vida e morte.
sexta-feira, 26 de junho de 2020
É possível querer o mal? José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei
No
livro Imagens do Bem e do Mal, Martin
Buber mencionou dois momentos marcantes onde se tratou o problema do mal frente
a uma realidade Absoluta ou Deus. No oriente e na antiga Grécia acreditava-se
que os homens e deuses habitavam a mesma terra e deviam viver sob as mesmas
leis, formando uma única comunidade. Os pré-socráticos tinham, por verdade
inquestionável, a submissão do homem à essa ordem sagrada do mundo e à
necessidade de expiar as culpas quando se desobedecia tal ordem. Platão pensava
diferente, mas não venceu a posição tradicional e os sofistas que vieram depois
dele promoveram profunda crise cultural ao relativizar os valores e colocarem o
homem como medida das coisas. As dúvidas dos sofistas promoveram verdadeiro
caos no mundo antigo. A outra tentativa de abordar o mal diante de um Absoluto foi
feita pelos hebreus. Eles aceitavam que as leis oferecidas ao povo no Sinai eram
divinas e desobedecê-las levava ao castigo. Nesses casos, o vínculo entre o
religioso e o moral só pode ser considerado se o homem for livre e responsável
para obedecer a essas leis. Nisso está a base da autonomia e liberdade humanas
pela qual o homem faz escolhas. E essas escolhas comportam a possibilidade de escolher
o mal.
O
citado livro de Martin Buber nos apresentou como se compreendia o Bem e do Mal
no mundo antigo diante de uma exigência absoluta, o que inaugurou o problema da
realidade do mal. Para tratar disso a Bíblia associou duas tradições distintas,
uma mais própria dos povos semitas que falava na queda para o mal a partir das
escolhas humanas (episódio da desobediência de Adão e Eva no Éden) e a outra
vinda do oriente, especialmente da Pérsia, que entendia o mal como realidade
radical que se contrapunha ao bem. Dessa segunda tradição é exemplo a revolta
de Lúcifer contra Deus (Is. 14) ou a insatisfação do grande Querubim (Ez. 28)
que foi lançado nas trevas. Nas duas tradições, a vida humana se desenvolve nas
escolhas que faz diante do mal.
Além
da tradição bíblica e da forma como o tema foi tratado antes de Sócrates, o
ocidente também examinou a escolha do mal a partir dos modelos éticos fruto da
meditação filosófica. Esses modelos se desenvolveram desde a antiga Grécia,
Aristóteles foi o construtor de um primeiro e sistemático modelo ético, modelo cristianizado
por Santo Tomás, ao qual se contrapuseram as éticas modernas racionalista e
empirista, a ética kantiana do imperativo da razão e a ética dos valores de Max
Scheler. Todas reconhecem a autonomia do homem e sua possibilidade de escolher
o mal, embora considerem o mal de maneira distinta.
A
questão da escolha do mal nesses últimos modelos éticos (Kant e Scheler), além
de não fugir da tradição de que é possível escolher o mal, adiciona o problema
de entender as diferentes formas de querer o mal. Em síntese, pode-se dizer que
se pode querer o mal simplesmente cedendo aos desejos e inclinações
instintivas, rebaixando o homem ao nível dos animais. Nesse caso, evitar o mal
significava kantianamente conter os desejos da besta fera. Se essa besta não
for contida a responsabilidade afasta-se da liberdade e a pessoa age para obter
o prazer do momento. Uma segunda forma de escolher o mal é se omitindo em
situações difíceis, escolhendo o bem apenas quando isso não a prejudica ou não lhe
pede grande esforço. Foi o que fez Pilatos no julgamento de Jesus. E há ainda
uma terceira forma de querer o mal: é praticá-lo com gosto, desejar escolher o
mal. Frankl relatou que nos campos de concentração havia aqueles que gostavam
de fazer o mal. Frankl escreveu (Fundamentos
antropológicos da psicoterapia. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 179): “nos
campos de concentração os homens se diferenciavam. Os salafrários deixavam cair
as máscaras. E os santos se manifestavam. A fome fazia vir a qualidade de cada
um.” Isso é assim porque os homens podem escolher e há os que escolhem praticar o mal em suas diversas formas.
sexta-feira, 19 de junho de 2020
CEM ANOS DE ESPÍRITO WEBERIANO. Selvino Antonio Malfatti
Em todo mundo está-se
relembrando os cem anos do desaparecimento do maior sociólogo do século XX: Max
Weber, falecido em 14 de junho de 1920, em Munique. Sua obra é imensa, desde A ética Protestante e o Espírito do Capitalismo até Economia e Sociedade.
Destacamos alguns conteúdos
estudados por Max Weber:
1.
Burocracia. O seu estudo sobre a burocracia,
conteúdo chave para entender os tipos de organizações, mormente as estatais. As
organizações começam geralmente de modo espontâneo, mas pouco a pouco se
burocratizam. E daí espontaneidade cede
lugar à impessoalidade, garantia de
previsão e dotação dos meios para a administração e um sistema de autoridade
praticamente indestrutível. Max Weber foi um crítico da burocracia,
consequentemente denunciou o poder do aparelho burocrático estatal. Para ele a
burocracia trabalha para manter a superioridade de sua posição. Para tanto
mantém segredo das informações e intenções. Como exemplo e modelo é o sistema
jurídico estatal. Nada penetra a justiça do Estado. A interpretação somente
cabe a um corpo de juristas que só a eles compete interpretar e julgar.
2.
A religião. Aborda as diversas teodiceias: a
dualista, a da predestinação e a da salvação universal. Analisa também
rapidamente as psicologias das religiões mundiais, Entre elas o confucionismo e
taoísmo, hinduísmo e budismo, islamismo, judaísmo e cristianismo. As religiões
percorrem etapas, dependendo de seu caráter. As ocidentais, baseadas
principalmente no ascetismo chegam à racionalização, enquanto que as orientais,
devido ao seu misticismo não conseguem evoluir para a intencionalidade e
racionalidade. Dentro de cada religião há três aspectos, entre outros que são
fundamentais: econômico, político e intelectual, causadores da estrutura social
de grupos, casses e status.
3.
O Tipo Ideal necessariamente não precisa se
adequar exatamente à realidade, já que o objetivo do tipo ideal é ressaltar
aspectos comparativos, a partir dos quais fazemos observações e criamos
hipóteses (ou teorias) sobre a realidade analisada. Importante ressaltar que os
tipos ideais são meros construtores e não tem nenhum objetivo normativo ou
teleológico. Sobre esta característica do tipo ideal.
4.
Sociologia Compreensiva. Compreender que a
Sociologia é uma ciência que se propõe a entender e interpretar para em seguida
explicar a ação social; Conhecer o procedimento interpretativo de Max Weber, a
construção do tipo ideal identificando os tipos ideais de ação social.
5.
Racionalização da ação social. A
racionalização é o fio condutor da macrossociologia weberiana no estudo das transformações
sofridas pelas sociedades ocidentais modernas. Nesse sentido, o longo processo
histórico de transição das sociedades de configuração
tradicional para os padrões de formatação específicos da modernidade tem como
principal característica, conforme constatou Weber, a crescente diferenciação e
especialização das diversas esferas culturais de valor, em oposição à conjunção
de instituições relativamente informes e indiferenciadas das sociedades
tradicionais.
Neste processo, os diferentes domínios da vida coletiva
passam a progressivamente desenvolver maior autonomia, arregimentando uma
estrutura interna lógica, coesa e crescentemente complexa, devidamente orientada
para a obtenção dos resultados aos quais se destina, conforme os respectivos
aspectos e finalidades inerentes a cada domínio, seja ele o jurídico, o
político, o
econômico ou o religioso. Por sua vez, este processo de
racionalização encontra-se imbricado ao processo paralelo de inteletualização
ou desencantamento religioso do mundo. Tal fenômeno consiste tendência ao predomínio
hegemônico nas sociedades ocidentais de uma visão de mundo segundo a qual a realidade
material passa a ser compreendida como um complexo de mecanismos causais,
passíveis
de serem apreendidos através da abstração e, portanto,
sujeitos ao controle humano por intermédio
do raciocínio lógico.
6.
O Sentido da Ação humana, conjugada com a
teoria das formas de dominação, pode lançar luz sobre a questão. Conforme
Weber, a ação humana pode ter quatro sentidos:
Ação racional, tendo presente uma verdade, avaliada sob a
luz da razão como um fim em si e escolhida sem qualquer tipo de coação. Neste
caso há uma perfeita sintonia entre o ser buscado e a razão. Ação racional,
tendo presente um valor, avaliado sob a luz da razão como um bem em si e
escolhido sem qualquer tipo de coação.
Ação sentimental, tendo presente uma emoção, avaliada
pelo sentimento como uma sacralidade e escolhida de conformidade com a
satisfação.
Ação tradicional, tendo presente um costume, avaliado
tradicionalmente como eficaz e escolhido sob a égide da repetição.
7.
Formas de dominação ou de legitimação do
domínio, Weber apresenta três formas puras:
A tradicional se refere aos costumes sagrados dos
ancestrais. É o “ontem eterno” sacralizado na tradição. Este, na forma mais
pura, o aparelho estatal, confunde-se com a vontade pessoal do governante. Não
se estabelece uma distinção entre o governante e a pessoa física de quem o
governa. É o patrimonialismo, pelo qual o bem público se confunde com o
privado.
A carismática, baseada no dom pessoal, na unção, no dom
da graça conferido a alguém.
A legal, baseada na força da lei. Há regras
preestabelecidas e universalmente válidas. É o domínio exercido em virtude da
lei.
8.
A Política e os partidos. O Estado moderno,
detentor da violência física legítima, depositou nas mãos dos dirigentes os
meios necessários para sua gestão. Os antigos funcionários do Estado foram
substituídos e, em seu lugar, apareceram outros, os políticos profissionais.
Esta é uma categoria nova a princípio a serviço do príncipe e de sua luta
política dos quais extraíam o pão cotidiano. O próprio poder do príncipe passou
a depender deles e, com isso, cresceram de importância.
Os políticos, inicialmente, apareceram como homens que
viviam para a política e, mais tarde, homens que viviam da política. Entre
outros.
Estes são alguns tópicos estudos por Weber.
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