sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Humanismo e dilemas contemporâneos. José Mauricio de Carvalho.


 

Humanismo historicamente caracterizou o movimento literário e filosófico que, no século XIV, dialogou com a antiga cultura clássica. Teve início na Itália e se espalhou pelo mundo ocidental, estando suas ideias na base do que ficou conhecido como modernidade. Depois dessa origem, o conceito se misturou a diferentes teorias modernas que genericamente tinham o homem no centro de suas preocupações. É claro que há uma base comum aos humanismos que surgiram desde então, e ela parece ser a intenção de entender o homem de forma ampla, tomando-o em suas várias dimensões e inserindo-o na natureza e/ou história, ou melhor, naquilo que Ortega y Gasset resumiu, contemporaneamente, com o nome de circunstância.

É evidente que, dado seu caráter geral, há muitas teorias filosóficas, sociológicas ou históricas que genericamente assumem, como pano de fundo, essa raiz humanista da renascença, mas é uma simplificação inadequada confundir o humanismo com qualquer delas. Um erro comum nestes dias de conservadorismo religioso e ultradireita política é recusar, por exemplo, como marxismo toda teoria que valoriza o esforço do homem para criar um mundo mais do seu jeito. O marxismo, embora integre o movimento moderno de valorização do esforço humano contra o primado medieval da fé, como teoria filosófica, social e econômica representa uma visão de homem, história, sociedade e economia que ficaram para trás no tempo. Teve sua importância na história das ideias pela crítica que significou ao idealismo hegeliano ao interpretar a história e a sociedade em função das necessidades materiais do homem. Nesse sentido, ampliou o significado da dimensão econômica do homem, realçando a vida prática e produtiva. Vivendo nos dias da estruturação da sociedade industrial, Karl Marx viu no proletariado a força da mudança histórica, compreendendo as explicações espirituais do mundo como produto das diferentes maneiras de produzir riqueza. A economia marxista vê o capitalismo como forma de produção econômica de transição, destinada a ser substituída pelo comunismo, em razão das contradições captadas pelo movimento dialético da história. Em síntese, foi um movimento datado, representa, no âmbito filosófico, uma crítica ao hegelianismo, contempla uma preocupação com o homem privilegiando suas necessidades materiais e foi superado pelo andar da história, apesar das contribuições que trouxe.

O humanismo encontra-se na base do marxismo e de muitas outras teorias modernas, ele reflete um modo ampliado de ver o homem. No entanto, não é sinônimo perfeito de nenhuma dessas teorias modernas ou renascentistas que embasa. Desse modo podemos dizer que surgiram na modernidade diferentes formas de humanismo, conforme foram combinados com outras ideias.

Interpretações divergentes e opostas do humanismo estão, na base do conflito atual do neoconservadorismo evangélico com outras criações modernas. As versões antagônicas do humanismo representam, em seus extremos, uma proposta de salvação do homem pela religião ou, ao contrário, uma dissolução da religião no processo histórico. O mundo moderno provocou, pelo foco no mundo, um eclipse de Deus, como mencionou Martin Buber, isto é, representou um esquecimento de Deus e de seu papel na vida humana.

As dificuldades contemporâneas de setores evangélicos é que eles negam, em nome de uma fé pura o valor do esforço e realizações humanas, apostando numa salvação fora do mundo. A face contrária desse movimento, representada pelas teses de Georg Hegel e radicalizadas por Karl Marx, considera a evolução histórica, a superação da espiritualidade religiosa e redução da capacidade espiritual do homem como objetivos culturais. O esforço da razão humana, em suas várias realizações, independente do vínculo com a fé, tornou-se foco de ataque de setores radicais evangélicos.

No entanto, sabemos que a realizações da razão como outras criações humanas não são contrárias a espiritualidade, sendo, algumas vezes, parte da evolução das ideias cristãs. Isso porque muitos aspectos da cultura, a ética filosófica por exemplo, foi profundamente influenciada pelo cristianismo, diga-se o mesmo dos direitos humanos e muitos aspectos da arte. E não apenas sabemos hoje que a espiritualidade religiosa representa um sentido importante para proteção da saúde mental, como boa parte dos cientistas mostram-se pessoas de fé. Isso mesmo a ciência limitando seu discurso ao entendimento do funcionamento do mundo e havendo aqueles que se limitam ao que a ciência reconhece. Resumindo, há uma compreensão da fé que nega o mundo, uma que se faz em diálogo com ele e uma visão de mundo à parte da fé. Em todas elas podem ou não existir ideias humanistas.

O singular de nossos dias foi a aproximação da ultradireita dos setores mais radicais do movimento evangélico. Os evangélicos recusando o humanismo absoluto em nome do primado da fé e a ultradireita recusando, as criações modernas que não se ajustam as suas teses, especialmente o marxismo. Enfim, a aproximação entre movimentos tão diferentes se explica porque o hegelianismo e marxismo representam o esforço humano de construção do mundo que contém os elementos recusados por ambos os grupos. Hegel e Marx foram tomados como exemplo do que ambos os grupos recusam. Daí a confusão que fazem muitos filiados da ultradireita que identificam nazismo com o comunismo, considerando-os de esquerda, sem perceber que as posições da ultradireita são essencialmente nazistas e formam, em nossos dias, um neonazismo. Esses políticos revelam desconhecimento histórico ao não saberem que essas duas formas de totalitarismo foram inimigas no século passado. A confusão se nutre por essa identificação de inimigos comuns presentes nas ideias modernas. Porém, falamos de movimentos diferentes, radicais evangélicos e ultradireita que se aproximaram por conta da recusa do que o idealismo hegeliano e marxismo representam: a recusa do esforço humano de um lado e do modo de produção econômica de outro.


 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

A RECEITA DA FELICIDADE POR SÊNECA . Selvino Antonio Malfatti.


 


Na obra que aborda o tema da Felicidade, na “Biblioteca da Felicidade”, é apresentado o filósofo Lucio Anneo Seneca, mais conhecido como simplesmente SENECA. Viveu na corte dos imperadores Cláudio e Nero, sendo preceptor deste. Exerceu a função de questor e foi nomeador senador. Destacou-se como advogado, orador e filósofo, além de literato.

Foi um dos pensadores do passado que refletiram sobre a questão da felicidade. Acusado de participar de uma conspiração foi exilado na ilha de Córsega. Foi neste período que escreveu suas meditações filosóficas apreciadas ainda hoje. Uma das obras primas é sobre a felicidade.

Os vícios devem ser sempre combatidos, pois a eles anulam a liberdade. Quem acolhe as modas degradantes ou a hipocrisia mata sua própria liberdade. A reflexão deve buscar o sentido da existência que é viver com dignidade. Se conseguir isto terá a certeza de morrer em paz.

O homem, diante dos acontecimentos, deve permanecer imperturbável. Imiscuir-se na realidade, mas não se deixar dominar por ela. A ação dos demais não deve desviá-lo da rota por ele traçada.

Sêneca viveu não alienado, mas atuante dentro da corte romana. Via toda a sordidez do governo de Nero, mas procurava um lenitivo na meditação filosófica. Neste aspecto não seria demais compará-lo aos filósofos de antes e atuais como :Dante, Shakespeare, Kierkegaard, Heidegger, Rimbaud, Svevo, Sartre, Dino Campana, Moravia, Pasolini.

A característica mais marcante de Sêneca é sua ênfase no domínio das paixões. E Nesse sentido pode ser comparado aos modernos na defesa da liberdade pessoal. O que os atuais fizeram foi dar continuidade ao pensamento de Sêneca. Podemos compará-lo e mesmo coloca-lo entre: Locke, Rousseau, Tocqueville, Kant, Mises, Max Weber, entre outros.

Professou a filosofia do estoicismo, uma ideologia da República e Império Romano.

Esta filosofia originou-se da Grande Grécia. O fundador, Zenão de Citium, dirigiu a antiga escola aproximadamente no século IV a. C. Os mais renomados estóicos foram Zenão, Cleante e Crisipo. Entre os romanos destacaram-se Sêneca, Marco Aurélio, Possidônio e outros.

Conforme o estoicismo a sabedoria reside na liberdade. Para se chegar a ela, o homem necessitava livrar-se das paixões e das influências exteriores. Este ideal era uma exigência da reta razão. O homem é partícipe da lei natural e da lei interior (consciência). Estas o levam para o ideal da liberdade. Por isso, para se chegar a ele, deveria viver conforme o lema: “segue a natureza”.

Os estóicos consideravam-se cidadãos do mundo e pretendiam erigir um Estado Universal. A sociedade abrange todo o gênero humano. O próprio universo mitológico é incluído nessa visão cosmopolita. Marco Aurélio dizia que todos os homens são cidadãos da República de Zeus.

Embora o universo esteja continuamente em movimento, as sociedades em permanentes mudanças e os homens constantemente se deslocando de um lugar para outro, sempre permanece a natureza comum dos homens. Dizia Sêneca: “Mas nos seguem em toda parte as duas coisas mais belas: a natureza comum a todos e a virtude individual.”

sexta-feira, 23 de julho de 2021

ARMADILHAS DA MEMÓRIA. Selvino Antonio Malfatti

 

Este é o título que os colunistas do Corriere della Sera, DANIELE GATTI E TOMASO VECCHI, deram ao ensaio What is memory. (Daniele Gatti e Tomaso Vecchi nel libro Che cos’è la memoria, edito da Carocci; negli Stati Uniti è uscita la versione in inglese, Memory as Prediction, pubblicata da The Mit Press).

Se fores à Disneylândia e ao sair estás convicto que viu o Pernalonga, com certeza foi enganado pela memória. O personagem não é da Disney, mas da Warner Bros. A memória te pregou uma peça! Ela simula ver coisas que se viu, que se ouviu, que se sentiu e até mesmo mostrando o contrário do que realmente aconteceu, apagando o que se viu além de deturpar a tralidadde ou realçar o que não se viu.

A memória é passível de engano, por mais que relutemos em acreditar. Somos capazes de jurar que vimos algo, embora o local seja adequado. Não gostamos de admitir que a ferramenta que define nossa identidade e nos possibilita orientar, também nos enganar.

È clássico o experimento para provar.

Aos participantes contam a história de um ditador que por causa de sua crueldade levou seu país à ruína. Consta somente o essencial, com poucos detalhes, fácil de lembrar. À metade dos participantes foi dada a informação de que o ditador se chamava GERALD MARTIN enquanto à outra metade foi dito que era ADOLF HITLER. Uma semana depois os detalhes tiveram que ser lembrados. Para surpresa os participantes acrescentaram detalhes que inexistiam na história original, embora coerentes com seus próprios preconceitos. Disseram que Hitler odiava os judeus e os perseguia, o que historicamente é verdadeiro, mas na história original não constasse.

Quais as variáveis que podem alterar a exatidão da memória? O tempo de exposição, 10 segundos ou 20 segundos fazem muita diferença. Não é só isso. As emoções desempenham um papel fundamental. Um acontecimento carregado intensamente de emoção fará com que se lembre com mais ou menos facilidade. Se a narrativa tiver uma arma como ingrediente acionará fortemente sua emoção. O rosto do agressor, por exemplo, pode ser significativo para a memória ou não se lhe tenha causado medo ou não.

Se estes estudos forem transferidos para o campo do testemunho jurídico? Podem ser confiáveis ou não? Até que ponto uma testemunha merece crédito de suas lembranças? No caso de memórias autobiográficas a confiabilidade aumenta. Onde você estava, por exemplo, quando em 2014 a Alemanha derrotou o Brasil por 7X1? O tempo transcorrido entre um acontecimento e outro pode influir nos detalhes. Geralmente quanto mais tempo passado menos detalhes a memória lembrará.

Surge a pergunta: as emoções melhoram ou pioram a qualidade da memória? Os autores, GATTI E VECCHI, explicam que não podem ser adotados critérios unilaterais. Para tanto, é preciso aplicar a lei de LEI YERKES-DODSON (A lei de Yerkes-Dodson estabelece uma relação empírica entre excitação e desempenho.) Isso é um alerta neurofisiológico. Pode-se tomar como parâmetro o desempenho de alunos nas provas. Se eles estão muito excitados ou pouco o resultado é pior.  Portanto, o grau médio é o melhor resultado. Dizem os autores Gatti e Vecchi:

“Enquanto nos lembramos de quem fomos, sem saber, já estamos decidindo quem seremos amanhã”

 

sexta-feira, 16 de julho de 2021

EDGAR MORIN – CEM ANOS. Selvino Antonio Malfatti.

 

https://www.corriere.it/cultura/21_luglio_09/edgar-morin-cento-anni-festeggiato-macron-all-eliseo-6c589f7c-e0c9-11eb-a3a3-22bff11f91b7.shtml


O filósofo, sociólogo e educador Edgar Morin recebeu em 8 de julho uma homenagem em seu país, França, pelos seus cem anos. Nada mais e nada menos que o próprio presidente da França, Emmanuel Macron, esteve presente às homenagens. Além dele estiveram Dame Brigitte, os amigos Antonella, Gianollo Nonino e a esposa de Morin, Sabah e autoridades: os ministros Jean-michel Blanquer e Roselyne Bachelot; os ex-ministros Françoise Nyssen, Bernard Cazeneuve e Jack Lang, Alain Touraine, sociólogo e prêmio nonino 2016, François L’yvonnet, professor de filosofia, escritor e editor, o chef Thierry Marx e Jean Nouvel, arquiteto e designer.

O presidente saudou o homenageado como o “homem do século”, um homem animado por um pensamento apaixonado e uma curiosidade infinita. Na opinião do presidente, Morin soube unir o pensamento com a vida e “trouxe a mensagem humanista da França ao mundo”.

Edgar Morin agradeceu a homenagem em sua língua “fritagnolo” ( mistura de Francês, Italiano e Espanhol). Prometeu ir ao Prêmio Nonino em Friuli e de lá seguiria para Veneza, Florença, Roma..seu sonho: uma peregrinação na Itália.

Qual a essência do pensamento de Morin?

Uma avaliação crítica à ciência quanto à ordem, à separabilidade e às lógicas indutiva e dedutiva. A ciência sempre se pautou pela busca da ordem. Quando não a vislumbra tudo lhe parece caótico. Para Morin a essência do pensamento moderno está na sua complexibilidade. Morin vê o mundo como um todo indissociável. Para tanto, sua proposta é uma abordagem multidisciplinar. Enquanto que a tradição científica, a partir de Aristóteles é da causalidade, que é linear, Morin sugere que se tratem os fenômenos como uma totalidade orgânica. A lógica de Aristóteles, baseada na causalidade, explica os fenômenos separadamente, enquanto que a de Morin é vista primeiramente na sua totalidade e só depois analisa cada fenômeno em separado. Já na Idade contemporânea, no afã de distinguir-se da filosofia, a ciência acabou se separando. E o fosso da separação cada vez aumentou mais. Com ao surgimento da estatística e com ela o importante se tornou o quantitativo, aplicado à economia, à população, os territórios. O seguinte passo foi a tecnociência. Ao estender estes novos conhecimentos às ciências naturais e sociais criou-se o disjuntor-e-redutor, isto é, separar a ciência da filosofia. Na mesma esteira incluíram-se as humanidades, as artes e todo conhecimento não quantificável. A tarefa sempre mais abrangente de reduzir o complexo ao simples, buscando sempre o menor, como os átomos na física.

A reação veio nos meados do século XX com as ciências da terra, a ecologia e cosmologia que encetaram o diálogo pluridisciplinar e com ele disjuntor-e-redutor cedeu o espaço para a multi, inter e transdisciplinares. Daí nasce, então, o pensamento complexo, ou o paradigma da complexidade, sem separar as disciplinas, ao contrário, unindo as diversas formas de conhecimento, inclusive transportando para além do pensamento acadêmico, para as sociedades, Estado e Sociedade Civil.

O paradoxo do uno e do múltiplo já constatado pelos gregos, recebe outra interpretação além da tradicional. Existe a totalidade que é o uno complexo. Mas há também a heterogeneidade que é o mundo dos acontecimentos, confusão, ambiguidade, da incerteza. Através do conhecimento é possível afastar a desordem, eliminar as ambiguidades, a desordem através da distinção e hierarquização. A mente deve realizar tal tarefa sem neutralizar a essencialidade: a complexidade. Por a ordem sem atingir o complexus.(Edgar Morin,Introdução ao Pensamento Complexo, 1991:17/19):

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Há um cristianismo do mal? José Mauricio de Carvalho

 


O Ministro Luís Barroso, Presidente do Tribunal Superior Eleitoral mencionou em declaração recente que o ódio disseminado nas redes sociais, que veiculam o ódio, mentiras e teorias conspiratórias vem de grupos que se apresentam, não raramente, como cristãos. Essas pessoas invocam o nome do Filho de Deus para praguejar e desejar o mal a diferentes pessoas. Embora não se possa discordar do Ministro de que realmente há grupos que se dedicam a difundir a mentira e disseminar o ódio e que estejam inseridas em algumas igrejas, não creio que se possa falar de um cristianismo do mal. Isso se entendemos cristianismo como a síntese dos ensinamentos de Jesus de Nazaré, que a fé ocidental reconhece como sendo o Messias dos judeus. Se é isso há cristianismo e há outras ideologias e crenças.

Isso não significa que não exista aqueles que se aproveitam do nome de Jesus para explorar os irmãos, disseminar o ódio, divulgar mentiras e propagar o ódio e trazer divisão para o mundo. Pode-se de eles dizer, sem medo de errar, que não são discípulos de Jesus e não lhe honram o nome. Isso sabemos bem, pois como Ele já ensinara a seus apóstolos: “nem tudo o que diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mt. 7:21) Portanto, o cristianismo consiste numa prática de ensinamentos contidos no Primeiro Testamento e que Jesus atualizou para seus dias. Essa é a vontade de seu Pai. Quem não segue esses ensinamentos não é cristão e Jesus não os reconhecerá diante de seu Pai. Podemos dizer então que há um cristianismo, que é uma atualização dos ensinamentos do Primeiro Testamento, e há os que se fingem de cristãos para disseminar o ódio e a mentira. Aqueles que amam e respeitam o Mestre, assumem o cristianismo como referência de vida têm claro suas palavras: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” (João 8:32) Em outras palavras, quem segue Jesus, em nenhuma hipótese espalha mentiras, dissemina o ódio ou propaga a violência. Sobre quem não tem compromisso com a verdade o mestre ensinou a quem servem: “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.” (Jo. 8:44)

Quanto a paz no coração e ao afastamento de todo ódio o mestre foi claro sobre qual a vontade de Deus: “Deixo a paz a vocês; a minha paz dou a vocês. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbe o seu coração, nem tenham medo.” (Jo. 14, 27). E não podia ser mais explícito sobre como se comportar não só contra quem pensa diferente, mas mesmo diante dos que nos perseguem: “Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem” (Mt. 5,44)

Jesus ensinou que o Reino de Deus não se encontra dividido: Todo reino dividido contra si mesmo será destruído; e cairá uma casa por cima da outra” (Lucas 11,17). Pelo contrário, todos os que faziam o bem eram bem acolhidos pelo mestre. A divisão é obra de outro. Dividir é o modo de atuar do diabo, ele é o diabolus, aquele que divide, separa; aquele que não é a favor do que é unido e estável. Ele afastou-se do Reino de Deus, separando-se dos anjos e dos que fazem a vontade de Deus; a missão do diabo no mundo é justamente esta: lançar a divisão e a separação.

Portanto, não há um cristianismo do mal, mas o mal que se serve do cristianismo para difundir sua realidade. Um mal que se mostra no abandono às, mas inclinações, na incapacidade de escolher o bem em situações difíceis ou o pior de todos, o desejo de fazer o mal, de perpetrar a destruição, a defesa da tortura, da crueldade, a pregação ao homicídio, o desejo de recusar os valores do humanismo mantido pelo propósito imoral de recusar o que é valioso.


sexta-feira, 2 de julho de 2021

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL VERSUS INTELIGÊNCIA HUMANA. Selvino Antonio Malfatti.

 


(Michael A. Salter, «Styrobot: Nothing Comes from Nothing» (2013), Galleries of Contemporary Arts, University of Colorado shadow)


Frank Pasquale publica a partir de três de junho “As novas leis da robótica". Prefaciando a obra, o diretor da Editora Luiss University Press , Giovanni Lo Storto e o vice-diretor do jornal Corriere della Sera, Daniele Manca.

Para esclarecer a obra os comentaristas apresentam uma lenda antiga de Jehuda Löw, um rabino que viveu em Praga no final do século XVI, considerado um grande sábio, filósofo e matemático, além de profundo conhecedor da Lei e do Talmude. Tão vastos eram seus conhecimentos que lhe possibilitaram construir um Golem, ser feito de barro e de pouca capacidade mental, somente o necessário para entender as ordens de seu criador. Em compensação a força bruta superava tudo para desencorajar qualquer inimigo do povo judeu.

O Golem poderia defender a comunidade dos inimigos e realizar tarefas simples do dia-a-dia. A chave da passividade e confiabilidade seria inserir uma tábua na sua boca, com os dizeres: “palavra de Deus”. Caso não fizesse isso a criatura  começaria a crescer e não pararia mais e fugiria do controle do criador. E foi o que aconteceu. Então, Mestre Löw, teve que interromper as rezas para dominar o Golem.

A estória do Mestre Löw é mais uma variante do mito antigo: o homem que cria o homem. Em que pese ser antigo o mito há alguns anos vislumbrou-se a possibilidade de criar o homem através da inteligência artificial. Isso graças à robótica que possibilitou sair do isolamento. Com isso se transpôs uma dimensão até então somente imaginada: o diálogo entre a máquina e o humano. No entanto há limites. Isto porque à máquina faltam dois ingredientes essenciais: 1º A máquina apenas aplica o que lhe programaram. Ela não tem pensamento abstrato que lhe possibilita criar do nada. 2º Falta-lhe o livre arbítrio dando-lhe poder de optar. Não está apta a escolher entre duas alternativas, indo contra a programação. Inteligência artificial não é coisa de máquinas que raciocinam sozinhas, “ex a se”. Ao Invés, seu pensamento é “ex machina” . Sua vontade já está pré-determinada pelo programador. (http://www.ceavi.udesc.br/arquivos/id_submenu/387/brigiane_machado_da_silva___marcos_vanderlinde.pdf).

Isaac Asimov (bioquímico e escritor americano nascido na União Soviética  (1920-1992), imaginou que as máquinas podiam ser mantidas na soleira da porta da casa, como cães de guarda. Vejamos as leis da robótica, conforme ele:

1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.

2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.

3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

Mais tarde Asimov acrescentou a “Lei Zero”, acima de todas as outras: um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal.

Atualmente sabemos que se algo de errado acontecer a culpa não será da maquina, mas de seu programador.

A máquina apenas obedece, nunca manda.

 

 


sexta-feira, 25 de junho de 2021

A inconsciência, crença e irracionalidade. José Mauricio de Carvalho

 

 



Quando vivemos numa sociedade de massas como a nossa, cujo comportamento dos membros é frequentemente irracional, os estudos de Freud são de enorme significado, pois eles lançam luzes sobre o que acontece. Isso porque a conduta do homem-massa não se manifesta, ordinariamente, no espaço entre ter e dar razão e muitas coisas parecem não ter explicação. A psicanálise ajudou a entender o motivo de o homem agir frequentemente de forma irracional e, outras tantas vezes, de modo não racional. Há uma diferença entre essas duas formas de ação, embora nenhuma das duas seja consciente. A primeira é conduzida por impulsos inconscientes e reprimidos, pertence ao sistema inconsciente, não chegam a consciência espontaneamente. A segunda inclui crenças ou propósitos internos, que estão na base da racionalidade e surgem como expressão de fé íntima. Esse último comportamento se baseia em ideias do sistema consciente/pré-consciente.

Essa é uma boa forma de entender as crenças, assumindo-as como aquelas ideias inconscientes que Freud entendera habitar o sistema consciente/pré-consciente. Assim parece entender Ortega y Gasset quando avaliou que crenças são guias existenciais comuns que nascem da fidelidade ao núcleo mais íntimo da pessoa. Para ele, as crenças guiam a vida, mas não se concretizam necessariamente em ações arbitrárias ou violentas. Crença é o que faz o homem, por exemplo, levantar todos os dias com esperança de que terá um bom dia e estar certo de que a vida caminhará para o melhor, quando sabemos que nenhuma das duas coisas tem garantias nem comprovação. Crença é também o que o faz subir para seu apartamento numa torre alta, sem se preocupar ou perguntar se a edificação é firme o bastante para não desabar. No entanto, as crenças podem ser questionadas em dada ocasião. Quando assim ocorre elas deixam de ser crenças para se tornarem ideias comuns. Ideias podem ser debatidas, aceitas ou recusadas, crenças não.

As crenças mostram a forma geral de atuação humana. Correspondem a um componente pré-racional, isto é, são um tipo específico de ideia. Ortega y Gasset mostrou que nossa vida nelas se sustenta, pois elas são um tipo de ideia que habitamos. Logo, não é a análise lógica que, ordinariamente, guia o homem, mas aquelas ideias às quais o homem adere completamente e sem questionamento. As crenças formam o alicerce de nossa presença no mundo. Elas “constituem a base de nossa vida, o terreno sobre o qual ela acontece. Porque elas nos põem diante do que para nós é a realidade mesma. Toda nossa conduta, inclusive intelectual, depende de qual seja o sistema de nossas crenças autênticas. Nelas vivemos, nos movemos e somos” [1].

Muito interessante é que Ortega y Gasset observou que as crenças marcam as gerações. Assim, algumas crenças são compartilhadas pelos homens de certo tempo, cada geração as recebe por herança e enquanto elas não se colocam contra os desafios que a vida apresenta, elas permanecem. Porém, quando a vida se modifica e a crença já não corresponde à vivência geral das pessoas ela é colocada em dúvida e isso é suficiente para ela deixar de ser crença.

A psicanálise representou uma significativa contribuição para compreensão da conduta humana, ao abrir os olhos de filósofos como Ortega y Gasset para essa realidade, somos movidos por forças inconscientes, algumas num sistema, outras noutro. Essa descoberta feita com observações cuidadas, cujas evidências foram aceitas pela ciência psicológica.  A ciência usa a evidência empírica para testar esquemas de situação e teorias. Porém, é preciso distinguir as observações que nascem no espaço da ciência, das derivações que ela permite no espaço filosófico. Isso é diferente da leitura distorcida e fantasiosa dos fatos observados. Esse falseamento da ciência é uma forma de mentira que destrói as construções racionais do homem. Elas formam crenças ruins.

Assim, do mesmo modo que houve, atualmente, da parte de governantes, descrédito da vacina e insistência em procedimentos médicos não reconhecidos, em meio a maior pandemia da história do Brasil; no século passado Hitler propôs, como científica, sem evidência controlada, a crença na teoria da superioridade ariana.

A ciência passa por percalços assim, a distorção das evidências para se chegar aos resultados que se deseja. Porém, a ciência é uma forma de racionalidade que não comporta tais desvios e os anos e a comunidade científica se encarregam de reformar as mentiras que nascem de crenças ruins. Porém fica-nos a lição de que as boas práticas da ciência, que pareciam uma crença unanimidade entre os líderes das nações não o é. O que se passou entre nós é prova disso. Precisamos defender a ciência tanto das simplificações errôneas, quanto das generalizações deformantes. Isso é parte da nossa racionalidade que é fundamental para corrigir crenças ruins e entender a irracionalidade.

 


[1] ORTEGA Y GASSET, 1994, v. V, p. 387.

 

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