sexta-feira, 14 de março de 2025

SECULARISMO, CULTURA E RELIGIÃO. Selvino Antonio Malfatti

 




 

A questão do secularismo ganhou proporções notáveis hoje em dia. Por qualquer coisa, inclusive as axiológicas, torna-se motivo para gritaria em nome da liberdade secular. Alguns clamam ao judiciário. Até mesmo, em alguns lugares, tornou-se motivo para fanatismo e atentados. E o tolerado tornou-se intolerante lançando mão da violência em nome da religião.  Vejamos alguns fatos.

Por causa de uma charge o cartunista Charlie Hebdo e jornalistas foram assassinados na França. O motivo? Uma caricatura de Maomé. A justificativa? Em nome do secularismo da parte do cartunista e a ofensa ao maometismo por parte dos assassinos. Não foi um caso isolado de fanatismo religioso. Samuel Paty, professor de história e Dominique Bernard, professor de francês foram assassinados futilmente, um por desenho e outro por um texto. A justificativa: o secularismo!

No Brasil algo próximo aconteceu com a polêmica do crucifixo em Sala de Justiça e de “intervalos bíblicos” em Pernambuco bem como outros incidentes confessio-seculares. Na questão do crucifixo invocou-se o secularismo para defender a retirada, o mesmo incidente nos “intervalos  bíblicos”.

Na França a questão vem de longe. Começou em 1989 com a questão do véu islâmico nas escolas. O ingresso de um aluno muçulmano numa sala de aula argumentou-se de que não se podia constranger o novo aluno e por isso se devia retirar o crucifixo da sala de aula por que o Estado era secular. O direito de tolerância avançou até o ponto de agredir o que antes era tolerante. Progrediu tanto que atualmente qualquer crítica tornou-se uma infração crime contra a liberdade de expressão. No caso o próprio estado francês criou a gaiola para se encerrar.

Foi pura imprudência e populismo o líder da esquerda Jean-Luc Mélenchon assumir a bandeira do secularismo para atrair jovens e muçulmanos denunciando “islamofobia”. Sem se aperceber caiu na armadilha do islamofilia renunciando os valores universais sempre defendidos pela França desde a Revolução Francesa.  Poderia se pensar que foi em vão que Carlos Martel lutou e derrotou os muçulmanos na Batalha de Poitiers livrando a Europa do domínio islâmico? E o que dizer do título que ostenta de “Filha Predileta da Igreja”? Atualmente é só filha.

Pensamos que três ingredientes deverão ser levados em conta e serem distinguidos um do outro: instituições públicas, religião e cultura. O conjunto de instituições políticas é o estado, religião é uma crença no sobrenatural e cultura uma sedimentação social de valores sociais. Como destaca o sociólogo Max Weber as crenças religiosas tendem a se tornarem laicas, constituindo-se a cultura uma esfera autônoma em relação à religião de origem. Alguns símbolos deixam de serem religiosos para constituírem uma cultura específica. O crucifixo representa a cultura cristã e além da religião. Este símbolo em sala de aula é a representação da cultura cristã, assim como a estrela de Davi da cultura hebraica e o minarete a cultura islâmica. A Basílica de Notre Dame atualmente é um símbolo da França antes que um templo católico. Por isso, alguns símbolos podem ser culturais e não religiosos. Diante disso, crucifixos, intervalos bíblicos, bíblias, catedrais são apenas símbolos culturais e não religiões e, portanto, nada a ver com o secularismo.

Não podemos esquecer que o secularismo simplesmente quer separar a religião das instituições públicas para que estas tenham uma atuação neutra em relação à religião. Não prega a eliminação da religião e muito menos dá prioridade a uma religião. Simplesmente dar liberdade de exercício a ambas.

O secularismo pretende garantir a liberdade religiosa e de crença. Com isso, quando algo for espontaneamente praticado e aceito não justifica medidas contrárias. Não é porque um imigrante chega  com outras práticas que se deve mudar o que até então é praticado. A moral é algo que a sociedade pela prática aprova como boa. Pois, nem todo substrato cultural ou moral social pode ser considerado alvo de secularismo. A moral social não é religião, como a cultura cristã não se identifica com o catolicismo. 

Qualquer dúvida consulte na Constituição1

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sexta-feira, 7 de março de 2025

Estado de Crise. José Mauricio de Carvalho

 


As questões apresentadas no livro Babel foram expandidas em Estado de crise (2016 b) por Bauman e Bordoni. Nesse outro livro, o que chama atenção é a ideia de que a crise cultural e econômica atuais não são rápidas ou passageiras como outras, pois elas revelam uma mudança extensa e profunda que envolve todo o sistema. Bardoni entrou no assunto vinculando as dificuldades atuais com as experimentadas na modernidade, enquanto Bauman mostrou essas dificuldades e ofereceu pistas para superá-la.

Um aspecto importante dessa análise é a avaliação de que a crise, sendo fruto de intensas mudanças, representa dificuldades, mas também oportunidades. Dizem (BAUMAN e BORDONI, 2016 b, p. 11): “a crise é fator que predispõe à mudança, que prepara para futuros ajustes sobre novas bases.”  No entanto, a descrição do atual estado de coisas, indica mais dificuldades que oportunidades.

O aspecto central da crise atual é sua dimensão global, devido a interligação dos interesses econômicos de modo que (id., p. 12): “uma queda da bolsa de Tóquio tem repercussões imediatas em Londres ou Milão.” Embora as questões sejam globais, nações e cidades é que enfrentam suas consequências, quase sempre com pouca chance de sucesso. Dito assim (id., p. 34): “cada unidade territorial formalmente soberana pode hoje servir como depósito de lixo para problemas originados muito além do alcance de seus instrumentos de controle político.”

As dificuldades atuais, experimentadas num outro contexto, mostraram que as soluções adotadas na crise de 1929 não podem ser repetidas e a razão mais forte é a fragilidade do Estado decorrente de problemas de caixa por conta da desterritorialização das corporações financeiras, o interesse global delas. Isso produz uma separação entre poder econômico e político. Esclarece o sociólogo (id., p. 22): “a separação entre poder e política é uma das razões decisivas para a incapacidade do Estado de fazer as escolhas apropriadas para enfrentar as dificuldades.”

Olhado desde dentro a crise econômica consome crescentemente recursos com bens básicos para aqueles que têm emprego, estimula a parte menos afetada da população a aumentar os gastos com o consumo de bens e serviços para aproveitar o momento, reduzindo sua capacidade de investimento e de atuar na produção. Na outra ponta, a queda no consumo produz a elevação dos preços para assegurar a lucratividade e isso também piora o quadro geral. Entra-se na estagnação e na carestia.

O resultado de momentos assim é o aumento da inflação, sendo ela (id., p. 14): “a pior consequência de qualquer crise econômica porque engole as economias de toda a vida e reduz as pessoas à fome num período curto, o dinheiro já não pode comprar nada e instala-se o desespero.” Daí resultam dificuldades crescentes e o desencanto com os políticos, a desilusão dos eleitores, favorecendo a expansão das propostas da extrema direita.

A compreensão da evolução histórica de outras crises, principalmente a de 1929, ajuda a entender o que se passou recentemente, depois do desenvolvimento inicial, sucesso do Estado Social e sua desidratação nos anos 70. No início os (id., p. 19): “gloriosos anos trinta e os opulentos 30 foram resultado da evolução do Estado de bem-estar social e de uma confiança limitada na sua capacidade de assegurar bem estar e segurança para todos os lados.” O Estado Social, depois de enorme êxito no final da guerra, começou a perder fôlego, quer pelo aumento das demandas sociais, quer pela perda de arrecadação resultante de processos como a desindustrialização, quer pelo distanciamento das grandes corporações dos interesses locais, quer pela perda da capacidade das pessoas de poupar para o futuro.

Da fragilidade do Estado vieram a propaganda da privatização, da terceirização, etc. e a confiança absoluta no poder do mercado de promover os ajustes necessários. Governos fizeram a redução da presença do Estado na vida social, deixando o cidadão na obrigação de resolver suas dificuldades por conta própria. Daí resumindo o que se passa, a crise atual difere das outras na (id., p. 21/2): “medida que é vivida numa situação de divórcio entre o poder e a política. Esse divórcio resulta na ausência de agências capazes de fazer o que toda crise por definição exige: escolher de que modo proceder e aplicar a terapia reclamada por essa escolha.”

Em meios a essas dificuldades o caminho possível para as sociedades é a construção de sólidas democracias onde o povo discute os problemas e suas soluções.

sábado, 1 de março de 2025

TRUMP E O EXPANSIONISMO. Selvino Antonio Malfatti

 

 



Na posse, Donald Trump edita os principais pontos de seu programa de governo[i]. Todas as medidas afetam mais aos estrangeiros que seu próprio país. Quer não só a América para os americanos, mas o mundo para os americanos ou domínio do mundo.

De imediato ergue um “muro” que se estende do Golfo do México (da América conforme Trump) ao oceano pacífico como fronteira da América. A justificativa é proteger seu país de “traficantes de drogas e criminosos e estupradores” que corrompem a pureza do sangue de seu país. Abole as antigas alianças abrindo caminho para o expansionismo, tal como o Canal do Panamá, cedido por Jimmy Carter o qual acreditava na equidade nas relações entre as nações. Como Príncipe, Trump crê apenas no vantajoso e quando uma aliança deixa de ter as razões de quando foi criada pode ser rompida. Quão longe estamos da Aliança para o Progresso!

O apetite de Trump pela expansão do domínio exterior é ilimitado e insaciável. Até mesmo em assuntos estranhos. É o caso do questionamento da soberania no canal do Panamá. Em que pese a promessa de acabar com as guerras nada justifica sua ingerência em estados autônomos como a Groenlândia dinamarquesa que, qual o Panamá, reivindica interesse estratégico. Às vezes assume um ar profético como um Moisés apontando para a Terra Prometida. Para tanto conclama os cristãos, mormente os evangélicos, para que votem nele e tudo está resolvido.[ii] Outra bravata é querer solucionar a questão de Gaza expulsando os palestinos e criando um resort.

A aproximação de Trump com os bilionários como ele e não com políticos de seu país antevê a inauguração de uma república oligarca econômico-científico-tecnológico. A presença de Elon Musk lhe garante este objetivo. É mais tranquilo aliar-se a donos das redes sociais X e Space X que nada objetam em questões de transgênero que enfrentar os debates na câmara e no Senado. O expansionismo obedece a uma lógica maquiavélica com a ausência de regras ou abolição das existentes abre o caminho para o dono da lei e das regras. Oxalá as demais nações democráticas não sigam seu exemplo. Estra a aproximação com Putin em vez da União Europeia. Ficou evidente o móvel de sua política externa: "Não seremos conquistados, não seremos intimidados". Pelo visto nada detém sua tirania do Príncipe. Para chegar a seus objetivos vale tudo: armas, taxas, deportações, protecionismo.



[i]   Emergência nos limites entre Usa e México, deportação em massa e imediata de imigrantes ilegais, fica abolido o “ius soli” da  cidadania americana, o golfo do México passa a denominar-se Golfo da América, saída do acordo do clima de Paris, saída da Organização Mundial da Saúde, fim do incentivo para automóveis elétricos, fim da proibição de perfuração no Alasca, fim dos limites de concessões de licenças para o petróleo e atividade mineral, fim dos investimentos na energia renovável, a administração federal reconhece só dois sexos: masculino e feminino, os cartéis de drogas passam para a categoria do “organizações terroristas estrangeiras”

[ii] E mais uma vez, queridos cristãos, saiam de suas casas e vão votar; só desta vez; você não precisará mais fazer isso. Vocês não precisarão votar novamente no futuro, meus lindos amigos cristãos. Eu te amo, eu sou um cristão, eu te amo; Saia de sua casa e vote. Em quatro anos, você não terá que votar novamente. Teremos organizado tudo, para que você não precise mais votar.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Quem a extrema direita representa . José Mauricio de Carvalho

 



Á perda de referências culturais e valores que eram caros até poucas décadas, a ausência de confiança no bem, as brutais mudanças no mundo do trabalho, os conflitos regionais, a emergência climática são desafios atuais abordados por vários estudiosos. De algum modo eles encontram no novo nacionalismo de inspiração nazifascista uma proposta para enfrentá-los. De modo diverso do antigo nazifascismo esse novo modelo político-econômico rearranjou a combinação liberdade econômica e autoritarismo político. Nesse caso, não há propriamente um casamento do Estado com o empresariado nacional como no século passado, mas a aproximação dos dirigentes do Estado com as grandes corporações multinacionais e com o capitalismo financeiro.

Esse fenômeno foi examinado e descrito por Bauman e Mauro no livro Babel. Nesse modelo político-econômico, que é uma nova forma de nazifascismo, seus representantes apostaram na fragilização do discurso político e dos partidos, o que ficou facilitado pela incapacidade de reação de liberais históricos, principalmente os moderados e da falta de compreensão dos fatos pela social democracia. Vamos considerar que radicais de esquerda ou de direita, não possuem as melhores respostas para a grande maioria da população. Radicais viram as costas para a lei, para a democracia, para o estado eficiente e a moralidade. Liberais consequentes e respeitosos do estado de direito, sejam eles mais ou menos conservadores, emudeceram e deixaram o combate da extrema direita para a social-democracia. Essa realidade criou um ambiente propício à emergência de uma nova extrema-direita, com líderes populistas e uma pauta moral conservadora. Em resumo, o centro democrático encontra-se fragilizado. Esse contexto entregou aos partidos mais à esquerda a tarefa de preservar o estado de direito, as políticas sociais e a democracia. Apesar da fragilidade desses partidos são eles que procuram preservar a democracia e as políticas sociais, valorizar a ciência, proteger o trabalhador e assumir a responsabilidade pela pauta ambiental.

Enfim, não temos mais um estado social como no século passado, o mundo do trabalho ficou precarizado, mas apesar disso, seu projeto político é dessemelhante das posições assumidas pela extrema-direita. O estado do bem-estar social encontra-se em grande dificuldade, bem como o próprio funcionamento do Estado-nação em função da desterritorialização do capital. Assim, com o motor da economia nas mãos das grandes corporações, inclusive de narrativas criadas nas redes sociais recheadas de fakes, trabalhadores, profissionais liberais e mesmo o capital que tem interesses localmente situados encontram-se fora do protagonismo econômico. À parte de que radicais de qualquer orientação não ajudam o jogo político, o fenômeno mais curioso é a desorientação dos liberais históricos, eles deixaram de ocupar o campo político. Eles não se sentem representados pelos sociais democratas, acabam se aproximando da extrema direita, mas ela não está alinhada com seus interesses.

Os autores de Babel que estudaram esse fenômeno, entenderam que a fragilização do estado do bem-estar social, que notamos hoje em dia, teve origem na mudança do capitalismo industrial para o financeiro. Na nova realidade, o capital já não necessitava conviver com o trabalho num certo local, o que é uma boa explicação para a destruição das políticas sociais e de investimento dos Estados nacionais. Assim, como não lhe é imprescindível a democracia política para negociar interesses contraditórios de uma sociedade, pois o importante é que o Estado passe a funcionar como uma delegacia de polícia para conter consumidores falhos, expulsar estrangeiros indesejáveis, perseguir minorias e quaisquer contestadores da nova ordem. E muitos empregados, boa parte da classe média, o empresariado local passou a apoiar políticos de extrema direita porque temem se tornarem eles próprios consumidores falhos. Ao fazer isso passam a defender um projeto político que, em suas grandes linhas, não lhes favorece e que foi resumido no conceito de pobres de direita.

Assim, embora não seja possível prever o sucesso da solidariedade social nas democracias sobreviventes, essa forma de governo parece ser a que melhor atende os interesses da cidadania, do cidadão comum, incluído o empresário localmente instalado. Não se pode reunir, pelo menos atualmente, a esquerda e a direita na tendência antidemocrática e não é à toa que a ultradireita emergente retomou, como no século passado, um viés nitidamente antidemocrático. Essa ultradireita defende a liberdade, mas o conceito apenas traduza a possibilidade de o capital ir e vir sem dificuldades, desregulamentando o mundo do trabalho, deixando de considerar os interesses locais, mesmo os dos empresários localmente situados. Assim, esse novo mundo favorece o enriquecimento dos super ricos, promovendo uma concentração de riqueza sem precedentes na história humana. Assim, os dois autores nos oferecem uma síntese da face política e econômica da atual crise de cultura.

 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

GUERRA EUROPA X ESTADOS UNIDOS - IA. SELVINO ANTONIO MALFATTI

 





Depois do anúncio de Donald Trump que investir no Stargate 500 milhões de dólares (quase 3 trilhões de reais) e o presidente francês prometer investir 109 bilhões de euros (650 bilhões de reais) em pesquisas sobre Inteligência Artificial estava declarada a guerra entre Europa e Estados Unidos.

Para tanto convoca uma cúpula patrocinada pela França e Índia em Paris nos dias 10 e 11 para discutir a IA na Europa, mas que outros países aderiram como o vice-presidente dos Estados Unidos e o primeiro ministro da China, além dos 1500 convidados do mundo tecnológico como CEO da OpenAI, Sam Altman, criador do revolucionário ChatGPT e o CEO do Google, Sundar Pichai.

O resultado e as conclusões da cúpula que reuniu 61 países e assinaram  um compromisso de uma IA "aberta", "inclusiva" e "ética. O próprio Vaticano compareceu na cúpula e leu um documento pedindo uma IA humanizada. Conforme o Papa que se inspire mais no coração que na razão.  

Como sempre Estados Unidos e Reino Unido não aderiram. Parece que estes dois países, mormente a Inglaterra, é “diferente”. Não adota o sistema métrico, temperaturas, volumes, unidades de área, unidades, volantes e até mesmo sede religiosa. A Inglaterra primeiro entra na União Europeia e depois sai.

A Europa chega tarde nos investimentos para IA, inclusive os109 bilhões de euros destinados por Macron, na verdade não são próprios, mas de Emirados Árabes, americanos e canadenses. Nos Estados unidos só uma empresa, a Amazon, destinou 100 bilhões de dólares.


O desenvolvimento da IA é crucial para a economia mundial. O que no passado se media por armamentos, atualmente se compara pelo avanço na IA. A modelo chinesa, DeepSeek, sozinha investiu 5 milhões de dólares gastando muito menos energia que seus concorrentes. A estratégia dos governos e empresas atuais procura manter sob seu controle os centros de processamento de dados para estar na ponta dos melhores modelos de IA.

“A Europa está atrasada e precisa ter iniciativas, para retomar o controle, afirma Sylvain Duranton, do Boston Consulting Group”.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou 10 supercomputadores públicos à disposição de pesquisadores de IA.

Em resumo a cúpula chegou aos principais resultados:

> Ficou clara a divisão entre Europa (França, Alemanha, Espanha, Canadá e Japão) de um lado e Estados Unidos e Inglaterra de outro. Inclusive os dois últimos não quiseram assinar a Declaração final argumentando que feriam seus interesses.

> O presidente francês, Emmanuel Macron anunciou m investimento de 109 bilhões de euros em IA justificando que a Europa não poderia ficar atrás dos Estados Unidos.

> O ministro das relações exteriores do Brasil, Mauro Vieira, alertou para o peróodo para as democracias ao se deixar o desenvolvimento da IA nas mãos de poucos atores como está acontecendo com Europa e Estados Unidos. 

> As maiores divergências incidiram sobre a governança da IA, no que se refere a segurança, ética e inovação.

A cúpula evidenciou a falta de consenso global sobre a governança da inteligência artificial, com debates contínuos entre segurança, ética e inovação.

Como se vê está aberta a guerra da IA, tendo inicialmente dois lados aos quais se alinharão outros.

N. DO AUTOR: Gostaríamos de apresentar o original do texto original da Declaração, mas até o momento não foi disponibilizado publicamente.

 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Medos de nossos dias. José Mauricio de Carvalho

 



 

A consciência da finitude tornou-se tema privilegiado da filosofia existencialista. Essa passou a retratar a alma contemporânea. Nela a morte se tornou representativa das limitações humanas, exemplo do que é a vida. Filósofos como Karl Jaspers deram destaque a ela como representação de outras limitações da existência, base de nosso pensar sobre a existência.

O mundo moderno foi terra de estabilidade, nele o que tinha força era a participação pessoal nas instituições e se requeria uma personalidade estável e a participação em instituições igualmente seguras. Bauman entrou nessa discussão lembrando em Vida em fragmentos que (BAUMAN, 2011, p. 151): “nem o trabalho, nem o serviço militar são hoje muito demandados.” Isso porque o emprego industrial perdeu relevância e passou a ter um peso menor nas economias nacionais e as guerras tecnológicas não demandam numerosos combatentes nem um vasto número de reservistas. Por outro lado, a redução do peso do trabalho industrial e da vida militar retirou de governos e sociedade a responsabilidade maior com o cuidado com a saúde.

Com a transformação do cuidado com o corpo, o homem de hoje perdeu o controle rígido sobre as porções alimentares da modernidade quando (id., 157): “o alimento precisava ser ingerido nas quantidades medidas para manter o fornecimento de energia muscular nos padrões exigidos pelo trabalho civil e serviço militar.” Essa despreocupação com o planejamento alimentar levou ao sobrepeso e à doenças associadas ao consumo de alimentos calóricos. Manter o corpo em forma, atualmente, significa colocá-lo em condições de obter máxima estimulação.

A transformação no objetivo do cuidado corporal provocou outra alteração na vida social. Se já não são mais os médicos ou a exigência de saúde que controlam o que a pessoa deve ou não fazer e comer para ter boa saúde, o critério tornou-se obter prazer. O indivíduo é responsável pelas escolhas que faz (id., p. 160): “o corpo coletor de sensações é uma criação do tipo faça você mesmo, e seus defeitos são percalços auto infligidos.” Isso significa que eventuais falhas nesse processo estão na conta exclusiva do indivíduo. Os objetivos são o prazer alimentar, mas é preciso atenção com a estética corporal.

O homem de hoje ansioso por prazer não olha o outro com responsabilidade. Ele não tem nada a ganhar (id., p. 168/9): “com o ser-para o outro.” No caso do coletor de sensações em especial, manter a responsabilidade e independência do outro é estratégico. É necessário que o outro seja visto assim e essa alteridade dá a cada um a responsabilidade de sua vida, de modo que cada um cuide de obter o maior prazer, o outro que se lasque.

O medo da finitude, núcleo da filosofia da existência, foi correlacionado a outros receios hodiernos por Zygmunt Bauman no livro Vida Líquida. O primeiro medo examinado pelo sociólogo é o de tornar-se consumidor falho, medo de perder a atual condição de consumidor. Isso pode ser resumido assim (BAUMAN, 2009, p. 90): “em vez de grandes expectativas e doces sonhos, o progresso evoca uma insônia repleta de pesadelos de ser deixado para trás, perder o trem ou cair da janela do veículo em rápida aceleração.” Esse é o tormento da classe média que acha que apoiar a extrema direita o livrará dos riscos representados pelos consumidores falhos, embora os riscos que o ameaçam tenham outra origem, que eles desconhecem.

Um segundo receio de nossos dias que foi mencionado por Bauman foi tratado em Estranhos à nossa porta (2017). Ele representa a indisposição com o estrangeiro, o diferente, o pobre, enfim o marginal, as minorias, o consumidor falho. Para o cidadão de classe média (id., p. 92): “a segurança pessoal tornou-se um dos principais pontos de venda, talvez o principal, em toda espécie de estratégias de marketing.” O diferente é apresentado como criminoso, mesmo que de fato não o seja. O propósito desse cidadão é cercar o próprio espaço de modo a se sentir seguro, pois a globalização exige cada vez menos mão de obra para os trabalhos e há cada vez mais desocupados. Um bom exemplo é a produção agrícola, realizada com tecnologia crescente, produzindo grandes excedentes de mão de obra. O resultado é uma grande migração para as cidades, embora (id., p. 95): “o crescimento do capital em sua área urbana é muito pequeno para acomodá-los.”

Essa busca por segurança transformou casas em fortalezas, bem como bairros inteiros em ambientes fechados. E a classe média tenta se proteger do diferente. O medo também alcançou a construção do espaço público, cada vez menos valorizado e ocupado pelos consumidores. Assistimos uma transformação urbana (id., p. 99): “o espaço público foi a primeira baixa de uma cidade que está perdendo a árdua luta para deter ou pelo menos reduzir o avanço inexorável da força avassaladora da globalização.”

A deterioração do espaço público veio junto com o desprestígio da democracia e a emergência do neonazismo mundo afora, já que é em espaços públicos que a democracia se fortalece. Essa deterioração atinge principalmente aqueles espaços que pretendem superar as diferenças entre cidadãos. O desprestígio é parte da atual falta de compromisso com a democracia pelas grandes corporações e o capital financeiro e pelos medos que atingem a classe média.

 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

O DEUS DE NOSSOS PAIS. Selvino Antonio Malfatti

 





Será que estamos diante de outro fenômeno literário como “O Nome da Rosa”? Trata-se do livro de Aldo Cazzullo que em 4 meses distribuiu 360 mil exemplares. O título do livro é "Il Dio Dei Nostri Padri" (O Deus de Nossos Pais). O que há de extraordinário no livro? Nada, o conteúdo é conhecido por todos e é o mais lido de todos os tempos. O espetacular está na forma como é apresentado. Num linguajar simples, familiar, quase coloquial, contado pelo autor faz da Bíblia uma romance da História do Homem com Deus. Cada palavra, cada frase parece que saiu de nossa boca. Todos sabem o seu final, mas o jeito de abordar cativa tanto que não se quer parar de ler. É um romance que se conhece o enredo e a última cena está em aberto, pois sugere que cada um escolherá.

A História é tão simples que segue a ordem cronológica bíblica, mas associando à atualidade à vida pessoal, a grandes acontecimentos da História, à obras de arte. Tudo isso como se estivesse acontecendo agora. Tudo num estilo simples, alegre, como se pode ver na citação no final do artigo[i].  

O livro O Deus de Nossos Pais de Cazzullo planta a cultura cristã como o elemento chave que conduz a história. O povo italiano principalmente fica de pano de fundo, como o povo hebreu, simbolicamente escolhido como povo de Deus pelo qual a mão de Deus guia a Humanidade. A escolha do italiano poderia ser o francês, alemão ou qualquer povo cristão. Destacamos alguns conteúdos presentes na narrativa do autor através de alusões como Dante, Shakespeare, Cervantes e muitos outros

Sem dúvida o alicerce da cultura cristã reside no período antigo envolvendo a base principal que é a herança hebraica, seguidos pela civilização greco-latina. Esta incorporou ao cristianismo sua filosofia, língua e arte.

Com o advento do cristianismo Roma passa o ocupar o centro do cristianismo devido as pregações e martírios de Pedro e Paulo. A partir do Imperador Constantino a Igreja Católica manteve Roma como capital.

O tronco romano do cristianismo lançou seus ramos pelo resto do mundo tornando-se protótipo da arte, arquitetura, catedrais ainda existentes. O cristianismo concebeu em si mesmo uma renovação dando origem ao Renascimento com sua escultura, literatura, músicas, bem retratadas pelo Gênio do Cristianismo de François-René de Chateaubriand.

O autor dá ênfase na espiritualidade nas obras de arte e literatura universais no período medieval ao mesmo tempo em que os monges salvaram obras importantes que teriam sido destruídas nas invasões europeias como o mosteiro de Monte Cassino na Itália. Isto salvou a continuidade da educação cristã para toda a Europa.

Outro detalhe importante foram os santos místicos como São Francisco de Assis e Santa Clara que garantiram os valores cristãos e a espiritualidade num período de grande decadência religiosa.

Por último a influencia do cristianismo que exerceu um papel moderador nas guerras entre si de príncipes europeus. Por isso o Deus de Nossos Pais é um romance que conhecemos, mas sempre gostamos de ouvir.


[i] I nostri padri erano convinti di vivere sotto l’occhio di Dio: la sua esistenza era certa come quella del sole che sorge e tramonta. Oggi abbiamo smesso di crederci, o anche solo di pensarci. E la Bibbia nessuno la legge più. Invece la Bibbia è un libro meraviglioso. Che si può leggere anche come un grande romanzo. L’autobiografia di Dio. (Os nossos pais estavam convencidos de que viviam sob o olhar de Deus: a sua existência era tão certa como a do sol nascente e poente. Hoje deixamos de acreditar, ou mesmo de pensar nisso. E ninguém mais lê a Bíblia. Em vez disso, a Bíblia é um livro maravilhoso. Que também pode ser lido como um grande romance. A autobiografia de Deus.)

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