sexta-feira, 4 de março de 2022

BIDEN X BOLSONARO Selvino Antionio Malfatti.

 



 

Dois líderes políticos iniciaram praticamente juntos seus mandatos presidenciais: o norte-americano Joe Biden - LIBERAL SOCIAL e o brasileiro Jair Bolsonaro - LIBERAL CONSERVADOR. Este, do maior país da América do Sul e aquele, do maior país da América do Norte.  O primeiro iniciou seu mandato em 20 de janeiro de 2021, enquanto que o segundo em 1º de janeiro de 2019.

O primeiro alinhando-se à ideologia política Liberal social e o segundo liberal conservador. Parece proveitoso estabelecer um paralelo, pois os da esquerda do Brasil criticam ferozmente Jair Bolsonaro, mas complacente com Biden, enquanto os da esquerda americana não estão nada contentes com seu presidente, mas tecem elogios ao brasileiro. Na disputa eleitoral Biden derrotou um conservador, o republicano, Trump e Bolsonaro um socialista, o petista Haddad.

Biden conseguiu a maioria dos votos em 2021 em relação a Trump, enquanto Bolsonaro ultrapassou em votos seu rival Haddad. Temos uma vitória invertida dos candidatos: um vence um conservador e outro um socialista.

No livro “A aposta de Biden", Massimo Gabbi, constata que o Protetorado do Mundo exercido pelos Estados Unidos não existe mais. Seria aquela liderança que determinados países exerceram em determinadas épocas. Poderíamos citar: os egípcios e assírios, no período pré-helênico. Atenienses e macedônios, pré-romanos. Romanos pré-cristianismo. Império cristão e papado, na idade média. Claro que existiam lideranças políticas nacionais que não acatavam, como os cartagineses no império romano, Tebas e Corinto no período helênico.

Estes países ou sociedades políticas se destacaram como líderes globais entre seus pares. Estenderam suas influências em todas as dimensões da existência humana da época: militar, política e cultural. O declínio destas lideranças geralmente começou a ser minado de dentro para fora, ou pelas lutas internas.

Os americanos exercem esta liderança desde a II guerra mundial. Os vencedores da guerra a almejavam. Os perdedores acatavam-na tacitamente. Mas atualmente o declínio está patente. E a contestação avoluma-se sempre mais. É o que está acontecendo com o Protetorado Americano. Do oriente ao ocidente, de norte a sul do planeta, de nações de Primeiro mundo ao de Terceiro.

Atualmente os americanos de Biden enfrentam duas crises internas: o sistema ideológico bipartidário, pelo qual na prática somente dois partidos chegavam ao poder, com ampla maioria de votos (democratas e republicanos); e a crise econômico-administrativa: classe média se empobrecendo, infraestrutura anacrônica como saúde e defesa.

O presidente americano Biden ainda está convencido que pode retomar a liderança, agora sob outra orientação político-ideológica. Pensa que as políticas neoliberais conservadoras podem ser substituídas por outras de cunho mais social, liberal social, como o relançamento industrial, reabilitação ambiental, proteção social, e uma revalorização da classe média...É uma guinada ideológica, mas sem mexer com os dogmas!

Claro que não inicia na estaca zero. Já na época de Trump este volver à esquerda, para o social, teve início com o pacote de 1.900 milhões de dólares para fazer frente os efeitos da Covid na economia, além de uma política de apoio às famílias. O grande problema, porém, está no setor político interno. É o que ser costuma de denominar de “crise da democracia americana”. Todos estão recordados do impasse da última eleição. O candidato oposicionista Trump não aceitava a derrota, pediu recontagem de votos, acusou os adversários de roubo, desrespeito às regras eleitorais entre outras.

A proposta está na mesa: reformar a democracia americana sob a orientação social. Evidentemente que o diapasão seja o liberalismo, mas até então, ninguém nos Estados Unidos se atreveu: à esquerda volver.

No Brasil, Bolsonaro se apresenta como um liberal conservador, mas nem por isso deixa de enxergar o social. Perdoou a dívida dos estudantes com o Fies e as dívidas das Igrejas, implantou uma renda mínima durante o período da pandemia, substituiu Bolsa Família por Auxílio Brasil, e na esfera internacional comprometeu-se com a defesa do meio ambiente. São alguns exemplos de ingerência de um conservador no social.

Continuará esta convergência de ambos para o social? Ou assumirão suas identidades ideológicas: Biden priorizando o social e Bolsonaro o mercado?

 

 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Lições de morte. José Mauricio de Carvalho

 



 

Dois acontecimentos violentos na cidade do Rio de Janeiro ocuparam os noticiários da semana. O primeiro foi a morte do congolês Moïse Kabagambe, um jovem de 24 anos, assassinado com 39 golpes com taco de golfe pelo proprietário de um quiosque na Barra da Tijuca, um policial militar. Para cometer esse ato bárbaro teve ajuda de outros funcionários do quiosque. Como explicar que se possa desferir quase quarenta golpes com um taco de golfe em alguém imobilizado. E o motivo da agressão? Pelo que foi apurado o jovem foi cobrar pagamento por serviços prestados ao quiosque e esse foi o motivo da agressão. O fato revoltante provoca naturalmente a tentativa de entender as razões do brutal espancamento e ir buscá-las num racismo estrutural, ou no passado de escravidão e exclusão dos negros em nosso país. Outros motivos também podem ser evocados para ajudar a entender os fatos e não quero contestá-los. Ficam aí para estudo de sociólogos e jornalistas que avaliam a violência urbana.

O outro fato foi a morte de outro negro, Durval Teófilo Filho em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro por Aurélio Alves Bezerra, sargento da Marinha e seu vizinho. O que levou o militar a atirar três vezes contra um homem desarmado na porta do condomínio onde moravam? Ao que foi apurado o medo do militar de estar diante de um bandido. O que leva um militar da marinha, cuja vida pessoal mostra ser um cidadão relativamente pacato a cometer um assassinato brutal como esse? Que motivos podem ser evocados para ajudar a entender os fatos, o mesmo racismo estrutural e o passado de escravidão. Não quero contestá-los, ficam para exame de sociólogos e outros profissionais que estudam a violência urbana.

Independente de outras razões que possam ser elencadas e levantadas há duas que não podem ser desconsideradas. A primeira é a incapacidade do Estado de lidar e controlar a situação social no Rio de Janeiro. Esse controle foi perdido há algumas décadas e não foi mais recuperado. Sabemos que, onde o Estado não tem o controle social, como ocorre nos grandes desastres naturais ou guerras e onde cada cidadão tenta resolver suas dificuldades ou defender-se por conta própria o resultado é catastrófico. Isso já vem acontecendo no Rio de janeiro há algum tempo, entregue a quadrilhas de traficantes de drogas e milicianos que disputam a bala o controle da cidade diante do vazio de poder.

A outra razão é mais recente. Ela se alimenta do nacionalismo antidemocrático de extrema direita que está ganhando força nos últimos anos, em alguns países, quando o fim da guerra fria acirrou os conflitos regionais e a migração em grande escala. Essa nova direita é formada por grupos violentos, inimigos da democracia, do estado de direito, da liberdade pessoal e da ordem constitucional. Onde surgiram esses grupos assumiram uma ideologia nacionalista, violenta, xenófoba, racista e radical. Quem não pensa e age como eles é vagabundo e marginal (comunista). Algumas vezes essas ideologias se misturam ao fanatismo e ignorância religiosa e, nesses casos, o resultado é ainda pior como na recente união entre a extrema direita e evangélicos nos Estados Unidos. Fascistas e nazistas reapareceram em diferentes países depois de um século quando a humanidade esqueceu os desastres que o extremismo de direita provocou há poucas décadas. E há entre eles alguns que negam o holocausto e os assassinatos brutais e atrocidades que cometeram, negando tudo que foi devidamente filmado, fotografado e documentado. Especializaram em negar obvio, o fato documento e espalhar fakes news.

As guerras e atrocidades cometidas pelo fanatismo religioso são mais antigas mas igualmente terríveis. Totalitários de esquerda não são melhores que os de direita, mas a ênfase nos nazifascistas se deve ao momento. São eles que estão em voga enxergando comunismo onde comunismo não existe porque no século passado surgiram e foram financiados pelo grande capital para combater o comunismo. Precisam, hoje, enxergar o inimigo, mesmo quando e onde ele não existe para justificar o injustificável.

São essas duas últimas razões que unem e explicam o que está se passando no país: a perda de controle do Estado e a emergência da extrema direita. Há quem se julgue no direito de resolver por conta própria os assuntos da vida social e agir de forma violenta pela ausência de forças de segurança que atuassem conforme a lei e no estrito cumprimento da ordem.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

FLORENÇA – UMA SÍNDROME DE STENDHAL. Selvino Antonio Malfatti

 



Florença, cidade toscana da Itália, mereceu um livro de Pierre Antonetti, professor de literatura de Marselha, com o título de “A vida cotidiana de Florença no Tempo de Lorenzo, o Magnífico”, da série a HISTÓRIA VISTA DE BAIXO, por Pier Luigi Vercesi. Ele descreve Florença como um território muito pequeno, que repentinamente eclodiu numa floração fantástica. A cidade era constituída por uma comunidade muito minga, 40 mil habitantes, com o agravante de no século XV recém tinha se recuperado da Peste que a assolava desde 1348, conforme o Decameron de Boccaccio.

Ainda hoje qualquer analista se surpreende e fica estupefato ao deparar repentinamente com Florença. Há arte em toda parte: nas ruas, nos prédios, nas igrejas sem falar nos museus. Não se sabe por onde começar, onde olhar primeiro, ou dar maior atenção ou deter-se. Tudo é magnífico como seu líder Lourenço de Medici. E a pergunta inevitável: mas como surgiram num só lugar e ao mesmo tempo tantos gênios artistas e pensadores? Às margens do Arno toda cidade é uma obra de arte. Só para citar alguns: Dante, Giotto, Leonardo da Vinci, Maquiavel, Michelangelo. E também devemos mencionar Masaccio, Beato Angelico, Botticelli, Ghiberti, Donatello, Verrocchio, Benvenuto Cellini, Leon Battista Alberti, Marsilio Ficino e muitos outros. Todo este ambiente cultural costuma-se denomina-lo de Renascimento italiano.

Florença, uma cidade republicana, mais precisamente um Principado, governada pela família Médici, apoiada por uma oligarquia constituída de bancos, comércio e indústria. Lourenço de Medici, o Magnífico, um homem de letras, empolgou a elite local, nacional e até internacional em torno da arte, literatura, filosofia e Política.

Incentivada por  Lourenço a cidade sofreu uma remodelação completa, as casas de madeira deram lugar as de pedra e tijolos, as moradias familiares substituíram os palácios. O exemplo dos Medici foi seguido pelas famílias Spinelli, Pitti, Strozzi, e Rucellai, entre outras.

As condições econômicas da maioria da população parecem não ter influído no projeto artístico de Florença. Este seguia inexorável seu objetivo: encantar a cidade. Havia populações de “miseráveis”, pobres e modestos. O foco de Lourenço não era solucionar a pobreza, mas ornamentar com arte a cidade. Com certeza passava ou não pela sua cabeça: “pobres sempre tereis entre vós”. Beleza não cai do céu, se não for conquistada, de per si não virá.

Se não foram as estruturas econômicas que explicam o boom artístico, certamente o ambiente cultural pode explicar. Os Mecenas, entre eles Lourenço, serviam de intermediários entre os artistas e a produção das obras.  Houve um líder que sublimou e canalizou o conteúdo que aflorava espontaneamente. Foram criadas as condições propícias para germinar o que era apenas um potencial. Miguelangelo, por exemplo, recebeu de Lourenço um atelier. O fenômeno pode ser explicado “ex a se” e não “ab alio”. Estava dentro da cidade e não fora.  

Todo este esforço e movimento cultural de Florença se denominou de Renascimento. Costuma-se dividi-lo em três fases que vai do século XIV ao séculoXVI: Trecento, Quattrocento e Cinquecento.

1.    O Renascimento do “Trecento” italiano se manifesta particularmente em Florença. Esta - tal uma Atenas - ergue-se como um centro político, cultural e econômico regional. Nesta fase despontam os gênios artísticos e intelectuais Giotto, Boccaccio e Petrarca.

2.    No segundo período, o “Quattrocento”,  o Renascimento dissemina-se por toda península. É o auge do Renascimento na Itália. Pontificam Botticell, Da Vinci, Rafael, e como coroamento, Michelangelo.

3.    No terceiro período, o “Cinquecento”, o Renascimento conquista a Europa, desdobrando-se em outras dimensões culturais como estéticas, filosóficas e políticas. Um delas é o maneirismo artístico, a Contrarreforma religiosa e o Barroco da Igreja Católica. Destacaram-se na literatura Ariosto e Torquato de Tasso. Na política culmina com Nicolau Maquiavel.

O historiador francês Yves Renouard (1908-1965)  assim se expressa:

“O gênio germinou em Florença nos séculos XIV e XV mais do que em qualquer outra cidade do mundo. Certamente Atenas no século V de Péricles e no século IV reunira um número incrível de homens de gênio. Mas nunca tantos gênios surgiram em poucas décadas como em Florença...”

Por isso, podia concluir: O Espírito respira onde quer.

 

 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

O que você precisa conhecer para estar à altura do seu tempo. José Mauricio de Carvalho

 


Talvez pudéssemos escolher um título mais ao gosto de quem faz sucesso nas redes sociais. Prefiro a elegância. Além da clareza que o mestre Ortega y Gasset conclamava, creio que quem se envolve com a Filosofia deve escrever com distinção, com elegância e tratar com respeito os interlocutores.

Do que queremos tratar neste pequeno texto? De algumas coisas que uma pessoa civilizada não pode deixar de considerar para ser cidadão e viver atualmente. Houve tempos em que o homem acreditou que a terra fosse plana, que o sol fosse Deus, que a terra era fixa no céu ou que o faraó ou um imperador fosse um Deus. São coisas que ficaram para traz, fizeram sentido no passado, mas hoje não são aceitas. Foram superadas pelo desenvolvimento da cultura. Dado ao andar dos tempos fiz uma lista de como algumas questões devem ser tratadas em nossos dias.

1.Quando começou a observar a natureza mais sistematicamente, nos primórdios da civilização, o homem se encantava com tudo o que descobria no mundo e ficava maravilhado com suas descobertas. Esse maravilhamento diante do novo deu origem à Filosofia e até hoje é usado como uma das explicações de sua origem. No entanto, com o passar dos anos o encantamento passou a se referir à capacidade de não se deixar limitar pelo conhecimento fenomênico (observado no funcionamento do mundo). Aquele encantamento original foi perdendo força porque as ciências, especialmente a partir da Idade Moderna, passaram a explicar o funcionamento do mundo e esse deixou de ser um mistério. Os filósofos deixaram à ciência a tarefa de explicar o funcionamento do mundo e cuidaram de mostrar porque ela é confiável. A partir da modernidade não se faz filosofia à parte da ciência, ou contra ela.

2. A Filosofia passou, então, a se dedicar a questões sobre a finalidade do que existe examinando as condições de abertura à transcendência. Ao fundamento do conhecimento porque o mundo não se resolve a si mesmo. O homem conhece o mundo com a ciência, mas depois precisa abrir-se para outras questões mais amplas que demandam uma fundamentação racional e onde a ciência e seus métodos não alcançam.

3. A Filosofia mostra a raiz axiológica da cultura, apresenta os fundamentos da ética e vai aos limites do conhecimento. Sendo imprescindível exige de quem a prática o diálogo generoso, a abertura ao argumento alheio já que a verdade fundamental somente se mostra parcialmente. Não há justificativa para a arrogância, mas no espaço da razão permanece o que parece mais razoável àquela geração e propicia a independência íntima frente à verdade.

4. A abertura ao sagrado, observado em todas as civilizações, deu origem a várias religiões. Não se justifica a imposição de uma a outras ou a briga entre elas. Cada homem pode escolher a sua. Mas nesse caso, a experiência de Deus não justifica ações contrárias à ciência e a razão. Muitos erros terríveis foram cometidos ao longo dos tempos devido ao fanatismo religioso, pois o encontro como Deus não mostra nada antirracional e anticientífico. Porém a experiência de Deus é fugaz. As considerações sobre Ele ilustram os limites do filosofar, não há segurança além da razão, a razão confere segurança à verdade e valoriza o esforço individual.

5. A Filosofia se pratica pela apreensão da realidade, pelas discussões sobre o Ser, sobre o papel luminoso do amor, o significado e limites da razão e a procura da paz. Não se idolatra ninguém, não há mestre que exclua seus pares, mas filosofar é participar de um grande diálogo universal.

6.  A compreensão do presente somente se esclarece quando se recuperam os fatos da história. O conhecimento da história vivifica os dias que vivemos. Nenhuma informação é tão necessária para sabermos o que somos e o desenvolvimento da cultura do que o conhecimento histórico. Por isso, ele não pode ser negligenciado.

7. O homem é objeto de várias ciências, mas mantém uma dimensão a ser examinada pela Filosofia. Ele tem contradições, imperfeições, incompletude e liberdade que escapam a análise exata das ciências. A consciência se mostra na dualidade sujeito-objeto.

8. A liberal democracia no Estado de Direito é o sistema político melhor sucedido na história na condução dos Estados Nacionais modernos, não é perfeito, mas consegue corrigir seus erros. A democracia liberal resiste ao ataque de totalitários e fanáticos.  Reúne a liberdade do indivíduo e o respeito à leis nacionais e estabelece limites do convívio social.



10. A democracia é um regime político, não é para ser usado em todas as dimensões da vida porque em ciência a palavra está com cientistas, em filosofia quem consegue formular as melhores respostas aos grandes problemas existenciais, em religião às suas autoridades legitimamente constituídas pelas instituições. Sociedades doentiamente democráticas se tornam massa amorfa e empobrecida que tiram de cada homem a oportunidade de desenvolver a própria singularidade e viver um sentido próprio na vida.

 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

HANS KÜNG – UMA ESPIRITUALIDADE SEM DOGMA. Selvino Antonio Malfatti

 



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O filósofo e teólogo H. Küng nasceu em 19 de março de 1928, na Sursee, na Suiça, no cantão de Lucena. Em 1954 é nomeado sacerdote em Roma e já em 1960, com 32 anos, torna-se titular da cadeira de teologia da Universidade Católica de Tübingen, na Alemanha, e em seguida funda o Instituto de Pesquisas Ecumênicas. Participou em 1962 e 1965 do Concílio Vaticano II, destacando-se por propostas inovadoras. Por ter criticado o dogma da Infalibilidade papal em 1979 foi revocada a autorização de ensinar Teologia. Em 2013 aposenta-se por motivo de saúde. Sofria do mal de Parkinson. Falece em 6 de abril de 2021, com 93 anos, em Tübingen.

Hans Küng, denominado teólogo da liberdade, publicou um livro, digamos popular, intitulado: “Christ sein” (“Ser cristão”, Ed. Vozes, 1979). Diz ele que escreveu este livro:

“Para os que creem, mas se sentem inseguros”, para aqueles que costumavam crer “mas não estão satisfeitos com a sua descrença” e para aqueles que estão fora da Igreja e não estão dispostos a abordar “as questões fundamentais da existência humana com meros sentimentos, preconceitos pessoais e explicações aparentemente plausíveis”.

Hans Küng confessa que nunca escreveu nem disse algo que não acreditasse. Com certeza anuncia uma qualidade característica sua: sinceridade. Esta sinceridade custou-lhe cargos (perdeu a cátedra de professor de teologia), desaprovação pública da Igreja a seus pensamentos filosófico-teológicos (rejeição ou condenação de suas doutrinas religiosas), perdeu o posto de teólogo oficial da Igreja.

Qual o âmago de sua doutrina? A combinação da espiritualidade e liberdade.

Para ele a espiritualidade é algo inerente ao ser humano, é sua ontologia. Chama-se tradicionalmente de espírito ou alma. É nisso que consiste a liberdade, a energia de agir, como ser desprendido da escravidão da matéria, livre de agir deterministicamente. A capacidade de agir livremente, livre de estímulos, é a própria essência da espiritualidade.

Por isso, ao associar a teologia à espiritualidade dá prioridade também à liberdade. Na teologia tradicional a liberdade está submissa ao espírito. Este é a faculdade superior, o diretor da liberdade. Para Küng, o próprio espírito é a liberdade. Não é sua superiora, mas sua essência, o próprio ser. Por isso podia dizer que uma coisa era a religião oficial, a manifesta, e outra é aquela que está no coração de cada um, a latente.

Com isso, Küng abre a porta para crença pessoal que pode ser diferente da oficial. E nisso está batendo de frente com a teologia oficial da Igreja que quer a submissão do individual ao oficial. Defende, por isso, uma fé natural, inerente em cada um. Como consequência, a fé da Igreja oficial vem em segundo lugar, precedida da religiosidade natural individual.

Costuma-se, e com razão, destacar na obra de Küng quatro características: teoria, sistematicidade, clareza e honestidade. 1. Teoria – sua obra cobre não só aspectos do pensamento, mas iguala-se aos grandes pensadores universais como Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás. Como exemplo podemos citar : a Encarnação de Deus. 2. Sistematização – sua produção intelectual inclui organização didática, hierarquia de conteúdos e conclusões sintéticas e abrangentes. 3. Clareza – Foge do estilo grandiloquente, hermético e pedante. Prefere o face a face com o leitor como ensaísta. 4. Honestidade – um pensador no qual “dolus non est” conforme a definição de Karl Barth.

 

 

 


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O fundo judaico-cristão do mundo ocidental. José Mauricio de Carvalho

 




Quando terminou a Segunda Grande Guerra os países ocidentais reunidos na ONU decidiram recriar o Estado de Israel. Era o que parecia mais necessário considerada a perseguição histórica aos judeus radicalizada pelos nazistas que assassinaram seis milhões de pessoas. Essa perseguição aconteceu especialmente depois de 70 d.C., quando acontece a segunda grande deportação dos judeus de sua terra. A criação de um Estado político, concretizada em 14 de maio de 1948, era diferente da missão espiritual dos judeus concebida pelos místicos judeus de consistirem o povo numa espécie de sal da terra. Se a proposta se concretizou no fim da Segunda Guerra começou a ser debatida antes.

Parece que a proposta anterior mais consistente sobre um Estado judeu foi concebida por Theodor Herzl, ainda no século XIX. Ele publicou, em 1896, a obra O Estado Judeu, livro que teve grande aceitação entre os judeus europeus, especialmente entre os que viviam no Oriente e que habitavam a Europa Ocidental. É evidente que a criação política de um Estado era um projeto que precisava manter aberto o diálogo com outras crenças religiosas, pois o Estado político não seria formado apenas pelos judeus ortodoxos, embora a maioria praticasse o judaísmo, o que os identificou enquanto não tinham um Estado. Herzl avaliou que o único modo de os judeus viverem em paz e a melhor forma de combater o antissemitismo era a criação de um Estado, onde pudessem se reunir os judeus de todo o mundo, mesmo os que tivessem aderido a outras crenças. No entanto, se a tese de Herzl se limitava à uma articulação geopolítica restrita à criação de um Estado territorialmente localizado e burocraticamente administrado, era preciso pensar na consistência dessa proposta. Neste livro, Herzl defendeu um território habitado por judeus e palestinos vivendo em paz no mesmo território. Essa posição, que limitava o problema judaico à construção de um Estado Político, era limitada e sofreu críticas como a de Martin Buber que via no compromisso moral de fraternidade a unidade espiritual necessária para o novo Estado. Disso precisariam participar todos os habitantes do novo Estado.  

Embora haja nesse ponto muito a examinar e comentar sobre as teses que precederam a criação do Estado de Israel, vou dirigir meu olhar mais especificamente para a aproximação entre a crença judaica e a cristã que os estudiosos da cultura reconhecem estar na base do ocidente e a que Buber deu especial atenção. Sabemos que a tradição judaico-cristã do ocidente e toda a moralidade ocidental deita raízes na ideia de pessoa humana e inspira a criação de sociedades mais justas, com base nos mandamentos de Moisés e no ideal de amor ao próximo de Jesus.  Buber não discorda dos moralistas que viam na moral cristã a base da ética ocidental, mas enfatizou que a Bíblia judaica oferece as bases para um humanismo tão rigoroso quanto o cristão e que o humanismo judeu é na essência semelhante ao cristão. Todo seu esforço em L´hebraisme et l´humanité é mostrar que em essência os textos do Primeiro e do Segundo Testamento são conformes e apontam para uma sociedade mais justa e fraterna, o que nada tem de comunista. Nisso Buber repete Hermann Cohen, outro notável filósofo judeu. Ele diz (1962, p. 44):Quem abre a grande Bíblia da antiguidade hebraica, verá nos livros de história as longas andanças de Javé; nos livros dos profetas o convite a superar a injustiça, as contínuas súplicas a Deus para obter a purificação; no livro de Jó, o convite a reconhecer a necessidade das contradições interiores, que a vontade não pode vencer, e aqueles que lutam contra si próprio não podem escapar, contradições das quais nos arrebata somente a redenção; e em toda parte se encontrará o sentimento, e a experiência dessa divisão e em toda parte o esforço para a unidade.”

O pano de fundo do reconhecimento de uma unidade humanista era mostrar que não apenas não havia sentido em considerar o judaísmo estranho ao cristianismo, como lhe parecia necessário que judeus e cristãos convivessem no novo Estado emergente. Deviam se respeitar e juntos construir o reino de paz anunciado pelos Profetas.

O filósofo investigou, detalhada e cuidadosamente, no que consiste a experiência de Deus feita pelo povo judeu no livro Santo, especialmente no Êxodo. E a centrou no diálogo face a face com YAHWEH feito por Moisés.

Porém avalio que as página mais lindas de Buber consistem no seu reconhecimento de que poucos judeus (creio que nenhum outro) viveram uma experiência tão íntima com Deus como Jesus de Nazaré. Independente de considerá-lo (Profeta ou Filho de Deus), Buber mostrou que foi essa experiência essencialmente judaica de Deus, vivida em íntima profundidade com o Grande Tu, que levou Jesus de Nazaré a chamaR YAHWEH de Pai. Foi pelo encontro direto com YAHWEH, que Jesus enfrentou religiosos ortodoxos e fariseus radicais que limitavam a fé judaica ao cumprimento de regras, realização de cultos regulamentados e outros procedimentos exteriores, perdendo o que havia de essencial nas páginas do Livro Santo: o amor entre os homens e a Deus. O espírito judaico mais elaborado, não importa se reconheça ou não a divindade de Jesus, o considera um homem de profunda espiritualidade pela atualização e divulgação da mensagem profética.

Isso fica dessas considerações de Buber, o convívio respeitoso entre a fé judaica e a fé cristã, pois como ele reconheceu, ela consiste no dizer diretamente ao coração de YAHWEH o que está no coração de cada um de nós quando busca o perdão das faltas, a proteção nessa vida e a salvação eterna.


 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

O DELATOR DO ESCONDERIJO DE ANNE FRANK. Selvino Antonio Malfatti.

 


Após 77 anos parece que foi descoberto o delator que revelou o esconderijo de Anne Franck e família. É o que revela a pesquisa do livro de Rosemary Sullivan “Quem traiu Anne Frank” (HarperCollins). 

Na busca do informante montou-se uma equipe poderosa que foi atrás do autor da delação.

“Os líderes dessa equipe - composta por Thijs Bayens, cineasta holandês; Pieter van Twisk, historiador e jornalista; e Vince Pankoke, ex-agente do FBI - com a ajuda de dezenas de pesquisadores, arquivistas, analistas forenses, historiadores, criminologistas e técnicos”. , revela Sullivan.

Utilizaram técnicas modernas como algoritmos de computador, estabelecendo conexões entre pessoas aparentemente não relacionadas, trabalharam por seis anos para desarquivarem um “caso arquivado”. A descoberta revelou nada mais e nada menos que foi um próprio judeu que traiu os Franck.

A pista surgiu quando perceberam que os membros do Conselho Judaico de Amsterdã foram levados para os campos de concentração, menos um membro. Trata-se do judeu Van den Bergh, que morava tranquilamente em Amsterdã.

Com decretada a dissolução do Concelho Judaico, seus membros perderam todas as proteções de que gozavam. Para alguém escapar tinha que ter em seu poder algo muito valioso para barganhar e convencer os nazistas a não enviá-lo para os campos de concentração. Foi o caso de van den Bergh.  O objeto da permuta foi o esconderijo dos Franck. Um deles, Otto Franck, recebeu inclusive um bilhete anônimo revelando o delator. 

Narra Sullivan:

“Em 4 de agosto de 1944, por volta das 10h30, um carro da polícia alemã parou em Amsterdã em frente ao prédio da Prinsengracht 263, sede da empresa Opekta Pectacon. Naquela casa, em um apartamento no último andar dos fundos, oito judeus estavam escondidos há dois anos e trinta dias: a família Frank, a família Van Pels e o dentista Dr. Pfeffer. A operação foi comandada pelo sargento-mor SS Karl Josef Silberbauer, austríaco, com policiais holandeses à paisana. Diz o Sr. Victor Kugler (chamado Kraler no Diário de Anne Frank): «A polícia queria ver os armazéns à beira da estrada, e eu abri as portas. Eu pensei, se eles não querem ver mais, ainda está tudo bem. Mas depois (...) o sargento-mor saiu no corredor e mandou que eu o seguisse. De repente, ele me ordenou que afastasse a prateleira da parede e abrisse a porta de fundos."

Estava descoberto o esconderijo.

No livro da autora é revelado também o nome do delator: o tabelião judeu Arnold van den Bergh. Era casado tinha três filhas. Membro do Conselho Hebraico, tendo como uma das principais funções, apontar nomes de hebreus para deportação. Para se tornar imune a suspeitas conseguiu ser inserido na lista de Hans Georg Calmeyer declarando que não pertencia à raça hebraica. Com isso manteve o emprego de notário até 1943, até que foi denunciado ao SS por um colega ariano. Isto o levou a perder os privilégios que detinha.

Para salvar a própria pele e de sua família passa a fornecer à polícia nazista endereços de hebreus escondidos. Foi então que, sem se dar conta, apontou o número 263 de Prinsengracht, que era da família Franck.

Mas como poderia hebreus serem vendidos aos nazistas por hebreus? Um dos cronistas do Holocausto, Jacob Presser, comenta: é ingênuo, absurdo e historicamente falso pensar que um sistema demoníaco como o nacional-socialismo, iria santificar suas vítimas. Ao contrário, isto iria degradar, emporcalhar e assemelhá-los entre si, vítimas e verdugos.

Como fica a questão ética dos atos de van den Bergh? É pacífico que qualquer um tem o direito de defender sua própria vida e dos que lhe são caros. O problema surge quando se analisam os meios utilizados. Não é lícito utilizar qualquer meio para atingir o fim. Tanto os fins como os meios devem ser lícitos. Parece que novamente Hanna Arend tinha razão: agiam como burocratas, sem escrúpulos. O mal não entra na ponderação, é banal, tanto para nazistas alemães como para delatores hebreus. Foi o que aconteceu com van den Bergh? Seu objetivo salvar a si e sua família estariam em tese moralmente justificáveis. No entanto, salvar a si em troca da condenação de outros, não resiste a qualquer julgamento legal, moral e ético em que pese não haver no período um estatuto legal dos direitos humanos o qual somente foi aprovado em 1948 pelas Nações Unidas e o Tratado de Roma em 1950. No entanto, já existia no ocidente esparso em estatutos e de modo tradicional uma consciência ética sobre tais direitos. E, embora se diga que não tencionava delatar diretamente os Franck, também não justifica. A questão não é esta ou aquela família, mas o ato deletério. 

A ação do delator foi um mal em si e pronto.

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