sexta-feira, 10 de maio de 2019

«Filosofia abre a mente, entra em todas as escolas » - Selvino Antonio Malfatti


                                 A Filosofia, de Rafael. Museus do Vaticano.


Enquanto o Brasil vai na contramão da História pretendendo sufocar o ensino da Filosofia, em outros países, há um incremento para expansão da Filosofia, como comprova o APELO nascido no meio acadêmico da Itália.


Diz Ida Bozzi, autora do comentário sobre o APELO, «Filosofia abre a mente, entra em todas as escolas ». Este  é um Manifesto" promovido pelos professores italianos do ensino médio, Marco Ferrari e Gian Paolo Terravecchia. Em dois dias dezenas de adesões de professores universitários, acadêmicos e empresários.
Uma iniciativa lançada nesta semana e já obteve as assinaturas de noventa professores universitários e dezenas de professores do ensino médio. Pretende que a "Filosofia seja adequadamente reconhecida no exame do Estado", isto é, de maturidade e "inserida em todos os currículos escolares", incluindo os técnicos e profissionais.
Por quê? "Porque forma homens capazes de exercer crítica", "porque abre a mente do homem para libertar o pensamento" e "porque nos faz lembrar que a ciência e a tecnologia são para o bem do homem". Estas são apenas algumas das muitas razões dadas no manifesto.
Entre os primeiros signatários da iniciativa estão nomes de filósofos como Donatella Di Cesare, Carlo Sini e Silvano Petrosino, mas também personalidades como o psicanalista Massimo Recalcati e empresários como Stefano Colli-Lanzi, assim como muitos professores aparecem. "É um movimento completamente apartidário,  vindo de baixo - continua Ferrari - com professores universitários e professores do ensino médio, e profissionais, empresários e todos aqueles que reconhecem que na filosofia um" ponto de luz ", que ensina como tomar distância das coisas para entendê-las, ensinando o método de observação e a busca de causas: algo que já acontece em nossas aulas, com alunos, mas que acontece muito pouco na sociedade atual e, por exemplo, no debate político ”.
Um dos objetivos do Manifesto da filosofia propõe levar o estudo desta disciplina a todas as escolas: "Devemos ousar - continua Ferrari - e trazer a filosofia para todas as várias formas de educação dos jovens. Todos os alunos, mesmo aqueles que frequentam o instituto técnico, o profissional ou outros cursos de formação, devem ter a oportunidade de conhecer a grande riqueza da filosofia“.
Entre as primeiras conquistas, incluindo o lançamento nas redes sociais (o pôster tem página no Facebook e também pode ser lido no site: romanaedisputationes.com), os criadores indicam a conquista de 100 mil assinaturas, para depois levar o manifesto ao Ministério da Educação. .
"Mas a ideia é continuar a jornada", anunciam os criadores. Entre seus projetos está o de criar um evento nacional dedicado à filosofia no final do verão e que reúne o mundo da escola, a universidade, mas também as outras realidades que se mostraram particularmente sensíveis e interessadas na iniciativa, como o mundo do trabalho e dos negócios. (Jornal italiano Corriere della Sera, Seção Cultura, "L´Apello per la filosofia: «Entri in tutte le scuole" , di Ida Bozzi, acessado: 9/05/2019 >https://www.corriere.it/cultura/ - traduzido e adaptado por Selvino Antonio Malfatti)



sexta-feira, 3 de maio de 2019

Sete pequenas lições de Filosofia para tempos sombrios. José Mauricio de Carvalho - Academia de Letras de São João del-Rei



1ª. A Filosofia é guardiã da razão e como tal não se desprega da verdade que se observa nos fatos e nem da boa lógica de pensar. Dispensar de ensiná-la porque se vai gastar esse dinheiro com outras formações, com retorno financeiro imediato, é esconder que hoje no país pessoas com todas as formações estão entre as desempregadas, boa parte delas sequer pagam o FIES (índice do próprio governo) e não têm condição de levar para casa o seu sustento e nem de pagar imposto. Não é o dinheiro gasto nos poucos e baratos cursos de Filosofia que mudará esse cenário. Os profissionais que trabalham com a Filosofia e estão empregados, pagam, como todos os trabalhadores seus impostos. E também levam honestamente o sustento para suas famílias.
2ª. Reconhecida como guardiã da razão, a Filosofia é solidária da boa prática de pensar. Então é inadequado dizer que se vai ensinar alguém a escrever bem, na própria ou em outra língua, se não se ensinar a esse estudante, ao mesmo tempo, a pensar e a desenvolver bons argumentos. Por isso, o médico e filósofo Karl Jaspers lembrou que a Filosofia “é um ato de concentração pelo qual o homem se torna autenticamente no que é e participa da realidade”. E essa é também a razão pela qual a Unesco considera a Filosofia essencial na formação dos jovens.
3º. A boa prática de pensar implica não só no compromisso com a verdade, mas também na liberdade e capacidade crítica para pensar, negá-la aos estudantes é negar a mais essencial de todas as liberdades. Não faz sentido falar em liberdade de ir e vir, liberdade de empreender, liberdade de organização política, se não se ensina a primeira e a mais radical, a liberdade de pensar. E para ser livre e pensar criticamente é preciso estudo sistemático e planejado. Por isso, a tradição liberal nunca abriu mão do pensamento livre. Olhando a História se vê que apenas os tiranos, os ignorantes e os fanáticos temeram a Filosofia e o livre pensamento. Os bons governantes como Marco Aurélio, bem-sucedido e culto; dedicou-se à Filosofia. Não é necessário ser filósofo para ser político, mas os melhores escutam os filósofos e fazem questão de tê-los em sua companhia. 
4ª. A Filosofia não tem, como as ciências modernas, a tarefa de ensinar uma atividade prática imediata, mesmo essas ciências têm fundamento teórico que não prático e nem imediato. Contudo, a Filosofia ensina a mais essencial de todas as artes, a de viver, ensina que vida é procurar um sentido para ela mesma e para o mundo, sem os quais viver é triste, leva à depressão e outras doenças, como ensinou o médico e filósofo Viktor Frankl. Significado para a vida que se renova pela História e exige constante revisão e análise. Atualmente não se faz Filosofia sem considerar os resultados da Ciência.  Ao lado das Artes e das Religiões, a Filosofia ensina que sobreviver sem o belo, o bom e o justo não vale a pena. E mais, Religião que não respeita a boa prática da razão crítica se torna fanatismo, ignorância e leva a muitos males como temos visto no fanatismo religioso vestido de terrorismo espalhado pelo mundo. O físico Einstein, o mais brilhante dos cientistas no século passado, nunca abriu mão de suas crenças religiosas e nem de pensar filosoficamente. Miguel Reale, nosso maior jurista nunca deixou de cultivar a Filosofia, fato que o projetou internacionalmente. Por sua vez, experiência estética sem pensamento não se firma, as escolas de arte e literatura acompanham os movimentos da Razão pela História da Cultura. Leonardo da Vinci e seus contemporâneos da Renascença ensinaram que a ciência não pode se despregar das humanidades ou se empobrece.
5ª. Embora em Filosofia gente que nunca a estudou se considere em condições de opinar, porque ninguém está impedido de pensar, mesmo aqueles que não o fazem corretamente e contam apenas com opiniões mal fundamentadas, o bom uso da razão e os bons argumentos acabam, em algum momento, sendo reconhecido. É o que ensina uma tradição de 2600 anos iniciada na antiga Grécia. Portanto, quando os tiranos, fanáticos e ignorantes perseguem a Filosofia e/ou matam os filósofos, a Filosofia ressurge das cinzas. Isso ocorreu depois da morte de Sócrates, de Sêneca e de Giordano Bruno. Durante a história é mais longa a lista de filósofos perseguidos, dizia Voltaire no século XVIII. Homens como Baruch Spinoza, perseguido pela religião e Karl Jaspers, perseguido pela política nazista são mais comuns que filósofos reconhecidos.
6ª. A ilusão de que a simples prática da ciência produz progresso econômico e social, desvinculado das humanidades e, em especial da Filosofia, foi o erro da reforma e da geração formada no espírito do iluminismo pombalino. O empirismo mal justificado foi uma das razões importantes pelas quais o Brasil ficou com dificuldade e se apropriar dos valores modernos. Essas limitações do pombalismo, repetidas no positivismo mostram um pensamento que sob a capa de democrata e honesto, reflete as insinceridades e fake news. É esse positivismo mal ajeitado que está na raiz de nossa escola, instituição pouco dedicada a formação cidadã e a consciência social com tão mal resultados, mesmo no muito estudado campo das ciências.
7º. As disciplinas filosóficas estão nas bordas das ciências, ajudando-as a caminhar e a se desenvolver. Exemplos são a meditação ética entorno às pesquisas na área da saúde e no direito, da lógica nas engenharias, da metafísica nas discussões sobre a realidade, da História da Filosofia e Filosofia da História ao lado da História.
Nota: sombrios são os tempos de massas ignorantes onde prevalece a irracionalidade e a violência.


sexta-feira, 26 de abril de 2019

Notre Dame e a elite econômica. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei




               





                                                  Elite econômica                      Brasil  
França


                                                               
                               

                                                                                                                                                                  A Catedral Notre-Dame de Paris; tornou-se notícia no mundo inteiro porque foi atingida recentemente, durante sua restauração, por um grande incêndio que destruiu o telhado e provocou danos no teto. A Igreja é uma edificação medieval cuja construção foi iniciada em 1163, durante o reinado de Luís VII. Ela se situa na Île de la Cité, assim denominada porque foi construída numa pequena ilha pluvial bem no centro da capital da França. A catedral de Paris foi edificada no momento áureo do estilo gótico, erguida como monumento fundamental da fé católica na França, planejada para favorecer a oração e a experiência religiosa cristã. No entanto, embora seja um monumento religioso, ligou-se, durante a história, intimamente a vida e a história da sociedade francesa. Por isso, sua importância para aquele país, além do sentido religioso, é o de monumento nacional e histórico da maior importância, sendo ao lado do Museu do Louvre, os maiores símbolos arquitetônicos daquele país.
A solução arquitetônica utilizada na construção daquela Igreja substituiu as paredes grossas dos templos edificados antes, por colunas altas e arcos capazes de sustentar o peso dos telhados. Por isso, catedrais como Notre Dame de Paris ganharam um aspecto leve, com janelas amplas e altas, capazes de promover a iluminação no interior e criar um clima propício de oração. Na Catedral de Paris essas janelas foram ornamentadas com magníficos vitrais coloridos que filtram a luz natural, e criam um maravilhoso efeito visual no interior. O magnífico edifício foi reconhecido como patrimônio histórico da humanidade em 1991, por isso é natural a preocupação mundial com o incêndio e a mobilização ocorrida em vários países para sua recuperação.
Entretanto, tão impressionante quanto o próprio incêndio, foi a imediata reação da elite econômica francesa. Em menos de vinte e quatro horas as pessoas mais ricas do país já haviam doado 750 milhões de euros, algo como 3 bilhões e 300 milhões de reais, seja, mais de 50 por cento do valor que o governo brasileiro destinará este ano para arrumar todas as nossas estradas. Contudo, o que quero destacar não é o valor que será necessário para restaurar aquele monumento histórico, mas o fato das cinco maiores fortunas da França se mobilizarem imediatamente para assegurar a recuperação do monumento, ajuda completa por grandes empresas.
O fato, que não deixa de sensibilizar a todos os que se preocupam com a preservação dos monumentos históricos, também colocou em evidência a diferença entre uma elite econômica comprometida com seu país e uma que não é.
Quando um incêndio de grandes proporções destruiu o Museu Nacional do Brasil, em 2 de setembro do ano passado, destruindo a quase totalidade do acervo histórico e científico colecionado durante dois séculos e o magnífico prédio que foi a residência oficial da família real durante o Império, os milionários do Brasil não se manifestaram. Ainda que se possa dizer que a Catedral de Paris é um monumento histórico comparativamente mais importante que o Museu Nacional do Brasil, para nosso país o Museu e seu acervo são tão importantes quanto a Catedral para a França.
No magnífico livro A rebelião das massas, Ortega y Gasset comentou o papel das minorias, ou seja o protagonismo histórico das minorias nas diferentes áreas da cultura. Cabe a elas liderar a sociedade. O filósofo não falava de uma única minoria, mas de várias, porque não há uma única elite, mas muitas na defesa da excelência cultural e sobretudo no papel de liderança que elas exercem e precisam exercer. Nesse sentido, parece que os milionários franceses assumiram o protagonismo do processo de restauro, isto é, agiram como liderança responsável, pelo menos nesse caso. É claro que agora os governos e os cidadãos comuns também irão se mobilizar, fazendo a parte que cabe aos liderados. A liderança do processo de reconstrução foi assumida por quem de direito, pela minoria econômica da França, comprometida com a vida e a história do país.
A diferença de atitude, em episódio similar em nosso país, mostra a triste e lamentável diferença de mentalidade e a falta de compromisso da nossa elite econômica com o destino do país e do seu povo.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

PÁSCOA - HEBRAICA; PÁSCOA-CRISTÃ. Selvino antonio Malfatti















PÁSCOA HEBRAICA

Podemos dizer que Páscoa - em hebraico Pessach - para os hebreus tem um signficado histórico, pois relembra a travessia pelo Mar Vermelho do povo hebraico, então escravo no Egito, para a liberdade rumo à Terra Prometida sob à liderança de Moisés.

Êxodo: Capítulo 14.

15.Então disse o SENHOR a Moisés: Por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem.
16.E tu, levanta a tua vara, e estende a tua mão sobre o mar, e fende-o, para que os filhos de Israel passem pelo meio do mar em seco.
17.E eis que endurecerei o coração dos egípcios, e estes entrarão atrás deles; e eu serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército, nos seus carros e nos seus cavaleiros.
18.E os egípcios saberão que eu sou o SENHOR, quando for glorificado em Faraó, nos seus carros e nos seus cavaleiros.
19.E o anjo de Deus, que ia diante do exército de Israel, se retirou, e ia atrás deles; também a coluna de nuvem se retirou de diante deles, e se pôs atrás deles.
20.E ia entre o campo dos egípcios e o campo de Israel; e a nuvem era trevas para aqueles, e para estes clareava a noite; de maneira que em toda a noite não se aproximou um do outro.
21.Então Moisés estendeu a sua mão sobre o mar, e o SENHOR fez retirar o mar por um forte vento oriental toda aquela noite; e o mar tornou-se em seco, e as águas foram partidas.
22.E os filhos de Israel entraram pelo meio do mar em seco; e as águas foram-lhes como muro à sua direita e à sua esquerda.
23.E os egípcios os seguiram, e entraram atrás deles todos os cavalos de Faraó, os seus carros e os seus cavaleiros, até ao meio do mar.
24.E aconteceu que, na vigília daquela manhã, o SENHOR, na coluna do fogo e da nuvem, viu o campo dos egípcios; e alvoroçou o campo dos egípcios.
25.E tirou-lhes as rodas dos seus carros, e dificultosamente os governavam. Então disseram os egípcios: Fujamos da face de Israel, porque o SENHOR por eles peleja contra os egípcios.

26.E disse o SENHOR a Moisés: Estende a tua mão sobre o mar, para que as águas tornem sobre os egípcios, sobre os seus carros e sobre os seus cavaleiros.

27.Então Moisés estendeu a sua mão sobre o mar, e o mar retornou a sua força ao amanhecer, e os egípcios, ao fugirem, foram de encontro a ele, e o SENHOR derrubou os egípcios no meio do mar,





PÁSCOA CRISTÃ

Para os cristãos, Páscoa tem um significado religioso, pois representa a passagem do estado de pecado dos homens para a redenção através da morte de Jesus na Cruz e ressurreição.


"São Lucas, 24
1.No primeiro dia da semana, muito cedo, dirigiram-se ao se­pulcro com os aromas que haviam preparado.

2.Acharam a pedra removida longe da abertura do sepulcro.

3.Entraram, mas não encontraram o corpo do Senhor Jesus.

4.Não sabiam elas o que pensar, quando apareceram em frente delas dois personagens com vestes resplandecentes.

 5.Como estivessem amedrontadas e voltassem o rosto para o chão, disseram-lhes eles: “Por que buscais entre os mortos aquele que está vivo?

6.Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos de como ele vos disse, quando ainda estava na Galileia:

7.O Filho do Homem deve ser entregue nas mãos dos pecadores e crucificado, mas ressuscitará ao terceiro dia”.

8.Então, elas se lembraram das palavras de Jesus.
 9.Voltando do sepulcro, contaram tudo isso aos Onze e a todos os demais.

10.Eram elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; as outras suas amigas relataram aos apóstolos a mesma coisa.

11.Mas essas notícias pareciam-lhes como um delírio, e não lhes deram crédito.

12.Contudo, Pedro correu ao sepulcro; inclinando-se para olhar, viu só os panos de linho na terra. Depois, retirou-se para a sua casa, admirado do que acontecera"
(São Lucas, 24 - Bíblia Católica Online)


sexta-feira, 12 de abril de 2019

O lado de dentro do nazismo. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.






                                      X







Na última viagem da comitiva presidencial brasileira a Israel, o ministro Ernesto Araújo (das Relações Exteriores) afirmou, em Jerusalém, que pesquisadores notam semelhanças entre o movimento nazista e a extrema esquerda e sugere que as pessoas "estudem" e "leiam a história de uma perspectiva mais profunda".
Uma afirmação tão genérica não informa muita coisa sobre o assunto porque o ministro precisaria explicar o que ele entende por extrema esquerda e a que semelhanças se refere. Contudo, uma afirmação assim causa confusão por aproximar sistemas que têm semelhanças, mas são essencialmente diferentes.
Comecemos pelas semelhanças se estivermos falando dos regimes de Hitler e de Stalin, entendendo-se ser o stalinismo o que o Ministro considerou extrema esquerda. Ambos os regimes tinham único partido político, ambos promoveram repressão a opositores no campo das ideias e da ação política, ambos censuraram as comunicações, ambos promoveram a militarização da sociedade, ambos eliminaram qualquer forma de oposição. Essas características comuns nos indicam que os dois regimes eram totalitários. Denominamos totalitário o sistema político onde o Estado, encontra-se sob o controle completo de uma pessoa, grupo político, ou classe social. Esses dirigentes não reconhecem limites a própria autoridade, regulamentam toda a vida da sociedade, inclusive a íntima e não apenas a vida pública. Sobre essas semelhanças já pude comentar no livro Poder e moralidade, o totalitarismo e outras experiências antiliberais na modernidade (São Paulo: Annablume, 2012, p. 106) algo assim: “O século XX assistiu ao surgimento de sistemas políticos totalitários como o nazi-fascismo e o stalinismo. Sistemas totalitários são aqueles em que o Estado quer ocupar toda a vida dos cidadãos, reduzindo o mais possível a liberdade e a vida pessoal. Ortega y Gasset estudou a gênese dos mencionados projetos totalitários, associando-os ao aparecimento das massas.”
Aquele comentário não apenas indicou as semelhanças como abriu espaço para considerar aquilo que o filósofo espanhol Ortega y Gasset considerou uma espécie de degeneração ou adoecimento do sistema democrático liberal, dando origem a uma democracia doente, o que se pode dizer tanto do nazismo como do stalinismo. E o adoecimento se refere ao fato de assistimos a emergência de sistemas políticos onde a multidão ocupa o centro do espaço social e faz surgir um novo tipo de homem: infantil, mimado, inseguro, que pensa estar no mundo para aproveitar sem se esforçar, etc. Esse homem de muitos direitos e pouquíssimos deveres espera amparo do Estado para superar suas dificuldades e ele mesmo não está comprometido em levar uma vida excelente, nem seguir os que a buscam.
No entanto, se há tais semelhanças não se pode desconhecer diferenças marcantes entre essas duas formas de totalitarismos. O partido nazista reuniu intelectuais e capitalistas alemães com o propósito de construir um grande império pela prática capitalista, embora nacionalista e corporativista. O Stalinismo ao contrário, tentou uma variação do marxismo, aplicando as ideias marxistas a uma sociedade agrária (Marx pensou um sistema para uma sociedade industrial), promovendo a coletivização e estatização dos meios de produção agrícola e industriais e o planejamento da economia. Cuba é uma herança desse socialismo à moda stalinista. Portanto, semelhantes na raiz autoritária os dois sistemas, ambos inimigos da democracia liberal, mas por razões distintas, não escondem suas profundas diferenças e nem de longe podem ser aproximados nas classificações usuais de direita e esquerda. Das semelhanças citadas não se pode concluir que o nazismo é uma forma de socialismo, por que pretende organizar a sociedade em corporações como no fascismo.
Também é importante, quando se fala em socialismo, distinguir aqueles derivados da estatização dos meios de produção, de raiz marxista, vindos por imposição do Estado (a extinta União Soviética e Cuba), de outras formas de socialismo nas quais se procura atingir uma sociedade solidária, como foi preconizado no livro de Isaías e cuja organização inspira até hoje a sociedade judaica e o Estado de Israel. Nesse caso
falamos de um sistema em que os homens são livres para se organizar e trabalhar, mas são estimulados a se auxiliarem como irmãos. Também é preciso distinguir ambas as formas de socialismo da experiência social democrata da Europa (Finlândia, Noruega, Dinamarca, Suécia). Portanto, os socialismos não são iguais e nem todas as versões levaram ao fracasso, como muitas vezes genericamente se diz. Creio que não é inútil, nesse contexto, esclarecer o liberalismo tem versões mais democráticas (como defende o partido democrata americano) e versões menos democráticas como defendem os Republicanos, nos Estados Unidos e o Partido Conservador no Reino Unido.
Essas distinções parecem importantes para clarear a confusão que se pode ver nas redes sociais, onde autoritários de direita se escondem sob a capa de conservadores e conservadores pretendem se valer de meios políticos nazistas, o que é um absurdo.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

A DEMOCRACIA COMO CONVIVÊNCIA ALÉTICA. Selvino Antonio Malfatti.






Uma convivência política não precisa necessariamente ser regida pela Verdade absoluta, mas não pode prescindir da verdade alética.  As duas verdades podem estar não sintonizadas. Um exemplo ilustra.  Na cena entre Pilatos e Jesus. O primeiro queria se livrar de um inocente inoportuno e lhe diz que pode livrá-lo ou condená-lo. Falou uma verdade ética. Jesus responde que se conhecesse a Verdade...Jesus estava falando da Verdade. Pilatos responde o que é a verdade? A de Jesus é a Verdade, a de Pilatos é a verdade aleteia. A Verdade absoluta é uma só, as verdades da aleteia podem ser múltiplas. Por isso Pilatos perguntou o que é a verdade: de Jesus, dos sacerdotes judeus, de Barrabás? 

A Verdade absoluta pertence à dimensão religiosa, e por isso não está aberta à discussão. Existem concepções filosóficas que se arvoram de Verdades, também não se discutem por que são dogmáticas. A verdade como aleteia está no convívio humano, e por isso é ética.

Como diria Platão: verdadeiro é dizer as coisas como são; falso é dizer como não são. Mais explícito Aristóteles que diz que negar aquilo que é e afirmar aquilo que não é, é falso; mas negar aquilo que não é, e afirmar aquilo que é, é verdadeiro. Mas o quê que é? O que não é? É verdade aquilo que tenho convicção que é? E se minha convicção estiver errada, mas penso que esteja certo? No meio grego não havia tradição de verdade absoluta, apenas a aleteia. 

Quando pensamos amiúde acontece que o conceito de verdade funciona de forma crítica em nossos pensamentos, ora criticando, ora raciocinando e discutindo. Colocamos uma pergunta forçando dúvida: “esta verdade pode não ser verdade, e se isto pode ser verdade então aquilo também é, e se as duas forem verdadeiras, então à qual daremos razão?” Durante muito tempo nos acostumamos a pensar numa única verdade, isto é, diante de proposições contraditórias somente uma é verdadeira. Seria a forma dogmática da verdade, a qual gerou e gera conflitos insolúveis. No entanto, não é a verdade que gera o conflito, mas a possibilidade de considerar o que não é de todo verdade ou confundir as opiniões pessoais como verdade. O conflito é originário de um discurso distorcido, com aparência de verdade, mas não verdadeiro ou, ao menos, não de todo verdadeiro.

No momento atual da convivência, na qual não se sabe o que verdadeiro e o que é falso, através da proliferação maciça de fake News, nos encontramos num ambiente, completamente desorientados. Não há mais ética que se detenha perante o verdadeiro e o falso. Falamos aqui do que externamos que pode ser verdadeiro ou falso. Não falamos do conhecimento científico, mas da verdade ética. Se eu for um heliocentrista e disser que o sol gira em torno da terra estou mentindo, embora cientificamente seja verdade. Se for geocentrista e disser que o sol gira em torno da terra, estou mentindo também.

A verdade ética só será verdadeira quando externo o que penso. E todo cidadão tem este direito e dever. De ouvir de outrem a verdade ética, evidentemente a científica também. E ele, pessoalmente, agir da mesma forma.Talvez seja este o maior direito dos cidadãos contemporâneos, isto é, o que ouvir do outro seja idêntico a um selfie de sua mente. Este é o direito à verdade ética. Pode ser desdobrado em diversas situações de e para cada um desde sua relação com os outros até sua relação com a mídia e todo sistema informativo. 

Vejamos:
1.    Informação. Este direito se refere a poder ser informado sem ser enganado. Se ler jornal, vir televisão, acessar internet possa ter a segurança de que a informação repassada não for falsa por parte de quem a dá.
2.    Educação. Esta deve ser crítica no sentido grego (Κριτήρια), isto  é, ter capacidade de discernimento do que for verdadeiro e do que for falso.
3.    Confiabilidade. Este direito se refere a ser reconhecido como fonte de credibilidade, além de não sofrer discriminação por qualquer condição: mulher, migrante, crente e outras.
4.    Fontes. Este direito se refere poder ter acesso a fontes confiáveis de informação com autoridade suficiente e neutralidade científica não submissa a interesses econômicos ou ideológicos.
5.    Ambiente. Ter o direito de viver num meio político-social aleteico, protegido por pessoas, instituições e leis que prezem a verdade na vida pública e privada.
6.    Cultura. A aleteia é também um ambiente cultural pelo qual o conjunto espiritual favoreça a verdade.
Nossa hipótese é de que a verdadeira democracia é a verdade no poder. Diante disso infere-se que a democracia não é propriamente as pessoas ou seus representantes, mas do que cada um e todos acreditam e sabem, ou forma como raciocinam e decidem com base no que sabem e creem ser a verdade. Por isso é crucial para a democracia que os cidadãos cheguem a um consenso de verdade. Se não se chegar a isso, não haverá democracia e, sim, guerra de opiniões e com ela desilusão e triunfo do erro.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Viktor Frankl e a ressignificação do sofrimento. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.


Uma das grandes dificuldades da vida humana é enfrentar aquilo que os filósofos da existência denominaram situação-limite. Karl Jaspers, por exemplo, dirá que essas situações alcançam todos os homens entorno a temas dolorosos e que tocam a existência conferindo-lhe uma dimensão de fracasso. Ele se pergunta na Iniciação Filosófica, se tenho que morrer, que incorrer em culpa, ser tocado por difíceis possibilidades que não tenho controle, enfim se tenho que sofrer (JASPERS, 1987, p. 21): “que farei eu perante este fracasso absoluto e cuja intuição não me posso furtar se honestamente o apreendo?”.
O fracasso humano decorre não tanto do sofrimento em si, mas de não encontrar uma razão para o sofrimento, o que nos coloca no cerne do olhar de Frankl para o sentido. Uma das formas de chegar ao sentido é pelo entendimento do sofrimento. O sofrimento somente é suportável se ele possui algum sentido para quem sofre.
Uma das mais belas passagens do livro de Frankl A busca de Deus e questionamentos sobre o sentido é uma passagem em que Pinchas Lapide comenta uma passagem bíblica conhecida de todos. Refiro-me ao texto que está no evangelho de Mc 15, 34 que conta que estando Jesus em agonia na cruz, ele reza o Salmo 22: Eloí, Eloí, lemá sabachtani. Lapide esclarece que as palavras de Jesus não expressam dúvida, nem questionam Deus, mas é uma busca de sentido para o sofrimento na acepção que Frankl preconiza. Eis a explicação de Lapide (FRANKL, 2014, p. 144): “Em todas as traduções alemãs está escrito: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? A tradução hebraica diz o contrário: Meu Deus, meu Deus, para que me abandonaste? E a diferença são dois anos-luz. Porque o Por que tu me abandonaste vem de uma dúvida em Deus, ela questiona Deus, ela se volta para trás, ao passado, à motivação, enquanto a pergunta como foi formulada há três mil anos em hebraico e como Jesus certamente sabia, olha para o futuro, não questiona a Deus, mas sim lhe coloca a questão de como o sentido deste sofrimento com toda a certeza é pressuposto, mas que gostaria de descobrir por que ele me foi imposto.”
O que a discussão proposta por Frankl ensina é que o sofrimento, por si mesmo não ajuda ninguém, nem deve ser procurado, isso seria masoquismo. Logo, se o sofrimento por si mesmo não ajuda ninguém a alcançar o sentido, é preciso descobrir uma razão para ele quando nos atinge. E interpretando a explicação de Pinchas Lapide, Frankl diz (ibidem): “se eu entendi corretamente então a gente poderia dizer que se trata de uma pergunta dirigida a Deus, mas não um questionamento de Deus”. Assim, nesses dias de semana santa, a pergunta que Jesus dirige a Deus explicita a necessidade humana de significar o sofrimento. Jesus não tinha dúvida de que havia um propósito para seu sofrimento, o que ele não conseguira é entender adequadamente é a razão de Deus e é essa a pergunta que ele Lhe dirige ao rezar o salmo 22. Estamos diante de um questionamento do maior significado porque aponta para o futuro, a descoberta do sentido do sofrimento, o que representa uma referência importante para viver.

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