sexta-feira, 17 de dezembro de 2010




NATAL COM. ELE.
4. O “São José” do Presépio
- Vou montar o presépio, disse minha esposa.
Abriu a caixinha onde estava guardado e começou a desencaixotar as peças. Logo em seguida me pergunta:
- Cadê o “São José?
- Deve estar aí, junto com as outras figuras, respondo.
- Não estou achando, insiste. Não dá prá ficar sem ele?
- Não. Todo mundo vai notar. José, Maria e Jesus não podem faltar no presépio.
Mas por que José não pode faltar no presépio?
A Bíblia não cita uma palavra sequer dele. O que se diz é que ele era “pai adotivo” e não que Jesus fosse “filho adotivo”. A idéia que passa é que o filho escolheu o pai para adoção. O que sabemos dele é pouco coisa. Em linhas gerais é o seguinte:
- Descendia de família real. A Bíblia menciona explicitamente este fato.
- Casou-se com Maria aos 30 anos. Esta é uma idade aproximada. Foi calculada com base com outros acontecimentos relacionados.
- Não se separou dela, embora soubesse que estava grávida, não dele. Isto também consta na Bíblia. José no seu íntimo resolveu abandonar Maria, mas em sonho, um anjo lhe pediu para que não o fizesse.
- Cumprir os rituais do judaísmo, como circuncisão de Jesus, levar a família para Jerusalém na Páscoa, purificação da esposa após o parto. Todos estes fatos têm comprovação bíblica.
- Era carpinteiro. Também está comprovado. A carpintaria ficava na própria residência. Ainda hoje se encontra a casa em Nazaré. Assemelha-se a todas as outras. Há o lance térreo e o subsolo. No primeiro ficava a peça onde trabalhava.
- Na comunidade todos o reconheciam como o pai verdadeiro de Jesus. Também há comprovação escrita, na passagem onde o povo perguntava: “não é este o filho do carpinteiro”?
- Salva Jesus de ser morto com outras crianças, fugindo com a família. Logo que Herodes soube do nascimento do menino, relatado pelos reis magos, editou um decreto mandando matar todos os meninos com menos de um ano. José, decide com Maria, fugir com o menino para fora do país.
- Morreu aproximadamente aos 60 anos, pouco antes de Jesus começar a vida pública. Esta é uma idade aproximada. Quando Jesus entra na vida pública, José não é mais mencionado, a começar pelas bodas de Caná.
Apesar de não ser mencionada uma palavra dele, é apresentado como marido exemplar, pai dedicado, trabalhador honesto, homem de fé.
Por tudo isso, o “São José” não pode faltar no presépio.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

NATAL.COM.ELE - Selvino Antonio Malfatti




3. Alegria
Uma das maiores virtudes cristãs é a alegria. Ser alegre é um estado de espírito que se conquista com continuado esforço pessoal. É predispor-se a receber bem uma pessoa, uma notícia ou acontecimento. As Sagradas Escrituras fazem muitas referências a esta virtude. Geralmente vem associada a alguma comemoração. A etimologia desta nos remete à lembrança conjunta, (cum-memorare). O próprio anúncio da encarnação do Salvador foi precedido pelo anjo convidando à alegria: alegra-te, Maria. Sempre que ocorrem boas novas há um convite à comemoração. Quando o Salvador nasceu, os anjos convidam os pastores a alegrarem-se: ...vos trago uma boa nova de grande alegria. Ao iniciar a vida pública, nas bodas de Caná, quando a alegria dos convivas estava esmorecendo, o mestre levanta os ânimos brindando-os com o símbolo da alegria, o vinho.
A alegria não significa ser espalhafatoso, volúvel, dar gargalhadas. A alegria verdadeira pode ser externada fisicamente de várias formas, como sorrisos, abraços, aperto de mão. Contudo é pelos olhos que ela mais se mostra. Por que estes refletem o estado da alma. Pelos olhos se pode ver se somos bem recebidos ou se recebemos bem. Se agrademos de coração ou alguém se mostra reconhecido. Se há perdão interno ou só exterior. Os olhos não mentem, são sinceros. Por isso que há a expressão: olhar nos olhos.
Várias condições materiais acompanham a alegria, como saúde, bem-estar, realização profissional e familiar. O dito popular de que “quando a pobreza entra pela porta a alegria sai pela janela”, evidencia o quanto é necessário preparar-se para ter boa qualidade de vida e ter alegria. Há algumas tristezas que não podemos evitar, e nesse caso somente os heróis conseguem ser alegres na adversidade. Às condições materiais acompanham as espirituais como educação, a preparação profissional e mesmo a religião.
Todos os vícios e defeitos são inimigos da alegria. Mas o maior de todos é o rancor, por que leva direto à tristeza. Evidentemente se não gostamos de alguém não podemos, de uma hora para outra, amá-lo. Mas podemos simplesmente deixar de pensar nele e com isso não guardar raiva.
A alegria no Natal pode ser comemorada de forma simples, mas sem deixar de fazer. Reunir a família e os amigos. Trocar pequenas lembranças, preparar algo para beliscar, servir uma bebida. Se possível uma música ou canção natalina. Não é a ceia que faz a alegria, mas a alegria que faz a ceia. A alegria é a melhor decoração da festa de Natal, por que ela é de coração.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

NATAL.COM.ELE – Selvino Antonio Malfatti

Moisés de Michelangelo
A Utopia de Morus











2.RESPEITO

É normal que o diferente nos cause repulsa. Que um cristão não goste de um judeu, que um judeu não goste de um muçulmano, que um muçulmano não goste de um hindu. Mas, embora seja normal, não significa que tenha que ser assim, ou pior, por causa disso agredir a pessoa diferente ou mesmo querer destruí-la. Foi o que aconteceu com o império romano em relação aos cristãos. Foram caçados como ratos e martirizados. Não foi diversa a atitude dos nazistas em relação aos judeus. Mas o que mais impressiona é que, virado o jogo, o agredido se comporta da mesma forma que o antigo agressor: intolerância total.
No período do ano 30 até 395, da era cristã, os cristãos conviveram com os romanos, na clandestinidade. São, portanto quatro séculos de existência não oficial do cristianismo durante o qual os cristãos foram considerados fora da lei. Não tinham qualquer influência na política, educação, moral, direito e cultura do império romano. Nesse período o cristianismo somente existia na esfera privada e íntima. Se e alguém se atrevesse declarar-se cristão era morto. O império era politeísta, inclusive o próprio imperador era considerado um dos deuses.
O que aconteceu nesses quatrocentos anos? Infelizmente pouca coisa se sabe, pois quando cristianismo assume o poder manda queimar tudo o que pudesse evocar o império romano e a cultura herdada dos gregos. Os templos dedicados aos deuses ou foram destruídos ou dedicados aos santos ou à divindade cristã. As festas pagãs foram substituídas por alguma comemoração cristã. Pouco a pouco eram apagados os registros romanos e gregos e, em seu lugar, colocavam-se registros cristãos. Santo Agostinho no seu livro A Cidade de Deus e a Cidade dos Homens, não tem dó daquela cultura, em que pese ser ele um autêntico greco-romano. Quando o império cai e os cristãos são acusados pelos pagãos de terem facilitado sua queda, Agostinho simplesmente diz que aquilo não tinha importância, pois a grei dos eleitos estava salva.
Foram necessários que transcorressem mais de mil anos, isto é, de 395 a 1453, para se dar conta do que havia sido feito e resgatar o que sobrou daquela cultura. Foi obra do Renascimento. A partir daí nasce uma nova consciência: respeito ao diferente.
Isto não significa que o cristianismo foi um mal e teria sido melhor o politeísmo romano. Não, ao contrário, foi um bem imenso para a humanidade. O problema foi ter-se destruído, soterrado ou queimado a cultura anterior. O próprio cristianismo se deu conta disso e em parte a resgatou. Os renascentistas continuaram cristãos, mas quiseram aproveitar aquilo que de bom emergiu do mundo pagão. O Davi ou Moisés de Miguel Ângelo são heróis cristãos sob a forma pagã. Ele valeu-se da escultura grega para exaltar um valor cristão e assim outros, como Morus, que na Utopia imita a República de Platão. Na literatura, Alighieri e Camões imitavam os literatos gregos e romanos.
O respeito pelo pensar do outro é uma das maiores virtudes cristãs, ensinada e praticada pelo Mestre. Todas as pessoas têm o direito de ter sua religião, ideologia, modo de vida, desde que não queiram impor aos outros, isto é, desde que respeitem o diferente. Ninguém pode ser considerado o único verdadeiro. Evidentemente que faltar com a ética não é ter um pensamento discordante. Neste caso é infringir as normas, legais ou morais. O mesmo mestre que intercedia: “perdoai por que não sabem o que fazem”, munia-se de um chicote e expulsava do templo seus profanadores. E fazia isto para exigir respeito para aqueles que queriam orar.

sábado, 27 de novembro de 2010

NATAL.COM.ELE – Selvino Antonio Malfatti








1. As Virtudes natalinas.
O Natal de 2010 se aproxima. Proponho, conjuntamente com freqüentadores e opinantes, a refletirmos alguns aspectos importantes deste evento para nós cristãos. Agradeço a colaboração e disponho o espaço a quem quiser colaborar.
O Natal nasceu no seio da humildade.
Primeiramente, os pais de Jesus, descendentes de Davi - família real – não se revoltam contra o Edito de recenseamento do Imperador Cezar Augusto o qual os obrigam a ir de Nazaré a Belém. Além da distância, aproximadamente 150 Km, era dezembro, período de frio intenso naquela região e Maria grávida na eminência de parto. Para enfrentar tal sacrifício teriam consciência que era para ser cumprida a profecia de o Salvador nascer em Belém?
Em segundo, como não encontram vaga em hospedaria – em hotel nem falar pois estavam lotados por causa do recenseamento – o único local disponível foi uma gruta não muito distante da cidade de Belém. Nelas, os animais eram colocados à noite, para se abrigarem do frio e os pastores passavam com eles a noite, aproveitando a exalação de seu calor e a fogueira comum. A caverna onde José e Maria estiveram tem aproximadamente uns cem metros quadrados e uma altura suficiente para as pessoas se locomoverem de pé. José e Maria, com certeza, se acomodaram num canto mais retirado, porque necessitavam de privacidade, pois tinha chegado o momento de Maria dar a luz. Ainda hoje lá se encontra o “berço” onde colocaram Jesus, marcado com uma estrela dourada. É uma pedra chata sobre a qual espalharam palhas e estenderam panos. Aqui também não há reclamações contra a vontade divina. Certamente muitos de nós, nestes casos, diríamos: se Tu queres que sejamos os guardas de Teu filho, ao menos nos dê as condições!
Em Belém, no inverno, à noite, em poucas horas a temperatura atinge graus baixíssimos, inclusive pode nevar. Não foi diferente naquela noite de dezembro. O bebê recém-nascido precisou do bafo dos animais para se aquecer. Todos tiritavam de frio. Apenas algumas palavras eram balbuciadas ao ouvido. As pessoas encostavam-se umas às outras para se aquecerem esperando o dia chegar. Naquela noite um silêncio gelado pairava sobre a colina, possível de se ouvir anjos cantando “Gloria in excelsis Deo”.
Lá em baixo a cidade de Belém fervilha de gente vinda de toda parte. As praças encheram-se de música. Pessoas importantes desfilavam pelas ruas ou simplesmente passeavam. Soldados romanos, a cavalo, as patrulhavam. Nas sinagogas vendia-se e comprava-se de tudo. Era um verdadeiro centro comercial. Os sacerdotes não se importavam, alguns incentivavam, porque recebiam também sua porcentagem. Cada viajante queria tirar as despesas da viagem. Parentes distantes se encontravam, abraçavam-se e davam-se presentes. A cidade estava em festa: música, dinheiro, pessoas importantes, roupas finas e quentes, lucro, venda e consumo.
Naquela noite aconteciam dois “natais”. O do estábulo, humilde e devoto e o da cidade orgulhoso e arrogante. A festa da cidade era a comemoração de seu “natal”, o regozijo da soberba. No estábulo, o silêncio da oração, pastores humildemente cantavam com os anjos a chegada do Salvador. Era Natal dos humildes de coração.
Nas comemorações de nosso Natal, às vezes me pergunto: onde está Ele, o homenageado? Tem música, presentes, bebidas e comidas, mas Ele, onde está? Será que não estou no lugar errado? Cadê simplicidade, devoção, oração?

sábado, 20 de novembro de 2010

CARIDADE E FÉ - Selvino Antonio Malfatti




O cristianismo – mormente o catolicismo – ficou obcecado demais com a idéia de culpa e do pecado. Com isso retrancou-se e vive mais na defesa do que no ataque. O pecado tornou-se a preocupação permanente e por isso fez como aquele que recebeu um dinheiro, guardou-o ciosamente, não investiu, para depois entregá-lo integralmente a seu dono, mas sem multiplicá-lo. Este fenômeno de valorização do pecado foi tão impactante que, inclusive o Decálogo, originariamente afirmativo, foi transformado em negativo, isto é, em vez de dar ênfase ao fazer, foi transmudado em não fazer.
Então, um dos componentes da senciência humana, a culpa, passou a ocupar o lugar central no agir do dia a dia. O policiamento deu lugar à caridade.
A orientação central focou-se na ofensa original e conseqüentemente a de uma culpa original, as quais seriam a fonte de todas as ofensas e culpas posteriores. Mas disso nasceu o problema e não a solução. Se a causa de todas as culpas é a primeira ofensa, transmitida à posteridade, mas da qual ninguém é culpado, porque então ser culpado? Insistir nessa idéia levou à esterilização das boas ações que possibilitariam o aperfeiçoamento moral não só dos indivíduos, como de toda sociedade.
O sentimento de ofensa e culpa de origem foram tão incutidos que outros aspectos foram descurados, mormente a caridade. A conseqüência do não fazer foi a proibição e daí resultou um discurso humanitário e uma prática autoritária. Onde se fala em obras de misericórdia? Propiciar alimento (material e espiritual) a quem necessita? E isto é muito abrangente. Quanta vez se presenciou instituições cristãs despedirem sem dó nem piedade funcionários sem darem a mínima satisfação. Isso acontecia, muitas vezes, logo após celebrações religiosas onde se condenava veementemente a prática capitalista. E outras obras como: saciar a sede, alcançar vestimentas, dar abrigo aos sem teto, cuidar dos doentes, visitar os presos, acompanhar os sepultamentos, ninguém mais fala.
E as obras espirituais? Quem se recorda delas? Ainda têm validade? São eficazes para o aperfeiçoamento moral? Ainda é válido dar um bom conselho, ensinar, estender a mão ou abraçar um aflito, perdoar as ofensas, ter paciência com os pecados do próximo, orar pelos outros?
O sentimento de culpa, objeto maior da pregação doutrinária ainda hoje ocupa bom espaço, em que pese a substituição, em alguns caos, da pregação de ódio dos que não têm contra os que têm.
O sentimento de culpa faz parte da natureza humana e não de uma ofensa originária. O homem quer progredir, melhorar, aperfeiçoar-se tanto materialmente como moralmente. Como nunca consegue a perfeição, mas somente pequeno progresso, sente que poderia ter feito mais e melhor. Isto leva ao sentimento de culpa que o acompanha sempre. E como isto é imanente à natureza humana é, portanto, originário. Para amenizar este sentimento, as obras de caridade, decorrentes da fé, devem passar a ocupar o lugar central e não o pecado, a ofensa, a culpa. Disso resulta que a verdadeira fé leva à caridade e esta perdoa, compreende e não agride.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

ROMARIA E FÉ -- Selvino Antonio Malfatti





Em Santa Maria, no centro do Rio Grande do Sul, neste dia 14 de novembro, será realizada a 67ª Romaria Estadual da Medianeira. É um evento que tem por foco central a fé em Nossa Senhora Medianeira. O tema fé destaca-se e é sobre ele que faremos uma reflexão.
O que faz centenas de pessoas deixarem seus lares e viajarem quilômetros e quilômetros para enfrentarem uma procissão, ao sol ou à chuva? O que faz outras “caminharem” de joelhos percorrendo ruas da cidade? O que faz fecharem os olhos, levantarem as mãos e rezarem com toda força de suas almas? A FÉ!
Mas o que é este sentimento exclusivamente humano? O que é a fé? Como nasce ou aparece? O que faz em nós?
Quando se dá conta descobre-se crendo. Há uma fé que se absorve ao natural. Sem que se perceba passa a fazer parte da vida. Ela penetra na alma através do leite materno, do ambiente familiar e social. Esta fé não se adquire, nasce-se com ela. É uma fé sem ruptura, pacífica. As decorrências e conseqüências seguem um fluxo normal dentro do meio que se vive. É uma fé de Santo Tomás, de São Francisco.
A outra se origina do conflito. Há um passado que precisa ser sepultado para poder dar espaço a ela. Esta fé nasce da violência consigo mesmo e com o meio. A partir da opção pela fé passa-se a queimar os antigos deuses e adorar o que se queimou no passado. É uma fé de São Paulo, de Santo Agostinho.
Há então duas direções: uma da fé para a razão e outra da razão para a fé. Geralmente quando se chega à fé pelo segundo caminho, ao da razão para a fé, esta não se a perde jamais. O primeiro caminho, o da fé para a razão, é aquele que mais leva a perda da fé. Pelo segundo, a razão sente-se insatisfeita, inquieta, frustrada pelas respostas da razão às questões existenciais. Pela primeira, a razão se sente quase traída pelas soluções propostas pela fé à razão. A razão que busca a fé dificilmente voltará atrás, mas a fé que busca a razão às vezes retrocede e se torna descrente ou ao menos sente mais dificuldade para conciliar razão e fé.
A fé é a transposição da incerteza do fenômeno para a certeza da verdade. A razão é a dúvida da certeza perante o fenômeno. A fé faz a passagem daquilo que é apenas uma hipótese, uma aparência, um indício para uma certeza. A razão se nega a atravessar o mundo do fenômeno e acatar a certeza. A certeza para a razão nunca existe a não ser a certeza da incerteza. A fé faz a passagem e após ela encontra a razão. A razão não encontra a fé, mas esta encontra a razão. A fé é uma antinomia da razão, mas a razão não o é da fé.
Feita a transposição da razão para a fé, tudo se torna mais fácil. A mente parece iluminar-se e a razão passa a perscrutar com infinita liberdade as magnas questões da ciência. A discussão atual, por exemplo, sobre a origem do universo através do Big Bang foi antevista por Santo Agostinho há quase dois mil anos: a ausência de tempo e espaço antes da criação. Tudo era nada e Deus não fazia nada e não preparava o inferno para os descrentes, como alguns queriam brincar com questões tão sérias. Se a fé precede a razão cronologicamente, a razão, posteriormente, fundamente cientificamente a fé. E enquanto houver fé, haverá esperança de caridade.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

DIA DE FINADOS E A CRENÇA NA VIDA - Selvino Antonio Malfatti




No próximo dia 2 de novembro estaremos celebrando o Dia de Finados. Este dia enovlve três questões fundamentais 1º Os que acreditam numa vida após a morte. 2º Os que acreditam numa vida após a morte e ressurreição dos corpos. 3º Os que não acreditam numa vida após a morte.
Cada religião, ou mesmo cultura, dá ênfase a algum desses aspectos, na lembrança dos falecidos. Desse modo, o Dia de Finados passa a ser uma esperança de vida de alguns e um fim para outros.
No judaísmo a discussão centrava-se sobre a ressurreição. Havia duas correntes: a dos saduceus que não acreditavam na vida futura e a dos fariseus que criam e tinham certeza sobre a ressurreição dos mortos. Ainda hoje, quem contempla a cidade de Jerusalém, pode observar a quantidade de túmulos ao redor dela, cujos mortos aguardam a ressurreição.
O catolicismo, como continuador da fé judaica, optou pela ala dos fariseus seguindo os ensinamentos de seu mestre. No século V, surge a prática de dedicar um dia no ano aos mortos e depois no século X, foi estabelecido oficialmente o Dia de Finados.
O Islamismo não crê na ressurreição dos mortos, mas numa vida futura, sim.
Entre as religiões menores, umas encontram sentido, outras não. O espiritismo, por exemplo, entende que é apenas crendice o Dia de Finados. O corpo é considerado um santuário onde alma morou mas que depois de cumprir sua função é colocado num depósito, o cemitério.
Dentre os pagãos, trazemos o enfoque dado pelos antigos atenienses, um de nossos ancestrais culturais. Nada melhor do que a descrição feita por um adversário de Atenas, o espartano Tucídides. Percebe-se que o destaque não é morte ou a vida após a morte, mas a vida dos cidadãos atenienses
Conforme este autor, os atenienses costumavam celebrar, às custas do erário público, os ritos fúnebres das primeiras vítimas da guerra. Os ossos ficavam expostos em lugar público durante três dias e o povo trazia oferendas para seus parentes. No último dia eram trazidos ataúdes, um para cada tribo. Os ossos eram postos no ataúde de sua tribo. Havia ainda um ataúde vazio destinado aos soldados desaparecidos. A esta cerimônia todos podiam comparecer: cidadãos, estrangeiros e as mulheres das famílias dos defuntos. No mausoléu do subúrbio mais belo da cidade eram enterrados os mortos da guerra. Após o sepultamento, um cidadão, escolhido pelos seus pares, ficava encarregado de discorrer sobre os mortos. Numa dessas celebrações falou Péricles, filho de Xântipos.
Diz ele que o ato supremo de um cidadão consiste achar melhor defender-se e morrer que ceder e salvar-se. Nesse instante, o cidadão joga na ação o que ele tem de mais precioso em si que é sua vida. Em todo o discurso, no entanto, Péricles enfatiza que a vida, por mais belo que seja o dom, sem a honra e liberdade de nada vale. O início de seu elogio principia mostrando que os atenienses receberam aquele império dos antepassados como homens livres e que por isso agora muitos estão dando sua mais preciosa dádiva, a própria vida. Péricles nunca deixa de associar vida e liberdade. Para tanto, conforme ele, esta vida livre, organiza-se politicamente sob um regime democrático, isto é, de igualdade entre os cidadãos Perante a lei todos são iguais e a ascensão aos postos de mando não se dá por pertencer a esta ou àquela classe, mas pelo mérito. Por outro lado, a pobreza não é motivo para alguém não prestar serviços a sua Cidade. Todos os cidadãos participam do governo da cidade como homens públicos, não importando sua condição privada. Vivemos, conforme diz Péricles aos atenienses, em liberdade e igualdade. Além disso, os atenienses procuram melhorar as propriedades para que elas dêem mais conforto e alegria. A riqueza não é usada para alguns se vangloriarem, mas como oportunidade de agir e melhorar. A pobreza não é uma desonra, mas não tentar evitá-la é que desonra o cidadão.
Com certeza, o Discurso Fúnebre de Péricles, narrado pelo historiador Tucídedes é um dos mais belos e eloqüentes testemunhos de fé desta vida, porque para os gregos, a vida após a morte não era nada prazerosa.

Postagens mais vistas