sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A Filosofia e a Vida. José Maurício de Carvalho







Viver é experiência comum a homens, plantas e animais. A vida do homem, contudo, tem algo diferente das outras vidas e muito já se disse desta singularidade. Há algum homem é possível deixar passar os dias como fazem plantas e animais, permitindo a vida fluir como se fosse a automática rotação da terra. No entanto,  temos experiência de que a vida humana não é um movimento inercial e ela implica em pontos de perspectiva e sentido para o que fazer.
Um ponto de perspectiva é um momento especialíssimo. Temos poucos deles em nossa existência. As pessoas mais amadurecidas talvez experimentem uns quatro ou cinco. São aqueles momentos nos quais tudo o mais vivido parece adquirir uma razão que aparentemente não tinha ou quando nossa existência dá uma reviravolta completa na direção de algo que parece maior e mais significativo. Jesus de Nazaré viveu um momento assim quando saiu das águas do Jordão depois de batizado por João. Ali inicia sua trajetória de rabino e profeta, deixando para traz a vida de carpinteiro e os pequenos trabalhos que realizava em sua cidade e região.
Ocorre algo assim quando deixamos um emprego seguro, mas que não realiza; uma relação confortável, mas que não nos faz feliz; quando arriscamos morrer por algo ou alguém, mas sem o que a vida não valeria muito ser vivida.  A rigor o ponto de perspectiva mais importante é o do momento da morte, se ocorre quando estamos consciente, quando tudo o que foi feito pode ser olhado de traz para frente, quando a vida que tivemos mostra seu resultado. Nessas ocasiões o que fazer diário, as escolhas aparentemente banais como ir aqui ou ali para almoçar, tomar café ou chá, estudar nessa escola ou naquela, ganham importância que aparentemente não tinham no momento vivido. As escolhas passaram a fazer parte de mim, mesmo que eu não tivesse consciência do fato no momento em que escolhia.
O sentido é a direção dada ao que se faz. Pode-se ter do fato mais ou menos consciência, pode-se considerá-lo mais ou menos importante. No entanto, como viver não é como seguir uma receita de bolo em que vamos adicionando ingredientes já selecionados para produzir uma mistura já conhecida e provada, a questão do sentido é sempre importante e se faz presente na vida, ao menos em ocasiões especiais. E como nosso que fazer não tem roteiro prévio, vivemos inseguros com nossas escolhas. Inseguros dos resultados, sem confiança de que estamos no rumo certo, na dúvida se devíamos ou não ter mantido aquele relacionamento com a linda menina ou menino de olhos verdes que conhecemos na juventude, sem saber de devíamos ter insistido naquele emprego ou profissão antes de largar para tentar algo novo. Enfim, o Pinheiro cresce no jardim onde foi plantado ou no lugar onde sua semente se fixou, se o leão segue seus instintos para fazer mais leãozinhos e para lhes levar o alimento caça nas estepes, o homem vive cheio de perguntas onde quer que habite, não importa o tempo em que viva.
E entre as dúvidas que tem muitas referem-se a questões morais que a reflexão filosófica adensa e aprofunda. Por exemplo: até quando continuaremos a explorar nosso ambiente a ponto de comprometer as futuras gerações? Até quando continuaremos a fabricar bombas para jogar uns nos outros?  Até quando a indiferença nos fará fechar os olhos ao sofrimento alheio quando pior não somos nós mesmos a causa desse sofrimento? Até quando conviveremos com a corrupção, criticando quando beneficia os outros, mas aceitando o lugar privilegiado nas filas, ganhando benefícios imerecidos, querendo aposentadoria sem trabalho e ou resultados para os quais nada fizemos por merecer? Até quando aceitaremos a violência?
Dúvidas não nos faltam porque somos um feixe de perguntas, e há aquelas que não tem significado moral mais metafísico ou gnosiológico: será que conhecemos com precisão o mundo, poderemos conhecê-lo melhor? Temos razões para acreditar em Deus, qualquer que seja nossa crença? Pode o universo em que habitamos ser reduzido a alguns elementos que lhe dão fundamento? Como resolver nossos conflitos sociais?
Enfim, para tudo isso com o que lidamos em nossa vida e em última instância com ela mesma, a Filosofia pode ajudar. E nossa existência é de tal forma que a reflexão filosófica pode não só ajudar, mas pode torná-la melhor. Pode nos ajudar a fazer escolhas, a entender melhor. Não uma Filosofia distanciada da ciência moderna, mas feita a partir de seus resultados e limitada por suas provas. Uma Filosofia que ao lado da ciência, mas diferentemente dela se obriga a sempre renascer, pois a originalidade da formulação expressa a renovação da vida.

A Filosofia como atividade é algo que o homem faz. Considerada uma forma de relação com a sabedoria nas suas origens gregas, a Filosofia é uma maneira de pensar o mundo pela qual o homem mostra mais claramente o que é e se relaciona com a realidade. E quando pensa sua vida a descobre construção de um sentido e uma reflexão sobre a perspectiva.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

TENDÊNCIAS ELEITORAIS POR REGIÕES NO BRASIL. Selvino Antonio Malfatti.




















Eleitores

Por Região - Março / 2013
%
CENTRO-OESTE
10.070.195
7,145
NORDESTE
38.207.502
27,108
NORTE
10.651.311
7,557
SUDESTE
60.942.919
43,238
SUL
20.819.854
14,771
TOTAL
140.947.053



Eleições 2014


NESTE DOMINGO, dia 5 de setembro, ocorrerá no Brasil a eleição para presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Gostaria de me deter apenas na eleição presidencial, embora como escrevi num artigo anterior, é essencial para democracia as eleições parlamentares.
A CAMPANHA eleitoral para presidente deste ano corria conforme as previsões: Dilma Rousseff liderava as intenções de voto, Aécio Neves, apesar da boa margem de votos, era candidato ao segundo turno e Eduardo Campos vinha em terceiro lugar. Repentinamente, com a morte de Eduardo Campos e com sua substituição por Marina Silva ocorre uma mudança brusca, inclusive nas intenções de voto. Aécio Neves, quase certo candidato ao segundo turno, passa para o 3º lugar e Marina para o segundo. A partir de então as previsões mantiveram-se com poucas variações até o momento. Dilma Rousseff em primeiro, Marina em segundo e Aécio em terceiro. Na última avaliação de intenções de voto aumentou a margem de Dilma para Marina, mas não alterou a posição de ordem dos candidatos. A situação aproxima-se do quadro abaixo, entre as regiões brasileiras:
embora de última hora haja um distanciamento entre o primeiro e os outros dois candidatos.

1.    SUL :
Dilma + ou -35%
Marina +ou-25%
Aécio  + ou-22%


2.    SUDESTE
Dilma + ou - 28%
Marina  +ou-32%
Aécio +ou -20%


3.    Região Centro-Oeste
Dilma+ ou ‑32%
Marina + ou-31%
Aécio + ou - 23%

4.    Norte
Dilma + ou- 49%
Marina +ou -28%
Aécio + ou - 9%


5.    Nordeste
Dilma + ou - 49%
Marina +ou- 32%
Aécio + ou - 8%

        
O quadro revela mais detalhes significativos:
- Nenhum candidato, em nenhuma região faz maioria absoluta, ou seja, 50% mais um dos votos. Por isso nenhum candidato individualmente venceria, a não ser que haja uma brusca mudança.
- Somente nas regiões norte e nordeste a soma do segundo e terceiro não venceria o primeiro.
- No sul os três candidatos mantêm um equilíbrio, não havendo nenhum que se afaste por larga escala.
- O mais baixo desempenho eleitoral de Dilma ocorre no maior colégio eleitoral, isto é, no sudeste.
- Por sua vez nas regiões mais necessitadas a candidata Dilma disparou na frente.
- O total dos prognósticos revela o seguinte resultado:

1. Dilma 38,6% - Há resultados atualmente que se aproximam dos 40%.
2. Marina/Aécio 40 - Da mesma forma há resultados que indicam para 42%.

 - Neste caso, a seguir esta tendência, haverá um segundo turno, pois somente não haveria se o primeiro fizesse maioria absoluta dos votos válidos.

Coinclusão:
Em tese e na prática qualquer um dos três pode ficar em primeiro lugar, mesmo porque a diferença não é tão significativa entre si. Isto não signfica que, o que ficou em primeiro nas pesquisas, será também o vencedor. Temos um exemplo historico: Fernando Collor em 1989 não estava em primeiro lugar no incío da campanha  e foi o vencedor do pleito.
- Quem poderá ser o vendedor do segundo turno? Façamos algumas conjeturas.

Quem votou no candidato que ficou em primeiro lugar no primeiro turno dificilmente mudará seu voto. Mas quem votou no candidato que ficou em terceiro lugar não é certo que votará em quem ficou em segundo. Como a diferença entre a soma do segundo e terceiro em relação ao primeiro até o momento não é tão significativa, pode-se concluir que quem ficou em primeiro lugar no 1º turno, ficará também no segundo.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Liu Xiabo e a liberdade. José Maurício de Carvalho.




Ao chinês Liu Xiabo foi concedido o Prêmio Nobel da Paz no ano de 2010. Ao proceder a escolha de Liu Xiabo o Comitê Norueguês aceitou polemizar com a tradição despótica do oriente. O governo chinês não gostou da indicação e pediu explicações ao governo da Noruega. O agraciado é pouco conhecido no Brasil, mas ganhou notoriedade desde que fez greve de fome pela libertação dos estudantes chineses encantoados pelo exército vermelho no famoso cerco militar da Praça da Paz Celestial. A democracia acabou não vindo na China, mas as reformas econômicas no sentido de respeito ao livre mercado trouxeram um desenvolvimento econômico há muito desconhecido da China.
Livre mercado é bom, mas só ele não assegura o desenvolvimento humano. A experiência dos últimos duzentos mostra que livre mercado só traz benefícios para toda a sociedade quando se associa com moral social negociada, estado de direito, democracia formal, partidos fortes com definição programática, liberdade religiosa e estado laico. Capitalismo sem o restante ajuda a enriquecer uma pequena parte da sociedade e deixa o restante na pobreza. Aliás, para entender isto não é preciso conhecer a China e sua história, sabemos por experiência própria o que é um país onde o desenvolvimento beneficia principalmente uma pequena parte da população, deixando a maioria fora dos benefícios da riqueza. Felizmente a Nova República de Tancredo começou a dar frutos e o Governo do Presidente Lula conseguiu melhorar a vida de milhões de brasileiros mais pobres.
A liberdade política é expressão da liberdade pessoal, já nos ensinava Tancredo Neves. Para entendermos o sentido disto é importante lembrar os ensinamentos do filósofo alemão Edmund Husserl. Ele mostra que a consciência é criadora, permite não apenas pensar o mundo de uma forma objetiva e compartilhada, mas fazê-lo aparecer como experiência de um eu singular. O mundo surge na consciência como criação do existente e assim é único. Entende Husserl que a consciência é afetada pelo contato com os objetos à sua volta, eles entram em cada pessoa e passam a fazer parte da vida de um modo particular. Se nós somos únicos pela forma como incorporamos o que está à nossa volta, precisamos de um sistema político que seja também expressão disto.
Deixando de lado o valor da liberdade política e retornando à decisão dos organizadores do Nobel, eles chamaram atenção do mundo para a luta de um docente universitário de 54 anos de idade que há mais de vinte anos luta pelos direitos civis na China. Professor de literatura, poeta e orador, ele foi afastado da cátedra universitária e preso três vezes nos últimos vinte anos. Atualmente cumpre pena de 11 anos de prisão por denunciar o desrespeito do governo chinês aos direitos humanos. Encontra-se preso a quinhentos quilômetros de Pequim por um regime que embora tenha iniciado a transição para uma sociedade livre conserva uma tradição despótica mais que secular. O despotismo chinês encontrou no totalitarismo comunista uma expressão contemporânea quando consideramos a história milenar do país. Entretanto o comunismo, hoje em dia, é passado para a maioria dos países, pois desde a queda do muro de Berlin e a dissolução da União Soviética, fora Cuba e alguns partidos políticos brasileiros (Leia-se PCB, PSOL, PSTU), ninguém aposta mais em revolução comunista e estado totalitário.  

O professor Liu Xiabo tomou ciência do prêmio pela mulher que o foi visitar, mas não poderá deixar a prisão para buscar o diploma, a medalha e o dinheiro do prêmio. Não sabemos se sua mulher Liu Xia poderá representá-lo, pois também ela se encontra em prisão domiciliar desde 2008, somente saindo de casa para visitar o marido e sempre acompanhada da guarda vermelha. Que venha, pois, a liberdade para Liu Xiabo.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

OS CEM ANOS DE " DE FARIAS BRITO. Selvino Antonio Malfatti.



Por ocasião dos Cem anos do livro O Mundo Interior de Edmundo Farias Brito, livro este que faz parte da trilogia do título maior:
Ensaios sobre a Filosofia do Espírito
- A Verdade como Regra das Ações (1905)
- A Base Física do Espírito (1912)
- O Mundo Interior (1914)
Queremos prestar uma justa homenagem a este pensador, filósofo e jurista que marcou a intelectualidade brasileira e lusa por décadas. Esta obra, O Mundo Interior, é, quiçá, a mais madura de suas obras.
Para ele o espírito, fato e base de todo pensar é a verdade primeira e irrefutável que nem mesmo os céticos podem atacar, pois para discordar terão que pensar, isto é, lançar mão do espírito.
Encontrar um pensador no Brasil de final do século XIX e início do século XX que não fosse positivista, evolucionista ou materialista era raro. Mas como toda regra tem exceção esta não poderia falhar. Raimundo Farias Brito (1862-1917 – Ceará) era anti-positivista, anti-evolucionista e espiritualista, sem ser católico.
Este pensador mostrou-se um filósofo independente no torvelinho de ideologias que pululavam por toda parte. Neste período surgiam correntes de pensamento, escolas, autores uns diferentes dos outros por toda parte. E também, para não anular a regra, o próprio Farias Brito era diferente entre os diferentes. Encarnando a alma brasileira o filósofo ora se encanta, derrete-se de idealismo, convida a todos a construir uma nova sociedade baseada no amor. Mas semelhante a um bipolar, em seguida se entrega ao pessimismo, desânimo e desilusão afirmando que só há egoísmo e ódio.
Mas é na produção intelectual que reside a grandeza de Farias Brito. Praticamente cobre todo conhecimento das ciências humanas. Estuda as relações entre a moral e a filosofia, entre o direito e a moral, entre a filosofia e a ciência. Até mesmo extrapola a área de conhecimento a que se propõe a faz incursões na poesia, teologia e religião. Confronta metafísica e positivismo, debate a possibilidade de uma metafísica naturalista. Chega ao final propondo uma religião naturalista, identificando Deus à própria luz.
Com efeito, o pensamento de Farias Brito desenvolveu-se num quadro ideológico rico e diversificado no período a cima mencionado. Praticamente os mesmos autores lidos e interpretados por outros pensadores da época eram os mesmos. No entanto, o pensador cearense apresenta uma interpretação peculiar, sui generis. O Comte de Sílvio Romero, por exemplo, não é o mesmo de Farias Brito. Da mesma forma as ideologias. Ele sempre encontrava algo diferente e característico que outros não enxergavam. Os inspiradores até podiam ser os mesmos, mas as inspirações variavam. Contudo, o mais paradoxal é que o pensamento de Tobias Brito tem de mais destacado, mais ele, o característico diferencial é o espiritualismo. Mas justamente nisso que seus adversários o atacam dizendo que é puro naturalismo. Outros, porém, vêem que suas contradições são apenas aparentes. Pensam que a teleoloiga seja uma conciliação entre com o mecanicismo aproximando o que havia em comum em Lange, Ribot, Stuart Mill, Hamilton, Spencer Schopenhauer, Buchner e Noiré. Farias Brito, sempre consegue encontrar qualidades onde outros encontram defeitos e vícios onde outros só percebem virtudes. Para ilustrar podemos citar o caso de Kant que elogia os argumentos sobre a prova da existência de Deus. Diz que o argumento da finalidade pode ser questionado pelo próprio argumento invocado. Se a existência de Deus está alicerçada sobre o fato da existência do universo, fato-causalidade, o mesmo se pode invocar sobre a causalidade da existência de Deus: Deus existe, logo deve ter uma causa.


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Subjetividade e corporalidade na Filosofia e na Psicologia. José Maurício de Carvalho.





Esse é o título do livro que  acaba de ser publicado pela Filoczar de São Paulo e é edição bilíngue, foi editado em português e espanhol e tem 279 p. Destina-se  principalmente a filósofos, filósofos-clínicos, educadores, médicos e psicólogos que estudam a consciência humana e os métodos de considerá-la. As referências teóricas são os legados de Merleau- Ponty e Karl Jaspers autores com quem se dialoga. O primeiro é um filósofo francês que, ao examinar a consciência corporal, deseja aprofundar conceitos como espacialidade e temporalidade. Merleau-Ponty realizou um amplo debate com os psicólogos apresentando as posições da fenomenologia. O segundo é um psiquiatra alemão que encontra na fenomenologia o caminho para justificar os estudos científicos da consciência humana e tratando-a como um fenômeno, reflete sobre os desafios dessa consciência para alcançar a verdade e da realidade. Os estudos de fenomenologia que tratam do mundo interior do homem ganharam recentemente com a filosofia clínica uma nova forma de expressão. Também ela é mencionada, mostrando-se que a Filosofia Clínica se insere na tradição da psicologia existencial que engloba várias abordagens (Gestalt - Kurt Lewin, Köfka, Köhler, Wertheimer), Teoria do Self - Carl Rogers, Logoterapia - Victor Frankl e muitos psiquiatras além de Karl Jaspers. No Brasil recorde-se Nilton Campos, que foi diretor do Instituto de Psicologia da antiga Universidade do Brasil (atual UFRJ), e outros médicos e psicólogos de renome, destacando Antonio Gomes Pena, Eustáquio Portela, Élson Arruda, Nelson Pires e Isaias Paim, todos utilizando a fenomenologia para fundamentar os estudos de psicologia humana.
O livro em questão trata da subjetividade, isto é, da consciência que temos de nós mesmos em seus dois lados: a consciência subjetiva e a corporal. E ao olhar esses temas da fenomenologia existencial é possível identificar os elementos filosóficos que justificam diversas técnicas psicoterápicas nascidas desse pressuposto metodológico, algumas mencionadas no parágrafo anterior. No último século essa base fenomenológica deu origem à chamada psicologia existencial, em cujo rastro surgiu a Filosofia Clínica, que foi desenvolvida no Brasil e que começa, nesse século XXI, a ganhar mundo.
Antes de tratar das contribuições que a escola fenomenológica trouxe para o entendimento da consciência devemos lembrar que o mundo moderno começa a se delinear com a descoberta da consciência para o entendimento do mundo. Passaram-se séculos examinando o funcionamento da consciência se ela era povoada de ideias e/ou esquemas inatos ou se seu conteúdo era simplesmente os fatos percebidos armazenados em feixes fenomênicos. O responsável pelo início dessa investigação foi o filósofo francês René Descartes, mas a consciência subjetiva que ele concebeu era abstrata, não tinha história nem singularidade, era uma forma de referência universal que todos os homens possuíam e fazia deles entes iguais, não importa se fosse um cidadão parisiense ou um índio vivendo no interior do Brasil. Tinham em comum a consciência universal cujos erros se explicavam pela insubordinação da vontade que era muito maior que a capacidade de corretamente raciocinar. E o entusiasmo de René Descartes pela consciência abstrata o afastou da experiência concreta de viver, como observou Ortega y Gasset em El tema de nuestro tiempo, mencionando que o pai da filosofia moderna inverteu a perspectiva natural da vida e deixou em segundo plano "o mundo imediato e evidente que contemplam nossos olhos, apalpam nossas mãos, percebem nossos ouvidos e se compõem de qualidades: cores, resistências, sons etc. Esse homem que o homem vive e viverá sempre" (Obras Completas, Madrid, Alianza, v. III, p. 160).
Não teríamos como, num espaço tão limitado, refazer o debate intelectual ocorrido entre racionalistas e empiristas durante toda a modernidade, ambos os grupos herdeiros do pensamento cartesiano, uns privilegiando a experiência e outros as ideias não aprendidas. Apenas parece interessante lembrar que o resultado desse debate culmina no entendimento de que se podia chegar a um esquema objetivo da consciência que Kant chamou de ente racional e Fichte e Hegel perceberam estar em movimento. Essa consciência passou por críticas e revisões desde então até se notar as suas dimensões temporais na individualidade que surge de uma espécie de consciência que é simultaneamente intencional, histórica e executiva.
O que é mesmo a consciência subjetiva e corporal objeto do livro e concebido pela escola fenomenológica? Ela agrega às referências modernas uma maneira contemporânea de entendê-la como: "a referência que o homem faz dos seus estados internos, o que engloba ideias, percepções, emoções e volições. A capacidade de se referir a esses fenômenos ou fatos psicológicos revela consciência do que se passa no nosso interior. Por extensão, o termo se aplica ao reconhecimento que o sujeito desenvolve do próprio corpo e do seu funcionamento. Nesse caso é nomeada de consciência corporal" (p. 12). Portanto, é a consciência humana o objeto do livro e ele é abordado tanto pela reflexão filosófica como pela observação científica (psicológica).
O filósofo alemão Karl Jaspers, valendo-se do método fenomenológico, tratará os momentos de concentração íntima como movimentos necessários da procura por um sentido próprio ou significado para existência. É a consciência que permite não só entender o que somos, não só conhecermos nossa história pessoal, mas a sermos fiéis a isso que somos verdadeiramente, cada um de nós em nosso núcleo mais íntimo. Como filósofo, Karl Jaspers considerava o mal uso da reflexão ou da consciência como causa do sofrimento do homem contemporâneo e assim se referiu ao fato na Iniciação Filosófica (1987):
A ânsia de uma orientação filosófica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em carência de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, súbito acorda assustado e pergunta: que sou eu?que estou descurando, que deverei fazer? (Lisboa, Guimarães, p. 110).
E se deixando de pensar sobre si mesmo o homem cai na irreflexão e se perde nas rotinas, no trabalho diário, nas preocupações da rotina, nos movimentos instintivos, nas tarefas do dia a dia e é isso o que acaba nos levando a uma vida sem o sentido que lhe podemos dar, cada um de nós, únicos nessa tarefa de encontrar um significado particularíssimo para o que fazer de nossos dias. E se deixar de examinar-se é risco permanente na realidade humana, uma vida muito ocupada, envolvida em tanta tecnologia, consumida em trabalhos esgotantes e no ócio vazio contribui ainda mais para esse afastamento de nós mesmos que é responsável em nossos dias pela falta de reflexão reinante e pelo hedonismo ansioso que penetrou na cultura contemporânea.
Quanto ao funcionamento da consciência, Karl Jaspers ensina no terceiro capítulo da Iniciação Filosófica que ela alterna estados de vigília e de sono. E diz que quando estamos acordados a consciência se apresenta na insuperável divisão entre sujeito e objeto. Todas as nossas referências do mundo apenas se expressam nessa cisão (sujeito-objeto), o mundo que experimentamos e em que vivemos surge para nós através dela. E ela inclui não só a referência à coisas que estão diante de mim: a cadeira onde estudo ou pássaro que corta o céu azul, mas também aos números e outras formas de pensamento (que são denominados objetos ideais da consciência). Mesmo pensamentos raros, como um ET com antenas e orelhões que podemos imaginar, aparecem para a consciência como um tipo fantástico de objeto pensado. Todas essas coisas que vemos e pensamos estão na consciência representadas e só se manifestam na relação entre sujeito e objeto. O funcionamento da consciência nos coloca diante de uma dupla realidade que a escola fenomenológica estudou: a. seu caráter intencional (isto é, não se poder pensar a consciência sem os objetos nela representados, isto é, na divisão acima indicada) e b. fazendo a distinção possível de realizar entre o subjetivo e objetivo (isto é, a separação entre quem pensa e a realidade que é pensada por nós que nos surge em perspectivas diversas ou modos diferentes de compreender o mundo).
A distinção entre subjetivo e objetivo é uma maneira meramente ilustrativa de separar, os conteúdos da consciência, "conforme se refira à capacidade humana de estar ciente dos fenômenos internos ou a tratar os conteúdos das percepções, representações e conceitos. Como fenômeno objetivo considera-se o que a consciência recebe a todo instante informações de fora. Esses elementos fornecem impressões do que está à volta do sujeito e que aparece para ele. Em síntese, subjetiva é a capacidade de reconhecer os fenômenos internos da consciência, objetivos são os elementos representativos do que está à volta dela" (p. 18).
E quanto à consciência corporal ou corporalidade? Filósofos e psicólogos que usam o método fenomenológico descrevem a presença do homem no mundo como existência situada no tempo e espaço. É comum ouvir dizer que vivemos aqui e agora e essa é outra forma de dizer que vivemos numa realidade espaço temporal. "E essa forma de olhar a existência humana contraposta à transcendência para se referir à tensão entre permanecer ligado às coisas e ultrapassar tal relação inclui, de modo singular, a corporalidade. A forma como os fenomenólogos olham a presença física do homem é diferente da simples referência biológica (...), cujo funcionamento é parecido aos animais mais evoluídos" (p. 22).
O livro resume e aprofunda o significado de consciência corporal para os dois fenomenólogos Merleau-Ponty e Karl Jaspers. "O primeiro pensa a consciência a partir da corporalidade, o outro faz algo parecido, mas reconhece que a consciência subjetiva tem aspecto singular. De todo modo, em ambos, a corporalidade significa consciência corporal que é mais que o funcionamento do corpo ou sua divisão em partes anatômicas: cabeça, tronco e membros. O meu corpo é diverso de todos os demais, tenho com ele uma relação particular. Merleau-Ponty explica bem que o corpo é forma de experimentá-lo, isto é, minha presença no mundo se faz pelo corpo e com ele me confundo" (p. 22). Para algumas pessoas essa relação com o corpo é mais importante, para outras menos. Isso é parte da enorme variedade possível de existências singulares.
Tomar a consciência humana como forma de expressar a existência humana ou como vida que se faz em direção ao futuro é outra maneira de descrever que a vida do homem precisa ser experimentada num mundo de mudanças. Mudanças que ocorrem na sociedade em que se vive, mas mudanças que ocorrem também em nossa vida pessoal que vai se tornando diferente à medida que fazemos escolhas e vamos envelhecendo em meio às escolhas feitas. A vida, como lembrava o filósofo francês Roger Garaudy em Palavra de Homem não é "um  cenário já escrito fora de nós e sem nós, onde teríamos apenas que representar aparentando crer em nossa liberdade" (São Paulo, Difel, p. 52).
Estudar a consciência nos coloca diante de uma tensão sempre presente em nossa vida. Estamos numa sociedade onde cada um precisa encontrar uma razão para viver. E o que pode ser num certo momento da existência tomado como sentido, pode desaparecer ou modificar-se no momento seguinte pedindo de nós uma nova razão para continuar viver. "Às verdades pessoais ou subjetivas se somam as verdades culturais ou objetivas, os problemas e dramas pessoais que podem ganhar e encontrar na cultura referências para vencer as crises. Embora assim possa ser, a existência não perde o caráter dramático e conserva algo de singular e arriscado, pois é impossível construir uma cultura tão perfeita que seja definitiva e ponha fim a todas as nossas inquietudes. Não há como chegar a uma cultura definitiva, que realize todas as nossas potências, que nos substitua na criação de nossa existência, uma cultura que supere todos nossos medos, eliminando todas as nossas dúvidas. E ao enfrentar os problemas que a vida traz, construindo novas representações a partir das referências que possui, o homem muda o que ele é, elabora os elementos de sua subjetividade" (p. 24).

O livro entra por esse caminho, apresenta exemplos e mostra a consciência humana objeto de si mesma e como é tratada nas filosofias e psicologias de Merleau-Ponty, Karl Jaspers e na Filosofia Clínica. Explora, para terminar, algumas descobertas que a Psicologia e a Filosofia Clínica fizeram da nossa consciência e de nosso modo de viver. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

DILMA, MARINA OU AÉCIO. Selvino Antonio Malfatti



O dia da eleição se aproxima. Ao que parece todo mundo está de olhos nos candidatos à presidência, esquecendo-se que, num modelo de Democracia Consensual tão importante, senão mais, são as eleições parlamentares, tanto para as assembléias estaduais como para o parlamento nacional. Por quê? Pelo simples fato de que o executivo para governar precisa da maioria do legislativo.
Existem diversas formas fórmulas para se obter maioria no parlamento. A mais comum e a mais empregada é estabelecer alianças com partidos ideologicamente afins. Um partido de centro, por exemplo, busca seu parceiro mais próximo ou à direita ou à esquerda. Nunca na extrema esquerda ou extrema direita. Mas há alguns anos no Brasil se lançou mão de outro critério, qual seja, o fisiológico, isto é, o mercado do voto, ou simplesmente a compra e venda do voto dos parlamentares.
Com este critério pouco importa a ideologia do partido, mas o preço do voto. E é por isso que se dá pouca importância às eleições parlamentares. Diz-se:
            - Com quem contaremos, veremos depois das eleições.
Esta prática envenenou todo o sistema: parlamentares, empresários, intelectuais, profissionais liberais, juristas. O parlamentar cobra um valor por seu voto, o empresário quer “vencer” as licitações, os intelectuais reivindicam cargos públicos, os profissionais liberais aumento nas tabelas de preços, os juristas, assentos nos tribunais. E o pior é que não se vislumbra perspectivas de reversão deste quadro. Não há arrependimento de ninguém, nem mesmo daqueles condenados e trancafiados atrás das grades. Juram vingança.
Uma Democracia Consensual acontece onde nenhum partido consegue fazer 50 dos votos mais um.  Por isso exige uma partilha de poder. Isto é normal. Acontece em países desenvolvidos, como França, Itália, Alemanha e outros, da mesma forma que o modelo de maioria acontece nos Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e outros.  No modelo consensual, como é o caso brasileiro, há separação de poderes. Nenhum poder pode destituir o outro a não ser em casos excepcionais, previstos nas Constituição.
Nestas democracias há um rígido bicameralismo: o senado representa as minorias e os deputados as maiorias. O número de senadores por estado é uniforme, mas de deputados varia de estado para estado. O multipartidarismo, característica dessas democracias, pode ser um fator de estabilidade, mas de instabilidade. Quando o partido representa de fato anseios de comunidades, legitima o sistema. Mas quando o partido representa o interesse do candidato, trabalha contra o sistema. Além disso, os partidos devem ser multidimensionais, isto é, não só abranger um determinado setor, como UMA religião, por exemplo, mas representar pessoas dos setores diversos como industriais, serviços, comércio e religiões.

Por isso, não basta os candidatos vencerem as eleições nas urnas, é preciso que saibam costurar uma maioria no Parlamento.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Política e Tolerância. José Maurício de Carvalho.

















A tolerância entendida como necessidade de conviver com a diferença parece  tão antiga e natural quanto a experiência social do homem.  É que o homem é singular na sua herança genética e único no modo de compreender o mundo. Contudo, a história da humanidade foi quase sempre povoada de opressão e intolerância, recheada de imposição pela força de uma crença ou modo de vida. Lamentável faceta da animalidade humana.
A noção de tolerância só se firma quando a vida comunitária adquire amadurecimento e compreensão ética no respeito ao diferente. Neste sentido, merece registro o entendimento de Guilherme de Ockam, ainda no século XIV, de que Deus podia acolher entre seus escolhidos alguém que vive na razão. Dizer isto não era simples num tempo em que se acreditava que o caminho até Deus podia ser interditado pelos homens e que era legítimo torturar e matar quem partilhasse outra fé. Assim, a noção de tolerância entra na história em momento determinado e se torna importante nas disputas religiosas da cristandade dividida do início da modernidade.
O termo ganhou força depois da formação do Estado Moderno, pois pela primeira vez depois de séculos tinha-se a experiência de um poder forte e centralizado dirigindo grande comunidade. Enfrentar a intolerância tornou-se urgente com a divisão da cristandade e multiplicação de igrejas cristãs. É, neste contexto, que as Cartas sobre a Tolerância (1689), de John Locke, adquirem significado, pois reconhecendo ser o Estado um instituto para conservar e promover os bens civis, cabia-lhe assegurar o convívio pacífico dos cidadãos, desde que suas ações não contrariassem as finalidades pelas quais Ele existe, a saber: defender a vida, a liberdade e a propriedade das pessoas.
Locke, contudo, admitia um limite, pois para estar entre os protegidos pelo instituto da tolerância os cidadãos deviam professar algumas dentre as crenças cristãs disponíveis. Os infiéis não podiam beneficiar-se da tolerância. Era o pavor da brutalidade sem os limites do homem que não temia Deus.  Foram as novas experiências sociais da Europa laica que estimularam o debate público e trouxeram ao espaço coletivo estudos e reflexões como o Tratado sobre a tolerância (1763), de Voltaire. Desde então o assunto ganhou importância crescente entre as diferentes sociedades civis regulamentadas pelo Estado moderno, pois neles, conclui-se, o destino dos homens encontra-se nas próprias mãos. Política é o exercício deste destino.
Os episódios da semana que terminaram com depredação e violência em Porto Alegre, lamentáveis incidentes de rebeldia ilegal que se repetem pelo país, mostra como, com o exercício da violência, estamos longe de entender o significado da tolerância como estratégia moderna de convivência no espaço público. O problema se agrava com a divulgação crescente de teorias radicais que proclamam legítimo um dito poder popular, nome usado para impor à força o que parece legítimo a um grupo radical.

A violência e a intolerância é não apenas um meio de fugir do estado de direito e das leis existentes nas sociedades modernas, mas o caminho seguro de destruição da paz social. É legítima a participação na vida política e no destino da sociedade, mas isto não valida a brutalidade e a violência contra as leis do país e princípios de conduta racionalmente reconhecidos. O debate público do uso ilegítimo da força e o entendimento do significado da tolerância no espaço político são temas para reflexão em nossa sociedade nos dias que correm. Esperemos que ela inspire outras atitudes.

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