sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

RAÇAS E COTAS. Selvino Antonio Malfatti.
























A Universidade Federal de Santa Maria –UFSM - reserva cotas para alunos do sistema público e para os autodeclarados: negro, indígena, pardo ,num total de 220 cotas. Além disso, o candidato deve se submeter à entrevista constituída por uma comissão que envolve aluno, professor, técnico e representante do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros.
Há algum tempo uma candidata do curso de pedagogia se autodeclarou parda e provisoriamente foi matriculada. Na entrevista a comissão entendeu que ela não podia ser considerada parda e, portanto, perdeu a vaga. Não conformada ingressou na justiça.
Outra candidata ao curso de medicina da mesma universidade também se autodeclarou parda. A comissão entendeu que não se enquadrava nos critérios e negou-lhe a matrícula. Ingressou com uma ação na justiça, recebendo do juiz parecer favorável, alegando que uma comissão não tem competência para julgar a raça.
Aí que está o problema. Raça nunca deveria ter sido critério para nada. É um argumento cientifico falso. Raça não pode ser critério para avaliação nenhuma por que é errôneo. Já vou demonstrar o que afirmo.
O conceito de raça não tem mais nenhum valor científico no estudo do ser humano: nem para a antropologia física ou biologia, apenas pela antropologia cultural. As diferenças físicas mais ou menos evidentes (cor da pele, estatura, forma craniana) não têm relação com a capacidade cognitiva, comportamentos sociais ou qualidades morais.
Há mais de décadas que antropólogos e genealogistas não se cansam de enfatizar que 99,9% do patrimônio genético é comum aos seres humanos e que apenas 0,1% varia discretamente entre as populações e não entre indivíduos. Por isso, o conceito de raça não tem mais direito de cidadania e deve ser banido por motivos científicos.
Não estão na mesma ordem as diferenças culturais e por isso antropológicas, conforme Edward Tylor com as Primitivas Culturas ou Franz Boas e Claude Lévi-Straus em Raça e História e Raça e Cultura. Aqui sim se pode encontrar as diferenças, mas não na raça. As pessoas e os grupos se diferenciam não por que são negros ou pardos mas, por que são diversos culturalmente, como etnia, meio ambiente, oportunidades.
O conceito de raça humana desaparece da ciência, mas reaparece no imaginário coletivo e principalmente na retórica política ou ideologia servindo para estigmatizar a diversidade cultural. Todos conhecem os efeitos nefastos da ideologia de raça que desencadeou as mais cruéis e sangrentas guerras. Inclusive o direito entrou nessa história e a maioria das constituições, ao garantir os direitos do homem, cita a raça.
No caso das cotas da UFSM se o sujeito objeto da ação não existe, não existem também os problemas que se diz inerente a ele. Se Paulo não existe, não existe tampouco a gripe de Paulo. Logo, as ditas ações afirmativas são concessões de privilégios.
No entanto, o que existe é o cultural e as ações afirmativas podem e devem incidir nele. Quais poderiam ser? O cultural diz respeito à educação, ao ambiente social, às oportunidades de trabalho e formação. Se todos são racialmente iguais e as culturas diferentes, deve-se apostar no cultural e não na raça. Apostar na raça é criar ou aprofundar as disparidades. No caso da candidata de medicina – através de normas errôneas – criou uma injustiça. Alguém que disputou pelo critério cultural foi eliminado pelo racial. Devem valer os mesmos critérios para o mesmo objetivo.

Infelizmente ainda tem abrigo na Constituição brasileira o conceito de raça quando invoca a igualdade LEGAL: Todos são iguais perante a LEI, sem distinção de sexo, RAÇA, trabalho...Em outras palavras, reconhece as diferenças de raça, da mesma forma que de sexo...

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A República e os Valores. José Maurício de Carvalho


A República respousa sobre a virtude - Montesquieu

O assalto contra a Petrobras que ocupa diariamente nossos noticiários, envolvendo empresários inescrupulosos, burocratas oportunistas, políticos sem espírito público e partidos convertidos em máquinas de roubar a coisa pública, é um triste capítulo da história da República. Não é o único e provavelmente não será o último. De um lado, há a própria condição humana afeita a benefícios sem esforço, num clima que ganhou força nas últimas décadas. Vivemos um tempo que Ortega y Gasset denominava tempo das massas, isto é, um tempo de direitos sem deveres. E a essa realidade soma-se uma tradição patrimonialista que não diferencia bens públicos de particulares, de modo que o cidadão se apropria para o próprio uso de coisas públicas sem pudor. Tanto a noção de massa quanto o patrimonialismo não possuem base moral sólida, capaz de assegurar o respeito à coisa pública e a democracia liberal.
No entanto, há fatores circunstanciais que agravaram essa base moral frágil na qual nos assentamos. A estrutura partidária, com dezenas de agrupamentos de aluguel que foram constituídos com a única finalidade de favorecer seus criadores, é um exemplo. Sem mexer nela, com governos formados pela coligação de muitos partidos, agremiações sem qualquer afinidade programática, sem sólidos programas, sem fidelidade partidária, teremos um governo que leiloa cargos e oferece benefícios em troca do apoio parlamentar. Chegamos ao absurdo de termos dois representantes dos dois maiores partidos do governo disputando a Presidência da Câmara e falando em autonomia do Congresso. De que autonomia falavam? Se é a independência do Poder Legislativo isso é matéria constitucional sobre a qual não há dúvida. Se  independência é do governo e do seu programa de atuação, como parece ser, isto é completo absurdo, pois os partidos eleitos o foram para cumprir o programa partidário. Os deputados de um partido são solidários aos colegas da administração, pois formam um mesmo grupo ideológico. Um sistema parlamentar talvez corrigisse tais absurdos.
Outro fator que contribuiu para o botim contra a Petrobras é o mal funcionamento do Estado. Quando o Estado funciona mal, suas instituições ficam fragilizadas: as forças militares não protegem as fronteiras, a polícia não prende os bandidos, o judiciário não julga, as leis não são respeitadas, cria-se um clima de insegurança jurídica e sensação de impunidade que favorece toda a sorte de mal feitos. De bandidos armados a bandidos do colarinho branco, todos apostam na fragilidade do Estado. Como entender a ação de bandos que assaltam bancos com fuzis automáticos e dinamites, numa triste rotina que afronta os órgãos de segurança e de inteligência do Estado? Os bandidos do colarinho branco, por sua vez, assaltam como podem, na mesma volúpia do enriquecimento rápido e sem trabalho.
Há ainda a fragilidade da educação, com uma escola mal cuidada e professores desprestigiados. Sem um sério programa cultural, que inclua uma boa escola, sem a educação cidadã, que ensina a respeitar a coisa pública para viabilizar a vida social não vamos corrigir o mal feito e a desesperança.
Finalmente, a falta de ensinamento moral nas escolas e famílias, formação moral muitas vezes associadas às religiões, também contribui para esse estado de coisas. Nossa cultura ocidental está estruturada sobre a moral cristã, mas perdemos essa dimensão. Mesmo nas Repúblicas laicas, o respeito ao cidadão, sua liberdade e dignidade estão respaldas na noção cristã de pessoa, criatura livre, digna e responsável. Quando o outro não é respeitado e o cidadão não age de forma responsável, a vida social torna-se inviável nas democracias liberais.

Para que não se tenha a sensação de que vivemos num país sem solução há de se lembrar que essas dificuldades podem ser superadas pela decidida ação da sociedade. E me lembro de um Prefeito que pagava pequenas contas da Prefeitura com seus próprios recursos e viajava para a capital com o lanche no bolso para não receber diárias. Nem tudo está decididamente perdido. Não vivemos num país sem futuro ou esperança, mas a esperança e o futuro precisam ser construídos com o esforço responsável da sociedade.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A SOCIEDADE DO IMPULSO. Selvino Antonio Malfatti




Acaba de ser lançado o livro, The Impulse Society, de Paul Roberts, o qual tece críticas à sociedade atual caracterizada pelos impulsos. Para ele, esta situação é tão dramática por que houve uma conjunção entre os impulsos individuais e o mercado. Se alguém manifesta um desejo individual o mercado imediatamente se apresenta para satisfazê-lo.
O impulso a que se refere Roberts é o consumismo. Evidentemente que há diferença entre consumo e consumismo. No primeiro, as pessoas adquirem somente o que é necessário no presente ou no futuro. No segundo, as pessoas gastam excessivamente com produtos supérfluos, levados na maior parte das vezes pela propaganda. Quando as pessoas ou uma sociedade inicia o processo de consumismo entra num estado de compulsão e torna-se patológico. Compra tudo o que vem pela frente, até mesmo o que não precisa. A compulsão altera o caráter das pessoas e muitas vezes furtam ou roubam para exibir que possuem determinados produtos e aparentar status.
A explicação econômica – existem outras – pode ser localizada historicamente na Revolução industrial. Esta possibilitou a fabricação em massa e em série de produtos, popularizando-os e ao mesmo tempo barateando. Mas isto também só foi possível devido à ideologia liberal que individualizou os desejos. Não era mais a Igreja, o senhor ou o Estado que dizia o que cada um precisava, mas cada um individualmente ditava suas próprias ordens e escolhia o que gostava. A Revolução industrial, juntamente com uma sociedade liberal, deu origem a uma economia capitalista que precisa produzir sempre mais, consumir sempre mais, ad infinitum.
Para isso, juntam-se à ciência da informação e propaganda que divulga o que é produzido e mostrando suas vantagens, aumentado e alterando os efeitos. Já não se anuncia mais um carro bonito, potente, seguro, mas um carro com uma mulher ou um artista. A imagem foi alterada e sua visão aumentada. As pessoas humildes, se autoprojetam como gozando de um status de classe elevada. Engalfinham-se, então, na compra, lançando mão do crediário o qual leva ao endividamento.
Isto não é bom por que uma economia reorientada para dar-nos aquilo que queremos se descobre que, aquilo que queremos, nem sempre é melhor do que necessitamos. Para Roberts nem um capitalismo puro, aquele cuja ideologia prega que o melhor o é a maior produção combinada com o mais baixo custo, nem uma estatização plena para se atingir a maior eficiência. Nem uma e nem outra ser mostraram perfeitas. Evidentemente que só na primeira pode florescer o impulso, pois quanto maior for o consumo tanto maior será a produção a qual leva ao menor custo. Numa economia estatizada o poder político controla o consumo e por isso a impulso não tem como ser mantido.
As grandes empresas capitalistas estão agregando outros componentes a seus produtos. Já não se vendem mais produtos puros, mas junto com eles status alimentando os impulsos não só de produtos necessários, mas satisfações de desejos pessoais como, por exemplo, os melhoramentos tecnológicos que evitam que num acidente, não só a pessoa não se fira ou morra, mas outras fiquem livres disso.

O autor sugere que deveria haver uma opção intermediária, isto é, frear um pouco a massagem do ego em busca de status, mas evitar que a liberdade seja tolhida. No entanto, isto seria a morte do capitalismo. Pois este supõe liberdade não só de produzir, como de consumir. Aí caímos novamente no mesmo problema ou círculo vicioso: produzir/consumir – consumir/produzir. O próprio Roberts percebe isto.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Discurso de formatura 2015. José Maurício de Carvalho



Magnífica Reitora Valéria Kemp
Senhores pró-Reitores, colegas professores, caros pais e familiares, queridos alunos a quem me dirijo neste momento de conclusão do curso.  

1. Começo recordando. Era dezembro de 1981. Éramos pouco mais que trinta colegas na alegria de concluir o ensino universitário. No velho teatro do campus Dom Bosco, com suas cadeiras de madeira, suas paredes amarelas, portas abertas para o pátio, tela suspensa sobre o palco enfeitado, diante da congregação reunida, nós nos apresentamos. Havia naquela hora um clima de ansiosa expectativa. Soprava o vento quente das noites de verão, acima do pátio o céu estrelado e poucas nuvens formavam a moldura de um dia mágico que terminava. Ele fora precedido de uma véspera de abraços e de um emocionante almoço de despedida. Nunca esqueci o olhar de cada colega naquela hora de despedida. Todos estavam ali de corpo e alma. Começar recordando aquele momento inesquecível para mim foi a melhor forma que encontrei de introduzir esse discurso.  Acredito que esse momento seja para vocês tão feliz quanto foi para mim aquele dia de dezembro de 1981. Vivíamos, melhor dizendo, um misto de alegria, apreensão e tristeza, felizes pela conclusão dos estudos, ansiosos pelo início da vida profissional e tristes pela separação irremediável dos colegas. E havia mais razão para essa mistura de sentimentos, aqueles colegas que havíamos conhecido adolescentes e estavam então crescidos estariam longe de nossos olhos em poucas horas. Dificilmente nos encontraríamos novamente, pelo menos todos nós. Previsão concretizada, mesmo nos encontros de turma sempre faltaram alguns e hoje nem todos estão mais entre nós. E se antes sem dificuldade podíamos escutar todos eles, depois da formatura já não era mais possível. Ficou hoje a dor da ausência dos que ficaram na memória.  E por isso, em meio a alegria de nossos pais e familiares, da sensação de dever cumprido, corria uma lágrima escondida nos olhos já saudosos pela despedida que se aproximava.  

2. Janeiro de 2015. Encontram-se vocês neste teatro como turma  pela última vez, com o desafio próximo de trabalhar ou continuar os estudos. De todo modo, o que os espera agora que deixam a graduação universitária para se apresentarem à sociedade como professores de Filosofia? Que mundo os aguarda? Já não a guerra fria, o mundo pós Segunda Grande Guerra, os tempos da ditadura, como foi o mundo encontrado por minha turma. Vocês encontrarão um mundo novo, um século novo, um milênio novo. Um mundo com outros problemas e dificuldades. Um mundo onde as guerras setoriais substituíram as guerras mundiais, um mundo com a nova família construída mais pelo afeto que pelo sangue, um mundo com nova composição política, com novos países, um mundo em que nosso país ainda permanece mais à margem que no centro dos grandes acontecimentos. Um mundo em que explodiu o vício da droga e a violência urbana, no qual ressurgiu o terrorismo religioso, onde reapareceu o fanatismo religioso que escraviza ao invés de libertar. Um mundo onde se corta cabeça das pessoas em nome da fé. Um mundo assim precisa de Filosofia.

3. E para esse país que espera tanto e precisa tanto de seus jovens, o que vocês podem oferecer? É hora de se perguntarem o que farão pela sociedade que lhes pagou o estudo, como colaborarão com aqueles que com o suor do seu imposto mantiveram abertas as portas da universidade, custearam as bolsas que receberam, encheram de livros a biblioteca onde pesquisaram, pagaram a limpeza do ambiente, ajudaram nas viagens de estudo que vocês fizeram. O que vocês podem realizar como professores de Filosofia para esse nosso país e seu povo? O principal da missão de vocês parece ser levar para as escolas a fé na razão e na capacidade humana de respeitá-la, mesmo quando os fatos vividos, a irracionalidade e a violência sugerem que devemos perder as esperanças na humanidade e no futuro. Um país em que se tortura crianças, em que se mata com a facilidade que hoje vemos, onde os velhos não são objeto de cuidado, onde a diferença social coloca alguns à margem da dignidade. Não há dúvida, esse país precisa de Filosofia. Necessita cultivar os produtos da inteligência, incluída a inteligência prática da moralidade.

4. Vocês são chamados a refletir nas escolas e fora delas sobre a vida e seu sentido, a dar à realidade um sentido e a falar de esperança para nossos jovens. Viver é experiência que compartilhamos com as plantas e animais. A nossa vida, contudo, tem algo diferente dessas vidas e a Filosofia retrata esta singularidade. Vocês estudaram o que a tradição filosófica pensou de nossa existência, pelo menos o mais importante. Pode ser que a algum homem possa parecer possível deixar passar a vida como se ele fosse um pé de feijão germinando nos dias de sol e chuva. No entanto,  temos experiência de que a vida humana não é o crescimento mecânico e inconsciente do feijão, ela implica em pontos de perspectiva e um sentido. E vocês terão que trabalhar esses assuntos com seus futuros alunos. A referência aos grandes pensadores da humanidade que vocês estudaram é o instrumento para fazer isso. E nossos jovens vão precisar de vocês, a nossa escola precisa de seus professores filósofos. Nossas crianças precisarão aprender a viver uma vida singularmente humana, a olhar o outro com respeito, aprender não só o conteúdo das unidades pedagógicas, mas o significado da ciência e do seu uso, entender os limites do homem, aprender a conter os próprios impulsos e cultivar valores. Enfim, a levar as lições da Filosofia para o dia a dia. E quem de vocês não for para a escola deverá fazer da sociedade seu objeto de atuação e refletir diariamente sobre o sentido de uma vida autenticamente humana para essa nossa sociedade tão carente de humanidade.

5. Voltemos ao ponto de perspectiva que falamos atrás, o que ele é? Um tal ponto é um momento especialíssimo da nossa existência. Temos poucos deles durante nossos dias nessa terra. As pessoas mais privilegiadas talvez experimentem umas quatro ou cinco ocasiões assim. Esses momentos especiais são aqueles nos quais tudo o mais vivido parece adquirir uma razão que aparentemente não tinha. Que melhor exemplo de um momento desses que o batismo de Jesus de Nazaré. Ele viveu um momento de perspectiva quando foi batizado por João e saiu transformado das águas do Rio Jordão. Naquele momento iniciou sua trajetória de rabino e profeta, deixando para traz a vida de carpinteiro e construtor de cidades que o ocupara antes de se tornar um mestre da humanidade, o filho de Deus na fé de milhões de homens.

6. Ocorre uma mudança semelhante na vida quando deixamos um emprego seguro, mas que não realiza para viver o sonho de um trabalho libertador; ou superamos um relacionamento conveniente, mas que não nos faz feliz; ou ainda quando arriscamos morrer por algo ou alguém, mas sem o que ou quem a vida não teria gosto.  A rigor, o ponto de perspectiva mais importante é o momento da morte. Nesse momento tudo o que foi feito pode ser olhado de traz para frente, naquele instante em que a vida vivida revela seu ponto de chegada. Nessas ocasiões extraordinárias, o que fazer diário, as escolhas aparentemente banais como ir aqui ou ali para almoçar, tomar café ou chá, estudar nessa escola ou naquela, ganham importância que aparentemente não tinham quando foram vividas. As escolhas feitas tornaram-se parte de nós, mesmo que não tivéssemos consciência do fato quando as fizemos. Aqueles momentos vividos estão grudados em nós e não podem ser removidos, nos apropriamos deles e agora fazem parte de nossa história, do que somos, do que nos tornamos.

7. O sentido da vida é a direção dada ao que se faz. Pode-se ter do fato mais ou menos consciência, pode-se considerá-lo mais ou menos importante. No entanto, como viver não se assemelha a fazer um bolo seguindo uma receita, a questão do sentido é sempre surpreendente pelo ineditismo que representa. Como nosso que fazer nessa vida não tem roteiro prévio, vivemos inseguros nas escolhas. Inseguros dos resultados obtidos, sem confiança de que estamos no rumo certo, na dúvida se devíamos ou não ter mantido o relacionamento com aquele amor adolescente de tantos sonhos, sem saber de devíamos ter insistido naquele emprego ou profissão antes de largá-lo para tentar algo novo. Enfim, um Pinheiro cresce no jardim onde foi plantado ou no lugar onde sua semente se fixou, o leão segue seus instintos para fazer filhotes e para lhes levar o alimento caçado nas estepes, o homem vive cheio de perguntas onde quer que habite, não importa o tempo em que viva. Por isso em meio a suas dúvidas há necessidade do exercício da razão da qual vocês se tornaram guardiães.

8. É a razão que nos deve guiar na busca de resposta para as perguntas: até quando continuaremos a usar mal a natureza a ponto de comprometer as futuras gerações? Até quando continuaremos a fabricar bombas para jogar uns nos outros?  Até quando a indiferença nos fará fechar os olhos ao sofrimento alheio quando não somos nós mesmos a causa desse sofrimento? Até quando conviveremos com a corrupção, criticando quando beneficia os outros, mas aceitando felizes se somos os beneficiados da mamata, aspirando coisas imerecidas, querendo aposentadoria sem trabalho e/ou resultados para os quais nada fizemos por merecer? Até quando lutaremos por direitos sem deveres ou aceitaremos a violência como solução para os problemas? Até quando compactuaremos com o saque em caminhões acidentados? Até quando desrespeitaremos as leis de trânsito quando não há um policial para fiscalizar? Até quando sujaremos nossas ruas e picharemos os muros de nossas cidades com frases e rabiscos sem sentido?

9. Dúvidas não nos faltam, e há aquelas que não tem significado moral, mas metafísico ou gnosiológico: será que já conhecemos com precisão o mundo, ou poderemos conhecê-lo melhor? Temos razões para acreditar em Deus, qualquer que seja nossa crença? Pode o universo em que habitamos ser reduzido aos elementos que lhe dão fundamento? Podemos pensar um fundamento para o mundo? E diante dessas questões cabe ainda indagar: até quando aceitaremos uma vida sem reflexão que nos afasta e nos faz esquecer de nós mesmos? Até quando viveremos longe da Filosofia e do efeito benfazejo que ela traz quando desperta em nós a pergunta pelo fundamento e nos oferece um rumo na vida?

10. Enfim, para tudo isso com que lidamos e, em última instância, e para tratar da vida mesma, a Filosofia não pode faltar. E nossa existência é de tal forma que a reflexão filosófica pode não só ajudar, mas nos obriga a fazê-la melhor. Pode ajudar a fazer escolhas mais responsáveis, a entender o caminho a seguir. Não há como ensinar uma Filosofia distanciada da ciência, mas uma feita a partir de seus resultados e limitada por suas provas. Uma Filosofia ao lado da ciência, mas que, diferentemente dela, se obriga a sempre renascer ao pensar o fundamento, pois a originalidade da formulação expressa a renovação da vida e o propósito de tratá-lo mais corretamente. O problema filosófico nunca se esgota, ele se renova, ele é como a vida.


11. A Filosofia como atividade é algo que o homem faz. Considerada uma forma de relação com a sabedoria nas suas origens gregas, a Filosofia é uma forma de pensar o mundo pela qual o homem mostra mais claramente o que há. E quando pensa sobre sua vida, a descobre construção de um sentido e uma reflexão sobre a perspectiva. Fazer esse trabalho, dialogando com a tradição filosófica, ajudando a pensar, permitindo a cada pessoa descobrir o significado da vida e fazer dela algo que valha a pena não é tarefa fácil, mas é imprescindível. Creio que é isso o que a sociedade espera de vocês, creio que é essa a missão do professor de filosofia e do filósofo, trabalhar a razão como  alimento da ação. E fazendo isso vocês estarão no centro do processo educativo e a escola não se imaginará sem vocês, nosso país não abrirá mão do vosso trabalho. E a sociedade, algumas vezes sem entender bem, acabará percebendo ser imprescindível o filósofo no cultivo de uma nova humanidade pela racionalidade, pelo treino e exercício de obter e dar razão.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

FIDELIDADE E COMPORTAMENTO POLÍTICO. Selvino Antonio Malfatti.




Se pensarmos que fidelidade só diz respeito à relação entre marido e esposa estamos enganados por que é incompleta. Fidelidade é uma categoria ética que pode ser também jurídica. Mas antes de tudo é ética. Por isso, pouco ajuda estabelecer leis para regular o comportamento ético. Este brota de dentro, do coração ou da razão. Por isso mesmo, a fidelidade diz respeito à relação entre o empregado e patrão, entre professor e aluno e evidentemente entre marido e mulher. Mas há uma categoria social que faz que não sabe que estão vinculados por uma ética de fidelidade. Dizia o chanceler Bismark: nunca se mente tanto como antes das eleições, durante a guerra e depois de uma pescaria. Fiquemos com a primeira situação: a relação entre candidato e eleitor. Já ouviram falar de algum candidato ser preso por causa das mentiras de campanha? E, no entanto, deveria haver uma relação de fidelidade entre os que prometem e aquilo que prometem com os que aceitam o proposto acreditando na sinceridade. Ou a ética e a política residem em quartos separados? Se de fato houvesse um casamento entre os eleitores e os políticos, isto é, uma relação de dependência como se crê, poderíamos, nós eleitores levá-los perante os tribunais. E a lei prevê esta dependência e consagra o princípio ético. Com efeito, se todo poder emana do povo, os que o exercem são dependentes de quem os elegeu e portanto, têm um dever de fidelidade a este povo. Foram eleitos para o bem dos cidadãos e consequentemente deve agir assim.
No entanto, se observarmos a realidade o quadro é bem outro. Uma vez eleito, o candidato adquire vida própria, só se preocupa com seu próprio bem, de seus parentes e amigos, rouba, trapaça, desvia, enfim, age como o antípoda da ética. E nem povo e nem lei conseguem frear este desvario antiético. A fidelidade é jogada pela janela e a ética violentada, humilhada e pisoteada publicamente.
E surge então a pergunta? Por que pode acontecer isto? Se nem a lei e nem a filosofia conseguem explicar, talvez a sociologia nos lance uma luz.
O comportamento social está alicerçado sobre três categorias populacionais. A primeira categoria que poderíamos denominar de Alfa (trendsetter). São atípicos, não seguem o padrão e não se deixam influenciar, criam comportamentos. Intermediariamente alocam-se os Betas (early adopter) que captam o comportamento dos alfas e o dissemina para os demais, menos para os Alfas. E por fim temos a categoria comportamental dos Gamas (mainstream), dos comuns, da maioria que seguem o que os Betas lhes transmitem. Não influenciam nem os Betas e muito menos os Alfas. Estes comportamentos podem varias de conteúdo para conteúdo. Uns podem Alfas em economia, e Gamas na política. Outros podem ser Betas na religião, e Gamas em arte.
No caso da política se formos aplicar a teoria dos comportamentos, pode-se constatar que os Alfas são autônomos em relação aos Gamas e mandam seus padrões através dos Betas que se abstém de criticar os Alfas por que é deles que dependem para sua sobrevivência, os quais passam as orientações para os Gamas: maioria incapaz de mudar a situação. O povo- os Gamas, a mídia - os Betas e os políticos - os Alfas.

Se os Alfas, por uma educação deficiente, ou ideologia não comprometida com a democracia, emitir tipos de comportamentos antiéticos, estes serão levados para os Gamas pelos Betas. Os comuns acham “normal” este tipo de comportamento e não reagem a ele. E se isto se incrustar nos líderes políticos, através de seus partidos, esta oligarquia apertará as tenazes de ferro sobre o povo e o como diria Robert Michel. E a fidelidade política é mandada para as cucuias.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O fundamentalismo e o terrorismo religioso. José Maurício de Carvalho


Foi um choque para os franceses e, para os ocidentais em geral, o ataque executado esta semana pelos irmãos Said e Chérif Kouachi ao jornal parisiense Charles Hebdo. Como o assassinato dos jornalistas e policiais pelos dois irmãos foi executado por quem tem treinamento militar, veio a tona que eles foram treinados pela Al Qaeda da Península Ibérica. A organização assumiu a responsabilidade pelo atentado como represália às ofensas feitas ao Profeta Maomé. Aliás, o mesmo jornal foi alvo de outro ataque terrorista que destruiu sua redação em 2011, embora na ocasião sem causar nenhuma morte. Agora a ação foi radical contra os jornalistas e matou boa parte da equipe que compunha o hebdomadário.
A razão alegada para o ataque foram as charges ofensivas ao profeta Maomé, uma marca do jornal francês. Os jornalistas comentaram indignados o atentado levando o assunto para a defesa da liberdade de expressão e de opinião, valores do ocidente. Contudo, defender a liberdade de expressão só faz sentido num determinado contexto, e, nos dois casos, o problema foi muito mais grave que o desrespeito à liberdade de expressão. O segundo ataque sequer foi aos jornalistas. Para entender o fato temos que olhá-lo noutra perspectiva à procura dos motivos que levam a tais acontecimentos. Ainda que exista razões mais amplas que as alegadas para os ataques como interesses estratégicos envolvendo a criação de Estados Islâmicos ou repúdio puro e simples ao modo de vida ocidental (inclusive à liberdade de imprensa), esses outros motivos têm origem religiosa e contrapõe, pelo menos parte dos muçulmanos fundamentalistas, ao modo de vida ocidental. Assim para entender esse movimento precisamos ter claro que não há terrorismo religioso sem fundamentalismo, embora nem todo fundamentalismo religioso leve ao terrorismo. Parece que o fundamentalismo religioso é o problema a ser enfrentado e no caso, o fundamentalismo islamismo.
O massacre no jornal francês seguido do ataque ao supermercado Kosher, onde outro radical (Amedy Coulibaly) matou 4 pessoas antes de ser morto pela polícia, obriga à seguinte questão: faz sentido uma interpretação religiosa do texto sagrado que leve ao ódio ao diferente e estimule o assassinato como nos dois acontecimentos? Não há na moral islâmica (deixemos de lado a moral filosófica que normalmente importa pouco aos fundamentalistas) nenhuma restrição à violência e defesa do respeito ao semelhante como algo sagrado a ser preservado? Como a interpretação dos textos sagrados, de qualquer religião, é sempre trabalho do homem, o fato indica duas coisas. Primeiro que é necessário despender todo esforço e inteligência humanas no sentido de compreender os textos sagrados (de qualquer religião). Esse trabalho, muitas vezes pouco valorizado, é essencial para melhor compreensão desses textos. Segundo que se mesmo as interpretações desses textos cercadas de todo cuidado histórico, literário, hermenêutico, filosófico não assegura um conhecimento perfeito e completo da vontade de Deus. A leitura fundamentalista, quase sempre literal e pouco crítica conduzirá, a erros grosseiros de interpretação.

Considerando-se que o islamismo não é uma religião do ódio e da barbárie, caberá as suas lideranças religiosas se contraporem de forma clara e direta a essas interpretações radicais. Se não o fizerem serão cúmplices desses atos. A melhor resposta à ignorância praticada em nome de Deus é a inteligência colocada a serviço de Deus. Está na inteligência e no estudo as melhores de chances de termos um tempo de maior tolerância e paz entre os povos, cada qual vivendo sua fé e direção. E para os crente do mundo valerão os muitos caminhos que nos conduzem verdadeiramente até Deus.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

TV SOCIAL: CONTEÚDO E MEIO. Selvino Antonio Malfatti.





















Fala-se muito atualmente em TV social. Afinal o que é de fato isto, pois não é de sua própria natureza o caráter social da TV? Na medida em que sincroniza as pulsações de uma comunidade, a TV por si já não é uma instituição coletiva? Com efeito, assim é, mas a TV social é algo bem distinto da TV geral.
A TV social é um intercâmbio constante entre o público assistente da televisão e o programa televisivo. Neste sentido, inclui o comportamento social, dispositivos e redes. Incorpora network, facebook e twitter e outras ferramentas. É como se dois programas funcionassem simultaneamente. Enquanto você vê ou assiste algo, pode paralelamente ver e assistir outro e guardar os dados do segundo ou mesmo utilizá-los no momento, caso seja protagonista do programa em execução. Então, TV social é a interação entre televisão e o público através da web. A estrutura não é hierárquica, isto é, vertical, mas horizontal. Por isso, é mais uma não estrutura do que estrutura. Os limites que se estabelecem não são de separação e sim de identidade.
Isto significa que uma programação televisiva pode sofrer redirecionamentos durante a execução e ser reprogramada tendo em vista as respostas sociais manifestadas através da web. Evidentemente que o interesse não é o público que assiste, mas o interesse do público que se manifesta. Um bom exemplo, embora não seja genuinamente de TV social, é o caso da novela brasileira. Ela muda e toma direções conforme o público aprova, desaprova ou deseja.
Tudo indica que os textos televisivos fogem do controle da tela e passam a ter vida própria. McLuhan havia dito que o “meio é a mensagem”. No entanto, atualmente transmutou-se para o “conteúdo é o meio”. Busca-se o que agrada, o conteúdo, e através dele se agrada, pelo meio. Isto está se tornando tão crucial que o conteúdo se desprende de seu recipiente. Está acontecendo com a TV social aquilo que se teme com a inteligência artificial: que domine seu criador. Mas este cenário não é tão simples como se descreve. Ocorre que entram milhões ou bilhões de atores cada um deles opinando de acordo com os demais e os demais mudam conforme a opinião expressa pelos outros, que por sua vez, também mudam ao ouvir a opinião dos demais e assim sucessivamente até chegar-se ao estado caótico da Torre de Babel. Este processo não tem rumo, nem desfecho. Tudo pode acontecer.
O importante não é aprovar ou condenar a TV social. O melhor que se pode fazer é refletir sobre esta comunidade que se formou online, as formas de co-envolvimento dos atores e dos programas, em alguns casos, nasce uma relação profunda, em outros superficiais. Também se pode considerar o fato de que em alguns casos é possível se ativar, em outros não. Às vezes diverte, em outras ocasiões enoja. Há casos em que desperta paixões intensas e em outros, ironia. Uns são populares, outros elitistas. Para alguns é passatempo, divertimento, mas para outros é a condescendência de um passatempo proibido.
Na modalidade clássica da TV havia apenas espectadores passivos. Na TV social, ao contrário são os autores que devem se tornar passivos, pois é tamanha a participação dos espectadores através de comentários via  telefone- convencionais ou celulares- facebook, twitter, blogs,twoo, skype e outros que os conteúdos produzidos por tais meios são independentes da vontade dos autores. São produtos derivados de produtos muitas vezes completamente diversos dos produzidos pelos autores televisivos. Formam-se verdadeiras redes. As principais identificáveis são:
1.    As redes comunitárias: envolvem bairros, cidades ou regiões. Defendem e trazem à tona interesses comuns.
2.    Redes profissionais: caracterizadas por networkin, como o linkedin, estabelecendo vínculos ou contatos entre indivíduos parta lucros pessoas ou profissionais.
3.    Redes sociais com objetivos diversos, como bate-papo, jogar, intercambiar.

A única forma atualmente de se sintonizar com o mundo que nos cerca – isto vale para políticos, empreendedores, mestres, investidores – é lançar mão das diversas formas de mediação: mais diretas, mais instantâneas, mais simples, mais velozes. 

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