sexta-feira, 12 de novembro de 2021

NOVO RUMO EDUCACIONAL - PROFISSIONAL TÉCNICO? Selvino Antonio Malfatti

 

                  Escola tradicional e escola do futuro - COC  


Há falta de emprego no Brasil? Sim e não. Sim, por que as filas na busca de emprego são intermináveis. Não, por que sobram vagas a serem preenchidas.

Diz o Ministério da Economia: “...nos cinco primeiros meses deste ano o número de vagas criadas superou a marca de 1 milhão. Nesse período, foram gerados 1.233.372 vagas com carteira assinada.

Então, qual é o problema? Se há vagas de trabalho de sobra e há trabalhadores em busca de emprego, algo está errado.

Detalhemos a questão: 

1.    Profissões em alta em 2021

Enfermagem, medicina e outras especializações de saúde

Especialista em Marketing Digital

Áreas da tecnologia

Profissionais de finanças

Profissionais de customer success

Área de vendas e comercial

Especialista em  e-commerce

Profissionais autônomos de conteúdo

Especialistas em saúde mental

2.    Profissionais mais procurados:

1 – Engenheiro. A primeira profissão da lista é a de Engenheiro. ...

2 – Administrador de empresas. ...

3 – Médico. ...

4 – Profissional de Tecnologia da Informação. ...

5 – Atleta. ...

6 – Professor de escola. ...

7 – Mecânico de veículos. ...

9 – Advogado.

3.    Profissões mais procuradas

Gestor(a) de mídias sociais

Engenheiro(a) de cibersegurança

Representante de vendas

Especialista em sucesso do cliente

Cientista de dados

Engenheiro(a) de dados

Especialista em Inteligência Artificial

Programador(a) de JavaScript

Investidor(a) Day Trader

Motorista

Consultor(a) de investimentos

Assistente de mídias sociais

Desenvolvedor(a) de plataforma Salesforce

Recrutador(a) especialista em Tecnologia da Informação

Coach de metodologia Agile.

Se há ofertas de vagas e há trabalhadores buscando emprego, a hipótese mais provável é que não há uma correspondência entre o perfil de trabalhador exigido e o candidato à vaga. O candidato, nem por culpa dele, nem da escola, não está preparado para a atividade ofertada. Se há vaga para operador de máquina e o pretendente é formado em filosofia com certeza não será aceito por que não está preparado para a função, isto é, falta-lhe competência.

Ao que tudo indica existe um descompasso, uma defasagem entre as necessidades empresariais e a formação ofertada pela escola. A necessidade da sociedade não encontra correspondência com o perfil do profissional formado pela escola. (George Gilder, “Riqueza e pobreza,”).

No entanto, não é tão simples assim para solucionar. Suponhamos uma Escola constatando as necessidades da sociedade - profissionais técnico-aqrícolas - se propõe atendê-las. Para tanto precisa contratar profissionais qualificados para ministrar conhecimentos e habilitar estudantes profissionalmente.  Há necessidade de laboratórios, insumos, desde matérias primas até materiais descartáveis, instalações, licenças operacionais dos poderes públicos, investimentos e uma infinidade de itens necessários para operacionalizar os laboratórios. Isto leva um bom tempo e grandes investimentos. Após isso inicia a habilitação dos inscritos. Provavelmente após 2 a 3 anos consegue formar os novos profissionais. Mas, quem garante que naquele momento posterior às necessidades da sociedade serão as mesmas de quando começou a preparação profissional? Não terão mudado, não serão outras, não terão novas nuances de conhecimentos? Com certeza, com isso, deverá iniciar o novo ciclo e quando findar este novamente deverá reiniciar. Estamos diante da lenda de Sísifo? Isto é, do círculo vicioso entre oferta e formação de trabalhadores.

Diante de tal realidade alguns sugerem que as habilidades sejam adquiridas concomitantemente na teoria e na prática. Tradicionalmente se adquirem conhecimentos teóricos na escola e em seguida os conhecimentos são levados à prática digamos, genericamente, na empresa.

Este era o mundo da economia tradicional. A empresa (fábrica, como querem outros) recebia alunos formados, habilitados. As funções técnicas eram mínimas e as operárias, maioria esmagadora. Agora inverteu. Praticamente todos são técnicos e os operários desapareceram. A escola, então, atualmente na prática não deve preparar uma minoria, mas  todos para funções técnicas. Até mesmo funções mais humildes como as de limpeza, agora exigem domínio de informática e por isso também são técnicos.

Sugere-se uma mudança no modelo: estes dois momentos sejam fundidos. Pratica-se adquirindo os conhecimentos. Podem-se citar como exemplos as escolas de línguas. O candidato pratica o linguajar e através dele passa a dominar a teoria desta prática. Pratica-se e aprende-se.

Há uma empresa no Rio Grande do Sul que age dentro deste novo modelo. No último ano do ensino médio, a empresa entra em contato com a escola solicitando uma visita de um técnico da empresa. No dia acertado, o técnico vai à escola, conversa com os alunos, aplica os testes e oferece o estágio remunerado. O estagiário cumpre o período recebendo o treinamento específico e após, se o perfil do profissional procurado pela empresa estiverr de acordo e o candidato  tiver interesse é contratado.

Há um consenso de que as habilidades são incorporadas gradualmente, a partir do conhecimento. Atualmente na bagagem de mão não podem faltar habilidades digitais.

A década de Noventa poderia ser considerado o marco inicial da era digital e com ela o engatinhar da inteligência artificial.  As próprias máquinas têm sua autoaprendizagem e os jovens que chegaram nesta época assimilaram a novidade, mas sem seu domínio. Até onde chega seu domínio teórico e prático da informática? Com certeza não passa do bê-á-bá.

Aí está o gargalo do processo. O jovem conhece o senso comum da informática, mas não a assimilou.  Na inscrição para o emprego o candidato diz que conhece informática, mas quando exige a aplicação não consegue operacionalizá-la. Logo, falta-lhe treinamento. O novo trabalhador de empresa é um técnico e não um operário.

As mesmas atividades antigas, atualmente são feitas pela informática. Os jovens ao serem inquiridos sobre atividades de mecânicos, soldadores, encanadores, carpinteiros, eletricistas dizem que conhecem após a contratação.  Mecânica, carpintaria, eletrônica e outras atividades agora não são mais manuais ou mecânicas, mas digitais ou automáticas, operacionalizadas através de robôs.

Qual o rumo para a educação? Inverter ou adaptar? Submeter-se totalmente às exigências econômicas da tecnologia da informática? Desconhecer a nova realidade e continuar com uma educação tradicional, mas defasada?

Balançar um meio termo entre o tecnológico e o tradicional.  Adotar um modelo híbrido: após concluir seus estudos secundários o candidato  ingressa numa empresa como aprendiz, estagiário, e após, se quiser,  é admitido plenamente na empresa ou prossegue nos estudos superiores.

 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

G20, ROMA E COP26, ESCÓCIA – POLÍTICA x CIÊNCIA. Selvino Antonio Malfatti

 




Atualmente se realizada a cúpula do clima em Roma com as 20 maiores economias do planeta, e em seguida a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow, na Escócia.

Nas duas a constatação de que o clima do planeta está no limite. Já se tentou estabelecer metas de diminuição de poluentes. Mas isto leva a diminuição da produção e com ele a restrição ao consumo. E isto as maiores potências não querem  por que ninguém quer a privação, ninguém quer produzir menos, ninguém quer o sacrifício para salvar o clima.

Se numa família ou em outro grupo as provisões não conseguirem satisfazer as necessidades dos membros há três alternativas: ou consumir menos ou produzir mais ou administrar melhor. Se 5 sacos de batatas não forem suficientes ou se diminuem os gastos ou se acrescentam mais batatas ou se consuma racionalmente de tal forma que não falte.

O mesmo acontece com nossa morada comum, a terra. Neste momento o consumo é maior do que se produz. A produção envolve um desgaste tal que neste ritmo a terra não suportará mais em breve. Até agora o diapasão para solucionar foi diminuir o consumo. Acontece que as grandes economias não querem a privação, ao contrário querem aumentar. O aumento de produção, no entanto acarreta o aumento do desgaste o qual levará em breve ao colapso do sistema. Logo, a solução da privação coletiva ou o aumento da produção estão descartados. Numa solução política o bode expiatório são as nações sem poder econômico, mas com potencial despoluidor através do seu meio ambiente. É para elas que se voltaram o dedo acusatório. Chega de agredir o meio ambiente, de poluir de desmatar. Mas a pergunta: o que fizeram os países ricos com o meio ambiente, com a poluição, com o desmatamento? Não seria exatamente por isso que são ricos, em cima das costas dos pobres?

Qual alternativa? A meta seria diminuir a produção mundial para diminuir a temperatura. Conforme o G20 se esta aumentar mais – 1 grau ou 1/5- o planeta entrará em colapso.

Surgem e já surgiram várias propostas, mas a mais nova e original é da climatologista italiana Claudia Tebaldi, há anos nos Estados Unidos. Certamente baseada nas conclusões de Maltus que afirmava que a população mundial aumentava geometricamente enquanto a produção de alimentos aritmeticamente. Nesta proporção em 25 anos a população dobrava e a produção de alimentos aumentava desproporcionalmente. O que Maltus não previu foi a tecnologia que colocou a produção no mesmo patamar.

Cláudia Tebaldi sugeriu que em vez de se insistir na diminuição da produção se aplicasse a tecnologia na contenção dos efeitos perversos da produção, isto é, a poluição. Diz ela: “Realisticamente, acho que será mais fácil resolver o problema do aquecimento global com a tecnologia do que mudar radicalmente nosso estilo de vida, como a política promete fazer".

A climatologista é contra tão somente a propostas políticas, contrapondo uma solução também científica. Ela acha que será mais fácil resolver o problema do aquecimento global do que mudar o estivo de vida das populações. Se isto fosse através de métodos compulsórios talvez se conseguisse por algum tempo. Mas definitivamente não. Então a saída não pode ser só política, mas científica.

A prova de que medidas científicas podem resolver problemas basta compara o Katrina com Ida. O primeiro causou grandes prejuízos materiais. Foram mais de 108 bilhões e 1800 vidas.  Enquanto o segundo teve efeitos maiores com a perda de 30 milhões de barris de petróleo, no entanto salvou mais vidas.

Para o caso do Katrina medidas científicas preventivas foram tomadas. A Allianz implementou inspeções frequentes de telhados, verificando a idade e estruturas e exames minuciosos e com isso pode suportar melhor os impactos das chuvas e vendavais.

Está colocada a questão: política ou ciência. Basta escolher.

 


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

ASTEROIDE DESTRUIU SODOMA E GOMORRA . Selvino Antonio Malfatti.

 

            Escavações em Tall el-Hamman - antigamente  Sodoma e Gomorra.


Instigante a narrativa bíblica sobre a destruição de Sodoma e Gomorra. O texto bíblico vem recheado de interpretação por parte de quem escreveu. Eis o texto bíblico:

“O Senhor fez então cair sobre Sodoma e Gomorra uma chuva de enxofre e de fogo, vinda do Senhor, do céu. E destruiu essas cidades e toda a planície, assim como todos os habitantes das cidades e a vegetação do solo." (Gênesis, 19, 24-25)

Assim como este texto bíblico há outros, como da mitologia grega, egípcia, romana, mesopotâmica, hindu, que apresentam narrativas semelhantes: acontecimento “sobrenatural”, atribuição a autoria à divindade, com objetivo moral ou religioso.

O que teria acontecido com Sodoma e Gomorra? Levantamos a hipótese de que: 1. Os fatos realmente aconteceram como narrados na Bíblia. 2. Agora se constatou que não houve intervenção de seres sobrenaturais, mas apenas um fenômeno natural.  3. A explicação bíblica deveu-se a um intérprete humano que adaptou o fato à acessibilidade compreensiva da população.

Como aconteceu com fenômenos semelhantes as explicações foram atribuídas a seres sobrenaturais. No entanto, faz-se necessário distinguir os fenômenos naturais dos sobrenaturais, de seres terrestres extraterrestres e da divindade. Seres sobrenaturais dizem respeito à divindade. Seres naturais são os originários da natureza inclusive os do cosmos, como os humanos e extraterrestres. Os fenômenos sobrenaturais estão foram da dimensão física e afetos à religião. Por isso, se houver intervenção de seres extraterrestres os fenômenos são também naturais.

Atualmente sabe-se por comprovação científica que boa parte dos fenômenos extraordinários bíblicos atribuídos à divindade são de origem natural. O que falta ainda é associar estes fenômenos não à divindade, mas a seres extraterrestres. É o caso dos grandes milagres de Jesus. Um dia a ciência chegará lá?

Seria irracional pensar que houve um tempo de convivência entre extraterrestres (antigos deuses) e humanos? Muito mais lógica e fácil seria a explicação dos fenômenos extraordinários se admitíssemos isto. Não estaria acontecendo novamente hoje em dia a intervenção de extraterrestres nos fenômenos extraordinários atribuídos a milagres de origem divina?

Aquele mundo descrito e povoado por anjos, demônios, deuses, espíritos não seria apenas seres extraterrestres?

Conforme artigo publicado na Revista “Nature” a destruição de Sodoma e Gomorra foi causada por objeto natural, extraterreste, um asteroide, provavelmente. É a conclusão de cientistas, que, depois de 15 anos de escavações concluíram que Tall el-Hamman (antigamente Sodoma e Gomorra), foram destruídas por um objeto vindo do espaço, tal como aconteceu em 1908 com Tunguska, na Sibéria.

Como os patriarcas, profetas, sacerdotes explicavam os fenômenos extraordinários acontecidos naqueles tempos como Sodoma e Gomorra? Podemos imaginar a estupefação das populações ao ver as cidades em chamas e fumo. Indagavam a Lot e perguntavam o quê aconteceu. Lot explicava-lhes o acontecido:

- Como sabeis as duas cidades viviam em pecado. Apesar de eu lhes pedir em nome de Deus para praticarem a justiça, continuaram na sua devassidão e perversão, inclusive praticando sexo com animais, adorando ídolos e espoliando os pobres. Então Deus as castigou destruindo-as pelas chamas.

Lot precisava dar uma explicação e apelou para a intervenção divina. Mas atualmente sabe-se que as pesquisas de arqueólogos, geólogos, geoquímicos, geomorfologistas, mineralogistas, paleobotânicas e outras. Especialistas em impacto cósmico e médicos encontraram evidências que foi um fenômeno natural, embora não originário do planeta terra. Foram descartados vulcões, incêndios ou terremotos. De onde então? Foram encontrados micro diamantes, esférulas vitrificadas e grãos de quartzo com estruturas decorrentes de altas pressões, típicas de áreas atingidas por intensas ondas de choque. Tudo isto leva crer que algum objeto extraterrestre tenha atingido as duas cidades e perto daí, também Jericó sofreu as consequências. (https://www.corriere.it/cronache/21_settembre)


sexta-feira, 22 de outubro de 2021

DEZ ANOS SEM STEVE JOB E MUNDO VIRTUAL. Selvino Antonio Malfatti.

 





Fazem dez anos que o empresário norte-americano Steve Jobs (1955-2011)  criou a Apple e com ela "Macintosh", o "iPod", o "iPhone" e o "iPad". Foi um empreendedor e inovador na área de informática. A Apple teve sua maior importância no surgimento de computadores pessoais, filmes, música e telefones celulares.

A bibliografia mais significativa é de Walter Isaacson, intitulada Steve Jobs.

Na lenda de Górdio dar-se-ia o trono da Ásia a quem desatasse o nó Górdio. Nenhum pretendente conseguia o feito, até que Alexandre, o Grande, desembainhou a espada e cortou o nó. Alexandre desrespeitou as regras, pois o nó devia ser desatado e não cortado. Mesmo assim Alexandre tornou-se o soberano da Ásia.

Com Jobs aconteceu o mesmo cortando o nó Górdio da tecnologia. O que todos julgavam impossível, ele, serenamente, sem agredir ninguém, rompeu a barreira do som e tornou-se o rei, fundando a Apple. Existem outros cofundadores como Steve Wozniak e Ronald Wayne entre outros. A Apple tornou-se a líder mundial de projetos e comércio de insumos eletrônicos.

Jobs socialmente foi um sujeito difícil. Era conhecido como “quebra regras”, como ocupar estacionamento para deficientes. No entanto, intelectualmente e empresarialmente era um gênio. Sua biografia é fonte e serve de inspiração a todos os que a leem e releem.

Qual o conteúdo desta biografia de vida? O que esconde atrás das letras frias e ao mesmo tempo palpitantes?

Jobs inverteu a lei de marketing. : "Você não pode apenas perguntar aos consumidores o que eles querem, e aí tentar dar isso a eles. Quando você tiver construído isso, eles vão querer algo novo".  Daí que, em vez de ofertar o que o mercado procura, oferta para o mercado procurar. É o que acontece atualmente: o mercado oferta e os consumidores consomem. Pode-se citar como exemplos os iPod, iPhone e iPad. Antes eram grandes, pesados e complicados. No lançamento não se esqueceu de dourar a pílula. Ele os transformou em pequenos, leves e fáceis e atraentes. Era o “campo de distorção da realidade”. O sucesso foi grande.

Job descobriu como os consumidores identificavam aspectos físicos – roupas – com os produtos. Vestia uma malha preta da marca St. Croix de gola alta, um jeans 501 da Levi's, e tênis 991 da New Balance. Isso nos lembra o dono da Havam, Luciano Hang:  terno verde-bandeira.

Na Índia tomou contato com a filosofia hindu, inclusive frequentou ashram, tipo de monastério e adotou o budismo por toda vida.

Para Job tudo é possível desde que “seja a pessoa certa, na hora certa e no lugar certo.”

A vida de Job parece ser um prefácio da esperança de saber tudo online. Tudo o que queremos saber, em segundos, temos a resposta no Google. As bibliotecas, os museus, os centros de documentação tudo pode caber num verbete do Google. As invenções de Job propiciaram uma revolução cultural sem precedentes, mas perigosamente alicerçada sobre as nuvens. Qualquer descuido, mudança de programa, clicagem em tecla errada, tudo pode desaparecer. Este mundo atual todo líquido, sem vértebra, nem consistência teve início com a Criação da Apple, “uma reencarnação da criatura.”

E o pior está por vir: o mundo online ficará reservado para uma mínima minoria. Os demais serão dependentes. Será a inimaginável tirania da minoria na informação. Os demais serão prisioneiros quando precisarem de alimentação, saúde e viver. Ingressamos no mundo virtual de smartphones, sites, programas, aplicativos e senhas. Um inferno dantesco do mundo digital.

Sem desespero. A Humanidade sempre encontra um meio para sair do fundo do poço.


sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Vilém Flusser, dificuldades contemporâneas e fake news. José Mauricio de Carvalho

 


Entender o homem contemporâneo, seus desafios e sua forma de vida é um assunto que desperta curiosidade. Todas as pessoas chegam a esse tema intuitivamente, mas para cá nos trouxeram os grandes intelectuais da atualidade desde que Emmanuel Kant estabeleceu os limites da interpretação metafísica do mundo, isto é, aquela que vinha sendo utilizada desde os antigos gregos e Martin Heidegger em Ser e Tempo apertou os contornos da razão transcendental inaugurada por Kant (STEIN, A caminho de uma fundamentação pós-metafísica, 1997, p. 105): “Postos esses limites (da razão), não se pode mais responder a nenhuma dessas questões a que correspondem as três perguntas nas obras de Kant: a) que posso saber – Crítica da Razão Pura; b) que devo fazer? – Crítica da Razão Prática; e c) que me é dado esperar? Kant colocou que a metafísica resolveria esses problemas se conseguisse responder a pergunta que é o homem?”

Então, na tentativa de encontrar resposta para: o que posso saber do mundo e como confiar nesses conhecimentos, como devo agir e o que posso esperar com minha vida e escolhas, os escritores, filósofos e cientistas tentaram explicar quem é o homem.

Desse debate participou o filósofo tcheco que viveu grande parte da vida no Brasil. Para ele, o homem de hoje é um funcionário ou programador. O ponto de partida de sua análise foi a crise contemporânea da cultura. Como quase todos os intelectuais contemporâneos ele entendeu que vivemos numa sociedade em crise. Essa crise se mostra num vazio que lembra os dias do barroco, quando (FLUSSER, 1983, p. 9): “a vacuidade que ressoava nos seus passos (do homem barroco) era a do vazio debaixo do palco.” Hoje em dia, entretanto, o vazio social é diferente, não mais pode ser comparado ao do vazio do palco. Debaixo de nossos pés há outro vazio que o do tablado do teatro. Para Flusser, o homem contemporâneo age como um criminoso que quer apagar um crime. O maior de todos os crimes recentes foi cometido no campo de Auschwitz. O campo de concentração é mais que um fenômeno isolado, é um produto característico de nossa cultura (id., p. 11): “o inaudito em Auschwitz não é o assassinato em massa, não é o crime. É a reificação derradeira de pessoas em objetos uniformes, em cinza.” A razão é que, por traz do campo de extermínio, a contemporaneidade colocou para funcionar um aparelho capaz de transformar cada homem ou mulher num objeto, retirando dele sua singular humanidade. Em outras palavras, é a transformação das pessoas em objeto, um fenômeno social que se repete atualmente.

Assim sendo, resta o desafio de superar o caminho torto da objetivação das pessoas que aparece em outras organizações sociais contemporâneas que atuam como caixas-pretas. Essas organizações funcionam segundo uma programação que des-humanizam e que, a partir de certo momento, escapam (id., p. 14): “ao controle dos seus programadores iniciais.” A crise surge porque (id., p. 15): “perdemos a fé na nossa cultura, no chão que pisamos; isto é, perdemos a fé em nós mesmos.” E o homem contemporâneo tornou-se um funcionário das organizações contemporâneas. Isso nos leva ao tema da responsabilidade com o próprio destino e o de todos, que parece longe do horizonte existencial do homem de hoje. Para Flusser, isso se dá porque a irresponsabilidade é o que surge numa realidade que transforma tudo em coisa.

O essencial dessas considerações é a urgência do uso cuidadoso da razão, porque somente seu cultivo crítico e a procura honesta da verdade são capazes de superar a conversa fiada que marca os diálogos contemporâneos. Creio que pode acrescentar ao que foi dito as Fake News, que é ordinariamente a transformação da mentira em arma política e de encobrimento ideológico e que funciona como uma nova forma de programa oferecido a funcionários que a põem a circular.


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

PROCURAVA AS ÌNDIAS, DESCOBRIU A AMÉRICA. Selvino Antonio Malfatti.


O Desembarque de Cristóvão Colombo, por Dióscoro Puebla  (1831-1901)
                                        Museu do Prado, Madrid.
  


O dia 12 de outubro está próximo. É o fato histórico do Descobrimento da América, ocorrido em 12 de Outubro de 1492, pelo calendário gregoriano da era cristã. O navegador italiano Cristóvão Colombo, na ocasião a serviço da Espanha, chegou às Bahamas, pensando que havia chegado às Índias.

O Descobrimento da América insere-se no contexto do fim da Idade Média. Neste período, Idade Média, o critério da ciência era a Bíblia. Galileu derrubou mostrando experimentalmente o inverso. O cristianismo, religião monolítica na Europa, esface-se em dezenas de religiões após a Reforma. A produção intelectual, dominada pela Igreja, com o protestante Gutenberg deixou de ser ao desobrir a imprensa e imprimir uma Vulgata da Bíblia. A nova capital do cristianismo, Constantinopla, caiu nas mãos dos turcos em 1453. O heliocentrismo impôs-se sobre o geocentrismo. A terra como uma imensa planície plana, perdeu a credibilidade e vingou a esfericidade da terra. E é sobre esta tese que acontece o Descobrimento da América. Colombo levantou a hipótese de que, se terra fosse redonda, viajando do ocidente para o oriente se chegaria lá, concretamente, da Europa às Índias. Em 12 de outubro de 1492, com três caravelas lança-se mar em direção, pensava ele, às índias. Quando avistou terra estava convicto que chegara ao seu destino. Mas não era as Índias, mas a América.

Este feito de Colombo abriu caminho para exploração das terras americanas: do centro (América central), norte (Estados Unidos e Canadá) e sul (América do sul). Á época as conquistas de Colombo foram vistas como a expansão da fé, tanto por Espanha como por Portugal.

No entanto, atualmente surgem outras visões provocando contestações ao modo como Colombo agia: genocídio de nativos, perseguição, tortura e morte de mulheres e crianças e repressão cultural dos nativos principalmente no que se refere à religião.

Por isso movimentos contestatórios surgiram em vários pontos do planeta demonstrando repúdio à forma de agir do descobridor. Isto se externa na demolição das estátuas de Colombo. Merece destaque a derrubada da estátua de Colombo na Barranquilla, na Colômbia. O monumento político militar no Chile, embora retirado para restauração, provavelmente nunca voltará ao local. Na Argentina no governo de Cristina Kirchner foi determinado que a estátua fosse retirada do pátio da Casa Rosada. Em Boston foi decapitada a estátua. Nos Estados Unidos o “Dia de Colombo” foi substituído por Dia de Homenagem aos povos Indígenas. Outras manifestações surgiram nas mais vaiadas partes do mundo.

Um dos estudiosos das atitudes e das atrocidades de Colombo, narradas por Bartolomeu de las Casas (ex-membro da escolta de Colombo e depois monge), cita algumas:

- com golpe de espada separar partes dos corpos dos indígenas.

- jogar crianças para trás para ver quem atirava mais longe.

- atirar crianças para alimentar cães famintos.

- relações sexuais com meninas de 9 e 10 anos.

- escravidão de índios, mulheres e crianças.

- queima vivos dos escravos fujões. (A Conquista da América. Trechos de Bartolomé de las Casas)

Um balanço a cima das ideologias apontam erros e acertos de Colombo, sempre dentro do contexto da época..

1º Colombo, com três caravelas, lançou-se ao mar para chegar às Índias. Descobriu um continente, tomou posse e iniciou a colonização. É a América.

2º Cumpriu ordens dos reis da Espanha e iniciou a colonização.

3º Por conta própria escravizou, torturou e matou nativos em massa.

4º Chegou ser preso pelo governador, mas foi solto por ordens dos reis.

O historiador Franco Cardini no livro “A Desoberta da América”, frisa que para nós atualmente não é mais tão importante o ouro levado para a Espanha, mas:

“Se hoje provamos o chocolate feito com cacau, temperamos a massa com tomate, acompanhamos batata frita, fazemos polenta com milho, é também porque Colombo teve um sonho e conseguiu realizá-lo”:  a AMÉRICA.

 

 


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

UNIVERSIDADE DE PENSAMENTO CRÍTICO E LIVRE? Selvino Antonio Malfatti.

 


             Reitor -Franco Anelli - Corriere


A Universidade Católica do Sagrado Coração, de Milão, completará em dezembro próximo cem anos. Emersa de um grupo de intelectuais liderados pelo Padre Agostino Gemelli, em 1921, com o objetivo de trazer de volta ao país o debate cultural, leia-e humanista. Atualmente atinge uma dimensão de cinco localidades, quase quarenta mil alunos e doze faculdades.

Para o reitor Franco Anelli o novo objetivo após os cem anos é “formar alunos capazes de elaborar um pensamento crítico e, portanto, livre”. E mais: “criatividade, pensamento critico. Para a universidade, o futuro é agora”.

Grandes líderes políticos frequentaram a universidade católica. Ainda se continuam presentes como o presidente da República Sergio Mattarella que nesta data inaugura o presente ano letivo. Dentre as pessoas de destaque podem ser citadas: Romano Prodi, Lorenzo Ornaghi, Amintore Fanfani, Ciriaco de Mita entre outros.

É a maior universidade privada da Europa e do mundo em número de inscritos. Pelo sistema internacional de classificação foi-lhe concedido cinco estrelas em: empregabilidade, ensino, instalações e engajamento.

Três pensamentos constituem o “Leitmotiv” da universidade projetada para o futuro conforme Franco Anelli: crítica, criatividade e liberdade. Pela crítica pretende-se chegar à ordem superior, originária à própria etimologia da palavra: separar e distinguir. No momento que se tiver diante de si o pensamento claro, será possível ser criativo e eleger as alternativas que se considerarem melhores e com isso ser livre.

O próximo passo, para enfrentar o futuro, será introduzir a diversidade diferenciando-se do passado. Aos docentes será possibilitado o acesso de ferramentas tecnológicas, mantendo o cuidado de não se preocupar como usar as ferramentas, mas usá-las no serviço da inovação e construir cursos de formas diferenciadas.

Outra mudança que deverá advir é a respeito dos conteúdos, isto é, o quê ensinar. Para tanto é preciso introduzir uma nova interpretação da realidade. O século XX já é passado, agora temos uma sociedade fundada no digital, novos objetos de troca, processos novos de tomadas de decisões e consensos, inclusive novo acesso aos cargos políticos. Novas realidades devem ser compreendidas e para tanto novas habilidades serão construídas. Devemos lançar o desafio da perspicácia para perceber o que ofertar para a nova realidade. Entender o que está por vir e ofertar habilidades para poder geri-las. Em outras palavras: é preciso antecipar-se ao futuro.

Para o reitor da universidade, estar atualizado hoje significa ser capaz de pensar, ser original e criativo. Não basta encher a cabeça das pessoas de noções, mas que saibam processá-las. Para tanto é preciso desenvolver a independência de pensamento, o dom da crítica e uma vocação de originalidade.

No momento atual temos uma crise de competências. O trabalho de vários profissionais está sendo posto em cheque como de médicos ou de professores. Mas para reconhecer as habilidades dos outros é preciso ter suas próprias. Para enfrentar as dificuldades que se apresentam são necessárias habilidades. E isto se consegue através da educação que transmita informação, noções, mas, sobretudo ferramentas para que a própria pessoa possa descobrir os meios para desenvolver a criatividade, sem se descuidar de submeter crítica. (Franco Anelli: «Creatività, pensiero critico. Per l’università il futuro è ora, di ANNACHIARA SACCHI – Corriere dela Sera).

As sugestões do Reitor nos apontam algumas direções para o ensino do futuro da universidade católica:

- o uso de tecnologias digitais.

- a adoção de novas metodologias

- novos enfoques nas relações humanas incorporando a diversidade.

- uso de dados coletados

- trabalho com projetos

- ensino híbrido (blended learning) ou, on-off

- Complementariedade entre ensino presencial e à distância

- Gestão administrativa do ensino

Pessoalmente penso que é um ensino essencialmente tecnicista e mecanicista: onde está o lugar do humano objetivo primeiro da universidade? (só a maquina ensina e avalia). O que acontece na avaliação? Uma máquina alimentada por um programador mecânico exige de um humano respostas elaboradas por um programador. 

Tal proposta não rompe com a tradição humanista de uma universidade católica?

Terá abandonado ao adversário o baluarte do humanismo rendendo-se ao tecnicismo?

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