sábado, 10 de fevereiro de 2018

OS MISTERIOS DE EROS, FILIA E ÁGAPE. Selvino Antonio Malfatti














https://www.youtube.com/watch?v=yIi72FRnZp8


Cansado da zoeira do Carnaval retirei-me e vieram-me alguns pensamentos que teimavam em se entrecruzarem  na mente.
As almas se contemplam, extasiam-se, querem comunicar-se. Mas elas são intocáveis e incomunicáveis. Etéreas. Buscam-se abrasadoramente, queimam-se em chamas, mas permanecem sós. Elas se querem, mas não podem se possuírem. Buscam uma ponte que as possa fundir-se, torná-las unas.

Os corpos entrelaçam-se. As mãos se apertam. Uma uma sensação de  frescor penetra pelas veias da boca sedenta. Perpassa o corpo fazendo-o suspirar de satisfação.



As almas se encontraram através dos corpos. Eles são seus instrumentos. Elas se abraçam pelos dedos, braços, pernas dos corpos. Elas se estreitam, se beijam, se retorcem. Penetram-se pelo corpo. Elas são um numa só carne, bem vindo Eros.

Haverá espetáculo mais belo que o encontro de duas almas? Haverá delírio maior que a fusão de duas almas? Haverá felicidade que se comparece ao olhar de duas almas que se amam. Os olhos jamais viram, nem os ouvidos jamais ouviram, nem ninguém jamais sentiu o que este encontro irrompeu. É a Filia

Elas sentiram o céu abrir-se, a felicidade jorrar aos borbotões. O próprio Deus a inclinar-se e enlevá-las. Elas ressuscitaram, se transfiguraram, se tornam imortais.
Eros e Filia comemoram o ágape.

Mas os corpos, coitados, permanecem na sua condição. Quanto mais suas almas se amam, tanto mais sofrem. Quanto mais se contemplam, tanto mais envelhecem, quanto mais sentem prazer, tanto mais gemem de dor, quanto mais louvam, tanto mais pecam. As almas entoam o aleluia, os corpos murmuram o “miserere mei, Domine”. Elas se comprazem com as doçuras celestiais enquanto eles se abrasam no fogo do inferno.

As almas não podem esquecer seus corpos. Tudo o que elas podem fazer é por ele que o fazem. As almas devem voltar, tomar em seus braços os corpos e levá-los perante Ele e suplicar por eles. Eles também devem viver, ser felizes, ressuscitar. Transfigurar-se e se tornarem iguais às almas. As almas devem voltar à terra para que os corpos possam subir ao céu. Então sim, unos, inteiros, homens.São trio: Eros, Filia e Ágape que entoam o Te Deum.

Não só almas puras, mas os corpos também. Porque o corpo não pode fazer o mal a não ser pela alma. Ele não pode por si ser soberbo, se sua alma não é. Não pode ser ganancioso se sua alma não é. Ele não pode ser impuro se sua alma não é.  O corpo é são se a alma for sã. A alma não pode ser piedosa a não ser pelo corpo, não pode ser caridosa, senão pelo corpo, nem mesmo santa se não for pelo corpo. Corpo e alma estão irremediavelmente selados a ser um pelo outro. Isto é o Amor de si mesmo que pode ser estendido aos outros. Pela minha alma posso amar a alma do outro, através de meu corpo pelo olhar, pelo abraço, palavra, sorriso. Minha alma se externa pelo corpo e pelo corpo do outro posso chegar a sua alma. 
Eros e Filia são um na plenitude do Ágape.

  


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O TRABALHO FEMININO – A CONSCIÊNCIA DO PRÓPRIO VALOR. Selvino Antonio Malfatti

















O reconhecimento do trabalho feminino, foi uma luta no sentido de fazê-lo existir visivelmente, reconhecê-lo política e juridicamente. Como se expressa Nancy Fraser:

“Por que o trabalho invisível, por excelência o trabalho doméstico e o cuidado, foi sempre atribuído às mulheres, um trabalho não reconhecido, naturalizado e desvalorizado”. (Fraser, 2014)

Apesar de a revolução feminista colocar na pauta das discussões radicalmente o sistema social patriarcal, alicerçado sobre a família e sobre o sujeito social universal: o trabalhador masculino, branco, operário, por tempo indeterminado. Implantou o sistema de dependência/independência, base do ocultamento e da desvalorização do trabalho feminino.

A questão para a explicação da situação do trabalho feminino é a insinuação de que o responsável é o sistema capitalista. Acontece que em todas as culturas e todas as formas de produção tiveram esta experiência. Até mesmo nos primitivos indígenas se encontra tal fato, como entre as tribos brasileiras, não tendo nada a ver com o capitalismo. A divisão das tarefas era feita por critérios de idade e sexo. E, há de se considerar que como pano de fundo, está a criação, alimentação e educação das crianças. Elas constituem o peso preponderante.

Entre os indígenas as mulheres, em grande parte, ocupavam-se dos trabalhos domésticos, cuidado das crianças e também agricultura. Os homens trabalhavam na derrubada da mata, plantio, caça e pesca, fabricação de canoas, armas de guerra, defender a aldeia. Como se vê, numa sociedade tribal, que nada tinha a ver com capitalismo, basicamente as mulheres ocupavam-se dos trabalhos domésticos e os homens atividades fora das habitações.

Entre os antigos predominava o sistema patriarcal. Os homens detinham o poder primário e ocupavam as funções políticas e religiosas que quase sempre se identificavam. Na família o pai mais antigo detinha o poder sobre escravos, filhos e mulheres. Aqui também, num sistema de sociedade patriarcal, às mulheres cabiam atividades domésticas e aos homens atividades fora da habitação.

Por que razão este modelo de trabalho, mulheres domésticas e homens em atividades extra domésticas, pode ser encontrada em praticamente todas as civilizações que saíram do estágio nômade para o sedentário até a era industrial ocidental. Qual a razão desta divisão? Que critério foi adotado?

Entendo que não se pode reduzir a uma razão só. Foram as mais diversas, cada povo, cada época adotou um critério seu. Podemos enumerar alguns: 1. Conveniência – Era conveniente que uma parte do grupo familiar cuidasse do lar e outra buscasse recursos fora de. O trabalho do lar coube às mulheres e crianças e o fora do lar aos homens. Com certeza seria inconveniente levar as crianças para o trabalho fora do lar. Isto provavelmente aconteceu com os grupos tribais 2. A dominação – o elemento masculino impôs pela força o condicionamento feminino no lar. Foi o que aconteceu, por exemplo, com as civilizações do oriente, como árabes e os bárbaros. As mulheres eram servas, senão escravas dos homens 3. Consentimento – os dois gêneros, masculino e feminino, decidiram consensualmente que fariam isso. Este modelo pode ser encontrado entre os hebreus, devido à ideia de igualdade de gêneros. Existem outros, mas estes dão uma ideia de multiplicidade de razões.


Mas por que somente com a revolução industrial aconteceu a paulatina liberação da mulher do lar? Inicialmente o trabalho feminino nas fábricas ajudava na renda familiar. Mas, com a abertura política liberal para participação de outras categorias na política, que não somente os proprietários, abriu-se espaço para que a mulher também tivesse representação. Primeiramente nos sindicatos e depois junto com o marido na política. Pouco a pouco, as mulheres passaram a participar autonomamente. Este processo levou um século, de 1830 a 1928. O que não havia sido feito em 5.000 anos, com a revolução industrial e abertura política liberal capitalista, se alcançou num século.

         Até a segunda década do século XX, o voto era tão somente extensivo ao sexo masculino. A extensão do voto às mulheres ocorre em 1918, àquelas que tivessem mais de 30 anos e que fossem proprietárias ou esposas de proprietários. A universalização do sufrágio na Inglaterra ocorre em 1928 com a Lei do “Flapper vote” (voto das moças).

Resumidamente o processo de abertura política seguiu a seguinte evolução: classe média rural, classe média urbana, operários, mulheres casadas e finalmente, o “flapper vote”, as solteiras. E precisamente é neste contexto que surge a liberação da mulher das atividades exclusivamente domésticas. Portanto, não foi o capitalismo que enclasurou as mulheres nas atividades domésticas. Ao contrário, o capitalismo ensejou a sua liberação. Não estamos dizendo que foi pacífico. Não. Houve muito derramamento de sangue feminino até a liberação.

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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A formação do homem. José Mauricio de Carvalho – Professor do UNIPTAN




No ensaio História da educação o filósofo e pedagogo português Delfim Santos pensa o enfrentamento daquilo que Ortega y Gasset caracterizou como o tempo das massas. O ensaio não é um tratado de pedagogia como o título sugere, mas uma reflexão sobre a história da cultura na qual se tece a humanidade do homem.
Essa preserva atualidade uma vez que as dificuldades que Delfim enxergou se tornaram ainda mais agudas em nossos dias pela presença de outras características indicadas por Ortega y Gasset no homem-massa. Além de bárbaro ignorante (doutor em algo, mas ignorante do resto), senhorzinho satisfeito (acha que o mundo está aí para ele aproveitar sem esforço) e criança mimada (querer o que sabe que não pode), o homem atual é superficial, ansioso pelo prazer e estabelece relações efêmeras. 
Delfim Santos entendia que para enfrentar as dificuldades do seu tempo era preciso recuperar aspectos da história construídos no processo educacional. Ele explica (id., p. 283): “O homem não surge homem sem os cuidados de outrem nunca mesmo o poderia vir a ser. Enquanto o animal, após a adequação ao seu próprio meio, que naturalmente se lhe oferece, dispensa o artificio, o homem, ao contrário, só vive em função do artifício que os seus próximos lhe preparam, como alimentação, vestuário e habitação”.
A fragilidade do indivíduo obriga-o a aprender elementos culturais com os quais enfrenta a realidade natural e os desafios de viver em sociedade. Por isso, a sobrevivência individual se amarra com os desafios da espécie. Ele aprende para ultrapassar as fragilidades dos primeiros anos, ocasião em que ele mais aprende que cria algo novo. Depois que cresce e possui boa compreensão da realidade, vai melhorar o aparato cultural que assegura sua humanidade. A história se forma com a educação das novas gerações e com as criações dessas que repassam o que criam para as próximas. Ele explica (id., p. 284): “O homem como ser histórico só se torna possível pela educação em função de valores, de intenções ou de propósitos. A formação do homem só é possível, pois, como transformação, isto é, tentativa para se tornar o que ainda não é, e este trânsito do que já é para o que ainda não é, precisamente o que entendemos por histórico.”
Dessa maneira, para enfrentar as dificuldades que a vida renova o homem precisa buscar na sua história os elementos de formação que o capacitem a enfrentar as novas dificuldades. Não se trata de repetir o que foi feito, mas de aprender com o que foi feito. E esses elementos a serem recuperados são culturais, amplos e implica na aprendizagem de diversos valores como: o sagrado (religião), o verdadeiro (ciência, filosofia, religião), o bem (ética), o belo (estética) e o útil.
A história da formação do homem é a própria história do homem. Desde que o homem surgiu houve educação e, portanto, história, ainda que o registro não tenha sido preciso. Se cultura é o que se fez em toda a história, num determinado período essa raiz de humanização parece especialmente importante. Delfim Santos aponta o VI século A.C. como um tempo importante onde surgiu (id., p. 286): “o alfabeto que provém dos fenícios, o calendário de origem babilônica, a geometria proveniente dos egípcios. Da Índia recebemos a numeração, sem a qual as principais características da civilização europeia não se poderiam ter afirmado tais quais são”. Ele ainda menciona a linguagem indiana, os cuidados médicos, a música e a arte do Egito, a moralidade judaica e a filosofia e ciência gregas.
E, entre os gregos o processo de formação humana foi bem consolidado na Paideia, que é (id., p. 291): “a formação do homem e (...) foi esta a intenção que norteou aquilo que podemos chamar de cultura grega”. O que ele sugere é a retomada desses valores de humanização para o homem enfrentar os problemas desse tempo das massas antes resumido. Questões como essa, relativas à formação do homem culto, precisam ser meditadas quando nos preparamos para iniciar novo ano letivo.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

PREVIDÊNCIA E TRABALHO - PREVER E PROVER. Selvino Antonio Maltatti




Está em debate no Congresso brasileiro a questão da Previdência, assunto este correlato com o trabalho. Previdência significa, na questão de  vida humana, prever quando se chegar à velhice, quando ocorrerem doenças, incapacidades de todos os tipos e consequentemente impossibilidade de trabalhar e com isto ter algo para prover as necessidades. Por isso, trabalho e previdência estão intimamente unidos e interdependentes como a alma e o corpo. É prever para prover.

Culturalmente o conceito de trabalho adquiriu são longo da história ocidental dois sentidos distintos. No primeiro momento, através da cultura judaico-cristã, recebeu uma conotação negativa, isto é, foi considerado um castigo. Duas passagens bíblicas, uma do antigo testamento e outra do novo, evidencia a concepção pejorativa. 1. “Comerás o pão com o suor de teu rosto (Gênesis). 2. Quem não trabalha que não coma (Paulo,2 Tessalonicenses 3).

O segundo, com a Reforma de Lutero e sua ética, o trabalho foi considerado uma bênção e um sinal de salvação. “O sinal de que foste escolhido por Deus para a salvação é teu sucesso econômico”, dizia Calvino. Em Lutero e nas religiões protestantes o trabalho se transforma numa coparticipação do homem na obra divina da criação.

Se o conceito de trabalho for empregado em seu latu sensu, isto é, toda atividade humana que visa transformar o dado da natureza em proveito próprio, então podemos constatar que o trabalho, em qualquer época e em qualquer civilização é um componente essencial da vida do dia a dia. Abrange não só o esforço físico, mas intelectual e artístico  Por isso não se limita ao econômico, mas desdobra-se em várias dimensões: cultural, artístico, religioso, administrativo entre outras.


No período industrial o trabalho absorve toda a vida,  todo o dia, desde o amanhecer ao por do sol. Com a produção de massa, o trabalho se transforma num objeto de contrato, colocando o trabalhador à disposição do administrador suas energias e qualidades. 

A trajetória das conquistas trabalhistas começa pela luta pela redução de horários. Inicialmente horários de trabalhos extensíssimos. A bandeira das reformas, em que pese ter sido assumida pelos sindicatos não demorou que os próprios partidos empenharam-se na luta. 

O modelo padrão foi o da Inglaterra. Lá havia dois partidos principais: os liberais e os conservadores (whigs e tories). Os sindicatos penderam mais para os liberais. Apesar de várias vezes os liberais assumirem o poder, e portanto de posse da maioria e poder para modificar as leis não conseguiam aprovar leis trabalhistas e previdenciárias. Quem as aprovava eram os governos  conservadores. Qual a causa? o idealismo exacerbado e falta de objetividade, pois os liberais e sindicatos queriam aprovar tudo ao mesmo tempo.  Os conservadores, mais pragmáticos, propunham passo a passo e conseguiram aprovar uma a uma as leis.

O debate começou com algo simples: a distinção entre tempo de trabalho e tempo livre. Disto surgiu a jornada de trabalho. Em seguida outras leis foram aprovadas, todas pelos conservadores: descanso semanal, férias remuneradas, aposentadoria, indenizações e outras.

As leis tem tempo de duração útil. O que vale para uma época não vale para outra. Por isso, no Brasil, estamos debatendo a Reforma da Previdência assunto diretamente afeto ao trabalho.
Antigamente o contrato de trabalho se assentava sobre dois princípios básicos:
1. Local de trabalho
2. Jornada de trabalho
Com  o avanço tecnológico, principalmente a informática, os dois princípios foram superados e com isso surgiram outras e novas modalidades de trabalho fora do esquema local e jornada, como exemplos:


O trabalho intermitente, o trabalhador é contratado por períodos, como horas, dias ou meses trabalhados.

O home office, seria o trabalho doméstico. A tarefa é feita em casa, sem deslocar-se para a empresa.

Contrato de empreitada, envolve por tarefas. Dispensa local e tempo. O próprio trabalhador faz seu local e sua jornada.

Propriamente se pode dizer que somente o ser humano trabalha, porque usa a inteligência e a liberdade. O trabalho do animal é por instinto e compulsório. Por isso se pode dizer que, pelo trabalho, o homem imprime algo de si no que trabalhou e humanizou o objeto de sua atividade. Consequentemente o trabalho humano humaniza, prevendo o que precisa prover para o futuro.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Referências para 18. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei





Esse é um texto sobre referências. Referência é o que guia a existência. Difícil fugir do impulso para falar de referências no início do ano, de orientações para o imediato, mas essa é uma questão que precisa ir além do agora. Referência é a nossa bússola existencial, é nossa orientação vital, uma rota da vida. Ainda que estejamos, no dia a dia, ocupados com o que iremos comer, onde vamos dormir, onde vamos passar as férias e o que vamos vestir há a questão maior de para onde nos dirigimos enquanto cuidamos do trivial. Jesus chamou atenção para o fato de que a vida é mais que essas preocupações rotineirasem Mt. 6, 25: “Portanto, vos afirmo: não andeis preocupados com a vossa própria vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as roupas?”. Jesus orienta no evangelho de Mateus não sobre a irresponsabilidade ou imprevidência, pois sempre devemos nos ocupar dessas coisas corriqueiras, mas Ele ensina a confiança em Deus. Depois de fazer a Sua vontade, isto é, depois de plantar, regar, cuidar do solo, etc. podemos confiar que Deus dará o fruto da terra, não é preciso sofrer com angústia pelo que virá quando fizermos o que deve ser feito. Jesus não raciocinava de outro modo porque sempre fazia a vontade de Deus.
O que se vai abordar aqui é um outro aspecto da questão do sentido, isto é, seu vínculo aos valores. Essa é uma questão fundamental como mostramos no livro O Homem e a Filosofia. A vida humana precisa de direção e essa vem com os valores que a cultura concretizou no último milênio. Assim, para buscar um sentido para viver além de comer, beber e passear, à parte do gozo irresponsável e rápido, é preciso superar tensões e tentações. E o mundo anda estranho com tanto conservadorismo, imediatismo e gozo irresponsável e ansioso. Qualquer defesa do humanismo, ou até valores cristãos é entendida como comunista. Ou as pessoas perderam a noção dos valores nucleares da cultura ou enlouqueceram de vez depois da queda do muro de Berlim e do fim do socialismo real. Stalinismo, marxismo foram experiências ruins, mesmo que tivessem bons propósitos. Essa experiência está superada na História. Buber já fez, no século passado, uma crítica demolidora a esse socialismo sem moral.
O que não se pode esquecer é que o liberalismo se desenvolveu como: liberdade política, de expressão e pensamento, estado de direito, mas tudo orientado pelo respeito humano e cuidado com os mais fracos. A cultura ocidental se desenvolveu transmitindo para as novas gerações o que foi aprendido com dor e sofrimento na história: sociedades injustas e sem valores não sobrevivem. É sob essa base constitutiva da cultura e inteligência que a vida de cada homem se individualiza e socializa. É aquilo que cada homem incorporou como valor, que o prende ao destino dos outros. Foi porque a cultura ocidental assumiu as raízes orientais judaico-cristãs que seus valores de paz e justiça se universalizaram.  Quando o que impera é o gozo rápido e irresponsável, a vantagem imediata, vem junto a injustiça, a miséria, as drogas, as relações superficiais, o egoísmo generalizado, a corrupção e o desânimo na vida dos povos. E um tempo assim, não de perda mas de afrouxamento dos valores, de desânimo e descrença que está ganhando força nesses dias.
Fazemos uma sociedade boa aproximando nosso destino singular do dos outros homens, ainda que nunca deixemos de ser nós mesmos ao fazê-lo. Essa é a ambiguidade inalienável que é própria do homem, ao mesmo tempo que se é único e singular na forma de compreender e viver, se é parte de uma comunidade e mesmo partícipe de uma humanidade comum. Não se trata de viver uma ou outra realidade isoladamente, pois isso leva ao totalitarismo ou à loucura. A liberdade se vive no exercício da responsabilidade moral, a vida social numa democracia pelo direito e valores, uma sociedade que mesmo imperfeita procura sê-lo cada dia menos.


sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

UM TRATADO DE LIVRE COMÉRCIO ENTRE UNIÃO EUROPEIA E MERCOSUL. Selvino Antonio Malfatti.




Aconteceu há poucos dias uma reunião de cúpula da Organização Mundial do Comércio, permeada de confronto de interesses. Ultimamente a liberdade comercial foi desrespeitada em escala global. 
Mormente no ocidente. Mas algo genuíno poderia acontecer: União Europeia e Mercosul poderiam assinar um Tratado de Livre Comércio.  Está ainda em fase de negociação. As tratativas esboçam-se como um verdadeiro laboratório para pesquisas, não somente econômicas, mas de todo tipo, devido às estratégias de cada ator, um verdadeiro ensaio da teoria dos jogos.

Teoricamente, parece que a maioria é defensora do livre mercado. Mas, na prática se pratica o protecionismo. É o que acontece com os protótipos liberais Reino Unido e Estados Unidos. O primeiro, optou pelo Brexit e o segundo levando adiante o sonho das barreiras. Trump mal chegou à Casa Branca iniciou a regoneciação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLC). Suspendeu as negociações comerciais com a Europa. Não levou adiante o Tratado Transpacífico (TTP). A ideia americana  de livre comércio está alicerçada em relações bilaterais e com isso é fácil impor a própria vontade sobre os demais. Por isso se pode prever o boicote dos Estados Unidos à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Se o acordo sair entre Mercosul e União Europeia será no sentido de liberar pelo prazo de dez anos o intercambio de 90% dos produtos entres dois grupos regionais.

Já são transcorridos vinte e dois anos desde o início das negociações. Ultimamente tem avançado bastante, mas há sempre alguma parte que não quer ceder, como é o caso dos franceses que temem pelos seus produtos agrícolas e pecuários. Foi oque aconteceu em 2010 quando a União Europeia ofereceu um quota de 78.000 toneladas. A pressão de vários ministros da agricultura fez com que se retirasse a proposta. Em outubro foi a vez do Mercosul se retirar ante uma proposta de 70.000 toneladas de carne da União Europeia.

Novamente se retomaram os esforços. No entanto, o Mercosul quer uma quota de 280 toneladas. Agora a briga é entre os membros do Mercosul, principalmente argentinos e brasileiros. E como sói acontecer nestes casos, não se toma nenhuma decisão, se nomeia uma comissão e se faz uma Declaração conjunta com o compromisso de avançar e lograr um tratado definitivo no futuro, no caso, antes de meados do próximo ano.

O tratado entre Mercosul e União Europeia poderia ir  muito além das finalidades econômicas e encanhar-se para outros setores menos excludentes. Poderíamos citar a livre circulação de trabalhadores entre os dois blocos. Com vantagens para ambos. Outra seria cultural, pois estudantes de ambos os blocos poderiam intercambiar-se sem necessidade de vistos. Cada bloco teria suas vantagens, inclusive, os europeus pela oferta de empregos na parte do Mercosul e os daqui apossar-se do know how da União Europeia. Paradoxalmente ocorreria uma globalização regional. 
A grande vantagem é que os países da União Europeia não são tão fortes e, os do Mercosul, não tão fracos em suas áreas específica, com autonomia para negociação e por isso poderia haver um intercâmbio mais igualitário. Diferentemente, tanto União Europeia como Mercosul,um tratado com os Estados Unidos, ambos levariam desvantagens. Entre si, porém, ambos teriam vantagens



sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

2018. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei



Um novo ano vem aí, logo depois da linda festa de Natal. Linda não só porque as cidades e as casas se iluminam e a decoração das lojas propõe o brilho da festa. Também por isso, porque a beleza encanta, a limpeza agrada e faz olhos reluzirem e sorrisos se abrirem. Sorrisos das crianças de muitas idades que ficam ainda mais encantadores nesses dias onde a fantasia propõe descanso e alegra a vida sem mistificar as dificuldades. Porém, ainda mais linda a festa porque comemora o nascimento de Jesus, não como um fato passado, mas como um plano permanente de aliança entre a terra e os céus que permanece firme, apesar das limitações dos homens. E o menino que Deus envia convida para a elevação espiritual da humanidade. Isso para que o homem possa se tornar melhor a cada dia, na sua relação com os outros e na sua relação com a natureza. E para que isso fosse possível, para nos livrar de ser um bando de malfeitores, assassinos e ladrões, o menino Jesus não fez caso de sua condição divina e quis dividir conosco, dores, angústias, medos, tristezas e a morte. Diz Paulo em sua Carta aos Filipenses desse menino santo (2, 6-8): “Ele que era de condição divina não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus. Mas se despojou a si mesmo tomando a condição de Servo, tornando-se semelhante aos homens”.
O que se celebra a cada final de ano não é um tecido de destino que se desenrola sem o esforço do homem. Os contornos da salvação de Jesus dependem de quanto nos esforçamos para criar o Reino de paz que Ele anunciou. Pois, o Pai com sua misericórdia e paciência espera o homem ir se elevando gradualmente. E se não ajudamos muito o Reino demora mais porque uma sociedade de paz, sem tantos ladrões políticos e não políticos, sem tanto assassinato, sem tanto sofrimento depende do quanto nos preparamos para participar dos planos do Pai. Precisamos mais desse Reino do que Deus necessita dele porque somos nós que multiplicamos dores desnecessárias, injustiças evitáveis, contradições insuportáveis e sofrimentos contornáveis. O Reino é uma festa que depende de nós.
A descoberta da filosofia moderna de que somos temporais, ou de que o tempo é o tecido de nossas vidas, foi uma revolucionária intuição. Ela mostra que como indivíduos e como sociedade somos aquilo que escolhemos e vamos nos tornando aquilo que vivemos. E assim, a cada dia, consciência histórica significa consciência de que somos o que nos tornamos. Cada mal praticado se torna parte de nós e ficará conosco, alimentando uma culpa que dificilmente arrastamos sem o perdão, aquele que podemos oferecer aos outros, na esperança de que nos perdoem também eles. E assim, se nos perdoamos mutuamente, Deus também nos livra dessas culpas. E as culpas não são para ficarmos nelas, mas para ajudar a reconhecer quanto limitados somos e o quanto necessitamos dos outros. Por isso, a relações corretas que a ética preconiza decorrem de precisarmos dos cuidados dos outros, do carinho dos outros, da força dos outros. Uma sociedade não sobrevive sem relações éticas. As outras ordens normativas (costumes e Direito) dela decorrem.
E os desafios da vida não são para desanimar, mas para mudar. Nossos pensamentos se estabelecem na vida tecida pelas escolhas para consolidar experiências e preparar o devir. A consciência histórica, marcada pelos dias, meses e anos que passam, marca o já vivido e serve para compreender a circunstância em que isso se deu para orientar o ainda não foi vivido. O plano de Deus se ajusta anualmente aos nossos movimentos, mais para perto ou para longe. Depende de nós.


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