sexta-feira, 6 de abril de 2018

O Medo no Festival de Psicologia em Turim. Selvino Antonio Malfatti





Está marcado para os dias 6 a 8 de abril um evento que trata da questão do medo. Realizar-se-á em Turim Itália.
O medo é uma emoção como a alegria, a expectativa, a angústia, a morte, entre outras, e como tal são sentimentos. Podem ser objetos de reflexão tanto da psicologia como da filosofia, mormente da filosofia da existência como em Kierkegaard como em Heidegger.
A emoção acontece quando o ser humano, animal ou outro ser vivo sentem o valor que determinada circunstância tem para sua vida, suas necessidades ou interesses. É um sentimento que acompanha a dor ou prazer. Estes atribuem valor à vida ou necessidades do ser humano. É uma reação ao que é favorável ou desfavorável para sua vida.
O evento denominado de  Festival de Turim quer entrar na mente humana, e descobrir a essência do medo, suas causas e consequências. Sob a égide do tema: ”o individual e o coletivo: ambos se isolam quando amedrontados”, sob a direção do psicanalista Massimo Ricalcati. Dentro do tema serão abordados variados conteúdos, verdadeiros pesadelos da humanidade, como atentados terroristas que causam traumas individuais e coletivos. Serão debatidos também o papel do perdão e o sentimento de identidade.
Como se percebe há uma intersecção entre o individual e o coletivo, por isso se fará um encontro entre a psicologia individual e a coletiva. O medo é um tema atualíssimo; de um lado o fascínio do muro, da exclusão segregativa, os reforços de autodefesa e de outro, a necessidade de oxigenação, pois sem ela, a vida se apaga. Nisso reside sua importância porque se confronta com o isolamento.
Cada dia haverá uma apresentação de tema central, espécie de Aula Magna, que indicará conteúdos para debates, apresentados por psicólogos, psicanalistas, escritores que abordarão aspectos particulares do medo. O festival terá três palestras centrais. 1. Na sexta o especialista em geopolítica, Lúcio Caracciolo, discorrerá sobre quem são e o que querem os terroristas, sábado o próprio Ricalcati, se ocupará da violência e terror e no domingo a psicóloga marroquina Houria Abdelouahed apresentará na sua lectio o tema mulheres, islam e violência.
O coordenador adianta que se buscará saber se é possível prever a violência, ou como explicar aos pequenos a violência. Ou mesmo explicar o que é isolamento de um lugar ou de um sujeito. Explicar qual o medo maior e a fronteira do medo de ter medo.
A questão que se pode colocar é a seguinte: é possível fazer um paralelo entre os temores individuais e os da sociedade? Como se sabe o medo gera a clausura, o isolamento, potenciando as autodefesas. Mas, paradoxalmente, este comportamento empobrece a vida. Do mesmo modo uma sociedade dominada pelo medo é uma sociedade que se fecha e se torna endógena até definhar completamente. Então: o que fazer? Defender-se e morrer pelo auto enclausuramento ou permanecer aberta e ser massacrada pelo terrorismo?

sexta-feira, 30 de março de 2018

Páscoa 2018, ainda Jesus. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei



A comemoração de datas significativas é uma interessante estratégia humana de repensar a vida e seus significados. Sendo histórica a consciência humana, ela renova e aprofunda o entendimento dos fatos vividos quando a eles volta. Sendo histórica a própria vida, torna-se possível rever explicações e renovar convicções. Como celebração cristã, a festa da Páscoa é o centro da fé, pois se Cristo não ressuscitou é vã nossa fé (1 Cor. 15, 14). A recordação da morte de Jesus anuncia sua ressurreição e a lembrança de sua morte e ressurreição ressignificam fatos que não foram compreendidos enquanto ele vivia: a palavra proferida, o batismo e o enfrentamento do mal.
Este último aspecto é oportunidade para comentar bobagens que ultimamente povoaram as redes sociais. Depois do lamentável assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes, a mais idiota geração de direita que esse país já produziu, decidiu denegrir a imagem da moça. Veicularam que ela mereceu morrer porque defendia bandidos e marginais, dos quais acabou vítima. Ao fato respondeu a não menos dotada parcela da esquerda brasileira dizendo que igualmente não se devia lamentar a morte de Jesus, pois Ele também defendia bandidos e prostitutas. Nunca imaginei que ouviria um diálogo desse nível nas redes sociais, mais sua existência não pode ficar sem ser comentada.
Um comentário que começa com a constatação de que o tempo das massas ignorantes identificadas pelo filósofo espanhol José Ortega y Gasset, constituída por homens cujo conhecimento não estava à altura do seu tempo, produziu outra ou outras gerações igualmente ruins, provavelmente piores. A triste morte da vereadora carioca foi resultado da soma de corrupção policial, desmando político, descontrole público e injustiça social. O Rio de Janeiro, uma unidade do Estado Brasileiro, perdeu o controle da vida social, permitindo uma sequência de fatos desastrosos (assassinatos, furtos, roubos, violência crescente, tráfico de drogas, etc.). Essa realidade se implanta em sociedades submetidas a sérias catástrofes. Algo semelhante ocorreu depois do terremoto do Haiti, quando o Estado Nacional perdeu o controle da sociedade. Retomar esse controle é o que se tenta hoje com a intervenção federal no Rio. Porém, a situação de calamidade do Rio é difícil de ser enfrentada porque além da desorganização social há quadrilhas armadas que funcionam como poder paralelo. A vereadora foi vítima desse estado lamentável de coisas. Quando o crime atinge um agente do Estado como ocorreu com Marielle é sinal de que o descontrole chegou a um ponto gravíssimo.
Quanto a Jesus, a parte de haver sofrido um julgamento injusto, do qual nos tornamos cúmplices com nossas injustiças, nunca pactuou com o mal. No seu julgamento enfrentou líderes religiosos que reduziram a fé num instrumento de poder; autoridades civis que abdicaram da justiça por medo e o povo que testemunhou a injustiça por inércia. Essas coisas são próprias de quem é incapaz de viver o verdadeiro amor de Deus. A incapacidade de vencer o mal é própria do homem. É o que nunca faltou em Cristo, coragem e força para enfrentá-lo. Se Ele aceitou Paulo de Tarso, assassino de Estevão; Agostinho de Hipona, egoísta, ambicioso e libidinoso e Mateus, corrupto cobrador de impostos, não apadrinhou esses erros. Os perdoou porque eles passaram a lutar contra o mal, neles mesmos e no mundo.
Á parte do significado salvífico do sacrifício de Jesus, sua morte foi um decisivo passo no enfrentamento do mal de um modo que não somos capazes de fazer, Jesus é o que de melhor podemos desejar ser. E ao reaparecer, depois da horrorosa morte, para um grande número de testemunhas, Ele realizou o que nenhum homem conseguiu. Ele voltou da morte. Por isso, sua ressureição trouxe esperança e um significado para viver que somente Deus pode oferecer.

sexta-feira, 23 de março de 2018

VIDA LONGA E PRAZEROSA - BAIXO COLESTEROL OU GRANDES AMIZADES? Selvino Antonio Malfatti






Uma pesquisa iniciada há 80 anos na universidade de Harvard se propôs descobrir o segredo da longevidade e do viver bem. Os pesquisadores tinham em mente um ambicioso e sábio objetivo: compreender o que permite viver bem e muito tempo. Para tanto começaram anotar tudo o que acontecia com 300 estudantes matriculados no College de Harvard entre 1938 a 1944: saúde física e mental, trabalho, família, amigos e outros dados relevantes e alguns aparentemente superficiais. O estudo já conta com 80 anos e, parece que tão cedo não findará. E o que descobriram? A resposta surpreendeu os pesquisadores, mas não artistas. Os primeiros pensavam que fosse baixo colesterol, mas segundos, como os Beatles (Love, love, love), intuíram que era o amor e a amizade. Foi isto mesmo. Que o amor e a amizade nos fazem viver bem e longamente.

Além disso, descobriram que a educação é mais importante que dinheiro e a posição social, enquanto a solidão mata, assim como matam o álcool e o fumo e as drogas. Um dos colaboradores e pesquisador do projeto, George Vaillant, disse: “não basta ser brilhante para envelhecer bem. Deves estar enamorado, ou, ao menos, ter relações afetivas fortes, na família (pai, mãe, irmãos, irmãs, tios sobrinhos, primos) e fora dela muitos amigos”.

Não deveria ser os níveis de colesterol e pressão alta a fazerem mal? Com certeza, sim, mas comparados com os laços de família influenciam menos. Os conselhos comuns de bons médicos como não fumar, beber com moderação, consumir frutas, verduras e peixes e desenvolver exercícios físicos, ainda falta mais um e, talvez, o mais importante: dedicar e usar energias com pessoas de relações.
É importante reaprender, pois traz vantagens para o cérebro. Os cientistas documentaram fartamente com testes de performance intelectual e muitos outros exames, inclusive com eletroencefalograma, repetidos por 80 anos. Até mesmo os relacionamentos sociais das crianças são importantes, tanto com as outras crianças como com adultos. O que importa é que façam. Quanto mais experiências tiverem deste tipo ou que brinquem entre si, tanto melhor.

Evidentemente nenhuma pesquisa é perfeita. Esta, por exemplo, foi aplicada somente aos meninos, pois naquela época somente sexo masculino era admitido no College. Outro agravante era que naquele tempo todos eram homens, classe média alta e brancos. Um dos primeiros a participar da pesquisa foi John Fitzgerald Kennedy, futuro presidente dos Estados Unidos, Ben Bradlee, muitos anos diretor do Washington Post. E o que aconteceu com os outros?   Alguns se tornaram empreendedores, advogados de ponta, médicos famosos. Houve também pessoas comuns e até mesmo os de vida miserável: alcoólatras, drogados e esquizofrênicos.

Com o tempo a pesquisa ampliou seu leque incorporando muitas outras pessoas, inclusive mulheres e outras atividades paralelas como «Glueck» - previsão de crimes – em cujos projetos participaram rapazes que viviam nos subúrbios de Boston. Confrontando-se os frequentadores do College e os dos subúrbios resultando conclusões significativas.

Apesar de atualmente a pesquisa estar sob fogo cerrado das críticas, alguns ainda a acham válida. Como prova a descoberta de que, por exemplo, quem é homossexual não o é por culpa dele ou por ter escolhido, nem quem é alcoólatra não é uma falha própria, mas doença. Talvez, ainda, os dados podem coadjuvar na prevenção de certas doenças – como as cardiovasculares e diabetes, por exemplo – e mais, os distúrbios do sistema nervoso ou retardar o envelhecimento. Se assim for, o sistema sanitário mundial melhoraria e haveria uma sociedade com vida mais longa e bem estar.

sexta-feira, 16 de março de 2018

O JUSTO DO SEU TEMPO.. Selvino Antonio Malfatti
















Se buscarmos o ideal de proeminência social entre as diversas culturas certamente serão encontras muitas diferenças. Só para citarmos alguns exemplos: os gregos e romanos tinham como ideal o herói, o cristianismo celebra o santo e os hebreus cultivam o justo. Com efeito, a Bíblia possui 215 versículos que mencionam o JUSTO, 106 versículos que se referem ao SANTO. Por sua vez, Heróis bíblicos estão associados à fé e fora da cultura judaico-cristã louvam a coragem bélica
Da ideia bíblica de JUSTO nasceu em Milão, na Itália, o Jardim dos Justos ou Gardens of the Righteous Worldwide – GARIWO.  O objetivo é fazer conhecer e difundir a memória dos Justos. Entende que a lembrança do bem seja uma ferramenta educativa e serve para dissuadir e prevenir genocídios e crimes contra a Humanidade. A exemplo do cristianismo que possui o Dia de Todos os Santos, o Gariwo conseguiu criar pelo Parlamento Europeu, do Dia dos Justos, celebrado anualmente nem 6 de março.
A atividade tem como suporte instituições, escolas, voluntários, de uma Comissão Científica Internacional e de “embaixadores”.
O fundador do Jardim dos Justos é Gabriel Nissim, intelectual hebreu, animado pela paixão social e senso de Justiça. Concebeu a ideia de promover a figura do Justo, fora do âmbito israelita. Contudo, creditou para si críticas, ressentimentos, inveja, e inimigos, atitudes estas bem contrárias ao Justo.
Evidentemente não é para menos. Quais os critérios para enquadrar alguém como Justo? Valores hebreus, oriundos da Bíblia, que por sua vez é essencialmente hebraica? Por que estes valores podem ser generalizados? E as demais civilizações com seus valores ficam excluídas? As civilizações indianas, japonesas, árabes por que são excluídas? E mesmo a cristã que em alguns aspectos contradizem a hebraica?
Seja como for, no livro O Bem Possível -Ser Justos, defende a ideia do bem no seu próprio tempo. Inicialmente a ênfase da ideia de Justo recai sobre a defesa dos hebreus ameaçados de genocídio. Como por exemplo, Justo foi o vice-presidente da Bulgária, Dimitar Peshev, salvando da deportação todos os judeus de seu país ou Armin Vegner, que por primeiro denunciou o genocídio dos armênios.
Gabriel, todavia, tomou consciência de era necessário o salto do tempo para “aggiornare” o conceito de Justo e adequá-lo aos tempos atuais. É o novo cenário onde se visualiza a internet, das redes sociais, do smartfhone. O foco passou a ser os juveníssimos que não estão mais dispostos a ouvir exemplos nobres, já encobertos pelo mofo do tempo e até mesmo atrelados a conveniências. Diz ele:
“É necessário explicar - diz Nissim - que os Justos não são santos e não são heróis. Os santos pertencem à transcendência e à fé religiosa. Os heróis elevados à categoria de mitos,  de personagens ideais, nos quais cada um de nós, às vezes, se espelhou ou se espelha, sonhando imitações improváveis. O Justo de Hoje, no entanto, pode realmente ser cada um de nós, com méritos, fraqueza e misérias. Mas disposto a ouvir o impulso mais humano. Um desafio que não conhece obrigações ou conveniências, mas responde a um impulso que não pode ser retido "

Até mesmo um “boa vida” como Peshev pode ser Justo, quando contribui para uma sociedade melhor, evitando o genocídio. Ou como aquele muçulmano que salva pessoas dos ataques de ISIS  ou Jihadistas contra o museu de Bardo. Ou como a pobre mulher grega de Lesbo que abre as portas aos fugitivos. Nissim concorda com Spinoza: “um homem Justo não o é por só um dia, mas por toda vida.


sexta-feira, 9 de março de 2018

O desafio da moralidade José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.










Desde que publicou o livro La Rebelión de las Masas, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset colocou em discussão sua tese de que se vive uma crise de moralidade. Essa crise não significa que as pessoas estão menos propensas a fazer escolhas éticas, como uma leitura superficial pode sugerir. Em outras palavras, não significa que os políticos, os policiais, os agentes do Estado, as pessoas em geral de hoje são mais desonestas que as de ontem. Não é exatamente disso que se trata. Pode ser que o fenômeno indicado por Ortega esteja na raiz disso e ajude a explicar porque as pessoas estão menos atentas aos ideais éticos, mas a questão é mais profunda.

O que parece explicar o enfraquecimento moral é uma fragilização dos controles do Estado, um movimento que veio com o liberalismo conservador, uma onda que se iniciou no final do século passado. O movimento foi liderado por Margareth Thatcher e Ronald Reagan, a primeira ministra inglesa e o presidente americano. Juntos articularam um programa político que visava a redução do papel do Estado na vida da sociedade com um agressivo programa de privatizações ancorado no chamado Consenso de Washington que serviram de modelo para vários países, inclusive para o Brasil. Esse projeto político pretende a redução da presença do Estado na economia, pela valorização do mercado, conforme ensinava Friedrich Hayek. Esse projeto incluía privatizações de estatais, redução de impostos diretos e sobre a propriedade e aumento dos impostos sobre o consumo, combate a força dos sindicatos, eliminação do salário mínimo e acabando com aquilo que ficara conhecido como Estado do bem estar social, que ganhara força entre os estados democráticos depois da crise de 1929.

O movimento conservador no ocidente foi paralelo ao fim da URSS decorreu do fracasso das reformas pretendidas por Mikhail Gorbachev, presidente e secretário-geral do Partido Comunista Soviético, eleito em 1985. A tentativa de renovação do comunismo veio com medidas que ficaram conhecidas como Perestroika e Glasnost. Essas reformas vieram com a tentativa de reduzir os gastos como o auxílio a países comunistas como Cuba e Coreia do Norte, diminuir a presença de tropas soviéticas em guerras setoriais, como a do Afeganistão, e os custos da política armamentista. Foi uma tentativa fracassada de tornar mais eficiente o controle estatal da economia. Essas medidas aceleraram desavenças internas e não produziram o fortalecimento da economia. O fim do socialismo real colocou em cheque toda a ação social do Estado numa espécie de divinização do mercado.

De modo geral o enfraquecimento dessa presença do Estado na sociedade afrouxou o controle estatal sobre o mercado e os donos do capital (nacional e internacional) corromperam os agentes públicos nos Estados onde a força da organização estatal era menor. Em outras palavras a governança piorou em países como o Brasil, mas pouco em lugares como a Noruega, Estados Unidos ou Canadá. E quando se fragiliza o Estado, não como controlador da economia, mas como agente confiável de controle social, há uma decadência dos costumes e o desrespeito a ordem legal. O que ocorreu no Haiti é prova disso. O Estado praticamente acabou em razão do grande desastre natural e da fragilidade das autoridades. A ONU mandou para lá uma força militar internacional para assegurar o respeito às leis que o Estado já não garantia.

Na perspectiva individual, a moralidade é sempre resultado da escolha pessoal e isso significa que o homem de ontem ou de hoje se coloca diante do dilema moral toda vez que escolhe. O que Ortega observou é que estávamos num tempo onde o compromisso com a excelência foi deixada de lado ou porque os homens não tinham um conhecimento à altura do tempo ou se comportavam como criança mimada, que quer coisas que sabe que não deve. Essa circunstância sugere que mesmo se a governança do Estado melhorar e o controle sobre os agentes públicos for muito eficiente, a sociedade permanecerá em crise moral se o homem contemporâneo não reencontrar o caminho da valorização da excelência pessoal nas tarefas que tem para executar. É essa a dimensão do desafio a enfrentar.



sexta-feira, 2 de março de 2018

O CAMINHAR NO SILÊNCIO.. Selvino Antonio Malfatti.





Em diversas partes do mundo, mormente em civilizações de Primeiro Mundo, surgem sinais de alerta sobre o avanço da robotização em detrimento da humanização. Estes sinais provem das mais diversas áreas do saber como filosofia, psicologia, sociologia, antropologia e até mesmo das ciências denominadas experimentais. Os alertas apontam para o perigo do cientificismo, hedonismo, utilitarismo, enfim um mundo onde só existe cada um.

Nesta esteira encontramos o pensador francês David Le Breton, professor da Universidade de Estrasburgo, que em 2015 lançou o livro: El Silencio e Elogio del Caminar. Propõe formas concretas para enfrentar a desumanização dos dias atuais. Uma das formas seria o silêncio.

Constata o filósofo que estamos sempre conectados com o ruído, mormente o portátil. Há dispositivos grudados em nós que nos lembram a toda hora que estamos conectados, quando recebemos uma mensagem ou nos alertam sobre os horários. Este mundo que nos circunda veio juntar-se ao do século XX, como tráfego de carros e todo tipo de contaminação acústica. Se adotarmos o silêncio estamos numa postura de resistência, protegendo nossa dimensão interior, nos revestindo de uma redoma contra as pressões exteriores. O silêncio é o instrumento para mantermos uma conexão com o interior. O silêncio visibiliza o interior, enquanto o ruído a neutraliza.

Outra forma de nos manter conectados com o interior é o caminhar transcorrido em silêncio. A esta conclusão Le Breton chegou ao fazer o Caminho de Compostela. Ao caminhar mais de trinta dias em silêncio, ao término, constatou que se transformou completamente. Era outra pessoa. Isso devido a dois fatores conjugados: caminhar e silêncio. 

Diz Le Breton que caminhar é uma forma de tomar consciência de si, de sentir seu corpo, no respirar, no silêncio. Não pode ser um caminhar com objetivo: vou à padaria comprar pão. Não. Um caminhar sem fim, sem meta, sem buscar nada. O português tem uma palavra definidora: ao léu.

Ele constata que já não conseguimos ter uma conversação com os demais. Utilizamos ferramentas tecnológicas para nos comunicar. E estas nos desligam do nosso interior. Há culturas que enfatizam o mundo interior, como a japonesa com a filosofia do zen. Nas remotas tradições cristãs se valorizava o silêncio. Inclusive a própria educação abria um espaço para a meditação silenciosa. Era uma forma de compreender o que não se poderia dizer. E nisso consistia a sabedoria.

Na filosofia portuguesa há um corrente de pensamentro que aparentemente  parece uma “contraditio interminis”: a experiência mística. A experiência religiosa que nos possibilita transpor o limiar do racionalismo para entrar num mundo místico. Este valor conferido à experiência mística constitui uma peculiaridade da Filosofia Portuguesa. Admitir a experiência religiosa como mais uma forma gnosiológica é poder alçar-se a um mundo acessível a poucos.
Acatada como válida para o conhecimento a experiência religiosa abre o leque das possibilidades de formas de conhecimento e confere legitimidade à sensação, intuição, sentimento, imaginação e crenças. Uma das mais significativas é a ética que transcende a lei, norma, mandamento. O noumeno dos mitos leva ao sagrado, ao divino, à união mística.

Quando entramos no ambiente do silêncio, que pode ser pela caminhada, encontramos outras vozes, outros interlocutores, outras realidades, escondidas por trás dos aparelhos penduricados em nosso corpo.








sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O TRABALHO DO FUTURO. Selvino Antonio Malfatti.



Que o mercado de trabalho está em rápida evolução não é mais novidade para ninguém. Dois setores básicos estão e serão afetados: as formas contratuais e as tarefas.
Conforme o Forum de Davos, até 2020. prevê-se uma redução de 7.1 milhões de vagas de trabalho, a maior parte nos setores administrativos. No mesmo período haverá um aumento de 2 milhões de vagas no setor de tecnologia, matemática e engenharia. Vê-se que a defasagem será de 5,1 milhões de vagas de trabalho.
A tendência é a substituição do homem pela máquina nos postos de trabalho, aliás, a constante tendência desde a Revolução Industrial.
E se olharmos para uma previsão mais futura, para a década de trinta, ocorrerá até mesmo a substituição do homem pela máquina em setores que se poderia considerar monopólio da atividade humana: agricultura, pesca, manufatura e até mesmo o comércio.
Contudo, as previsões para os setores de educação e saúde ainda parecem imunes. Os cuidados com a saúde, mesmo as coadjuvadas pela tecnologia biomédica parecem que por ora não poderão dispensar a presença humana no atendimento do paciente. Da mesma forma na educação parece que por enquanto não se podem dispensar professores de quadro-negro. Menos ainda provável se pode imaginar a substituição de um psicólogo por uma máquina de auscultar na terapia.
Diante desta constatação sociológica vem o questionamento político. A educação está prevendo estas mudanças e provendo fechar as lacunas? O poder público, o Ministério da Educação, está atento a estas demandas que batem à porta? O que se está fazendo para preparar as próximas gerações perante as demandas que estão chegando rapidamente?
Apresentam-se três processos urgentes, urgentíssimos atualmente diante desse quadro: a tecnologia e a internet, o envelhecimento da população e aquecimento global.
O comércio continuará a acomodar-se até chegar ao total e-comércio. Consequentemente sempre mais empresa investirão sobre a publicidade e sobre as marcas online que vão da imagem à venda. Gerentes administrativos de e-comércio atualmente já estão consagrados.
Somos hoje em dia uma sociedade informatizada., desde os celulares, até os computadores de grandes empresas administrativas. Cada minuto são criados, imaginados e compartilhados milhões de dados. E muitas vezes até mesmo dados sensíveis são difundidos, como cirurgias à distância.
Por isso a educação deve preparar profissionais capacitados a gerenciar tais dados. E a educação pública está desempenhando este papel? Nossas crianças já estão aptas a usar o touch screen e os tablets, mas a verdadeira tarefa é prepara adultos capazes de manusear e interpretar, e aplicar os dados e não somente saber dar o click. O que se necessita é preparar profissionais que dominem a máquina e não somente sejam guiados por ela.
Por fim, faz-se necessário profissional de larga visão global. Que não tenha somente em mente lucro a qualquer custo, mas um lucro responsável. Respeitar as mudanças climáticas significa pensar em novas vagas de trabalho como os green Jobs, reduzindo o impacto ambiental das megaempresas. Enfim, pensar que a depredação não é o melhor negócio, ao contrário, a preservação é o negócio.
O que se descortina é um cenário onde a máquina tecnológica domine praticamente todos os setores da vida humana. Como se sabe a máquina não tem alma e por isso está desprovida de sentimentos humanos. Neste ambiente irá predominar a frieza nas relações, a banalidade da dor e o cálculo da vantagem. Em vez de homens se formarão robôs. Desenvolver-se-á uma sociedade sem sentimentos como um cadáver sem alma. Por isso o alerta que se faz é de não se esquecer do lado humano junto com a tecnologia. Ambos deverão caminhar pari passu.

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