sábado, 8 de julho de 2017

AS SERVAS. .Selvino Antonio Malfatti.


















O livro The Handmaid's Tale (A Serva) vem vencendo décadas de publicações e republicações sucessivamente. Depois de ser encenado para cinema, agora será levado à TV italiana como novela com o título: La Ancella.

Pergunta-se: por que levar à TV uma obra que já carrega algumas décadas? Evidentemente a cima de tudo pelo seu valor cultural. Mas se pode ler nas entrelinhas outras razões. Estou pensando que se se mostrar um lado da moeda pode- se indagar pelo outro. Refiro-me à escalada de atos terroristas acontecendo na Europa devido ao fanatismo de um grupo religioso. No livro citado o fanatismo imaginariamente proveio de cristãos, mas, na Europa, concretamente, o que está acontecendo hoje é com muçulmanos. No livro o regime decorrente é totalitário, direcionado contra as mulheres. No entanto, em minhas viagens pelo mundo de civilização islâmica, no mínimo, de fato que se constata é a desigualdade escancarada em relação ao homem e à mulher.  Elas não são portadoras dos mesmos direitos que os homens. A começar que aos homens é permitida a poligamia, mas as mulheres estão proibidas de poliandria. Ao estupro, por exemplo, é plicada a pena de apedrejamento.  Os homens podem ocupar todos os cargos, as mulheres um mínimo. Não se vê contato entre homens e mulheres.É dificílimo ver mulheres trabalharem no comércio, praticamente só homens. Na dimensão religiosa nem se pode falar. 
São algumas hipóteses que se podem levantar sobre as razões levar a obra aos canais de televisão. Mas parece que a mais provável é um alerta.

A trama é relativamente simples, mas as questões abordadas envolvem a ética, a política, e o direito e, evidentemente, a filosofia.
Desenvolve-se tendo como cenário os Estados Unidos da América, país devastado pelas guerras e radiações atômicas. Os sobreviventes são raros, mormente as mulheres. Os que detêm o poder resolvem impor a procriação obrigando as mulheres a gerarem. Para tanto estabelecem um total controle sobre o sexo feminino nos moldes de um Estado totalitário. As poucas mulheres que sobraram com capacidade para procriarem, as servas, são constrangidas à procriação coercitiva, enquanto as demais são reduzidas à escravidão. A mulher, sem nome, passa a ser denominada de “Offred” , isto é,  “Dofred”, seu patrão, e apenas se sabe que vive na República de Gilead e que pode afastar-se de casa somente uma vez por mês, para ir ao mercado. Os produtos comprados não têm nomes, mas apenas desenhos, pois não é permitido às mulheres lerem. Aparentemente, “Dofred” está resignada ao seu destino. Internamente, porém, lembra-se de seu passado, sabe seu verdadeiro nome, e para sacudir o jugo pede para engravidar, pois esta é a única esperança de salvação.
O livro pode ser dividido em cinco itens:

11. O Enredo.

A devastação das guerras e a poluição são os elementos predominantes. Neste ambiente, um grupo de extremistas cristãos toma o poder e implanta um estado totalitário em que as mulheres são despojadas de todos os direitos.
São divididas em categorias: esposas, filhas, não-mulheres e servas., todas propriedade dos homens e a eles submetidas. Não podem ler, sair sozinhas de casa e proibidas de trabalharem. As que recebem o pior tratamento são as servas, as únicas férteis de todas das categorias, reduzidas a animais de procriação.
No topo da hierarquia social e política do Gilead está o Comandante da República. Calcado no preceito bíblico, segundo o qual, os maridos que tivessem mulheres estéreis poderiam relacionar-se com as próprias servas para gerarem filhos. Louvados neste preceito bíblico os Comandantes apropriavam-se de servas, mulheres férteis, num regime de completa escravidão com o único objetivo de procriação.


 2. A Serva
Em torno da figura de Offred e seu patrão, o Comandante, é contado o relacionamento com as demais servas e do Comandante com sua esposa.
Offfred, a Serva, lembra como era a vida anterior e está determinada não somente sobreviver como encontrar a filha desaparecida.
 3. Cenas chocantes
Logo após a publicação do livro algumas escolas simplesmente rejeitaram o livro e o proibiram devido a cenas de realismo por demais cruéis como é a cena da mutilação sexual.
 4. A questão do feminismo
Após a publicação, o livro tornou-se um baluarte do feminismo, inclusive algumas mulheres tatuavam-se com frases recorrentes do livro. Contudo os próprios intérpretes das figuras feministas, como de Offred, negam a intenção, afirmando que a personagem é apenas uma figura humana, sem nenhuma conotação política.
 5.  Conteúdos
5.1.        Política.
Enquanto numa utopia do tipo platônica ou de Morus se imagina um estado imaginário ideal, na Gilead se vive em extrema opressão, por isso pode ser caracterizada como uma distopia. Os comandantes, mais precisamente, o Comandante, têm a todos submetidos, mormente as mulheres. Estas, até mesmo religiosamente, devem ser rezar para que o Comandante engravide o máximo de servas.
5.2.        Ética
Esta é absoluta, pois não há meio termo ou a possibilidade de consenso. É uma ética só, a qual todos devem praticá-la. Tem como pano de fundo de que os fins justificam os meios.  As mulheres não podem trabalhar, não podem aprender a ler, não podem possuir nada. Para cada categoria de mulheres havia uma cor nas vestimentas e era absolutamente proibido usar outra cor.
5.3.        Direito
A antiga constituição foi queimada. Em vez de Estado de direito é Estado de dever, isto é, policialesco. As mulheres férteis, as servas, são obrigadas a gerarem filhos. É um Estado totalitário no qual ninguém tem direito algum.




sábado, 1 de julho de 2017

O caminhar do povo brasileiro pela história. José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei












O Brasil mergulhou, nestes últimos anos, numa crise política que levou, inicialmente, ao afastamento da Presidente da República e, agora, mostra como a corrupção alimenta o processo eleitoral e o enriquecimento dos políticos. As coisas chegaram a um ponto insustentável nos governos do PT, mas é ilusão acreditar que o problema não existisse antes ou que não fosse tão extenso. Essa crença nasce do discurso antipetista, parte da polarização danosa que tomou conta do país. O afastamento do projeto social democrata e a implantação do projeto liberal conservador nem livrou o país da corrupção, nem promoveu a retomada do desenvolvimento. E as coisas pouco mudaram porque o que alimenta a corrupção e a crise econômica são fatores complexos inclusive o ambiente internacional dos negócios. O surto de desenvolvimento da era Lula, por exemplo, não ocorreria num ambiente externo desfavorável como o de agora. E internamente ainda se vive a tradição patrimonialista que mistura as coisas do Estado com a dos mandatários, fazendo com que o mal feito seja verificado desde as prefeituras mais pequeninas até a união federal, roubo democraticamente distribuído por todos os partidos. E esse ambiente, que se deteriorou nos últimos anos, foi alimentado pelo financiamento empresarial das campanhas e a multiplicação das legendas de aluguel. Para que se dimensione o absoluto descalabro a que isso chegou basta mencionar o Partido da Mulher Brasileira. Qual o projeto político desse partido? E igual a ele há um bom número de pequenas legendas feitas para vender apoio ou alimentar vaidades. O conjunto de fatores mencionados agravou o estado geral de corrupção que não resulta de nenhum Partido isoladamente, mas desse ambiente favorável alimentado por todos eles.
Para que se reduza significativamente a corrupção e se resgate a dignidade da atividade política será necessário mudar muita coisa: acabar com o financiamento empresarial das campanhas (que parece feito, mas que pode ser ressuscitado), eliminar os privilégios parlamentares e reduzir o número de políticos, baratear as campanhas, reduzir os partidos (para no máximo uns seis ou sete), punir as autoridades corrompidas e seus corruptores. Sem essas ações a corrupção ou ficará oculta ou reduzirá pouco. É também fundamental elevar o nível educacional da população e discutir a moralidade nas escolas e fora delas.
O ambiente suprapartidário de falcatruas não é aceito internacionalmente. Assim, a gestão pública horrorosa das coisas do Estado (os problemas de segurança pública: explosão dos bancos, bandos de marginais armados aterrorizando a população, número enorme de crimes, péssima gestão da saúde, má qualidade da educação, os ridículos transportes públicos, as estradas inqualificáveis, etc.) tudo com que aceitamos, mas que não é admitida internacionalmente. Essa má administração foi punida pelos americanos com a interrupção da compra da carne e a perda da ajuda internacional para a manutenção da floresta amazônica. Pouca coisa funciona bem.
Esse ambiente de corrupção e má gestão tirou o foco da noção de pátria como casa do povo. Casa entendida como ambiente cultural.Esse ambiente é sustentado por crença comum, que é uma fé, religiosa ou não. Pode ser um princípio fundador que esteja na origem do povo, ou um projeto político em que a sociedade se engaje por acreditar. De todos os modos precisará ser um ethos, uma casa comum que nasce da convivência e da crença compartilhada que amarra a vida do povo, que o instiga a vencer as dificuldades enquanto enfrenta as lides diárias.
Esse ethos é espaço compartilhado de crenças que liga cada um a terra dos avós e dos filhos. Essa noção de espaço nacional perdeu-se e é vilipendiada pela atual geração de políticos corruptos e empresários bandidos (ressalvadas as exceções). Reativar esse ethos que nos liga aos heróis conhecidos, ao trabalhador que sucumbe no esforço diário e ao militar anônimo que morre pela pátria, confiando num futuro melhor, numa democracia mais justa e num país bom para viver. E há muitos que assim fizeram e fazem. São esses heróis conhecidos ou não que precisam inspirar nosso destino em dias como esses que passamos.




sexta-feira, 23 de junho de 2017

NOVE PRINCÍPIOS PARA “MANTER-SE COM O FUTURO”. Selvino Antonio Malfatti




Há um instituto de pesquisa, nos Estados Unidos, chamado Escola de Arquitetura e Urbanismo do Massachutts Institute ol Technology – o Media Lab.  Neste, os mais renomados cientistas das várias áreas tecnológicas desenvolvem pesquisas para melhorar a vida humana: aperfeiçoar o que existe e suprir as deficiências. Procura constantemente avançar nos conhecimentos tecnológicos. O Instituto parte da premissa de que a tecnologia pode trazer mais felicidade ao homem.  Nos últimos dez anos, o Media Lab avançou sobremaneira nos conhecimentos da “revolução digital” e na expressão humana. Dele saíram as pesquisas sobre cognição e aprendizagem, música eletrônica e holografia, mas também em pesquisas que facilitam e suprem as deficiências humanas como Alzheimer, depressão e socialização .
Recentemente foi editado um livro de Joi Ito  - Mantendo-se com o Futuro - no qual apresenta Nove Princípios para se manter nos próximos anos. Estes são uma pauta filosófica para poder viver inserido no que vai acontecer proximamente.

OS NOVE PRINCÍPIOS

I – Emergência de base substitui Autoridade de cima.

Autoridade.

Sistema que abrange produção, organização e distribuição do conhecimento de cima para baixo. O pressuposto é que o conhecimento resida ao alcance de poucos e que sua socialização depende de sua decisão.
Emergência
Graças à internet o conhecimento emerge de baixo para cima. As ferramentas das redes fazem com que você mesmo decida provocando um movimento de disseminação coletiva do conhecimento.

II – Puxar substitui empurrar (Pull X push)

Empurrar

Modelo de gerenciamento pelo qual se adquirem e se armazenam recursos. O controle é global e se emitem ordens de centro para margens.

Puxar

Os recursos são exauridos do interior do projeto somente enquanto necessários. A partir daí afluem das bordas através de redes de relações amparadas nas novas tecnologias das comunicações.

3 -  Bússola substitui cartografias

Cartas

Modelo segundo qual, antes de agir, apresenta uma compreensão detalhada da situação e um trajeto pré-definido. Deparando-se com obstáculos, é redesenhado o mapa.

Bússola

Num mundo veloz e repleto de imprevisibilidade é necessário valer-se da criatividade e estar prontos para mudar a rota.  Diante de obstáculos se os contorna e prossegue.

4- O risco substitui segurança

Segurança

Para se ter segurança, quando o custo for elevado para se colocar um produto no mercado ou disseminar uma ideia ao grande público, é preciso conseguir um projeto com protocolos e aprovações.

Risco

Com ferramentas 3D, os processos de produção são rápidos e seu custo baixo. Por isso, esta opção é preferível para ideias e objetos embora sujeitos a falhas eventuais.

5– Desobediência substitui concordância

Concordância

Na sociedade industrializada e voltada para a produção acredita-se que somente um número restrito de pessoas tenha capacidade criativa. Os demais devem se concordar com as ordens vindas deles.

Desobediência

Novos processos, mormente os de automação, abrem-se novos cenários do trabalho. Diante deste quadro terá mais sucesso quem se fizer perguntas, fia-se no instinto e se nega a seguir as regras quando são empecilhos.

6- A prática substitui a teoria

Teoria

Abordagem assentada sobre rigorosas previsões e monitoramento dos processos concluídos. Nenhuma proposta será aprovada senão após rigoroso estudo.

Prática

Num futuro de alta velocidade, esperar acarreta custos mais elevados que improvisar. Por isso é melhor produzir imediatamente novos protótipos e mudar de rota, calcados no princípio “aprender fazendo”.

7 - Diversidades substitui capacidade

Capacidade

Acredita-se que as pessoas mais inteligentes e melhor qualificadas numa disciplina também são as mais preparadas para resolver os problemas de seus setores.
Diversidades
Em tempos complexos os grupos variados são os mais produtivos. A delegação de tarefas não segue o critério do título, mas a demonstração de maior aptidão para qualidades cognitivas.

8 – Resiliência substitui força

Força

Tradicionalmente as grandes empresas se blindam para s protegerem de possíveis falhas. Para tanto, rodeiam-se de recursos extras, programam estruturas de gestão hierárquicas e processos impenetráveis para terceiros.

Resiliência

As empresas empregam um investimento tal que, se falhar, no máximo não há grandes prejuízos, mas um aprendizado das falhas. Por isso, se pensa que é mais lucrativo desistir do que resistir.

9- O sistema substitui o objeto

Objeto

O quadro tradicional industrial calca-se sobre preços de produtos individuais e o lucro é uma consequência do valor individual ou corporativo.

Sistema

Hodiernamente é sempre mais urgente considerar o impacto de um objeto como um todo num sistema de relações entre as pessoas, suas comunidades e os ambientes culturais que vivem.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A falta do mestre Reale.. José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei




O julgamento no TSE da chapa Dilma-Temer terminou com frustração daqueles que desejam um país sem corrupção e, especialmente, onde valor e justiça caminhem juntas.
O raciocínio seguido pelos juízes que votaram pela absolvição da chapa vencedora no último pleito presidencial foi a desqualificação da denúncia inicial, para que o processo ficasse ao ponto da absolvição, ainda que para isso fosse necessário fechar os olhos para o enorme conjunto de provas agregadas ao processo com as gravíssimas denúncias dos executivos da JBS. Ainda que as provas contidas na petição inicial não fossem suficientes para condenar a chapa, o que é bastante duvidoso, o conjunto de provas agregadas ao processo seria certamente mais que suficiente para conduzir o julgamento nessa direção.
O caminho seguido pela maioria dos juízes foi desconsiderar os fatos na sua integralidade em nome, provavelmente, da estabilidade econômica. Esse parece um raciocínio limitado, somente válido para os superficiais e oportunistas, porque não parece que a aberta mentira possa assegurar a legitimidade e a estabilidade econômica no médio prazo. Se não tiver efeito ruim imediatamente o terá no futuro, no momento dos próximos pleitos quanto o eleito deverá assegurar apenas que governará, não importa o modo como atinja o poder. Essa atitude dos juízes provoca uma grande saudade do mestre Reale, que para além de jurista era filósofo e fazia com que fato, valor e norma estivessem atadas pela força da consciência histórica. Valores que a consciência nacional reconhece como fundamentais para a convivência pacífica e justa dos cidadãos como honestidade, integridade e coerência não podem ser desprezados, mesmo que provoquem dor no momento.
No livro Miguel Reale, ética e filosofia do direito pode-se ler (Carvalho, 2011, p. 186/7): “A compreensão tridimensional do Direito sugere que uma norma adquire validade objetiva integrando os fatos nos valores aceitos por certa comunidade num período específico de sua história. No momento de interpretar uma norma é necessário compreendê-la em função dos fatos que a condicionam e dos valores que a guiam. A conclusão que nos permite tal consideração é que o Direito é norma e, ao mesmo tempo, uma situação normatizada, “no sentido de que a regra do Direito não pode ser compreendida tão somente em razão de seus enlaces formais” (p. 242).
A questão essencial desse tridimensionalismo jurídico para Reale não é, portanto, mencionar a aproximação entre a norma e valor numa certa circunstância dada. Isso foi feito de muitos modos ao longo da história do Direito. O que há de inovador na contribuição de Reale é tratar fato, valor e norma como partes integrantes de um processo histórico unificado, conforme ele explicou no livro Fundamentos do Direito (1940).
Nessa visão tridimensional elaborada por Miguel Reale o modelo jurídico não é pensado apenas pela coerência interna da lei, sem comparação com outras normas que, estando em vigor, possam alterar a sua significação. Ao serem posicionadas ao lado das normas já existentes, as novas normas dão um outro entendimento ao modelo jurídico em vigor. Para que a elaboração de novas leis não crie um instituto incoerente é preciso entender o tridimensionalismo jurídico como uma relação dialética entre norma, fato e valor. Para nosso pensador, não é suficiente pensar o tridimensionalismo como o faz Gustav Radbruch ou Julius Stone, que estudam separadamente fato, valor e norma”.
Para o julgamento em questão fica-nos aquela lição, naturalmente esquecida, de que a regra do Direito não pode ser compreendida somente pelos seus laços formais e a decisão judicial não pode criar um instituto incoerente firmado em jurisprudência.
                                  


sexta-feira, 9 de junho de 2017

ISMAEL E ISAAC – IRMÃOS BRIGUENTOS. Selvino Antonio Malfatti.












Causa estupefação a narrativa bíblica sobre os filhos de Abraão. Diz o texto que os irmãos Isaac e Ismael brigavam muito e por isso Abraão resolveu pedir para Ismael e Agar irem embora.  Da descendência de Isaac veio a civilização judaico- cristã. Da descendência de Ismael, a árabe, e dela o islamismo. Os dois irmãos tinham a mesma identidade, eram filhos de Abraão, mas com certeza tinham as suas diferenças senão não brigariam. É o paradoxo das duas culturas judaico-cristã e árabe: conflitam pelas diferenças sem se lembrarem de suas identidades. O mesmo acontece analogamente entre as civilizações cristã e árabe, especificamente: europeia e complexo árabe.
Alguns salientam as diferenças entre as duas culturas. No entanto, não se dão conta de que, se existe diferença, é por que existe alguma identidade. Quando se pensa o Dois e o Múltiplo, no fundo ambos provém de suas identidades por que estão alicerçados no mesmo princípio:  o Um.  Da mesma forma há diferença entre um e outro por que há uma identidade. Somente posso me referir ao outro se houver algo que os une. Sempre é necessária a ponte para transitar de um para outro.
Isto vale para o cristianismo e islamismo. Quem será capaz de negar a importância para o ocidente da tradição árabe na matemática, arte, ciência, e filosofia? Platão e Aristóteles estavam mortos e sepultados se não fosse a contribuição da filosofia árabe. Nossos conhecimentos sobre estes dois pensadores chegaram à Europa através do árabe Averrois, culminando cinco séculos depois com o Iluminismo e anteriormente com a Renascença, com a volta às origens.
Contudo a noção de identidade e diferença persiste. A matéria de uma escultura pode ser a mesma, mas o que diferencia é a forma. A pedra bruta – matéria – é a mesma daquela da escultura de Davi. A matéria é a mesma, o que os que diferenciam –pedra e escultura - é a forma.
Da mesma forma as duas culturas, europeia e árabe, podem ter tido uma origem comum. No entanto, o resultado, a diferença as separa abissalmente. Somente para ilustrar, o humanismo ocidental, a concepção de humano, os distancia de tal forma que praticamente não se reconhecem mais. Os mistérios dos sentimentos e da própria consciência, âmago da civilização europeia, oriunda de uma vertente grega, a tragédia e a poesia, desprezadas pela cultura islâmica, relegando-as ao secundário. A afirmativa de que a cultura oriental, mormente a islâmica, é o coração da ocidental tropeça quando buscamos nela o direito e o logos. Ou que o peso da teologia islâmica tenha sido tão importante para Europa como a teologia hebraica e cristã. Embora possa se encontrar traços da filosofia de Averrois em Dante, não é o essencial em Dante que se apreende, por que onde está a Comédia em Averrois? Completamente ausente. São duas realidades de intensidade diversa.
Além disso, onde encontramos no Corão a coexistência dos distintos, o profundo significado da Trindade cristã? Não é por acaso que toda cultura ocidental reflete a presença simultânea dos opostos: do cosmos e do caos, da forma e do disforme, do finito e do infinito.
Nas diversas ramificações do conhecimento europeu como história, filosofia e política, todas se apoiam na ideia de limite, distanciando-se do ilimitado, do senso comum de que a decisão nasce do consenso. Ainda, a possibilidade da convivência civil, calcado sobre a ideia de limite, mormente no aspecto político. E neste caso a teoria do direito natural como farol e guia político. Disso nasceram as grandes distinções próprias da cultura europeia: entre poder, saber e lei, entre teologia, moral e política. Isto não é nada mais e nada menos que a criação do estado laico, da democracia. E aqui está o nó górdio: a separação da teologia da política. Confrontando-se com o islamismo, não só a dita política radical como a moderada, deitam suas raízes islâmismo.
Por isso, pretendendo-se explicar a cultura europeia por raízes islâmicas é uma aberração. Temos uma mesma identidade originária, qual seja o mesmo Pai Abraão, ou a Humanidade, mas a partir daí emergiram as diferenças, radicais e profundas, que surgiu algo novo: a cultura europeia diferente da árabe, embora se reconheça os traços de sua presença.
A convivência entre árabes – muçulmanos e europeus – cristãos – não teve nada de idílico. Sabe-se que a Europa, na península ibérica, foi ocupada pelos árabes por quinhentos anos. No Levante Mediterrâneo assistiu-se a um prolongado e sangrento conflito de Veneza com os turcos. As rapinas sarracenas no início do século XVIII nas costas italianas. A caça às mulheres, homens e saques. A ocupação otomana semi-milenar nos Bálcãs com opressões contra os cristãos, obrigados todos os anos entregar parte de seus filhos que seriam constrangidos a converter-se ao islamismo e educados em Istambul para servir os sultões.
E Infelizmente continuam os ataques terroristas na Europa por parte do mundo árabe: Paris, Londres, Roma, Bruxelas, Berlim, Madri entre outros. Ismael e Isaac continuam se agredindo.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Alimentando a esperança. José Mauricio de Carvalho




Ainda outro dia li um comentário que o Dr. André Dornelles Dangelo escreveu sobre políticos e filósofos inspirado em Olavo de Carvalho. Não pretendo polemizar com o amigo. Apenas tomei a inspiração para voltar ao tema.
Se for para ouvir filósofos, encontro melhor inspiração em Immanuel Kant e José Ortega y Gasset.  O primeiro o filósofo de Königsberg, que num pequeno ensaio intitulado Sobre a discordância entre a Moral e a Política, a propósito da paz perpetua, (Vozes, 1985) esclarece a diferença entre a moral e a política e com a experiência da modernidade supera a visão grega (platônica) e medieval (Santo Tomás) de que o dirigente político devia ser virtuoso.  Kant esclarece que se é inocência acreditar que A honestidade é a melhor política, é adequado assumir que (1985, p. 130): “a honestidade é melhor do que qualquer política (...), sendo mesmo condição indispensável da política”. Assim, ao mesmo tempo que descarta o governo de um moralista político (ao modo de Platão e dos moralistas católicos) já que não se pode ajustar a moral aos interesses do Estado, por outro lado é necessário o político moral, que concebe os princípios do Estado e do bem da sociedade fazendo-os coincidir com os interesses da moral. Desse modo, ele superou definitivamente a posição maquiavélica de que a Política é espaço contrário à moral, explicando que os princípios maquiavélicos: faz primeiro e desculpa depois, se fizer negue, divide e impera, etc. são (p. 140): “máximas políticas que (usadas por nossos políticos) não enganarão ninguém, pois são universalmente conhecidas”. Assim Kant recompõe as coisas. Se não é possível um governo de filósofos como queria Platão, também não o é o de um político que marche abertamente contra a moralidade e as leis.
Por sua vez, Ortega foi professor na Universidade de Madrid. Ele esclarece que a Política não é apenas espaço do pensamento, mas da ação. E num pequeno ensaio denominado Mirabeau o el político (O.C., Alianza, v. III, p. 601-637) mostra que esse personagem da Revolução Francesa conseguiu, com seu vigor, encontrar um caminho para a crise revolucionária da França. Por isso, Ortega descarta a presença do filósofo na vida política, pois o filósofo não é homem de ação. Em política não se pode ser como filósofo que contempla e analisa atos, quando é preciso agir. E, em seguida, diz (p. 622): “A vida de um grande homem político muda de aspecto no momento em que começa a atuar como homem público”. Porém, se ao agir o político é filósofo, sua missão é resolver as crises de seu povo e do seu tempo.
Nenhum dos dois filósofos patrocina a imoralidade, a corrupção contra os interesses da sociedade. Ou nenhum filósofo proclama o roubo da coisa pública não importa a ideologia. E ao voltar aos dois, pretendo primeiro dizer que todos os políticos corruptos devem ser presos e o dinheiro da propina devolvido integralmente aos cofres públicos. E para isso os corruptores que os levaram ao poder seriam os fiadores da dívida e companheiros de cela.
Por sua vez se não enterro a esperança de um país melhor sei que ele não virá sem algumas condições. Quando a elite sócio-econômica quis fazer entender que a culpa da crise era do PT, afirmei que a questão era mais ampla. O PT é parte do esquema, apenas não fazia o interesse dessa elite queixosa. E agora é hora de dizer, afastar Temer e colocar lá o Presidente da Câmara ou Senado adiantará pouco. Eleições diretas com as regras que aí estão não mudará nada: (dezenas de partidos, eleição cara, sem voto distrital, sem fidelidade partidária, sem uma lei dura contra a corrupção) 1. ou levará um novo ladrão à Presidência ou 2. alguém que, agindo honestamente, não governará. Portanto, é preciso acabar com o conluio entre maus empresários e políticos com uma duríssima lei anticorrupção, fazer novas regras eleitorais para a próxima eleição direta (que desencoraje a roubalheira) e ter um governo de transição com especialistas nas respectivas áreas e descolado da atual classe política. Tudo isso sem fugir da Constituição e do Estado de Direito. Nomes para liderar esse governo não faltam.



sexta-feira, 26 de maio de 2017

CULPA. Selvino Antonio Malfatti





Um dos sentimentos humanos mais intrigantes é a Culpa. Como se manifesta? Uma aflição que aperta o coração. Seca a garganta. Uma dor vaga perpassa o interior. Persiste apesar de tentar esquecê-la ou afastá-la. Não estorva. Pode-se fazer o que se quiser. Mas ela fica, fica, fica. É como um perfume não desejado. É a sensação de culpa. Pode ser numa relação com Deus. Mas, quem é Ele? Por que não existe se existe? Se tem presença porque não está presente? É culpa de quem é que não é? E a culpa persiste porque o culpar-se por aquilo que se não é culpado é uma culpa.
É moral? Um e os outros? Uma infinidade de possibilidades. Supõe-se a mais radical: ter o necessário e secundário e faltar o essencial. Alguém possui não só o que necessita de essencial como dispõe do supérfluo. O outro estar privado do necessário. O primeiro pode sentir culpa desta relação. Como desfazer a culpa? Dando o essencial e viver do supérfluo? Dando o supérfluo e vivendo do essencial? Mas para quem tem o essencial o próprio supérfluo já se tornou essencial. Neste caso a única solução é continuar como está e rezar para que o outro consiga no mínimo o essencial. A oração acalma a consciência e traz a paz à alma. Deus providenciará. O discurso é humanitário e o agir impiedoso, mas sem culpa porque foi transferida para Aquele que é responsável pelo essencial e supérfluo entre os homens. À noite, no travesseiro da consciência, peço a Deus que dê a todos o necessário e durmo em paz.
A culpa é legal? As alternativas são reparação ou ocultação. A reparação pode trazer de volta a culpa. Por que se reparou quando se podia ocultar? A ocultação, por sua vez, continuamente remete à reparação e por isso se cai no círculo vicioso: se repara porque não oculta e se oculta porque não repara?
Se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não sou culpado porque então sou culpado? Se a culpa for da estrutura como solucionar com a conjuntura? Se a culpa é institucional como posso eliminar a solução?
Contudo, embora não se tem dívida com alguém e nem tenha causado algum desagrado a alguém, mesmo assim persiste a culpa, A culpa, a cima de tudo não é uma razão, mas um sentimento. É algo do qual se quer livrar-se. Apesar de alguém ter certeza de que pode ser feliz, não o é porque subsiste o sentimento de culpa. Junto com a culpa vem o remorso que mata, por dentro, a esperança de felicidade. Por mais que se queira explicar a si mesmo que não há motivo de culpa, ela reaparece enchendo a alma. É como Caim que vaga pelas florestas, corroído de remorso pela morte do irmão Abel. Neste caso há uma causa, o assassinato do irmão. E quando sem causa se sente a culpa? Desde que o homem teve consciência de si, sentiu-se culpado.  Por que um pagão como Anaximandro diria que não há culpa maior do que o de ter nascido? Por que Platão diria que a culpa é por não conhecer a verdade? O cristianismo solucionou com o mistério ou mito do pecado original. Assim se pode desfilar os grandes pensadores da humanidade como Rousseau que encontrou a sociedade seu bode expiatório. Se não fosse a sociedade o homem poderia ir ao encontro de seus desejos, satisfazer suas paixões, entregar-se à felicidade da vida, sem culpa, se não fosse a sociedade. O indivíduo é bom, não tem culpa. A sociedade é má, a culpada.
Nietzsche, na mesma linha, vê na sociedade não só estratégias de controle, mas formas de poder. Há os que querem demonstrar que o mundo não é como deveria ser. Eles dizem aos homens o que devem fazer, como se portar, até mesmo ordenando-lhe agir contra a sua natureza. O próprio Deus seria um desses pretensos idealizadores de felicidade. Mas todos estão mortos: monarcas, nobres,inclusive Deus. Mas algo sobreviveu: o sentimento de culpa.
Já Freud tira Deus do céu e o acomoda no coração do homem. Nele faz o papel de juiz, o Superego. Este impõe ao homem um código moral que inevitavelmente é transgredido, engendrando o sentimento de culpa.
E nos filósofos da existência, como vêem a culpa. Para Jaspers é uma situação limite, dela o homem não pode furtar-se. Heidegger vê na culpa um modo de ser do ser-aí, uma atribuição substancial do ser humano. Em última análise, em ambos a culpa é um trajeto inexorável. Tudo o que o homem fizer, ele pode ter certeza que será culpado. Se fizer o bem, ou se fizer o mal, ou mesmo se não fizer nada, sentir-se-á culpado. A culpa é a condição humana. E o pior dos paradoxos da culpa: quanto menos culpado se é, mais culpa se sente. Um santo se sente mais culpado que um assassino psicopata.

Entretanto, a culpa existencial é uma falsa culpa, ou culpa contraditória. Se é culpado porque se é um ser-aí. E este ser-aí é um fundamento do nada. Isto significa que ninguém o colocou aí. Não foi o indivíduo o autor deste ser-aí, nem outro. Logo, ele é um ser aí produto do nada. Como o nada dá origem a nada, logo ele, homem, não está aí. E sendo assim não tem culpa de nada porque não é nada. Por isso o ser-aí não pode ser causa de culpa e nem mesmo ser-aí é uma culpa.

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