sexta-feira, 15 de março de 2013

FRANCISCO I – AS VICISSITUDES NA ELEIÇÃO DE UM PAPA. Selvino Antonio Malfatti



















Desde a renúncia do papa Bento XVI os católicos do mundo inteiro, aproximadamente 1bilhão e 200 milhões, aguardavam a eleição do novo papa que aconteceu no dia 13 de março de 2013, na pessoa do cardeal Jorge Mário Bergoglio com o nome de Francisco I, 266º papa.
Teoricamente qualquer cristão católico, solteiro e em comunhão com a Igreja, pode ser eleito papa. Por isso, quando a cátedra de Pedro torna-se vaga, potencialmente existem milhões de candidatos. Na prática, porém, há 625 anos que o último pontífice foi escolhido fora da lista do Colégio Cardinalício. Foi Urbano VI em 1378, arcebispo de Bari, Itália.
Até o Cristianismo tornar-se Religião Oficial do Império Romano, com Constantino, no século IV, a escolha do Papa era um ato privado e até mesmo sigiloso, pois os cristãos viviam perseguidos pelas autoridades romanas e a maior parte dos papas era martirizada.
Com o advento da União entre Igreja e Estado começam a surgir os problemas, isto por que um interferia no outro inevitavelmente. Os imperadores queriam escolher os bispos e estes queriam escolher os chefes políticos.
No mesmo período, um bispo da Igreja, Santo Agostinho desenvolve a teoria da supremacia do poder religioso sobre o poder civil. Nas relações entre Igreja e Estado, Agostinho entende que ambas são sociedades perfeitas e soberanas, cabendo à Igreja o espiritual e ao Estado o temporal. O Estado, porém, está subordinado à Igreja, porque a vida terrena é um meio para se atingir o verdadeiro fim que é a salvação. O Estado e seus membros devem ser subordinados à Igreja. Com Agostinho, estava firmada a doutrina da supremacia do espiritual sobre o temporal cujo debate ocupará a intelectualidade durante toda a Idade Média e até mesmo no século XIX encontrará defensores, principalmente no Sillabus do Papa Pio IX. Esta doutrina da Supremacia do poder espiritual sobre o temporal, como foi concebida, é essencialmente moral, no entanto, na prática provocara as mais sangrentas guerras de Papas contra príncipes, vice-versa e de príncipes entre si.
Esta doutrina, porém, não era pacífica nem mesmo na Idade Média e no período de Santo Agostinho. Como exemplo pode-se citar Marcílio de Pádua, entre outros. Este pensador não só defende a separação do poder temporal e espiritual, como a subordinação deste àquele. Diz ele que a Igreja é formada por todos os cristãos que têm por objetivo a felicidade eterna. Todos os cargos eclesiásticos são iguais e não deve haver limites territoriais para o exercício das funções religiosas. Para ele, São Pedro era igual aos demais não tendo primado algum sobre os outros, inclusive, é duvidoso que tenha estado em Roma. Conforme ele o poder do Papa foi usurpado dos Bispos e fiéis, com condescendência dos imperadores. O poder supremo da Igreja não está no Papa, mas no Concílio Ecumênico, cujos representantes seriam eleitos pelos fiéis. Quem deve convocá-lo é o executivo do povo romano, isto é, o imperador. O poder dos papas não pode ir além do conferido pelo povo cristão através de seus representantes e o imperador. Igualmente, caberia ao povo, aos fiéis, elegerem e depor o Papa, com a sanção do Imperador. O mesmo se daria com os Bispos e presbíteros. A Igreja não tem poder coativo sobre os fiéis, cabendo este poder ao civil. Para haver paz e tranqüilidade, pensa Marsílio, a Igreja deveria estar subordinada ao Estado.
É no século XI que começa o aprimoramento do processo de escolha de papas. Em 1050, o papa Leão IX inicia o processo convocando pessoas ilustradas para auxiliá-lo. Desde estudo nasce a decisão de que o papa sairá das fileiras dos cardeais. Um século depois nasce o Sacro Colégio e já no século XX é incorporado ao Direito Canônico.
O conclave teve origem na sucessão de Clemente IV cuja votação durou três anos. Numa disputa entre italianos e franceses os cardeais encontraram-se num verdadeiro beco sem saída. Até que os cidadãos de Viterbo, local onde os cardeais estavam reunidos, resolveram enclausurar os cardeais, destelhar o local da reunião deixando-os expostos ao relento, dando-lhes para alimentação somente pão e água. Em três dias vieram-lhes a inspiração e foi eleito o papa Teobaldo Visconti, com o nome de Gregório X, um monge, mas não sacerdote. Daí em diante a introdução do conclave – chaveados – forçou a decisão rápida na escolha do sucessor.
Já que o novo papa escolheu como patrono Francisco é bom ouvir o que este dizia na "Preghiera Semplice" (Oração de São Francisco):
http://www.youtube.com/watch?v=nKB8FCmMUh4




sexta-feira, 8 de março de 2013

Outro século e um mundo novo. José Maurício de Carvalho.





O século XXI se apresenta como um tempo onde as guerras entre Estados são raras, mas em que crescem os movimentos terroristas, revoltas étnicas e de forças isoladas de radicais religiosos, políticos e/ou grupos marginais que sobrevivem da droga e sequestros. Embora inimagináveis no cenário político até o século XX, quando os Estados Nacionais eram forças soberanas, estes novos grupos fazem coisas impensáveis até poucas décadas, como foi o ataque da Al Qaeda ao mais poderoso país da terra.  
Outro exemplo deste novo mundo, onde os Estados Nacionais deixaram de ser o monstro preconizado por Thomas Hobbes (Leviatã), monstro sempre capaz de esmagar pequenos grupos, é a invasão do Mali. A República do Mali é país da África Ocidental, tem nove milhões de habitantes espalhados por um território de mais de um milhão e duzentos mil km², superfície duas vezes maior que o Estado de Minas Gerais. Esta República, para os que estudaram nos antigos mapas da África, é o antigo Sudão francês que adotou o este nome depois da independência, em 1960.
Com a independência obtida há pouco mais de cinqüenta anos, a República do Mali nunca passou por período significativo de paz e estabilidade política. Já enfrentou revolta militar em 1968, Guerra contra Burkina Faso, em 1985 e outra revolta militar, em 1991, desta feita com a suspensão da Constituição. Este país de nove milhões de habitantes encontra-se ameaçado por uma força de menos de 6000 homens de quatro grupos diferentes: a conhecida Al Quaeda (serpente de muitas cabeças), os Defensores da fé, o Movimento Jihadista do oeste da África e a Brigada de Sangue. São grupos terroristas, formados por radicais islâmicos reforçados por cerca de mil guerreiros tuaregs, povo nômade (berbere) com cerca de um milhão de pessoas divididas em confederações. As confederações berberes se esparramam pelo território líbio, do Niger e adjacências e tinham relações de amizade com o ex-ditador Muamar Kadafi. Encontram-se sem espaço no novo governo da Líbia e entraram na guerra do Mali. Os grupos de radicais islâmicos, embora tenham origem diversa, convergem na filiação ao terrorismo e no uso da força para impor a Sharia, o terrível código de leis derivado do Corão. Em pouco tempo aterrorizaram a população da parte oriental do Mali, impondo-lhes a lei islâmica, enquanto as frágeis forças militares do país recuaram para a defesa da capital.
Depois de ter metade do território tomado pelos terroristas e o risco de perder o restante, o governo de Bamako (capital do Mali) fez o que parecia inimaginável: solicitou ajuda da antiga Metrópole. Encurralado pela circunstância e com antigos laços com a ex-colonia, o governo francês lançou uma ofensiva contra os terroristas. A França espera vencê-los rapidamente e passar o controle da ex-colonia a uma força internacional formada pela Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental.
A instabilidade na África Ocidental afeta muitos interesses ocidentais inclusive brasileiros, confiantes que estamos na retirada do petróleo do pré-sal. Dificilmente nossa marinha conseguirá enfrentar em alto mar, sem apoio terrestre, piratas e forças terroristas sediadas em algum país da África Ocidental controlado por terroristas.
Esta é mais uma razão para a aproximação entre países lusófonos, cujos interesses em torno da língua comum, costumes parecidos e negócios emerge neste novo mundo de configuração inimaginável há algumas décadas. Apenas para lembrar a Guiné-Bissau (outro país lusófono) está ao lado da confusão no Mali e seus dirigentes assistem preocupados os rumos do conflito.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA DE DROGADOS – A FAMÍLIA TAMBÉM É GENTE. Selvino Antonio Malfatti.





O governador do Estado de São Paulo, José Alkmin, e agora o do Rio de Janeiro, seguidos de outras autoridades decidiram internar compulsoriamente os viciados em crack. Evidentemente a decisão é polêmica, pois envolve aspectos jurídicos e éticos. Do outro lado da moeda, no entanto, existem outras realidades igualmente importantes, tais como a pessoal, familiar e social. Resumiria numa palavra: humana.
Para o cumprimento da lei exigir-se-ia uma solicitação médica de internação e a questão ética envolve o princípio da autonomia. Para atender o primeiro quesito faz-se necessário a criação de Centros de Atendimento Psicossocial – CAPS. Como nem união, nem estado e muito menos municípios possuem suficientes, por isso seria ilegal a internação.
A questão ética diz que é necessário o consentimento do paciente para que determinado procedimento seja feito ou de algum parente, como pais, filhos, esposa, netos etc. Quem são os atores envolvidos na questão das drogas químicas e mais especificamente o crack? Para mim é pessoa, a família e a comunidade. A sociedade indiretamente arca com o peso daquela pessoa viciada. Precisa dar-lhe alimento, vestuário, habitação, saúde. A sociedade só recebe a fatura e paga. Não tem nenhum retorno. Certamente concordaria com a internação compulsória. Acontece que a sociedade não é parente e, portanto, não pode dar o consentimento legal, embora apoie a internação compulsória dos viciados. A sociedade quer curar-se desta ferida que a está levando para a morte. Precisa urgentemente de socorro.


E o usuário de droga dará o consentimento? O viciado em crack não possui mais autonomia da vontade, pois é dependente, e por isso, abúlico. Tornou-se um simulacro de ser humano. É um corpo humano com alma, mas sem vontade e consequentemente sem liberdade. Está oco por dentro. Tem sentimentos, contudo a razão foi dominada pelo instinto. Quer ser recuperado? Até quer, mas não tem forças, vontade suficiente. Por isso está impedido de dar o consentimento.
Na impossibilidade de o sujeito manifestar-se é preciso consultar um familiar. Qual a situação da família com a presença de um viciado em crack? Por causa dele casais brigam, se ofendem, separam-se, odeiam-se. Os filhos se dispersam, os irmãos se desentendem, pais e filhos enfrentam-se. Quem não conhece casos de viciados em crack que roubam e assassinam os pais. Violentam as irmãs, batem nos irmãos, roubam-nos e os matam. São famílias inteiras pedindo socorro para que alguém faça alguma coisa. Pais amarram os filhos para evitar que se droguem. Mães trancam o filho para não deixá-los ir para rua. O desespero chega ao auge quando os filhos têm que dopar o próprio pai para levá-lo ao tratamento.E quando não aguentam mais e tiram-se a própria vida, suicidam-se.
Por isso, o objetivo maior da internação compulsória é a família e elas tem o apoio de todos. Elas também são gente. Os familiares merecem ter uma vida normal. A presença do drogado nelas as está desintegrando e jogando fora vidas inteiras. É muito sofrimento, um calvário que não termina mais e o grito desesperado dos familiares ouve-se de todos os lados: Meu Deus, por que tanto sofrimento?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Desafios para a nação. José Maurício de Carvalho.




O Brasil vem mudando nas últimas décadas, enfrentando antigos e novos desafios. É inevitável que em momentos felizes se tenha a sensação de que as coisas andam melhor e o mesmo ocorre nos períodos de dificuldade, quando se tem a impressão de que andam piores. Foi o que se observou recentemente nas avaliações do país que foi guindado, de uma hora para outra, à condição de cereja do bolo e dois anos depois rebaixado para a condição de cronicamente atrasado.
Deixando de lado avaliações extremas, entre os desafios de médio prazo, isto é, dos próximos quatro anos estão o realizar a Copa da Fifa, em 2014 e as Olimpíadas, em 2016. Isto não significa apenas concluir estádios e ginásios nos prazos pactuados, mas resolver problemas graves de infra-estrutura como: ampliação e modernização de portos, rodovias e aeroportos. Some-se a eles: melhorar os serviços nos hotéis, restaurantes, o mobiliário urbano e controlar a violência.
A lista acima não é inédita, a imprensa destaca ora um, ora outro ponto. Não estão aí os desafios de sempre como: preservar a memória nacional e aspectos significativos da cultura, manter a responsabilidade fiscal e a inflação sobre controle, oferecer educação de qualidade para a juventude e serviços de saúde eficiente, proteger as fronteiras, garantir o cumprimento das leis, combater a corrupção e fazer funcionar a previdência pública, etc. Também estes problemas não são desconhecidos.
O que não é tão conhecido e comentado são problemas de nossas raízes culturais responsáveis por nosso atraso e dificuldades. Se começarmos a enfrentá-los os desafios de sempre e os próximos serão vencidos em menos tempo e maior facilidade.
O primeiro é a necessidade de discutir e incorporar moral social laica e consensual. Moral social laica (não religiosa) e pactuada é distinta da religiosa que é importante para o crente e só para ele. A consensual e laica não desobriga dos compromissos sociais mesmo quando estão fora das convicções pessoais e religiosas.
O segundo é o sentido pessoal da responsabilidade, isto é, enfrentar os problemas e não esperar que alguém o faça por mim.  Não há nação forte sem que todos estejam comprometidos com sua missão, não importa qual seja.
O terceiro é a crônica ineficiência do serviço público e das empresas particulares, ancorada na falta de compromisso com a qualidade e competência. O desleixo alimenta a ética do atalho quando o que importa é descobrir quem é o responsável pelo que, para pedir privilégio no atendimento, enquanto a coletividade permanece na desgraça. Isto consolida o salve-se quem puder e a negligência imperdoável dos governantes com as tragédias anunciadas.
O quarto é o gasto supérfluo e suntuário e não o investimento que aumenta e consolida a riqueza.
O quinto é a enorme diferença entre ricos e pobres, apesar dos esforços louváveis do atual governo para reduzi-la. A sensação de que se paga muito imposto deve-se a que o funcionamento do Estado depende efetivamente de poucos. A maioria contribui pouco e depende muito.
O sexto é a desorganização partidária com arranjos impublicáveis, corrupção, coligações inviáveis e eleitoreiras. Isto dito sem desconhecer a consolidação da democracia e do Estado de Direito nas últimas três décadas.
O sétimo é o nível baixo de escolaridade que alimenta a improdutividade e as diferenças sociais.
O oitavo é a falta de planejamento eficiente e execução adequada o que leva ao improviso e o famoso ir-se safando do vender o almoço para comprar a janta.
A lista não está em ordem de importância, registra desafios. Alguns começam a ser enfrentados, a maioria não. Sem enfrentá-los continuaremos longe de ser o país que todos os brasileiros dizem sonhar. Ele não chegará a ser bom se sonharmos com a vida do suíço e agirmos como o personagem conhecido por “malandro carioca”.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

KISS – O BEIJO DA MORTE. Selvino Antonio Malfatti







Ainda sem abrir os lhos para o mundo sente o ímpeto de viver. Sofreguidão na procura do alimento de quem deu a vida. A partir daí a natureza acumula forças, vigor, vida em abundância. O corpo cresce, torna-se belo e tudo é encantador. Os hormônios fazem o sangue ferver de cupidez. Que bela é a vida. Cheia de energia, alegre, sempre precisar de esperança.
Por que os idosos falam de dor? Ressentem-se de decepções? Choram perdas de quê? De vez em quanto se houve falar que alguém está doente. Mas que mal tem? Falam que outro está desenganado. O que é isso? Comentam que fulano morreu. Que importa? Tudo está tão distante, inatingível. Isso é coisa de velho. O jovem está imune. Ele possui a vida que extravasa e inunda o seu redor.
Ah! Foi o velho doente que mora em outra cidade? O avô, bem, descansou o coitado. Por que o pai? Podiam ter durado mais alguns anos. Meu irmão? O problema é que não se cuidou! De repente se dá conta que ela rondou por perto. Mas aí? Mas aí já é tarde. Precisa urgentemente voltar. Mas “la diritta via era smarita”. Além disso, não há mais volta. O tempo, que parecia inesgotável, agora rola impassível, inexorável para Andrômeda.
Mas o jovem? O jovem não morre. Até vinte anos...a vida é eterna. Por que foi quebrada a lógica? Quem permitiu isso? O jovem? A família? Governo? A culpa? Não adiantam culpados. A vida não volta. A morte, sim, se compraz, diante da vítima. Esta desfalece. Antes da abocanhada final vai perdendo pedaços até deixar somente a metade. O corpo formiga, as pernas tremem e a boca endurece.  Partido ao meio sobrou apenas a metade, o corpo. Mas o pior é a perda da metade da alma. Vai junto com a outra parte. A realidade se torna etérea, evanescente, volátil. Levitam os sentimentos sem onde pousarem. Saltita a memória entre o início e o fim. O pensamento não consegue pensar. Ele se deixa levar pela ruptura da partição. Metade se foi. O que fará a outra metade?
Ao estupor sucede a revolta? Por se tirou metade. Talvez fosse preferível não ter sobrado nada, tirado tudo. Metade ficou para perambular inconsolável. A presença de quem se foi distanciando aos poucos, envolta em contemplação, luto, enlevo e revolta. Raiva e ódio. Por quê? Simplesmente não tem explicação. Aos poucos a resignação. Só resignação, nunca aceitação e menos ainda compreensão. Continuar a viver? Por que não partir junto? Mas encontrar onde a outra metade? Agarra-se a uma consolação: cuidou, rezou e chorou. Pelo menos o corpo recebe uma morada digna. A alma, onde estará ela? Às vezes faz alguma visita, mas muito rápida para deixar algumas gotas de bálsamo para a outra metade que ficou.  E então, com saudade exclama: “alma minha gentil, que te partiste tão cedo desta vida descontente, repousa lá no Céu eternamente” até nos unirmos novamente.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Eunomia. Selvino Antonio Malfatti





A convivência social exige espaços e estes supõem limites. Viver em sociedade significa ter uma gama de opções pessoais, familiares, grupais e sociais, mas em contrapartida há necessidade de limites exatamente para não haver colisão com os espaços de outros indivíduos, famílias e grupos. 
Evidentemente que cada um quer garantir o maior e o melhor espaço para si: jovens, adultos, idosos, ideologias políticas, religiões e associações. Cada indivíduo ou grupo procura justificar as próprias normas, mas qual delas seria a melhor para todos Daí a questão: se nos abstivermos de todas as individualidades, qual seria o maior espaço para todos com o mínimo de limites, isto é, um estado de eunomia?
As normas não só direcionam comportamentos e ações mas, estabelecem regras rígidas, infalíveis e infringíveis. Elas podem ser de ordem religiosa, como o Decálogo, morais, como a fidelidade conjugal, e as jurídicas, como os Códigos. Cada uma delas pretende propiciar ao homem a alcançar, dentro de seu objeto, a perfeição. Quem observaria em tudo e sempre o Decálogo alcançaria a perfeição e seria considerado santo. Quem seguiria as normas morais ditadas pela consciência seria um homem perfeito, um herói. Quem não praticaria nenhum delito jurídico seria um cidadão exemplar.
Contudo, a experiência atesta que normas rígidas em relação ao agir sempre colidem com a realidade. As normas apontam para um comportamento uniforme, imutável seja qual forem as circunstâncias. A norma da exclusividade conjugal, por exemplo, exige que nenhum dos parceiros tenha relações extraconjugais. O bom senso aceita em determinadas circunstâncias violar a norma. É o que é narrado na Bíblia. Uma mulher, Sara, não conseguia ter mais filhos. De comum acordo com o marido, Abraão, e sua mulher combinaram que ele teria relações com outra mulher para gerar um filho. E foram bem sucedidos, porque o concebido, Ismael, se tornaria pai de uma grande descendência, os árabes. Cada circunstância é específica. São Francisco de Assis, por exemplo, surrupiava roupas da loja de seu pai para vestir os necessitados, contrariando frontalmente a norma de não roubar ou furtar.
Normas foram estabelecidas para regerem comportamentos universais. A realidade, porém, não possui uma uniformidade e homogeneidade. Em cada momento toma nova forma, novas razões surgem, necessitando-se rever continuamente a norma. No entanto, parece que a norma mais geral é o da relatividade das normas. Um verdadeiro paradoxo porque o que estabelece como regra geral é justamente aquilo que não deve ter regra geral. Imbuir os princípios religiosos e procurar segui-los, mas não exigir isto dos demais. Ter sempre presente os preceitos morais, contudo não se desesperar se alguma vez ou alguns deles forem descumpridos. A lei é feita para o bem do homem e não o homem para o bem da lei. Logo, o homem está a cima da lei. Entre a lei e o homem, opte-se pelo homem. Isto o próprio Cristo estabeleceu: o sábado foi feito para o homem e não vice-versa.
A norma ética possui um ponto de apoio no próprio homem. Quem a desvelou com maior clareza foi o filósofo alemão Kant. Diz ele: age de tal forma que tua conduta possa se tornar lei universal. Isto significa que se tiver dúvida em relação a alguma ação, se devo ou não devo praticá-la, basta consultar a mim mesmo e me perguntar se todos poderiam agir assim. Caso a resposta seja positiva, então a ação é eticamente correta. Em caso negativo devo abster-me de praticar tal ato. A hierarquia que se pode estabelecer entre as normas é a seguinte: costumes tradicionais não obrigatórios, como lavar as mãos antes das refeições. Costumes morais, obrigatórios para uma determinada sociedade, como dizer a verdade. Normas legais, que constituem a maioria das normas da sociedade. Normas éticas, condutas universais, estabelecidas por consenso na sociedade, como não enganar o próprio semelhante. A maioria das vezes estas normas se interpenetram e se entrecruzam, complementando-se mutuamente.Por isso, a melhor eunomia adviria do consenso da sociedade sobre princípios ético-racionais com validez universal.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

VIDA SIMPLES E ARRISCADA. José Maurício de Carvalho.





Dizer que a vida é simples e arriscada pode parecer contradição. Não parece que seja, embora a vida tenha suas contradições. Somos contraditórios quando comemos demais se desejamos emagrecer, nos esforçamos pouco quando dizemos sonhar com algo difícil de realizar, magoamos as pessoas que amamos, fugimos do que deveríamos buscar, nos encantamos pouco com o mundo quando afirmamos querer uma vida boa. Há uma coisa importante só uma vida meditada pode ser boa, só se conhecemos nossas dores e construímos um significado para nossa vida ela pode ser levada com leveza, só se respeitamos os limites de nosso corpo e de nossa estrutura de pensamento podemos ficar bem. É triste ver hoje em dia tanta gente correndo de um canto a outro sem projetar seu destino, acreditando em fórmulas mágicas de felicidade que repetem sem sucesso. É que a vida só pode ser compartilhada aos pedaços, como realidade inteira só pode ser vivida de modo singular e saboreada como ela é.
Quando dizemos que a vida é simples queremos dizer que ela é o que temos de mais intimamente nosso. Vida entendida como o tecido das nossas escolhas, como o modo como tocamos o dia a dia. Vida é o que fazemos com o que temos, dizia o espanhol Ortega y Gasset. Simples assim. Podemos fazer bem ou não as escolhas que definirão nossa existência. Mergulhados numa situação, numa determinada sociedade, num certo tempo histórico, com um corpo, com experiências só nossas, com amores, dores e dúvidas, temos que escolher o que seremos. No entanto, a vida é também arriscada, como lembra Gilberto Kujawski no seu maravilhoso livro Viver é perigoso (1986) porque nem sempre o que escolhemos nos serve. “Viver é muito perigoso. Não porque a todo momento surjam perigos na vida, mas porque a vida em si mesma é muito perigosa. Não que o perigo se acrescente ao viver, neste é que está o perigo”, diz o citado autor. E é perigosa porque podemos escolher o caminho de nossa destruição, podemos afundar o nariz na lama da existência. E temos alta probabilidade de fazê-lo se não nos respeitarmos, não nos escutarmos, não meditarmos sobre o que somos e queremos ser.
Estatísticas questionáveis dão conta de que a depressão atinge atualmente vinte por cento da população mundial, quase um bilhão e meio de pessoas entre os quais quarenta milhões de brasileiros. O lamentável é que uma grande revista divulgue sem questionar o número e ainda apresente a cetamina, um anestésico usado há poucas décadas como droga ilícita, como esperança de cura e felicidade permanente. Este é o mundo dos sonhos do laboratório responsável pelo remédio e por alguns oportunistas de plantão, uma realidade irreal como os sonhos de quem exagerar um pouquinho na cetamina. Depressão é realidade humana dificílima de enfrentar e entender, complexa ela não se confunde com tristeza ou mesmo com dificuldade de dormir. Depressão é tristeza profunda um estado de desânimo tal que a pessoa sequer tem forças e razão para tomar banho ou se alimentar.  Muitas vezes é acompanhada de ansiedade. Há pessoas deprimidas com certeza que precisam de remédio, mas não só, elas necessitam principalmente de carinho e psicoterapia. Certamente este número não alcança um bilhão e meio de habitantes da terra. Se o diagnóstico fosse verdadeiro melhor admitir que nossa sociedade faliu, pois a população humana nunca esteve assim. Se assim está o mundo hoje, ele precisa de muito mais que cetamina.
Além da falsa promessa de felicidade fácil e injetável, há aí o lamentável equívoco de diagnosticar tristeza e falta de rumo na vida como depressão. É ilusão imaginar que não precisamos nos ocupar de nossas dores íntimas, não precisamos conhecer o que nos consome, que podemos viver sem nos ocupar com o que seremos, sem perceber o rumo de nossa vida tecido pelas escolhas que fazemos.



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