sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

A REVOLUÇÃO FRANCESA – IDEOLOGIA E COMPOSIÇÃO SOCIAL. Selvino Antonio Malfatti.




 
O livro A Revolução Francesa de Israel Irvine Jonathan pela Editora Enaudi, dá uma nova interpretação à Revolução Francesa. Israel nasceu em Londres em 1946. Dedica-se à pesquisa da história holandesa, o iluminismo e judaísmo na Europa. Leciona História Europeia Moderna no Instituo de Estudos Avançados Princeton, Nova Jersey, Estados Unidos.
Neste livro são trazidos alguns fatos novos e um revisão interpretativa. Entre os fatos novos consta que no Terceiro Estado do Revolução Francesa não havia nenhum homem de negócios, banqueiro, empresário. Nenhuma pessoa que se ocupasse com afazeres típicos da burguesia. Já Burke havia se apercebido disto, qual seja, a alta porcentagem de advogados dedicados à literatura presentes na Assembleia. Pululavam jornalistas, escritores, professores, livreiros, padres e non nobres e alguns filósofos. Por isso, as lideranças da revolução não representavam nenhuma categoria social específica. Dizia um panfleto da época que se houvesse algum intelectual que se emocionasse com os acontecimentos de Paris eram NÃO franceses.
O autor da Revolução Francesa distingue dois braços do iluminismo: o de Locke e Newton, reformista, deísta, inclusive comprometendo-se com as confissões cristãs. E o de Spinoza, radical, materialista, ateu e demagogo. Percebe que os iluministas da academia –filósofos e cientistas - que tomaram parte nos Estados Gerais de 1789 eram um mínimo. Condorcet, por exemplo, arquiteto da revolução não conseguiu se eleger. Sièyes foi eleito por um fio. Bailly foi eleito, mas como ele mesmo explicou: foi uma exceção. O confronto verificou-se logo de início: de um lado os homens de letras e de outro os acadêmicos, pessoas de ciência. Somente dez, dos mil e duzentos deputados eram filósofos ou cientistas iluministas, os demais homens de letras.
No que se refere ao conteúdo ideológico, não foi a ala dos iluministas da linha de Voltaire, mas sim os de Rousseau, como Robespierre, Danton e Marat que conduzia os rumos da Revolução. Condorcet, por exemplo, que não pertencia ao grupo, foi preso e acabou seus dias na prisão. Logo de início emerge uma tensão entre os homens de ciência, os filósofos ou iluministas e os homens de letras, literatos e contrários à ciência. Vale lembrar a primeira obra premiada de Rousseau: se a ciência e as artes fazem os homens felizes. E a resposta foi: não.Teria havido uma ligação ideológica entre o Terror e os princípios revolucionários? A filosofia estaria relacionada com o filosofismo, republicanismo, materialismo, ateísmo e perversão moral? Tudo indica que não. Haja vista que os filósofos do período de 1789 a 1793 foram brutalmente mandados à guilhotina por Robespierre. Os sobreviventes afirmam obstinadamente que a ideologia da revolução era distinta e contrária à filosofia dos iluministas. A inspiração foi buscada em Rousseau cujo conteúdo se inspirava num obsessivo puritanismo moral, mesclado de autoritarismo, anti-intelectualismo e xenofobia.
Conforme Israel, da mesma forma que hoje não se pode explicar a Revolução francesa através da luta de classe, também não se pode admitir de que não foi essencial ou contingente a ruptura entre Igreja católica e Revolução. O impulso anti-cristão foi essencial e se manifestou desde o início, como se pode observar pela atuação de Robespierre. Defendia que a religião, como um dos componentes do contrato social, deveria continuamente ser tutelada, isto é, cercear-lhe a autonomia. O contrato social civil deveria sobrepor-se ao religioso. A religião fazia parte do contrato e não podia ser considerado um órgão autônomo ou independente. O descristianização foi um componente essencial da Revolução e a acompanhou no precedente, no desenrolar e no ulterior desdobramento.
Israel pretende desmascarar o mito de que foram os iluministas que inspiraram a Revolução. Para ele exatamente este mito dificulta a compreensão dos fatos. Entende que a Revolução foi obra e graça de quem não entendia de filosofia ou ciência. Foi obra de ficção literária que passava ao largo e longe do pensamento filosófico, como de Locke, e científico como de Newton. Quando a oposição se avolumou o apelo foi o Terror mandando para guilhotina qualquer dissidente ou opositor.
Da mesma forma, Israel pensa que não foi uma matriz radical do iluminismo que animou a Revolução. Simplesmente pensa que não houve nada de iluminismo na Revolução. Houve, sim, uma ideologia sui generi cujo ápice e escoadouro natural foi o Terror. Um a um os seguidores que creram que fosse iluminismo deserdaram ou foram mortos. Foi o que aconteceu com francês Condorcet, com o americano Paine e o adepto do culto da razão, Cloots mandado para guilhotina por Robespierre.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

2020, um novo ano como referência de autotranscendência. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.

                                                                         

Nestes dias de internet e celulares a vida corre rápida e o ritmo é cada dia mais acelerado. Tudo tem pressa na era da comunicação digital e momentos como a passagem do ano nos coloca a pergunta pelo modo como estamos lidando com o tempo. É preciso ensinar as novas gerações mais coisas que as anteriores precisavam para viver. Cada um de nós precisa aprender mais e agir mais rapidamente na rotina diária. Isso porque a sociedade se encontra nesse processo de aceleração da vida. Não parece que importa muito às pessoas o quanto isso as faz esquecer de quem somos e as lança num tempo de massas. Massa é sociedade que não questiona a razão da vida e o que fará com o tempo que dispõe para viver.
Tempo é o tecido da existência humana, tempo é o que nos faz ser o que somos e o que dimensiona o valor de nossa vida. É no quanto nos dedicamos a cada coisa, no tempo que nos preparamos para viver os acontecimentos, que se acentua, para nós, a pergunta pelo sentido. Tempo tem, portanto, a ver com o sentido e valor que damos a nossa vida. Quando entendemos que nos tornamos o produto do que escolhemos e vivemos, antecipamos um pouco nossa finalidade existencial, o sentido de nossa vida.
Toda a meditação filosófica durante o século que passou ensinou que o progresso não virá de forma automática. Quer o progresso material da sociedade e dos indivíduos, quer a evolução moral ou pessoal dessas sociedades ou pessoas, somente ocorrerão com esforço e, às vezes, em razão do que acontece de forma inesperada. O destino de cada um será fruto do que ele conseguir realizar para superar, na circunstância, aquilo que o impede de realizar o sentido de sua vida. Isto é, realizar seus sonhos, viver seus desejos, fazer coisas que façam a vida valer a pena ou ter valor para ele. No fundo a renovação periódica dos anos revela que a vida dos indivíduos humanos e o futuro da sociedade permanecerá um acontecimento que transcende previsões.
E se o futuro depende do que fizermos a cada instante, o entendimento do passado, traz lições importantes e permanecerá, em boa parte, nebuloso. Nossa compreensão do passado se renova com as gerações que realizam novas interpretações do já vivido. Isso porque o passado fornece respostas e é tolice não avaliar essas lições ou tentar entender o que elas indicam. Porém, a crescente compreensão do passado nunca o revelará integralmente, ficará sempre uma parcela para se melhor entendido no futuro.  
Cada homem tem, no quadro geral da sociedade em que vive, a responsabilidade de fazer surgir a pessoa que tem em si e que vai se tornando real com suas escolhas. Assim, a consolidação de cada novo eu entre os homens mostra a aventura de um novo sujeito diferente de todos os outros que existem ou já existiram. O homem comprometido com seu destino e responsável por ele torna-se pessoa. Esse conceito traduz a realidade do indivíduo humano tocado pelos objetivos da moralidade, da autorrealização e da autotranscendência.
Assim, em meio às incertezas gerais quanto ao destino próprio e da sociedade, as pessoas de fé contam com um diferencial. Elas acreditam que a vida que anima sua existência e de tantos outros tem um propósito de melhora, que podemos notar quando estudamos a História. Uma melhora que não vem sem esforço e comprometimento, mas uma melhora visível para quem tem fé num Deus que governa a história.
Um feliz 2020 para todos, um feliz ano novo na esperança de que ele renove nosso compromisso conosco e em sermos melhores a cada dia. Desse modo ajudaremos a aprimorar a sociedade e a viver responsavelmente o compromisso conosco mesmo.
F E L I Z  A N O  N O V O!

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

NASCIMENTO DO CRISTO. Marcos e Lucas




"São Marcos - 

1.Princípio da Boa-Nova de Jesus Cristo, Filho de Deus. Conforme está escrito no profeta Isaías: 

2.Eis que envio o meu anjo diante de ti: ele preparará o teu caminho.

3.Uma voz clama no deserto: Traçai o caminho do Senhor, aplanai as suas veredas (Ml 3,1; Is 40,3).

4.João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados.

5.E saíam para ir ter com ele toda a Judeia, toda Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.

6.João andava vestido de pêlo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.

7.Ele pôs-se a proclamar: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado.

8.Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo”."

LUCAS 

O Nascimento de Jesus

2 Naqueles dias César Augusto publicou um decreto ordenando o recenseamento de todo o império romano.

2 Este foi o primeiro recenseamento feito quando Quirino era governador da Síria.

3 E todos iam para a sua cidade natal, a fim de alistar-se.

4 Assim, José também foi da cidade de Nazaré da Galiléia para a Judéia, para Belém, cidade de Davi, porque pertencia à casa e à linhagem de Davi.

 5 Ele foi a fim de alistar-se, com Maria, que lhe estava prometida em casamento e esperava um filho.

6 Enquanto estavam lá, chegou o tempo de nascer o bebê,

7 e ela deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

AS TEODICEIAS DA SALVAÇÃO. Selvino Antonio Malfatti



Em algum momento os homens tomaram consciência de suas fraquezas: perante a doença, a fome, desastres naturais ou a morte. Como não podiam enfrentar sozinhos as debilidades levantaram os olhos para o céu infinito, olharam a força do mar, o mistério das florestas e pouco a pouco veio à mente a ideia de um ser superior. Este poderia ser a força para suprir a fraqueza. Este seria o seu SALVADOR.

Além disso, viu-se o homem desamparado, impotente e só. Era preciso encontrar alguém que o socorresse, ajudasse e lhe desse forças. Precisava de um SALVADOR.

Ao se examinar sentiu que nem sempre acertou nas escolhas, mas que podia ter acertado. Disso surgiu o sentimento de culpa. Por mais que se queira explicar a si mesmo que não há motivo de culpa, ela reaparece enchendo a alma. Desde que o homem teve consciência de si, sentiu-se culpado. Para se livrar da culpa era necessário um SALVADOR.
Nossa posição não significa nenhuma crítica a qualquer religião e nem inclinação por alguma. Apenas procuramos explicações dedutíveis da razão e, quanto possível, argumentos empíricos. Estes podem ter tido pistas religiosas, mas nunca premissas. 

Por isso, a ideia de um SALVADOR foi buscada na consciência humana. 
Conforme a sociologia no seio das grandes civilizações emergem três grandes teodiceias que apontam para a SALVAÇÃO. 


1º O Dualismo. É uma das formas mais difundidas e existe em diversas religiões. O zoroastrismo talvez fosse o modelo mais perfeito desta forma de teodiceia. O conteúdo religioso contempla a dualidade entre o bem e o mal religioso. Nesse sentido há o puro e o impuro. O deus do bem e o do mal, o virtuoso e o pecador. O problema é que esta crença ou teodiceia envolve uma contradição. Há um deus que possui seus poderes limitados por um rival. A ideia de salvação, através de um Salvador, como na teodiceia cristã, avançou esta concepção para a vitória do bem. Para os bons ficaria reservado o céu e para os maus o inferno. O responsável pelo inferno é uma criatura subordinada ao Deus do céu. O Deus do céu, superior, castiga o deus do inferno com todos os seus, condenando-os ao sofrimento infinito e eterno. 


2º Predestinação. Nessa teodiceia se acredita que o homem é incapaz de conhecer qualquer desígnio de Deus. E por isso nada de bom pode fazer, cabendo a Deus a liberdade de escolher quem quer para a salvação. O condenado é um réprobo que merece este castigo e nada pode reclamar.


3º Salvação universal. Esta crença se poderia encontrar na religiosidade dos intelectuais indianos. A auto realização do homem está garantida na salvação universal. Destes três modelos de teodiceias advieram as quatro grandes religiões:


 1º confucionismo e taoísmo. O universo era visto como uma ordem eterna – Tao. Desenvolveu através de Lao-tsé uma mística que evoluiu para a magia. 

Salvador Confúcio.


2º hinduísmo e budismo. Era praticado por casta hereditária de letrados, que, embora não tivessem cargos, atuavam como conselheiros ritualistas e espirituais para indivíduos ou comunidades. Era uma sociedade de castas, as quais formavam uma ordem hierárquica, cujo topo era ocupado pelos brâmanes. Depois vinham os guerreiros, comerciantes, agricultores e por fim os trabalhadores. O intercâmbio entre as castas era proibido. Acreditavam na reencarnação e como todas as religiões orientais eram místicos.  Os brâmanes constituíam um centro em torno do qual gravitava toda a organização social. Os brâmanes, educados nos Veda, era o estamento plenamente aceito. Mais tarde surge outro estamento, não brâmane, que passou a competir com eles. O budismo era constituído por monges contemplativos, mendicantes e errantes. Eram considerados membros integrais das comunidades religiosas. Os demais eram considerados inferiores, objetos e não sujeitos de religiosidade.

Salvador Buda.


3º O islamismo. Inicialmente uma religião de guerreiros cujo objetivo era conquistar o mundo. Eram como os cruzados cristãos, mas sem o seu ascetismo sexual. Em torno do século VII d.C, surgiu o misticismo maometano, cujo resultado foi um simbolismo complexo muito utilizado pelos poetas.

Salvador: Maomé


4º judaísmo. Após o exílio, o judaísmo perambulou como um povo pária, isto é, o único vínculo era o Deus comum, Javé. Com a elaboração de uma lei sacerdotal, levada adiante pelos levitas, juntamente com a pregação dos profetas, abriu espaço para um caráter prático e ético, expurgando as crenças de magias que grassavam no meio do povo. Durante a Idade Média conseguiu que uma camada de intelectuais que imantava os diversos grupos esparsos pelo mundo.
Salvador: ainda estaria por vir.


4º O cristianismo. O cristianismo iniciou como uma doutrina de artesãos jornaleiros itinerantes. Permaneceu sempre como uma religião urbana e cívica. Em todos os períodos manteve este caráter: antiguidade, Idade Média e Época moderna com o puritanismo. A cidade do ocidente, diferente de todas do mundo da época, com um corpo de cidadãos, foi o palco do cristianismo. Isto pode ser aplicado às comunidades religiosas, ordem de monges mendicantes da Idade Média.

Salvador: Jesus

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A encarnação de Cristo e o humanismo. José Mauricio de Carvalho




Humanismo é uma palavra para resumir a realidade do homem. Foram muitas as formas de entendê-lo ao longo da História e muitas as suas faces. A cultura ocidental explicitou as realidades de um ser que era histórico e vivia numa sociedade que também era. Mudam os indivíduos, mudam as sociedades humanas. Essa forma de tratar o homem nele identificou estratos: matéria viva e consciência espiritual. Esses estratos resumem uma totalidade plural, que quer dizer que o homem não é só matéria viva, mas consciência psicológica e espírito, ou melhor, uma totalidade singularmente individual. Com algo comum com os outros e muito de somente seu. Um ser que embora tenha uma parte material submetida às leis da física, possui também emoções e sentimentos de alta complexidade e uma razão que lhe dá liberdade e exige responsabilidade.
Com a evolução da cultura, a criação artística e a análise racional das possibilidades humanas pelas ciências e pela filosofia, a razão reconheceu, nesse modo de ser, um valor inesgotável. O homem foi descrito como um valor que o diferencia dos demais e lhe confere importância. Miguel Reale resumiu essa condição dizendo que o homem era um valor irredutível e, ao mesmo tempo, um valor fonte. Com isso resumiu que o homem tinha um valor inalienável e que podia reconhecer valor nas coisas ou atribuir-lhes valor, como, por exemplo: o equilíbrio da natureza, os bens materiais e as organizações sociais que são valores por causa do homem. 
Uma das maiores dificuldades dos primeiros cristãos foi mostrar que uma pessoa divina viveu verdadeiramente essa condição humana. Que Ele teve fome, porque era matéria, sentiu-se angustiado, por era consciência psicológica e era capaz de ensinar de forma racional porque era espírito como seus semelhantes. E ainda assim, possuindo todos esses atributos humanos era também divino porque existia desde sempre ao lado de outras pessoas igualmente divinas e espirituais. Espirituais não só porque pensavam, mas porque essa condição nas pessoas divinas era magnífica expressão de perfeição eterna e amor infinito. Sem conseguir entender isso muitos cristãos minimizaram a realidade humana de Jesus e ao reconhecê-lo Deus, pouco valorizavam sua condição humana, impressionados por sua divindade. Porém a Igreja, desde o início dos tempos, insistiu que Jesus era verdadeiramente homem, embora não perdesse sua condição divina.
Por reconhecê-lo verdadeiro homem e verdadeiro Deus, a Igreja celebrou sempre seu nascimento e morte, como forma de mostrar que Ele se fez carne (Jo 1-14), e embora fosse o Logos e razão de todas as coisas, encarnou-se e foi nosso companheiro de caminhada. E justo porque reconhece essa humanidade como verdadeira, a Igreja confirmou aquilo que a razão aponta: precisamos cuidar do homem e estabelecer as bases de um humanismo que não deixe de reconhecer a historicidade, a pluralidade, a liberdade responsável e a dignidade da criatura humana.
Por isso, a festa do natal de Jesus de Nazaré, que novamente comemoramos em 2019, é oportunidade para restabelecer a confiança em Deus Senhor da História. O Natal também afirma que a vida humana está investida de dignidade e valor. É esse cuidado com o homem, esse respeito a sua condição que a comemoração do aniversário de Jesus vem reafirmar a cada ano. Isso não é comunismo, mas um ideal de vida onde a terra é casa de irmãos, diferentes no modo de viver, distintos nas suas capacidades de dons e riquezas, nem todos igualmente sensíveis ou inteligentes, mas todos merecedores de cuidado e respeito. Não porque uns se aproveitem de outros, mas porque são irmãos nas suas diferenças.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

PE. HAROLDO E O PROGRAMA DO AMOR EXIGENTE. Selvino Antonio Malfatti -Voluntário do Amor Exigente.







                            
     Neste fim de novembro de 2019 faleceu, em São Paulo, Harold Joseph Rahm, com idade de cem anos. Era norte-americano naturalizado brasileiro. Sacerdote jesuíta ordenado em 1950, dedicou toda sua vida a obras sociais. Fundou a instituição Pe. Haroldo e Amor Exigente, este com maior impacto social. O Amor Exigente iniciou com grupos de apoio a usuários de drogas e familiares, um programa próprio, conseguindo expressivos resultados. Atualmente Brasil, Argentina, Uruguai, Itália e Israel adotam o método e programa do Amor Exigente, tratando milhares de jovens dependentes, principalmente químicos. O tratamento abrange crianças (preventivo), jovens e adultos (terapêutico) familiares (orientação) Avós (sempre é tempo).
Apresentamos sinteticamente o programa DO Amor Exigente com seu método:
A proposta do Amor-Exigente tem como pilares 12 Princípios Básicos, 12 Princípios Éticos, a Espiritualidade Pluralista e Responsabilidade Social, com crianças, adolescentes e familiares em situação ou não de vulnerabilidade social.
O Amor-Exigente entende prevenção como um trabalho conjunto de todas as forças vivas da sociedade, desenvolve ações que promovam a vivência da ética, da solidariedade, do respeito às diferenças, numa perspectiva de despertar na criança e no adolescente a prática de valores como o respeito à hierarquia, responsabilidade, regras, limites e organização, capacitando-os a saberem lidar com suas dificuldades e eventuais problemas e a fazerem escolhas saudáveis. A dinâmica do Programa Amor Exigente consiste na realização de encontros semanais de duas horas, inicialmente acontece a acolhida, segue o momento da espiritualidade, que no Amor-Exigente é pluralista.  Os participantes são convidados a um relaxamento, a um momento de meditação, com reflexão e interiorização de valores que lhes proporcionem paz, serenidade, concentração e bem estar.
A seguir é abordado o Princípio Básico do mês, através de um expositor:
     O primeiro princípio básico trabalha as nossas raízes culturais, é identificador.
  Os problemas da família têm raízes na estruturação da sociedade.  Procura valorizar as raízes culturais da família, onde  se resgatam os seus valores morais e éticos.
O Segundo Principio Básico "Pais também são gente”, caracteriza-se por ser HUMANIZADOR, pois traz a reflexão o ser humano, com falhas, imperfeições, muitas vezes despreparados, são humanos.
O terceiro princípio "Os recursos são limitados". Este princípio caracteriza-se por ser PROTETOR. A reflexão foca que os recursos familiares e sociais são finitos e que, portanto, se deve organizar a utilização.
O Quarto Princípio é o princípio Valorizador “Os pais e filhos não são iguais” nos conduz a reconhecer a autoridade dos pais e que papéis de pais e filhos são diferentes, cada um com suas funções e responsabilidades.
O quinto Princípio é libertador "A culpa torna as pessoas indefesas e sem ação", nos impulsiona a despertar a importância de reconhecer nossos erros, livre de qualquer tipo de emoção negativa, assumindo sempre a atitude do perdão. Neste Principio trabalhar RESPONSABILIDADE.
O Sexto Principio Básico é Influenciador. "O comportamento influencia mutuamente os envolvidos: filhos afeta os pais e o comportamento dos pais afeta os filhos
O Sétimo Princípio, que tem o foco na TOMADA DE ATITUDE. É saber dizer não quando necessário. Uma tomada de atitude para promover o bem estar pessoal e do outro. Dizer NÃO a uma situação que não nos traz qualidade de vida.
Oitavo princípio “CRISE, na crise bem administrada, surge a possibilidade de mudança positiva". Este princípio caracteriza-se por ser “Esperançador”, pois nos remete a um FUTURO, a um tempo em que existe uma situação melhor, com a crise ultrapassada.
O Nono Princípio Básico é grupo de Apoio, nele aprendemos que o grupo de apoio é essencial para suportarmos uma CRISE, ele nos acolhe e nos faz unidos e humildes nas ações solidárias de entreajuda. "Na comunidade, as famílias precisam dar e receber apoio"
O Décimo Princípio é Cooperador. "A essência da família repousa na cooperação, não só na coexistência". Na cooperação estreitarão os vínculos pessoais que são reforçados pela união de forças, igualdade de propósitos e sentimento de solidariedade.
O Décimo Primeiro Princípio Básico é Exigência na disciplina, um Princípio Organizador. Neste Principio são desenvolvidas atividades que incentivam a se organizar para a vida em família e sociedade, com consciência de seus direitos e deveres.
O Décimo Segundo Princípio é Amor, compensador “O amor, com respeito, sem egoísmo, sem comodismo deve ser também um AMOR QUE ORIENTA, EDUCA E EXIGE”. É recompensador: solidariedade, perdão, compromisso, respeito pelas diferenças, compreensão, generosidade, caridade, gratidão, paciência, honestidade.
Este programa, implantado por Pe. Haroldo, salvou e está salvando milhares de dependentes –crianças, jovens e adultos- em vários países do mundo.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

CECÍLIA MEIRELES E A PROPOSTA EDUCACIONAL. Selvino Antonio Malfatti





O mês de novembro é o 110º aniversário de Cecília Meireles. Nasce -7 e falece 9 - a poetisa, literata, jornalista, contista, teatróloga, folclórica brasileira Cecília Meireles. Sua obra teve abrangência para além do Brasil e recebeu prêmios nacionais e internacionais. 
Cecília Benevides de Carvalho Meireles viveu no miolo do século XX, isto é, de 1901-1964.  Propõe-se a debater alguns tópicos sobre educação através do viés da Escola Nova. Estes pensamentos da autora não é crítica, nem avaliação, apenas exposição de recortes de ideias. Isto porque nem ela mesma pretendeu dar uma sistematização teórica de suas concepções. 

Seu pensamento emerge no torvelinho da política, ora defendo posições, ora atacando outras e, até mesmo, retocando algumas que lhe pareciam incompletas. Não vamos encontrar uma Meireles acadêmica, mas um jornalista polemista, ora na ofensiva, ora na defensiva, mas a maior parte das vezes batalhadora de front, empunhando sua arma de ataque e defesa: a Página de Educação no jornal Diário de Notícias e depois na Folha de São Paulo.

Viveu e escreveu num período politicamente conturbado, a maior parte dele no governo de Getúlio Vargas que não se cansava de inovar no seu autoritarismo. Revolucionário, constitucional a seu modo, ditador e suicida.
Através da espada da Página da Educação, em política exibe a marca mais saliente de Cecília Meireles: sua opção pela democracia liberal. Por isso, de imediato granjeou desafetos entre os partidários do “Sr. Ditador”, entre deles o ministro da Educação e Saúde, Francisco Campos. Entre os católicos, no tradicionalismo da Igreja, que insistia no ensino religioso, mesmo em escolas públicas, Tristão de Atayde. Meireles propunha um ensino universal, unissexual e supraconfessional.

Na organização social combatia a divisão de classes, grupos, o sectarismo e preconceito racial. Defendia o feminismo através do mérito, sem privilégios. A mulher deveria “subir” através de sua capacidade. Da mesma forma, ao exacerbado nacionalismo, próprio da época, contrapunha a fraternidade universal.

Paralelamente à atuação como jornalista combativa, obrava, quase em silêncio, uma professora poeta, que fazia poesia para as crianças, louvava a natureza e meditava misticamente sobre a natureza humana. Cada situação, encontro, viagem, livro era motivo de uma meditação filosófica externada na poesia.

Estas são as duas “cecílias”: a poetisa e a guerreira.
O fenômeno da Escola Nova na educação não foi um movimento isolado no Brasil. No Inglaterra iniciam-se um iniciativas e ensaios no sentido de renovação do ensino. Surgem algumas escolas com o nome de “public-schools”. Não eram instituições oficiais. Eram chamadas de públicas porque mantidas por fundações de interesse geral e recebem alunos de todas as regiões do país, ao contrário das escolas locais. Os dirigentes perceberam alguns defeitos das escolas do seu tempo como convencionalismo, intelectualismo e individualismo e se propuseram a saná-los. Para tanto algumas escolas começaram a mudar sua filosofia como Arnold na Escola de Rugby, Sanderson na Escola de Oundle, este último procurando estabelecer uma harmonia entre a escola e a vida real dos alunos.

No Brasil, a ideia de Escola Nova, incorporou a realidade brasileira, isto é, os problemas específicos, mormente no que se refere o conteúdo e método educacionais. Os principais princípios que norteavam a Escola Nova eram: a laicidade, o publicismo e a coeducação.

Na escola tradicional o conteúdo privilegiava um ensino clássico pelo qual o aluno assimilava, sem participação, o que lhe era ministrado. O método, por sua vez, era formal, isto é, o professor ministrava a matéria e o aluno decorava o conteúdo. Contra isto, Cecília se insurgia. Era preciso inverter, dizia ela. O ponto de partida é o aluno, seus problemas reais, sua circunstância, sua realidade. O método devia ser também a partir do aluno, fazer que ele mesmo construa o conhecimento. Em seu programa, Cecília reivindicava novos estudos afetos à psicologia do comportamento humano. Os grandes responsáveis pela educação, a Família, Igreja e Estado, deveriam propiciar uma renovação educacional.

O ponto nevrálgico, porém, da proposta educativa de Cecília foi a questão da responsabilidade da ação educativa. Para ela, nem o a Família, nem o Estado deveriam ser os titulares, mas a Escola. Isto por que a Escola era o espaço público, por isso a defesa da escola ser administrada pelo Estado, embora houvesse interferência doutrinária e moral da Igreja e da Família. Uma e outra eram responsáveis pela estrutura social vigente ou interferirem na vida pública do indivíduo, apontando-lhe um destino profissional e na vida espiritual, de ordem privada, ao lhe pregar uma moral e uma conduta a seguir.
Além disso, com a transferência da educação para a responsabilidade da escola haveria democratização da instrução, ao contrário do que acontecia até então, quando isto era entregue à Família e à Igreja.
Desta forma o princípio da Escola Nova era a liberdade individual em substituição à autoridade institucionalizada. Em Cecília defrontam-se os dois princípios: o da liberdade, da Escola Nova, e o da autoridade, defendida e praticada pelos católicos. Ambos, grupo de católicos e escolanovistas, creditavam à educação esta tarefa.

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