quinta-feira, 10 de junho de 2021

AMBIENTE FAMILAR E RELIGIOSO x ENSINO FORMAL ESCOLAR – DUAS CIDADANIAS. Selvino Antonio Malfatti.

 

            https://www.youtube.com/watch?v=eNAor3VITQg


Uma eficiente educação escolar, formal, é suficiente para garantir uma cidadania? Parece que não, ao menos para imigrantes italianos com cidadania de segunda geração. Esta, já em escolaridade regular italiana, mas vivendo num ambiente com língua e religião do seu ambiente familiar -país de origem- continuam pensar como a primeira geração, isto é, não italianos.

A hipótese de Ernesto Galli della Loggia, do jornal Corriere dela Sera, é de que a segunda geração, em que pese a educação formal do governo italiano, pensa e age, não como italianos, mas como imigrantes. O mesmo acontece com imigrantes israelitas e palestinos, conforme Gad Lerner, num artigo no Fact. Israelitas de segunda geração de imigrantes não reconhecem mais seus compatriotas e os chamam em árabe de: “yahoud kalabna ”,“ os judeus são os nossos cães ”»

Não foi o que aconteceu com os emigrantes italianos vindos para o Brasil no século XIX. Filhos de imigrantes, uns já na quarta geração, continuam mantendo as tradições italianas de seus trisavós ou mesmo tataravós ligadas à língua e religião e ao mesmo tempo se integraram à cidadania brasileira. Inclusive já na segunda geração foram mandados para Itália para combater contra seus próprios compatriotas.

Recordando-se ainda hoje das tribulações por que passaram seus antepassados. Cantam “Merica, Mérica... Abbiam dormito sul nudo terreno come le bestie andian riposar”. (Mérica, Mérica.. Dormimos no chão nu como animais que procuravam descanso.) Embora tenham se integrado à cultura brasileira, mantém a língua italiana, ainda falada no ambiente de seus antepassados. A religião se desprendeu nas novas gerações, mas a língua ainda continua viva.

A cultura italiana manteve as tradições trazidas da Itália, como hábitos culinários (panetone, pão de trigo, vinho, pizza, espaguete, risoto, polenta e técnicas agrícolas). Inicialmente havia :’noi” italiani e “i brasiliani. O significativo é que os brasileiros assimilaram os costumes e cultura italiana e vice versa.  

Além desses aspectos materiais os italianos deixaram o espírito como as danças, canções folclóricas, música, música tocada na sanfona, falar em voz alta, pronunciar todas as sílabas.

Aspectos da cultura italiana passaram para os costumes brasileiros e os brasileiros transmitiram componentes brasileiros para os italianos como na comida: feijão e arroz, churrasco, carreteiro, carne seca. 

Nos estados do sul do Brasil, onde a imigração italiana e de outras culturas se fizeram mais presentes, deixaram marcas indeléveis. Uma dessas foi o reconhecimento do Talian como patrimônio histórico e cultural desses estados. Este dialeto era falado entre os imigrantes italianos nos estados do sul e ainda se encontram núcleos que o falam, inclusive um município gaúcho o tem como língua oficial ao lado do português. É Bento Gonçalves, pioneiro dos assentamentos dos colonos italianos.

Outro município gaúcho que adota o Talian como língua co-oficial é Serafina Correa:

“– Decreto Nº 49, de 19 de julho de 2013. Dispõe sobre a utilização preferencial da língua co-oficial, o Talian, na semana do aniversário do município e dá outras providências.”

Não se negar a influência da língua e da religião no meio social das novas gerações, mas não se pode dizer que isto é generalizado. No Brasil, as novas gerações assimilaram plenamente a cultura local, inclusive a língua. E ninguém dos novos pretende mudar ou rejeita a cultura de seu novo país.

 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Boa, General. José Mauricio de Carvalho

 



Explicar o funcionamento do Estado de Direito e das instituições democráticas no Estado moderno não é fácil. Viver conforme regras estabelecidas em parlamentos livres, constituições respeitadas, exige maturidade das comunidades nacionais, além de uma precisa compreensão do que seja uma nação e das normas de moral social. Essa realidade está mais difícil nesses dias, quando o pensamento político é pouco estudado e a sociedade de massas ganha força. Assim, a passagem do General Eduardo Pazuello pelo Ministério da Saúde do atual governo ajuda a explicar questões importantes para o funcionamento do Estado de Direito.

A carreira militar proíbe a participação de militares da ativa em atos políticos e deve ser respeitada porque, sendo uma instituição permanente e de defesa do Estado, os membros das forças militares não devem se envolver em manifestações políticas. As forças militares servem ao país, nos termos postos pela Constituição, e possuem outras regras próprias da atividade. Assim, ao descumprir uma regra dessas, o militar que errou deve ser punido. E agora o mais importante. Pessoas erram, pessoas falham. Não é a instituição, essencial ao bom funcionamento do Estado, que deve ser fechada ou, nesse caso, as forças armadas dissolvidas porque um de seus membros não cumpriu as regras que as regem. Aplica-se esse princípio a casos semelhantes que envolvam outros funcionários públicos de instituições igualmente importantes: justiça, parlamento, universidades, polícia etc. O erro de um membro não justifica o desmonte da instituição.

 

O mencionado General ocupou o cargo de Ministro entorno a 9 meses. Tempo suficiente para ele demonstrar que, como gerente de saúde, é apenas um soldado de alta patente. Isso não depõe contra ele. Ninguém consegue ser muito bom em tudo, embora se espere que alguém culto tenha uma visão geral de mundo à altura de seu tempo. Por isso as ciências têm campos próprios, métodos singulares e as sociedades complexas exigem preparação específica para os postos de trabalho. Mas a participação do General como Ministro da Saúde ajuda a mostrar que os militares, se estão preparados para sua missão constitucional, não são especialistas em tudo e nem são eficientes para ocupar todos os cargos de Estado.

Na condição de Ministro de Estado da Saúde, o General nomeou o coronel da reserva George Divério para a Superintendência Estadual do Ministério no RJ e esse último contratou, num período de 2 dias, obras sem licitação, ou amparo legal, que somam cerca de R$ 28,8 milhões. A contratação é suspeita de fraude e corrupção, especialmente porque os contratados foram envolvidos, no passado, em outros malfeitos. São eles Fábio de Rezende Tonassi e Celso Fernandes de Mattos donos da Cefa-3 e forneceram material de informática para a Aeronáutica, em 2007. Uma investigação na ocasião mostrou que o material vendido não foi entregue, em uma fraude aos cofres públicos de mais de R$ 2 milhões. Por notar fortes indícios de irregularidades, a Advocacia-Geral da União não aprovou a dispensa de licitação para as obras e os contratos foram anulados. Ato contínuo, o Tribunal de Contas da União abriu um processo para investigar as irregularidades.  Isso revela que nem todos os militares são incorruptíveis ou, pelo menos, não estão preparados para ocupar certos cargos públicos. Não são eficientes para tudo.

Outro episódio pedagógico envolvendo o General Ministro foi o que se seguiu ao anúncio da compra de 46 milhões de doses da coronav na reunião que ele fez com os governadores em outubro de 2020. No dia seguinte, o Presidente da República desautorizou seu ministro a seguir com as tratativas com o Instituto Butantan e mandou cancelar a compra das 46 milhões de doses, embora o Ministro já tivesse anunciado a compra das vacinas em reunião com governadores. A razão nada científica do Presidente era que a vacina foi desenvolvida pelo Instituto Butantan, de São Paulo, em pareceria com a Sinovac (chinesa) e o Presidente é adversário político do governador paulista, João Doria (PSDB) e vem criticando a China por razões ideológicas. A resposta de Pazuello de que um manda e outro obedece depois da reprovação do Presidente à compra é a versão tupiniquim da desculpa dada pelos oficiais nazistas no tribunal de Nuremberg. Naquela ocasião foi descartada a desculpa de que se possa justificar atos reprováveis pelo cumprimento de ordens superiores. É que entre a ordem e a execução há a consciência pessoal como intermediária moral.

Assim, em sua rápida passagem pelo Ministério, o General nos permitiu mostrar coisas interessantes: pessoas erram, instituições de estado devem ficar a salvo desses erros; ninguém está isento de atos de corrupção, independente do posto que ocupa no Estado; ninguém, inclusive os militares, está preparado para todos os cargos do Estado e, a consciência moral é a base de nossas ações, especialmente as mais significativas e que envolvam a vida de muitas pessoas. Não se passa adiante a culpa por más escolhas. Fazer isso é ser conivente e cúmplice do mal.

 

 

 

 


 

sexta-feira, 28 de maio de 2021

TREMER É HUMANO. Selvino Antonio Malfatti.

 



O historiador Adriano Prosperi nos adverte: cuidado com o medo da liberdade, com a queda das ilusões e da necessidade de uma nova consciência do futuro. Isto consta em seu livro: Tremer é Humano.

Conforme ele duas grandes ilusões caíram com a pandemia da Covid-19. A primeira atinge a Humanidade como um todo e a segunda, a visão de mundo originária e desenvolvida no ocidente.

Por um lado, diga-se de passagem, nossa irremediável transitoriedade. Embora todos saibamos que vamos ao pó ainda assim teimamos numa infundada crença da imortalidade. O próprio apóstolo Paulo reconhece a chegada do fim. “é chegado o tempo de minha partida”. Mas a pergunta que teima em insistir: donde vem a ideia da imortalidade? Parece que o homem quer ser o que não é. Ou é, mas tem dúvidas.

Aquilo que o ser humano diz de si mesmo é o que ele não é e quer ser, mas aquilo que diz que não é, é aquilo, mas não quer ser. Com efeito, diz de si coisas maravilhosas, no entanto não corresponde à realidade. Proclama que se guia pela razão, que é livre e co-partícipe da divindade. Na verdade ele sente que não é plenamente isto, mas almeja tornar-se e agir racionalmente, livremente e incorruptivelmente. Quando nega ser cruel, mentiroso, devasso, corrupto é porque não quer ser isto, mas dobra-se à realidade de constatar que é isto e por isso esforça-se para desmentir a realidade. Não é outro o pensamento de Prosperi quando afirma: “a realidade da vida repousa no engano de uma persuasão instintiva e enraizada da própria imortalidade”. Seria mesmo uma persuasão instintiva? Por que somente o homem a possui e por que a possui?

Se o pensamento da morte como fim de tudo impregnasse nossa mente dia e noite, qual o sentido para agir, para nos alegrarmos, assumir uma causa nobre, projetar o futuro?

É por isso que a pandemia ao escancarar a precariedade da existência de forma tão crua nos deixa inativos e trêmulos perante esta realidade.

Outra decepção cruel é a difusão da notícia de que o vírus foi superado, que está batendo em retirada e que se pode cantar VITÓRIA.  Mas, para decepção, voltou. Pensava-se: como uma doença tão grotesca se instalou em países avançados, europeus, nórdicos?  Se fosse o Terceiro Mundo, na África ou Ásia, vá la! Mas na Europa?

Prosperi chama a atenção para uma realidade que queremos recusar: somos apenas mais um componente desta história natural, hóspedes majoritários, mas não necessários. E dispensáveis, senão compulsoriamente expulsáveis ou descartáveis. Somos incapazes de superar um vírus biológico.

O homem precisa voltar-se para o elo indissociável da natureza, da qual faz parte e centrar suas reflexões sobre ele. É preciso reestudar as reencenações das pragas do passado. Conforme Baruch Spinoza é preciso cortar o “o nó que amarra o medo e a esperança”, que fundamenta o apelo do sobrenatural, para confiar na razão a maneira de descobrir a “fonte da felicidade”.

Conforme Prosperi, o medo matou a confiança, transformando o relacionamento com o outro em uma ameaça a ser afastada. Até quando esta experiência persistirá no nosso futuro? Há muito a temer por que o medo insidioso está se avolumando dentro de nós...

 

 

 

FRANCISMAR PRESTES LEAL

Médico na linha de frente da UTI no tratamento da Covid- Maringa

Pulmão branco. Não há mais trocas gasosas decentes. A Covid está nos vencendo no cansaço, literalmente. Mesmo quem não foi infectado está cansado. Quem foi, ou não respira mais ou respira mal. Que doença... não poupa ninguém, absolutamente ninguém. Ainda bem que a maioria vai bem, mas não há como saber quem, de antemão. Atualmente, a maior parte dos casos críticos de Covid é composta por adultos jovens, muitos sem comorbidades, previamente saudáveis. Por alguma razão, muito provavelmente pela vacinação, os idosos estão internando e morrendo menos dessa doença. “Jovem e saudável não morre de Covid!”, chegamos a ouvir. Mentira, mais uma “fake new”, mais uma tola negação. Pulmão branco, mais um. O caso, a imagem, em questão é de um jovem adulto. Sem doenças, musculoso, atlético, aparentemente imbatível. Ao vê-lo chegar à nossa UTI, pensei em um gladiador romano, tal a imponência física daquele homem. Seu braço era maior do que minha perna, do que minha cabeça, para se ter uma ideia. Mas o olhar do gigante era o mesmo de todos que entram conscientes na UTI: o de uma criança assustada, com medo. No fundo, independentemente do quão grande aparentamos, somos todos pequenas crianças. “Não vai precisar intubar, né, doutor?”, ele disse, aos poucos, com a respiração e o coração disparados. “Tomei o kit certinho, no começo, não entendo!”, suspirou. Mais um que protelou a busca de ajuda adequada, achando que estava se curando, que estaria protegido da forma grave da Covid por determinados remédios. “Não queria vir para o hospital porque não quero ser intubado, doutor!”. Já vi esse filme, inclusive na minha família - eu pensei. Frequência respiratória alta, saturação baixa (mesmo com bastante oxigênio), arritmia cardíaca com elevada resposta ventricular. Alguns componentes do “kit”, principalmente se tomados juntos, podem causar esse tipo de arritmia. Pulmão branco, extremidades azuis. A cabeça e as mãos pareciam balões azuis. “Estou com sono, doutor”, e fechou os olhos. A intubação foi extremamente difícil: a anatomia do gigante não permitia ver suas cordas vocais. Para tentar salvar temos que calar, atravessando as cordas da voz da traqueia. “Doutor, não consigo pegar a pressão!”, gritou a enfermeira. Choque. Nas infecções graves, a pressão pode desabar. Tentamos resgatar, com “volume e drogas”, mas nem sempre conseguimos. Choque refratário. Caos, correria, procedimentos, gritos... “Parou! Assistolia!”. Comprimir o coração de um gladiador não é fácil. Uma batalha homérica. Porém, toda guerra tem um fim, ganhando ou perdendo. Perdemos, de coração apertado, lutando bravamente ao lado de um enorme guerreiro. A vida não é uma linha reta, que grita no monitor. Não há garantias nas curvas. A melhor forma de não morrermos de uma doença é não ter essa doença, evitando-a ou vacinando-se, que são as melhores “armas” que temos, mesmo que imperfeitas. “Descanse, lutador”. Chego a fantasiar a sua chegada ovacionada no coliseu do céu. Aos lutadores da terra fica o pedido repetido: cuidem-se. De azul e branco, bastam o céu e as nuvens. Que Deus nos ajude

 

 

sexta-feira, 21 de maio de 2021

O SENTIDO DA VIDA. Selvino Antonio Malfatti

 





Se tivesse um familiar no sofrimento extremo, que nada o aliviasse, gritando de dor dia e noite, e implorasse para por fim através da morte, o que faria? Pediria ao médico para atender ao desesperado ou aconselharia suportar? 

Coloquemos frente à frente do debate um arcebispo da Igreja católica e um doutor sociólogo de uma universidade.

O arcebispo – Dom Vicenzo Paglia - se auto- define como “um pequeno crente” e Luigi Manconi, o sociólogo, ele se intitula como um “pouco crente”, Ambos discutem o tema comum: o dom da vida. Mas o pano de fundo são as questões vitais do cidadão contemporâneo – liberdade, igualdade, justiça e fraternidade – na obra conjunta: O Sentido da Vida.

O formato humano que a obra assumiu foi não de ataque mútuo, nem de concordância subserviente, mas cada um tentando entender as razões do outro. Com isso assumiu um caráter cooperativo no sentido de empenhar-se na construção de algo em conjunto, uma aliança entre religião e ciência. Daí surge um sentido de comunidade e com ela um novo sentido da vida. O alicerce que amalgamou foi o respeito e a valorização das diferenças. Não foi apenas a propalação de boas intenções, mas um alicerce da vida civil. Mormente agora que a sociedade se encontra fissurada pela pandemia, ferida esta, de momento, sem perspectiva de cura. O que advirá ninguém ainda sabe, mas todos percebem que cada indivíduo está mudando e consequentemente o todo também mudará.

Diz o arcebispo: “somos dois mendigos no limiar do mistério, a caminho de tentar apreender o sentido da existência. Não temos vida no bolso. Supera-nos e por isso tentamos entender seu sentido”.

Já o sociologia contra argumenta com o princípio da esperança e evoca a formação de uma “consciência antecipadora”, como propõe Ernst Bloch. Inclusive defende um pessimismo da razão no sentido avançar impávido na defesa das liberdades e direitos pessoais. Paglia se contrapõe à tendência individualista de uma sociedades presa aos desejos, pois “a vida de cada um de nós depende da dos outros”, citando Lorenzo Milani.

Após estes momentos de concessões mútuas ambos deixam de lado o dueto e passam a duelar-se. Para Marconi, o arcebispo, a vida é uma dádiva da qual não podemos nos desfazer. Defende que, concordando com Vittorio Possenti, a vida é uma dadiva singular, cuja propriedade fica sempre retida com o doador. “Recebemos a vida como um presente, mas não podemos  para fazer o que queremos com ela."

O sociólogo Luigi Manconi, ex-parlamentar e professor de sociologia dos Fenômenos Políticos, contra- argumenta dizendo que  “Não nego o direito à autodeterminação, mas colocaria a liberdade de decisão no quadro de um amor mútuo que deve presidir ao encontro”. Minha ideia de eutanásia só vem por último. Só depois de se esgotar toda prática de acompanhamento como assistência material e conforto espiritual. Fala não no direito de eutanásia, mas da liberdade negativa, isto é, livrar-se da “dor insuportável”. Não nega que o princípio da autodeterminação: "pode traduzir-se numa espécie de niilismo egótico".

Para ele a eutanásia seria abrir a porta para absolver quem tira a vida de alguém, ou considerar alguém indigno de viver e por isso seria permitido tirar a vida. E qual seria uma vida digna e uma indigna? Nega que a doutrina cristã considera a dor um valor. Para ele, como para Claudel: «Deus não veio explicar o sofrimento; ele veio para enchê-lo com a sua presença ».  

Há temas que ainda ficam em aberto, conforme os autores. Manconi cita a lei do Bioensaio ou as Disposições do Tratamento Antecipado, fruto de uma discussão aberta, livre de ideologia, mas infelizmente pouco conhecida.

Por sua vez, Paglia preocupa-se com o avanço da ideia que legitima o suicídio. Ao comentar o suicídio de um amigo conclui: a dor física aparece mais importante da dor moral que causa ao amigo.

Contudo, permanece a questão de: o que é mais importante? A dor física ou a dor moral? Para quem está estremecendo de dor física precisa livrar-se dela, ela é mais importante, para quem o livra pode ter que carregar o remorso pela vida toda pela dor moral causada.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

A FAMÍLIA. Selvino Antonio Malfatti

 





A ONU instituiu o dia 15 de maio como o Dia Internacional da Família.

Afinal, o que é a família? Radicalmente a família pode ser entendida como o núcleo: pai, mãe e irmãos. Se aplicarmos o método de Aristóteles para definirmos a família chegaremos à seguinte conclusão:

Na Metafísica, Aristóteles define as quatro causas das coisas.

Causa formal — é a forma da coisa (um objeto define sua essência pela sua forma).

Causa material — é a matéria de que uma coisa é feita (a matéria na qual consiste o objeto).

Causa eficiente — é a origem da coisa (aquilo ou aquele que tornou possível o objeto).

Causa final — é a razão de algo existir (a finalidade do objeto).

1.    Material. É daquilo que constitui a família. Pode ser o instinto, afeto, a lei. A mais comum parece ser instintiva e afetiva. A instintiva baseia-se na atração sexual. Sexos masculino e feminino buscam-se para complementarem-se.

2.    Final. A natureza busca cumprir seu fim. O fim da família é gerar a continuidade da espécie humana. Isto acontece pela união entre elementos masculinos e femininos, dando origem a outro ser humano. Com isto se atinge a finalidade.

3.    Formal. A forma como se constitui a família varia no tempo e no espaço. Desde os relacionamentos abertos (nem tanto) até os mais reclusos.

4.    Eficiente. O autor constitutivo da família são os autores da família. Aqui também o leque se abre quase ao infinito, dependendo do espaço e tempo. Na história  a família nas da vontade da religião – igreja -, da lei- aspecto legal, da comunidade – casamento. Sempre mais o elemento cultural assume a importância central transferindo a fisiologia para cultura.

Da conjunção destas 4 causas nasce a família com relações afetivas, fisiológicas, culturais e legais.Se apelarmos para o ideal tipo weberiano da família encontramos os elementos: sexo, filhos, relacionamento, gênero. Cada um deles assume culturalmente formas diversas

Em algumas culturas a família abre seu leque para tios, avós, primos. Atualmente não conceito de família não abrange m grupo restrito, mas também não e tão extensa como a família patriarcal que incluía até os escravos.

 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Antonio Paim, a pessoa e o mestre. Selvino Antonio Malfatti

 




I - O Encontro

                No Colóquio sobre Max Weber em Viamão, RS, em 1984, Antonio Paim foi o palestrante principal. Foi nessa ocasião que o conheci. Estavam presentes também, como palestrantes, o professor Ricardo Vélez Rodríguez e os finados embaixador José Guilherme Merquior (1941-1991) e o padre jesuíta português Francisco Videira Pires (†2002), entre outros. Esse Colóquio foi promovido pelo então Instituto Lindolfo Collor, sob os cuidados de Cezar Saldanha, professor de Direito Constitucional da Universidade de São Paulo (USP). Eu então era professor da Universidade Federal de Santa Maria e participava como co-coordenador do referido Colóquio que era dirigido a jovens militantes de partidos políticos do Rio Grande do Sul.

                Eu já conhecia Paim pelos seus escritos, mormente através do livro História das Ideias Filosóficas no Brasil, de sua autoria. A imagem que fazia de Paim era de uma inteligência brilhante e esperava ouvir uma personalidade firme, desenvolta, com raciocínio rápido e conclusivo. Quando Paim começou a falar, quase tive uma decepção. Era alguém que sugeria, levantava dúvidas, raciocinava sempre sobre hipóteses. Ele abordou a questão das formas de dominação de Max Weber. No entanto, não pude deixar de me sentir instigado pelo seu discurso. A impressão que tive foi de que, num turbilhão de ideias, Paim conseguia agarrar alguma e a jogava para nós.

                Merquior abordou a questão dos valores em Weber, Ricardo Vélez falou sobre o positivismo no Rio Grande do Sul e Videira Pires sobre a política e a religião. Os melhores momentos eram os debates, pois se estabelecia uma interação entre os palestrantes e a plateia. Era nesses momentos que Paim crescia. Ele se tornava então outra pessoa: contava anedotas, ironizava, sorria complacente. Os participantes aprovavam e ele se entusiasmava. Paim não se encaixava na formalidade, ele precisava de espaço livre. Aliás, mais tarde ele mesmo afirmou:  – “Não sou feito para ser monogâmico”.

                Embora, formalmente, a sessão terminasse, os debates continuavam no intervalo, no cafezinho, nas refeições e nas “rodinhas”. Numa delas, ouvi Paim comentar com Cezar Saldanha que o livro O Poder Moderador na República Presidencial, escrito por Borges de Medeiros (1863-1961), ainda não havia sido estudado a fundo por ninguém. Fiquei curioso. Perguntei a Saldanha se ele me conseguiria o livro. Prometeu-me para o dia seguinte. De posse do livro, não mais assisti às palestras e o fiquei lendo. Após a leitura, fui conversar com Paim.

                Na ocasião, ele era professor do Curso de Doutorado em Filosofia da Universidade Gama Filho (UGF) do Rio de Janeiro e eu buscava um tema para pesquisar no meu doutorado. Conversamos e ele me pediu para eu fazer um esboço de projeto. Trabalhei no anteprojeto durante todo dia e, à noite, nos encontramos.

                Recordo-me que Paim sentou-se numa classe, concentrou-se e passou, atentamente, os olhos no texto. Ora sacudia a cabeça para frente e para trás afirmativamente, ora balançava lentamente, da direita para esquerda, em forma de dúvida, ou rapidamente em sinal de desacordo. Após examinar o conteúdo, sugeriu alguns retoques e pediu para eu apresentá-lo na seleção de doutorado da Gama Filho. – “Pode dizer que eu serei seu orientador”. O projeto foi aceito e eu me matriculei no Doutorado, tendo como orientador Antonio Paim.

II - As Aulas

                A Universidade Gama Filho fica na Piedade, um bairro pobre da Zona Norte do Rio de Janeiro. O acesso mais prático é pelo transporte ferroviário. O trem da Central do Brasil que leva à Universidade passa por vários bairros: Maracanã, Engenho Velho, Engenho de Dentro, Méier, Deodoro e Piedade. O prédio central da Universidade está encravado numa encosta, embora seu campus esteja distribuído em diversos locais.

                Antonio Paim sempre chegava pontualmente às aulas. Vestia esporte. Sério e cordial se dirigia à sala de aula, acompanhado por nós. Éramos cinco naquela turma. Do Rio Grande do Sul, eu; dois de Minas Gerais; uma colega do Pará e outra do Rio de Janeiro. Todos atuavam como professores de universidades.

                Eu estava muito ansioso. Afinal teria aula com um verdadeiro filósofo. Embora tivesse tido bons professores no Curso de Filosofia, cinco deles se tornaram mais tarde bispos da Igreja católica, Paim, para mim, era peculiar porque não só ensinava, mas também escrevia o que ensinava. Além disso, era um filósofo de referência nacional.

                Em todos os encontros, antes de iniciar a aula, distribuía resumo em forma de esquema. Expunha o assunto em forma dialógica, isto é, apresentava as diversas opiniões sobre a questão, os pontos fortes e fracos de cada um, as incongruências, as diversas conexões que o pensamento possuía. Depois perguntava nossa opinião, começando então o debate. Da mesma forma que a exposição da aula, uma a uma das nossas posturas eram analisadas por ele.

III - As Leituras

                Paim tinha o dom de captar o ponto fraco de cada um de nós. Quando isso acontecia, ele marcava um seminário ou apresentação em aula de um autor ou livro e encarregava um de nós para fazer a exposição. Geralmente o encarregado era o que demonstrava o ponto fraco no assunto. Um ex-aluno do professor que, posteriormente, se tornaria um grande discípulo e colega do mestre, Ricardo Vélez Rodríguez, contou-nos que, certa vez, externara certas influências do pensamento tradicionalista da Igreja Católica. Paim não teve dúvidas e incumbiu-o de, na próxima aula, fazer uma apresentação sobre os dois livros de Kant.

                Sabendo que eu vinha da graduação de uma PUC, deu-me por tarefa a leitura e apreciação de Liberdade Acadêmica e Opção Totalitária, de sua autoria. Esse livro versa sobre a escalada totalitária, em surdina, que estava em curso no Departamento de Filosofia da Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). O processo o vem à tona, quando o departamento censura um texto de Miguel Reale (1910-2006) que seria incluído numa coletânea de textos como subsídio à disciplina de História do Pensamento. A professora do Departamento de Filosofia da PUC, Anna Maria Moog Rodrigues, pede demissão da universidade por não concordar com a atitude da chefia do departamento. Com a chegada da questão à mídia inicia-se um grande debate, tanto dentro da universidade como fora, na imprensa escrita e falada.

                Paim acompanhou o desenrolar dos acontecimentos, recolhendo artigos, pronunciamentos, manifestações e publicou-os em forma de livro, com comentários críticos. Distinguiu as posições, as origens e as causas do modelo totalitário em curso naquela universidade. Mostrou que a origem estava na filosofia do padre jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz (1921-2002) que tentara conciliar uma questão gnosiológica, unindo os clássicos, como Aristóteles (384-322) e Santo Tomás de Aquino (1225-1274), com os modernos Immanuel Kant e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) no livro de sua autoria, Ontologia e História. Mais tarde, avança a tese de que a cultura é histórica e, portanto, relativa. O problema não está nessa conclusão em si, mas nas suas perspectivas práticas. A partir disso, Henrique Cláudio de Lima Vaz busca, no hegelianismo e marxismo, as ferramentas que levarão a um pensamento totalitário, através da proposta socialista.

                Ao tornar pública a questão, Paim conseguiu que se reorganizassem os defensores do pluralismo e o processo foi abortado. Após minha exposição, Paim me perguntou: – “O que você achou?” Respondi: “Constrangedor”. Paim retrucou: – “Constrangedor? Isso é pouco. Foi uma imoralidade”!

                Eu não poderia imaginar que, dois anos mais tarde, então como coordenador de curso de pós-graduação passaria por uma experiência semelhante no departamento de Estudos Políticos e Sociais de minha universidade.

IV - O Discípulo

                Antonio Paim e Ricardo Vélez Rodríguez se conheceram na PUC do Rio de Janeiro. O primeiro era professor e o segundo, aluno. Daquele dia em diante, Ricardo sempre foi o discípulo predileto do mestre e fazia-o por merecer. Talvez ninguém como ele tenha assimilado melhor os ensinamentos do professor Paim. Ricardo tinha mais uma qualidade: o dom da palavra, além da escrita. Era irônico, patético, eloquente, sugestivo, profundo, tinha senso comum, tudo dependia do momento. Paim sabia pensar. Ricardo entendia e sabia externar, falar. Ambos se complementavam perfeitamente. 

Ricardo era natural da Colômbia. Teve uma formação secundária e universitária dentro do meio católico. No Brasil, obteve o título de mestre pela PUC do Rio de Janeiro, com a dissertação que se tornaria livro: Castilhismo: Uma Filosofia da República, e o doutorado na Universidade Gama Filho, cujo resultado da tese se encontra na obra Oliveira Vianna e o papel modernizador do Estado brasileiro, ambos como aluno e com a orientação de Paim.

                Por isso, minha migração para a orientação de Ricardo não mudava em nada. Foi apenas uma continuidade, além de receber, extraoficialmente a orientação de Paim.

IV- Núcleo Congregativo.

O Curso de Mestrado e Doutorado de Pensamento Luso-brasileiro, fundado por Paim e outros colegas, constituía-se num núcleo congregativo do pensamento  culturalista nos moldes de Miguel Reale. Faziam parte como idealizadores e fundadores, primeiramente Antonio Paim, seus colegas portugueses Esteves Pereira, Caeiro, Eduardo Soveral e Braz Teixeira. Logo em seguida surge uma plêiade de novos idealizadores que levam adiante a idéia: Anna Maria Moog Rodrigues, Vicente Barreto, Aquiles Cortes Guimarães, Creusa Capalbo, Luiz Antonio Barreto, Leonardo Prota, Paulo Mercadante e Ricardo Velez Rodriguez entre outros. Do núcleo inicial e segunda geração emerge em todo Brasil novos líderes culturalista.  

Pode-se dizer que a difusão do pensamento filosófico luso-brasileiro encaminhou-se para duas direções: uma, ligada às universidades, manifestando-se principalmente na emergência de cursos de pós-graduação e outra no surgimento de entidades junto ás universidades como os centros de estudos: filosófico e político.

Destaca-se que em 25 universidades passou-se a ensinar filosofia brasileira, conteúdo totalmente desconhecido no Brasil antes da atuação de Paim e seu grupo de estudos.

Faleceu em 30 de abril próximo passado na cidade de São Paulo. Ele nasceu em 7 de abril de 1927, em Jacobina, na Bahia e se dedicou ao estudo da História das Ideias, Política e Filosofia, campos em que se defrontou com inúmeros problemas, sendo autor de obra extensa e variada. Na década de 50 cursou Filosofia na Universidade Lomonosov, em Moscou, e, posteriormente, fez novamente o curso na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro. Foi professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e na Universidade Gama Filho, aposentando-se da docência, em 1989. Na PUC-RJ organizou e coordenou o curso de mestrado em Pensamento Brasileiro. Na Universidade Gama Filho, juntamente com o Dr. Eduardo Abranches de Soveral, que veio para o Brasil depois da Revolução dos Cravos, implantou o doutorado em Pensamento Luso-Brasileiro.




segunda-feira, 3 de maio de 2021

Antônio Paim, mestre e intelectual. José Mauricio de Carvalho

 



Faleceu em 30 de abril próximo passado na cidade de São Paulo, Antônio Ferreira Paim, filósofo e o principal historiador da filosofia brasileira até nossos dias. Ele nasceu em 7 de abril de 1927, em Jacobina, na Bahia e se dedicou ao estudo da História das Ideias, Política e Filosofia, campos em que se defrontou com inúmeros problemas, sendo autor de obra extensa e variada. Na década de 50 cursou Filosofia na Universidade Lomonosov, em Moscou, e, posteriormente, fez novamente o curso na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro. Foi professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e na Universidade Gama Filho, aposentando-se da docência, em 1989. Na PUC-RJ organizou e coordenou o curso de mestrado em Pensamento Brasileiro. Na Universidade Gama Filho, juntamente com o Dr. Eduardo Abranches de Soveral, que veio para o Brasil depois da Revolução dos Cravos, implantou o doutorado em Pensamento Luso-Brasileiro, ocasião em que orientou diversas dissertações de mestrado e teses de doutorado. Paim presidiu o Conselho Acadêmico do Instituto de Humanidades e foi membro titular do Instituto Brasileiro de Filosofia e do Instituto de Filosofia Luso-Brasileiro. Ele ainda integrou os quadros da Academia Brasileira de Filosofia, Pen Clube do Brasil, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Academia de Ciências de Lisboa.

Além dos trabalhos como professor universitário de filosofia, desde fins dos anos 50 trabalhou como assessor de diversos órgãos oficiais como BNDS, FINEP, Governo do Estado da Bahia, Ministério da Aeronáutica e Ministério da Agricultura, tendo uma longa lista de serviços ao país, ocasiões em que se destacou por sua inteligência brilhante.

Dedicou atenção especial às questões de ética e política, escrevendo trabalhos importantes não só para o pensamento brasileiro, mas para entender a cultura ocidental, estruturada entorno a diferentes modelos éticos desenvolvidos desde a antiga Grécia. Paim estudou esses modelos e a forma de viver que preconizavam. Além dos trabalhos de criação intelectual promoveu a reedição de importantes textos de intelectuais brasileiros, entre os quais a obra de Oliveira Vianna (1883-1889), incluindo textos que permaneceram inéditos por 40 anos e as Obras Completas de Tobias Barreto, em parceria com Paulo Mercadante. Ele também participou da organização de diversas coleções ligadas ao pensamento brasileiro, entre as quais a Estante do Pensamento Brasileiro, dirigida por Miguel Reale, da Biblioteca do Pensamento Brasileiro, dirigida por Adolpho Crippa; da Coleção Pensamento Político Republicano, dirigida por Carlos Henrique Cardim; e da Coleção Reconquista do Brasil, da Editora Itatiaia.

O principal de seu trabalho intelectual concentrou-se no estudo da Filosofia, História e da Cultura brasileiras, campos nos quais preparou um grupo de professores e pesquisadores. O aspecto que o distinguia como intelectual era sua abertura para estudar o pensamento nacional com a mesma dedicação com que examinava os clássicos da filosofia e da política mundiais. Paim não apenas foi um grande estudioso de Kant e do pensamento liberal, mas identificou autores como Tobias Barreto que iniciou um diálogo inovador com o mestre alemão. Barreto olhou o kantismo com os olhos de um brasileiro comprometido com seu país e seus problemas no século XIX.

Num tempo negacionista, onde se duvida da ciência e a inteligência parece ter se despedido de nosso país para habitar terras distantes, onde alguns pensam um amontoado de pessoas que não formam uma nação, Paim pode ser uma inspiração. Quer como liberal, como humanista, como intelectual, como professor foi notável. Em dias tão difíceis perdemos um de nossos intelectuais mais brilhantes. À sua memória, à sua inteligência, ao seu amor pelo Brasil temos o compromisso de dedicar o melhor de nós mesmos.


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