sexta-feira, 8 de maio de 2020

Nação e Heróis. José Mauricio de Carvalho - Academia de Letras de São João del-Rei



Tempos extremos suscitam o heroísmo. Infelizmente também promove o contrário. Viktor Frankl dizia que nas situações extremas da vida as escolhas separam os santos e os porcos. E nós precisamos demais dos primeiros.
Nesses dias em que o mundo enfrenta uma pandemia, heróis são fundamentais. Quanto mais difícil o momento, mais precisamos deles. Eles estão agora entre profissionais de saúde, trabalhadores que precisam manter serviços essenciais e pessoas que apoiam os mais vulneráveis.
Fui educado numa limitada visão de democracia que ensinava que um povo não necessita de heróis. Foram precisos anos de experiência e um genial pensador espanhol chamado Ortega y Gasset para mostrar que não é assim. Uma nação necessita de heróis para guiá-la, lidera-la e mantê-la de pé. A democracia, é uma forma de organização política e é ótima quando não impede a liberdade e os talentos individuais. Em resumo, uma democracia que respeita a liberdade, para não adoecer, não pode ir além da organização política, não pode alcançar, disse Ortega (Democracia Morbosa, Obras Completas, v. II, 1988, p. 135): “a religião e a arte, (...) o pensamento e gesto, (...) o coração e os costumes (sendo nesses casos) a mais perigosa doença que pode padecer uma sociedade.” Poucas coisas são piores para um povo que, em momentos de crise, possuir uma legião de porcos, como disse Frankl.
A lição de Ortega sobre democracia, somada ao que ele escreveu em dois livros clássicos; España Invertebrada (1921) e A Rebelião das Massas (1930), mostra que pessoas notáveis são chamadas a liderar a sociedade. Ninguém lidera em todas as áreas, apenas alguns se destacam em cada uma: o artista nas criações estéticas, o prático nas atividades tecnológicas, o gênio nas criações científicas e filosóficas, o ético nos movimentos sociais e também o santo. Essas são formas diferentes de ser herói. Viktor Frankl relata em Em busca de Deus e questionamentos sobre o sentido a atuação de médicos na Segunda Guerra (2014, p. 90): “minha tarefa é testemunhar diante de vocês como médicos vienenses passaram fome e morreram; dar testemunho de verdadeiros médicos que viveram como médicos (...) que não podiam ver os outros sofrer, não podiam deixar sofrer”. Esses médicos foram heróis.
O mês de abril é um tempo bom para falar de heroísmo, não apenas porque se recorda a morte de Tiradentes, que deu a vida pela liberdade do país, mas porque se comemora a vitória da FEB em Montese, que, se não foi significativa como a de Fornovo, foi marcada pela bravura e onde, em pouco tempo, morreram quase quinhentos brasileiros. Veio depois da Batalha de Monte Castelo, que se arrastou por três longos meses e onde morreram mil militares. E ocorreu antes da de Fornovo ocasião em que soldados da FEB aprisionaram a 148ª Divisão Alemã e parte de uma Divisão Panzer no total de quase 15 mil soldados alemães. Esses brasileiros morreram, como tantos outros já haviam feito em nossa história, para termos uma nação forte.
Que nosso povo veja surgir muitos heróis nesses dias e que eles sejam, para os outros brasileiros, exemplo e inspiração.


sexta-feira, 1 de maio de 2020

REUNIAO NO CEMITÉRIO DE PRAGA – CIENCIA, FILOSOFIA E TEODICEIA. Selvino Antonio Malfatti





Tudo que o que as ficções científicas projetaram estão se concretizando. Em “1984” projetou-se uma sociedade completamente vigiada e direcionada pelo Grande Irmão, Estado. O Estado via tudo, inclusive a intimidade das pessoas até mesmo as relações amorosas.
Depois do Covid-19, China e Coreia implementaram programa de vigilância biométrica sobre a população. O simples acesso facial pode levar ao conhecimento dos mínimos detalhes de cada indivíduo: gostos pessoais, comida, política, sexo, lazer e outros. Isto foi possibilitado pelos algoritmos. São capazes de detectar não só nossas preferências on-line off-line, mas cruzar estes dados com nossos movimentos, nossas emoções.

Fomos apossados pela tecnologia como um vírus, pois no dilema entre a privacidade e saúde optamos por esta e entregamos à ciência nossa intimidade como nosso Genoma. A ciência assumiu o topo de nossos valores. Ela só explica o aspecto físico, material para a doença e a morte. Mas é só isso? Os outros aspectos, os “meta físicos”, descartados sumariamente e a priori. Alguém se lembrou de perguntar algo à filosofia? Onde está a filosofia com seus conhecimentos metafísicos? Ela poderia dar uma resposta.
No entanto, ambas, após 40 dias de pandemia, ciência está às moscas perante o vírus. A ciência, no alto de seu pedestal, não consegue vencer uma bolha que invade um corpo humano. Milhares, já se aproximando do milhão, de pessoas estão morrendo como insetos infectados pelo COVID-19. E a ciência arrasta-se sem sucesso no encalço do vírus.

A filosofia imoblizada, com toda sua soberba em afirmar o “homem é isto”,  o “homem é aquilo” está muda diante da bolha que devasta sem dó nem piedade os seres humanos.
A teologia ou teodiceia? O que diz? Ela que quer estabelecer um elo entre a criatura e o criador sente-se desprezada em seus esforços para comover o sobrenatural.
E a bolha graxeia coroada continua impassível ceifando vidas!

Não será necessária uma reunião ugente no Cemitério de Praga de Ciência, Filosofia e Teodiceia para ver o que cada uma poderia colaborar? Reunir os maiores sábios do mundo e abrir o jogo. Representantes de Roma, Paris, Londres Washington, Madrid, Lisboa etc.etc.etc. para assinar um Protocolo gnosiológico  e restabelecer o diálogo entre as áreas do conhecimento. A ciência representando o universo; a filosofia, o homem; e a teodiceia, o sobrenatural.

 No período clássico dos gregos e romanos, ciência e filosofia entrelaçavam-se, seguindo o modelo traçado pelo médico - filósofo, Aristóteles.Ciência e filosofia complementavam-se. A religião era algo separado da ciência e filosofia. No entanto, entre filosofia e ciência havia intercâmbio.

Após este período, a filosofia imiscuiu-se com a religião. Nesta relação, a filosofia perdeu seu norte ao abandonar a comprovação como critério científico. Santo Tomás tornou-se o protótipo: Filósofo e Teólogo.  O critério de conhecimento passou ser a Autoridade: diz a Escritura. A partir de então a filosofia foi absorvida pela religião. Embora não tenha sido a filosofia, mas a religião que foi vencida pela ciência, a ciência descartou as duas.

No advento do Renascimento, quando as duas poderiam ter retomado as relações, preferiram seguir seu próprio caminho como duas bicudas que não queriam e não podiam se beijar.

Atualmente entreabriu-se uma porta de acesso. Trata-se da mediadora Ética que abre o diálogo entre a filosofia e ciência. E precisamente no mesmo ponto que Aristóteles estabeleceu a conexão: medicina e ética. Justamente a ciência médica foi buscar o socorro e convidou a ética para dialogar. 

Por isso, atualmente há novamente uma aproximação entre filosofia e ciência. Grandes cientistas são também grandes filósofos. Quando a ciência chega ao limite do conhecimento, aciona a filosofia pedindo para mostrar-lhe o caminho a seguir. A ciência busca o “scire ens”, saber o que é a entidade do ser. A ciência jamais conseguirá captar o ser, apenas o contornará, pois o ser é “Meta físico” e a ciência somente poderá chegar ao físico. O “meta físico” é invisível, quando na verdade é ele que conduz a nossa mente. Esta conduz nossa vida. A causa do visível é o invisível. Se me proponho a ir a um lugar (visível) minha mente traçou o caminho (invisível). Basta o visível seguir o invisível. Isto foi até hoje.

A partir deste momento entramos em outra dimensão com a permissão de explorar nosso íntimo. A técnica já era conhecida, o algoritmo, mas ainda não havia sido utilizada para este fim. O algoritmo, como uma receita de conhecimento prático, é capaz de criar a ponte entre o invisível de nossas mentes e o visível de nossos “data” biomédicos e a partir disso direcionar nossos comportamentos. As informações disponíveis poderão ser usadas na manipulação de comportamentos desejados por quem detém os “data”.

A questão que se coloca é: existe uma entidade invisível, próxima à nossa alma, capaz de rastrear o que os algoritmos estão operando? E que seja capaz de detê-los quando passarem dos limites? Que a consciência tenha capacidade de dizer não às ciladas, embustes, armadilhas dos “data” inseridos no programa para dominar nossas ações visíveis. Em síntese, a Liberdade pode estar à salvo dos algoritmos e cintilar soberana a cima das pressões dos programas dos algoritmos? A consciência soçobrará às investidas do visível sobre seu invisível? Ficará a salvo a intimidade? Estamos, portanto, diante de um mundo de incertezas, vislumbradas por Heisenberg.  Os “data” inseridos na consciência poderão ser controlados ou mesmo parados quando desejarmos? Se o mundo e a consciência já estão cheios de incertezas, imaginem quando começarmos a manipular as incertezas!

Nossos sentimentos ainda poderão ter autonomia? Conseguiremos afastar o entulho dos programas e conhecer a nós mesmos? Isto a afetará não somente nossas consciências pessoais como a consciência coletiva de que fala Jung. Mais do que nunca os algoritmos estão prestes a apoderar-se da consciência coletiva e controlar a mente humana. Isto poderá acontecer com indivíduos sem autonomia, escravos de seus próprios estereótipos de seu sistema de referência.

A filosofia deve marcar presença para garantir a vida do espírito, o princípio ontológico da natureza humana, com o mundo do Ser e não do devir. É preciso que o vir-a-ser de Heráclito esteja em sintonia com o Ser de Parmênides. Só assim, evitará que os algoritmos elaborem e implantem programas sociais voltados a eliminar o que ainda resta de humanos.
Por isso faz-se necessária uma runião urgente dos sábios do mundo inteiro no Cemitério de Praga para salvar o universo e o homem.




sexta-feira, 24 de abril de 2020

Os primeiros passos de uma consciência nacional. José Mauricio de Carvalho



O novo corona virus (covid 19) contaminou as sociedades nacionais como numa sequência de queda de dominós, dessas montadas para promover a admiração das pessoas. Uma a uma foram contaminadas as sociedades nacionais e, com rapidez assustadora, espalhou-se pelo mundo a morte, o medo, a angústia e a insegurança. Temerosos assistimos as notícias de morte nas sociedades primeiramente contaminadas e que nos antecederam no pico da contaminação. Nelas a doença provocou o colapso da vida econômica e social, contaminando indistintamente ricos e pobres, cultos e menos cultos, cidadãos e camponeses.
Na medida em que o medo e a angústia passaram a povoar os corações dos povos, os governos orientaram seus cidadãos a permanecerem em casa, evitando um contato que espalhasse mais rapidamente a doença, antes que o sistema de saúde estivesse minimamente organizado para combater a epidemia. Algo assim começamos a viver em nosso país.
Em meio ao temor pela contaminação, experimenta-se o paradoxo representado por adotar medidas de proteção social para poupar vidas e depois vê-las destruí-las pelo desemprego e desespero. Com a economia quase parada e as vidas estagnadas, começa a crescer um temor secundário, nas pessoas isoladas em suas casas. Não mais o medo do vírus, mas do perigo que representa uma sociedade com milhões de desempregados, cujas vidas foram despedaçadas pelo desemprego e paralização da economia.
Nesse tempo de crise intensa começa nosso Estado, seu povo e seu governo a tomar as primeiras lições de vida nacional. Em meio ao sofrimento e a insegurança geral reduz-se os antagonismos verificados na recente polarização política das últimas eleições, perde força o discurso fascista, elitista, que discriminava os pobres e fazia apologia da violência, do terror e da discriminação. Discursos incapazes de reconhecer nos cidadãos a condição de pessoa humana, embora ainda circulem pelas redes sociais milhares de notícias falsas que minam a democracia e as bases da sociedade nacional.
 Assistimos o ministro da economia dizer que ninguém será deixado para traz em alusão às muitas medidas de proteção social que precisarão ser desenvolvidas. Utiliza uma frase típica de militares em combate para se referir aos colegas feridos.
Essas primeiras iniciativas são ainda muito tímidas. Estamos nas primeiras semanas do ensino fundamental da nacionalidade, estamos escutando as primeiras lições do que significa ser uma nação, possuir objetivos nacionais acima de partidos políticos, construir metas de estado e objetivos maiores que os interesses de grupos. Uma nação precisa disso, algo maior que interesses. Precisamos de uma prática política capaz de conceber objetivos gerais para a sociedade, não à imagem de um passado de discórdia, mas de um futuro em que nos pensemos como povo.
Não é preciso que a sociedade seja comunista, nem é necessário padronizar vidas e comportamentos de uma espécie com indivíduos únicos, basta que os homens dessa terra aprendam a viver como companheiros de destino, ajudando-se diariamente em meio, não a grandes crises, mas aos problemas comuns da vida.
    

sexta-feira, 17 de abril de 2020

A TOCA DE OURIÇOS. Selvino Antonio Malfatti





O inigualável contador de fábulas, Jean de La Fontaine, costumava ensinar um valor através de uma fábula, geralmente envolvendo animais. A moral da estória era um valor social ou um princípio ético. Podemos citar a Formiga e a Cigarra, a Raposa e as Uvas, o Leão e o Rato entre outras.

Estamos convivendo com uma pandemia neste ano de 2020. Como é viver recluso em casa com os familiares: pais, filhos, avós, netos e mesmo outras pessoas? Se alguns meses atrás fizéssemos a pergunta: é possível isto? É muito provável que responderíamos que não, pois numa sociedade democrática isso seria impossível. No entanto, cá estamos vivendo isso, quer gostemos, quer não, pois reclusão ou morte. Vamos imaginar como seria uma ninhada de ouriços vivendo numa mesma toca para enfrentar um inverno severo. Conseguem viver só por que ficam perto uns dos outros tendo cuidado de picar o menos possível o outro. Eles terão que conciliar a liberdade de cada um, saúde de todos e economia de guerra para não faltar. Cada um deve usar sua liberdade, sem impedir a dos outros. A saúde ao abrigo, dentro do ninho. E a sobrevivência na economia de todos e cada um.
Da mesma forma, dentro de um grupo familiar, posto em isolamento, repentinamente com  todas as qualidades e defeitos seus membros se vêem face a face. A desconfiança de que o pai ou a mãe protege um filho, a suspeita de que algum receba mais que o outro. O ciúme da musculatura do irmão, a beleza mais saliente de uma irmã. O casal, uma cobrança antiga ficada para trás, desejos incontidos de vingança, ciúmes, invejas, amor frustrado, amizade aos frangalhos. Tudo isso são espinhos de ouriço picando uns aos outros.

No isolamento das famílias brasileiras está a ideia de salvação coletiva. Como deve dar-se o isolamento? O Estado e o mercado podem parar enquanto possuírem reservas. Por isso há duas posições: parar totalmente na esperança de que o mal acabe antes ou parar parcialmente, deixando uma parte isolada, os de risco maior, e os demais levarem adiante a economia como puderem. O Brasil optou pela primeira, isto é, todos param, o mal vai embora e todos retornam. Mas e se o mal persiste, como é o caso? Aí se instala o caos: o governo federal determina o isolamento, alguns estados admitem certas atividades com métodos próprios, municípios autoliberam liberam e outros não, justiça que prende quem não obedecer e os cidadãos?


Voltemos à toca dos ouriços. Eles compulsoriamente têm que conviver para sobreviverem. Mas cada um quer usufruir de sua liberdade. Se algum quiser mais espaço espinha o outro. Este esbraveja. Todos precisam preservar a saúde e por isso devem ficar entocados. Se saírem, deve ser de extrema necessidade e retornar ao mais rápido possível. Os gastos devem ser os mais parcimoniosos possíveis. Só gastar o essencial.

Da mesma forma nós, estamos em isolamento, confinados nos nossos lares. Antes vivíamos mais fora dos nossos lares do que dentro.
. Levávamos uma vida líquida, volátil, de contatos virtuais e online. Agora, de repente, somos submetidos a contatos face a face, físicos, exprimidos. Como está sendo a acomodação à nova vida? Recolhi alguns depoimentos deste isolamento. Transcrevo-os, sem citar a autoria.

A maioria enfatizou a experiência de estar frente à frente consigo mesmo e por isso: “Uma forte experiência existencial”. Ou;

 "meu marido e eu estamos literalmente engaiolados num apartamento'.

Na esteira da do auto isolamento veio junto: “A experiência do autoconhecimento é imensa.” E quando não a consciência do autoconhecimento: “Eu acho que a introspecção não faz mal a ninguém e nesta clausura, começamos a dialogar com nos mesmos e com pessoas que antes nunca havíamos dialogado. Eu acho que muitas pessoas sofrerão mudanças internas nunca antes imaginadas. O egoísmo foi substituído pelo "nós. Já ouvi muitas opiniões e acho que apesar dos pesares, sairemos ilesos, se Deus quiser, longe de contaminações.”

“Já para outros, o isolamento era uma praxe da própria vida.” Gostaria de falar por telefone e não digitar. Faz muitos anos que moro sozinha, não há companhia melhor que a minha. Tenho um mega conhecimento de mim, a quarentena não interferiu em nada. Sempre pensei nos vulneráveis, agora mais ainda. Estou muito preocupada com a crise econômica do país. Meu pão de cada dia é garantido. Como pratico várias atividades agora está difícil reduzir, sair menos de casa. Culminou aposentadoria de 20h com quarentena o que está dificultando um pouco ficar em casa. Não vou entrar em detalhes o que faço para ajudar seres que precisam.“

Outros sentiram a solidão e o peso do isolamento: “Eu estou ficando louca. Com depressão, pânico e ansiedade. Não por ficar em casa, mas por não ter ver e abraçar minha neta que mora a apenas duas quadras de distância mas é como se fosse mil quilômetros. Do falar por vídeo não adianta. Eu não aguento mais.”

Houve alguns que mencionaram questões político-ideológicas: “Mas o principal é a compreensão de que a sociedade Capitalista não é compatível com a vida. E o quanto a irresponsabilidade eleitoral de alguns poderia minar um país se não houvesse resistência de outros lados.”

Alguns encararam com normalidade a clausura: “Tenho ocupado o tempo para pesquisar” ou ainda: “Estamos preso em nossas Residências, mas esperamos confiante, que logo tudo vai passar”        


sábado, 11 de abril de 2020

Páscoa. José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei




Páscoa é tempo de intensidade. Não é simples dizer seu significado, mas pode-se resumi-lo num poema de três estrofes: a dor, a passagem e a esperança ou promessa.
A Bíblia nos apresenta a Páscoa como a saída do povo hebreu das terras do Egito. Diz que ali viveram mais de quatro séculos como escravos. Chegaram aos poucos, buscando a sobrevivência, o alimento que fortalece o corpo, a roupa que o protege, a habitação que aconchega e assegura a sobrevivência dos filhos. Tornaram-se numerosos, foram humilhados, sofreram perseguição e foram escravizados até que um líder os libertou. A partida daquela terra foi a passagem (Ex., 12, 43-51).
E qual era a dor: o alimento era pouco, a roupa e a casa pobres, a vida de prisioneiros indigna e faltava liberdade até para cultuar Deus. Então, o Senhor ouviu suas preces, mandou-lhes um líder que convenceu o faraó a libertá-los, impondo pragas ao Egito. Antes da viagem cada família cuidou de um cordeiro, o engordou e protegeu por alguns dias até que ele estivesse forte e saudável. Então quando já haviam se afeiçoado ao animal e se preparavam para levá-lo, receberam a ordem de sacrificá-lo, comê-lo e se preparar para a partida. A Páscoa devia ser comida por todos os circuncisados, conforme ordenou Deus a Moisés e Arão. Passagem significava deixar para trás, a dor, mas também coisas a que se afeiçoaram nos tempos dessa dor. Então, “nesse mesmo dia, o Senhor tirou do Egito os filhos de Israel ordenados em Exército.” (Ex., 12, 51). E lhes deu a liberdade e a responsabilidade de viver segundo leis. A liberdade tem um preço, a esperança da vida livre, na terra em que jorra lei e mel, não é fácil, demandou longa jornada e várias guerras.
Depois de instalados na terra prometida e depois de muitos séculos se consolidando como povo, os hebreus foram novamente escravizados na Babilônia, Nessa época já tinham uma casta religiosa e uma nova forma de compreender a religião (movimento profético). Então pediram a Deus um novo libertador. Não apenas para livrá-los do jugo das nações, mas para lhes dar uma nova vida.  
Foi-lhes, então, enviado Aquele que o Evangelho de João apresenta como O Cordeiro de Deus (Jo. 1,29). Ele mostrou o óbvio, a dor humana é maior e mais profunda que a dominação política. Essa dor chega no sofrimento, na solidão, no abandono, na doença, na injustiça, na culpa e na morte. Mas àqueles a quem foi oferecida a libertação tiveram que fazer a passagem. Conviveram com o Cordeiro, pescaram com Ele, ouviram-No acalmar os ventos e o mar, escutaram-No pregando para a multidão, viram-No curar doentes, abrindo a visão de cegos, levantando paralíticos, ressuscitando mortos, distribuindo pão aos famintos, amor aos que não tinham e perdão aos que viviam na culpa. A certo momento seus amigos viram-no caminhar resoluto para o seu sacrifício, dizendo àqueles que buscavam a fama: “sois vos capazes de serem batizados com o batismo com que Eu vou ser batizado?” (Mc 10, 38). E então depois de combater o mal, foi posto diante do mal e da injustiça para ser abatido. Na ocasião disse ao demônio: “Esta é a vossa hora e o poder das trevas” (Lc 22:53). Viram-No, então, injustamente acusado, torturado e morto. E completaram a passagem ao perdê-lo. Viram-No ressuscitado, mas já não tinham sua voz, seus ensinamentos, sua orientação. Não mais amanheceriam em sua companhia e nem dormiriam ao seu lado. Porém foram alimentados de uma nova esperança e da promessa de um novo Reino. E no Domingo, quando se completou para aqueles discípulos a passagem, experimentaram a libertação: Ei-lo de novo entre eles, a consolar os que sofriam, a animar os abatidos, a encher de coragem os amedrontados. Deu-lhes uma nova vida e uma nova humanidade, aquela desejada por Deus para todos os homens.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Segundo Evangelho de Pedro - A Crucificação de Cristo





O Ciclo da Paixão de Jesus poderia ter como marcos: do domingo de Ramos até a Ascensão. Este período foi crucial para a instituição do cristianismo. O núcleo aconteceu da sexta-feira até o domingo. Nesse tempo ocorreu a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, a Santa Ceia, a Crucificação e a Ressurreição. 

Vamos refletir um pouco na Crucificação, sexta feira. Historicamente aconteceu que, um homem de nome Jesus, que se dizia Filho de Deus, foi por isso crucificado a pedido de Herodes, rei dos Judeus, e Pilatos representante do Imperador romano, Tibério. A crucificação teve enorme repercussão principalmente pelas consequências. O crucificado ressuscitou. Os apóstolos e centenas de pessoas começaram a pregar uma nova religião dentro do judaísmo. A religião expandiu-se primeiramente pelo mundo grego e depois pelo império romano. Milhares de seguidores aumentavam mais e mais. Quanto mais martírios, mais seguidores. 

Neste ambiente surgiram os escritos testemunhando a nova religião. Emergiram de toda ordem e com todos os fins. Uns para descreverem os acontecimentos, outros para provarem uma ideia particular, outros para se autopromoverem. Era necessário colocar ordem, pois começaram surgir contradições em toda parte. Daí que se convoca um Concílio.

Embora tenha sido apenas no concílio de Nicéia, 395 d.c., a definição dos livros canônicos, anteriormente circulavam toda sorte de escritos a respeito de Jesus e sua religião. Alguns, inclusive, atribuídos aos apóstolos, como é o caso do Segundo Evangelho de Pedro. Abaixo transcrevo o livro o qual traz detalhes importantes da Crucificação de Jesus. Só para citar: o impasse entre Pilatos e Herodes no Lava Mãos, a morte deJesus na cruz volatizando-se e subindo ao céu, em seguida continua a narração até o sepultamento e Jesus subindo ao céu logo após a ressurreição, sem os quarenta dias na terra.
O “Evangelho de Pedro”, é considerado apócrifo.  Composto em meados do século II, oferece, ainda que com detalhes estranhos, uma descrição do momento preciso da Ressurreição de Cristo. O relato reflete a necessidade que as pessoas tinham, especialmente os cristãos ligados à figura de Pedro, de imaginar o momento que transformaria para sempre suas vidas e que constituiria o centro da sua fé.





Capítulo 1

DENTRE OS judeus, porém, ninguém lavou as mãos; nem Herodes nem nenhum de seus juízes. E, por não quererem lavar-se, Pilatos levantou-se.
2    Então o rei Herodes mandou que se encarregassem do Senhor, dizendo-lhes: "Executai o que acabo de ordenar que façais com ele".

Capítulo 2

3    José, o amigo de Pilatos e do Senhor, encontrava. se ali na ocasião. E sabendo que iam crucificá-lo, aproximou-se de Pilatos para pedir o corpo do Senhor para levá-lo à sepultura.
4    Pilatos, por sua vez, mandou um recado a Herodes e pediu-lhe o corpo de Jesus.
5    E Herodes disse: "Irmão Pilatos, mesmo que ninguém o houvesse reclamado, nós mesmo ter-lhe-íamos dado sepultura, pois já se aproxima o Sábado e está escrito na lei que o sol não deve pôr-se sobre um justiçado". E com isto, entregou-o ao povo no dia anterior ao dos Azimos, sua festa.

Capítulo 3

6    E eles, segurando o Senhor, davam-lhe empurrões e diziam: "Arrastemos o Filho de Deus, já que veio cair em nossas mãos".
7    Depois vestiram-no de púrpura e fizeram com que se sentasse no tribunal, dizendo: "Julga com eqüidade, ó rei de Israel".
8    E um deles trouxe uma coroa de espinhos e colocou-a na cabeça do Senhor.
9    Alguns dos presentes., cuspiram-lhe no rosto, enquanto que outros davam-lhe bofetadas na face, e outro. ainda o feriam com um pau. E havia quem lhe batesse dizendo: "Esta é a homenagem que rendemos ao Filho de Deus".

Capítulo 4

10    Depois, levaram dois ladrões e crucificaram o Senhor no meio deles. Mas ele permanecia calado como se não sentisse dor alguma.
11    E quando prepararam a cruz escreveram em cima: "Este é o rei de Israel".
12    E, depositadas as vestes diante dele, dividiram-nas em lotes e deitaram os dados sobre elas.
13    Um daqueles malfeitores, porém, repreendeu-os dizendo: "Nós sofremos assim pelas iniqüidades que fizemos; mas este, que veio para ser
o Salvador dos homens, em que pode havê-los prejudicado?"
14    E indignados contra ele, ordenaram que não lhe quebrassem as pernas para que morresse entre tormentos.

Capítulo 5

15    Era então meio-dia, e a escuridão tomou conta de toda a Judéia. Foram então tomados pela agitação, temendo que o sol se pusesse, pois Jesus ainda estava vivo, e a lei dizia que "o sol não deve pôr-se sobre um justiçado",
16    Então um deles disse: "Dá-lhe de beber fel com vinagre" (1). E, fazendo a mistura, deram-lhe a beberagem.
17    E cumpriram tudo, preenchendo a medida das iniqüidades acumuladas sobre suas cabeças.
18    E muitos andavam por ali servindo-se de lanternas, já que pensavam que fosse noite, e caíam por terra.
19    E o Senhor elevou sua voz, dizendo: "Força minha, força minha, tu me abandonaste". E, dizendo isto, volatilizou-se e subiu ao céu.
20    Naquele mesmo momento, o véu do templo de Jerusalém rasgou-se em duas partes.

Capítulo 6

21    Então tiraram os cravos das mãos do Senhor e o estenderam no chão. E a terra inteira tremeu e um enorme pânico sobreveio.
22    Logo o sol brilhou, e comprovou-se que era a hora nona.
23    Alegraram-se, então, os judeus e entregaram o corpo a José para que lhe desse sepultura, uma vez que este havia sido testemunha de todo o bem que Jesus havia feito.
24    E, pegando o corpo do Senhor, lavou-o, envolveu-o num lençol e colocou-o em sua própria sepultura, chamada de Jardim de José.

Capítulo 7

25    Então, os judeus, os anciãos e os sacerdotes perceberam o mal que haviam acarretado para si próprios e começaram a bater no peito dizendo: "Malditas as nossas iniqüidades! Eis aqui que chega o juízo e o fim de Jerusalém".
26    Eu, de minha parte, estava sumido na aflição juntamente com meus amigos, e, feridos no mais profundo da alma, mantinham-nos escondidos. Pois éramos tidos como malfeitores e como aqueles que pretendiam incendiar o templo.
27    Por todas essas coisas, jejuávamos e permanecíamos sentados, lamentando-nos e chorando noite e dia até o Sábado.

Capítulo 8

28    Entretanto, reunidos entre si, os escribas, os fariseus e os anciãos ao ouvir que o povo murmurava e batia no peito dizendo: "Quando de sua morte sobrevieram sinais tão assombrosos, como dizer que não foi um justo".
29    fugiram de medo e foram ter à presença de Pilatos em tom de súplica, dizendo:
30    "Dá-nos soldados para que custodiem o sepulcro durante três dias, pois pode acontecer que seus discípulos venham, retirem o seu corpo e o povo venha a nos fazer algum mal, acreditando que ressuscitou de entre os mortos".
31    Pilatos, então, entregou-lhes Petrônio e um centurião com soldados para que custodiassem o sepulcro. E com eles foram também até o túmulo os anciãos e os escribas.
32    E, girando uma grande pedra, todos os que ali se encontravam presentes, juntamente com o centurião e os soldados, puseram-se na porta do sepulcro.
33    Além disso, gravaram sete selos e depois de armar uma tenda, puseram-se a fazer a guarda.

Capítulo 9

34    E bem cedo, ao amanhecer o Sábado, uma grande multidão veio de Jerusalém e das redondezas para ver o sepulcro selado.
35    Mas durante a noite que precedia o domingo, enquanto os soldados estavam fazendo a guarda de dois a dois, uma grande voz produziu-se no céu.
36    E viram os céus abertos e dois homens que desciam, tendo à sua volta um grande resplendor, e aproximaram-se do sepulcro.
37    E aquela pedra que haviam colocado sobre a porta rolou com o seu próprio impulso e pôs-se de lado, com o que o sepulcro ficou aberto e ambos os jovens entraram.

Capítulo 10

38    Então, ao verem isto, aqueles soldados despertaram o centurião e os anciãos, já que também estes encontravam-se ali fazendo a guarda.
39    E, estando eles explicando o que acabara de acontecer, viram três homens que saíam do sepulcro, dois dos quais servindo de apoio a um terceiro, e uma cruz que ia atrás deles,
40    E a cabeça dos dois primeiros chegava até o céu, enquanto que a daquele que era conduzido por eles ultrapassava os céus.
41    E ouviram uma voz vinda dos céus que dizia: "Pregas-te para os que dormem?"
42    E da cruz fez-se ouvir uma resposta: "Sim".

Capítulo 11

43    Então eles passaram a combinar como contariam o ocorrido a Pilatos.
44    E, enquanto se encontravam ainda confabulando entre si, novamente apareceram os céus abertos e um homem desceu e entrou no sepulcro.
45    Os que estavam junto ao centurião, vendo isto, apressaram-se a ir a Pilatos ainda de noite, abandonando o sepulcro que custodiavam. E, cheios de agitação, contaram o quanto haviam visto, dizendo: "Era verdadeiramente o Filho de Deus".
46    Pilatos respondeu desta maneira: "Eu estou limpo do sangue do Filho de Deus; fostes vós que assim quisestes.
47    Depois, todos se aproximaram e lhe pediram encarecidamente que ordenasse ao centurião e aos soldados que guardassem segredo sobre o que haviam visto.
48    "Pois é preferível — diziam — sermos réus do maior crime na presença de Deus a cair nas mãos do povo judeu e sermos apedrejados".
49    Então, Pilatos ordenou ao centurião e aos soldados que não dissessem nada,

Capítulo 12

50    Na manhã do domingo, Maria Madalena, discípula do Senhor — amedrontada por causa dos judeus, pois estavam cheios de ira, não havia feito no sepulcro do Senhor o que costumavam fazer as mulheres pelos seus mortos queridos.
51    levou consigo suas amigas e foi até o sepulcro no qual havia sido depositado.
52    Temiam, porém, ser vistas pelos judeus e diziam: "Já que não nos foi possível chorar e lamentar naquele dia em que foi crucificado, façamo-lo agora pelo menos em seu sepulcro.
53    "Mas quem removerá a pedra que foi deixada à porta do sepulcro, para que possamos entrar e sentar junto a ele e fazer o que é devido?
54    "A pedra é muito grande e temos medo de que alguém nos veja. E se isto não nos for possível, ao menos joguemos na porta o que levamos em sua memória; choremos e golpearemos o peito até voltarmos para casa."

Capítulo 13

55    Foram, então, e encontraram o sepulcro aberto. E nesse instante viram ali um jovem sentado no centro do túmulo, formoso e coberto de vestes alvíssimas, que lhes disse:
56    "A que vindes? A quem buscais? Porventura aquele que foi crucificado? Já ressuscitou e se foi. E se não quiserdes crer, acercai-vos e vede o lugar onde jazia. Não está, pois ressuscitou e se foi para o lugar de onde foi enviado".
57    Então as mulheres, aterrorizadas, fugiram.
Capítulo 14
58    Esse era o último dia dos Azimos e muitos partiam de volta para suas casas uma vez terminada a festa.
59    E nós, os doze discípulos do Senhor, chorávamos e estávamos escondidos na aflição. E cada um, desgostoso pelo sucedido, retornou para sua casa.
60    Eu, Simão Pedro, de minha parte, e André, meu irmão, pegamos nossas redes e dirigimo-nos ao mar, indo em nossa companhia Levi o de Alfeu, a quem o Senhor...




sexta-feira, 3 de abril de 2020

O cantinho do pensamento. José Mauricio de Carvalho



Um professor genial teve uma magnífica intuição e publicou nas redes sociais: Deus colocou a humanidade no cantinho do pensamento. De fato, estamos reclusos e com tempo para pensar. Desde o ano passado, a sociedade humana tomou contato com uma variação de vírus da família corona, descoberto em dezembro de 2019. Essa variação de vírus é capaz de provocar pneumonia e matar, especialmente pessoas de idade avançada e com doenças pré-existentes (Covid 19). Essa variação é de um vírus da família corona, família bastante conhecida e identificada há quase um século (1937). Com esse tipo de vírus se convive desde a infância, mas essa variação se espalhou pelo mundo provocando doença e morte. De repente, a vida rotineira, na grande maioria dos países, vivida frequentemente sem prazer, depois de perdida, pareceu deliciosa.  Em sociedades envelhecidas, como Itália e Espanha, o avanço da epidemia está provocando muitas mortes. No cenário terrível, de enterro em massa, as pessoas estão atônitas e os sistemas de saúde repletos de doentes. Não estamos capacitados para enfrentar grandes epidemias, nem mesmo os países mais ricos estão sabendo como conciliar o isolamento social e as atividades econômicas essenciais. Essenciais porque não podem parar.
Atuando de forma meio improvisada, quando não atabalhoada, as autoridades de saúde de todo o mundo recomendam que se fique em casa, nos afastando, cidadãos comuns, das nossas rotinas. Então, no silêncio do lar, em contato com familiares, ou sozinhos conosco mesmos, temos a incrível e única oportunidade de levar adiante um balanço existencial que o momento permite e/ou exige. Fomos postos no cantinho do pensamento. E merecemos bem a lição pela bagunça que temos feito no mundo.
 O cantinho do pensamento, nesse momento de pandemia, realça o valor da fraternidade universal. Ela se mostra, com mais força, nessas situações de risco e de sofrimento. Nesses dias de isolamento, quando a dor comum alimenta o desejo da cura para os doentes e do retorno à normalidade para todos, estamos assustados e ansiosos. Mas é promissor que, nessa circunstância, quando o governo cogita ajudar empresários e trabalhadores, ninguém o acusou de comunista. Em outros dias isso seria cogitado por essa legião de robôs destituída de senso de humanidade, que perdeu o significado de fraternidade e nacionalidade, pessoas que olham o próprio umbigo e não se sentem parte do destino comum dos seus companheiros de jornada.
O cantinho do pensamento também me trouxe à memória as palavras de Martin Buber, que assim se pronunciou sobre o significado de nossa humanidade comum no prefácio de um livro de Hermann Cohen (BUBER, M. El prójimo, cuatro ensaios sobre la correlación práctica de ser humano a ser humano, según la doctrina del judaísmo. Barcelona, Digitália, 2004. p. XXII): “Ama o teu próximo, pois ele é como tu, porque vocês conhecem a alma do ser humano que se encontra em situação de extrema necessidade, sede amorosos com ele, pois vocês mesmos também são seres humanos e padeceis a mesma e extrema necessidade humana.” Estamos, pois, diante de uma recuperação do mandamento do amor ao próximo contido nos evangelhos. Fraternidade universal não é comunismo nem nada que essa limitada visão política que se espalhou no país quer fazer crer. Fraternidade universal é o compromisso solidário de todo homem com quem sofre, porque pertencemos a uma espécie que é capaz de compadecer dos sofrimentos dos outros. E precisamos nos ajudar e nos respeitar nas diferenças de nossas vidas e conforme nossas possibilidades. Esse sentimento é mais importante ainda entre membros da mesma nação.
A lição desses dias tem sido dura, mas como o Mestre é bom saberá dosá-la. Ela será dada de acordo com nossa capacidade e propósito em aprendê-la. Assim Ele ensinará a gregos e troianos o sentido dessa pertença comum à espécie e a necessidade de habitarmos essa terra como irmãos.


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