sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Kierkegaard e o desafio de ser o que se é. José Maurício de Carvalho.















Kierkegaard foi um pensador dinamarquês que viveu quase toda a vida na primeira metade do século XIX. Nasceu em 1813 e morreu, ainda jovem, em 1855. Até cerca de exatos cem anos atrás, em 1914, nenhum livro de filosofia mencionava o pensador, dizia-nos Karl Jaspers no ensaio que lhe dedicou, em 1955. E o que ocorreu desde então? O quadro mudou radicalmente e ele passou não só a ser citado nos manuais de Filosofia, mas a ser apresentado como anunciador de um mundo novo, de um mundo que sucedia as teses otimistas e progressistas do idealismo alemão, notadamente de Georg Hegel.
Uma leitura inicial dos textos do filósofo nos coloca em contato com uma reflexão crítica sobre o cristianismo e seu significado na história dos homens. E para onde conduziu sua reflexão crítica do cristianismo? Para um desencanto com as interpretações religiosas do cristianismo feitas pelas Igrejas. O motivo da insatisfação é a distância que a doutrina está do homem concreto. Ele rejeita uma interpretação do cristianismo que pouco tem a dizer para quem está vivendo a vida rotineira com suas alegrias e dramas. Sim, porque a vida é um misto de drama e alegria, com peso diferente para homens e gerações, para uns com mais alegria, para outros com mais drama. Tal é o peso da história.
E por que o cristianismo anunciado lhe parecia distante da experiência do homem concreto? Por que focava o principal de sua atenção no futuro glorioso da humanidade, resultado da leitura romântica da história cultural da Europa. No entanto, essa visão deixava de lado a dor, a fome, as revoluções, as guerras, as doenças, o abandono, o sofrimento, enfim tudo o que parece estar mais próximo da experiência real de cada pessoa. E observe que o propósito de Kierkegaard com sua crítica não é propor uma nova Igreja, ou fazer uma reforma nas que existiam, menos ainda sugerir um programa político ou plano de governo. Kierkegaard estava longe de todos esses propósitos, saboreando a solidão existencial e sem vivenciar relações humanas muito íntimas. A imagem do juízo final, em que cada homem está entre tanta gente, mas se mantêm absolutamente só diante de Deus é a alegoria que ele usa para dizer de como vive e de que tipo de resposta procura. Ele fala para o homem, enquanto capaz de realizar a experiência da solidão verdadeira que é própria de nossa vida. É para essa solidão que ele busca resposta. E resposta para que? Para o que deveria verdadeiramente nos ocupar quando tomamos consciência de que nossa vida é única e ninguém pode vivê-la por nós.
Deixando de lado as preocupações religiosas do pensador e centrando a atenção no que está na raiz de suas preocupações filosóficas é que nos deparamos com questão que, ainda hoje, parece urgente e instigante. Se estamos verdadeiramente sós na experiência da existência, essa realidade nos coloca diante de uma questão a que a meditação diária nos deveria levar: o que significa ser eu mesmo? A simples colocação dessa pergunta torna a vida humana diferente e ela parece urgente e necessária ainda em nossos dias. A reflexão nos coloca diante do fato de que não teremos resposta para essa pergunta radical se esperamos que nossa vida seja conduzida de fora, se as decisões que temos que tomar tiverem que ser feitas por outrem. A vida pensada por Kierkegaard é aquela que cada um de nós experimenta na sinceridade íntima de ser o que se é.

Essa jornada interior de escolhas só pode ser guiada pela riqueza espiritual que conseguirmos reunir em nossa existência, as experiências de belo e bom que puderem orientar a vida, que para o jovem dinamarquês se encontrava na tradição cultural do ocidente.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

AS DUAS MENTIRAS DA POLÍTICA. Selvino Antonio Malfatti.





A propósito da reportagem da Veja “Alguém Vai Mentir para Você hoje” gostaria de trazer alguns comentários: a mentira na política. Ela tem alguns teorizadores, mas penso que os mais importantes sejam Maquiavel e Hobbes. Tanto um como outro partem de pressupostos, e como tal preconceituosos, sobre a política. O primeiro, Maquiavel, acha que em política tudo se resume em conveniência e Hobbes em interesse, o que no fundo os dois conceitos se encontram. Em Maquiavel o homem é mau e por isso precisa ser governado autoritariamente. Em Hobbes o Estado é bom e por isso deve governar absolutamente. O primeiro tem como leitmotiv a conveniência do governante, o segundo o interesse do Estado. Por eles, o político pode mentir à vontade, sem se preocupar com a ética. Vejamos como se expressam:
Em Maquiavel, encontram-se três princípios fundamentais, ético-morais, que regem as relações políticas:
1º Indiferença moral. O governo e o governante devem estar acima do povo e das questões morais. O fim sempre é o bem do Estado. E, nesse caso, os fins justificam os meios. Não há um limite ou uma esfera intocável ou, até mesmo, um conjunto de valores éticos consensuais. O governante está autorizado a fazer tudo o que achar necessário para defender o Estado. Ele não necessita ser justo, sóbrio, moderado, bondoso ou possuir outras virtudes, basta parecer possuí-las.
2º A natureza humana é essencialmente egoísta. Os indivíduos somente são bons por conveniência. O natural é a agressão mútua. Por isso, há necessidade de um governante que os defenda. Todos sempre querem mais. Ninguém se contenta com o que tem. O bom governante não deve reprimir esse desejo inato, mas promovê-lo. É nisso que está o sucesso de seu governo. Se todos progredirem o que for possível, tanto mais aceito será o governante. Além disso, em decorrência do desejo de querer sempre mais, todos almejam viver e ter propriedades. O governante deverá promover esse desejo e nunca se apossar de propriedades dos súditos. É preferível que o governante mate, mas não roube. As promessas somente fazem sentido enquanto durar a razão pela qual foram feitas, isto é, a conveniência de mantê-las ou não.
3º Legislador onipotente. O governante é o legislador, função esta que deve ser exercida por uma única pessoa, que, de preferência, faça de imediato todas as leis, e que essas sejam boas, para não haver necessidade de futuras reformas. Uma vez feitas as leis, elas devem ser obedecidas. Por meio das leis, o legislador ou governante fará a sociedade. Essa é a imagem de seu governante. Para tanto, deve manter uma força militar para ter poder efetivo e manter o povo submisso.
Por isso, para Maquiavel, as leis são meras criações da vontade de alguém. Não há, segundo ele, nenhuma relação com a ordem universal, vontade divina ou expressão da natureza. Na introdução dos Comentários, diz que as leis não passam de sentenças dos jurisconsultos. Para ele, portanto, as leis são de origem moral, isto é, dos costumes de uma sociedade localizada. São, por isso, meras convenções ou instrumentos de que os governantes podem lançar mão para poderem se manter no poder. As leis são feitas pelo governante para que o povo as obedeça e, assim, seja feliz e livre.

Conforme Hobbes, deve haver um acordo artificial, convencional, um pacto entre os homens para surgir a sociedade e a autoridade? Porque os homens estão sempre envolvidos numa competição pela honra e dignidade. Disso decorre a inveja e o ódio, e destes a guerra; entre os irracionais não há distinção entre o bem comum e o individual. O homem, ao contrário, só sente satisfação quando se compara com os demais, e percebe que os superou. Entre os brutos, por lhes faltar a razão, ninguém se julga melhor que o outro, enquanto que no homem há um desejo inato de uns se julgarem mais sábios que os outros, uns mais capacitados que os outros. Cada um, portanto, quer exercer o mando político. Os animais expressam pelos sinais o que de fato vai pelo seu interior. O homem, nem sempre manifesta a realidade, muitas vezes dissimulando as verdadeiras intenções. Nas criaturas irracionais basta a satisfação para que não se ofendam. O homem, ao invés, quanto mais satisfeito estiver, maior será sua ganância, e mais disposto estará para injuriar ou danificar os demais. Sendo assim, a instituição da sociedade e governo, entre os homens deve dar-se através da delegação de toda a força e poder a um só homem, ou a uma assembléia de homens, e que reduza as diversas vontades a uma só vontade. Destas teorias decorrem as duas mentiras em política: a primeira que o homem é mau e por isso precisa governá-los com mão de ferro. É a DITADURA. A segundo que o Estado é bom e por isso deve impor-se _a sociedade por todos os meios. É o TOTALITARISMO. 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Alimentar a confiança e a esperança. José Maurício de Carvalho





Nos final dos anos cinquenta, o filósofo alemão Karl Jaspers fez uma conferência radiofônica intitulada A bomba atômica e o futuro do homem. O texto foi publicado na Alemanha em 1958 e traduzido, no Brasil pela Agir, em 1960. Não foi a única experiência do  filósofo que fez várias conferências transmitidas pelo rádio, colocando o público alemão em contato com os mais sérios problemas do seu tempo. É admirável reconhecer os erros e meditar sobre o próprio destino. A meditação não redime os erros cometidos, mas fortalece a responsabilidade e os futuros compromissos. A outra iniciativa no gênero deu origem a uma coletânea de doze conferências publicada em Lisboa, pela Guimarães, 1987 com o título Iniciação Filosófica.
No texto A bomba atômica e o futuro do homem Jaspers examinou um tema que provocava enorme angústia na sua geração, o risco de uma guerra entre potências que culminasse na completa destruição da vida na terra. Como forma de erradicar esse risco concebeu uma política de controle recíproco entre potências que levasse a desativação das bombas atômicas. Na época apenas Rússia, Estados Unidos e Inglaterra detinham a tecnologia para produzir a bomba. Ele postulava ainda o reconhecimento internacional dos tratados de paz, o ordenamento da ideia de direito dos povos, a liberdade de comunicação, tomar a violação dos direitos humanos, em qualquer lugar, como ofensa a todos os Estados e a superação da soberania absoluta dos Estados.
O mundo mudou muito desde os anos sessenta e as questões políticas apresentadas na famosa conferência já não fazem sentido. No entanto, o risco atômico ainda existe se artefatos nucleares caírem nas mãos de grupos terroristas ou de fundamentalistas, se pequenas guerras regionais se ampliarem com conflitos maiores envolvendo grandes Estados ou se for ameaçado algum Estado que ainda vive sob controle de grupos totalitários.
As angústias de hoje estão centradas na violência urbana, no poder das máfias das drogas, na falta de desenvolvimento de muitas sociedades, no fundamentalismo religioso e terrorismo fanático, na rápida deterioração das condições ambientais. No entanto, se mudaram os riscos de nossa geração, a raiz dos males de ontem apontada pelo filósofo "na violência, falta de escrúpulos, coragem cega para a luta, e paralelamente, o comodismo, indiferença, descaso e a falta de preocupação previdente" (p. 32) parece ainda muito viva. Assim, se os compromissos éticos não virão de forma impositiva, somente a meditação sobre o futuro do homem pelas diferentes instituições sociais poderão mudar, para melhor, o padrão social. Se também parece inútil acreditar que o homem possa alcançar pela meditação ética um futuro de paz definitiva, talvez o caminho que reste seja ainda aquele que o filósofo vislumbrava com os olhos cheios de admiração no velho Emmanuel Kant: "viver em nosso mundo pela razão, não somente pelo entendimento, mas sim através da esclarecedora razão, e com ela dirigir nossos pensamentos, impulsos, esforços, a começar pelas atividades quotidianas, na superação da catástrofe ameaçadora" (p. 48).

 A linda reflexão de Jaspers sobre as angústias de sua geração encontrarão lugar e sentido em nossos dias se nos dermos conta da necessidade de pensar filosoficamente para não perder o rumo da vida nas rotinas e nas trivialidades quotidianas. Só superando as insinceridades e subterfúgios com que nos enganamos e aumentando o sentido da responsabilidade por nossos atos e escolhas, podemos assegurar confiança e esperança no futuro do homem.

sábado, 4 de janeiro de 2014

LAZER – TEMPO DE DIGNIDADE. Selvino Antonio Malfatti

























“Costumes de São Paulo”, Rugendas.


Ano letivo encerrado, Natal e Ano Novo ficaram para trás, então, está na hora de pensar no lazer.

Desde as primeiras teorizações, como de Aristóteles, o lazer sempre estava relacionado ao trabalho ou seu oposto. Dizia ele que trabalhamos para poder desfrutar do ócio. Até o advento da legislação trabalhista, na prática, somente a classe de pessoas ricas podiam gozar deste privilégio, pois suas posses lhes permitiam dar-se ao luxo de não trabalhar para sobreviver. Havia também os que exerciam atividades intelectuais, como magistrados, advogados, políticos médicos e professores, religiosos e outros que reservavam um tempo para o descanso. Mas quem dependia de atividades físicas dificilmente podia gozar deste privilégio, mormente quando iniciou o período industrial. Hoje, com as conquistas sociais, criou-se artificialmente ou legalmente um tempo livre de trabalho, conhecido como férias remuneradas ou descanso remunerado.
As formas de lazer são as mais variadas. Podem ser físicas, artísticas ou intelectuais. Cada categoria destas também varia no tempo e espaço. Entre as físicas podemos citar futebol, corridas, canoagem. Entre as artísticas pode-se mencionar teatro, escultura, pintura entre pinturas, leituras e como intelectuais incluem-se viagens de conhecimento, palestras ou congressos. Parta merecer o epíteto de “lazer” não pode haver retorno material ou pecuniário, embora, uma mesma atividade para uns pode ser lazer e para outros, trabalho. Quem ministra uma palestra está trabalhando e quem assiste pode estar fazendo lazer.
Por isso, pode-se dizer que lazer seja um conjunto de ocupações que os indivíduos entregam-se espontaneamente com o intuito de descansar, recrear-se, entreter-se ou para buscar formação ou informação. O que caracteriza o lazer é a vontade livre de entregar-se a uma atividade, sem objetivo de remuneração ou obrigatoriedade. Como conseqüência o trabalho profissional ou trabalho suplementar se opõem ao lazer, da mesma forma atividades formais, como a educação formal, aquela que se é obrigado a fazer como aulas, provas, temas e outras. Uma atividade doméstica, por exemplo, para uma empregada não é lazer, mas para um membro da família que resolve fazer por que gosta ou quer divertir-se pode ser lazer. Um sacerdote que oficia uma missa é lazer, mas alguém que decide ir à missa para preencher um tempo vago, torna-se lazer. Para que seja identificado como lazer há de preencher os quesitos: tempo liberado (aquele que sobrou depois das obrigações profissionais), tempo livre (tempo que sobra após cumprir todo tipo de obrigações), tempo inocupado (tempo dos que não têm obrigações profissionais, como os aposentados).
Mas a pergunta que insiste em ter uma resposta é a seguinte: por que tanto esforço para conquistar um tempo para o lazer? Para que trabalhar tanto para ter disponível um tempo para não trabalhar? No fundo é a busca da essencialidade do ser humano, qual seja, sua dignidade. Esta significa um valor que não pode ser substituído por outro. O preço de algo, por exemplo, pode ser trocado por outro, porém, a dignidade não pode ser permutada por nenhum equivalente. A dignidade é única e sem igual. Isto por que não se submete a nenhuma lei que não seja instituída por ela mesma.

Na tratativa de configurar o lazer vimos que ele se referia ao poder fazer o que se quer, sem obrigação. Lazer ou ócio é isto: a essência do ser humano que é sua liberdade que lhe dá dignidade. Disso se depreende a máxima de Cícero: “otium cum dignitate.”

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Ano Novo. José Maurício de Carvalho.





A contagem do tempo em anos é a forma humana de melhor identificar o que passou e colocar os fatos na ordem em que ocorreram. É mais simples localizar e ordenar os acontecimentos dessa maneira, situando-os nos séculos e lugares do mundo. Contudo, a celebração de cada novo ano no calendário solar mostra que vivemos no tempo com os olhos e a esperança no futuro. Já houve época em que a esperança era alimentada por ilusões. Hoje estamos mais maduros, não podemos nos iludir de que esperança se separe do compromisso de fazer boas escolhas e realizar com qualidade nossos trabalhos. Quando avaliamos que a vida é produto das escolhas, temos que assumir com responsabilidade a criação do futuro. O que vem não é mera continuidade ou repetição do passado.
Se a vida um que fazer contínuo, isto é, proceder escolhas todo tempo em meio à insegurança desse processo, então viver é olhar o horizonte. Olhar o futuro a partir de qual ponto? Do presente pessoal e do da sociedade. Escolhe-se, especialmente, pelo que se projeta além desse presente, pelo que dá sentido a ele, pelo que lhe enche de esperança. Entretanto, se o futuro não é continuação do já vivido, não se pode sonhá-lo sem considerar nossa história, sem o impacto e a incorporação do passado.
O ano novo virá para nós com novas realizações, novas pessoas, novas tecnologias, novos conhecimentos, novas criações, novas crenças, enfim, muitas coisas novas. Mas esse mundo antevisto nos sonhos de esperança não é produto do acaso, ele é criação do homem iluminado por um projeto. E que mundo é esse a surgir na esperança de hoje? É um mundo capaz de vencer a violência das cidades, de assegurar dignidade a crescente número de pessoas, de superar guerras e revoluções como solução para as diferenças políticas. Violência que cresce quando queremos uma vida mais rápida do que ela pode ser experimentada, quando aspiramos mais coisas do que somos capazes de adquirir e o mundo de fornecer, quando perdemos o afeto nas relações e o sentido da dignidade no trato com as pessoas. O presente vivido na pressa, dirigida para o consumo ansioso e sem obrigação da excelência numa vida autenticamente nossa, é tempo de violência, de corrupção, de drogas, de insatisfação e de gozo irresponsável.
Não quero apenas desejar um feliz ano novo, é necessário pedir que todos o construam mais próximo de nossa esperança, realizando responsavelmente seu trabalho, vivendo relações pessoais mais iluminadas pela amizade e benevolência, descobrindo o significado particular e o sentido da própria vida.
E se reconheço que a vida que me anima é semelhante, mas não igual a dos animais que diariamente estão à minha volta, se essa diferença dos outros seres vivos nasce da fé e esperança em Deus, não importa o nome de Deus ou a forma como Ele seja cultuado, então a obrigação de renovar o mundo, aquele compromisso mencionado no parágrafo anterior, ganha uma outra justificativa. Nessa fé nasce um pacto não só com a humanidade presente em cada homem, mas com Deus que espera nossa colaboração para fazer o sol nascer, todos os dias, sobre um mundo melhor. Então toda história da humanidade, que não está além dos fenômenos experimentados, torna-se transfigurada e iluminada pela esperança capaz de vencer a insegurança, a ruína, a angústia e a morte.

Façamos um 2014 feliz, pois não se justifica a esperança que não nasce do reconhecimento da dignidade humana e da responsabilidade pessoal pela construção de um futuro melhor. Pois esperança não é otimismo ou ingenuidade, esperança é responsabilidade, é esforço consciente para mudar o futuro, dedicação ao que nos distingue dos outros entes.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

OS DOIS NATAIS. Selvino Antonio Malfatti.



Aproxima-se o Natal e com ele as confrontações entre o Natal originário e o atual. Uns lembram que está esquecendo-se do aniversariante cujo nascimento foi marcado pela extrema pobreza. Outros se preocupam para que tudo saia de acordo com o planejado com mensagens de Boas Festas, ceias, jantares, presentes.
Realmente o Messias nasceu numa gruta que servia de estrebaria, sem pompa e no anonimato. Certamente Deus poderia ter mudado a cabeça de Augusto para não fazer o recenseamento justamente na data do nascimento de seu Filho, poderia ter evitado que Herodes mandasse matar todas as crianças da Judeia, que a Sagrada Família tivesse que fugir para o Egito e assim por diante. Por que tudo isso aconteceu? Certamente não é fácil a resposta.
Embora pessoalmente partidário do Natal originário, quero me fixar um pouco sobre as comemorações, festas e presentes que ocupam a maior parte do Natal nos dias de hoje para tentar dar uma explicação sobre o fenômeno.
A partir do advento do Salvador Jesus Cristo a história da humanidade tomou outros rumos. Os primeiros momentos do cristianismo foram estritamente religiosos. Os valores antigos foram pouco a pouco sendo substituídos pelos novos, embora a carcaça pagã tenha permanecido. Foi semelhante ao processo de transformação da madeira em pedra ou a substituição da matéria orgânica em sílica. Num segundo momento os valores cristãos assumiram um caráter político e passaram a ser referência de poder. Foi neste momento que se disseminaram em escala universal. Passaram a fazer parte da cultura de todos os povos. Os principais deles: a valorização do Homem (e da mulher) na sua dignidade, liberdade, igualdade e fraternidade e a justiça social com suas exigências. Em terceiro, no estágio que nos encontramos, os valores cristãos estão tomando vida autônoma. Desprenderam-se do cristianismo como religião e assumiram uma postura laica. Existe na atualidade uma cultura de origem cristã, no entanto, não se auto-identifica com a religião. Ela impregna toda nossa sociedade. É nisso que reside a tensão: é cristão, mas não se identifica com a religião cristã. Por isso mesmo, há as comemorações com festas, troca de presentes, sem nexo com a religião. Estas práticas não fazem parte do religioso-cristão, mas de uma cultura cristã. Por causa disso ocorrem dois natais: o religioso cristão e o cultural cristão. O primeiro é identificado com a pobreza e o segundo como falsificado. No entanto, não parece que haja contradição entre o Natal cristão e o Natal cultural.
O problema não está no que vai para a mesa, nos presentes, nas festas de comemorações, mas no sentido daquilo que se faz. Quando o sentido originário foi desviado, temos outra realidade. Isto não significa que é ruim ou mau. Apenas um pluralismo cultural. O próprio Cristo incentivava o pluralismo. Não condenou, mas aceitou que Madalena quebrasse um alabastro de perfume caríssimo para ungir Seus cabelos. Ia cear com pessoas de posses e mesmo pecadoras. Ele mesmo na última ceia comemorou a Páscoa numa sala emprestada de uma arquitetura divinamente bela. Concordou que o rico José de Arimateia lhe emprestasse um túmulo. Apreciava descansar na casa de Maria e Lázaro que não eram pobres. Contudo, condenava: a ganância, o roubo, a riqueza conseguida fraudulentamente. Por quê? Por que se desviaram do sentido que deveriam ter. Fica claro, então, que o Natal cristão e o cultural não são contraditórios, mas diferentes.
Paradoxalmente muitas vezes estas críticas ao Natal cultural provêm até de falsos pobres. Condenam aquilo que coletivamente têm em abundância: enormes prédios, propriedades, comida farta, segurança e total despreocupação com o dia de amanhã. Embora individualmente possam ter pouco, coletivamente têm muito, pois nada lhes falta. Pobreza é não ter nem individualmente e nem em conjunto. E isto pode acontecer por renúncia voluntária (como Francisco) ou por necessidade como os excluídos. Ambos podem comemorar o sentido do Natal, mas para os segundos é infinitamente mais difícil, senão impossível. Diz um ditado popular: quando a pobreza bate à porta, a alegria sai pela janela.
Por isso, não é por comemorar com festas e presentes - ou sem eles - que o Natal é bem ou mal comemorado, mas quando se desvirtua do sentido, isto é, ser cristão, religioso ou cultural.  A Encíclica de exortação de Francisco, Evangelii Gaudium, vai nesse sentido. Os bens são maus quando eles submetem o homem, exigindo adoração como Bezerro de Ouro da Bíblia. Os bens devem estar a serviço do homem e não vice-versa, diz Francisco.



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Nelson Mandela, gratidão. José Maurício de Carvalho





Lembrar de Mandela com objetividade e equilíbrio agora que o perdemos não é fácil. É difícil separar o homem de gestos serenos do herói nacional dos sul-africanos disposto a morrer pela causa que abraçou. O que dizer,com verdade, de quem seu povo reconhece como pai da pátria?Como separar o homem do Chefe de Estado admirado em todo o mundo, o ex – Presidente que mereceu reconhecimento dos principais líderes mundiais no dia de sua morte? Como se referir ao homem cordial e de sorriso gentil cuja imagem delicada esteve em todos os televisores do mundo?O que nos deixa Mandela, agora que já não estamos fisicamente com ele? O que primeiramente aparece como seu legado é uma democracia multi-racial a enfeitar um dos mais belos cenários do continente africano. Uma democracia que Mandela fez brotar de um regime desigual e injusto. A África do Sul era antes de sua ação política o país do apartaheid, o regime político e social que separava brancos e negros. Esse país onde os homens foram separados primeiro pelo ódio e preconceito e depois pelo arame farpado e pelos muros foi a matéria-prima que ele teve para criar uma democracia de homens livres e iguais perante a lei e o Estado.
E o que mais dizer da circunstância à qual esteve associada sua vida? Nelson Mandela nasceu quando a Belle Époque dava os últimos respiros e o mundo mergulhava nas piores guerras de sua história. Seus dias nesse planeta foram os de revoluções cruéis como a espanhola e soviética. Lições de crueldade e intolerância não lhe faltaram. Um mundo que passou por uma crise econômica sem comparação, crise que destruiu milhões de vida, que mudou o perfil das famílias, que transformou a angústia na categoria com a qual seus intelectuais pensaram a vida humana e seu destino. Um triste tempo de sofrimento, o tempo da Guerra Fria e do medo da bomba atômica arrasar o planeta. Tempo de homens divididos. Esse tempo foi o período das massas. Uma ocasião em que democracia tornou-se sinônimo de mediocridade, onde o ideal divulgado em todo o planeta era ser igual a todo mundo. Um tempo em que a massa assumiu a liderança da história e como sua protagonista alimentou os totalitarismos fascista, nazista e soviético. Esse tempo de mudanças sociais foi o palco da busca ansiosa pelo gozo rápido que termina, inevitavelmente, no vazio e na lama existencial. Esse tempo fez da política atividade suspeita e de seus líderes protagonistas da corrupção. Esse tempo foi também matéria-prima para a ação política de Mandela.
Nesse tempo de massas e de consumismo ansioso, Mandela viveu trajetória singular. Nascido em 1918, na aldeia de Mvezo,  na Província do Cabo Leste, foi educado na fé cristã da Igreja Metodista. Foi nela que aprendeu do cristianismo a dignidade de todos os homens, aprendizado que ele tornou concreto no curso de Direito. Advogado de formação tornou-se militante político na juventude quando foi seduzido pela violência como estratégia política fundando o MK (UmkhontoweSizwe), o braço armado da ANC. Preso por 27 anos, obrigado a trabalhos forçados, isolado da sociedade e quase sem direito a visitas, superou o ódio íntimo e a violência nas relações humanas. Tornou-se admirado pelos carcereiros que, depois de algum tempo, não mais lhe punham as correntes próprias do seu regime prisional. Vencendo em si o ódio e a violência habilitou-se a lutar pela aproximação entre os homens de seu país, pois é no íntimo que se vencem os ódios e é o coração o campo de batalha mais difícil de ser enfrentado. Foi superando em si o que desumaniza que ele conseguiu unir o nobre ideal da democracia à estratégia humana mais eficiente, pois nenhuma boa causa é verdadeiramente boa se tangencia o respeito e a dignidade humanos.

E como despedir desse homem agora que ele se foi? Dizendo-lhe singelamente nossa gratidão pelo que considero seu maior legado: a superação do ódio e da violência. Não porque o mistificamos agora que morreu ou porque hoje falseamos ou diminuímos seus erros, mas porque reconhecemos que Mandela se fez admirável ao vencer em si o ódio e a desconfiança, porque ele conseguiu derrotar o pior inimigo que nós temos. E qual é esse inimigo? Aquele que, no íntimo, leva à indignidade, semeia a violência e colhe a miséria existencial. Grato somos Mandela não porque desconhecemos seus limites humanos, mas porque vimos que você fez tudo o que podia para superar suas limitações e nos legar o que de melhor um homem pode alcançar ao vencer circunstância tão difícil e nos deixar a esperança de um mundo melhor: uma democracia racial construída no esforço íntimo de superação de nossos limites.

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