quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Ter, fazer e dirigir e o algoritmo. Selvino Antonio Malfatti

 


É possivel ocultar-se? Ser anônimo? Ter vida privada?

Numa sociedade capitalista, a posição de uma pessoa depende, em grande medida, da sua relação com os meios de produção. Quem possui uma fábrica pode empregar trabalhadores. Quem depende de um salário precisa vender sua força de trabalho. Nessa diferença se funda a oposição entre burguesia e proletariado, central para a análise de Marx. Mas tudo era transparente. Ou se era burgês ou operário. Estava escrito no semblante.

Max Weber ampliou a questão ao distinguir classe, estamento e partido. A classe diz respeito às oportunidades econômicas que uma pessoa tem no mercado. O estamento se relaciona com o prestígio e o reconhecimento social. O partido diz respeito à ação organizada para conquistar influência. Um artista, um escritor ou um especialista pode alcançar renda e prestígio pelo que faz. A riqueza e consideração social podem andar juntas ou seguir caminhos distintos. O que as pessoas mais queriam era ser notórias, disso dependia sua renda.

Na passagem para o século XXI, Zygmunt Bauman chamou de líquida uma modernidade em que os vínculos e as formas de organização da vida perdem estabilidade. A imagem da liquidez ajuda a compreender o ambiente digital. Uma liderança surge depressa, um assunto domina a conversa por alguns dias e uma aliança se desfaz quando deixa de ser conveniente. Os partidos também vivem nesse ambiente. Podem mudar de linguagem conforme o público, aproximar-se de grupos diferentes e ajustar sua atuação ao que ganha repercussão. É a partir dessa ideia de Bauman qual o poder dos partidos na sociedade digital? Podiam ter todo poder, dominar a sociedade pela visibilidade até mesmo individual. A privacidade deixou de existir.

Como um partido pode influir na sociedade por esses meios? Pode começar pela escolha de seu candidato e do assunto a se vai falar. Um vídeo curto, um anúncio dirigido a determinado público ou uma mensagem encaminhada por alguém de confiança pode levar uma questão do partido para as conversas de família, de trabalho e de vizinhança. Com o algoritmo as reações do público ajudam o partido a decidir que mensagem repetir, que palavras empregar e a quem se dirigir. Os sistemas de recomendação das plataformas também influem no alcance dessas mensagens. Assim, um partido sabendo das preferências do público pode ganhar mais poder ao fazer com que certos problemas ocupem a atenção pública enquanto outros os adversários perdem espaço.

Quando um partido se torna hegemônico, essa presença digital pode reforçar relações de dependência já existentes. Um grupo de mensagens do bairro pode começar divulgando reuniões e ouvindo reivindicações. Se os pedidos passam sempre pelo mesmo intermediário, e se a resposta depende da proximidade com ele, os moradores podem acabar vendo o partido como a porta de entrada para serviços e oportunidades. Aos dirigentes interessam os cargos e o prestígio. Aos intermediários interessa conservar sua posição entre a população e o governo. Aos apoiadores interessa manter abertas as portas pelas quais suas demandas encontram resposta. Essa cooptação sustenta o conjunto enquanto cada grupo encontra alguma vantagem em permanecer nele.

O partido pode então assumir a feição de mãe para os seus e de juiz para os adversários. A imagem descreve uma prática possível. A falha de um aliado é tratada com indulgência, enquanto a de um adversário recebe ampla divulgação e perseguição. Dentro do próprio partido, continuam as disputas por cargos, prestígio e influência. A disciplina se mantém enquanto a adesão abre portas e a divergência pode fechá-las. O meio digital dá publicidade a essas recompensas e punições. Uma liderança pode ser promovida pelos canais do partido ou perder, de um dia para outro, o espaço pelo qual chegava aos seus apoiadores. O cúmulo da dominação de um partido ocorre quando se une a um poder, o mais temido é o judiciário, pelas consequências nefastas sobre isso cidadãos. 

A posição de cada pessoa na sociedade continua a depender, em parte, do que tem e do que faz, mas mudou tudo quanto o dirigir. O mundo digital acrescenta alterações sobre o mandar. Quem tem condições de fazer sua palavra circular, de obter resposta a uma reivindicação e de ser ouvido quando discorda? Quando essas possibilidades passam habitualmente pelos canais de um mesmo partido, sua influência já alcança a vida cotidiana. Ela se revela tanto nos assuntos que a sociedade discute quanto  nas pessoas pedem. O algoritmo está espiando tudo. Adeus vida privada. "1984" é para os fracos.

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