sexta-feira, 8 de agosto de 2014

TROCAR PARTIDO NO PODER É PRECISO. Selvino Antonio Malfatti






Em sociedades democráticas, a alternância de partidos no poder é tão necessária como revezamento de culturas nos solo. Com efeito, o agricultor sabe por experiência que não pode por muito tempo continuar plantando a mesma espécie no mesmo solo. A partir da segunda colheita a terra enfraquece e a produtividade vai caindo sempre mais. Da mesma forma acontece com partidos políticos ou grupos de poder. Eles se desgastam e deixam de cumprir com seu propósito.

Com efeito, quando assumem o poder o fazem com entusiasmo, com ideal, dando o melhor de si. Mas, à medida que o tempo passa, o entusiasmo esmorece e é substituído pela rotina, o ideal dá lugar aos interesses privados e o melhor de si que antes era dedicado público passa a ser mínimo.

Além da anterior, eis algumas razões da necessidade de troca de partidos no poder:
Primeiro. Esvaziamento do programa. Quando o partido assume o poder apresenta-se com um programa que a sociedade o aprovou. Implantado e bem sucedido cumpriu seu papel e a partir de então deve ser ou criado outro ou substituído por outro. O partido que está no poder não criará nada e, portanto, continuará na mesma. Então, é necessário chamar outro partido que oferecerá outro programa. Da mesma forma este, depois de cumprir o que prometeu deverá ceder o lugar a outro. Isto é alternância, indispensáveis em democracias.

Segundo. Frouxidão ética. Diz o ditado que a “ocasião faz o ladrão”, isto é, a proximidade do poder e a facilidade para usá-lo amanteigam a ética pessoal e  desvios de condutas e corrupção se tornam rotineiros. É preciso não só convicção, mas também certa dose de medo de perder o poder para evitar sobrepor o interesse geral ao pessoal. Como diz Maquiavel: não é preciso que o Príncipe seja amado, basta que seja temido. Isto acontece numa é autocracia. Numa democracia os papéis se invertem: o povo não precisa ser amado pelo príncipe, basta que o príncipe tema o povo.

Terceiro. Torneiras sempre mais abertas. Partidos que se perpetuam no poder, para se manterem no poder, sempre mais prometem, concedem e cedem para poderem atender a demanda eleitoral. Aquilo que antes era apenas uma promessa agora deve ser convertido em dinheiro vivo. Se o partido prometeu 40 milhões, depois do segundo mandato no poder deve entregar 80 milhões.

Quarto. Espírito democrático esquecido.  Governos muito prolongados esmorecem o gênio democrático dando lugar ao autoritarismo. Os ocupantes do poder vão achando natural serem bajulados, reverenciados e mesmo louvados. Começam a se convencerem que realmente são indispensáveis, os melhores e que os demais são segunda categoria. É preciso chamá-los à realidade e tomar um chá de humildade.

Quinto. A perseguição aos adversários. A permanência de partidos no poder provoca uma confusão entre competidores e inimigos políticos. Com a crítica da oposição surge o espírito de caça às bruxas. Falam em: “os inimigos da pátria, os vendidos ao capitalismo ou socialismo, os inimigos do povo...” Enfim, quem não está com o partido no poder é antipatriota".

Sexto. Esta é a mais nefasta para a democracia: transfiguração da “parte” no “todo”. Um partido em permanência prolongada no poder escamoteia a realidade de “parte” que é, e passa a exibir-se como todo. Para tanto promove as reformas, como do ensino, da constituição, partidária, eleitoral, segurança inoculando o pensar, agir e sentir da democracia. Quando atingiu a totalidade faz crer que o totalitarismo é a genuína democracia, tal como o desfecho de A Revolução dos Bichos"

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Uma nova ferida que se abriu. José Maurício de Carvalho -UFSJ




A chuva desse último final de semana de julho no sudeste do país foi particularmente importante para a região e um alívio para a secura na cidade. Foi recebida como um alívio.
Esse último final de semana de julho, apesar dessa chuva bem vinda, não foi contudo, um momento feliz para a cidade. Nossa terra amanheceu sem outro de seus casarões centenários, nova ferida aberta no cenário urbano que surge pela destruição de um exemplar arquitetônico que deveríamos orgulhar de manter. Pior que das outras vezes é que a destruição também atingiu uma área verde ao lado da propriedade, uma área que precisava ser mantida junto com a edificação. Preservar para as futuras gerações, por Minas e pelo Brasil.
Ao insistir no tema da preservação de nossa memória e no cuidado ambiental como valores reconhecidos e legítimos, Miguel Reale os denominaria invariantes axiológicos, somos movidos pela esperança de que todos os cidadãos se sensibilizem com esses valores. E nossa comunidade vai, aos poucos entendendo essa mensagem. Esse novo clima é sentido de modo geral, mas episódios como o desse final de semana prejudicam a emergência do novo, trazendo de volta o pior do passado recente, concretizando interesses ilegítimos porque ilegais e que atacam valores reconhecidos.
Destruições como essa tornam-se o lado triste de nosso tempo. Elas acabarão vinculando a atual geração com aquelas parcelas que não souberam preservar a belíssima paisagem urbana legada pelos séculos XVIII e XIX. Tomar consciência disso é assumir um compromisso com o futuro. Para fazê-lo melhor é preciso mudar a insensibilidade para os valores ecológicos e de preservação cultural, reafirmando um tempo novo e uma nova compreensão de História pelo respeito aos bens culturais e ecológicos.
Essa concepção de História como criação humana e preservação de valores racionalmente reconhecidos e legitimamente consagrados nas leis do país precisa impedir ações especulativas como essa. O momento atual é um presente que se põe entre um passado importantíssimo e um futuro que temos que construir com a inspiração desse legado. Se fazemos dos dias de hoje um momento bárbaro de ignorância e destruição de nossa memória, não teremos um futuro alicerçado nesse passado construído e na experiência que ele propicia. O que existiu se degrada em pó e desaparece na recordação de alguns que levarão para o túmulo o que era para ser a base dos projetos de futuro de nossa cidade. Mata-se a esperança da renovação criativa,  destruindo os bens e os tornando objeto de nostalgia de velhas memórias que em pouco não existirão mais.
A história de uma sociedade não é um prolongamento automático do seu passado, mas também não é uma criação do nada que apaga o que foi deixado pelas gerações anteriores. E assim, numa cidade como a nossa o legado dos séculos XVIII, XIX e XX precisam conviver e inspirar o que hoje se vai fazer nesse início de século XXI. Contra a ilusão de que podemos viver sem esse passado inspirador, vamos fazer surgir a visão contrária. Esse legado de nossos avós não pode ser jogado fora impunemente.
Mesmo sendo esse o ambiente geral sabemos que a vida humana é marcada pelas escolhas e suas consequências. A base da responsabilidade é o reconhecimento de que o sujeito pode prever o resultado de seu comportamento e fazer suas escolhas. O filósofo alemão Immanuel  Kant disse algo parecido quando afirmou que a imputação é o juízo pelo qual alguém é considerado o autor, isto é, capaz de escolher uma ação que é submetida a leis e ser punido em razão do que fizer contra a sociedade.
Esperemos que a justiça reconheça esse ato contra nossa História e nossas leis e responsabilize o autor ou autores desse atentado triste. Não teremos um tempo novo de valores renovados para nos orgulharmos com atitudes como essa.  

sexta-feira, 25 de julho de 2014

PARTIDOS POLÍTICOS NA EUROPA: EVOLUÇÃO E DIFERENÇAS. ANTÔNIO PAIM




Antônio Paim é, entre nós, um dos pesquisadores que mais têm estudado a realidade dos partidos políticos, como fica claro no volume, de sua autoria, dedicado ao assunto no Curso de Introdução ao Pensamento Político Brasileiro  (Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 1994, 13 volumes, edição coordenada por ele). No que tange à realidade européia, Paim escreveu clássico da história do pensamento político intitulado: O Liberalismo Contemporâneo (3ª edição. Londrina: Edições Humanidades,  2007). Divulgo aqui recente resenha que o mestre escreveu sobre obra de Daniel-Louis Seiler, acerca da evolução dos Partidos Políticos na Europa, bem como das relações entre eles.

Comentarei aqui a obra de Daniel-Louis Seiler  Clivages et familles politiques em Europe. Editions de l´Universite de Bruxelles, 2011.

O Departamento de Ciência Política da Universidade de Bruxelas corresponde, na atualidade, ao principal centro de estudos da disciplina na Europa Ocidental. Realiza pesquisas sistemáticas, muitas delas tornadas públicas no site Digithèque- Université Libre de Bruxelles, destacando-se, entre as mais recentes aquela em que se procede ao balanço dos sistemas proporcionais (incluindo os países do Leste Europeu) e a que foi denominada Le mode de scutin fait-il l´élection?. Em geral coordenadas pelos conhecidos estudiosos Pascal Delwit e Jean-Michel De Waele.

Daniel-Louis Seiler é um dos editores da obra que se tornou fonte obrigatória de consulta, que reúne ampla caracterização de Les partis politiques en Europe de  l´Ouest (Paris, Econômica, 1998). É considerado como o principal especialista contemporâneo no tema. Além dessa edição monumental, publicou, entre outras obras, Les partis politiques (Armand Collin, 2000) e Les partis politiques en Occident; sociologie historique du phénomène partisans (Ellipses, 2003). Outra de suas obras muito citada corresponde a La méthode comparative en science politique(Armand Collin, 2004).

Para lembrar, a idéia de clivagem provém da obra Party Systems and Voter Alignments  (1967), da autoria de Seymour Lipset (1922/2008) e de Stein Rokkan (1921/1979) e corresponde à busca de uma alternativa para a camisa de força imposta pelo marxismo --sistematicamente trombeteada pelos franceses. Consiste na tese de que, com a emergência do Estado Moderno e o surgimento da Revolução Industrial o conflito social subdivide-se em quatro grandes blocos: Estado/Igreja; Centro/periferia; Urbano/rural e Capital/Trabalho.

O livro de Seiler para o qual estamos aqui chamando a atenção sugere muitas idéias interessantes que vamos destacar, dispensando-nos de revisitar a minuciosa caracterização a que procede das principais famílias políticas européias. Seriam o liberalismo,  a social democracia; a democracia cristã e o conservadorismo.

Entre estas destacaria uma observação que considero  muito elucidativa para o estudo da vertente liberal. Trata-se de que os partidos políticos que buscam encarná-la têm sido vítimas do próprio sucesso e da criatividade evidenciada no curso histórico, a partir da constatação de que têm sido apropriadas pelas outras correntes igualmente destacadas, em especial as que provêm do socialismo.

A primeira dessas criações diz respeito ao governo representativo e a sua posterior democratização, seguindo-se a economia de mercado.

Os socialistas que nasceram reivindicando a tomada do poder pela força aderem ao sistema democrático-representativo, especialmente em sua forma parlamentar. Esta seria a grande bandeira da Segunda Internacional Socialista, defraudada em fins do século XIX e começos do seguinte. Nas décadas iniciais, sem romper com o marxismo, que acabaria sendo abandonado nos começos do último pós-guerra, dando nascedouro à social democracia. Esta abdica simultaneamente da estatização da economia (aderindo portando à economia de mercado) e à utopia da sociedade sem classes. Com a adesão dos trabalhistas ingleses (remember Tony Blair), torna-se a bandeira da maioria dos partidos socialistas da Europa Ocidental.

Outra observação digna de destaque diz respeito ao fato de que a abordagem da luta política pela ótica esquerda/direita achar-se-ia, na Europa Ocidental, circunscrita praticamente à França.

Avança a hipótese de que a tendência consiste em que venham a consolidar-se e enfrentar-se --considerada a Comunidade Européia e não os países isoladamente-- três grandes correntes: liberais, socialistas e sociais-democratas. Nessa hipótese, a social democracia seria liderada pelo Partido Social Democrata Alemão, contando com a adesão, na França, do grupo chefiado por Chirac-Villepin, bem como uma parte dos democratas cristãos (na Alemanha, presumivelmente CSU -União cristã- social da Baviera). O PS Francês lideraria os socialistas remanescentes na Europa aos quais se agregaria a extrema-esquerda (presumivelmente os remanescentes do PC que têm conseguido atrair outros saudosistas do comunismo, sob a bandeira do que chamam de Esquerda Unida). A facção liberal seria integrada pelo New Labour (ingleses herdeiros de Blair no Partido Trabalhista), a parcela nuclear da democracia alemã, representada pela CDU (União Cristã Democrata, principal agremiação dessa corrente na Alemanha); pelo Partido Popular Europeu (no qual destaca o PP espanhol), o PSD português e os pós-comunistas poloneses. Cabe lembrar que sobrevivem Partidos Democratas Cristãos em muitos países europeus. No conjunto da obra, enfatiza o papel do PSD português, como representante da vertente liberal.



De minha parte, a suposição que acalentei era a de que a tendência na Europa seria a predominância do embate entre sociais democratas e liberais conservadores. Tenho em vista a popularidade, entre nós, alcançada pela divisão desse grupo em liberais conservadores e liberais sociais, devida ao saudoso José Guilherme Merquior (1941/1991). Na 3ª edição de O liberalismo contemporâneo (2007) registro o virtual desaparecimento, na Europa, do liberalismo social, sobretudo em decorrência da fusão do Partido Liberal inglês com o Partido Social Democrata (fins de 1988).

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A corrupção padrão FIFA. José Maurício de Carvalho



















A avaliação simplificadora resultado de pobres análises da realidade nacional fizeram surgir na mídia e nas redes sociais a ideia frágil de que os recursos gastos com os estádios da copa resolveriam, ou melhorariam substancialmente, a realidade da educação e da saúde pública brasileiras, caso nelas fossem aplicados os recursos gastos na construção dos estádios. Essa análise simplória levou a conclusão igualmente débil: a de que poderíamos construir inúmeros hospitais e escolas de grande qualidade com o dinheiro de meia dúzia de campos de futebol que foram reformados para a Copa do Mundo no Brasil. Generalizou-se a triste ideia de que devíamos ter construído escolas e hospitais padrão FIFA com esse dinheiro, mudando assim o padrão da educação e saúdes nacionais. Essas análises simplificadoras tem encanto e mistificam porque buscar a excelência é um ideal que a humanidade persegue (e deve mesmo perseguir). Portanto, fazer tudo excelente é o que se deve buscar, inclusive para os estádios de futebol. Além disso, é boa ideia gastar parte importante dos recursos nacionais com a saúde e educação do povo evitando desperdício, pois isso garantirá, se feito com persistência, uma vida melhor para as futuras gerações de brasileiros. No entanto, os outros aspectos da vida não podem ser esquecidos e a mudança de padrão social da sociedade depende de trabalho contínuo, do planejamento sistemático, e do esforço atual geração para a melhoria do futuro. Essa mudança para melhor não virá com poucos anos de trabalho e pouco empenho.
Apesar do início do texto sugerir o contrário, não vou tratar aqui do mal uso dos recursos públicos. Pretendo considerar o triste fato da semana que foi a descoberta de uma quadrilha internacional, com participação de brasileiros, envolvida com a venda ilegal de ingressos de cortesia da FIFA. Tomo então emprestada a expressão padrão FIFA, usada nas análises simplificadoras acima mencionadas, para referir a uma forma de corrupção que alcança pessoas de diferentes nacionalidades, formação, estrato social e uma entidade séria situada numa das sociedades mais organizadas do mundo, a Suíça.
O esquema de fraude organizado para ganhos ilegítimos que foi descoberto pela Polícia Federal brasileira mostra que mesmo em meio a organizações sérias e de boa tradição pode surgir a corrupção. De modo geral, o mal feito, ou o mal moral, pode surgir em qualquer sociedade, não importa quão bem organizada seja e quão possuidora seja dos melhores princípios e intenções. É que o sujeito humano precisa ser fiel aos ideais éticos para que as coisas corram bem e as sociedades, futebolísticas ou não, cumpram seu papel e objetivos. Pouca eficácia possuem bons princípios se forem associados a má conduta. Contudo, mesmo sendo possível escolher o mal devido à liberdade pessoal é preciso defender os princípios, pois é da sua difusão que se fortalece uma regra aceitável para todos. E essas regras permanecem válidas, mesmo se alguns não as praticam.
A formação pessoal para a excelência é uma das maiores debilidades de nosso tempo de massas, dizia Ortega y Gasset. Poucas instituições procuram e defendem, com entusiasmo, a excelência, pois isso implica numa espécie de compromisso moral com o esforço e com a vocação pessoal. Excelência moral está associada a esforço e responsabilidade. A fragilidade da liberdade não pode impedir de combater o mal. Pois, se não é possível uma sociedade perfeita nessa terra, quando não se opõem ao mal praticado, os membros de uma sociedade produzem um mal maior, um mal metafísico, isto é, favorecem o gosto de fazer o mal ou, ao menos, a crença de que ele pode ser praticado sem enormes prejuízos para toda a sociedade. Muitas vezes, a simples omissão contribui para que o mal se espalhe.
Precisamos, por isso, combater o mal em todas as suas formas. Ao debater os princípios morais e assumi-los fortalecemos o propósito de evitá-los. Ao punir os que se deixam levar pela tentação do mal feito evitamos a propagação desse mal. Ao enfrentar os males dos quais somos causa involuntária, como o melhorar uma sociedade injusta, ajudamos a construir um futuro menos injusto. Ao combater o males objetivos presentes na vida social damos passos decisivos, reais e concretos para melhorar o mundo.

A história de corrupção envolvendo dirigentes da FIFA e outros aproveitadores de plantão mostra que o mal moral surge onde está o homem e deve ser combatido nas consciências e instituições. O fato mostra que fica o homem desafiado a renovar o compromisso na excelência dos princípios pensados e nas ações praticadas todos os dias de sua existência. Não há vitórias definitivas nessa batalha da consciência e da organização social.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O Despertar da consciência. Selvino Antonio Malfatti




Se partirmos da constatação de que existimos, de imediato veremos a precariedade de nossa existência. Conseguiremos recuar até o instante de nossa consciência, de nossa interioridade que, iluminada, toma consciência de si? Estamos suspensos, sem ser e com desejo de mendigos de tê-lo. Quando ocorreu o acender de nossa consciência? Para a maioria tudo se esvanece no passado longínquo o qual não se consegue identificar. Caminhamos sobre o Nada, como o Mestre caminhava sobre as águas.
Alguns têm a felicidade ou não, de despertar cedo para a consciência.  Eu fui um deles devido à religiosidade dos pais. Nas aulas de Catecismo, uma das primeiras perguntas a nós feita e ainda presente, foi ponto de partida para a consciência.
- Para que vivemos na terra? E a resposta nos tirava do marasmo do nada:
- Para amar e servir a Deus e assim salvar nossa alma.
É para isto que existimos, nos dizia o Catecismo. Depois até poderá ter mudado, mas foi dado o choque do despertar e despertamos. Isto pode acontecer pela mística, filosofia, testemunho e outros.
O que nos consola como reduto último é a Esperança. Entre o Ser e o Nada, perigosamente suspenso sobre a Morte, o homem consegue viver porque se recusa cortar o fio da Esperança. Se este for rompido, cairemos no Nada.  Os acenos das Angústias, do Cuidado, da Náusea, na verdade, são apenas acenos do desespero, pois são formas de cortejar o Nada, de quem pendula entre a Morte.

A Luz pode ser a metáfora da vida, enquanto a Noite é a da Morte. O primeiro um ser-em-si e o segundo o não ser. Esta dualidade reflete-se na gnosiologia, na relação entre sujeito e objeto. No ato do conhecimento, o sujeito não só contempla o objeto, mas também o objetiva. A relação imediata que surge é uma bipolaridade de eu- isto. Neste primeiro contato sujeito-objeto, é estabelecida uma relação fria. O primeiro ignorando a concretude do segundo e este reduzindo ao mínimo sua concretude. Dessa relação surge uma metafísica materialista ou mesmo estruturalista. A relação sujeito-objeto nos leva a renunciar ao conhecimento da Vida, do Homem e do Espírito, pois há um sujeito diante de uma coisa e vice-versa. Será possível outra relação? É possível  desde que a relação que se estabeleça seja de natureza Eu-Tu , Nós-Ele, Eu-Vós. Esta relação muda a natureza, pois em vez de objetos, coisas, há relações de sujeitos intersubjetivos. Com essa relação é possível captar a vida, o espírito e o Homem concreto. O existente humano é o ser-em-si em trânsito, na busca do Ser-em-Si-para-Si. Então, talvez, a esperança substitua a culpa e liberte o ser humano.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O mundo da bola e a vida. José Maurício de Carvalho.













A notícia da semana no cenário esportivo nacional foi o centenário do Santos Futebol Clube completado no último dia 14 às 12 horas. E o centenário do Santos nos coloca diante da lembrança de um dos mais fantásticos times que já surgiu. O time mágico foi bicampeão das Américas, bicampeão do mundo e a base da seleção bicampeã do mundo. O Santos de Pelé, Gilmar, Pepe, Edu e de tantos outros artistas da bola, jogava brincando, fazia o jogo parecer fácil com sua rotina de vitórias. Ver aquele time jogar lançava o expectador numa dimensão lúdica, onde viver é o exercício da mais perfeita prática esportiva com a completa entrega ao jogo. E as torcidas de todo mundo corriam para ver o time do Santos jogar.
Naquele tempo em que o Santos vencia em qualquer parte do mundo e as pessoas aguardavam ansiosas o dia de vê-lo jogar, as torcidas não se matavam na expressão mais completa da animalidade humana. Os embates esportivos não levam à morte porque a vida vivida segundo seus impulsos e desafios profundos não é expressão da agressividade e destruição. Em contraste com a alegria da comemoração do centenário do Santos ainda perturba e assusta o recente confronto entre as torcidas do Palmeiras e do Corinthians que resultou na morte de dois palmerenses. Neste outro jogo da brutalidade não há vencedores, todos perdem, não importa o lado dos mortos ou feridos. Ano passado conflitos parecidos resultaram na morte de um torcedor corintiano, nova derrota da vida.  Se algo merece ser celebrado neste centenário do Santos é como o seu futebol mágico tornou o time admirado entre todas as torcidas. Não havia nos anos sessenta torcedor que não fosse encantado pelo Santos de Pelé. O time maravilhou o mundo com o futebol bem jogado, com um futebol bonito de ver.
A vida possui uma a dimensão esportiva que o jogo de bola representa. Viver é dedicar-se integralmente a algo, a um projeto de existência com a mesma gana e dedicação com que o atleta deve jogar. Há regras, há objetivos, mas a vida mesmo só é interessante quando regras e objetivos são cumpridos com entrega. Com a mesma alegria que os treinadores cobram de seus atletas: jogar com alegria, com dedicação completa, do mesmo modo que se deve viver.

O Santos de Pelé protagonizou tempos mágicos de vitórias e de um futebol lindo. Algo que hoje vemos no Barcelona do argentino Leonel Messi. E o que faz o time catalão jogar tão bem e o argentino destacar, superando-se de modo cada vez mais extraordinário? A resposta é a dedicação completa do grupo de atletas que se entrega de forma apaixonada ao que faz. Não há registro de jogadores do Barça em baladas, ninguém está acima do peso, nem é flagrado com prostitutas, bandidos ou traficantes. É um time focado em sua missão, vencer no esporte e na vida. Jogam duas vezes por semana, ninguém fica lesionado ou tem cansaço muscular. O Barça é tão extraordinário em campo quanto fora dele quando treina e se prepara 24 horas para jogar, sete dias por semana.  Entregar-se apaixonado ao que se faz tornou Pelé o atleta do século, e é este o segredo de Messi que as revistas esportivas explicam com altos salários, talento do treinador, treinamentos físicos e táticos. Tudo isto somente tem o efeito que tem porque ali há alguém completamente entregue à sua missão de jogar bola, como somos desafiados a viver, com o mesmo entusiasmo e dedicação. É esta entrega que temos que ter, não importa se nossa missão é fazer pão, varrer rua, levantar pontes, administrar empresa, cuidar da saúde ou ensinar. Não importa o ofício, não importa o que se busca, não importa o que temos que fazer, devemos fazê-lo de forma completa. Viva o Santos de Pelé que é, na lembrança de quem o viu jogar, um exemplo do que é viver de forma apaixonada pelo que se faz e no respeito às regras do jogo e da vida.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

QUEM É MELHOR: FELIPÃO OU SCHUCK? Selvino Antonio Malfatti.














Dois eventos ocorreram no Brasil concomitantes atualmente. O primeiro é o campeonato mundial de futebol realizado no Brasil e o segundo o lançamento de um satélite pelo Brasil na Rússia. Cada um deles tem um responsável. O Primeiro, Luiz Felipe Scolari, comanda uma equipe de jogadores de futebol que vai enfrentando um a um os adversários para conseguir chegar ao topo e tornar-se campeão. O segundo, Nelson Jorge Schuch, gerencia uma equipe de pesquisadores do INPE e da UFSM e já chegou ao objetivo: colocar em órbita terrestre um satélite.
O primeiro foi contemplado com bilhões de verbas nacionais e internacionais, bem como construções de faraônicos estádios nas principais capitais da federação, com funcionários regiamente remunerados. O segundo possui um modesto laboratório do INPE, na região central do Rio Grande do sul, Santa Maria, com funcionários e bolsistas pagos em salários. Na estréia do jogo do Brasil, no dia de 12 de junho, na Arena Corinthians, Scolari recebia atenção de milhões de pessoas tanto do Brasil como do exterior. No lançamento do satélite, na base espacial Yasny, na Rússia, estavam presentes duas dezenas de pesquisadores, geralmente coordenadores de projetos para lançamento de satélites.
Estabelecer um paralelo entre os feitos de Felipão e Schuch parece coisa de maluco, de samba de crioulo doido, pois são acontecimentos de natureza totalmente diversa. O primeiro é lúdico e o segundo científico. No entanto, como são contemporâneos é possível verificar a receptividade e repercussões no seio social de um e de outro, bem como projetar as conseqüências de um e de outro. 
Quanto à liderança, Felipão é essencialmente um futebolista que se transformou em treinador da equipe brasileira para o mundial de 2014.  Antes treinou o Palmeiras, em cujo time aprendeu as manhas e artimanhas do futebol e seus campeonatos. Principalmente as artimanhas, as entrelinhas e o jeitinho. Claro, tem um curriculum futebolístico invejável: foi campeão da seleção brasileira em 2002, da Copa do Mundo, Coreia do Sul, Libertadores da América. Em 2013 foi campeão da Copa das Confederações. Tudo isso, evidentemente, o qualifica.
Por sua vez, Schuch vive uma monótona vida acadêmica. É pesquisador do CNPq e professor da UFSM, desenvolve dezenas de linhas de pesquisa e trabalha com várias instituições. Sua maior conquista foi ter construído, junto com alunos da UFSM e do pesquisador Otávio Santos Cupertino, do Inpe de São José dos Campos, um satélite, já lançado ao espaço em 19 de junho deste. Também está qualificado devidamente para levar adiante projetos de pesquisa.
O que têm em comum?  Ambos são gaúchos, mas isto é irrelevante.
Schuch já alcançou seu objetivo, o satélite já está em órbita. Digamos que Socari também o faça, isto é, que o Brasil arremate a taça. Quais as conseqüências? Scolari proporcionará uma alegria imensa a milhões de brasileiros e admiração, senão inveja, dos demais países. E os estádios, como esfinges, continuarão a ostentar a grandiosidade do futebol brasileiro. Scolari será recebido em toda parte como herói, ovacionado e, por tabela, muito bem pago.  
Schuch, constará em atas e relatórios científicos como o primeiro brasileiro a conseguir tal feito. E continuará recebendo remuneração de professor. O satélite, porém, poderá prever tempestades, enchentes, secas prolongadas ou queimadas. Localizar cidades, ruas e pontos distantes e desconhecidos. A área da comunicação receberá mais impulsos, será mais rápida, segura e precisa. O Gps, cujo gerenciamento está nos Estados Unidos, poderá vir para o Brasil, inclusive fornecer para outros países, passando a ser fonte de divisas. Melhorará a vida de milhões de brasileiros.
O satélite não é grande, por isso mesmo chamado de NanoSatC-BR1, mas sua importância é inestimável para o conhecimento do espaço e inserir o Brasil no patamar espacial e outras vantagens. 
Quem é melhor? Scolari ou Schuch?
A propósito, lembro-me da Carta do imperador Vespasiano a seu filho Tito sobre a conclusão de Coliseu:

“Alguns senadores o criticam, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis: numa privada, num banco de escola ou num estádio? Num estádio, é claro.”

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