sexta-feira, 22 de novembro de 2013

DISCIPLINA E ORGANIZAÇÃO COMO FERRAMENTAS PARA O PROGRESSO PESSOAL. Selvino Antonio Malfatti.











Estamos num contexto histórico em que se privilegiam o imediatismo, o momentâneo, o dado imediato. Incentiva-se, em nome da espontaneidade, aquilo que você pensa no momento, o querer agora, o pensar livre. Com isto se insere uma cultura do fácil, do “por si”, do grátis. Inclusive surge uma expressão difundida como se fosse uma verdade: “aprender brincando”. Por outro lado, consta-se que os que realmente conseguem algo de valioso são os que se dedicam com afinco, que queimam horas, dias e anos de energias. Os melhores nos vestibulares são os que se propõem e cumprem uma disciplina nos estudos, intercalados com descanso e lazer. Nas pesquisas científicas são aqueles que se dedicam anos e anos na observação rigorosa e nos estudos acadêmicos. Nos concurso os selecionados são aqueles que sacrificaram muitos momentos que outros aproveitaram para se divertirem. Temos, então, um confronto entre os que deixam a vida rolar e os que dão duro para encará-la. Em outras palavras, entre os que se impõem uma disciplina, e como conseqüência uma organização, e os que respondem às demandas que surgem ao acaso e como resultado não têm nada previsto ou organizado.
O resultado destas duas maneiras de pensar, agir e sentir todos a conhecem: a disciplina conduz, num primeiro momento, a dificuldades e, em longo prazo, ao sucesso, enquanto que o imediatismo, ao contrário, momentaneamente proporciona bem estar, mas em longo prazo, insatisfação e frustração. Quantas pessoas nós conhecemos que dizem: por que não estudei? Por que não me esforcei? Por que preferi um emprego em vez da sala de aula? Ao contrário, não se ouve arrependimentos de quem preferiu o esforço e tenacidade, à vida fácil e ao lazer. Sei que Bill Gates abandonou a faculdade, mas não foi para o lazer e sim para a pesquisa. Neste caso preferiu a uma vida de maior disciplina do que a vida acadêmica oferecia.
Mas como chegar à disciplina e organização? Existem medidas externas e internas. As primeiras dizem respeito ao nosso corpo. Significa ter horas certas para as refeições, asseio, trabalho, lazer e descanso. O corpo precisa criar hábitos que pouco a pouco facilitará a própria vida e automaticamente cumprirá sem necessidade de esforço.
Do externo, corpo, parte-se para o interior, a mente. Há necessidade de se aprender a concentrar-se, inclusive fixar-se. A dispersão dissipa as energias. É preciso policiar a mente para que ela não divague fora do foco, o objeto.
O segundo quesito da interioridade é o ritmo e a ordem. Afastar a idéia de querer tudo de uma vez, É preciso seguir o fluxo natural. Há tempo de plantação, de crescimento e só depois a maturação e colheita. Querer saltar ciclos, queimar etapas significa necessariamente fracasso.
O seguinte passo é ter a coragem para transpor o ciclo posterioer, isto é, não querer acomodar- se naquilo que alcançou. Assim como não se pode saltar etapas, também não se pode estacionar numa delas. Ser aluno até pode ser prazeroso, mas é preciso passar para o patamar do profissional.
A etapa adiante é congregar em torno de si outras pessoas. É ser um polo que imanta outras pessoas. Se até então foi um discípulo agora é a vez de ser mestre. Ter a coragem de assumir a liderança.
Na sequência, é não permanecer naquilo que aprendeu, mas criar algo novo, avançar, progredir. E nisso vai risco, mas é preciso assumi-lo se quisermos melhorar. A mesmice enfastia e embrutece. Nós não somos movidos pelo instinto e sim pela razão. As casas do João-de-Barro são sempre iguais em todos os tempos e lugares. As dos homens todas diferentes.

Criado este ambiente o ser humano está apto a comprazer-se na liberdade. Este é o estágio supremo: ser livre na disciplina e ordem.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O DESASTRE DA CORRUPÇÃO. José Maurício de Carvalho.













O noticiário da semana chamou atenção para a ação escandalosa da quadrilha de auditores da Prefeitura paulista. O país assistiu bestificado mais este escândalo, quando ainda nem havia digerido o do desvio de verbas do metrô paulista. O grupo, apesar de receber salários que fariam inveja a qualquer servidor público da saúde ou educação, algo entre quatorze e trinta e sete mil reais, desviou enormes quantias do tesouro municipal de São Paulo. A quadrilha que subtraiu milhões de reais dos cofres públicos atuou livremente durante pelo menos sete anos. O que isso significa? Que o enorme aparato burocrático que inferniza empresários e funcionários públicos que atendem a população, não serve para impedir o furto quando quem deveria fiscalizar é quem lidera o mal feito.
O mais lamentável não é a pura constatação de que milhões foram desviados do governo da capital paulista, dificultando a concretização de políticas públicas, é que o triste fato é só mais um entre os que quase diariamente chegam aos noticiários. E os que não chegam? O que ocorreu em São Paulo não parece diferente do que acontece em outras Prefeituras pelo país afora. E enquanto se difunde livremente a noção de que o enriquecimento é fruto de um golpe de sorte (pela loteria ou herança), ou ainda pela corrupção, distancia-se do cidadão comum a percepção necessária a qualquer povo de que o enriquecimento é fruto do trabalho continuo, feito com qualidade e da poupança prolongada. Portanto, o maior desastre que a corrupção causa é a desvinculação entre trabalho e enriquecimento, o único caminho capaz de levar uma sociedade a enriquecer verdadeiramente e superar dificuldades financeiras.
O fato nos coloca diante da inevitável necessidade de desenvolver mecanismos de controle da máquina pública que infernizem menos quem trabalha corretamente, mas que impeçam o desvio de recursos enormes durante tanto tempo. Entre as estratégias a ser  desenvolvidas está não apenas o controle das movimentações financeiras e patrimônio desses altos funcionários e seus familiares, mas a multiplicação de entidades sociais que fiscalizam os gastos públicos. Tudo isso só fará sentido se a justiça punir rapidamente os responsáveis e recuperar tudo o que tiver sido desviado, assim como fizer pagar os prejuízos da turma que nos últimos tempos tem quebrado impunemente o patrimônio público e privado.
Considero, contudo, que além das medidas punitivas tão defendidas pela mídia é fundamental a formação moral das pessoas, pois boa parte delas, quando educadas, não se deixa facilmente corromper. E formação moral é a que se desenvolve nas famílias, nas escolas, nas igrejas, nas instituições, etc. E a questão não se resume ao discurso ideal onde o mal feito seja condenado, mas combater suas causas profundas, que são o propósito do enriquecimento rápido e desvinculado do trabalho produtivo e honesto. Para essa mentalidade desastrada de enriquecimento fácil contribui  a propaganda da jogatina disfarçada em prêmios oferecidos nos títulos de capitalização. E mesmo as propagandas oficiais das loterias do governo quando divulgam os seus prêmios como forma de obter uma vida sem trabalho e esforço também favorecem a mentalidade mágica do enriquecimento sem dedicação ao trabalho. Essa mentalidade é parte da noção contemporânea de direitos sem deveres, mentalidade que o filósofo espanhol Ortega y Gasset entendia estar se formando na Europa desde a Revolução Francesa e ser a base da chamada sociedade de massa.

A internet, as novas tecnologias de ensino, as famílias, escolas e igrejas representam momento de ouro para estimular o enriquecimento ligado ao trabalho honesto. Essa mentalidade não se difunde entre nós enquanto houver um restinho da ética medieval do guerreiro que associava a riqueza ao botim e o crescimento da riqueza a apropriação do que estava pronto e feito por outrem.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O LIMIAR ENTRE O BEM E O MAL. Selvino Antonio Malfatti.























O artigo de meu antecessor intitulado, Um Olhar Novo sobre a Vida”, ensejou-me uma reflexão sobre a questão do bem e do mal.
Entre o bem e o mal há um opaco limiar. Um passo entre ambos.  Quanto desejo o mal somente é desejado se for entendido como bem. O que é preferível: a riqueza ou a pobreza? Não é um mal a pobreza? São Francisco a considerava um bem. Não é um bem a riqueza? Os Evangelhos a condenam.
Às vezes o bem triunfa na consciência. Reflito: está claro, é isso, como não foi visto antes? A paz desce à alma e ela se regozija porque pôde fazer o mal e não o fez. Por isso é creditado ao bem. O não fazer o mal se converte em duplo bem, por isso há um festejo celestial.
Ainda não é virtude, pois esta é o poder de sempre vencer o mal. Tão somente um ato isolado louvável, mesmo heróico, mas não virtuoso. A virtude é o estado da alma e do corpo que consubstanciam o dever ser. Por mais que as ondas batam, o rochedo não se abala. As ondas do inferno não prevalecem contra a virtude. Enquanto houver possibilidade de o dever não ser, não temos virtude.
No limiar a consciência pode atravessar o lado inverso do bem e justificar a decisão pelo mal. O sabor amargo-doce de se convencer de que não há mal no mal, deixa a alma e o corpo tensos. Eles se consubstanciaram em razões não da razão, mas de outros apelos humanos. A razão pode abençoar sentimentos irracionais porque se tornaram mais fortes que a razão. Eles se impuseram como razões mais fortes que a simples razão do dever ser. Por que um amor proibido não pode ser bom? Por que o bom deve ser proibido? A razão raciocina com razões da razão. Os sentimentos possuem uma lógica que a razão desconhece.
O sentimento vai ao encontro do próprio gênero da espécie. No ser humano o gênero da espécie se guia pelo instinto, enquanto a espécie pode negar seu gênero e conduzir-se pela razão. Há um conflito dialético entre o gênero e a espécie. O mal consiste negar a espécie e guiar-se pelo gênero. Por isso o sentimento é contra a razão da espécie mas não contra o gênero. As razões do coração são ignoradas pela razão da razão.
O limiar é o mais aflito dos estados de espírito. Ele está entre o dever ser da razão e o dever ser do gênero ou do coração. A virtude opta sempre pelo dever ser da razão. O vício sempre pelo dever ser contrário ao bem. Tanto a virtude como o vício são exceções, por isso, o limiar é o estado comum. A angústia é comum entre os que estão no limiar. E como o estar no limiar é o comum, a angústia é também o comum.

A razão se esforça para superar o limiar. Ela constrói edifícios morais, sistemas filosófico-morais, princípios universais. O sentimento depara-se atônito perante a parafernália do complexo humano. Pergunta-se: por que não é mais simples? Por que não seguir aquilo que meu coração dita? Por que devo ser diferente dos demais? Sou mais feliz por isso? Por que estou no limiar em vez de entregar-me ao bem de meus sentimentos e instintos?  

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

UM OLHAR NOVO SOBRE A VIDA. José Maurício de Carvalho.




Temos assistido triste leitura da vida na imprensa. A mídia mostra a dor diária da perda de muitas vidas e a tristeza de conviver com violência crescente. Talvez estejamos mais preocupados com a violência nestes dias, talvez seja simplesmente porque o homem de nosso tempo aprecie a divulgação do mal. Os meios de comunicação, principalmente a televisão, abusam de noticiar o sofrimento e o crime. Tão certo como a propagação do mal é que raramente se noticia o amor e a solidariedade. Isso significa que o amor em todas as suas formas não é digno de registro? E se não é por que motivo não é? Por que as manifestações do amor são consideradas naturais e comuns? Por que o mal é o extraordinário ou notável? Há nessas questões um problema de perspectiva.
O mais próximo da verdade é que o homem é violento e imperfectível. Em sua vida, em sua ação diária ele não se torna nunca o ideal que concebe de sua humanidade. O que isso significa? Que ele nunca é bom o bastante como gostaria, nunca coerente o suficiente como espera, nunca verdadeiro como devia, nunca amigo como acredita que possa ser. E justo por que não consegue ser aquilo que sua razão reconhece como mais desejável para sua vida que ele nunca se torna como deseja sua razão. Nesse sentido fazer o mal é nossa experiência mais comum. Fazer o mal por preguiça, pois custa fazer o bem; fazer o mal por comodidade, porque frequentemente fazer certo tem consequências perigosas; fazer o mal porque há certo prazer em praticá-lo. Qualquer que seja o motivo tudo aponta para o contrário do que a mídia mostra, fazer o bem é que é fato importante, fazer o bem é que é notável, para lá deveria se dirigir o foco de nosso olhar.
Esse novo olhar para a vida nada tem de inocente ou inautêntico. A vida é luta, é esforço, é empenho, é dedicação pura, contém riscos. Imaginar que o mundo está aí pronto para ser gozado é uma da maiores ilusões que se pode ter. Enfrentar os desafios que a vida traz rotineiramente é o que acompanha os seres humanos em todos os tempos. Todos os dias quando desperta o homem se depara com longa lista de tarefas esperando para serem realizadas, mas principalmente de desafios para serem vencidos. E não há como fugir deles, não há como esconder os problemas, o acirramento da violência urbana, as dificuldades de mobilidade no trânsito, os problemas ecológicos, o custo de vida, a necessidade de aprender novas coisas, de descobrir novos tratamentos para as doenças.
O gozo no mal e o reprise do mal diariamente nas televisões parece ser mais que a busca desesperada por audiência, é mais que um instinto inconsciente de gozo no mal por uma audiência pervertida, ela resulta da banalização da vida. Um homem que não se ocupa com o sentido de sua vida, aprecia olhar a vida dos outros como sendo sem finalidade. Parece-lhe correto ver a vida de crianças, jovens e velhos serem desperdiçadas na rotina de violência e brutalidade de nossas cidades. Por que tais vidas são para ele um nada, um vazio de significado.

Esses dias de violência urbana, de guerras civis brutais, de vidas perdidas nas drogas, de banalização da violência e do crime cobram um novo olhar para o mundo. Um olhar não para encobrir o que se sabe que acontece, mas para mostrar que o mais humano é a esperança de viver no sentido, de realizar-se na busca daquilo que nos faz ser o que somos. Só um novo olhar para a vida nos fará voltar a ter esperança no futuro, fará dele um tempo de novas possibilidades, uma jornada de esperança em meio aos desafios que sempre nos acompanharam e continuarão a fazê-lo em nossa jornada nesse mundo.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A Justiça e a Ética. Selvino Antonio Malfatti.




















A noção de justiça para a ética é extremamente complexa. Por isso, não é fácil indicar seus aspectos fundamentais.  A primeira observação que podemos verificar é que ela preside a todas as relações intersubjetivas: jurídicas, sociais, políticas e até mesmo teológicas.  Se nos perguntarmos quais os critérios para estabelecermos os parâmetros da justiça constatamos que salta à vista a diversidade de interpretações desde a lei do mais forte até oferecer a outra face. No entanto, as diversas interpretações não significam um relativismo axiológico em relação à justiça. O que acontece são experiências concretas, históricas de justiça de cada uma. Se nos abstivermos desses momentos vividos particularmente, verificamos que ela possui um conteúdo universal.
A Justiça está no âmago da ética. Aquela pressupõe uma igualdade originária entre os seres humanos. A função da justiça não é apenas para dirimir conflitos, mas ser um farol que aponta para as virtudes éticas e concretizar a convivência intersubjetiva pacífica.
A definição dada por Aristóteles é perfeita. Haveria dois vetores de justiça. Um, horizontal, estabelece as relações dos indivíduos entre si na troca de bens e serviços e outro, vertical, estabelece a distribuição dos méritos, evidentemente levado adiante por critérios pré-estabelecidos.
A primeira revela algo extraordinário. A justiça deve ser exercida num ambiente de liberdade, pois só assim todos podem ser considerados iguais. Supõe, portanto, relações de pessoas livres que contratam livremente entre si. A condição primeira para que haja justiça é que ocorra num ambiente de liberdade. Senão, vejamos o inverso: como pode haver justiça, isto é, a permuta entre bens e serviços se uma das partes está privada da liberdade. A que está privada da liberdade será necessariamente explorada, pois a outra fará as regras que lhe interessar. 

Mas como fica a justiça no seio de uma sociedade livre e individualista? Há dois instrumentos para se chegar a ela: os pactos – podendo ser ocasionais, tácitos e os contratos – relação bilateral da distribuição de bens e serviços. Isto por que o pressuposto ôntico do ser humano é da igualdade metafísica e desigualdade social, ambas decorrentes da racionalidade e liberdade. No entanto, embora os pactos e contratos sejam os únicos meios numa sociedade individualista para se atingir a justiça, não se pode dizer que sejam uma garantia de cem por cento. Os egoísmos e interesses podem atropelá-los e consequentemente vão afetar a justiça. Além disso, e muito mais grave, é o poder político querer uniformizar os interesses, tornando-os todos igualitários. A justiça tem por fim conciliar uma igualdade originária com uma efetiva desigualdade. Por isso, por paradoxal que seja, sem desigualdade, não haverá justiça, por que esta supõe espaço para as diferenças.

sábado, 19 de outubro de 2013

O Brasil e o ocidente. José Maurício de Carvalho




Há muitas formas de entender o Brasil e de explicar suas virtudes e dificuldades. Minha geração cresceu ouvindo explicações sobre os problemas do país e a maioria delas hoje soa  destituída de sentido. Esses comentários reaparecem vez por outra causando confusão e bastante mal. Eles nunca me  convenceram, mas apenas hoje, um pouco mais maduro, um pouco mais estudado, um pouco mais crítico e um pouco mais preocupado com o destino da pátria consigo entender melhor a razão. E por que é importante desmascarar essas explicações? Por que elas colaboram para popularizar uma imagem distorcida do que somos e nos afasta, pela inconsciência, de um futuro melhor.
A primeira delas é: o Brasil é um país jovem. E o que se quer dizer com isso? Que a juventude histórica explica nosso atraso econômico e cultural. Como estado nacional, o Brasil nasce em 1822, mas seu espírito não é jovem. Foi colônia por três séculos, mas desde o final do século XVIII começou a ser preparado para ser o centro do Império lusitano. O Brasil é realização do projeto nacional da geração pombalina e tem os méritos e limites desse projeto. Boa parte das nações da Europa só se consolidaram na modernidade e alguns países como a Itália e a Alemanha só se unificaram como Estado nacional em 1870, bem depois de nós. O afastamento político de Portugal depois da independência não nos fez, no íntimo, diferentes do projeto português que nos concebeu. Encontra-se nele as razões de nossas virtudes e dificuldades, lamentável que o conheçamos pouco.
Outra afirmação ingênua é: O Brasil recebeu do criador  natureza generosa. E o que isso significa? Que estamos protegidos das catástrofes naturais que assolam outras partes do mundo e aqui a vida é fácil. Houve uma época na Europa que se julgava ser a América o país da Cocanha. Grande ilusão, o Brasil tem problemas com sua natureza como outros povos. Implantar nessa região do globo uma grande nação é um empreendimento hercúleo. Estamos numa região de muito calor durante quase o ano todo, temos solo pobre na maioria do território, tempestades tropicais, uma enorme região semi-árida e outra com parte significativa da maior floresta equatorial do mundo. Esses ambientes são de difícil adaptação e demandam tecnologia própria para conviver num local tão diverso da velha Europa. Apenas o sul tem clima e território parecido com a Europa, berço do ocidente.
Segue-se esse outro primor de incorreção: o brasileiro tem preconceito racial. Se há algo que não temos é isso, pelo menos se entendermos por preconceito o modo como outros povos enxergam estrangeiros e/ou tratam outras nacionalidades. Há preconceito contra o pobre, infelizmente. E a razão é a péssima distribuição da riqueza, última herança da velha nobreza lusitana. Aquela mesma aristocracia improdutiva que vivia dos favores reais, quase sempre cultivando aparências, julgando-se melhor que o cidadão comum, distraindo-se no ócio e na caça, tentando aparentar mais do que verdadeiramente possuía e podia. Pombal fez o que pode para acabar com essa nobreza improdutiva, mas não conseguiu.
Essa outra é ótima: somos pobres porque fomos explorados por Portugal. Essa é a joia rara do marxismo tupiniquim e do chamado terceiro mundismo. Pombal na hora do aperto disse algo parecido ao rei D. José I para explicar a decadência portuguesa: somos pobres porque a Inglaterra nos explora. Safou-se, mas deixou um mau exemplo, qual seja, culpar os outros por nossa incompetência. Na verdade, se tivéssemos que pagar o custo da implantação da nova nação: casario, estradas, pontes, palácios, bibliotecas, igrejas, instalações militares, creio que ainda deveríamos a Portugal, mesmo descontados os impostos pagos e o ouro embarcado. O que nos faz pobres é a dificuldade de viver o espírito do capitalismo ou do mercado como se diz hoje em dia. E isso decorre principalmente de nossa matriz católica (como a espanhola e italiana). Max Weber e sua geração compreenderam que a cristandade ocidental encontrava-se dividida entre dois projetos distintos: um católico e outro protestante. O segundo favoreceu o desenvolvimento do capitalismo, o primeiro não. Só há uma forma de enriquecer como povo: trabalhar muito e com qualidade, poupar e investir no que gera riqueza.

O Brasil é um país ocidental, sua raiz íntima não se afasta dos valores centrais do ocidente: a pessoa, a democracia liberal, o estado de direito e a liberdade. Nossa cultura está estruturada sobre os três pilares do ocidente: a cristandade, a forma jurídica romana e o cultivo do pensamento lógico que é a base da ciência e da filosofia. Nossas dificuldades econômicas, a má gestão da coisa pública, a corrupção e a falta de uma moralidade que não esteja amarrada no direito ou na religião, nossos problemas sociais, a má distribuição da riqueza e a intransigência de impor à força interesses particulares de pequenos grupos (sindicatos radicais e vândalos de plantão), enfim, nossos problemas, nossa timidez e falta de espírito crítico são mazelas de nossa formação cultural.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Valores éticos cristãos. Selvino Antonio Malfatti

















O pontificado de Francisco sinalizou novos rumos para o catolicismo, tanto na maneira de pensar, como do agir e mesmo do sentir. No pensar propõe-se ao debate a cima da tradição. No agir abriu mão das parafernálias burocráticas e no sentir até se propõe a acolher os excluídos da grei. Isto marca novos tempos, um espírito de “aggiornamento” de João XXIII.
Estas atitudes de Francisco levaram à reflexão sobre a ética cristã. Para o catolicismo a ética está alicerçada no Absoluto. É Dele que ela emerge e é para Ele que ela tende. Este Absoluto é identificado com Deus. Mas não é nenhum deus abstrato, filosófico, “ex- intellecto”, mas um Deus identificável e identificado: o Deus cristão. O cristianismo deixa claro seu pensamento sobre a questão. É nele que repousa a ética cristã.
No entanto, isto não significa que tenhamos, nós cristãos, que assumir uma ética absoluta. Na vida prática, na convivência com nossos semelhantes, temos que ter outros princípios que supram as lacunas da ética absoluta. Por exemplo, a caridade é superior à justiça. Podemos ser caridosos sem sermos justos e vice-versa. Por isso, o cristão atual tem seus próprios princípios e sua ética, mas não postula impô-los aos demais.
Como diz um filosofo português, Eduardo Abranches do Soveral, os valores cristãos atualmente estão disseminados em escala universal. Já fazem parte da cultura de todos os povos. O principal deles: a valorização do Homem e da Mulher na sua dignidade, liberdade, igualdade, fraternidade e a justiça social com suas exigências. No entanto, pensa ele, os valores cristãos se descristianizaram tomando quase que vida autônoma. Existe na atualidade uma cultura de origem cristã, no entanto não se autoidentifica com o cristianismo. Ela impregna toda nossa sociedade pelo seu volume, opacidade, desumanização e fragilidade.
Há, atualmente, um valor peculiar da cultura cristã presente na sociedade. Trata-se do intelectual cristão que se apresenta como o mediador entre o homem de rua e a cultura, como criador desta mesma cultura e que assume uma posição declaradamente ideológica, com convicção e fundamentação. E como é este intelectual cristão? Quais suas características?
A primeira característica é de que seja limpo de coração, isto é, uma pessoa que vive com Deus, em estado de graça. Em segundo, que conheça o conteúdo dos Livros Sagrados e a Doutrina da Igreja e, finalmente, tenha uma visão prospectiva da cultura cristã genuína e primacial em oposição a outras culturas como a marxista, por exemplo. E quais as prospectivas cristãs mais salientes do intelectual leigo cristão?
O progresso. A ideia de progresso é de origem cristã, quando este é entendido como perfeição pessoal, sentido para História, crescimento indefinido de todas as atividades do homem, do universo em geral e dos seres vivos. Em síntese, Deus e Homem são os sujeitos da História.  
A pessoa humana. Cada homem é uma pessoa e não um indivíduo. Possui uma dignidade conferida pelo próprio criador e uma natureza assumida pela própria divindade.
A fraternidade dos homens. Os homens são irmãos por serem filhos do mesmo pai, que é Deus. Esta fraternidade é a origem de sua liberdade e igualdade relativamente de uns para com os outros.
Caridade. A caridade é pessoal, de coração para coração e não para com os homens em sentido universal. A caridade começa com os mais próximos – pais, irmãos, vizinhos, companheiros de trabalho etc. – e depois estende aos demais. Isso tem sentido como um Corpo Místico de Cristo. Sempre na situação concreta e não geral. Cada um seja um Cristo na situação concreta. “É professor? Seja Cristo como professor. É aluno? Seja Cristo como aluno. É empregado? Seja Cristo como empregado” Isso sem arrogância ou afetação e muito menos exigência. Sejas tu e aceite o que o outro quiser ser.

Esta é a ética do cristão atual.

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